Transcript
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Mas para pra pensar nisso, né? Não dá pra acreditar. Você tá duvidando do que eu tô falando, cara? Vai no Spotify. Procure lá as 10 mais tocadas do Spotify, dá uma olhada no que tem ali e depois vem contar pra mim. Você vai ver a tristeza que o Brasil tá. Isso explica muito dessa pindaíba que o Brasil tá. Bom dia, boa tarde, boa noite. Meu nome é Luciano Pires e este é o seu Cafezinho.
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Muito bem, mais um cafezinho. Começa com o texto que eu vou ler aqui e publicar nas redes sociais, seguido de um comentário. Vamos a ele? Tem uma frase famosa de Nelson Rodrigues que diz assim, ó. Os idiotas vão tomar conta do mundo não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos. Cara, eu dei uma olhada no ranking das músicas mais tocadas do Spotify. Meu Deus, cara. Como é que aquelas porcarias podem estar em primeiro lugar, cara? Que horror! Quem é que consome aquilo? Bom, será que nós vamos ser derrotados pelos idiotas porque eles são em maior número, hein? E ter que engolir esse tipo de porcariada? Bom, na mesma semana eu recebo a notícia de que a polícia civil desmontou uma fazenda de visualizações. Você sabe o que é isso? Os caras ligam centenas, acho que até milhares de celulares, dia e noite, simulando gente de verdade assistindo a clipes do YouTube. Não tem ninguém no celular, ele tá automatizado ali, né? É como se fosse uma plantação. E isso não tem nada de novo, ó. Desde que existe ranking, existe alguns espertos tentando trapacear. Mas agora, com a tecnologia, a fraude virou escala industrial. Você lembra quando a rádio tocava aquela música, é porque o povo pediu? Pois é. Muitas vezes o povo só pediu depois que o Jabá entrou pela porta dos fundos. Só que hoje o Jabá ganhou esteroides, energia solar e 5G. Antes era preciso subornar um programador de rádio. Agora basta ligar 150 celulares numa tomada e fabricar um hit. E assim nascem os 10+. Não pela força da arte, mas pela força da gambiarra. Não pelo impacto cultural, mas pelo impacto elétrico de uma extensão de três metros cheia de carregadores. O problema é maior que a fraude, é a ilusão. A gente vive num mundo em que até o sucesso vem filtrado, onde números valem muito mais do que talento. Onde artistas genuinos competem com exércitos de smartphones que nunca cansam, nunca desligam. E o público segue acreditando nesses rankings, correndo atrás dos sucessos dos primeiros lugares e botando dinheiro nisso. A tecnologia prometeu democratizar tudo, mas entregou uma nova aristocracia dos algoritmos, onde quem engana melhor cresce mais rápido. No fim, ficamos com uma pergunta incômoda, cara. Quantos dos nossos sucessos do ano realmente tocaram as pessoas? E quantos só tocaram na tela de um celular ligado numa casa escondida na periferia? É pra se pensar, cara. A música continua sendo arte, mas o sucesso musical, esse aí virou um software, cara. E como todo software, é muito fácil de ser hackeado. Bom, se você tá no YouTube, é agora a hora de entrar aqui embaixo, falar que agora gostei, vamos em frente, bota um comentário, ajuda a gente a fazer ali ó, a nossa plaquinha de papel virar uma plaquinha de verdade, tá crescendo devagarinho, mas precisamos ampliar esse alcance, né? A camiseta que eu tô usando hoje, olha aqui ó, uma camiseta vermelha escrito assim, Money Talks, Bullshit Walks. Money Talks, Bullshit Walks. O dinheiro fala e a merda avança, né? A merda continua. Cara, não é novidade nenhuma, né? O que tem de novidade nessa história toda é a aparência dessas fazendas de de cliques, né? Você acabou de ver a imagem aqui de como é que funciona uma fazenda dessa. O pessoal vai lá, bota aquele milhares de celulares que ficam acessando a mesma música e vai contando como se tivesse alguém ouvindo. No final do dia, deu um número gigantesco. Por isso que você olha, vê aquele funk horroroso em primeiro lugar. Da onde vem isso? Cara, tem uma fábrica ali atrás de cliques, né? Isso vai moldando, inclusive, a opinião pública. Tem uma tese antiga que é a seguinte. Você é exposto àquilo diariamente, àquela porcaria diariamente. E aquilo acaba criando uma familiaridade. A familiaridade faz com que você relaxe. Cara, toda hora eu vejo essa porcaria, virou comum, faz parte do meu dia a dia. E no final das contas você acaba até aceitando aquilo. E no final das contas não é mais o talento que sobrevive.
