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Narrator
Este podcast é apoiado pelas redes sociais do Reino Unido.
Victim Caller
A gente recebeu uma chamada da banca e disse, você sabe que não há fondos nesse acounto?
Reporter
Uma linha de vítimas atrás dos EUA, estendendo-se de costas para costas.
Expert Commentator
A quantidade de vítimas em um tempo tão curto, foi incrível.
Reporter
Pessoas reais perdendo dinheiro, mas os criminosos são fantasmas.
Victim Caller
A raiva, a frustração, o medo.
Reporter
Isso é Evil Corp.
Narrator
A história de um caso de crime cibernético que estende-se da pequena América para as ruas de trás de Moscou.
Reporter
Ouçam no bbc.com ou em qualquer lugar onde vocês recebem seus podcasts.
BBC News Brasil Narrator
O que é arrebatamento? A profecia do fim do mundo que tomou conta das redes sociais. Reportagem de Edison Veiga, publicada pela BBC News Brasil em 23 de setembro de 2025. Lida por Thomas Papon. Com uma voz calma e um sorriso no rosto, o pastor cristão sul-africano Joshua Mlakela anunciou há três meses em uma plataforma de conteúdo digital. O fim do mundo tinha data e ocorreria na virada do dia 23 para o dia 24 de setembro. No vídeo de quase 59 minutos, veiculado no YouTube pela 120TV, o religioso é entrevistado por duas apresentadoras. Malakela conta que viu Jesus sentado em um trono e ouviu dele a mensagem.
Sociologist
Estou chegando em breve.
BBC News Brasil Narrator
Com a narrativa conhecida como arrebatamento comum no meio evangélico, a profecia do fim do mundo tomou conta das redes sociais, especialmente do TikTok e do X, e, de forma mais contundente, nos Estados Unidos e também em países africanos e na Índia. A data anunciada pelo pastor coincide com o Rosh Hashanah, o ano novo judaico, e isso não é coincidência. Tradicionalmente, a festa judaica está associada ao toque das trombetas, o Shofar, para anunciar o tempo vindouro. Na interpretação de parte dos cristãos, portanto, essas trombetas seriam as mesmas que aparecem no Novo Testamento como o símbolo do anúncio de uma volta triunfal de Jesus. Na primeira carta que o apóstolo Paulo de Tarso escreveu aos protocristãos da cidade de Tesalônica, parte da Macedônia, no antigo Império Romano, há um trecho que diz, porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido e com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. E prossegue, depois nós, os que ficamos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens a encontrar o Senhor nos ares e assim estaremos sempre com o Senhor. Para os que creem na profecia do arrebatamento, portanto, esse fim do mundo tem contornos de consolo, afinal os crentes seriam reunidos com os que morreram na fé e todos levados juntos para estarem junto a Deus. A voz do pastor Mlakela não é um caso isolado. O crescimento do evangelismo neopentecostal com uma ênfase a encarar trechos bíblicos de forma literal, a onipresença das redes sociais que.
Sociologist
Amplificam teorias de todo modo e o.
BBC News Brasil Narrator
Mundo em situação de catástrofe, com crise climática e guerras, tem sido a mistura perfeita para potencializar profecias de fim de mundo. Esse tipo de alarde, portanto, faz parte do contexto do mundo atual. Temos de perceber que vivemos em uma sociedade cada vez mais aterrorizada. O maravilhamento e o terror costumam vir juntos na experiência humana, diante daquilo que parece um mistério incompreensível Aquilo que supera as nossas vontades e planejamentos", comenta a BBC News Brasil o sociólogo da religião Francisco Borba Ribeiro Neto, ex-coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ribeiro Neto compara a experiência do ser humano contemporâneo com a daqueles que viviam em tempos antigos. Se antes havia o desconhecido pela experiência do contato com o poder da natureza.
Sociologist
Agora há a percepção de que o mundo criado pela ciência também é um.
BBC News Brasil Narrator
Mundo onde a vontade do indivíduo conta pouco. Isso se agrava nos tempos atuais pela grande frustração em relação a vários mitos e ilusões de modernidade do século XX, analisa ele.
Sociologist
Por exemplo, a ideia de que o desenvolvimento socioeconômico traria com certeza abundância e prosperidade para todas as sociedades. No meio desse caldo, questões como o aquecimento global criam a mesma ideia de insegurança, o medo do futuro e também do próprio presente. O sociólogo comenta que essa sensação é compartilhada tanto por grupos progressistas quanto por conservadores. O arrebatamento está próximo, esteja você pronto.
BBC News Brasil Narrator
Ou não, disse o pastor Malakela.
