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Ana Tuzaner
Era pouco antes das quatro horas da tarde do dia 8 de novembro de 2024, quando um avião, vindo de Maceió, pousou no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos. A bordo, um empresário jurado de morte, Antônio Vinícius Gritsbach. Acompanhado da namorada e de dois de seus seguranças particulares, ele saiu pelo portão do Terminal 2 e caminhou alguns metros. Mas ao pisar na segunda calçada da área de desembarque, foi fuzilado.
Mônica Mariotti
As câmeras de segurança registraram o momento em que dois homens encapuzados descem do carro armados de fuzil e fazem dezenas de disparos contra um homem que tenta pular a mureta, mas não consegue escapar. Os assassinos voltam para o carro e fogem. O veículo foi encontrado perto do aeroporto. Dentro havia munição de fuzil e um colete à prova de balas. Os disparos foram feitos a poucos metros do portão do terminal de desembarque. Dois homens e uma mulher que estavam aqui ficaram feridos. pessoas estavam no aeroporto presenciaram o caos e o medo na hora do atentado.
Ana Tuzaner
Além dele, um motorista de aplicativo foi atingido pelos disparos e morreu. Grits Bah era corretor de imóveis e enriqueceu rapidamente lavando dinheiro para o tráfico. operador financeiro da facção, ele conhecia as entranhas do PCC. Era suspeito de assassinar dois membros da facção e, em 2023, fechou um acordo de delação premiada.
Mônica Mariotti
Entregou ao Ministério Público nomes de bandidos do PCC e de policiais corruptos, segundo ele. Um dia antes da viagem para Alagoas, Vinícius prestou depoimento à Corregedoria da Polícia. Diz que policiais civis teriam roubado da casa dele uma bolsa com 20 mil reais em dinheiro vivo, uma espingarda e sete relógios de luxo, que somados valem mais de 700 mil reais. O empresário também acusou policiais de extorsão. Eles teriam exigido 40 milhões de reais para não prendê-lo.
Ana Tuzaner
O envolvimento de agentes públicos com o caso não para por aí. Quinze policiais militares da Ativa faziam a segurança particular de Gritsbach. E quem executou o assassinato foram PMs a mando de criminosos.
Mônica Mariotti
As investigações concluíram que o tenente Fernando Genauro dirigiu o carro que levou os atiradores até o aeroporto e que Vinícius Gritsbach foi executado por dois policiais militares, o cabo Denis Antônio Martins e o soldado Juan Silva Rodrigues. Os policiais já estão presos.
Ana Tuzaner
Ao longo dos últimos 12 meses, as investigações sobre a morte de Griezmann avançaram em diferentes frentes. E escancararam esquemas sofisticados, da corrupção de policiais à lavagem de dinheiro usando fintechs e construtoras. Uma execução cinematográfica à luz do dia que revelou a engrenagem da expansão nacional e transnacional da maior facção criminosa do Brasil. Da redação do Dia 1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é... O caso Gritsbah. Um ano da morte que abriu uma caixa de Pandora. Minha convidada é Isabela Leite, repórter da Globo News. Sexta-feira, 7 de novembro. Isa, um ano da morte do Gritsba, quem era ele? Explica pra gente.
Isabela Leite
Natuza, o Antônio Meirinços Gritsba, ele era um corretor de imóveis que atuava principalmente na Zona Leste de São Paulo, ali no bairro do Tatuapé, só que ele enriqueceu muito rápido. O que a investigação mostrou é que o Gritsbach ele conseguiu enriquecer porque ele se aproveitou da corretagem de imóveis para se aliar a traficantes ligados ao PCC ali naquela região. Ele chegou a ser sócio de um desses traficantes e depois disso ele começou a diversificar essa lista de produtos que ele oferecia para o tráfico para essa lavagem de dinheiro e oferecendo lucro. Então, além de lavar o dinheiro com a construção de móveis e compra e venda, ele também oferecia o serviço de criptomoedas. Depois de um tempo, ele acabou tendo uma desavença com um desses traficantes, o Anselmo Santa Fausta, o cara preta, E essa é uma virada muito importante na vida do Vinícius, porque aí depois ele é acusado pela morte do cara preta e passa a ser alvo de duas investigações da polícia civil, pelo homicídio e também pela lavagem de dinheiro.
