Transcript
A (0:00)
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B (0:45)
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C (1:22)
A tecnologia pode fazer cérebro funcionar melhor? Reportagem adaptada do programa CrowdScience, da BBC, publicada pela BBC News Brasil em 17 de janeiro de 2026. Lida por Thomas Papon. Você está no supermercado e não se lembra de coisas que tinha que comprar? Ou está tentando se lembrar dos nomes de convidados para uma reunião importante? Existem truques de memória que usamos para treinar o cérebro, para que ele funcione melhor. Mas será que poderíamos também usar dispositivos que fornecem impulsos elétricos ao cérebro? Até o momento, essa tecnologia foi desenvolvida para ajudar a restaurar as funções cerebrais em certas condições neurológicas. Um exemplo é a Estimulação Cerebral Profunda, o ECP, uma técnica complexa utilizada já há muitos anos para tratar de pessoas com transtornos de movimento, como a doença de Parkinson. A professora Francesca Morganti, da Universidade City St. George de Londres, observou o impacto da estimulação cerebral profunda em seus pacientes. Ela é considerada para pessoas cuja medicação não consegue controlar os sintomas, disse a professora ao programa de rádio CrowdScience do Serviço Mundial da BBC. O Parkinson causa a morte das células produtoras do mensageiro químico dopamina. A dopamina é necessária para a sinalização nas partes do cérebro que controlam os movimentos corporais. Sem dopamina em quantidade suficiente, as pessoas que sofrem de Parkinson podem ter sintomas como tremores, rigidez e lentidão de movimentos. A doença piora com o tempo e, até o momento, não tem cura. A estimulação cerebral profunda consiste em implantar cirurgicamente um gerador de pulsos embaixo da pele, geralmente pouco abaixo da clavícula. Ele é conectado a cabos, ou eletrodos, que são inseridos nas regiões do cérebro afetadas para estimulá-las com uma pequena corrente elétrica. o dispositivo age como um marcapasso do cérebro, segundo Francesca Morganti, ajudando a restabelecer a sinalização cerebral normal. A estimulação cerebral profunda pode ajudar a aliviar alguns dos sintomas de Parkinson, mas nem sempre é eficaz. As formas com que a vasta rede de neurônios envia sinais elétricos entre si são complexas e até o momento não são totalmente compreendidas. Existem muito mais sintomas do que apenas tremores e problemas de mobilidade, explica Lucia Richard, também da Universidade City St. George de Londres. Eles incluem sintomas como depressão, ansiedade, falta de motivação, problemas de memória e dificuldades para dormir, acrescenta. Ela destaca que os estudos indicam que a estimulação cerebral profunda também pode ajudar a aliviar alguns desses sintomas, como a depressão e a ansiedade, mas é preciso realizar mais pesquisas a respeito. Existem também considerações individuais. Cada cérebro é altamente complexo e único e, por isso, não existe uma solução única que sirva para todos. Os cabos implantados e empregados na estimulação cerebral profunda consistem de diversos segmentos independentes conectados a diferentes neurônios. Os especialistas precisam determinar quais segmentos devem ser estimulados para conseguir maior impacto sobre os sintomas do paciente. Para tomar a decisão de qual segmento ativar e com qual parâmetro em termos de frequência, amplitude e pulso, existem muitos aspectos que devem ser considerados", afirma Lucia Richard. Esse processo de calibragem personalizada, tradicionalmente realizado por meio de tentativa e erro, vem melhorando constantemente, ainda mais agora que a inteligência artificial pode sugerir quais combinações são as melhores para cada cérebro. Ainda não está muito claro se a estimulação cerebral serve para melhorar outras funções, como a memória. Mas este ponto atualmente é objeto de investigação. A memória humana está concentrada em uma região do cérebro chamada hipocampo. Ela recebe informações de outras partes do cérebro, como o odor, o som e a imagem de uma experiência, e a converte em um código que é armazenado a curto ou longo prazo, explica o especialista em memória Robert Hampson, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos. Há vários anos, sua equipe realizou experimentos com pequenos roedores que receberam uma tarefa que exigia o uso da memória e observou o surgimento de padrões elétricos específicos antes que o animal decidisse o que fazer. Se o rato de laboratório girar para a esquerda, obtenho um padrão que chamo de esquerda. Se ele girar para a direita, obtenho um padrão que chamo de direita, explica Hampson. Descobrimos que existem padrões associados ao funcionamento correto da memória e suas possíveis falhas. Hampson começou a se perguntar se seria possível influenciar esses padrões e reparar a memória quando ela falhar. Sua equipe foi pioneira nos primeiros testes em seres humanos de um dispositivo denominado prótese neural hipocampal. De forma similar à estimulação cerebral profunda, ele exige a implantação cirúrgica de diversos eletrodos, estes dirigidos ao hipocampo. A tecnologia ainda não está totalmente desenvolvida, por isso, no lugar da implantação de um arcapaço, os eletrodos são atualmente conectados a um grande computador externo que pode enviar e receber sinais do cérebro. Tentamos restaurar a função quando ela fica debilitada ou se perde, detalhou Hampson. Em testes com pessoas com epilepsia, os resultados foram promissores. Observamos uma melhora de 25% a 35% da capacidade de reter informações por cerca de 1 a 24 horas. Isso foi observado em pacientes que apresentavam maiores problemas de memória no início do teste, disse ele. Essa tecnologia algum dia poderá ajudar pessoas que sofrem de problemas de memória com Alzheimer, segundo Robert Hampson. Mas será que ela poderia melhorar o cérebro de qualquer pessoa, não só das que sofrem de doenças degenerativas? Hampson acredita que ainda temos muito o que aprender sobre os motivos que levam a memória de algumas pessoas a funcionar melhor do que outras. Não temos necessariamente informações suficientes para dizer que podemos melhorar o cérebro além do normal, segundo ele. E é claro que existem obstáculos éticos a considerar, além dos riscos da própria cirurgia cerebral. A memória é a essência que nos define, e a única coisa que não queremos é alterá-la", conclui Hamson. Você ouviu a reportagem A Tecnologia Pode Fazer o Cérebro Funcionar Melhor, publicada pela BBC News Brasil em 17 de janeiro de 2026.
