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Natuza Nery
Ao todo, foram 12 horas e meia
de julgamento e uma decisão unânime. Os quatro juízes da primeira turma do Supremo Tribunal Federal selaram a resposta a uma pergunta feita há quase oito anos. Quem mandou matar Marielle e por quê?
Alexandre de Moraes
Dentro desse contexto e da necessidade de perpetuação das suas atividades ilícitas, Domingos Inácio Brazão e João Francisco Inácio Brazão foram os mandantes do duplo homicídio e da tentativa de homicídio contra as vítimas Marielle Francisco da Silva, a época vereadora do município do Rio de Janeiro, Anderson Pedro Matias Gomes, então motorista da vereadora, e Fernanda Gonçalves Chaves, então assessora da vereadora.
Natuza Nery
O ministro Alexandre de Moraes, que você acabou de ouvir, foi o relator do caso. No voto, ele usou uma expressão que também apareceu na delação de Rony Lessa, o executor do crime. Marielle era vista como uma pedra no sapato da milícia e, por isso, precisava ser eliminada.
Alexandre de Moraes
Houve a escolha de um alvo, um alvo que seria uma opositora política, e dentro dessa ideia de eliminar não só a opositora política, mas mandar um recado aos opositores políticos, o simbolismo é que seria esse homicídio.
Natuza Nery
Um alvo considerado fácil em razão do seu gênero, da sua cor e da sua origem.
Alexandre de Moraes
se juntou à questão política com a misoginia, com o racismo, com a discriminação. Marielle Franco era uma mulher preta, pobre, que estava, diremos, no popular, peitando os interesses de milicianos. Qual o recado mais forte que poderia ser feito? E na cabeça misógina, preconceituosa de mandantes e executores, quem iria ligar para isso?
Natuza Nery
Carmen Lúcia concordou com o relator e fez uma fala dura sobre a condição das mulheres.
Carmen Lúcia
mulheres e mesmo eu branca e mesmo eu juíza, nós somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos. Então matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente, é muito mais fácil. Continua sendo.
Natuza Nery
E citou a filha de Marielle e o filho de Anderson Gomes, motorista da vereadora que foi assassinado junto com ela.
Carmen Lúcia
Eu me pergunto, senhoras e senhores, quantas Marielles o Brasil permitirá sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de justiça nesta pátria de tantas indignidades? Quantos Andersons nós ainda vamos ver chorar? Quantas Luiaras, Arthur vão ficar órfãos para que o Brasil resolva que isto não pode continuar e que esse estado de direito não é retórica?
Natuza Nery
Aniele Franco, irmã de Marielle e atual ministra da Igualdade Racial, elogiou os votos.
Flávia Oliveira
Acho que tiveram falas ali muito importantes, principalmente direcionadas à violência política de gênero e raça, que acho que esse é um ponto que a gente precisa pegar. Hoje a gente deu um grande passo, que isso sirva de exemplo para muitas pessoas, que não existe impunidade para nenhum crime.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Nathuzan Nery e o assunto hoje é a condenação de quem mandou matar Marielle. Neste episódio, eu converso com a jornalista Fernanda Vivas, produtora da TV Globo em Brasília. Fernanda também é advogada, especializada em processo legislativo, direito constitucional e direito público. E com Flávia Oliveira, comentarista da Globo News, da rádio CBN e colunista do jornal O Globo. Quinta-feira, 26 de fevereiro. Fernanda, você acompanhou de perto esse julgamento contra os mandantes do assassinato da Marielle e do Anderson. Qual era o clima que você presenciou, que você testemunhou?
Fernanda Vivas
É um julgamento esperado desde o fim do ano passado, foi marcado logo para o começo dos trabalhos do Supremo. E foram dois dias de julgamento em que nós vimos a participação da sociedade civil, o público externo pôde vir ao Supremo e acompanhar. a análise do caso mediante credenciamento, e nós vimos também a família, tanto de Anderson quanto de Marielle, aqui presentes ao longo de toda a tramitação, ou seja, ao longo das três sessões em que a primeira turma analisou o caso, Natuza.
Natuza Nery
Domingos e Chiquinho Brazão foram condenados pelos crimes de duplo homicídio, homicídio tentado e organização criminosa armada. Rivaldo Barbosa foi condenado por obstrução à justiça e corrupção passiva. Robson Calisto Fonseca por organização criminosa. E Ronald Pereira foi condenado por duplo homicídio e homicídio tentado. Para os irmãos Brazão, 76 anos e três meses de prisão.
