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Volodymyr Zelensky
Tim Black, um plano exclusivo pra você descobrir a sua melhor versão.
Ana Tuzaneri
8 de setembro, Polônia.
Narrator/Reporter
Cerca de 20 drones sobrevoaram o território. Alguns foram abatidos por caças da OTAN.
Ana Tuzaneri
Quatro dias depois, Romênia.
Narrator/Reporter
Um drone atravessou a fronteira.
Ana Tuzaneri
E na Estônia, no dia 19, até caças foram vistos no céu.
Narrator/Reporter
A operação envolveu três caças MiG-31. Eles permaneceram por 12 minutos sem permissão nessa área chamada Golfo da Finlândia.
Ana Tuzaneri
Seis dias se passaram e veio então a Dinamarca.
Narrator/Reporter
Imagens mostram as luzes de um drone sobrevoando o aeroporto de Alborg, o terceiro maior do país. O espaço aéreo da região ficou fechado por cerca de quatro horas. O aeroporto também é usado como base aérea militar. Três aeroportos menores identificaram atividade semelhante.
Ana Tuzaneri
Desde o começo do mês, sinais de ameaça cruzam os céus da Europa.
European Official
Autoridades europeias falam em um padrão de provocações que expõe a vulnerabilidade do espaço aéreo europeu e causa ansiedade na população.
Ana Tuzaneri
E sem demora, os dedos foram apontados para um ponto específico do mapa.
European Official
A primeira-ministra dinamarquesa lançou suspeitas sobre a Rússia, embora o Kremlin negue qualquer envolvimento.
Narrator/Reporter
Disse que foi o ataque mais severo nos últimos tempos contra a infraestrutura do país.
Ana Tuzaneri
Eventos que levaram a Alemanha a se posicionar.
European Official
O ministro da defesa da Alemanha disse que a Europa não vai cair nas provocações do presidente russo.
Ana Tuzaneri
Uma desconfiança que para o presidente da Ucrânia se trata de uma certeza. Volodymyr Zelensky, do púlpito da Assembleia Geral da ONU, fez um apelo com ares de alerta na última quinta-feira. Deter Putin agora vai sair mais barato do que tentar freá-lo depois.
Volodymyr Zelensky
Estamos vivendo a corrida armamentista mais destrutiva da história da humanidade, porque desta vez ela inclui a inteligência artificial", disse Zelensky.
Ana Tuzaneri
Um alerta antigo, mas cujos contornos vão ficando cada vez mais claros.
Volodymyr Zelensky
Como sempre faz, o presidente ucraniano voltou a avisar o mundo que se a Rússia vencer, vai querer invadir outros países, e citou as recentes invasões de drones russos ao espaço aéreo de países europeus membros da OTAN. E se não houver garantias reais de segurança, exceto amigos e armas, e se o mundo não conseguir sequer responder a todas as ameaças, O líder ucraniano falou.
Ana Tuzaneri
Olhando para o mundo, mas mirava em seus vizinhos europeus.
Feliciano de Sagmarans
Zelensky também usou o discurso na Assembleia Geral para acusar o presidente russo, Vladimir Putin, de querer expandir o conflito para o Ocidente. Diz que a Ucrânia foi só a primeira vítima.
Ana Tuzaneri
As incursões no espaço aéreo da Europa acenderam o sinal amarelo no continente. Os países que registraram a presença de drones fazem parte da OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte. É uma aliança militar entre nações da Europa e da América do Norte. Fazer parte do bloco é um pleito da Ucrânia. Mas a Rússia é contra.
Military Expert
Em 1949, 12 países criaram a Aliança Militar. O objetivo era conter a expansão da União Soviética. De lá para cá, a Aliança ganhou mais 20 signatários, se fortalecendo. A Ucrânia há tempos quer entrar para a Aliança. E a Rússia entende isso como ameaça. Por isso, alega que não teve outra opção a não ser invadir o país para se defender.
European Official
O presidente ucraniano disse que Vladimir Putin está testando as defesas da OTAN e se preparando para um conflito maior. Ele abrirá outras direções. Ninguém sabe onde, alertou Volodymyr Zelensky.
