
Nossa investigação nos leva até um hotel em uma pequena cidade da Inglaterra.
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A
Este podcast é apoiado por adesões do Reino Unido.
B
e Doug.
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B
Teve uma coisa que aconteceu quando eu ainda estava em Cabo Verde que eu deixei pra contar no último episódio desse podcast. E bom, agora essa hora chegou. Como Cabo Verde ocupa uma posição geográfica muito estratégica, bem no meio do caminho entre a América do Sul e a Europa, muitos barcos acabam passando por lá pra descansar ou fazer algum conserto, como foi o caso do Rich Harvest. O movimento é tão intenso que quando eu tava em uma lancha perto da costa, eu fiquei com medo de a gente ser atropelado por um navio gigante que parecia estar vindo bem na nossa direção. Tô torcendo aqui por você que tá na direção pra conseguir desviar a tempo do nosso amigo ali.
C
A comunicação, a comunicação sempre.
B
É, bom, é o que dizem, né? Mas aí acidentes acontecem. Bom, o que eu tinha pra contar obviamente não é que eu fui atropelada. Esse aí que tá falando comigo é o Gildo, um dos policiais responsáveis por fiscalizar os barcos que passam por Cabo Verde. Como a gente sabe, estar bem no meio do caminho entre a América do Sul e a Europa significa também estar bem no meio da rota do tráfico. E eu queria entender melhor como é o trabalho desses policiais que tentam identificar as embarcações que podem estar transportando drogas. E aí vocês fazem o que exatamente? Vocês param e falam com os barcos?
C
Eu pergunto
B
se o Gildo lembra do caso do Rich Harvest e a resposta dele me deixa surpresa. Você estava no barco no dia que a droga foi apreendida? Ele aponta para os outros dois policiais que estão na lancha dizendo que os três estavam lá no dia que mais de uma tonelada de cocaína foi encontrada no veleiro. E foi a maior apreensão de que você já participou?
C
Sim.
B
Até hoje?
C
Até hoje.
B
Antes de ir pra Cabo Verde, eu não sabia exatamente o que tinha acontecido com o Rich Harvest depois da apreensão, mas tudo indicava que ele continuava parado em Mindelo. No Google Maps, dava pra ver nas imagens de satélite que tinha um veleiro muito parecido com o Rich Harvest no mesmo porto onde a busca tinha sido feita lá em 2017. E a verdade é que depois de seis meses produzindo esse podcast e ouvindo mil e uma descrições do Rich Harvest, Vamos dizer que eu estava, assim, no mínimo curiosa para ver ele de perto. Então, eu perguntei para o Gildo o que tinha acontecido com o barco.
C
O Rich Harvest afundou aqui no Porto, no Porto Grande.
B
O Rich Harvest afundou, ele disse. Eu pergunto quando foi isso.
C
É recente. Tem menos de um mês.
B
Menos de um mês. Menos de um mês. É até difícil de acreditar. O Gildo conta que ele estava em casa quando um colega ligou para avisar que o barco estava afundando. Ele disse que saiu correndo, mas que quando chegou no porto já não dava mais para fazer nada. Você sabe por que ele afundou?
C
Ficamos com dúvida se furou ou se foi alguma válvula que foi retirada dele. Afundou às 7 da manhã. Não sei o dia mesmo, mas sei que afundou às 7 da manhã porque às 6 da manhã me chamaram para casa que o Rio de Janeiro estava afundando.
B
E você pode levar a gente lá pra ver ele?
C
Sim, podemos, podemos.
B
No fim, o Reach Harbour estava bem perto dali. A gente levou menos de 10 minutos pra chegar até ele. E pra ser sincera, a cena é até um pouco cômica. Não é que ele esteja completamente afundado. Os dois mastros ainda estão pra fora da água. Mas só eles. E o barco não afundou, digamos assim, em pé. Ele afundou inclinado. Então os mastros, obviamente, também estão inclinados. E a gente consegue passar bem por baixo deles. Então ele ficou sete anos parado aqui.