Fernanda, olhando agora para as provas, o que Alexandre de Moraes, na condição de relator desse julgamento, e os outros ministros apontaram em relação às provas, às evidências desse assassinato?
Fernanda Vivas
Especialmente na Tusa, o voto do ministro Alexandre de Moraes, que é o relator do caso, ele foi muito detalhista, ele listou para os ministros presentes algumas provas que foram colhidas pela Polícia Federal e pela Procuradoria Geral da República ao longo das investigações. Num dos casos, por exemplo, ele aponta a ligação entre os irmãos Brazão, de um lado, e Rony Lessa, do outro.
Alexandre de Moraes
Eles não tinham só contato com a milícia, eles eram a milícia, eles participavam da milícia.
Fernanda Vivas
Os investigadores mostraram, através de provas documentais, provas técnicas, testemunhas, que a delação do Rony Lessa apontava a questão da ligação entre Lessa e os irmãos e isso foi corroborado pelas investigações. Há, por exemplo, um depoimento de uma testemunha que aponta que Lessa e os irmãos Brazão já estiveram juntos em um determinado local. E a contratação para o crime foi a partir de uma intermediação de uma terceira pessoa chamada Macalé. Lessa disse que o contato chegou até ele pelo ex-PM Edmilson de Oliveira, conhecido como Macalé, assassinado em novembro de 2021.
Rony Lessa
Macalé, ele que tinha o contato com um interlocutor entre os irmãos Brazão, entre Chiquinho Brazão e Domingos Brazão.
Fernanda Vivas
Ele surge com a proposta para o Rony Lessa e essa proposta foi feita pelos irmãos Brazão, pelos interlocutores do Brazão. E aí o pagamento por esse crime seria por meio de terrenos em um loteamento clandestino.
Rony Lessa
E a proposta era que com isso aí nós ganharíamos um loteamento. Era muito dinheiro envolvido. Na época, Ele falou em 100 milhões de reais, que realmente as contas batem 100 milhões de reais o lucro dos dois loteamentos. São 500 lotes de cada lado.
Fernanda Vivas
O Rony Alessa chegou a falar que esteve com os irmãos Brazão em três ocasiões. A Marielle foi colocada como uma pedra no caminho, um obstáculo a ser suplantado.
Rony Lessa
Ela teria convocado algumas reuniões para que não houvesse adesão a novos loteamentos da milícia. O que deu para entender é o seguinte, a Marielle vai atrapalhar e nós vamos seguir isso aí. Para isso, ela tem que sair do caminho.
Fernanda Vivas
Havia um infiltrado no pessoal que repassava as informações sobre a rotina de Marielle. E o ministro Moraes apontou uma série de provas documentais, como as matrículas dos terrenos, como as conclusões da CPI das milícias e testemunhos que confirmam o que a delação do Rony Lessa apontou.
Natuza Nery
E o que os demais ministros disseram? Quais foram os momentos mais marcantes, Fernanda, desse julgamento?
Fernanda Vivas
Natuza, o ministro Alexandre de Moraes apontou questões políticas e questões relativas à misoginia contra a Marielle, contra uma mulher negra. da comunidade LGBTQIAPN+, uma mulher lésbica. Esse também foi um dos pontos que o ministro Moraes apontou.
Alexandre de Moraes
Na cabeça misógina, preconceituosa de mandantes e executores, quem iria ligar para isso? O colaborador Rony Lessa, ele diz da preocupação dos mandantes com a repercussão. Eles não esperavam tamanha repercussão.
Fernanda Vivas
O ministro Cristiano Zanin, que veio na sequência, tem uma frase muito importante em que ele fala que a impunidade histórica dos grupos de milícias serviu como uma espécie de combustível para essa escalada de violência que levou ao assassinato de uma representante do povo eleita E ele apontou que, para essas milícias, matar é apenas tirar uma pedra do caminho A ministra Carmen Lúcia fez um voto em que ela apontou muito a questão das famílias Ela fez falas diretas à dor das famílias porque foi morta uma vereadora eleita que estava no trabalho, estava saindo de um compromisso de trabalho e foi morto um trabalhador Ambos deixaram esposas, filhos, famílias, e ela mostrou essa questão do que fica de famílias que foram dilaceradas.