Sociologist
Não é um pensamento solitário. A cantora Baby do Brasil, por exemplo, que também é pastora evangélica, declarou no ano passado que nós entramos em apocalipse. Segundo ela, o arrebatamento tem tudo para acontecer entre 5 e 10 anos. Influenciador digital e pastor da Igreja Internacional da Graça de Deus, o religioso Antônio Júnior tem um vídeo no YouTube chamado O Arrebatamento Está Próximo? Descubra quando será o arrebatamento segundo a Bíblia. No material, ele contextualiza as diferentes interpretações bíblicas para o fim do mundo. Segundo ele, há uma vertente que acredita que os cristãos serão arrebatados antes do momento de tribulação e estes santos retornariam à terra junto com Jesus para salvar o restante da humanidade. Outra defende o pensamento de que a igreja passará pela primeira metade da tribulação, o que seriam três anos e meio, metade de sete anos. A ideia por trás dessa teoria é a de que o cristão precisa ser provado para provar sua fidelidade a Deus. A terceira visão é a de que os cristãos também passariam por todos os sofrimentos previstos na Bíblia nos sete anos que antecederiam a volta final de Jesus. Antônio Júnior não crava uma data, diz que acredita na primeira interpretação, ou seja, que os cristãos seremos levados ao céu quando o anticristo for revelado, antes de começar a tribulação, e cobra que devemos sempre estar preparados todos os dias. Entre os que acreditam na teoria, contudo, não há consenso sobre como vai acontecer isso, e muito menos sobre quando. O autor de best-sellers Hernández Díaz López, teólogo e pastor presbiteriano, declarou a um site Gospel que se não é possível prever uma data para o cumprimento da profecia, os sinais do fim do mundo já estariam cada vez mais presentes. Lopes citou especificamente a ocorrência de terremotos, guerras e a falta de amor no mundo como evidências de que, em breve, Jesus voltará. Até a pandemia de Covid-19 foi lembrada por ele como um indício. Ele alertou, contudo, que embora muitos queiram marcar uma data para a volta de Cristo, os humanos não temos o calendário de Deus nas mãos. Essa ideia de que o fim está próximo se baseia principalmente na interpretação do último dos livros da Bíblia, o Apocalipse. Entre os capítulos 6 e 16, o livro descreve uma série de tragédias como guerras, pragas, fome e terremotos. Esses eventos catastróficos seriam um indício da proximidade do fim dos tempos. Apresentador de rádio e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, o religioso Sérgio Corrêa publicou em sua página no Facebook há alguns meses que Deus levará os seus no arrebatamento e em breve isso vai acontecer, o arrebatamento. Segundo ele, a igreja está se despedindo. Prepare-se, recomendou. Já o professor de teologia no Instituto Bento XVI, em Lorena, e escritor famoso, o padre Paulo Ricardo, não confundir com o cantor pop de mesmo nome, publicou em seu site um texto a respeito, frisando que os católicos rechaçam a ideia do arrebatamento. O pastor sul-africano Mlakela não é o primeiro religioso dos tempos atuais a prever o arrebatamento. O pastor e apresentador de TV e rádio norte-americano Harold Campin ficou famoso por dizer que o mundo acabaria em 2011, alegando que a profecia era resultado de cálculos que ele havia realizado a partir de um estudo bíblico. Curiosamente, em 1992, ele tinha publicado um livro chamado 1994, ponto de interrogação, no qual levantava a hipótese de que o retorno de Jesus para o arrebatamento ocorreria naquele ano. Celebridade do mundo gospel norte-americano, o apresentador de TV, Jack Van Impey, defendia a teoria de que o Papa Francisco seria o último da história e que comandaria a Igreja Católica no fim dos tempos. Antes, ele havia profetizado que Jesus voltaria entre 2001 e 2012. Para o sociólogo Ribeiro Neto, o contexto atual tem levado mais e mais as pessoas a uma dissociação cognitiva, uma incapacidade de olhar com realismo e racionalidade a tudo o que está acontecendo em volta. Nesse contexto, teorias de final do mundo, de escolhas de alguns privilegiados que poderiam escapar das catástrofes e coisas do tipo vão se tornando cada vez mais presentes, afirma ele. Curiosamente, o efeito social é diferente se comparado ao que ocorria com as mitologias do passado. Enquanto no mundo antigo a comunidade inteira compartilhava certos mitos e fantasias mitológicas ajudavam a comunidade a se fortalecer enquanto grupo social, agora esses mesmos mitos surgem como alternativa escapada pista de alguns grupos específicos", diz ele. Aquilo que era um processo social, global, agora é um processo cada vez menos racional e cada vez mais restrito a algumas bolhas sociais, diz Ribeiro Neto. Nas redes sociais, o tema do arrebatamento viralizou, sobretudo nos Estados Unidos. Há gente se perguntando se os animais de estimação dos crentes também serão arrebatados ou se eles acabariam deixados para trás em um mundo de tribulações. Há ainda vídeos de gente chorando em desespero e outros clamando pela conversão de todos. Outros conteúdos mostram pessoas pedindo demissão de seus empregos ou mesmo vendendo tudo porque o mundo vai acabar. Evidentemente que o tema também é gatilho para anedotas, piadas e todo tipo de humor caça-clique comum em