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Léo Arco Verde
Itaú Empresas. Conte com o banco especialista pra te apoiar em todos os momentos do seu negócio.
Reporter/Field Correspondent
Carne congelada, marmita congelada, porque aqui nós somos quatro, né? No caso de estudante, praticamente tudo que.
Léo Arco Verde
Tá na geladeira se perdeu já. A gente tem cinco pizzarias, são todas fechadas por falta de energia. São massas que seriam pra hoje, mas estão todas estouradas.
Joísa Dutra
O caos. A Prefeitura retirou a árvore, a Enel retirou os fios e a gente segue sem energia e sem nenhuma resposta do que está acontecendo porque estamos sem energia.
Ana Tuzaner
Uma tempestade entre os dias 10 e 11 de dezembro desligou parte da cidade de São Paulo por vários dias. Mais de 2 milhões de imóveis ficaram sem luz. Os ventos passaram de 90 km por hora e derrubaram centenas de árvores. Os transtornos foram vistos de forma generalizada. A Associação Comercial de São Paulo estima um prejuízo de 93 milhões de reais no comércio da Grande São Paulo por causa da falta de energia. As noites de escuridão e os dias praticamente improdutivos em alguns bairros da maior cidade do país colocaram pressão em um problema antigo. E um movimento raro de união política surgiu.
Reporter/Field Correspondent
Representantes do governo federal, estadual e aqui da capital se reuniram a portas fechadas durante três horas.
Joísa Dutra
A reunião foi tensa, uma queda de braço enorme entre esses representantes políticos distintos, adversários, inclusive na eleição do ano que vem, e cada um querendo empurrar a batata quente para o outro.
Ana Tuzaner
Um processo classificado como complexo por especialistas. Por enquanto, nada muda, mas para o governo do estado se trata de quando e não de se a empresa deixará a capital, o que pode configurar uma decisão inédita na história das concessões.
Joísa Dutra
Nunca houve uma decretação de caducidade envolvendo uma distribuidora de energia elétrica, porque não é fácil você substituir a distribuidora da.
Ana Tuzaner
Noite para o dia, né?
Joísa Dutra
Então esse seria o primeiro caso.
Ana Tuzaner
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é A ameaça final à Enel em São Paulo. Neste episódio, eu converso com Léo Arco Verde, repórter da Globo News, e com a economista Joísa Dutra, que foi diretora da Agência Nacional de Energia Elétrica, a ANEL, entre 2005 e 2009. Joísa é professora da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e diretora do Centro de Regulação em Infraestrutura, o FGV-SERI. Quinta-feira, 18 de dezembro. Léo, a gente fala de uma crise no fornecimento de energia que se repete no estado de São Paulo. E aí duas expressões entraram no vocabulário no país inteiro, porque a Enel não atua só em São Paulo, que é caducidade, uma expressão feia, e intervenção. O que a Enel enfrenta agora é um processo de caducidade. Qual é a diferença entre caducidade, pedindo para que você explique o conceito, e intervenção?
Léo Arco Verde
Bora lá. Caducidade é o mais drástico. Resumindo, rompimento do contrato.
Ana Tuzaner
Deu ruim.
Léo Arco Verde
Deu ruim e deu muito ruim no caso da caducidade. Porque a intervenção é quase isso. Intervenção, na prática, como é que funciona? Troca-se o gestor, a gente está falando da Enel São Paulo. Então, diretor, quem toca a empresa, sai, substitui por um período para se fazer o que se considera, pela regulação, que a Enel São Paulo não está fazendo. Por exemplo, não está investindo para se prestar um bom serviço na grande São Paulo? Tira aqueles diretores, o interventor vai lá no caixa da companhia, por exemplo, e faz os investimentos necessários. Caducidade é Enel não dá mais para você, agora será uma outra empresa. Empresa A, B ou C.
Ana Tuzaner
Minha única divergência com o entrevistado é que ele fala Enel e eu falo Enel. Mas é a única entre nós dois.
Léo Arco Verde
Detalhe fonético, nada demais.
Ana Tuzaner
Leo, como é que a gente chegou nesse ponto, hein?