Carmen Lúcia
Esse julgamento é apenas o testemunho tímido, quase constrangido da minha parte, da resposta que o direito pode dar diante da dor com gente atroz. que tem aqui a face da mãe, da filha, do filho, das viúvas, da trabalhadora que se afirma ter sobrevivido, quando todo mundo tem o direito à vida e não à sobrevida.
Fernanda Vivas
E ela aponta também a condição feminina. Ela pergunta quantas Marielles que o Brasil vai permitir que sejam assassinadas até que se tenha a ideia de justiça. O ministro Flávio Dino, por outro lado, falou muito da questão da investigação, do começo da investigação. Ele apontou falhas naquele início da investigação, negligências que só foram possíveis na presença de muitos elementos de poder. Então ele aponta isso e aponta como o cenário se alterou a partir do momento em que a Polícia Federal entra na apuração.
Natuza Nery
Não existe crime perfeito, existe crime mal investigado. Eu diria que esse crime foi pessimamente investigado. E foi pessimamente investigado, no começo, de modo doloso.
E por que Alexandre de Moraes, o relator, decidiu absolver Rivaldo Barbosa do crime de homicídio, condenando ele apenas por obstrução de justiça e por corrupção?
Fernanda Vivas
Na situação do Rivaldo, os ministros concluíram que havia uma dúvida razoável da participação dele nos assassinatos. Não necessariamente uma negativa de autoria, mas uma dúvida. As provas não traziam elementos que fossem peribitórios, que fossem definitivos, que comprovassem a participação dele. Não havia provas que corroborassem o que estava na delação de Ronilessa. O delegado Rivaldo Barbosa foi chefe da Polícia Civil do Rio e foi empossado no dia 13 de março de 2018, um dia antes do assassinato da vereadora Rivaldo é graduado em Direito e também foi coordenador da Divisão de Homicídios Bonilessa
Flávia Oliveira
também diz que Domingos Brazão teria afirmado que o delegado Rivaldo Barbosa, então chefe da Delegacia de Homicídios do Rio, participava do plano.
Fernanda Vivas
O que as provas demonstravam era uma atuação de Rivaldo na destruição de provas frequentes na divisão de homicídios do Rio para garantir a impunidade. E nesse ponto havia testemunhos que confirmavam essa questão da proteção de Rivaldo aos executores. Como não havia essas provas específicas da participação nos homicídios, os ministros consideraram que era o caso de condená-lo pela questão da corrupção e da obstrução de justiça.
Natuza Nery
Fernanda, e o que acontece a partir de agora?
Fernanda Vivas
Natuza, nesse primeiro momento, a primeira turma decidiu que eles vão continuar presos, ou seja, eles estão em prisão preventiva e vão continuar presos. O processo vai continuar por mais um tempo, porque nós tivemos a condenação hoje e eles ainda podem recorrer. Aqui no Supremo, o recurso cabível para eles nesse momento são os embargos de redeclaração, que são recursos destinados a esclarecer alguns pontos da decisão. Essa decisão colegiada vai ser formalizada em um documento chamado Acórdão. Isso deve acontecer em até 60 dias. A partir daí, as defesas vão se debruçar nesse documento e tentar buscar elementos que permitam uma revisão da decisão e, muitas vezes, tentar redução de pena ou até mesmo absolvição. Passada essa etapa, se não houver mais chance de recursos, aí sim o caso é encerrado e aí a gente começa com a execução da pena. Além da pena de prisão que eles vão ter que cumprir inicialmente em regime fechado, porque eles estão com penas maiores que 8 anos, eles vão ficar inelegíveis, sem direitos políticos, vão perder os cargos e vão ter que pagar indenização aos familiares. Essas medidas vão ser colocadas em prática a partir do momento que um caso for encerrado que não houver mais chance de recurso.
Natuza Nery
Fernanda Vivas, muito obrigada por ter topado conversar com a gente e por ter feito a cobertura desse julgamento tão importante. Bom trabalho para você.
Fernanda Vivas
Obrigada, Natuza. É sempre bom estar com vocês, viu?
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Flávia Oliveira. Flávia, com o veredito dos ministros da primeira turma, é possível finalmente responder à pergunta do porquê mataram Marielle?