tempos de redes sociais. O sacerdote Paulo Ricardo lembra que a ideia do arrebatamento foi trazida pelo pastor protestante anglo-irlandês John Nelson Darby, que viveu entre 1800 e 1882 e depois popularizada graças às notas de rodapé da edição da bíblia produzida pelo teólogo e pastor fundamentalista norte-americano Cyrus Ingersoll Schofield, que viveu entre 1843 e 1921. Ao longo do século XX, pastores midiáticos disseminaram essa interpretação em programas de rádio e TV. Embora haja algumas variações, geralmente a doutrina do arrebatamento ensina que a qualquer momento Jesus Cristo retornará à Terra subitamente e de forma invisível. Nesse momento, todos os fiéis serão levados ao céu em corpo e alma para se unir a Cristo e somente serão arrebatados os que forem salvos", diz o texto publicado no site do padre. Em entrevista concedida à BBC News Brasil em 2024, O teólogo, filósofo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, explicou que o texto bíblico sobre o arrebatamento precisa, assim como toda leitura bíblica, ser observado no contexto histórico. Ele explica que o apóstolo Paulo vivia um problema naqueles primeiros anos de cristianismo. As pessoas estavam abandonando seus afazeres para simplesmente aguardarem a volta de Cristo. Ele, Paulo, tentou de alguma maneira dizer, continuem vivendo porque ninguém sabe quando isso vai acontecer, afirma Moraes. Aí ele escreve essa passagem falando desse suposto encontro entre os que estiverem vivos e Jesus. É preciso pontuar que Paulo, assim como muitos daqueles cristãos, tinham confiança de que Jesus voltaria enquanto ele ainda estivesse vivo. A questão do arrebatamento é uma doutrina muito polêmica, muito disputada, absolutamente não consensual, esclarece a BBC News Brasil o sociólogo Edin Suedi Abumansur, líder do grupo de estudos do protestantismo e pentecostalismo da PUC em São Paulo, em entrevista realizada em 2021. Você ouviu a reportagem O que é arrebatamento? A profecia do fim do mundo que tomou conta das redes sociais publicada pela BBC News Brasil em 23 de setembro de 2025.
Victim Caller
A gente recebeu uma chamada da banca e disse, você sabe que não há fundos nesse acounto?
Reporter
Uma linha de vítimas atrás dos EUA, estendendo-se de costas para costas.
Expert Commentator
A quantidade de vítimas em um tempo tão curto, foi inacreditável.
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Pessoas reais perdendo dinheiro, mas os criminosos são fantasmas.
Victim Caller
A raiva, a frustração, o medo.
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Isso é Evil Corp.
Narrator
A história de um caso de crime cibernético que estende-se da pequena América para as ruas de trás de Moscou.
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Podcast: BBC Lê
Episódio: Arrebatamento: A profecia do 'fim do mundo' que toma conta das redes sociais
Data: 20 de novembro de 2025
Reportagem: Edison Veiga (BBC News Brasil)
Leitura: Thomas Papon
O episódio apresenta e analisa a explosão da crença no “arrebatamento” – uma profecia sobre o fim do mundo segundo segmentos do cristianismo evangélico – nas redes sociais. A reportagem explora como datas e previsões recentes (como a feita pelo pastor sul-africano Joshua Mlakela) reacenderam o debate no ambiente digital, especialmente no TikTok e X (ex-Twitter), com repercussão nos EUA, África e Índia. Especialistas e líderes religiosos analisam as origens, variantes, apelos emocionais e consequências sociais dessa crença, além de seu impacto nos tempos de crise global.
“O fim do mundo tinha data e ocorreria na virada do dia 23 para o dia 24 de setembro.”
“Vivemos numa sociedade cada vez mais aterrorizada. O maravilhamento e o terror costumam vir juntos na experiência humana.” — Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo [03:45]
[05:04-06:55]
“O arrebatamento está próximo, esteja você pronto ou não.” — Joshua Mlakela [05:04]
[06:30-08:30] Outros líderes e pastores preferem não marcar datas e apontam sinais (guerras, pandemias, desastres naturais) como indícios, mas alertam para os perigos da especulação.
“Embora muitos queiram marcar uma data para a volta de Cristo, os humanos não temos o calendário de Deus nas mãos.” — Hernández Díaz López [08:00]
“Há gente se perguntando se os animais de estimação dos crentes também serão arrebatados...” [10:45]
“Continuem vivendo porque ninguém sabe quando isso vai acontecer.” — Gerson Leite de Moraes [12:30]
O episódio alterna entre uma análise sóbria e informativa das origens e sentidos da crença no arrebatamento e exemplos vívidos do fervor, ansiedade e até humor encontrados nas redes e na sociedade. O vocabulário dos convidados acadêmicos é ponderado e ressaltam a complexidade sociológica enquanto os líderes religiosos evocam um tom de urgência e fé.
O episódio disseca como e por que profecias do fim do mundo, como o arrebatamento, ressurgem com força renovada em tempos de crise e incerteza, especialmente impulsionadas pelas redes sociais. Revela o fascínio, o medo e o consolo que esse tipo de narrativa oferece para diferentes grupos e o papel da mídia digital como acelerador, além da polêmica e disputa interna até mesmo nos meios religiosos sobre o significado e a realidade dessas profecias.