C
E agora, antes de vocês chegaram, foi para o fundo.
B
É impressionante o timing desse barco. Eu sou Cristine Kist e esse é A Raposa, um podcast investigativo da BBC News Brasil. Episódio 5, Peixe Grande. Agora que a gente está chegando perto do fim desse podcast, eu decidi que era hora de voltar para onde tudo começou. No caso, para aquela reportagem que o Joe, o nosso produtor, leu em um jornal inglês em 2019, e que fez com que ele tivesse a ideia de contar toda essa história. Então, eu vim até um desses bairros residenciais de Londres, onde todas as casas se parecem, para encontrar o Colin Freeman, o jornalista inglês que escreveu aquela reportagem.
D
Posso te oferecer um café ou um chá, pessoal?
B
O Colin é ele mesmo um personagem e tanto. Ele já viajou pra mais de 90 países. Quase sempre a trabalho. E é aquele tipo de jornalista que tem um monte de história pra contar. Só pra dar um exemplo. Em 2008, ele foi sequestrado por piratas na Somália e passou 40 dias em cativeiro numa caverna antes de finalmente ser liberado. Tranquilo. Mas enfim, em 2019, o Colin estava fazendo mais uma reportagem cabeluda, dessa vez sobre as rotas de tráfico na África. E uma dessas rotas passava justamente por Cabo Verde. Só que como ele estava trabalhando para um jornal britânico, ele estava tentando encontrar um jeito de fazer os leitores britânicos se interessarem mais por essa história.
D
E, no fim, tinha esse caso de um veleiro cujo dono era britânico que tinha sido pego com uma tonelada de cocaína em Cabo Verde em 2017 E eu fiquei tipo, uau, isso não é muito comum E esse era o Hit
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Harvest Essa voz que vocês estão ouvindo é do meu colega Luiz Fernando Toledo, que está dublando o Colin para a
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gente Tinha um grupo de britânicos, ou um britânico específico, Fox, George Sow, que era o dono do barco e a pessoa que a polícia estava dizendo que tinha organizado aquele esquema. Mas aí tinha um grupo de velejadores brasileiros e um capitão francês que aparentemente tinham sido enganados para levar as drogas no barco. E os velejadores tinham sido condenados a 10 anos de prisão por um crime que não cometeram, enquanto o suposto criminoso estava solto. Então era um caso muito estranho, muito
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fora da curva Na época, o Colin falou com algumas pessoas que conheciam o Fox e conseguiu descobrir mais algumas informações
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sobre ele Ele era filho de um advogado de Norwich, uma cidadezinha aqui no Reino Unido E até onde se sabe, ele tinha uma vida bem de classe
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média Bom, o Colin publicou a reportagem contando toda essa história e dizendo, inclusive, que o Fox continuava solto E aí o John leu essa reportagem e decidiu ligar pro Colin. E juntos, os dois decidiram ligar pra um outro personagem muito importante dessa história. O Robert Delpos. Aquele inglês de 60 e poucos anos que tinha velejado com o Fox da Europa pro Brasil e ficado responsável pela reforma do barco em Salvador. E que depois foi preso na Espanha, extraditado e deu aquele depoimento pra polícia, confirmando que os brasileiros eram inocentes. E aí, para surpresa do Joe e do Colin, o Delbus não só atendeu o telefone, como concordou em dar uma entrevista. E digamos que ele tinha bastante coisa para contar. A voz do Delbus, eu devo dizer, é bem característica. Por exemplo, quando Colin perguntou para ele como era a vida na prisão no Brasil, essa foi a resposta. É o lugar pior que eu já estive. é o pior lugar em que eu já estive", é o que ele diz. Nessa época, o Delbus ainda estava no Brasil, mas já não estava mais preso. No fim, ele acabou inclusive sendo absolvido pela justiça brasileira porque, segundo o juiz, não ficou comprovado que ele soubesse das intenções do Fox de traficar mais de uma tonelada de cocaína. Bom, como obviamente a entrevista foi em inglês, o meu colega Thomas Papon vai dublar o Delbus a partir de agora.