Flávia Oliveira
Natuza, antes de a gente começar essa conversa, Eu vim exatamente pensando sobre isso. É uma história longa, são quase oito anos para a elucidação ou para uma justiça esperada, para um crime, dois, três, porque foram dois homicídios e uma tentativa de homicídio, que comoveu e indignou o Rio de Janeiro, o Brasil e até o mundo. Então, é verdade que no oceano de impunidade que costuma predominar em relação a crimes contra a vida no Brasil, incluindo episódios de violência política, incluindo episódios de violência de gênero, de feminicídios, crimes bárbaros que acontecem, é um alento. Agora, não tem como tratar esse dia, e aí eu... te peço licença para dar um depoimento que é muito pessoal, em razão de eu ter conhecido, convivido com Marielle e depois com a família dela, não há o que festejar, porque eu acho que essa luta por justiça nos crimes contra a vida Ela detona, ativa uma espécie de pensamento mágico de que se a justiça for feita, a gente vai ficar bem. E quando esses casos se fecham, foi o caso de hoje, você percebe que não há efetivamente justiça possível. O crime contra a Marielle, ele ajudou a revelar muito mais do que esses assassinos, essa indústria da morte que envolve os autores e essas conexões com o mundo da política e com a própria polícia. E isso foi muito valioso e espero que continue sendo valioso para o Rio de Janeiro. Mas... Efetivamente, em que pese essa mártir que foi Marielle ter nos ajudado a conhecer tanto sobre a nossa sociedade, eu acho que ela teria nos ajudado muito mais se viva ficasse. Então, o gosto é amargo. Em que pese ser uma vitória da sociedade, como a ministra Carmen Lúcia disse, além de Marielle e Anderson presentes, o direito presente, além dessa resposta necessária, absolutamente urgente e demorou para a sociedade, o saldo ainda é de uma derrota muito grande na Tusa.
Natuza Nery
Sem dúvida nenhuma, sem dúvida nenhuma. Eu vou te pedir, Flávia, pra você nos relembrar o que aconteceu naquela noite em que o carro de Marielle Anderson dirigia o carro, o carro foi alvejado, Marielle também, Anderson também, houve uma sobrevivente. Qual foi a participação dos envolvidos nessa história? Você pode rememorar pra gente aquela noite?
Flávia Oliveira
Olha Natuza, a posteriori tomamos todos os conhecimentos de que a Marielle vinha sendo monitorada fazia tempo, com inclusive invasão da agenda dela por dispositivos digitais, pesquisas de endereço, acompanhamento, e naquela noite ela teve uma reunião Uma reunião, inclusive, sobre participação política, presença de mulheres negras, alianças de mulheres negras num espaço que já era, naquela época, no Rio de Janeiro, conhecido por agregar mulheres negras em debates sobre questões sociopolíticas, formação profissional, ensaios, a Casa das Pretas, na Lapa, centro do Rio de Janeiro, região central do Rio de Janeiro. E esse é um dado importante, o centro do Rio de Janeiro. Não foi um crime cometido numa área remota da cidade, num descampado, num lugar como um matagal, e a gente já teve crimes emblemáticos no Rio de Janeiro com essas características. Não. Os assassinos fizeram campana, estacionaram Na porta desse espaço, desse coletivo de mulheres negras, esperaram que Marielle, que convocara aquela reunião, deixasse a Casa das Pretas Ela não andava com segurança E essa também, Natuza, eu vou abrir um parêntese para chamar atenção para isso, porque os próprios ministros se referiram à misoginia, ao racismo e o quanto mulheres negras, no caso específico a Marielle, são alvos fáceis e corpos matáveis, por banais, por pouco senso de proteção e até da própria valorização. O ministro Alexandre compara e a ministra Carmen Lúcia também fez referência a isso, ao quanto eles, criminosos, assassinos, se preocuparam em relação à encomenda contra o então deputado Marcelo Freixo. O Marcelo Freixo já andava com proteção policial fazia muitos anos e isso encarecia um possível um desejo de assassiná-lo, porque envolveria, por exemplo, matar policiais que faziam a sua proteção. Marielle era desprotegida como são desprotegidas as mulheres brasileiras, as mulheres negras brasileiras, mesmo quando em posições de poder, no caso ela uma vereadora eleita no exercício de mandato. Então ela deixa a sede da Casa das Pretas, atravessa a Lapa, passa pela região onde fica até hoje a sede da Prefeitura, tem o Hospital da Polícia Militar no caminho, tem a sede da Prefeitura, tem uma estação central de metrô importante. Esse carro em que estavam os dois assassinos, ele segue o carro de Marielle Anderson num determinado momento na fronteira entre o que é o Estácio, o bairro também da região central, a caminho da Tijuca, onde ela morava. O Elcio de Queiroz emparelha o carro com o de Marielle e o Rony Lessa, que era um exímio atirador, põe o braço pra fora. atira com muita precisão na cabeça de Marielle, muitas vezes. Há um tiro que alcança, resvala o Anderson, o motorista, e a Fernanda, que estava ao lado, ela acaba até, em alguma medida, se livra de ser morta também pelo corpo e pela parada do carro e a fuga do outro.