Ana Tuzaner
Então, em dado momento ele tinha a polícia no rastro dele, no encalço dele, e também criminosos?
Isabela Leite
Sim, e foi justamente por isso que ele procurou o Ministério Público do Estado de São Paulo duas vezes para fechar um acordo de delação premiada. A primeira vez a delação não andou, o Ministério Público o arquivou porque houve vazamento das informações, mas depois que ele foi, Alvo de uma tentativa de atentado. Em 2023, no Natal, dispararam contra a janela da casa dele, na noite de Natal, e depois ele foi levado para o chamado Tribunal do Crime. Por causa dessa morte do cara preta, ele decidiu procurar o Ministério Público para delatar. Mas o que ficou claro, olhando todos os documentos e conversando com investigadores, é que o Vinícius trouxe informações sobre extorsão policial em relação à investigação do homicídio e também uma cobrança de propina para que o outro inquérito de lavagem de dinheiro não andasse.
Mônica Mariotti
Oito dias antes do ataque no aeroporto, Vinícius tinha feito uma denúncia à Corregedoria da Polícia Civil. Ele disse que na primeira vez em que foi preso, policiais roubaram de sua casa uma bolsa com 20 mil reais. E afirmou que levaram também uma caixa com uma coleção de relógios luxuosos, que foi devolvida, mas com cinco relógios a menos. Vinícius reconheceu um desses relógios, o mais caro deles, em várias fotos das redes sociais de um policial. Segundo Vinícius, as imagens foram apagadas depois do depoimento. O então advogado de Vinícius era Ivelson Saloto. O delator conta que o delegado Fábio Baena e outro policial do DHPP teriam feito ao advogado um pedido milionário de propena. Alguns dias depois ele falou que o Eduardo e o Baena pediram uma quantia de 30, 40 milhões de reais que eu tinha um pendrive, que eu não tinha esse pendrive. Esse Eduardo nome, por favor? Eduardo Monteiro. Chefe dos investigadores do Baena. Chefe dos investigadores do Baena.
Ana Tuzaner
Tá.
Mônica Mariotti
Em relação a esse pedido, foi um pedido feito de propina a alto nível social. pelo próprio doutor Fábio Baena presencialmente.
Isabela Leite
Ele estava muito interessado em conseguir diminuir a responsabilidade dele no processo da lavagem de dinheiro, porque ele estava com muitos bens bloqueados, muito dinheiro bloqueado e estava sentindo isso, porque ele tinha um padrão de vida muito alto e ele não estava conseguindo se sustentar. Então, a delação dele era muito vinculada às informações que ele estava passando para os promotores sobre a lavagem de dinheiro, como ele operava para o PCC, no ramo imobiliário, nas fintechs e também nas operações com criptoativos.
Ana Tuzaner
Você disse que ele chegou a ser levado para o tribunal do crime. Isso foi fisicamente ou o nome dele foi incluído na lista?
Isabela Leite
Não, ele relata de uma forma muito detalhada que ele foi levado presencialmente, ele ficou sequestrado por cerca de um, dois dias, e nesse tribunal do crime estavam membros do alto escalão do PCC que atuava na Zona Leste de São Paulo. Eu digo atuava porque Desde esse episódio do Tribunal do Crime, até ele delatar, alguns deles foram mortos. Por exemplo, o Maeda, que era conhecido como Japa, japonês do PCC, ele morreu. E ele é apontado pelo Gritsba, como uma das pessoas que estava ali no Tribunal do Crime.
Mônica Mariotti
Ele negou participação e afirmou que foi sequestrado e ameaçado de morte por membros do PCC. Nesse momento, ele levantou e pôs a.
Isabela Leite
Arma na minha cabeça.
Mônica Mariotti
E falou, se você errar a senha mais uma vez, eu sei que você quer apagar o celular, eu vou te matar aqui mesmo.