Ana Tuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a ameaça de drones no espaço aéreo europeu. Neste episódio, eu converso com Feliciano de Sagmarans, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP. Terça-feira, 30 de setembro. Feliciano, quais os indícios concretos de que a Rússia está por trás dessa onda de drones pela Europa?
Feliciano de Sagmarans
Olha, nós ainda não temos os indícios concretos dados pela mídia, pelo menos europeia. O que se coloca é sempre que a Rússia tem testado a defesa antiaérea e a coordenação dos países da OTAN com esses drones que tem invadido a Polônia, mas também a Dinamarca e os países bálticos também. Dificilmente as forças militares da OTAN colocariam provas cabais de que esses drones são russos o que vem da Rússia, mas é muito provável que eles sejam russos e que a Rússia esteja fazendo isso, testando a capacidade de resposta da OTAN a esses ataques dos drones.
Ana Tuzaneri
Assumindo aqui que esses drones sejam russos e que a Rússia está testando defesas antiaéreas, fazendo com que esses drones sobrevoem os países da OTAN, quais seriam as implicações disso, os riscos disso e os simbolismos disso?
Feliciano de Sagmarans
Primeiros riscos, eu acho que pequenos drones, que é provavelmente o que a Rússia tem utilizado, eles servem para você testar buracos na defesa antiaérea ou incoerência na resposta conjunta dos países. Lembre-se que a OTAN é uma coalizão de segurança coletiva. Tem o artigo 5 que diz, um é atacado, todos são atacados, logo a resposta tem que ser coletiva.
Volodymyr Zelensky
O primeiro-ministro da Polônia disse que foram 19 violações em sete horas e que o país nunca teve tão perto de um conflito armado desde a Segunda Guerra Mundial. Por causa desse ataque, o governo polonês acionou o artigo 4 da OTAN. Esse artigo é um mecanismo de segurança coletiva para quando um integrante da Aliança sentir que a sua segurança está em risco.
Narrator/Reporter
A Estônia chamou a ação russa de descarada e acionou o artigo 4º da Aliança Militar. Esse dispositivo permite que os membros da organização abram consultas urgentes para discutir uma resposta diante de ameaças.
European Official
Esta é a sétima vez que o artigo é evocado desde a criação da OTAN em 1949. A última delas havia sido em 2022, também por conta da guerra entre Rússia e Ucrânia.
Feliciano de Sagmarans
Agora a Altan sempre teve dificuldades, como qualquer aliança dessa natureza, de coordenar as suas ações. Agora você tem novos membros da Altan também, como Suécia, Finlândia, então isso também altera um pouco a lógica da resposta. Então, sendo a hipótese mais plausível que sejam drones russos, ela vai testando isso. O risco é de você errar esse teste. Porque são pequenos drones, né, e você tem uma resposta excessiva do lado da OTAN, que pode desencadear uma guerra. Esse risco é baixo, porque não é de interesse da Rússia, aparentemente, entrar em guerra contra a OTAN, mas esse risco sempre está dado. Algo que há 10 anos, por exemplo, era um risco baixíssimo, pouco colocado. Hoje já é um risco cada vez mais alto.
European Official
O presidente da Ucrânia disse que a Rússia está testando os sócios da Aliança Militar Ocidental e que é preciso uma resposta firme. O exército alemão faz exercícios militares de grande escala na cidade portuária de Hamburgo. Na Holanda e em Portugal, forças da OTAN também testaram novas tecnologias de vigilância, com drones aéreos e submarinos. Soldados da Ucrânia participaram do exercício compartilhando experiências. A OTAN disse que, em resposta, vai reforçar a vigilância na região do Mar Báltico.
Feliciano de Sagmarans
Do ponto de vista simbólico, mostra a Rússia com uma enorme capacidade de não só fazer ataques, mas uma ousadia de fazer esse tipo de teste na defesa da OTAN. Agora, decabe muito à OTAN coordenar suas ações para derrubar esses drones. Hoje eu vi uma notícia, por exemplo, interessante de que automaticamente a Ucrânia se colocou a serviço dos países europeus a ajudá-los na capacidade de derrubar drones russos. Os ucranianos são mestres nisso, estão fazendo isso há três anos, que é derrubar esses drones russos, portanto eles sabem como fazer. É claro que não funciona sempre, no caso da Ucrânia, e agora os europeus podem depender dessa tecnologia e da expertise dos ucranianos.
