Loading summary
A
Este podcast é apoiado por advertencias fora do Reino Unido.
B
BBC.
A
LIVE!
Descobri que minha mãe biológica era dona da padaria que eu frequentava." Reportagem adaptada do programa Lives Less Ordinary, do Serviço Mundial da BBC, publicada pela BBC News Brasil em 14 de outubro de 2025. Lida por Thomas Papon.
Sou um guloso. Vamar Hunter tem 51 anos. Ele confessa abertamente sua gula, um pecado que, anos atrás, o levou a descobrir uma pequena padaria na zona sul de Chicago, nos Estados Unidos. A padaria se chama Give Me Some Sugar. Me dê um pouco de açúcar, em tradução literal. Ele se tornou um cliente habitual, graças às deliciosas panquecas e biscoitos com gotas de chocolate. Não existem panquecas melhores em toda a cidade, garante ele. Além dos doces e sobremesas que o tornaram um freguês ácido da padaria, Hunter conseguiu encontrar naquele local alguém que estava ausente durante toda a sua vida e que ele pensava que nunca iria conhecer, sua mãe biológica. O americano e sua progenitora, Lenore Lindsey, contam as surpreendentes circunstâncias que levaram ao seu reencontro no programa de rádio Live's Less Ordinary, do Serviço Mundial da BBC. Era o Natal de 2022. Hunter e um amigo assistiam coincidentemente ao mesmo programa de televisão. Um dos meus amigos mais próximos havia visto o mesmo programa com uma mulher que falava do seu filho que fora sequestrado em um hospital em 1974, o ano em que eu nasci, contou Vamar. Ele me disse, você deveria ligar para esse número. Talvez eles possam ajudar você a encontrar sua mãe. E foi assim que tudo começou, relembra. Hunter não havia conhecido sua mãe biológica. Ela o entregou para adoção, dias depois dele ter nascido. Sua família adotiva só revelou a verdade sobre sua origem quando ele tinha 35 anos. Hoje, ele tem quatro filhos e vários netos. Hunter ouviu o amigo e ligou para o programa. Eles informaram que ele não era o menino sequestrado mencionado na TV, mas se ofereceram a colocá-lo em contato com uma genealogista chamada Gabriela Vargas, que poderia ajudar na sua busca. Duas semanas depois, ela me ligou e disse, encontrei sua mãe. Ela mora muito perto de você, recorda. Mas a especialista tinha uma má notícia. Sua mãe ainda não queria falar com ele porque tinha problemas de saúde. Ela havia acabado de ser diagnosticada com câncer. Falei com Vargas e expliquei que estava prestes a me submeter à quimioterapia, conta Lenore Lindsey, mas que estava disposta a ligar para ele depois porque não poderia lidar com isso naquele momento. Tudo era muito avassalador. Mas poucos minutos depois, ela mudou de opinião e pediu a Vargas o número de telefone do seu filho para entrar em contato com ele. E antes de falar sobre o reencontro, é preciso voltar no tempo, mais de meio século, para entender como ocorreu a separação. O ano era 1974 e Lenore Lindsey cursava o ensino médio. Eu tinha 16 anos e havia recentemente terminado com um namorado do ensino médio chamado Michael, com quem havia ficado por dois anos", relata ela. Seguiu-se a dor da primeira separação uma notícia que fez tremer as bases da conservadora família da estudante. Só fiquei sabendo que estava grávida no sexto mês. Por três ou quatro meses, minha barriga ficou perfeitamente plana, até que minha mãe me perguntou se eu estava menstruando. Eu disse que não, e ela me mandou a sua ginecologista. Quando colocou o estetoscópio na minha barriga, a médica disse, meu Deus, e eu ouvi as batidas do coração. Foi ali que fiquei sabendo.
