O Assunto – 1 Ano do Caso Gritzbach: A Caixa de Pandora
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 7 de novembro de 2025
Host: Ana Tuzaner
Convidada: Isabela Leite (repórter, GloboNews)
Tema: Um ano do assassinato de Antônio Vinícius Gritzbach, operador financeiro do PCC, e as múltiplas camadas de corrupção e lavagem de dinheiro expostas pelo caso.
Visão Geral do Episódio
Neste episódio, o podcast revisita a execução de Vinícius Gritzbach, corretor de imóveis e operador financeiro do PCC, assassinado no aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024. O caso, descrito como uma "caixa de Pandora", escancarou conexões entre crime organizado, corrupção policial e esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro, revelando a complexidade da penetração do PCC em instituições públicas e no mercado financeiro. A jornalista Isabela Leite relata em detalhes a trajetória de Gritzbach, bastidores da investigação e os desdobramentos ainda em aberto.
Principais Pontos e Discussões
1. A Execução de Vinícius Gritzbach (00:02 – 01:34)
- O assassinato: Gritzbach foi fuzilado à luz do dia, ao desembarcar em Guarulhos vindo de Maceió, acompanhado da namorada e seguranças.
- A cena: Dois encapuzados armados com fuzis desceram de um carro e dispararam dezenas de vezes a poucos metros do terminal, causando pânico e deixando outras vítimas.
- Conexão criminal: Gritzbach era corretor de imóveis, rapidamente enriquecido lavando dinheiro para o PCC. Tinha envolvimento direto com traficantes, fintechs e o uso de criptoativos.
- Delação e ameaças: Era suspeito de matar integrantes do PCC e, em 2023, fez delação premiada, revelando nomes de criminosos e policiais corruptos.
2. Corrupção Policial e Delação Explosiva (01:34 – 06:49)
- Relação com policiais corrompidos: Gritzbach denunciou extorsões – segundo seus relatos, policiais civis roubaram bens de sua casa e exigiram propinas altíssimas para evitar sua prisão.
- “Esquema policial” revelado: “[Os policiais] teriam exigido 40 milhões de reais para não prendê-lo” – Ana Tuzaner (01:34).
- Rede de proteção questionável: Cerca de 15 PMs da ativa faziam sua escolta particular — e parte da própria polícia militar esteve envolvida na execução.
- Imbróglio no MP: A primeira delação de Gritzbach vazou e foi arquivada; só após uma tentativa de atentado e sequestro pelo “tribunal do crime” do PCC é que uma nova rodada de colaboração começou.
3. O “Tribunal do Crime” e o Dinheiro Perdido (07:24 – 09:17)
- Sequestro e tortura: Gritzbach foi mantido em cativeiro por chefes do PCC, pressionado sobre o paradeiro de milhões investidos em criptoativos.
- Detalhe importante: “Se você errar a senha mais uma vez, eu sei que você quer apagar o celular, eu vou te matar aqui mesmo.” — Mônica Mariotti relatando fala do sequestro (08:17).
- Razão de sobrevivência: Só não foi executado porque os criminosos acreditavam que só ele tinha acesso às chaves de grandes somas em criptoativos.
4. A “Caixa de Pandora” e seus Efeitos (09:39 – 12:37)
- Termo explicado: O caso abriu inúmeras frentes – da corrupção policial em alto escalão à lavagem de dinheiro sofisticada via fintechs, construtoras e até o futebol.
- Desdobramentos e ameaças: O próprio advogado de Gritzbach relatou que havia “uma lista de pessoas querendo, de fato, a morte do Vinícius. Isso aí, sem dúvida nenhuma.” — Dr. Alexi Gisacarelli (13:05).
- Delação inacabada: A colaboração estava em curso na época do assassinato; muitos detalhes nunca serão revelados em depoimento, e novos crimes continuam a surgir.
5. O Envolvimento Policial e o Assassinato (13:35 – 17:17)
- Escolta irregular: Confirmado que o empresário recusou entrar no programa oficial de proteção, preferindo pagar PMs da ativa – uma prática ilegal.
- Policiais na execução: A investigação aponta que os próprios policiais que faziam a segurança de Gritzbach participaram da logística e do crime:
- O tenente Fernando Genauro dirigiu o carro da fuga.
- O cabo Denis Antônio Martins e o soldado Juan Silva Rodrigues fizeram os disparos.
- Todos já se encontram presos.
- Mandantes ainda soltos: Mandantes identificados (Cigarreira e Didi) estão foragidos, com possíveis conexões com o Comando Vermelho no Rio de Janeiro.
6. Investigação, Foragidos e Aprendizados (17:17 – 27:36)
- Foco inicial: Identificar atiradores, mandantes e motivação (vingança pelo assassinato de “cara preta”, membro do PCC).