Isabela Leite
Esse tribunal do crime, segundo ele, tinha um único objetivo, saber onde estava o dinheiro que ele havia recebido do Anselmo Santa Fausta, o cara preta, para operar criptomoedas. O Vinícius diz que não sabia onde estava esse dinheiro, que ele não tinha na nenhuma operação com criptoativos. Isso na delação. Mas esses traficantes entendiam que ele tinha roubado o dinheiro do cara preto e que não devolveu esse dinheiro. Então, ele foi cobrado pelo tráfico, mas só ele detinha essas informações. A operação com criptomoedas depende muito de chaves, acessos, que não é qualquer um que tenha. E, nesse caso, só o Vinícius teria essa informação.
Ana Tuzaner
Impressiona ele não ter sido executado nessa ocasião, né?
Isabela Leite
É justamente por causa dessa informação que os investigadores entendem que ele não foi executado naquele momento.
Ana Tuzaner
Porque ele tinha a chave de acesso ao dinheiro.
Isabela Leite
Exatamente. E até hoje, Natuza, a gente ainda não teve revelada essa informação, se de fato o Gritsba estava com esse dinheiro em poder dele, se ele teve lucro ou se ele teve prejuízo ou se ele transferiu para alguém. Isso é o escopo de uma nova frente de investigação do Ministério Público que ainda está em andamento e não foi resolvida.
Ana Tuzaner
Agora, por que se diz, Isa, que esse caso, essa execução dele abriu uma caixa de Pandora?
Isabela Leite
Eu acho muito interessante usar esse termo para definir o caso do Gritsba, como uma caixa de Pandora, porque a gente precisa dividir o que o Gritsba já trazia de informações em relação ao funcionamento do crime organizado. Nessa infiltração mesmo do PCC nas instituições públicas, nessas novas modalidades de lavagem de dinheiro. Então, quando ele procura o Ministério Público para delatar, depois de ter sido alvo desse tribunal do crime, desse atentado, e ser indiciado pelo homicídio do cara preta e também responder por um processo de lavagem de dinheiro, ele já trouxe para o Ministério Público muitas informações. denúncias, distorções envolvendo policiais civis, e aí eu tô falando de chefes de delegacia, chefes de investigações. Ele também trazia indícios de lavagem de dinheiro do PCC pelo futebol, como que o PCC entendia uma nova forma de lavar dinheiro no ramo imobiliário. Então, ele era sócio dos traficantes e incorporadoras, construía os prédios, vendia os apartamentos e usava as fintechs para poder incluir esse dinheiro, inserir esse dinheiro na economia formal.
Mônica Mariotti
As investigações apontam que ele disfarçou a origem ilícita de cerca de 30 milhões de reais para o tráfico de drogas. Gritsbach também era investigado por mandar matar dois integrantes do grupo criminoso em 2021. A Janselmo Ubtieli Santa Fausta, conhecido como o cara preta e do motorista dele. A investigação do Ministério Público apontou que o membro do PCC chegou a dar 200 milhões para Vinícius investir em criptomoedas. Em 2021, pediu dinheiro de volta, mas não recebeu. Os dois discutiram.
Isabela Leite
E tudo isso depois veio à tona em outras operações que a gente mostrou muito aqui. Só que essas informações estavam muito restritas ao grupo de promotores que estavam negociando essa delação. Ele homologou a delação em abril e foi executado em novembro. Então eles ainda estavam fazendo essa investigação, pegando algumas provas, demandando do Vinícius também outras provas, porque a gente sabe que a delação só para de pé quando o delator de fato apresenta essas provas.
Ana Tuzaner
E talvez muita gente não saiba que quando alguém decide delatar, Primeiro se negocia os termos, o que vai ser contado, e aí sim, só depois disso, começa o depoimento. E esse depoimento pode durar meses, até ano, ou mais do que isso, porque você pega, começa a investigar alguma coisa, surge algo, você chama o delator. entra numa nova frente de investigação, surge uma novidade, você chama novamente o delator. Então, esse processo de delação pode demorar um tempão.
Isabela Leite
E o próprio advogado do Vinícius, que estava com ele na época da execução no aeroporto, o doutor Alexi Gisacarelli, ele deu uma entrevista pra gente no Estúdio I cinco ou quatro dias depois do crime, e ele até foi perguntado sobre isso, se o Vinícius tinha mais a delatar.