Lenore Lindsey confessa que ficou devastada com a notícia. Eu não parava de chorar. Ela conta que não se atreveu a falar com seus pais, por isso pediu à sua irmã que soltasse a bomba em casa. Era 1974 e isso não era aceitável. Não havia a liberdade que existe hoje. A gravidez na adolescência era motivo de vergonha, não era motivo de orgulho, explica. Lenore relembra que ficou meses sem olhar de frente para seus pais e afirma que até hoje se arrepende de tê-los decepcionado. Eu parti o coração deles. Lamenta. Lenore Lindsay decidiu dar continuidade à gravidez, mas para colocar o bebê para a adoção. Criá-lo não era uma opção, diz ela, que não colocou nome na criança. Fiz isso de propósito, pois o único nome que me ocorria era o nome do pai dele e eu não queria que meus pais soubessem quem ele era. Eles não paravam de me perguntar, bem, quem é o pai? Ele precisa assumir a responsabilidade e eu não queria dizer, explica ela. Ela também não quis ver nem tomar o pequeno nos braços quando o deu à luz, para não dificultar ainda mais sua entrega para a adoção. Uma vez as enfermeiras o trouxeram por engano e eu vi a parte superior da cabeça, foi tudo, mas nunca o vi quando era bebê, conta. A jovem mãe nunca soube onde foi parar o menino. A assistente social encarregada do caso me fez acreditar que eles tinham um lar pronto para ele e que era o lugar perfeito onde os dois pais trabalhavam. Conta! Essa versão fez seu filho dar risada. Nunca tive uma boa relação com meus pais adotivos, comenta ele, mas tive avós e tios maravilhosos. Com o passar dos anos, em várias ocasiões, minha mãe adotiva me fez comentários do tipo, o que você sentiria se fosse adotado, conta Hunter. Por isso, ele sempre soube que havia algo que não se encaixava no que ele, até então, chamava de família. A tentativa de Lenore Lindsay de virar a página não funcionou totalmente. Reprimi tudo, admite ela. Eu era a rainha da repressão. Quando voltei para a escola, fiquei muito mal. Continuei faltando muito às aulas. Ela não contou nem mesmo ao pai do bebê o que havia acontecido. E a experiência com seu primeiro filho afetou seu comportamento anos depois, quando teve sua filha Rachel com seu primeiro marido. Acho que não fui muito maternal, lamenta. Eu não era uma dessas mães que, ao olhar para a bebê, me conectava com ela. Não fui uma mãe carinhosa. Eu a amava, mas acredito que assumia a maternidade mais como uma responsabilidade. Sabia que tinha um trabalho a fazer, que tinha uma filha, que era responsável por ela e precisava criá-la e mantê-la. Lenore Lindsey decidiu mudar de vida 17 anos atrás. Ela saiu de um emprego que não a atraía muito e abriu uma padaria. Ela havia descoberto anos antes que tinha talento para confeitaria e que assar bolos, biscoitos e outras sobremesas a relaxava e trazia a paz. As pessoas do grupo de estudos bíblicos da igreja que comecei a frequentar gostavam do que eu fazia e me diziam que eu poderia abrir um novo negócio, conta. Achei que poderia ser divertido, pois o bairro estava muito degradado e realmente não tinha nada bonito. Em 2008, nasceu a Give Me Some Sugar, e dois anos depois, seu filho começou a frequentar o local, longe de imaginar que a dona era sua mãe. Na última década, as visitas de Vamar Hunter para tomar o café da manhã ou comprar biscoitos com gotas de chocolate passaram a ser tão frequentes que ele tinha um número de telefone da padaria nos contatos do celular para fazer encomendas. Por isso, quando a genealogista Gabriela Vargas contou, no final de 2022, que sua mãe biológica iria ligar para ele, Hunter teve uma grande surpresa quando tocou o telefone e surgiu na tela o nome da padaria da qual ele era cliente assíduo. Eu liguei e disse, alô, você é Vamar Hunter, recorda Lenore Lindsey. Ele respondeu, sim, é a senhora Lenore, e eu disse, sim. Ele então respondeu, é a senhora Lenore da padaria, give me some sugar? E eu disse sim, e ele insistiu, sou Vamar, Vamar Hunter. Ele sabia quem eu era porque tinha o meu número, mas eu não o reconhecia. Seu nome não me dizia nada, explica Lenore Lindsay. Eu tinha o número da padaria no telefone para encomendar minhas panquecas, prossegue Hunter dando risada. Ele