A
Era março de 2017 e eu fui para a costa da Espanha. Quando eu estava lá, eu fiquei sabendo que tinha um barco lá, o Rich Harvest, e que estavam procurando alguém para fazer a reforma desse barco.
B
O que o Delbo está dizendo é que ele já estava trabalhando no Rich Harvest antes de o veleiro ser comprado pelo Fox, o que significa que ele é meio que a única pessoa que acompanhou a história toda desde o início.
A
Depois de seis meses de trabalho, eu fiquei sabendo que o barco tinha sido colocado à venda e um cara que eu conhecia como Fox foi lá e disse que queria dar uma olhada. Aí eu mostrei o barco para ele e uns dois dias depois disseram que ele estava interessado em comprar e perguntaram se eu tinha interesse em continuar trabalhando no barco se ele comprasse.
B
O Fox de fato comprou o barco em 2015 por 120 mil euros. Eu sei disso porque a nota está no inquérito da polícia. E segundo o Delbos, o Fox teria oferecido 500 euros por semana mais as despesas para que ele continuasse tocando a reforma do barco. O que ele topou?
A
Para resumir, perto do Natal de 2015, ele perguntou se eu estaria interessado em levar o barco para a América do Sul e continuar a reforma lá. Ele disse que era porque o custo era menor, o que é verdade. Lá você consegue oito caras pelo preço de um aqui. E eu disse, claro, eu não me importo de levar o barco para a América do Sul. Aí ele voltou mais tarde e disse que era para o Brasil.
B
E aí, eles velejaram juntos para o Brasil.
A
Nós chegamos no Brasil em junho de 2016. Eu não sei como o Fox ficou sabendo que essa marina existia, mas a gente foi parar lá e ele perguntou se eu queria ficar e continuar tocando a reforma. Eu pensei, ah, tudo bem, eu vou ter um apartamento na marina, vou ter internet, vou receber 500 euros por semana, tenho minha aposentadoria, parece uma vida boa.
B
Depois disso, segundo Delbus, o Fox voltou para a Europa e ele continuou em Salvador, tocando a reforma. Ele, por sinal, passa um bom tempo explicando todo o trabalho que ele ajudou a fazer no barco, desde a instalação de painéis solares até uma parte da reforma dos famigerados tanques. Mas, segundo ele, ele não sabia que esses mesmos tanques depois acabariam sendo usados para armazenar uma tonelada de cocaína.
A
Então, em março de 2017, meu trabalho estava feito e o plano, pelo que o Fox me disse, era que ele ia levar o barco de volta para a Espanha para fazer uma renovação da parte interna E aí eu fui embora e não encontrei mais o Fox até o inverno de 2017 O inverno de
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2017, que era, no caso, o verão do Brasil E digamos que a julgar pelo relato do Delbus, esse reencontro dele com Fox foi, no mínimo, um pouco esquisito.
A
Eu voltei do almoço um dia e ele estava na porta da minha casa. Ele estava um pouco agitado. Depois, ele me contou que ele abriu os tanques e encheu eles com uma tonelada de cocaína. Depois, ele contratou uma tripulação inocente, que não sabia de nada, e despachou eles para a Europa. Aí o barco foi pego em Cabo Verde.
B
Esse encontro entre ele e o Fox teria acontecido em outubro ou novembro de 2017 Ou seja, mais ou menos, dois ou três meses depois de os brasileiros e o capitão francês terem sido presos em Cabo Verde Mas, claro, a gente só tem a versão do Delbus dessa
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história Eu passei horas com ele e ele me contou tudo O que você quer saber? Pode perguntar o que quiser e eu vou tentar lembrar o que ele me contou
B
O Colin, então, pergunta qual foi a explicação do Fox para usar velejadores inocentes para levarem um veleiro carregado de cocaína de um continente para o outro.
