O Assunto: A condenação dos mandantes da execução de Marielle Franco
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 26 de fevereiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidadas: Fernanda Vivas (TV Globo), Flávia Oliveira (GloboNews)
Tema do Episódio
O episódio analisa em profundidade o histórico julgamento no STF que condenou os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Com entrevistas e análise de especialistas, o programa expõe as circunstâncias, motivações políticas e impacto social do crime, além de detalhar a atuação das milícias no Rio de Janeiro e refletir sobre justiça para vítimas de violência política no Brasil.
Principais Pontos e Segmentos
1. Julgamento Histórico: Resposta Após 8 Anos ([00:00]-[03:19])
- Abertura: Natuza Nery contextualiza o julgamento histórico após quase oito anos do crime.
- “Os quatro juízes da primeira turma do Supremo Tribunal Federal selaram a resposta a uma pergunta feita há quase oito anos. Quem mandou matar Marielle e por quê?” (Natuza, [00:06])
- Voto do relator Alexandre de Moraes:
- Identificação dos irmãos Domingos e João Francisco Inácio Brazão como mandantes.
- Crime motivado por interesses de milicianos e perpetuação de atividades ilícitas.
- “Dentro desse contexto e da necessidade de perpetuação das suas atividades ilícitas, Domingos Inácio Brazão e João Francisco Inácio Brazão foram os mandantes do duplo homicídio...” (Moraes, [00:20])
- Marielle era vista como uma "pedra no sapato" das milícias e símbolo de oposição política.
- “O alvo... seria uma opositora política... mandar um recado aos opositores políticos, o simbolismo é que seria esse homicídio.” (Moraes, [01:05])
- Caráter de misoginia e racismo no crime.
- “Se juntou à questão política com a misoginia, com o racismo, com a discriminação. Marielle Franco era uma mulher preta, pobre, que estava... peitando os interesses de milicianos.” (Moraes, [01:31])
- Voto da ministra Carmen Lúcia:
- Reflexão sobre a vulnerabilidade das mulheres.
- “Nós somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos. Então matar uma de nós é muito mais fácil... matar moralmente, matar profissionalmente, é muito mais fácil.” (Carmen Lúcia, [02:07])
- Cita as filhas e filhos das vítimas.
- “Quantas Marielles o Brasil permitirá sejam assassinadas até ressuscitar a ideia de justiça?” (Carmen Lúcia, [02:28])
2. Cobertura do Julgamento e Atuação das Defesas ([03:19]-[04:56])
- Participação da sociedade e das famílias: Processo foi acompanhado de perto por familiares das vítimas e sociedade civil, com sessões abertas ao público. (Fernanda Vivas, [04:00])
- Condenações:
- Irmãos Brazão: Duplo homicídio, tentativa de homicídio, organização criminosa armada (76 anos e três meses de prisão).
- Rivaldo Barbosa: Obstrução à justiça e corrupção passiva.
- Robson Fonseca: Organização criminosa.
- Ronald Pereira: Duplo homicídio e tentativa de homicídio.
3. Evidências e Detalhamento da Investigação ([04:56]-[07:50])
- Provas:
- Conexão direta dos irmãos Brazão com a milícia e Rony Lessa, o executor.
- Testemunhos e delação corroborando o planejamento do crime e a proposta milionária em troca da execução.
- "Eles não tinham só contato com a milícia, eles eram a milícia, eles participavam da milícia." (Moraes, [05:32])
- Pagamento seria feito por meio de terrenos em loteamento clandestino.
- “A proposta era que... ganharíamos um loteamento. Era muito dinheiro envolvido... 100 milhões de reais o lucro dos dois loteamentos." (Rony Lessa, [06:46])
- Marielle era um obstáculo aos projetos dos milicianos na Câmara.
- “A Marielle foi colocada como uma pedra no caminho, um obstáculo...” (Fernanda Vivas, [07:05])
- Investigação comprovou cooptação, infiltração para monitorar a rotina de Marielle e obstrução das investigações iniciais.
4. Julgamento dos Ministérios: Política, Misoginia e Racismo ([07:50]-[10:44])
- Impacto simbólico:
- Crime foi uma expressão máxima da misoginia, racismo, e lesbofobia, associados à violência política (Moraes, [08:14])
- Cristiano Zanin: Impunidade histórica das milícias alimentou o crime.
- Carmen Lúcia: Enfatiza o sofrimento das famílias e o golpe à democracia.
- "Esse julgamento é apenas o testemunho tímido... da resposta que o direito pode dar diante da dor com gente atroz...” (Carmen Lúcia, [09:29])
- Flávio Dino: Destaca falhas graves e dolosas na investigação inicial; só houve progresso com entrada da Polícia Federal.
