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Silvia Salek
BBC lê. Porque muita gente deixou de postar nas redes sociais. Reportagem de Cathy Kay, da BBC Work Life, publicada pela BBC News Brasil em 26 de julho de 2025. Lida por Silvia Salek. Depois de duas décadas compartilhando cada vez mais postagens online, parece que decidimos reduzir os compartilhamentos. Pesquisas recentes indicam que cerca de um terço de todos os usuários de redes sociais postam menos do que um ano atrás. E essa tendência é especialmente presente entre os adultos da geração Z, que são os nascidos entre 1995 e 2010. Em um artigo recente para a revista New Yorker, o escritor Kyle Shaker sugeriu que a sociedade pode estar se encaminhando para o que ele chama de postagens zero, um ponto em que as pessoas comuns percebem que não vale a pena compartilhar suas vidas online. Eu percebi essa tendência de queda nas minhas próprias redes sociais. Para cada foto das férias de um amigo ou dos filhos de um colega, parece haver dezenas, quando não centenas, de postagens de marcas e influenciadores promovendo um novo produto ou discutindo as últimas tendências. As redes sociais costumavam parecer uma cópia imperfeita da minha vida social, mas agora elas parecem ser um conteúdo como qualquer outro. Sei que parte disso ocorre porque as plataformas mudaram. O TikTok e o Instagram acumularam infinitas coleções de vídeos verticais e criaram algoritmos assustadoramente poderosos para orientar o público através deles. Mas o que acontece com as nossas vidas digitais quando as redes sociais aparentemente se tornam muito menos sociais? Eu conversei com Kyle Sheikha para saber mais a esse respeito. Ele é jornalista da revista New Yorker e seu livro mais recente se chama Filter World, How Algorithms Flattened Culture, Mundo de Filtros, Como os Algoritmos Nivelaram a Cultura em Tradução Literal. Confira a nossa conversa a seguir. As respostas de Kyle Sheikha são lidas por Thomas Papon. Quando eu vejo os feeds das minhas redes sociais, eu encontro muitos anúncios e fotos de lindas casas que eu nunca vou comprar, em lugares que provavelmente eu nunca irei nem mesmo visitar. Mas eu estou literalmente tentando lembrar quando foi a última vez em que eu realmente vi a postagem de um amigo. O que isso significa para o futuro dessas plataformas, se o motivo que nos leva a visitá-las hoje é completamente diferente do que era dois anos atrás?
Kyle Sheikha
Acho que as redes sociais passaram a ser menos sociais. Elas se tornaram mais questão de consumir esse tipo de conteúdo, que hoje é basicamente commodity. É mais questão de aspiração de estilo de vida, não simplesmente sobre o que está acontecendo à sua volta e como você se relaciona com seus amigos e sua família. Para mim, isso meio que elimina o propósito das redes sociais. Se as plataformas estão perdendo o foco na vida normal das pessoas, e as pessoas normais não se sentem mais incentivadas a publicar postagens, as redes sociais passam a ser como a televisão. O que sobra para nós são os anúncios de marcas, o fast fashion, e os anúncios de casas e hotéis, não mais aquele tipo de conteúdo orgânico e altamente consistente a qual estávamos acostumados.
Silvia Salek
Os administradores das empresas de redes sociais têm algoritmos muito sofisticados para nos cativar. Qual a relação deles com essa questão? Ou eles estão simplesmente satisfeitos porque têm mais anúncios e ganham mais dinheiro com publicidade?
Kyle Sheikha
Olha, acho que seus principais clientes são os anunciantes. Por isso, enquanto nós, usuários, ainda estivermos engajados, seu modelo comercial ainda funciona. Acho que eles também apostam que o conteúdo gerado por seres humanos será gradualmente substituído por material gerado por inteligência artificial. Você já pode ver a meta meio que movendo o feed do Facebook e do Instagram rumo a esse conteúdo gerado por computador, que é obviamente infinito e barato, mas também inexpressivo, na minha opinião.
Silvia Salek
Você acha que existe a possibilidade de que as plataformas de redes sociais vejam uma redução significativa das pessoas que realmente entram para ver onde estão nossos amigos, onde passaram o feriado, o que comeram no café da manhã?
Kyle Sheikha
Acho que sim. Acho que existe um leve declínio. Sei de um estudo recente que concluiu que menos pessoas estão realmente postando no TikTok. Mas o que essas plataformas concluíram, acho que o Instagram em particular, é que o nosso compartilhamento pessoal está se movendo mais em direção a mensagens diretas e conversas individuais com nossos amigos. Na verdade, nós precisamos de uma rede social online. Mas as redes sociais que temos agora, na verdade, não querem desempenhar esse papel. Por isso, acho que haverá novos espaços e talvez surjam novos aplicativos para atender a essa necessidade, seja como um WhatsApp ampliado ou um melhor sistema de gestão para todos os grupos de bate-papo com seus amigos. Acho que estamos nos movendo para uma forma mais privada, mais íntima de conexão online.
Silvia Salek
Eu tenho filhos na casa dos 20 anos de idade e adolescentes. Havia toda uma percepção na minha geração de que os jovens de hoje não se preocupam com a privacidade e estão satisfeitos em postar tudo online. Eu me pergunto se estávamos errado a esse respeito, que os jovens experimentaram esse mundo onde tudo era colocado em público e agora eles estão pensando, na verdade, eu prefiro que meus grupos sejam mais íntimos. sem que o mundo inteiro saiba o que eu comi no café da manhã.
