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Natuza Neri
Quatro anos atrás, Lula era o candidato óbvio da oposição para tentar impedir que Jair Bolsonaro se reelegesse presidente. O que surpreendeu muita gente foi a escolha de vice na chapa dele. Vamos lembrar o que disse Fernando Haddad, ministro da Fazenda, numa entrevista que ele deu aqui, pra mim, no assunto, em 2023.
Fernando Abrúcio
Quando nós começamos a imaginar o Alckmin vice do Lula, que era uma coisa que, à época, em 2021, falava, não, mas isso aqui é uma loucura e tal. O Lula, pelo contrário, ele falou assim, a política é capaz de coisas extraordinárias. Foi a reação que ele teve, a frase é dele. E aí nós começamos a trabalhar e demorou seis meses para a coisa se viabilizar.
Natuza Neri
A estratégia deu certo. Com o ex-tucano na chapa, o candidato do PT se apresentou ao eleitor como o nome da frente ampla pela democracia.
Fernando Abrúcio
Eu penso que foi um grande trunfo da campanha de 2022. O principal expoente do PSDB topar a serviço do presidente Lula.
Natuza Neri
Juntos, Lula e Alckmin, antigos adversários, venceram as eleições de 2022.
Fernando Abrúcio
Lula declarou que a partir de agora é companheiro Alckmin e companheiro Lula. Hoje é dia de mostrar a força da nossa união em torno de Lula.
Natuza Neri
E chegaram neste 2026 em clima de grandes amigos. No evento do aniversário do PT, o tom foi este aqui.
Fernando Abrúcio
Quando é que vocês imaginaram que eu e Alckmin iam estar juntos? Nunca. Nunca. Paulo Ampo é uma dessas coisas que Deus fez acontecer na minha vida, porque é um homem todo extraordinário, com respeito e admiro.
Natuza Neri
Mesmo assim, nada garante que o nome de Alckmin esteja na urna na eleição deste ano. Em uma entrevista ao Uol, no começo de fevereiro, Lula afirmou que o ex-governador tem um papel importante para cumprir no Estado de São Paulo. Uma parte da plateia entendeu que se tratava de uma senha para dizer que o posto, a vaga de vice na chapa, está vago. A outra, no entanto, viu só um reforço de que, mesmo na condição de vice, Alckmin tem que trabalhar para eleger um governador da coligação no Estado de São Paulo. O que eu tenho de novidade é que Lula mandou recado, sim, nos últimos dias para Gilberto Kassab, dizendo que quer conversar sobre vice. Três pessoas me relataram isso, que ele disse, manda o Kassab vir aqui conversar sobre a vice. As chances do PSD ser vice são ínfimas, muito pequenas, porque muita gente que está no partido sairia. É fato que o PT, legenda de Lula, gostaria muito de ampliar a aliança com partidos de centro e do centrão para conseguir mais palanques estaduais e mais tempo de propaganda eleitoral para a campanha do atual presidente. E aí, segundo esse plano, o MDB seria o mais cotado. Renan Filho, ministro dos transportes de Lula e do MDB, defende essa ideia.
Fernando Abrúcio
Eu fico pensando, né, ministro, como é que explica a política brasileira para quem chega aqui de paraquedas? Porque o MDB, com o Temer, participou ativamente, foi protagonista do processo de impeachment. Como é que explica hoje estar negociando essa possível vice na chapa com o presidente Lula? Eu acho que o PT, ele compõe a aliança do lulismo, que é maior do que o petismo. E o MDB amplia o lulismo para o centro.
Natuza Neri
Já Baleia Rossi, presidente do partido, pensa diferente.
Fernando Abrúcio
Na oposição, a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
Natuza Neri
Vem se consolidando, de acordo com as pesquisas de opinião mais recentes. E com o posto de vice ainda em aberto, várias opções já circulam por aí. Há o nome do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Partido Novo, e o da senadora Tereza Cristina, do Progressistas, de Mato Grosso do Sul. Ela, por exemplo, é um dos nomes preferidos de Valdemar Costa Neto, presidente do partido de Flávio, o PL.
Fernando Abrúcio
Hoje, minha opção seria por uma mulher. Tereza Cristina é o máximo. Tereza Cristina é o máximo para tudo, até para presidente. Tereza Cristina é quem eu queria que fosse vice do Bolsonaro na outra eleição.
Natuza Neri
Apesar de todas essas articulações e planos e estratégias, vale uma pergunta. Afinal, vice dá voto para candidato a presidente? Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é a corrida dos vices para a eleição presidencial. Neste episódio, eu converso com Fernando Abrússio, cientista político, professor da FGV, a ESP e comentarista da Globo News. Quinta-feira, 19 de fevereiro. A Brússia, quatro anos atrás, Lula era o candidato óbvio da oposição ao governo Bolsonaro, as pesquisas mostravam que ele era o nome capaz de derrotar o então presidente, mas a escolha do seu vice surpreendeu. Eu queria tentar entender o que estava na cabeça de Lula naquele momento quando escolheu Geraldo Alckmin, um rival de tantos anos, na vaga de vice.