5. Dúvida Razoável e Limites da Decisão ([10:44]-[12:23])
- Rivaldo Barbosa:
- Condenado apenas pela obstrução e corrupção, não por homicídio, devido à dúvida razoável e ausência de provas definitivas de participação direta.
- “As provas não traziam elementos que fossem peribitórios... Não havia provas que corroborassem o que estava na delação de Rony Lessa.” (Fernanda Vivas, [10:54])
- Barbosa atuou para proteger executores e destruir evidências, mas não ficou provada sua participação no planejamento.
6. Consequências e Próximos Passos Jurídicos ([12:23]-[13:50])
- Penas: Cumprimento inicial em regime fechado, perda de direitos políticos, cargos e indenização às famílias.
- Possibilidade de recurso: Ainda cabem recursos (embargos de declaração) no STF; só após esse trâmite a execução da pena será definitiva.
7. Por Que Mataram Marielle? O Impacto do Crime ([14:03]-[17:30])
- Análise de Flávia Oliveira:
- Crime teve profunda repercussão nacional e internacional.
- Importância simbólica: violência política de gênero, racismo estrutural e o funcionamento das milícias.
- “No oceano de impunidade... crimes bárbaros... é um alento. Agora, não tem como tratar esse dia... não há o que festejar... Não há efetivamente justiça possível.” (Flávia Oliveira, [14:22])
- Caso revela conexões nefastas entre política, polícia e milícia.
- Mesmo com justiça parcial, a perda é irreparável.
8. Narrativa Detalhada do Crime e Contexto de Investigação ([17:30]-[27:21])
- Execução Planejada:
- Marielle foi monitorada por semanas antes do crime, inclusive com invasão de dispositivos e agendas.
- Assassinato planejado próximo ao centro do Rio, após reunião da Casa das Pretas, um espaço simbólico de resistência negra.
- Falta de proteção: Marielle não tinha escolta, fato contrastado com o deputado Marcelo Freixo, cujo assassinato foi "desencorajado" pelos custos e riscos devido à proteção policial.
- Crime executado com precisão e frieza por milicianos.
- “Marielle era desprotegida como são desprotegidas as mulheres brasileiras, as mulheres negras...” (Flávia Oliveira, [18:00])
- “O Elcio de Queiroz emparelha o carro e o Rony Lessa, que era um exímio atirador, põe o braço pra fora. Atira com muita precisão na cabeça de Marielle, muitas vezes.” (Flávia Oliveira, [21:00])
- Investigação foi repetidamente sabotada: delegados trocados, promotoras afastadas, provas manipuladas ou negligenciadas.
- “Parecia incompetência, uma vez que... se fariam os esforços necessários para descobrir os assassinos. Não foi o que aconteceu." (Flávia Oliveira, [24:13])
9. A Dor do Rio de Janeiro, Representatividade e Herança Política ([27:21]-[31:09])
- Testemunho pessoal: Flávia compartilha proximidade com Marielle e sua trajetória de vida e militância.
- “Tudo isso e uma porção também do sonho de muita gente... Esse Rio de Janeiro de cinco ou seis governadores presos... floresceu uma Marielle.” (Flávia Oliveira, [27:24])
- Símbolo de uma luta coletiva contra desigualdade, racismo e violência.
- “Foi uma grande injustiça... e essa injustiça é irreparável.” (Flávia Oliveira, [30:44])
10. Encerramento e Reflexão ([31:09]-[32:00])
- Importância da memória e valorização das vítimas:
- “Lembremos de valorizar... essas figuras que são essenciais... Não cuidamos da nossa joia preciosa...” (Flávia Oliveira, [31:09])
- Amargura e enfrentamento à impunidade.
Citações Memoráveis
- “Quantas Marielles o Brasil permitirá sejam assassinadas até ressuscitar a ideia de justiça?” — Carmen Lúcia ([02:28])
- “Esse julgamento é apenas o testemunho tímido... da resposta que o direito pode dar diante da dor com gente atroz...” — Carmen Lúcia ([09:29])
- “Matar é apenas tirar uma pedra do caminho.” — Cristiano Zanin (resumido, [08:34])
- “No oceano de impunidade... é um alento. Agora... não há efetivamente justiça possível.” — Flávia Oliveira ([14:22])
- “Não cuidamos da nossa joia preciosa... ela não tinha proteção, e ela que era tão valiosa.” — Flávia Oliveira ([31:09])
Para Quem Não Ouviu
Este episódio oferece um panorama completo sobre a condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco. Debate o papel das milícias, o simbolismo do crime, as falhas históricas na investigação e as marcas da violência política no Brasil. A análise é sensível, profunda e inquietante — ressaltando tanto a importância do resultado no STF quanto as dores e as frustrações de uma sociedade que perde lideranças valiosas para interesses criminosos.
A memória de Marielle, sua trajetória, e a luta por justiça seguem como faróis diante da impunidade e da violência política.