reconhece que levou alguns segundos para internalizar o que havia acabado de descobrir. Parecia impossível, diz. Vamar Hunter afirma que antes de descobrir que a proprietária da sua padaria preferida era sua mãe biológica, ele já a estimava pela maneira gentil e prestativa com que ela atendia a ele e aos demais clientes. Depois dessa primeira ligação, marcada por gritos, choros e risos, eles se reuniram em uma igreja, com suas respectivas famílias, para que todos se conhecessem. Lenore Lindsey afirmou que reencontrar o filho que ela foi forçada a entregar quase cinco décadas antes também influenciou sua relação com sua outra filha. Aquilo me tornou muito mais maternal, também com Rachel, ela conta. É estranho, é como se agora eu estivesse livre para ser mãe. Depois do reencontro, Vamar Hunter começou a visitar a padaria com mais frequência, mas não apenas como cliente. Ele começou a ir ao local ao sair do trabalho para ajudar sua mãe a preparar bolos e biscoitos enquanto ela se recuperava do tratamento contra o câncer. Até que em 2024, Hunter tomou a decisão de renunciar a sua carreira no setor de distribuição e logística, após 18 anos, para se dedicar integralmente ao até então desconhecido mundo da confeitaria. No começo, meu único objetivo era passar algum tempo com minha mãe e ajudá-la, pois fisicamente era muito difícil para ela, conta o filho. Naquela época, a padaria só abria alguns dias por semana, e sabemos que se você só trabalhar dois ou três dias por semana, o negócio não é sustentável. Então pensei, bem, o que posso fazer para ajudar? E aprendi a fazer biscoitos e tudo mais. Foi genial, conta. Hunter afirma que não gosta apenas do processo de preparação das sobremesas, mas também de atender os clientes. Ainda bem, porque eu disse a ele que você não iria ganhar dinheiro aqui, respondeu a mãe entre risos.
Você ouviu a reportagem. Descobri que minha mãe biológica era dona da padaria que eu frequentava, publicada pela BBC News Brasil em 14 de outubro de 2025.
B
Olá, sou Ray Winstone. Estou aqui para lhes contar sobre o meu podcast na BBC Rádio 4, História dos Heróis mais difíceis. Eu tenho histórias sobre os pioneiros, os rebeldes, os outcastes que definem o difícil. E essa foi a primeira vez que alguém dirigiu um carro tão rápido sem pneus. É quase como se seus olhos fossem sair da sua cabeça. Difícil o suficiente para você? Inscreva-se em História dos Heróis mais difíceis, onde quer que você encontre seu podcast.
Podcast: BBC Lê
Host: BBC Brasil
Episode Date: 4 December 2025
Read by: Thomas Papon
Original Program: Live’s Less Ordinary, BBC World Service
This episode shares the touching, real-life story of Vamar Hunter, a Chicago man who, after a lifetime of not knowing his biological mother, discovers she is the owner of his favorite local bakery. The episode traces the coincidence, surprises, and emotions that led to their unexpected reunion, and how their connection transformed both of their lives.
On the surprise TV connection and the start of the search:
“Ele me disse, ‘você deveria ligar para esse número. Talvez eles possam ajudar você a encontrar sua mãe.’” — Vamar Hunter [01:50]
On the moment of pregnancy discovery:
“Eu só fiquei sabendo que estava grávida no sexto mês... quando coloquei o estetoscópio na minha barriga, a médica disse, ‘meu Deus’, e eu ouvi as batidas do coração.” — Lenore Lindsey [04:35]
On adoption and secrecy:
“Eu não era uma dessas mães que ao olhar para a bebê, me conectava com ela. Não fui uma mãe carinhosa.” — Lenore Lindsey [06:52]
On recognizing the number during the fateful phone call:
“Eu tinha o número da padaria no telefone para encomendar minhas panquecas.” — Vamar Hunter [10:15]
On the transformative power of reunion:
“Aquilo me tornou muito mais maternal, também com Rachel.” — Lenore Lindsey [10:40]
This story, rich with serendipity, emotional depth, and gentle humor, illustrates how chance encounters and a taste for sweets led to the healing of old wounds and the forging of new familial bonds. The episode remains faithful to the voices of Vamar and Lenore, highlighting themes of forgiveness, transformation, and the enduring search for belonging.