Léo Arco Verde
Chegamos a esse ponto, Natuza, não dá pra entender a crise de agora sem olhar pra novembro de 2023. Novembro de 2023 é o que se considera, os especialistas olham pra isso e falam, o maior apagão em termos de severidade e abrangência da história desse contrato. Ali, em alguns pontos da região metropolitana de São Paulo, foram sete dias inteiros sem luz e de novembro de 2023 pra cá tivemos Cinco episódios. Em quatro deles, apagões em que, e esse número é muito importante, mais de dois milhões de unidades consumidoras ficaram sem luz por dias. Em cinco episódios de apagões envolvendo ainda São Paulo, em quatro deles, mais de dois milhões de unidades consumidoras. Por que é importante trazer também a questão de que é um imóvel, uma unidade consumidora? porque sempre vive-se ou trabalha mais de uma pessoa naquele lugar. Então, a gente tá falando aí até 8 milhões de pessoas, 7 milhões de pessoas sem luz em determinado momento de cada um desses apagões.
Ana Tuzaner
E a Enel, oênio, conseguiu o impossível, uniu três esferas de poder que na política se bicam e não se unem jamais, são líquidos imissíveis que não se misturam.
Léo Arco Verde
Adversários políticos, eu chamo isso de uma proeza e ouvi de um especialista essa palavra proeza porque não só são adversários políticos, como em todos os outros episódios, diferentemente do atual, eles vinham ali se engalfinhando, era um jogo de empurra. O que que virou após a reunião que aconteceu ontem no Palácio dos Bandeirantes envolvendo o ministro Alexandre Silveira, o governador de São Paulo, Tacísio de Freitas, e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes? Uma unanimidade política contra esse contrato. contra a presença da Enel executando esse contrato na grande São Paulo em 24 cidades. Agora tem um alinhamento no sentido de que Enel, não dá mais, você tem que sair, não dá pra trocar esse contrato mais, porque você foi incompetente seguidas vezes nesses cinco episódios que eu falei e principalmente nesse.
Reporter/Field Correspondent
O ministro das Minas e Energias, Alexandre Silveira, disse que vai pedir para a Anel, agência reguladora, iniciar o processo pra.
Léo Arco Verde
Romper o contrato com a Enel. A Enel perdeu, inclusive do ponto de vista reputacional, as condições para continuar à frente do serviço de concessão em São Paulo.
Reporter/Field Correspondent
Portanto, nós também estamos juntos, reiterando na.
Léo Arco Verde
Verdade juntos, a agência reguladora para que ela inicie um processo de caducidade da Enel de São Paulo. Ela não tem mais condição de prestar.
Reporter/Field Correspondent
Serviço, tem um problema reputacional muito sério, tem um problema de deixar a nossa população na mão de forma constante.
Léo Arco Verde
Se identificou claramente que a Enel não tem a estrutura e o compromisso para fazer frente às necessidades, principalmente quando tem alguma situação adversa por conta das mudanças climáticas. Se alega muito a questão climática, isso não estava previsto lá atrás, Natuza. Em 1998 a gente estava falando de um contrato de concessão, final dos anos 90. Não tinha como prever nada nesse sentido. Ventos de quase 100 km por hora, a questão do contrato aqui, há também um consenso que é complexo em relação às árvores em São Paulo, mas foram seguidos episódios em que ainda não conseguiu melhorar, não tem um tempo de resposta melhor, e aí juntou todo mundo e está todo mundo contra ela agora.
Ana Tuzaner
Até porque você tem atualização de contrato também, né? Tudo bem que não era previsto, tem aditivo. Tá, não dá pra culpar o vento, embora eles sejam muito mais frequentes e mais ferozes. Mas não dá pra culpar o vento. Não dá pra culpar a árvore. Qual é o problema? Qual é o... Se a gente for tirar todas as camadas dessa história, de quem é a culpa aí? De onde é que tá a culpa? Pra quem a gente pode apontar o dedo?