A
Isso ultrapassou todos os limites. Quer dizer, você não faz isso. Ele foi um cara estúpido, que foi ganancioso. Ofereceram 3 milhões de euros para ele fazer esse trabalho, que é tipo 10% do valor da mercadoria. Ele gastou mais ou menos meio milhão no barco. E aí, em vez de pagar uma tripulação e chamar uma tripulação profissional acostumada com esse tipo de trabalho, ele contratou quatro caras e achou que ia conseguir embolsar dois milhões e meio.
B
Aí o Colin pergunta se ele sabe disso tudo porque o Fox contou ou porque ele tem, digamos assim, alguma familiaridade com esse mundo. Já que, como a gente sabe, o Delvers foi condenado por tráfico de maconha nos anos 80.
A
Ele me contou, mas isso é comum, todo mundo sabe Eu já recebi ofertas desse tipo e geralmente pago um milhão para o capitão que leva um barco com cocaína O fato é que, segundo
B
Delbos, o Fox admitiu que os brasileiros e o capitão francês eram inocentes e realmente não faziam ideia de que tinha cocaína naquele barco E não foi só pro Colin que o Delbus disse isso. Como a gente sabe, ele contou essa mesma história pra polícia brasileira, depois de ter sido preso e extraditado. Mas claro, isso poderia ter sido só uma estratégia, já que ele próprio era considerado suspeito naquele momento. O Delbus também disse pro Colin que só não procurou as autoridades assim que o Fox contou tudo pra ele, porque tava com medo. mas que depois que tudo aconteceu, que ele foi preso, no caso, ele já não se importava mais.
A
Eu não ligo mais, porque agora não tem mais ninguém por trás dele. Ninguém vai ajudar ele agora, porque ele quebrou todos os códigos que existem. Você não contrata pessoas inocentes, você não deixa as pessoas apodrecerem na cadeia. Ninguém vai ajudar ele agora, então eu não estou preocupado com ele.
B
O Colin pergunta se o Delbus vai tentar encontrar o Fox.
A
Eu não vou tentar, eu vou encontrar ele.
B
Aí, o Collin pergunta o que ele vai dizer quando eles se encontrarem.
A
Que ele me deve um dinheiro.
B
E quanto exatamente ele devia?
A
18 meses de miséria.
B
18 meses é o tempo que o Delbus passou na prisão, uma parte na Espanha e outra no Brasil, aguardando para ser julgado. Lembrando que, no fim, ele de fato acabou sendo absolvido pela justiça brasileira. Antes de terminar a entrevista naquele dia, o Collin fez para o Delbus a pergunta que deve estar todo mundo se fazendo agora. Se ele sabia onde o Fox estava.
A
Ele está na Inglaterra. Até onde eu sei, ele está lá.
B
O Delbus estava certo. O Fox estava e ainda está na Inglaterra. E a BBC conseguiu descobrir o endereço dele. A gente já tinha conseguido encontrar perfis do Fox nas redes sociais, mas eles estavam todos fechados. Mas um dos nossos produtores é especialista em investigações feitas com base em informações de bancos de dados públicos, que podem ser desde sites do governo até as próprias redes sociais. Vocês talvez já tenham reparado no nome dele, que eu sempre falo no fim dos episódios. A Lion Molleroy. Esse nome diferente é porque ele é francês. Mas enfim, o Alião fez uma busca pelo nome do Fox em um banco de dados de empresas do Reino Unido. Basicamente, se você tem uma empresa registrada no seu nome, ela precisa estar nesse banco. E de fato, o Fox tinha vários endereços ligados ao nome dele. E eram todos na mesma cidade. Norwich, no leste da Inglaterra, onde ele nasceu. Então, pelo menos, já dava pra assumir que ele provavelmente ainda estava morando lá, mesmo que não desse pra saber onde exatamente. O Alião guardou essa informação e continuou dando uma olhada no perfil do Fox nas redes sociais de tempos em tempos, na esperança de que uma hora ele decidisse deixar tudo público. E aí, surpreendentemente, foi exatamente isso que aconteceu. Um dia, por algum motivo que a gente nunca vai saber qual foi, o Fox abriu um dos perfis dele nas redes sociais. Aí o Eliama fez o seguinte. Ele foi no Google Street View e começou a procurar cada um dos endereços que apareceu naquele banco de dados de empresas. Depois, ele foi comparando as imagens do Street View com os lugares que apareciam nas fotos do Fox nas redes sociais. Em um vídeo que o Fox postou, dá pra ver um caminho de azulejos com um padrão bem específico na frente de uma casa que parece ser a dele. E num dos endereços que o Aliama encontrou no banco de dados, ele consegue identificar exatamente esse mesmo caminho, com o mesmo padrão. Ou seja, só pode ser essa casa. Então, numa quinta-feira cinza de julho, eu, o Joe e o Colin vamos todos pra Norwich.
