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Eu não sei o que se passa pela cabeça, pela sua cabeça. Eu queria até entender pra você o que aconteceu no Rio de Janeiro. Foi justiça ou foi vingança, cara? Bom dia, boa tarde, boa noite. Meu nome é Luciano Pires e este é o seu Cafezinho. Muito bem, mais um cafezinho. Começa com o texto que eu vou publicar nas redes sociais, seguido de um comentário. E o texto não pode ser sobre outro tema, cara. No Rio de Janeiro, Uma operação policial contra traficantes termina com mais de 120 mortos. E, mais uma vez, os meios de comunicação se dividem entre os que aplaudem e os que condenam a ação da polícia. Começa então, em cima dos cadáveres, uma encenação político-ideológica que é nojenta, cara, mas que a gente já viu muitas e muitas vezes. O que se viu lá no Rio? Foi a velha lógica da Lei de Italião em ação. O Estado devolvendo, na mesma medida, a violência que recebe todos os dias das facções que dominam os morros. É uma herança direta daquele mesmo espírito da Lei de Italião, que tá lá no Código de Hammurabi, um dos mais antigos conjuntos de leis que a gente conhece. Foi criado na Babilônia por volta de 1750 a.C. A lei de Italião introduziu uma forma primitiva de justiça equilibrada. Se alguém causar a perda de um olho, perde o próprio olho. Se quebrar um dente, vai sofrer o mesmo tipo de dano. Vem o equilíbrio, né? Aquela expressão olho por olho, dente por dente vem daí. Com o tempo, esse termo ou a lei de Italião evoluiu para os significados modernos que a gente tem, de vingança proporcional, no sentido jurídico, militar e diplomático. Ou então, de resposta punitiva equivalente. Como acontece com retaliação econômica, com retaliação militar, lei Magnitsky. Olha, tem quem chame de barbárie o que aconteceu essa semana no Morro do Alemão e Penha. Pode ser. Pode ser sim. Mas antes de apontar o dedo, vale lembrar que a barbárie de verdade Começou faz muito tempo, cara. Começou quando o medo se tornou rotina. Quando mães se ajoelham pedindo pro filho não virar estatística, cara. Quando o crime passou a ditar a moda, a gíria, a moral. Durante décadas e décadas a sociedade foi empurrada contra a parede por uma cultura que o que ela faz é glorificar o bandido e sempre, sempre ridicularizar o policial. Essa cultura transforma o traficante em influencer, vê o fuzil como acessório de status. É uma ódio ao crime que invade a cultura, a música, o cinema e especialmente os espaços políticos. Até que um dia, uma parte do Estado, cansada de apanhar, morde de volta. É disso que se trata a retaliação, o limite da paciência coletiva. Aquele chega de um povo que não suporta mais ser refém do medo, da covardia institucional e da total inversão de valores. Não, eu não acho que seja bonito não. Não é bonito não, mas é humano. É o grito da lei de Italião ecoando no século XXI, na mesma moeda. Não por prazer, mas por saturação. E pra você aí que acha que pior que tá não fica, fica tranquilo. O deputado Oruã tá vindo aí. Olha cara, agora é hora, se você tiver no YouTube, entra aqui embaixo, deixa o seu gostei, não gostei, deixa o comentário, interaja com o post pra plataforma entender que merece mostrar pra mais gente, né? Bom, camiseta de hoje que eu escolhi essa aqui, olha. Uma sociedade só tem chance quando os homens de bem têm a mesma audácia dos corruptos, né? Quando, olho por olho, Dente por dente. É ruim falar assim, né, cara? Mas tu querer o quê? Querer negar a realidade? Quem já foi no cinema já entendeu há muito tempo esse fascínio que a lei de Italião exerce sobre cada um de nós. É só olhar para as bilheterias e as plateias dos cinemas em delírio, lá com o Clint Eastwood como Dirty Harry com Make My Day, lembra disso? O Gladiador, quando Maximus vinga a família dele que foi assassinada. Mais moderno, o John Wick exterminando um por um os caras que ousaram matar o cachorro dele. E