Léo Arco Verde
Tenho a responsabilidade compartilhada. Se você ouvir quem não está, digamos, dentro desse debate como parte, se você não ouvir alguém da AN, alguém da Prefeitura, alguém do Governo do Estado, alguém até mesmo do Governo Federal que é o poder concedente, Natuza, fala-se que sim, a questão das árvores é um problema e que não é feita de forma adequada. E aqui a responsabilidade é a Prefeitura de São Paulo, só que não só cai árvore em São Paulo. Caiavra em São Bernardo, Caiavra em cidades também da grande São Paulo, porque é um contrato mais abrangente. Então, prefeituras plural, São Paulo incluída, não estaria cumprindo esse papel fazendo forma 100%. Ok, tem uma culpa aí nessa história. Só que a Enel São Paulo, eu ouvindo as pessoas lá desde novembro de 2023, tem uma questão que as pessoas não conseguem entender, as pessoas da área. O que acontece num contrato que é considerado a joia da coroa? principal contrato dessa empresa, que ela diz que faz todos os investimentos, a gente tá falando aí de mais de 3 bilhões de reais por ano de investimento, que ela não consegue dar conta disso e aí coloca uma responsabilidade nela, nela ainda que não consegue ter um tempo de resposta melhor.
Ana Tuzaner
Ela cortou muito funcionário, né?
Léo Arco Verde
Cortou muito funcionário, diz que tá fazendo tudo que aumentou, chegou a dizer nessa crise de agora, que teve mais de 1.600 homens trabalhando em um determinado horário, determinado momento dessa crise. Prefeitura sempre contestou, tinha ataque também do Governo do Estado, mas o ataque mais vocal era do prefeito Ricardo Nunes. Mas assim, tenho o consenso de que a parte das árvores os prefeitores não dão conta, mas ainda o São Paulo tem até um mistério entre os especialistas, por que ela vai tão mal? Porque é uma empresa que, pelo que eu ouvi e pelo que a gente acompanha, São Paulo tem essa crise, que começou, digamos, lá em novembro de 2023 e está até agora. A ENO presta serviço no Ceará e, pelo que dizem, não vai bem lá. O interior do Rio de Janeiro não vai bem lá. Então, é uma questão de que a ENO realmente está num mau momento e vai muito mal nessas concessões.
Ana Tuzaner
Então, a gente tem aqui duas pedras de toque. A árvore, que os prefeitos não cortam, no caso, como aconteceu aqui em São Paulo, mais grave, o prefeito Ricardo Nunes, e a hênio, que, embora diga que invista, foi cortando o pessoal que faz o atendimento à população. Essa combinação, junto com os ventos, deu no que deu.
Léo Arco Verde
Deu no que deu.
Ana Tuzaner
O que que a concessionária alega? O que que diz a Enel nessa história?
Léo Arco Verde
Invariavelmente e de uma forma até que também chama a atenção na Tusa. Diz que cumpre todos os indicadores econômico e financeiros do contrato, que cumpre todos os indicadores de qualidade desse contrato, de que vem aumentando os investimentos, que os investimentos são recordes. E aí tem uma questão, o contrato alega-se de fato que é um contrato que lá em 98 não tinha como prever, não só a questão climática, muitas questões que envolvem, até mesmo a questão das aves, até mesmo como esse contrato vai ser tocado ao longo dos anos. A gente está falando de uma concessão, Natuza, que começa em 98 para terminar em 2028. Então, para se prever tudo o que ia acontecer era muito difícil. Mas ela disse que cumpre tudo, disse que está com investimento recorde, mas isso não vem dando conta. Por causa de problemas na prestação de serviço, principalmente as ocorridas entre os dias 8 e 10 de dezembro, é que o Procon Paulistano multou hoje a Enel em R$ 14 milhões. O valor se soma a outras multas ainda não pagas pela concessionária, um total de R$ 345 milhões. Em multas pagas, a Enel São Paulo desembolsou R$ 28,9 milhões.
Joísa Dutra
Só no primeiro semestre deste ano, a.
Ana Tuzaner
Receita líquida da distribuidora de energia de São Paulo somou 10 bilhões e 430 milhões de reais.