E
Bom, aparentemente chegamos em Norwich, três horas depois de sair de Londres Quem saberia que era tão longe? É uma cidade pequena, sem nenhum prédio Simpática, parece um bom lugar para morar
B
E a nossa primeira parada é no lugar que seria a casa do Fox
E
Bom, agora a gente tá chegando na rua dele. Uma rua, enfim, dessas bem padrão. Todas as casas são meio iguais.
B
Joe, você sabe qual é a casa dele exatamente?
F
É essa aqui, na esquerda. Tá vendo?
B
Eu tava. E um detalhe me chamou a atenção. Então, tem uma raposa na porta, é isso? Aquilo é uma raposa?
G
É, raposa.
B
E quando eu digo que tem uma raposa na porta, não é que tinha um animal raposa na porta. Embora, de fato, tenha muita raposa na Inglaterra.
E
Só pra vocês entenderem, então, não é... Quem tá ouvindo, é tipo uma coisa
B
que se usa pra bater na porta,
E
porque por algum motivo não é muito
B
normal usar a mão aqui.
E
Então, esse acessório da parede, da porta, desculpa, É uma raposa dourada. É isso, sim.
B
A gente para na frente da casa.
E
É, o carro dele não tá aqui, mas a janela tá aberta, então aparentemente tem alguém em casa.
B
No fim, como a gente não consegue confirmar que o Fox tá em casa, a gente decide não bater na porta. Até porque nós temos um plano B. Quando a Leão fez uma busca combinando o nome do Fox com aqueles endereços que ele tinha encontrado no banco de dados de empresas, ele caiu no perfil do Fox no site de uma associação de empresários de Norwich. E nesse site tinha informação de que os membros da associação se reuniam toda quinta-feira em um hotel da cidade às 7 horas. Mas não às 7 da noite, às 7 da manhã mesmo. É tipo um café da manhã pra fazer networking. Ou seja, se a gente quisesse encontrar ele lá, a gente ia precisar acordar bem cedo no dia seguinte.
E
Ok, cinco da manhã. Vamos lá.
B
A gente entra numa van pra ir até o hotel. Esse hotel é um desses de rede, bem genérico.
E
Mas então a gente tá num desses hotéis em que o estacionamento ocupa o triplo do espaço. O hotel em si é uma dessas cidades do interior com muito carro, em que todo mundo usa carro. E o Fox deve chegar aqui de carro também.
B
Nas semanas anteriores, a gente tinha pedido para colegas da BBC de Norwich virem até seu lugar para confirmar que o Fox realmente participava das reuniões. E eles descobriram que não só ele participava, como ele chegava sempre no mesmo horário, estacionava sempre no mesmo lugar e vinha sempre com a cachorra, que também aparece em boa parte das fotos que ele posta nas redes sociais.
E
São 6h28, geralmente o Fox chega aqui nesse lugar pelas 6h35, 6h38. E o Colin vai falar com ele assim que, enfim, for possível. Ele vai estar meio esperando. Quando o Fox sair do carro, o Colin vai tentar falar com ele.
B
Eu pergunto se o Colin tá nervoso. Ele diz que tá um pouco ansioso, porque não é todo dia que você aborda uma pessoa acusada de ser um traficante internacional. De dentro da van, a gente vê outras pessoas que parecem estar chegando pra reunião porque elas vêm dirigindo carros com logos de empresas locais.