Ana Tuzaneri
Bom, diante disso, qual tem sido a resposta dos países da OTAN? E mais do que isso, se houver algum tipo de ataque russo, a Europa hoje, que integra a OTAN, está preparada para se defender?
Feliciano de Sagmarans
Olha, essa é uma questão de um milhão de dólares europeus. Qual é a capacidade de resposta coletiva deles? O que a gente sabe da OTAN, que é a coluna vertebral da OTAN, é a capacidade americana, logística e militar, de auxiliar as tropas europeias a fazer qualquer tipo de combate. Como você tem o presidente Trump hoje no poder nos Estados Unidos, o Trump não tem renovado a Aliança Atlântica como os governos americanos anteriores. Então, os russos contam muito com isso. E ao final das contas, o atual governo americano não vai proteger os europeus da mesma maneira que governos anteriores americanos protegeriam. Emmanuel Macron disse que os europeus devem se preparar para se defender contra a Rússia sem o apoio dos Estados Unidos e que pode ajudar os aliados a montar uma defesa nuclear. O presidente francês admitiu um desgaste na relação entre a Europa e o governo de Donald Trump.
European Official
A União Europeia fez um acordo para aumentar os gastos com defesa em cerca de 5 trilhões de reais.
Volodymyr Zelensky
O bloco teme que a Rússia decida invadir outro país depois da Ucrânia.
Feliciano de Sagmarans
O consenso por aqui é que não dá mais para contar com o poderio militar dos Estados Unidos. Então cabe aos europeus não só agora aumentar o seu orçamento militar como eles têm todos aumentado, você teve o próprio chamado do Trump na última reunião geral da OTAM para que eles aumentem seus gastos militares, mas que os europeus coordenem melhor a sua capacidade militar, porque historicamente os países europeus ou dependiam dos Estados Unidos e eles dependiam exclusivamente dos seus orçamentos, não havia ação conjunta entre os europeus do ponto de vista militar. A União Europeia agora tem um projeto específico, inclusive um orçamento específico da União Europeia, para que os europeus, que é a maior parte dos países da autoação europeus, tenham uma resposta, tenham produção militar unificada entre vários desses países e tenham resposta unificada também entre esses países. Então, essa é uma questão assim, responder a um ataque russo, eles vão ter sempre capacidade de responder. Mas é um perigo enorme, porque várias ogivas nucleares americanas estão dispersas nos países europeus. A Turquia, por exemplo, que é um país da Europa, mas não é, ela abriga várias ogivas nucleares americanas. A Bélgica, a Holanda, vários desses países têm ogivas nucleares. Agora, nós sabermos exatamente a capacidade que eles têm de responder a um ataque russo é uma incógnita, é difícil. O que nós sabemos é que os europeus estão muito atrás dos russos na capacidade de produção de material bélico. A Rússia se reorganizou completamente na Guerra do Alcântara e hoje tem uma capacidade impressionante de produção bélica. E é um país só, portanto ele tem sempre mais coesão e coerência na resposta militar. Portanto, é mais compreensível que os russos, nesse momento, sabendo das dificuldades que a OTAN tem, sabendo das divisões que existem entre os europeus, eles façam esses testes pra ver onde estão as lacunas do sistema de defesa antiaérea e quais países da Europa respondem melhor a essa defesa. E aí, meu último ponto é que a Polônia é o país central. O John Mershimer, que é o grande pensador realista americano, que dizia que a causa da guerra da Ucrânia é sempre a percepção de insegurança da Rússia, ele é muito criticado por isso, ele disse que a coluna, o país mais importante da OTAN hoje, contemporaneamente, é a Polônia. Porque a Polônia está na fronteira da Rússia. A Polônia é um grande país, com grande população, que nos últimas décadas vem reestruturando totalmente as suas forças armadas. A Ucrânia é um ex-país da União Soviética, as suas forças armadas, todo equipamento militar polonês era soviético. Agora, se você olhar a lista de equipamentos militares poloneses, eles são quase todos, eles ainda têm