Léo Arco Verde
Então, a questão que nós temos em relação à Enel, eu até conversando com o governador Tracísio de Freitas, ele usou a expressão no seguinte sentido. Ele falou, olha, Léo, a Enel é muito simples para ela cumprir esse contrato, contrato velho, e que dá para ela jogar com regulamento debaixo do braço. no sentido que lá em 2028, para a Enel, daria sim para prorrogar esse contrato, que era o cenário que poderia acontecer até a reunião onde veio a questão do processo de caducidade, que agora é o cenário mais provável, pelo que a gente está entendendo e conversando com todas as partes dessa história.
Ana Tuzaner
O que é admirável, porque desde 2023 que a gente viu que a Enel não dava conta do recado. Falar em piloto automático de renovação de contrato... Até antecipado. Até antecipado. A gente tendo visto 2023, me parece que é um absurdo. Mas veja, se o contrato vai terminar em 2028 e o processo de caducidade não é automático, vai ter briga, vai ter litígio, a chance da Enel sair antes não é tão grande assim, né?
Léo Arco Verde
Não é tão grande, mas também não pode ser descartado e vou te explicar por quê. Enfrentar um processo de caducidade com todos esses astros alinhados, digamos políticos, contra o teu contrato, tem uma questão negocial que pode ser que para a Enel seja interessante sair. E o que é que eu tenho ouvido especialistas? Enel, você está no contrato caducado, você está no contrato, está acabando, até 2028. Os investimentos que são exigidos em um contrato como esse, Natuza, são investimentos altos, pra você ter ideia, na Enel são 3 bilhões por ano, uma coisa que é muito dinheiro e caixa pra colocar lá, de um contrato que você não vai ter renovação e as pessoas, o poder concedente não quer que você continue. Qual seria o cenário ideal, até falando pra todo mundo, incluindo a Enel? Vende-se a concessão. Repassa a concessão para alguém. Repassa a concessão para uma empresa que pode tocar esse contrato, e pelo que eu ouvi, eu ouvi muitas pessoas de ontem para hoje, a partir da questão da caducidade, dizem que há sim várias empresas, quatro ou cinco, que teria condição, uma delas até em 2018, quando a Enel conseguiu arrematar a empresa AS, que acabou comprando essa concessão por R$ 5,5 bilhões, uma empresa disputou com ela e teria, sim, interesse na concessão e até poderia pegar ela. Então, há de quatro a cinco empresas, empresas brasileiras, por exemplo, aqui tem uma empresa que tem controle acionário chinês, que é a CPFL, que presta serviço em uma área adjacente aqui, que poderia também adquirir esse contrato. Então, qual seria o melhor cenário para todos, incluindo o Enel? Enel, já que tem toda essa questão e ficou insustentável a execução desse contrato por parte da sua empresa, vende. 2022, só para fechar esse argumento, Natuza. Em 2022, ela enfrentou uma situação muito parecida no estado de Goiás. O governador Ronaldo Caiado foi pra cima da Enel. E o que ela fez? O que ela se viu obrigada a fazer? Repassar esse contrato com outra empresa.
Reporter/Field Correspondent
Depois de seis anos, a Enel deixa a concessão de energia em Goiás. A Equatorial assume a distribuição. A Enel nunca conseguiu atender o que exige a concessão. E o goiano ficou muito mais tempo no escuro do que deveria. A análise feita pelos técnicos da agência começou em setembro, logo depois do acordo de venda, no valor de R$ 1,6 bilhão. Agora, definitivamente, a Aneel deu sinal verde para que a Equatorial assuma os serviços.
Léo Arco Verde
Ali também a ameaça qual foi, que é que tinha na manga do governador e que tinha até por parte do poder concedente, um processo de caducidade que não foi concluído porque a própria empresa viu que dava para vender. Se há uma empresa que botou 5 bilhões para adquirir essa concessão, pelo que ouvi das pessoas, daria sim para ela repassar e ainda ter um lucro considerável, colocando, digamos, esse pepino na mão de outra empresa.
Ana Tuzaner
Sai desmoralizada, mas sai com dinheiro no bolso. O Léo, por que que o poder público não tem um projeto de enterramento dos cabos de energia, de eletricidade? Por que isso é um parto pra gente ver acontecer?