tem uma porção de filmes que são Conde de Monte Cristo, Desejo de Matar, Rambo, Um Dia de Fúria, Tropa de Elite. Todos eles exploram o mesmo instinto primitivo. O prazer de ver o mal sendo punido com a própria moeda. É o espectador, no escuro da sala ele diz assim, algo que eu não posso dizer na vida é real. Enfim, justiça. Mesmo que o preço dessa justiça seja a perda da própria humanidade. Olha, o que devia envergonhar a gente não é essa retaliação, não. Não é a retaliação. É o fato da gente ter deixado o crime chegar tão longe, a ponto de tornar a retaliação quase que inevitável. E eu não sei o que se passa pela sua cabeça. Eu queria até entender pra você o que aconteceu no Rio de Janeiro. Foi justiça ou foi vingança, cara? É uma pena, eu conheço muito o Rio de Janeiro, adoro o Rio de Janeiro, e eu acho que ele não merece ser refém do crime e tá exposto a esse tipo de ocasião em que, de repente, o crime chegou num estágio tal que é preciso ser reprimido. E a repressão vem com retaliação. E não vem com conversinha furada, cara, não vem com a... Precisamos de mais educação, mais escola... É claro que a gente precisa de tudo! Ah, precisamos tirar ele dos corruptos. É claro que precisa. Mas tem um problema imediato acontecendo ali e não crescendo. E você só evita um problema imediato com uma ação imediata, que não é abraçar as pessoas. É retribuir o crime com aquilo que o crime produz. Olho por olho, dente por dente. Fico feliz com isso? De jeito nenhum, cara. Quero que se repita? Nunca mais. Que a lição tenha sido aprendida e que o pessoal baixe a bola. Mas, principalmente, que cada um de nós tenha essa missão de não permitir que a ódia à bandidagem, a ódia ao crime se transforme em algo normal. Você tem rede social, você pode muito bem na rede social expressar o teu repúdio a quem eleva essas figuras do crime à condição de herói. Quando eu brinquei aí, o Oruan já anunciou que vai ser candidato a deputado federal e alguém duvida que o cara vai ganhar e vai estar sentado lá. Bom, tá cheio, já tá cheio de bandido lá, vai ter mais um. Esse pelo menos é explícito, né? Mas nós não podemos entender isso como normal, cara. Se a gente entender que isso é normal, que sempre foi assim e que isso é assim que funciona, então engula quando aparecerem 120 corpos. de cueca, convenientemente, despidos, alinhados e fotografados por um drone, num balé ali que é muito bem coreografado, que tem interesses. A ideia é que essa imagem viaje o mundo todo, que a gente mostra a condição que nós estamos aqui, para que isso sirva para um embate político. Arma política em véspera de eleição. E assim funciona. Se a gente acha que isso é normal, então vamos engolir, cara, e esperar que da próxima vez talvez seja 140, 240, 300, Isso não pode ser normal, cara. Não é normal e não pode ser aceito como normal. E a única forma de reagir é se cada um de nós manifestar a sua indignação. Sabe, nós temos que ter isso aqui, ó. A mesma audácia que os canalhas têm, a gente tem que ter também. E às vezes nós vamos ter que apelar para a lei do Italião, cara. Que pena, né, bicho? Não precisava ser assim não, né? Podia ser menos doído, mas deixamos chegar a esse ponto e ter uma conta a pagar agora. Bom, eu discuto muito esse tema aqui no mundocafébrasil.com. Vem aqui, eu tenho ali uma série de conteúdos. Muitos deles mostrando a engenharia social por trás da construção de um cenário como esse aqui, em que se relativiza o mal, né? Em que o... Como é que o outro falou lá? Tem que parar de fazer essa oposição do mal e do bem. Vai fazer o quê, cara? Deixar tudo igual? É um absurdo, né? Mas quando você chega nesse ponto, o resultado é esse que nós estamos vendo aí, cara. Uma hora... Uma hora a gente vai ser acuado. E quando a gente é acuado, a gente reage, cara. E na reação vai sobrar isso aí. Morto pra todo lado. É bom? Não é não. Pobre Brasil, cara. Vem aí o Oruan.