Natuza Nery
Ela foi protegida pela própria Marielle.
Flávia Oliveira
Exatamente. E imediatamente, nós todos que somos do Rio de Janeiro, jornalistas, ativistas, representantes de organizações de direitos humanos e do mundo político, soubemos que aquilo foi uma execução. que tinha características de execução.
Natuza Nery
Isso ficou claro desde o início, eu me lembro que eu estava no ar quando chegou a notícia do assassinato da Marielle e do Anderson, até aquele momento poucas informações, mas rapidamente, como você disse, se soube do que se tratava.
Flávia Oliveira
O processo todo foi muito acidentado e pontuado por obstrução de justiça. Obstruções, eu vou usar o plural, porque foram vários episódios. Foram pelo menos cinco delegados, houve troca no Ministério Público, houve negligência, e hoje a gente compreende, dolosa em relação à investigação.
Camila (advogada)
Essa história começa com o PM, tal Ferreirinha, que um dia decide, olha, depor. Então, ele é levado por uma advogada, a Camila, à Polícia Federal, onde um delegado da Fazendária ouve com outro delegado ele dizendo, olha, eu ouvi o Orlando Curicica falar para O siciliano, que é outro, é um miliciano, não é o político siciliano do Rio, fala uma coisa pejorativa do Freixo. Então, a partir daí, a polícia vai toda na direção do siciliano, do Orlando Curicica. Depois, essa versão não se sustenta. O Orlando Curicica chama os promotores na cadeia e fala, cara, estão querendo me embuchar.
Flávia Oliveira
E atrapalhou muito tempo a investigação.
Camila (advogada)
E aí atrapalhou. Aí depois a Polícia Federal encontra principalmente imagens, uma delas que não foi capturada. E outra que foi capturada, mas o trecho importante que aparece o carro não está anexada ao inquérito. E aí eles alegam que foi uma falha técnica.
Flávia Oliveira
Parecia incompetência, uma vez que o discurso oficial era de que se fariam os esforços necessários para descobrir os assassinos. Não foi o que aconteceu. O Ministério Público mudou quatro vezes a equipe encarregada pela apuração. Em julho de 2021, as promotoras deixaram o caso, alegando interferências externas. Já na Polícia Civil, foram cinco trocas de delegados. E é importante lembrar que o Rio de Janeiro, havia um mês, estava sob intervenção federal na segurança pública. Era um general do exército, hoje preso por tentativa de golpe, um interventor, o responsável pela reestruturação da segurança pública. no Rio de Janeiro naquele momento. Rivaldo Barbosa, da Delegacia de Homicídios, tornado chefe de Polícia Civil, e hoje a gente percebe claramente, atuando para atrapalhar as investigações. O nome de Rivaldo Barbosa, sem dúvida nenhuma, para nós foi uma grande surpresa, em especial considerando que ele foi a primeira autoridade que recebeu a família no dia seguinte, dizendo que seria uma prioridade da Polícia Civil a elucidação desse caso. Então, Natuza, uma característica muito nefasta que são, fora o envolvimento de autoridades, de agentes públicos, e a gente está falando de um deputado, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e ex-deputado, a gente está falando de um ex-chefe de polícia civil, um delegado de polícia, a gente está falando de dois ex-policiais militares, os executores. Então foi um crime cometido não só pela omissão, pelo descaso, por esse ambiente de violência banalizada que toma conta de uma cidade ou de um Estado como o Rio de Janeiro, mas por figuras formadas pelo Estado ou içadas a posições públicas, políticas, que deveriam ser de proteção e no entanto são de aliquilamento. da população, da sociedade, das instituições democráticas É muito grave essa interseção de figuras escolhidas, treinadas para trabalhar em prol da sociedade, envolvidos numa trama sórdida, em razão de interesses políticos, econômicos, territoriais, supostamente frustrados pela Marielle Franco.