Léo Arco Verde
Por alguns fatores. Primeiro, o investimento necessário é de ordem bilionária que não daria para ser tocado por poder público sozinho, então teria que envolver parte poder público, parte prefeitura, parte governo e parte concessionária. Então isso envolveria, não tem cabimento não se pensar nisso num processo de 30 anos, numa posição de 30 anos, não. Mas o poder público com uma prefeitura a cada 4 anos, um governo a cada 4 anos, ninguém conseguiu tocar isso, sentar na mesa e tocar isso.
Narrator/Documentary Voice
Essa é uma discussão que existe desde a década de 1970. Em 2005, o então prefeito José Serra sancionou uma lei que tornava obrigatório o enterramento de todos os cabos da cidade. Dez anos depois, Fernando Haddad publicou uma portaria exigindo que as concessionárias retirassem 250 quilômetros de fios por ano. Mas a medida foi suspensa por uma liminar da justiça a pedido das empresas do setor. Em 2017, João Dória criou o programa Cidade Linda Redes Aéreas, que previa enterrar 52 quilômetros de fios até 2018. Agora, o nome do programa é São Paulo Sem Fios. A meta é enterrar 81 quilômetros de redes aéreas. Custará quase 323 milhões de reais, ou seja, um valor médio de 4.030 reais por metro.
Léo Arco Verde
O investimento é vultoso, exige um planejamento e uma execução ao longo de um período muito longo, que ninguém tocou até hoje de forma séria, tanto em prefeitura quanto em governo, e para o concessionário sempre foi muito interessante dizer, isso não está previsto no contrato. Se eu colocar isso daí, o aterramento de fios de São Paulo, eu vou repassar na tarifa e seria insustentável alguém pagar uma tarifa que já não é baixa, já não é uma conta de luz que cabe no bolso de todo mundo. Então fica aquela coisa, parece que ficam empurrando um pro lado do outro e ninguém quer de fato colocar esses fios debaixo da terra, que aí sim evitaria o que a gente tem vivenciado em São Paulo, não a cada verão, é mais de um apagão desse por verão.
Ana Tuzaner
Essa é a diferença entre o político de curto alcance, divisão de curto alcance e o estadista. O estadista teria pensado para as gerações que viriam depois, que seria importante. Ter o enterramento difícil já é lá, porque vento veloz acontece agora com mais frequência, mas acontecia lá atrás também.
Léo Arco Verde
Ele abre mão de outro investimento para deixar isso como uma marca para as futuras gerações.
Ana Tuzaner
Exato.
Léo Arco Verde
Nunca aconteceu de fazer isso.
Ana Tuzaner
Exato. Então a gente tem uma sucessão de políticos de visão... Curto-prazistas. Isso, curto-prazistas. Léo Arco Verde, muito obrigada. Além de um exímio apurador, você é um excelente explicador de algo tão complexo.
Léo Arco Verde
Muito obrigado, minha amiga.
Ana Tuzaner
Espero um pouquinho que eu já volto para falar com a Juíza Dutra.
Joísa Dutra
Juíza.
Ana Tuzaner
Finalmente o Governo Federal, Estadual e Prefeitura chegaram a um acordo e a conclusão de que a Enel não pode ficar com a concessão do fornecimento de energia aqui em São Paulo. De que forma isso pode se dar e quais as consequências disso?
Joísa Dutra
É uma situação infeliz, desagradável. e vai ter que seguir o que a gente chama de um processo, devido processo. Nós, como você estava reportando no início, é uma situação sem precedentes, eu pelo menos não me recordo de nós já termos enfrentado uma caducidade de uma concessão de distribuição de eletricidade no Brasil, e certamente não do porte de uma companhia como a Enel São Paulo. O que nós já experimentamos no Brasil foram situações de intervenção, em que existe a assunção do serviço por um interventor designado pela Agência Nacional de Energia Elétrica e com respaldo na legislação, para que ele possa temporariamente, para que essa figura, o interventor, possa temporariamente garantir as condições para a adequada prestação do serviço de energia elétrica. Enquanto esse processo se desenrola, o que a gente tem é uma que é uma lei de 2012, é a Lei nº 12.767, e ela estabelece as condições, os prazos, os procedimentos, obviamente ela foi regulamentada, e a partir daí se segue um curso para garantir a prestação de serviço ao mesmo tempo em que o processo pode tramitar. Então esse é um caminho, o caminho da intervenção, o que a gente tem como você estava reportando é um conjunto de autoridades de âmbito federal, municipal e estadual, manifestando uma situação, ou pelo menos um desconforto, uma situação de insustentabilidade com as condições de prestação de serviço em São Paulo. O que a gente precisa garantir é que a população vai ser atendida.