Host: Luciano Pires
Date: October 31, 2025
In this episode, Luciano Pires reflects on the recent deadly police operation in Rio de Janeiro that resulted in over 120 deaths, exploring the blurred lines between justice and revenge in Brazilian society. He delves into the historical roots of the "olho por olho, dente por dente" ("an eye for an eye, a tooth for a tooth") mentality, its manifestations in everyday life and culture, and its disturbing normalization in the face of escalating violence and institutional failings. Luciano challenges listeners to confront this troubling state, warning against complacency and emphasizing the risk of losing our collective humanity.
“Eu não sei o que se passa pela cabeça, pela sua cabeça. [...] O que aconteceu no Rio de Janeiro. Foi justiça ou foi vingança, cara?” (00:01)
“O Estado devolvendo, na mesma medida, a violência que recebe todos os dias das facções que dominam os morros.” (00:47)
“O limite da paciência coletiva. Aquele chega de um povo que não suporta mais ser refém do medo...” (02:04)
“Não é bonito não, mas é humano. É o grito da lei de Italião ecoando no século XXI, na mesma moeda.” (02:41)
“Quem já foi no cinema já entendeu há muito tempo esse fascínio que a lei de Italião exerce sobre cada um de nós.” (04:01)
“É o espectador, no escuro da sala ele diz assim, algo que eu não posso dizer na vida é real. Enfim, justiça. Mesmo que o preço dessa justiça seja a perda da própria humanidade.” (04:45)
“Essa cultura transforma o traficante em influencer, vê o fuzil como acessório de status... o ódio ao crime invade a cultura, a música, o cinema e especialmente os espaços políticos.” (01:34)
“Se a gente entender que isso é normal, que sempre foi assim [...] então engula quando aparecerem 120 corpos.” (07:22)
“Você tem rede social, você pode muito bem [...] expressar o teu repúdio a quem eleva essas figuras do crime à condição de herói.” (06:02)
“Tem um problema imediato acontecendo ali e não crescendo. E você só evita um problema imediato com uma ação imediata, que não é abraçar as pessoas. É retribuir o crime com aquilo que o crime produz. Olho por olho, dente por dente.” (06:50)
“Fico feliz com isso? De jeito nenhum, cara. Quero que se repita? Nunca mais.” (07:24)
“Isso não pode ser normal, cara. Não é normal e não pode ser aceito como normal. E a única forma de reagir é se cada um de nós manifestar a sua indignação.” (08:16)
“Quando você chega nesse ponto, o resultado é esse que nós estamos vendo aí, cara. Uma hora a gente vai ser acuado. E quando a gente é acuado, a gente reage, cara. E na reação vai sobrar isso aí. Morto pra todo lado. É bom? Não é não. Pobre Brasil, cara. Vem aí o Oruan.” (09:09)
“O Estado devolvendo, na mesma medida, a violência que recebe todos os dias das facções que dominam os morros.” (Luciano Pires – 00:47)
“Não é bonito não, mas é humano. É o grito da lei de Italião ecoando no século XXI, na mesma moeda. Não por prazer, mas por saturação.” (02:41)
“Quem já foi no cinema já entendeu há muito tempo esse fascínio que a lei de Italião exerce sobre cada um de nós.” (04:01)
“O que devia envergonhar a gente não é essa retaliação, não. Não é a retaliação. É o fato da gente ter deixado o crime chegar tão longe, a ponto de tornar a retaliação quase que inevitável.” (05:16)
“Se a gente entender que isso é normal... então engula quando aparecerem 120 corpos.” (07:22)
“Isso não pode ser normal, cara. Não é normal e não pode ser aceito como normal.” (08:16)
Luciano Pires speaks in a direct, impassioned manner, blending personal lament with social critique. His narrative confronts listeners with uncomfortable truths, challenges easy answers, and repeatedly returns to a central message: the true tragedy is letting crime and barbarity become routine, forcing society into cycles of retaliatory violence. He encourages self-reflection and resistance to complacency, closing with a somber hope that lessons might still be learned.
For more on this topic, Luciano invites listeners to explore deeper discussions at mundocafebrasil.com.