Mônica Mariotti
A delação, a colaboração ainda estava em curso. Pergunto ao senhor, quanto tempo, qual era a previsão desse cronograma? Quanto tempo mais ele ia continuar delatando e colaborando com a Justiça? É difícil te falar de tempo estimado, porque sempre ele prestava uma informação Talvez dessa informação surgisse uma operação e talvez ocorresse um desdobramento. Mas tinha mais coisas a serem delatadas? Não, tinha mais coisas, sem dúvida. Mas assim, não sei te falar, estimar em tempo, mas estava em curso, sim. O que eu posso afirmar para vocês é que dentro do contexto da delação, havia uma série de denúncias gravíssimas envolvendo inúmeras pessoas. Se você perguntar, havia uma lista de pessoas querendo, de fato, que tinha interesse na morte do Vinícius. Isso aí, sem dúvida nenhuma. Como eu disse, um dos promotores de justiça é o arquivo vivo.
Isabela Leite
Mas quando o Vinícius é executado na Tusa, no aeroporto de Guarulhos, que é o maior aeroporto aqui do Brasil, numa sexta-feira à tarde, muito movimento, traz também um outro elemento de investigações que a gente vinha acompanhando no paralelo, que é o envolvimento de policiais militares de São Paulo com o PCC. Primeiro porque a escolta particular do Vinícius era formada por 15 policiais militares da Ativa. da Polícia Militar de São Paulo. Então, isso já acendeu um sinal de aleta logo nas primeiras horas.
Ana Tuzaner
Isso na escolta particular dele, não a que foi disponibilizada ou seria disponibilizada no momento em que ele se torna delator.
Isabela Leite
Não, até isso é algo muito enfatizado pelo Ministério Público, porque quando o Vinícius se coloca nessa posição de delator, o Gaeco oferece o sistema de proteção para testemunha, mas para você entrar nesse programa, você precisa praticamente mudar de vida, então ele não poderia continuar morando no apartamento que ele morava, ter a mesma rotina que ele tinha, e ele negou a inclusão do nome dele nesse programa. Ele disse que ele preferia, por conta própria, se garantir com a sua segurança privada. E essa segurança privada, ela era formada por uma equipe de cerca de 15 policiais militares.
Ana Tuzaner
Estranhíssimo isso você nos contar que eram PMs da Ativa.
Isabela Leite
Isso foi uma das principais surpresas, porque isso ficou claro ali logo depois do crime, porque ele desembarcou de um voo de Alagoas em Guarulhos acompanhado de um policial que foi viajar com ele e tinham outros policiais que estavam ao aguardo dele ali no aeroporto. Então, quando a investigação chegou, isso já ficou evidente.
Mônica Mariotti
O Ministério Público Militar denunciou à Justiça Militar os 18 policiais da ativa envolvidos na escolta e na morte do delator do PCC Vinícius Gritschbach. O MP acusa os PMs de promover e integrar uma organização criminosa que envolvia dois núcleos. O de segurança, que era responsável pela proteção armada e apoio logístico a Gritsbach, que lavava dinheiro para o PCC. E o de execução, que ficou encarregado do assassinato do delator. Um dos policiais foi acusado de manipular registros internos de escala e falsificar documentos oficiais para encobrir os crimes. O Ministério Público Militar também pediu a manutenção das prisões cautelares dos policiais devido à gravidade dos crimes e ao risco de comprometimento da investigação.
Isabela Leite
Esses policiais faziam escolta há meses e eram gerenciados por um tenente também da ativa. E depois, ao longo da investigação, a gente teve uma outra frente que apontou o envolvimento de policiais militares também no assassinato, porque o António Vinícius Gritschbach foi executado, segundo a Polícia Civil, por dois policiais militares e um terceiro policial estava ao volante do carro que depois os ajudou na fuga. A motivação do crime realmente foi uma vingança à morte do cara preto e do sem-sangue, que foi amplamente divulgado como membro do PCC. O Cigarreira e o Didi, eles eram amigos pessoais e por isso eles foram vingar a morte.