Ana Tuzaner
É isso que eu quero te perguntar. Como é que fica a prestação do serviço? se uma empresa já sabe que pode perder a concessão. Não é quase que é automático que ela pare de investir ou que pare de fazer melhoria? Ela vai pensar, bom, se eu vou perder mesmo, o que eu vou fazer? Por que eu vou atender?
Joísa Dutra
Olha, o que nós temos aqui é uma companhia que é uma controlada de um player mundial muito relevante na indústria de eletricidade. um player que tem uma reputação, eu não acredito que simplesmente vá ocorrer o que a gente chama, digamos, se fosse na administração pública, um apagão da caneta ou simplesmente pessoas levantam e vão embora. Até porque a regulação permanece, as condições precisam ser garantidas, ou seja, tem investimentos, ainda que investimentos de prazo mais curto e tudo, e eles estão sujeitos à regulação, à fiscalização da ANEU. E se forem feitos depois, isso vai ser objeto de avaliação, porque isso tem um processo de indenização e tudo mais. Então não é simplesmente assim, os incentivos vão embora. Até porque é provável que a empresa conteste. E se ela contestar, obviamente ela vai buscar suporte nas condições em que ela efetivamente continua prestando serviço.
Ana Tuzaner
Entendi. Esse cálculo não estava na minha cabeça. Ela pode contestar se comprometer a não repetir todos os erros que cometeu e eventualmente até ficar como concessionária?
Joísa Dutra
Mesmo no caso da intervenção, existe aqui a necessidade de cumprir todo o processo, quer dizer, o regulador vai ter que mostrar que a empresa não estava atendendo aquilo que estava estabelecido no contrato e na regulação. Se esse processo não for adequadamente conduzido, se não se comprovar isso, a própria intervenção pode ser suspensa.
Reporter/Field Correspondent
Como será a partir de agora então? A ANEL, a agência, inicia um processo de apuração de todos os problemas do serviço da ANEL durante o período desse contrato de concessão de distribuição de energia elétrica. Depois dessa apuração, a ANEL é comunicada do resultado do estudo da ANEL e tem um prazo para defesa. A ANEL se defende depois de receber a defesa da Enel. A Anel prepara um parecer técnico e jurídico pela parte técnica da agência. Esse parecer vai para a diretoria da agência, que pode concordar ou não. Caso tanto o parecer da área técnica quanto a diretoria concordem que a solução é, de fato, a extinção do contrato, aí a Anel comunica ao Ministério de Minas e Energia. A Enel pode recorrer na justiça, pode contestar na justiça cada uma dessas etapas. No fim desse processo, aí o governo precisa preparar uma nova licitação para definir uma nova empresa que venha assumir os serviços que hoje a Enel tem. Enquanto uma empresa não for vitoriosa nesse processo, o governo assume temporariamente os serviços que hoje são da Enel.
Ana Tuzaner
A gente vive cada vez mais eventos climáticos extremos. É um dado da realidade. Vai aumentar, vai piorar. O que é preciso fazer? O que é preciso garantir numa concessão? de serviço de energia para que a gente possa se adaptar a esses eventos. Regras muito básicas, por exemplo, ter número de funcionários suficiente para atender a população no momento de crise, outra. E essa não é adaptação, isso é só remediação, né? Mas uma de adaptação é enterramento de fios, porque aí um vento em alta velocidade não vai prejudicar a rede elétrica. Quais são os passos? O que é o mínimo do mínimo do mínimo diante do cenário atual que a gente vive já?