E
E a gente tá ficando posicionado de forma que ele não veja a gente, embora a gente esteja vendo ele. Então tô vendo agora o lugar onde ele deve estacionar. Agora são 6h32, então faltam entre 5 e 10 minutos para ele chegar aqui. Eu sinto que eu estou falando meio sussurrando, mas eu não sei bem por quê, porque a gente está bem longe dele, na verdade, né? E dentro de uma van. Então, não precisaria estar sussurrando nesse momento, mas...
B
O nosso plano é falar com o Fox quando ele estiver saindo do carro e andando em direção à entrada do hotel.
E
Então quando ele chegar a gente vai conseguir ver e quando ele chegar o Colin vai sair da van Então não pode sair antes porque aí corre o risco de ele ver que a gente tá aqui segurando o microfone da BBC
B
Mas o tempo vai passando, vai passando e nada O Fox costuma chegar pelas 6h35, mas já são 6h49 e nem sinal Como a semifinal da Eurocopa tinha sido no dia anterior e a Inglaterra ganhou, a gente começa a cogitar a possibilidade de que o Fox tenha ficado acordado até tarde e não apareça. Só que aí... O nosso colega que tá na entrada do estacionamento avisa que ele tá chegando.
E
O carro chegou, o carro chegou. Tô vendo o carro daqui.
B
O Colin sai da van.
E
Tá estacionando. Vai sair do carro agora. Ele saiu do carro, a cachorra saiu também. Ele está indo agora em direção onde o Colin está.
B
O Fox está vestindo um conjunto de calça e moletom roxo e um tênis esportivo branco, como se ele estivesse indo para a academia. Ele está com a coleira da cachorra em uma mão e com o chaveiro na outra. O Colin, que estava parado esperando, começa a andar na direção dele. E quando Colin chega segurando o microfone da BBC, o Fox parece quase receptivo. Esboça até o meio sorriso. A minha sensação é de que ele acha que vai participar de um daqueles quadros de programa de TV em que o repórter aborda pessoas na rua aleatoriamente pra falar sobre o clima ou sobre um jogo de futebol, sabe? Mas aí o Colin diz que quer fazer algumas perguntas sobre o Rich Harvest. E nessa hora, a expressão do Fox muda totalmente. E ele simplesmente diz... Não. Aí ele ameaça continuar andando em direção ao hotel. Mas o Colin continua falando. E pergunta se ele pode explicar como mais de uma tonelada de cocaína foi encontrada no barco em 2017. Nessa hora, o Fox simplesmente responde... Vai embora, sério. E dessa vez, ele realmente vira e sai andando. Mas o Colin vai atrás e diz que ele está sendo acusado pela polícia brasileira de ser um traficante de drogas internacional. Aí o Fox responde. Bom, mas eu não sou. Depois disso, o Colin diz que a polícia brasileira acusa o Fox de ser o cabeça da operação, que colocou uma tonelada de cocaína no Rich Harvest. Nessa hora, o Fox dá meia volta e começa a andar na direção do estacionamento. No meio do caminho, ele deixa o chaveiro cair e precisa parar para pegar. Aí ele diz, escuta, eu não vou fazer isso. O Colin continuou falando. Agora, ele diz que quatro velejadores inocentes foram presos depois que as drogas foram encontradas no barco. e pergunta se o Fox admite que isso aconteceu por culpa dele. Mas o Fox não chega a responder, só continua andando em direção ao carro. Quando ele chega e abre a porta do carro, o Colin pergunta se ele consideraria voltar para o Brasil para responder às acusações contra ele na justiça. Não dá para ouvir tão bem, porque o microfone estava meio longe. Mas ele fala uma expressão que tem um significado parecido com vocês estão confundindo as coisas. Aí o Colin diz que ele pode continuar falando, que a gente está ali para ouvir. Porém, ele só responde, mas eu não estou aqui para falar. Aí ele fecha a porta do carro e vai embora. Depois disso, a BBC ainda tentou entrar em contato por escrito algumas vezes para saber se o Fox tinha mais alguma coisa a dizer sobre as alegações feitas contra ele. Mas ele nunca respondeu. Assim que o Fox foi embora, a primeira coisa que eu pensei foi Bom, agora eu preciso contar pro Daniel e pro Rodrigo que a gente descobriu onde ele tá. E mais do que isso, que a gente encontrou com ele. Rodrigo?