muito equipamento soviético, russo, Mas eles são quase todos ocidentais, eles são grandes compradores do F-35, caça americanos, tanques americanos, tanques europeus em geral, franceses, italianos. Então eles estão se reorganizando. Eles estão chegando ao gasto de 5 ou 6% do PIB em força militar porque a sensação de insegurança na Polônia é enorme. Eu fiz um evento há pouco tempo entre poloneses e brasileiros para discutir a relação Europa-Polônia e Brasil, mas a Europa e América Latina em geral. E é impressionante, nós vivemos em mundos completamente diferentes, porque para os poloneses a questão de segurança e sobrevivência hoje era fundamental na política polonesa. Isso define eleições, como aconteceu na Polônia recentemente. E ela é a primeira linha de defesa da OTAN. Então a Polônia não pode cair, entendeu? A Polônia tem que se sustentar. E quando nós aprendemos relações internacionais, a melhor forma de você se defender é aumentar a sua própria capacidade nacional de defesa. Tanto que em relação à Ucrânia, a Polônia é um grande apoiador logístico, ela faz um grande compartilhamento de inteligência militar com os ucranianos, então há uma percepção entre os poloneses de que eles vão entrar em guerra com a Rússia nas próximas décadas. Isso hoje é como algo inexorável. A OTAN anunciou uma operação para vigiar as fronteiras dos países membros com a Rússia. A operação chamada Sentinela Oriental vai usar navios e aviões para monitorar o leste europeu.
Narrator/Reporter
A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kalas, disse hoje que a ação dos militares russos é uma provocação extremamente perigosa. e que Vladimir Putin está testando a determinação do Ocidente. Não podemos demonstrar fraqueza, ela escreveu. O ministro do exterior da Rússia fez acusações contra a Ucrânia, negou a intenção.
Feliciano de Sagmarans
De atacar a Europa e ameaçou quem agredir a Rússia.
Military Expert
Afirmou que a Rússia é acusada de planejar um ataque contra a OTAN, a Aliança Militar do Ocidente. Mas disse que o país nunca teve e nunca terá essa intenção. Afirmou que qualquer agressão contra o país dele terá o que chamou de uma resposta decisiva.
Feliciano de Sagmarans
Eu participei de uma conferência importante de segurança em Trivereiro desse ano, que é a conferência de Munique, que é uma grande conferência europeia, mundial, sobre os temas de segurança, e já era a terceira vez que eu fui lá, a segunda vez que eu fui lá, e já na outra vez eu tinha percebido o debate sobre como fazer a guerra, o que nós temos que fazer para lutar contra os russos, e o debate daquele do ano passado e desse ano era como transformar a economia europeia em uma economia de guerra. Qual é a memória histórica que nós temos disso? É uma história que era a Segunda Guerra Mundial, com a tragédia que a Segunda Guerra Mundial foi. Então, eu cheguei lá, um brasileiro falava assim, Deus abençoe o Oceano Atlântico, que nós estamos isolados geograficamente disso. Mas as implicações para o sistema internacional de uma guerra entre Rússia e OTAN são infinitas. Isso não vai acontecer no médio e nem no curto prazo. A prioridade máxima da Rússia é vencer a guerra da Ucrânia. Vencer a guerra na Ucrânia tem múltiplos significados. Pode ser desde uma vitória parcial, que a Rússia efetivamente controla toda a região dos Dombás, que são essas quatro regiões do sudeste ucraniano. Ela já controla Lugansk com 90%, mas Zaporizhia, ela controla 70%. Ela vem aumentando o seu controle desses territórios nos últimos meses, mas ainda demora um longo caminho para controlar esses territórios. E um objetivo ainda muito maior e muito mais difícil para a Rússia atingir é a derrubada do governo em Kiev. Portanto, uma guerra aberta com outros países europeus para a Rússia, no curto e no médio prazo, é estrategicamente errada, ela não faria isso. No entanto, isso não impede com que a Rússia faça esses testes para ver exatamente como é o nível de resposta, a qualidade da resposta europeia.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Feliciano de Sagmarans.