Mônica Mariotti
As investigações também concluíram que o tenente Fernando Genauro dirigiu o carro que levou os atiradores até o aeroporto e que Vinícius Gritsbach foi executado por dois policiais militares, o cabo Denis Antônio Martins e o soldado Juan Silva Rodrigues. Os policiais já estão presos.
Ana Tuzaner
Talvez o mais importante, Isa, o que ainda falta saber sobre esse assassinato?
Isabela Leite
Falta bastante coisa, Natuza. Eu estava estudando e pesquisando bastante, conversei com muita gente envolvida nessa investigação nas últimas semanas, até para preparar para esse ano, para a gente entender um pouco mais essa realidade, e tem bastante coisa que precisa ser esclarecida. O foco na primeira fase de investigação foi justamente identificar quem eram os executores, os mandantes e se já era possível identificar uma motivação. A Polícia Civil de São Paulo ficou responsável pela investigação do homicídio. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, o DHPP, assumiu esse inquérito. No meio do primeiro semestre de Xana, eles relataram, concluíram essa primeira fase da investigação e apontaram, então, que esses três policiais militares que executaram o plano, mataram o Vinícius Gritsba, já estavam muito ali inseridos na cena do crime, mas também a polícia atrás outras três pessoas nesse primeiro indiciamento, que são um olheiro, uma pessoa ligada ao PCC, que foi flagrada nas câmeras de segurança acompanhando a saída do Vinícius e indicando o momento que ele estava deixando o desembarque do Terminal 2 do aeroporto e se dirigindo àquela parte do desembarque, que a gente tem duas faixas para táxis, para transporte por aplicativo, e também os dois mandantes. Esses mandantes são um homem conhecido como Cigarreira e também o Emílio Carlos Gongorra, o Cigarreira, e um outro mandante que é o Diego Amaral, o Didi. Esses dois mandantes, segundo a Polícia Civil, tiveram como motivação uma vingança pelo homicídio do Anselmo Santa Fausta, o cara preta. Eles reuniram alguns depoimentos que, principalmente o Cigarreira, nunca perdoou, nunca admitiu esse assassinato. E o Cigarreira, segundo o Vinícius, estava naquele tribunal do crime. Então foram muitas provas, aqui a gente poderia ficar falando horas de todos os elementos, todas as imagens de segurança, todos os depoimentos que a polícia civil coletou, mas eles apontam com bastante certeza que a motivação do crime foi uma vingança pela morte do cara preto.
Ana Tuzaner
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Isa Leite. E o que aconteceu com os dois mandantes?
Isabela Leite
Estão foragidos. A polícia civil, depois do indiciamento e a ordem de prisão, não conseguiu rastrear o caminho do Didi, mas conseguiu monitorar, por exemplo, que o Cigarreira, na véspera do crime, fretou um avião saindo de Jundiaí com direção ao Rio de Janeiro. E essa informação é muito relevante porque o Cigarreira era uma pessoa que conseguia se relacionar muito bem com o PCC e com o Comando Vermelho. Então, a gente já tinha essa informação logo nos primeiros meses da investigação que o Cigarreira provavelmente estava abrigado no complexo da Penha.
Ana Tuzaner
Onde aconteceu agora há pouco a mega-operação no Rio de Janeiro.
Isabela Leite
Sim, e tem mais um elemento corroborando de como o Comando Vermelho abrigou esses mandantes. Porque nesse monitoramento, a Polícia Civil também conseguiu rastrear e gravar em imagens, em fotos e vídeos, a presença do Cauê, que é o Olheiro, que também está foragido nessa mesma região.
Mônica Mariotti
A polícia indiciou seis pessoas por homicídio doloso, ou seja, com intenção de matar. Emílio Carlos Gongorra, o Cigarreira e Diego Amaral, o Didi, são apontados como mandantes. E Cauê Amaral seria o olheiro no aeroporto e elo entre os executores e os mandantes do crime.
Isabela Leite
Então, os executores, que são os policiais militares, estão presos, os três. Já ouvi pronúncia para o tribunal do júri, mas esses outros três são foragidos. Estão com prisão decretada, mas estão foragidos.
Ana Tuzaner
O envolvimento de policiais nessa trama toda, de alguma forma fez com que a polícia mudasse alguns dos seus protocolos ou que punisse esses que trabalhavam, por exemplo, na segurança do Gritspa?