- Força-tarefa e reações institucionais: Governo estadual reuniu Polícia Civil, Militar e MP para resposta rápida e para afastamento/punição dos policiais.
- Mudança de protocolos: Casos de escolta privada por PMs geraram novos procedimentos disciplinares; há esforços por melhorias na carreira para evitar aliciamento pelo crime.
- Corrupção no sistema prisional: Prisão especial de policiais civis teve escândalos (drogas, celulares, festas) e debandada de diretores.
- Pontas soltas: Sobre o ex-sócio, rastreamento de joias em Alagoas, suposta omissão da escolta, detalhes da execução... tudo ainda sob investigação.
Notas e Momentos-Chave
- [03:33] Isabela Leite detalha a trajetória de enriquecimento de Gritzbach, relações com traficantes, e como ele acabou delatando integrantes do PCC e policiais.
- “O que a investigação mostrou é que o Gritsbach... se aproveitou da corretagem de imóveis para se aliar a traficantes ligados ao PCC...”
- [07:32] A jornalista narra o sequestro e o “tribunal do crime”.
- “Ele foi levado presencialmente, ficou sequestrado por cerca de um, dois dias... estavam membros do alto escalão do PCC.”
- [09:48] Sobre o simbolismo do caso:
- “Eu acho muito interessante usar esse termo [caixa de Pandora]... trazia informações sobre infiltração do PCC nas instituições, novas modalidades de lavagem de dinheiro...” — Isabela Leite
- [16:14] Explicação sobre os policiais envolvidos nos dois núcleos: segurança e execução.
- [19:50] Mandantes identificados permanecem foragidos, com possível abrigo do Comando Vermelho no RJ.
- [21:22] Debates sobre mudanças institucionais, punições e resposta oficial às irregularidades policiais.
- “No caso da Polícia Militar que faziam a escolta, a escolta é considerada ilegal...” — Isabela Leite
- [27:36] Sobre pontas soltas, possíveis outros envolvidos e limitações da investigação:
- “A própria Polícia Civil, o Ministério Público admitem que ainda há muitas pontas soltas e que essa caixa de Pandora ainda tem muita coisa a revelar nos próximos anos.” — Isabela Leite
Frases Notáveis e Citações
- “Uma execução cinematográfica à luz do dia que revelou a engrenagem da expansão nacional e transnacional da maior facção criminosa do Brasil.” — Ana Tuzaner [02:37]
- “No contexto da delação, havia uma série de denúncias gravíssimas envolvendo inúmeras pessoas... havia uma lista de pessoas querendo, de fato, que tinha interesse na morte do Vinícius.” — Dr. Alexi Gisacarelli, advogado [13:05]
- “É muito interessante usar esse termo ‘caixa de Pandora’... precisamos dividir o que o Gritsba trazia de informações sobre o funcionamento do crime organizado, infiltração do PCC nas instituições, novas modalidades de lavagem de dinheiro.” — Isabela Leite [09:48]
- “A delação, a colaboração ainda estava em curso... tinha mais coisas a serem delatadas? Não, tinha mais coisas, sem dúvida.” — Dr. Alexi Gisacarelli [12:37]
- “A Polícia Militar investiga 18 por fazerem a escolta do delator e venderem informações. Os investigados aqui, no caso da Polícia Militar, são todos PMs. e 15 são investigados pela Polícia Federal por corrupção policial e lavagem de dinheiro.” — Mônica Mariotti [22:35]
Timestamps de Segmentos Relevantes
- 00:02–01:34: Descrição do assassinato e cenário do crime.
- 03:33–04:38: Contexto do enriquecimento e carreira criminosa de Gritzbach.
- 04:38–06:49: Delação e denúncias de extorsão policial.
- 07:24–09:17: Sequestro no tribunal do crime do PCC.
- 09:39–12:37: Por que o caso é uma ‘caixa de Pandora’ e implicações da delação.
- 13:35–16:58: Escolta ilegal, participação de PMs e detalhes do envolvimento policial.
- 17:17–19:40: Mandantes do crime e processos judiciais.
- 21:22–23:11: Mudanças de protocolo policial e ações do governo.
- 25:39–27:36: Perspectivas da investigação, pontas soltas, e desafios futuros.
Conclusão
O assassinato de Vinícius Gritzbach, em pleno aeroporto internacional, deflagrou uma crise que expõe a fundo a convergência entre crime organizado, corrupção institucionalizada e os obstáculos para o Estado combater a escalada do PCC. A investigação trouxe à tona esquemas empresariais, uso de tecnologia financeira e participação policial em várias camadas, tornando evidente que o escândalo está longe de se encerrar.
“Essa caixa de Pandora ainda tem muita coisa a revelar nos próximos anos.” — Isabela Leite [27:36]
Referências
- Playlist comemorativa de 5 anos do O Assunto: "This Is O Assunto" no Spotify