Joísa Dutra
Eu vou separar isso em três pontos. Existe um primeiro ponto que é essa dimensão mais operacional. Quer dizer, ocorreu um evento, precisa ter equipe na rua para reestabelecer. Obviamente isso é muito difícil em uma cidade como São Paulo, em que qualquer um tem dificuldade de se locomover, principalmente quando ocorrem esses eventos extremos. Então essa é uma medida de natureza operacional. A regulação já está tentando criar condições para que a gente possa desenvolver resiliência nessa dimensão operacional. Uma dimensão mais de médio e longo prazo é a realizar investimentos para tornar essas redes mais robustas, sejam elas aéreas ou então o enterramento ou a conversão de redes que você mencionou. Esse é um processo mais longo, esse é um processo gradativo. São Paulo já ensaia isso há cerca de 20 anos e até hoje não conseguiu orquestrar e garantir as condições de uma própria interação com o regulador, porque é preciso que esses investimentos sejam reconhecidos na base de remuneração de ativos de uma concessionária. A concessionária não é livre para investir, ela precisa pactuar junto ao regulador aquilo que é prudente. E este processo de entender resiliência, entender os investimentos que precisam ser feitos, é algo muito novo, não é apenas no Brasil. Por exemplo, as pessoas têm citado exemplos da Flórida, do Texas e tudo mais. Tem outros casos, resiliência a incêndios, wildfires na Califórnia. Então, é um processo que está em curso em âmbito mundial, principalmente para entender quando e quanto vale a pena. No caso particular de São Paulo, já houve um exercício no caso da concessionária anterior, que era a Eletropaulo, para tentar entender o que seria um plano de prazo mais longo que seria factível, que não tornaria a vida das pessoas da cidade um inferno, porque essas obras são intervenções no espaço urbano. Então, elas precisam ser viáveis e elas precisam ser gradativas. Tem regiões da cidade que vão justificar o investimento dessa natureza num prazo mais célebre, tem outros que vão demandar mais tempo para garantir essa viabilidade. Agora eu vou falar um terceiro ponto que eu acho que é super importante e o cidadão de São Paulo deve ficar muito alerta. Se de um lado o poder público, seja local, seja na esfera estadual, seja em âmbito federal, tem sido bastante vocal em reclamar, é muito importante que a gente saiba que o desenvolvimento de resiliência, ele não é uma questão apenas do setor elétrico. Ela é uma questão do espaço urbano, e o cidadão precisa demandar desse poder público que se engaje num esforço de coordenação, também de curto prazo, de médio prazo, de longo prazo. Curto prazo, manígio de vegetação, por exemplo. Depois, se é para fazer um investimento em conversão de redes ou em enterramento, como é que as outras utilities, como é que os outros prestadores de serviço vão vir junto? Ou a gente vai ficar com uma rede aérea cheia de fios de telecomunicações pendurados? É isso? Não, não é. Então, isto é uma ação do Poder Público coordenada e que, por exemplo, a própria intervenção, a obra civil, ela tem um custo muito importante e que precisa ser compartilhado entre todos aqueles que se beneficiam dele.
Ana Tuzaner
Joísa, muito obrigada. Foi muito importante te ouvir sobre esses pontos todos. Bom trabalho para você.
Joísa Dutra
Para você também. Obrigada aí pelo empenho.
Ana Tuzaner
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catelan. Eu sou Ana Tuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 18 de dezembro de 2025
Host: Natuza Nery (Ana Tuzaner)
Convidados: Léo Arco Verde (repórter GloboNews), Joísa Dutra (economista, ex-diretora da Aneel, FGV)
Tema Central: Crise no fornecimento de energia em São Paulo, os apagões de dezembro de 2025, pressão do poder público e (possível) expulsão da Enel, processualidades e consequências.
O episódio aprofunda a crise energética na Grande São Paulo após uma sequência de grandes apagões. A discussão central gira em torno da ameaça inédita de caducidade à concessão da Enel, responsável pelo fornecimento de energia na região, e traz análises de especialistas e jornalistas sobre causas, responsabilidade, consequências políticas, legais e técnicas. O episódio expõe bastidores de decisões governamentais e as perspectivas para a população.