Isabela Leite
Bom, nas primeiras semanas a gente percebeu um total desconforto de todos os comandantes, até mesmo do próprio secretário de Segurança Pública. Claro que eles sempre reinteravam que era uma exceção, isso não era uma regra para a tropa toda. A gente teve diferentes punições. No caso dos policiais militares que faziam a escolta, a escolta é considerada ilegal dentro da Polícia Militar de São Paulo. Não é permitido nenhum tipo de bico. Ainda mais segurança de um delator do PCC. Isso foi colocado, literalmente, pelo próprio secretário de Segurança Pública, o Guilherme De Ritt, na época. Então, eles responderam um procedimento da Corregidoria da Polícia Militar e hoje respondem na Justiça Militar por essa escolta ilegal, por falsidade ideológica, organização criminosa. Crimes militares. Os outros três policiais que foram flagrados na execução, eles vão responder na Justiça Comum, na Justiça Criminal, por ser um crime contra a vida.
Mônica Mariotti
Ao todo, 41 pessoas são investigadas, sendo que 27 são policiais. Das 41, 4 estão foragidas, 33 estão presas e 4 respondem em liberdade. Polícia Civil investiga 11 pessoas por envolvimento na morte do Gritsbah. Já a Polícia Militar investiga 18 por fazerem a escolta do delator e venderem informações. Os investigados aqui, no caso da Polícia Militar, são todos PMs. e 15 são investigados pela Polícia Federal por corrupção policial e lavagem de dinheiro.
Isabela Leite
O que a gente percebeu, e pra gente não é muito claro, que houve um movimento pra diminuir os riscos depois de um caso como o do Vinícius, mas o governo do estado primeiro montou uma força-tarefa unindo polícia civil, polícia militar, Ministério Público resolver essa situação e já dar uma resposta para a sociedade em relação a isso, afastando os policiais, identificando e prendendo os policiais. E, nos últimos tempos, o que a gente percebe no caso da polícia militar é um esforço do governo de melhorar a carreira, de melhorar os salários, de aprovar projetos na Assembleia Legislativa que deixem a carreira da Polícia Militar mais atrativa e também com mais concursos, uma remuneração melhor, para evitar que esses agentes possam ser cooptados e receberem uma proposta mais atrativa, enfim, do crime organizado. No caso da Polícia Civil, foi algo diferente porque quem assumiu a investigação em relação à corrupção dos policiais civis foi a Polícia Federal, porque eles se dedicaram à lavagem de dinheiro. O Vinícius já tinha denunciado tudo isso para a Corregedoria da Polícia Civil, Mas esse procedimento não andou. Depois da execução e a delação vindo à tona, essa investigação correu pela Polícia Federal. Ao todo, nove policiais civis foram presos, envolvidos nesses esquemas de extorsão ou também outras denúncias que o Vinícius fez e que depois a Polícia Federal e a Polícia Civil e o Ministério Público investigaram. E também há um projeto de uma reforma do presídio, da Polícia Civil aqui de São Paulo também, porque eles tiveram um episódio de uma operação no presídio envolvendo esses policiais civis, em que eles encontraram drogas, celulares, até mesmo a gente tem informação de fonte de que eles estavam fazendo um churrasco e bebendo cerveja gelada presos.
Mônica Mariotti
A corregidoria da Polícia Civil de São Paulo afastou o diretor do presídio especial da instituição depois que drogas e mais de 20 celulares foram encontrados dentro da cadeia na Zona Norte da capital paulista. O delegado Guilherme Solano Filho chefiava o presídio especial da Polícia Civil desde 2020. As investigações apontam que alguns aparelhos eram usados por policiais suspeitos de extorquir dinheiro de Vinícius Gritsbach, o delator do PCC morto no aeroporto de Guarulhos no ano passado. Existe uma pressão para que o local seja interditado diante de todas as irregularidades que foram encontradas.