Military Expert
A nova era da carreira do João Vitor já começou. Ele obteve o certificado profissional do Google em TI e não para de crescer. Essa é a nova era da inovação.
Feliciano de Sagmarans
Google.
Ana Tuzaneri
Você cita a Polônia. Polônia está entre países europeus que defendem a criação de um muro anti-drones. para se defender da Rússia naturalmente. Como é que funcionaria esse muro? Ele seria eficaz para impedir um eventual ataque?
Feliciano de Sagmarans
Veja, pra cada arma inventada, necessariamente precisa ser inventada uma defesa. Os drones são a grande revolução tecnológica que aconteceu na guerra da Ucrânia. Hoje, como a gente já fez uma outra entrevista aqui contigo, alguns drones são de inteligência artificial. A Ucrânia carrega um drone, que não tem nenhuma ligação com o piloto, e coloca assim, matar russos. O drone levanta, o drone fica no ar até encontrar um russo, achar e matar. Existem drones do lado russo, que são os drones de grande quantidade, que são os drones de tecnologia iraniana, que os russos melhoraram, que eles lançam milhares de drones para saturar as defesas antiaéreas. Então você precisa melhorar as defesas antiaéreas. Você pode ter uma disposição no território de equipamento militar básico, de metralhadoras, uma parte da defesa da Ucrânia, por exemplo, contra drones russos é feito por soldados ucranianos, inclusive soldados quase civis que acabaram de virar soldados, que ficam em caminhonetes com grandes metralhadoras olhando o céu para ver se eles veem drone e atiram para derrubar os drones, essa é a mais básica. Até você ter alguns mísseis mais baratos, porque é muito mais barato um drone que um míssel, então você não tende a usar um míssel necessariamente para defender um drone, derrubar um drone, a não ser que o drone esteja vindo para atacar uma infraestrutura crítica. Kiev e os palácios do governo de Kiev e estações de transmissão de energia elétrica são defendidos com baterias antiaéreas de mísseis de tecnologia ocidental, europeia ou americana. E aí vale a pena você gastar um milhão de dólares num míssil para derrubar um drone, porque o drone vai destruir a sua rede de transmissão elétrica. Agora, às vezes, vai acertar um Ou você não sabe exatamente onde ele vai cair, se ele vai cair numa cidade ou não, você não gasta um drone, você usa uma arma. Então o que que... uma metralhadora, por exemplo. Tem a questão de jamming também, que é você interferir na transmissão de dados que alguns drones fazem. Ou você controlar efetivamente o drone. Isso a Ucrânia faz, a Ucrânia tem feito isso há pelo menos 3 anos, no último ano tem melhorado muito a tecnologia, os europeus não fazem. Os europeus têm dezenas de observadores militares na guerra da Ucrânia, eles ajudam tanto os europeus como os americanos. Como o New York Times revelou recentemente, os generais americanos fazem parte efetivamente das estratégias militares ucranianas desde o início da guerra, os europeus também. Portanto, eles têm muitos observadores, têm militares de alta patente que são engajados com os ucranianos, mas eles não têm a prática dos ucranianos de fazer essa defesa.
European Official
Autoridades europeias têm discutido a possibilidade de conceder um empréstimo de 140 bilhões de euros à Ucrânia a partir de bens russos congelados. O dinheiro seria usado para financiar uma parede de drones nos países mais próximos da fronteira com a Rússia, com capacidades avançadas de rastreamento e interceptação.
Feliciano de Sagmarans
O Polônia é o país central, como eu falei, então eles precisam ser a defesa número um de um eventual ataque de drones russo, que pode vir tanto pela Rússia como por Kaliningrado também, que é aquele pedacinho da Rússia que fica descolado da Rússia, entre a Lituânia, a Alemanha e a Polônia. Então, para vir pela esquerda e pela direita. Agora, os poloneses têm investido muito nisso. Inclusive, tecnologia brasileira. Outro dia eu estava vendo uma reportagem nos blogs especializados militares brasileiros do uso do A-29, que é o nosso Super Tucano, que é um caça de turbo-hélice de velocidade baixa, mas ele pode ser carregado com múltiplos mísseis pequenos. É muito mais barato usar. um avião turbo-hélice, como o Tucano, para derrubar drones, do que você usar um caça americano, que para levantar voo gasta milhões de dólares, para derrubar drones. Então você tem que ter um mix de vários tipos de equipamentos para conseguir derrubar os drones russos. À medida que você faz isso, os russos melhorem os drones. Muda o tipo de drone, adapta a tática. Faz parte do jogo, da disputa estratégica entre os dois lados.