Relatos Impactantes (00:10–00:36):
Comerciantes e moradores descrevem prejuízos: alimentos perdidos, pizzarias fechadas, prejuízo estimado em R$ 93 mi no comércio da Grande SP.
— “Tá na geladeira se perdeu já. A gente tem cinco pizzarias, são todas fechadas por falta de energia.” (Comerciante anônimo, 00:16)
A Tempestade e os Apagões (00:36–01:16):
Entre 10 e 11 de dezembro, tempestade causou ventos acima de 90km/h, centenas de árvores caídas, mais de 2 milhões de imóveis sem luz por dias.
Contexto do Problema e União Política Inédita (01:16–01:37):
O apagão gera reunião histórica entre ministro, governador e prefeito: adversários políticos unidos contra a Enel.
— “Caducidade é o mais drástico. Resumindo, rompimento de contrato.” (Léo Arco Verde, 03:14)
— “Intervenção, na prática … troca-se o gestor … para se fazer o que se considera, pela regulação, que a Enel São Paulo não está fazendo.” (Léo Arco Verde, 03:21)
Sequência de Crises (04:08–05:05):
Após o maior apagão de 2023, outros 5 episódios graves em sequência em 2024 e 2025, com até 8 milhões de pessoas afetadas em cada incidente.
— “Em quatro [episódios], mais de 2 milhões de unidades consumidoras ficaram sem luz por dias.” (Léo Arco Verde, 04:23)
União Política Rara (05:05–06:13):
Governo estadual, federal e prefeitura pressionam publicamente pela retirada da Enel.
— “O que virou … foi uma unanimidade política contra esse contrato, contra a presença da Enel executando esse contrato.” (Léo Arco Verde, 05:16)
Responsabilidade Compartilhada (07:56–09:45):
— “Há uma responsabilidade compartilhada ... mas a Enel ... mesmo dizendo que investe, não dá conta.” (Léo Arco Verde, 07:56)
— “Ela cortou muito funcionário, né?” (Ana Tuzaner, 08:58)
Comparação com Outras Áreas (09:00–09:45):
Problemas similares em outras concessões da Enel (Ceará, interior do RJ). Modelo parece fracassando em vários estados.
— “Ela diz que cumpre todos os indicadores... que os investimentos são recordes. Mas isso não vem dando conta.” (Léo Arco Verde, 10:18)
— “Enfrentar um processo de caducidade com todos esses astros alinhados, digamos políticos, contra o teu contrato, tem uma questão negocial que pode ser que para a Enel seja interessante sair.” (Léo Arco Verde, 12:51)
— “Para o concessionário sempre foi muito interessante dizer ‘isso não está previsto no contrato’ ... e seria insustentável alguém pagar uma tarifa que já não é baixa.” (Léo Arco Verde, 17:17)
— “Essa é a diferença entre o político de curto alcance, divisão de curto alcance e o estadista.” (Ana Tuzaner, 17:56)
Sem Precedentes (19:11):
Nunca houve caducidade em concessão desse porte. O padrão até hoje era apenas intervenção temporária para garantir o serviço.
— “Eu pelo menos não me recordo de nós já termos enfrentado uma caducidade de uma concessão de distribuição de eletricidade no Brasil, e certamente não do porte de uma companhia como a Enel São Paulo.” (Joísa Dutra, 19:11)
Como é o Processo (23:03–24:12):
— “Esse processo de entender resiliência ... está em curso em âmbito mundial, principalmente para entender quando e quanto vale a pena.” (Joísa Dutra, 25:45)
— “O cidadão precisa demandar desse poder público que se engaje num esforço de coordenação, também de curto, médio e longo prazo…” (Joísa Dutra, 28:14)
Mantém-se o tom direto, com ironias (ex: “sai desmoralizada mas sai com dinheiro no bolso”) e falas incisivas, tanto na cobrança de responsabilidade quanto na exposição de entraves políticos. O episódio oscila entre o clima de crise, exposição técnica objetiva e comentários críticos sobre atuação política.