Isabela Leite
Então isso também causou um constrangimento, o diretor do presídio foi exonerado e eles começaram a tomar outras medidas. Se você me permite, Natuza, só para fazer um complemento do que ainda precisa ser esclarecido. Porque há a possibilidade de outros envolvidos na morte do Vinícius, seja como o financiamento. Então, o ex-sócio dele pode estar envolvido. O Vinícius foi até Alagoas buscar joias, milhares de reais em joias. E essas joias eram do ex-sócio dele, o Pablo Borges, que era quem tinha operado também as criptomoedas do cara preto. Então, eles conseguiram fazer alguns rastreamentos dessas ligações que o Vinicius fez durante essa viagem, essas joias que foram entregues a ele. que não constam nessa primeira fase de investigação. Então, a Polícia Civil já diz que há indícios de que ele tenha sido atraído para Alagoas para pegar essas joias, que seriam o pagamento de uma dívida que ele tinha com o ex-sócio e, no retorno, ele estaria mais vulnerável para ser alvo desse atentado. Mas tem várias outras coisas também, se essa escolta da polícia militar foi omissa, foi negligente, porque um carro quebrou próximo ao aeroporto e não foi buscá-lo, era o carro que tinha uma blindagem melhor. O policial militar que o acompanhava, ali na formação de escolta, ele estava atrás do Vinícius e não à frente quando os disparos foram feitos. ele sequer sacou a arma, ele saiu correndo para a direção contrária de onde estava o Vinícius. Então, tudo isso ainda está sendo investigado, mas como eram muitas coisas a serem investigadas e o foco era descobrir quem matou e por quê, isso já é bojo de uma outra investigação. Mas a própria Polícia Civil, o Ministério Público de São Paulo admitem que ainda há muitas pontas soltas e que essa caixa de Pandora ainda tem muita coisa a revelar nos próximos anos.
Ana Tuzaner
Ainda tem muitos demônios a saírem dela, né, Isa?
Isabela Leite
Sim, a gente vai seguir acompanhando porque muito do que o Vinícius trouxe vem aparecendo nas operações que a gente tem acompanhado. A Carbonoculto, por exemplo, um dos alvos tinha uma ligação muito forte com o Vinícius nessa operação de fundos de investimento. de fintechs, então aquilo que ele foi trazendo ali aos poucos foi se consolidando e mostrando essa sofisticação do que tem sido chamado de nova modalidade de lavagem de dinheiro para o PCC.
Ana Tuzaner
Isa, muito impressionante o relato que você nos traz, eu sei que você tem muitas fontes e por isso traz uma... conta uma história de maneira tão vívida, te agradeço muito.
Isabela Leite
Eu que agradeço, é um prazer estar aqui com você mais uma vez de um assunto que tem sido muito interessante para mim como jornalista, mas também para acompanhar essa investigação porque está mostrando o que a gente ainda precisa encarar em relação ao crime organizado.
Ana Tuzaner
E o tamanho dessa encrenca, né? Sim. Obrigada, Isa. Beijo grande.
Isabela Leite
Beijo.
Ana Tuzaner
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 7 de novembro de 2025
Host: Ana Tuzaner
Convidada: Isabela Leite (repórter, GloboNews)
Tema: Um ano do assassinato de Antônio Vinícius Gritzbach, operador financeiro do PCC, e as múltiplas camadas de corrupção e lavagem de dinheiro expostas pelo caso.
Neste episódio, o podcast revisita a execução de Vinícius Gritzbach, corretor de imóveis e operador financeiro do PCC, assassinado no aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024. O caso, descrito como uma "caixa de Pandora", escancarou conexões entre crime organizado, corrupção policial e esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro, revelando a complexidade da penetração do PCC em instituições públicas e no mercado financeiro. A jornalista Isabela Leite relata em detalhes a trajetória de Gritzbach, bastidores da investigação e os desdobramentos ainda em aberto.
O assassinato de Vinícius Gritzbach, em pleno aeroporto internacional, deflagrou uma crise que expõe a fundo a convergência entre crime organizado, corrupção institucionalizada e os obstáculos para o Estado combater a escalada do PCC. A investigação trouxe à tona esquemas empresariais, uso de tecnologia financeira e participação policial em várias camadas, tornando evidente que o escândalo está longe de se encerrar.
“Essa caixa de Pandora ainda tem muita coisa a revelar nos próximos anos.” — Isabela Leite [27:36]