Ana Tuzaneri
Bom, aí a gente chega num cenário em que a Rússia, que pode estar intensificando essa averiguação do potencial de defesa da Europa por meio dos drones, somado a um fenômeno que não é novo, você mesmo já citou da última vez em que você veio, que os Estados Unidos estão dizendo o seguinte. Então, Europa, vão se armando vocês, vão se financiando vocês, porque a gente está voltado para nós aqui nos Estados Unidos. Quais os efeitos dessa combinação de coisas? Uma certa ousadia da Rússia, se ela de fato for confirmada, somado ao recuo norte-americano.
Feliciano de Sagmarans
Veja como a Europa está numa situação estrategicamente muito difícil. Hoje são duas hipóteses principais sobre a política estratégica de longo prazo do governo Trump. A hipótese número um é o pivô da Ásia, o pivô da China, que isso vem desde o governo Obama, que é os americanos precisam lentamente diminuir os seus investimentos militares de defesa e segurança na Europa e no Oriente Médio pra deslocar pra Ásia, porque a ascensão da China demanda isso. Então, teoricamente, nesse contexto, os americanos têm que melhorar as suas relações de defesa e segurança com as Filipinas, com a Coreia do Sul, com Taiwan, com a Índia, com o Japão, pra conter a ascensão da China, dado que a China hoje tem um aliado fundamental que é a Rússia, um adversário histórico que se tornou um aliado. Essa é a hipótese número um. A hipótese número dois é que os americanos não querem nem fazer isso. Os americanos... É muito caro, eles estão com uma crise duplo déficit, déficit na balança comercial, mais o déficit orçamentário, e que, portanto, na visão de mundo do Trump, ou de uma parte do seu governo, o pivô para a Ásia é muito caro e os americanos já perderam a China e não conseguem mais conter a China, portanto, nesse cenário, o que resta aos americanos é dividir o mundo com a China e a Rússia nas esferas de influência. Então, aí nós, Brasil, se essa for a hipótese fundamental, que pelo menos é defendida publicamente pelo Peter Hegseth, que é o secretário de defesa americano, que agora mudou de nome, né, secretário da guerra nos Estados Unidos, ela é muito problemática, porque a esfera de influência número um dos Estados Unidos é o que eles chamam disso, Hemisfério Ocidental, ou o que nós chamamos aqui de América Latina, nós, né? E aí, portanto, nesse contexto, a Europa fica à mercê da Rússia, e a Ásia fica à mercê da China, e as Américas à mercê dos Estados Unidos. Então, você vê, nesses dois cenários, a Europa não é a prioridade. Nessas duas hipóteses, a Rússia, ela sai muito favorecida, porque ela tem, estrategicamente, aquele ator, o único ator que ela tem medo, que são os americanos, os russos só respeitam o poder americano, não respeitam os poderes europeus, porque os europeus nunca conseguiram mostrar que são capazes de fazer uma oposição à Rússia de forma independente dos Estados Unidos, e esse poder está recuando na Europa. O que nós não sabemos é se a Rússia, ao ser muito... porque a Rússia pode errar, né? A Rússia, ao ser muito agressiva em relação aos europeus, força o governo Trump a fazer uma reação forte em relação à... militarmente, né? Porque uma coisa é o desejo do Trump de tentar fazer esfera de fluência ou brigar com a China, outra coisa é a realidade concreta. Os americanos adorariam diminuir o gasto que eles têm no Oriente Médio, mas o Oriente Médio não deixa os americanos fazerem isso. A circunstância se impõe. Então, pra Rússia, é um jogo de equilíbrio muito sensível, em que ela precisa ganhar tempo, na medida em que os americanos querem chamar a Rússia e a Ucrânia pra negociação, a Rússia não tem os incentivos pra entrar na negociação, porque ela vem ganhando no campo de batalha. Do ponto de vista concreto e dos fatos, a Rússia não precisa negociar com a Ucrânia, na realidade ela quer jogar isso pra frente, a gente nem sabe se