Cafezinho 708 - Pare de se enganar. Começando pelas palavras.
Host: Luciano Pires
Podcast: Cafezinho
Date: December 27, 2025
Episódio em Resumo
O episódio encerra 2025 propondo uma reflexão afiada sobre a força e o papel dos eufemismos na linguagem cotidiana, especialmente no contexto social, político e mediático. Luciano Pires analisa como palavras suavizadas e técnicas disfarçam atos contundentes, afrouxando a responsabilidade moral de quem pratica e apoia tais atos. A mensagem central é um convite para “chamar as coisas pelo nome” – com honestidade e coragem –, como caminho para a recuperação moral e social.
Pontos-Chave e Insights
O Poder dos Eufemismos na Sociedade
- Luciano destaca como substituímos termos pesados por versões “mais confortáveis para a nossa consciência”, usando exemplos do dia a dia (00:52).
- Referência a Albert Bandura, psicólogo canadense, que chama isso de "linguagem eufemística", um importante mecanismo de “desengajamento moral” (01:09).
Citação memorável
“Você chama pênis de piu-piu, morte de partida, mentira de narrativa. Funciona, cara, isso alivia, dá um descanso moral, fica menos pesado, né?” – Luciano Pires [01:25]
Eufemismos como Estratégia de Higienização
- Luciano explica que a “higienização” transforma ações agressivas e autoritárias em termos técnicos, neutros, quase virtuosos (01:48).
- Listagem de exemplos para ilustrar como o eufemismo desloca o peso moral:
- Invasão ↔ Ocupação
- Propina ↔ Negócio estruturado
- Censura ↔ Regulação
- Curadoria ideológica ↔ Checagem independente
- Guerra ↔ Operação
- Morte de inocentes ↔ Danos colaterais
Citação marcante
“Mortes de civis é um assassinato, cara. Agora danos colaterais parece lataria amassada. Uma palavra muda tudo, menos o fato.” – Luciano Pires [02:24]
O Efeito em 2025: Eufemismo nas Grandes Decisões
- Segundo Luciano, 2025 foi marcado pela aplicação “em escala industrial” destes mecanismos, especialmente na política e no Judiciário (02:35):
- Judicialização da vida nacional “embalada em termos nobres”
- Abuso virar “interpretação”; exceção virar defesa da democracia
- O vocabulário suavizado diminui o incômodo, sem mudar o impacto (02:57).
- Todos, sem exceção, constroem “ideologias morais para justificar comportamentos”, inclusive o próprio apresentador e ouvintes (03:10).
Palavras Também Constroem o Caminho de Volta
- Luciano mostra que o processo pode ser reversível: nomear corretamente as coisas é o “primeiro ato de responsabilidade” (03:32).
- Exige coragem nomear os fatos, mas só assim se reconstrói limites (03:42).
Citação motivadora
“Talvez 2026 não seja o ano da concordância, mas pode ser o ano da clareza, cara. Menos eufemismo, menos maquiagem moral, mais adultos na sala, dispostos a encarar a realidade sem precisar suavizá-la.” – Luciano Pires [03:53]
Exemplos Práticos de Troca de Palavras
- Luciano propõe testar a força das palavras, trocando expressões comuns por traduções diretas (06:03):
- “Defesa da democracia” ↔ “Restrição excepcional de direitos civis”
- “Decisão monocrática” ↔ “Decisão tomada por uma única pessoa sem debate colegiado”
- “Combate à desinformação” ↔ “Definição centralizada do que pode circular como verdade”
- “Regulação do discurso” ↔ “Limitação do que pode ser dito”
Citação didática
“Quando você troca uma pela outra, você troca a palavra, o herói vira o gestor da exceção, o sensor. E exceções têm um histórico muito ruim.” – Luciano Pires [07:17]
Conclusão e Chamada à Honestidade Linguística
- Trocar o nome não muda o ato, só altera o conforto moral de quem pratica e apoia (07:41).
- 2025 foi o “ano do eufemismo institucionalizado”; Luciano sugere que 2026 seja o “ano da tradução honesta” (07:49).
- Dar nome correto não resolve tudo, mas impede o autoengano através do dicionário (08:00).
Síntese final
“Sociedades só se recuperam quando param de se enganarem, começando pelas palavras. Portanto, em 2026, dê as coisas os nomes que elas têm.” – Luciano Pires [08:21]
Segmentos e Timestamps Relevantes
- O que é linguagem eufemística? — [01:09–01:35]
- Exemplos de higienização — [01:48–02:27]
- Eufemismo na política/judiciário em 2025 — [02:35–03:07]
- Construção/Reversão pela linguagem — [03:32–04:10]
- Testando traduções diretas nos termos políticos — [06:03–07:45]
- Chamada à ação: honestidade pelas palavras em 2026 — [08:00–08:36]
Tom Geral do Episódio
O episódio é assertivo, direto e provoca um senso de responsabilidade individual e coletiva. A voz de Luciano é ao mesmo tempo crítica e encorajadora, motivando os ouvintes a encararem a verdade das palavras, mesmo quando desconfortável.
Resumo para quem não ouviu:
Em pouco mais de 10 minutos, Luciano Pires entrega uma análise densa e prática sobre o poder dos eufemismos nas conversas, políticas e nas escolhas morais diárias. Ele mostra como a troca de palavras é capaz de moldar percepções, anestesiar consciências e institucionalizar autoengano – algo que, segundo ele, marcou o ano de 2025. Com exemplos contundentes, Luciano propõe honestidade linguística como passo inicial para qualquer processo de restauração social, sugerindo que 2026 seja o ano da clareza.