F
Oi!
B
Oi, tudo bem? E aí eu devo dizer que eu tava meio nervosa, porque eu não fazia a menor ideia de como eles iam reagir. Desde o início, tanto o Rodrigo quanto o Daniel sempre disseram que esperavam que a justiça fosse feita. mas que eles não queriam ter mais nenhum tipo de envolvimento com o Fox. Então, a gente queria te ligar pra te contar que a gente descobriu onde o Fox tá.
F
Sério? Sério.
B
Meu Deus, e aí? Então, a gente foi em um lugar que ele costuma frequentar e a gente fez umas perguntas, mas ele entrou no carro e foi embora. Meu Deus, ué.
F
Mas encontrou sem marcar nada. Vocês souberam onde ele tava e foi lá procurar ele.
B
Isso.
E
Exatamente.
F
Mas então, ele sabe que tá sendo
B
feito um documentário, alguma coisa sobre essa história? Então, ele acabou de descobrir. Ok.
F
Não, valeu. Não sei se é bom ou ruim, mas é interessante.
B
Bom, essa conversa saiu melhor que o esperado. Aí, chegou a hora de ligar pro Daniel. Oi, Daniel, tudo bem?
F
Oi, tudo bem, Cris?
B
Tudo, você tá me escutando?
F
Tô, tô te escutando.
B
A gente tá te ligando porque a gente tem uma coisa pra te contar. Que é? A gente descobriu onde o Fox tá.
F
Oh my God! Really? Onde é que tá esse cara?
B
a gente foi em um lugar que ele costuma frequentar e as perguntas para ele gravando mas ele só entrou no carro e foi embora. Sim a gente queria que você soubesse.
F
Claro claro com certeza com certeza. Tranquilo Deus Deus está vendo isso aí. Ele vai ter os carmas dele e Eu não me preocupo muito com isso agora, mas fazer o quê, né, cara? Que pena que ele está solto, né?
B
Bom, aproveitando, sobre isso. A gente entrou em contato com a National Crime Agency, ou NCA, a agência que é tipo FBI do Reino Unido. A gente perguntou se a NCA estava ciente do crime que a polícia brasileira suspeita que o Fox tenha cometido. A agência respondeu que se o Brasil decidir pedir a extradição dele, o país teria que enviar um pedido completo de extradição ao Ministério do Interior. A NCA disse também que não existe nenhum mandado de prisão contra o Fox e que não está ciente de nenhum crime que ele tenha cometido no Reino Unido. Já no Brasil, a Polícia Federal, como a gente sabe, acusa o Fox de ser traficante. A gente perguntou para a PF se o mandado de prisão contra o Fox ainda estava ativo, mas a assessoria respondeu que não podia fornecer informações porque o processo, abre aspas, se encontra na Interpol como sigiloso, fecha aspas. A gente também procurou o Ministério Público Federal para checar qual é a situação do processo contra o Fox na Justiça brasileira. O MPF disse que a ação penal contra ele continua em andamento, mas que o processo estava suspenso porque ele não tinha sido localizado. Eu perguntei para o Daniel como ele se sentia sabendo que o Fox continuava solto.
F
Olha, indiferente, sabe? Eu tenho muita fé nisso e cada um tem seu... sua missão para passar aqui em terra entende ele sei lá se ele está sofrendo com isso ou não. Eu aprendi com a minha lição sabe Cris. Eu aprendi com a lição que eu tive em ser uma pessoa melhor. Espero que ele também com a lição que ele tenha tido que ele tenha saia desse mundo do crime, que se entrar em contato comigo o cara vai receber um perdão, entende? Mas vou mandar um tomar no c*** lá pra ele também. E acho que com certeza isso passa na cabeça dele todos esses anos que já passou. E não sei se isso deixa a pessoa em paz, sabe? Deixa a pessoa bem. Eu nem tento pensar no caso dele, eu não queria estar na pele dele.