ela realmente quer negociar. Mas ela pode irritar os Estados Unidos, ela pode errar, ela pode ser muito agressiva e os americanos mudam a posição de serem obrigados a voltar aquilo que era o Barney, que é uma pressão maior sobre a Rússia. Mesmo as sanções secundárias que foram colocadas em a Índia agora não viraram a Rússia. O que pode ter um efeito importante na Rússia agora é que a Ucrânia tem melhorado muito os seus ataques dentro da Rússia, e isso tem afetado inclusive a distribuição de petróleo e gasolina e diesel dentro da Rússia, o que tem feito o governo Kremlin a proibir temporariamente a exportação de petróleo russo, porque primeiro abasteceu o mercado interno. O petróleo russo é a coluna vertebral da economia russa. Eles precisam exportar petróleo. São os grandes produtores de petróleo e exportadores mundiais. Então isso é entre os três primeiros. Se eles, por circunstâncias da guerra, têm dificuldade de exportar, a máquina de guerra russa começa a dar problema. Esse é um outro debate, até quão profunda é a capacidade dos russos de fazer a guerra. Eles têm se mostrado com grande capacidade até agora.
Ana Tuzaneri
Feliciano, muito obrigada por ter topado conversar com a gente, por ter voltado aqui ao assunto. Bom trabalho pra você.
Feliciano de Sagmarans
Obrigado, sempre um prazer falar com vocês, adoro o podcast. Até a próxima.
Ana Tuzaneri
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catelan. Eu sou Ana Tuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 30 de setembro de 2025
Host: Ana Tuzaneri
Convidado: Feliciano de Sagmarans (professor do Instituto de Relações Internacionais da USP)
Tema: A escalada das operações com drones em espaço aéreo europeu e os impactos estratégicos para a segurança do continente
Neste episódio, Ana Tuzaneri conduz uma análise aprofundada sobre a crescente ameaça representada pelos drones no espaço aéreo europeu, pautando-se em recentes incidentes envolvendo invasões de drones em países membros da OTAN. Com a participação do professor Feliciano de Sagmarans, o debate explora as suspeitas de envolvimento russo, o simbolismo dessas provocações e as respostas — e fragilidades — das alianças militares ocidentais. O episódio desenha possíveis cenários para a segurança europeia frente à atual conjuntura internacional.
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"Um drone atravessou a fronteira. [...] Imagens mostram as luzes de um drone sobrevoando o aeroporto de Alborg..." (Narrator/Reporter, 00:20-00:39)
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"Estamos vivendo a corrida armamentista mais destrutiva da história da humanidade, porque desta vez ela inclui a inteligência artificial." (Volodymyr Zelensky, 01:54)
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Volodymyr Zelensky (01:54):
"Estamos vivendo a corrida armamentista mais destrutiva da história da humanidade, porque desta vez ela inclui a inteligência artificial."
Feliciano de Sagmarans (13:58):
"Há uma percepção entre os poloneses de que eles vão entrar em guerra com a Rússia nas próximas décadas. Isso hoje é como algo inexorável."
Feliciano de Sagmarans (22:39):
"Os russos só respeitam o poder americano, não respeitam os poderes europeus, porque os europeus nunca conseguiram mostrar que são capazes de fazer uma oposição à Rússia de forma independente dos Estados Unidos."
O episódio destaca que os recentes ataques de drones servem como teste estratégico das defesas europeias e expõem fragilidades na coordenação e resposta coletiva da OTAN, especialmente frente ao reposicionamento dos EUA em sua estratégia global. Com possíveis implicações de longo prazo para a segurança regional e global, a ameaça se mostra não só tecnológica, mas também profundamente geopolítica — alimentando um debate necessário sobre autonomia, inovação defensiva e dinamismo das alianças tradicionais.