Natuza Nery
Flávia, esse é um assunto particularmente difícil para você, né?
Flávia Oliveira
Particularmente difícil, sim, porque eu conheci, acompanhei muito, conheci a Marielle, acompanhei a campanha. Foi uma campanha muito bonita, Natuza, na origem desse grande movimento que está completando uma década, uma década e meia de busca por representatividade na política. Então, ela, uma mulher negra, com todos os atributos para ser um grande quadro político do Brasil, porque nasceu e cresceu na Maré, porque trabalhou em prol dessa população, porque além de ter uma sensibilidade, uma percepção muito aguçada sobre os problemas da nossa sociedade de desigualdade, de pobreza, de falta de oportunidades, ela também, ao mesmo tempo, traçou um caminho em paralelo de letramento, de formação regular. Então ela estudou, ela fez faculdade, ela fez mestrado, ela passou uma década trabalhando na Comissão de Direitos Humanos. da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e, portanto, tinha um senso também de contribuição com o setor público, com a prestação de serviços à sociedade. Poderia ter feito tudo isso, ter nascido na favela e crescido na favela, estudado, feito faculdade, feito mestrado e ter ido para uma posição na iniciativa privada, cuidar da própria família, cuidar da própria vida. Não foi isso que a Marielle fez. Ela se dedicou a atuar no setor público, em políticas públicas. Se submeteu ao escrutínio público numa campanha política muito bonita, muito comovente. Havia muita gente no Rio de Janeiro, esclarecido, formador de opinião, que não conhecia, que não sabia dessa história da Marielle, mas muita gente sabia. e se engajou nesse processo, inclusive nessa campanha eleitoral. Então, o que esses assassinos formados, pagos pelo Estado, tiraram Foi tudo isso e uma porção também do sonho de muita gente, de muita gente que há muito tempo batalha por uma política diferente no Rio de Janeiro. Esse Rio de Janeiro de cinco ou seis governadores presos ou réus ou investigados, É nesse território que floresceu uma Marielle. Então, por isso, o sentimento devido de punição aos assassinos que tiveram suas ambições contrariadas, a ministra Carmen fala disso, a soberba de achar que não pode ser contrariado e aí contrata a morte de alguém, ele sacia só em parte, sacia esse sentimento da justiça pelo direito, mas foi uma grande injustiça o que Marielle, seus eleitores e o Rio de Janeiro sofreram naquele março de 2018. E essa injustiça é irreparável.
Natuza Nery
Flávia Oliveira, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho para você, minha amiga.
Flávia Oliveira
Obrigada, amiga. Bom trabalho também. É muito importante que a gente lembre disso, primeiro pela ideia de enfrentamento à impunidade, já mencionada, mas que a gente lembre de valorizar E aí, no sentido mais amplo do termo, essas figuras que são essenciais. Eu lembro de mim e de muitas mulheres negras naquela época falando, não cuidamos da nossa joia preciosa, porque ela não tinha um carro blindado, porque ela não tinha escolta, porque ela não tinha proteção, e ela que era tão valiosa. Fica um gosto muito amargo na Tusa.
Natuza Nery
Um beijo, força pra você, força pros dela também, que eu sei que você já deve ter conversado e que vai voltar a falar com a família da Marielle. Um beijo, minha amiga, um beijo grande. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catelan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Natu Zaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 26 de fevereiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidadas: Fernanda Vivas (TV Globo), Flávia Oliveira (GloboNews)
O episódio analisa em profundidade o histórico julgamento no STF que condenou os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Com entrevistas e análise de especialistas, o programa expõe as circunstâncias, motivações políticas e impacto social do crime, além de detalhar a atuação das milícias no Rio de Janeiro e refletir sobre justiça para vítimas de violência política no Brasil.
Este episódio oferece um panorama completo sobre a condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco. Debate o papel das milícias, o simbolismo do crime, as falhas históricas na investigação e as marcas da violência política no Brasil. A análise é sensível, profunda e inquietante — ressaltando tanto a importância do resultado no STF quanto as dores e as frustrações de uma sociedade que perde lideranças valiosas para interesses criminosos.
A memória de Marielle, sua trajetória, e a luta por justiça seguem como faróis diante da impunidade e da violência política.