Kyle Sheikha
É, acho que nós meio que aprendemos as desvantagens de publicar nossa vida privada ao longo dos anos 2010. Você pode ver isso com a vergonha pública ou certos constrangimentos virais ocorridos com as pessoas. Acho que o contrato social das redes mudou. O acordo era que se você fizesse publicações ali, se você colocasse conteúdo, você poderia atrair um público em massa. Mas isso se torna um círculo vicioso que acaba sendo toda a sua vida. Por isso, a menos que você pretenda ser um influenciador ou alguém que posta conteúdo na internet profissionalmente, esse acordo não parece mais tão bom assim. As desvantagens de postar são grandes demais e as vantagens não são suficientes. Por isso, você pode simplesmente enviar mensagens de texto para os seus amigos.
Silvia Salek
Eu tive uma conversa super interessante com Jonathan Haidt, o autor do livro Geração Ansiosa, que certamente dedicou muito trabalho a tentar proibir os celulares nas escolas. Você acha que se a tendência que você indicou e chama de postagem zero acabar sendo uma onda mais significativa, realmente vai ficar mais fácil romper o vício das crianças em celulares e em outros aparelhos?
Kyle Sheikha
É uma boa pergunta. Acho que, de certa forma, já ultrapassamos o auge das redes sociais. Mas não acho que isso elimine as conversas digitais que as pessoas têm 24 horas por dia, 7 dias por semana. O que ocorre é que essa conversa sai dos canais públicos para os bate-papos em grupo, mensagens diretas ou alguma plataforma mais efêmera, como o Snapchat. A capacidade viciante do celular ainda existe. A distração certamente ainda está presente. Mas acho que a sua natureza pública diminuiu. Acho que é um pouco melhor termos saído da esfera pública e eliminado aquele risco de ficarmos expostos para o mundo inteiro e acabarmos viralizando pelos motivos errados. Mas ainda enviamos mensagens de texto uns aos outros o dia todo. Ainda consumimos memes. Ainda somos distraídos pelos feeds.
Silvia Salek
Vamos pensar no futuro. Como nós vamos olhar para os nossos celulares daqui a cinco anos? E o que vai mudar nas nossas interações com o componente social dos nossos celulares e de outros aparelhos?
Kyle Sheikha
Acho que será mais como a televisão. Se observarmos como tudo está acontecendo, existe muita mídia profissionalizada, existe muito conteúdo passivo. Nós meio que observamos essa fusão atual de YouTube, TikTok e Netflix em uma única combinação diabólica de áudio, vídeo e algoritmos. Se eu fosse prever algo, diria que as conversas e o aspecto social estarão em mensagens de texto ou talvez poderão se mover mais em direção à vida real. Acho que esse pico das redes sociais serviu mais para criar um desejo de interação entre as pessoas e nos fez lembrar o valor de realmente compartilhar coisas na vida real. Isso me dá um pouco de esperança.
Silvia Salek
Você acha que nós vamos chegar a um mundo de postagem zero, onde as pessoas como eu e você simplesmente não postam mais online?
Kyle Sheikha
Acho que sim. E acho que isso irá chegar mais cedo do que esperávamos, simplesmente porque não há mais incentivo para fazer postagens. Por que postar as suas selfies ou seu café da manhã se ninguém presta atenção? Se você não atinge seus amigos e simplesmente concorre com todo esse lixo impessoal e genérico que há por aí? Talvez as redes sociais fossem, de certa forma, essa aberração ou fuga. E essa ideia de que toda pessoa normal deve compartilhar sua vida em público era meio que falsa desde o princípio. Agora estamos acordando um pouco e vendo os danos que aquilo causou e mudando um pouco os nossos hábitos.
Silvia Salek
Esse foi o jornalista e autor Kyle Sheikha. Você ouviu a reportagem Por que muita gente deixou de postar nas redes sociais, publicada pela BBC News Brasil em 26 de julho de 2025.
BBC Announcer
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Host: Silvia Salek (BBC Brasil)
Guest (interview responses): Kyle Sheikha (journalist, author, read by Thomas Papon)
Date: October 2, 2025
Original Report: Cathy Kay for BBC Work Life, published in July 2025
This episode delves into the growing phenomenon of people posting less on social media, a reversal after decades of ever-increasing online sharing. Host Silvia Salek presents and discusses insights based on the work and perspective of Kyle Sheikha, journalist and author of "Filter World: How Algorithms Flattened Culture." The discussion examines why users, especially Generation Z adults, are pulling back, the changing nature of online social spaces, and what this shift might mean for the future of digital interaction.
On the meaninglessness of algorithm-driven feeds:
On the future of online interaction:
On the public/private digital divide:
This episode paints a compelling picture: social media, once a lively mirror of our real-world connections, is shifting toward a space dominated by passive, commodified content and less meaningful personal interaction. The desire for privacy is leading individuals, especially younger generations, to retreat to more intimate digital spaces. As Kyle Sheikha suggests, the age of "zero posting" may be imminent—not because people are leaving digital life, but because the public stage no longer serves their social needs or offers sufficient rewards. The hope, perhaps, is that meaningful sharing will shift back to the offline world or develop within new, more private digital niches.