B
Daniel me contou que depois de tudo que aconteceu, assim como o Rodrigo, ele também desistiu de trabalhar como capitão Nem
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curto mais, sabe, trabalhar com pessoas. Isso me desiludiu um pouco, sabe? Então, curto ficar mais na minha, sim E me sinto super forte por tudo que passou, sabe? Tudo que eu já superei, entendeu? Os dois cânceres, isso aí, o estresse com o meu pai, minha mãe, o pai do Rodrigo. Todo mundo sofreu um monte com isso, mas era a nossa missão, sabe? Então talvez não seja a vida que eu sonhei pra mim, mas eu me adaptei e hoje eu tô super feliz, sabe?
B
Essa adaptação que o Daniel tá falando é o fato de que ele trocou o barco à vela pelo kitesurf, aquele esporte em que você se equilibra em uma prancha enquanto é puxado tipo por uma pipa que é impulsionada pelo vento. Foi o jeito que ele encontrou pra continuar perto do mar, mas sem precisar trabalhar pra outras pessoas, como acontecia nos veleiros. Antes de a gente se despedir, eu pergunto pro Daniel, só por curiosidade, se ele pensa em voltar pra Cabo Verde um dia. E a resposta dele me deixa surpresa.
G
e meus pais têm uma promessa para pagar lá numa igreja, sabe? E eles estão começando a planejar a regressar lá em Cabo Verde.
B
Que promessa é essa que seus pais querem pagar na igreja?
G
Eles foram lá e pediram, né? Acho que pela liberdade e se acontecesse isso e na volta da igreja ali tem um monte de placas pagam promessas de desejos alcançados, sabe? E daí as pessoas mandam fazer essas plaquinhas e botam do lado da igreja, sabe? E daí eles viram isso e creram que fizeram uma pedida, alguma coisa e eles têm que regressar pra pagar essa promessa lá.
B
Eu perguntei para o Daniel se essa igreja é a mesma em que o trisavô dele teria ido quando supostamente passou por Cabo Verde, no fim do século XIX. Ele disse que não tinha certeza, mas que na primeira conversa que ele teve com o pai por telefone, assim que ele foi solto, o pai pediu que ele fosse nessa igreja antes de voltar para casa.
G
Ele falou, ó, vá lá na tal igreja lá em Mindelo, dê uma volta nela lá, faça umas orações, entra nela. E daí eu me lembro que eu fui lá, dei uma volta assim, fiz minhas orações, agradeci. Mas parece que tem algo mais aí pra ser feito lá.
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Eu sou a Cristine Kist e esse foi o último episódio de A Raposa, um podcast original da BBC News Brasil. A produção executiva do podcast é do Joe Kent. A produção é do Elian Molleroi, da Charlotte MacDonald e da Chiara Francavilla. A Rebecca Henske é a coordenadora de podcast do Serviço Mundial da BBC. O roteiro desse episódio é meu e da Duda Kunert. E a edição é da Pipoca Sound. A direção é do Caio Queiro. Até o próximo podcast! e Doug. Mãe, você pode me contar uma história?
H
Claro. Um dia, uma mãe precisou de um carro novo.
B
Ela era brava?
H
Ela estava cansada, mais ou menos. Mas ela foi para carvana.com e encontrou um ótimo carro com um ótimo preço. Sem necessidade de um mapa secreto.
B
Ela teve que encontrar um dragão?
H
Não, ela comprou 100% online. De sua cama, na verdade.
B
Foi assustador?
H
Amor, foi tão assustador quanto pode ser um carro.
B
O carro tinha um telhado? Sim, na verdade. Ok, boa história.
H
Car buying you'll want to tell stories about. Buy your car today on Carvana. Delivery fees may apply.
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