Fernando Abrúcio
Olha, Natuza, primeiro ele queria ampliar a candidatura dele para novos setores. Lula já tinha feito isso com Zé Alencar, na verdade, nos seus dois primeiros mandatos, chegando a um eleitor de classe média, um eleitor mais ao centro. Segundo, queria ter força no Estado de São Paulo. O Estado de São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. Lula tem dificuldades nesse estado constantemente e Alckmin poderia dar essa possibilidade. E por fim, como você disse, ele queria criar um fato novo, né? E criou um fato novo, toda aquela articulação feita pelo Gabriel Charita, pelo Fernando Haddad, que eram um de cada lado, mas muito amigos, permitiu que Alckmin se transformasse no vice Turula, e nesses últimos quatro anos, um vice de uma lealdade impressionante, um vice que teve papel importante no governo, particularmente na crise com os Estados Unidos, Alckmin foi decisivo em dar o tom correto do governo. e um vice que eu ainda acho que será o vice-candidato, pelo menos, não sei vice-presidente, mas o vice-candidato para as eleições de 2026.
Natuza Neri
E Lula te parece muito disposto a trocar de vice na eleição deste ano? Eu te pergunto isso porque há dois cenários possíveis sobre a mesa. O primeiro cenário é manter Geraldo Alckmin onde está, na condição de vice nessa disputa. A outra é fechar com algum outro partido, o MDB é sempre falado, por exemplo, para lançar um outro nome que componha, do ponto de vista eleitoral, num outro sentido. Eu queria que você falasse sobre essas possibilidades que estão colocadas em jogo até aqui.
Fernando Abrúcio
E ainda é favoritíssimo para ser o candidato a vice-presidente do Lula. Por que isso? Porque Alckmin demonstrou ser muito leal, tem uma química muito forte com o Lula, é importante ainda no estado de São Paulo e tem, digamos, um espectro partidário que é importante para o lulismo, o PSB, e o Alckmin é o principal líder hoje do partido. Mas o que Lula quer fazer ao abrir essa conversa, não me parece que é trocar o vice. Essa possibilidade existe, mas eu acho que ela é muito pequena. O que Lula faz ao abrir uma conversa em torno do vice é, de um lado, fortalecer alianças com uma série de partidos e lideranças regionais que apoiaram o governo, mas que ele precisa dizer, eu gosto muito de vocês, Eu estou falando, sobretudo, Natuza, do MDB, do MDB no Nordeste, do MDB no Norte do país. Inclusive, preciso dizer, eu gosto muito de vocês. E, por outro lado, ele também abriu a conversa à vice para diminuir a chance de outros partidos do centrão apoiarem Flávio Bolsonaro. Acho que essa história, por exemplo, do Rodrigo Pacheco concorrer ao governo de Minas pelo União Brasil, tem um pouco o dedo do Lula. Quer dizer, mostrar que União Brasil, PP, quem sabe até republicanos, esse é mais difícil. Se eles não apoiarem de maneira alguma, como o PSD não fará, a candidatura do Flávio Bolsonaro, ele coloca a candidatura do Flávio Bolsonaro num gueto. E é isso que Lula quer.
Natuza Neri
O problema é trocar algo certo, que.
Fernando Abrúcio
É a aliança com o PSB, e.
Natuza Neri
O Alckmin, que já foi testado e passou no teste ali da lealdade, etc., por algo bem incerto, que é a aliança com o MDB e que tem ali um passado de desavenças com o PT, como no governo Dilma, e defender isso publicamente. Então, não é uma troca simples de o Lula fazer e que pode trazer.
Fernando Abrúcio
Aí muitos efeitos colaterais Além disso, por que ele não gostaria de ter um candidato do MDB? Acho que não é uma questão só de gostar de ter um candidato do MDB, é muito difícil. É muito difícil porque ainda tem fissuras na relação do MDB, com o PT e com o próprio presidente Lula, essas fissuras têm nome e moram na cidade de São Paulo, chama-se Michel Temer, e o Temer tem ainda um papel no MDB, acho que isso seria uma guerra muito complicada, com algum grau de incerteza. Segundo, porque em parte do país, mesmo que o MDB fosse vice do Lula, indicasse o vice, o MDB não vai apoiar o Lula, ponto. A maioria do MDB, acredito eu, pelo que eu acompanho, que é bem dividido também, tem várias visões de país, vários grupos diferentes que não concordam com esse apoio. Em partes do centro-oeste e do sul do país, por exemplo, é muito difícil que o MDB apoie o Lula. Portanto, o candidato favoritíssimo é o Alckmin, mas ele precisa dizer que ama o MDB para fortalecer essas alianças regionais, e precisa afastar a parte do centrão do Bolsonaro. Para isso, ele teve uma enorme ajuda do Gilberto Kassab, que taxou, na verdade, colocou na testa do Flávio Bolsonaro que ele é o gueto, não é, digamos, o conjunto da centro-direita.
Natuza Neri
Vou pedir para você explicar que movimento foi esse de Gilberto Kassab.
Fernando Abrúcio
O movimento do Kassab foi, primeiro, lançar três candidatos a presidente. E os três dizendo, no fundo, estamos fora da polarização. E isso que significou que o PSD, ao lançar três candidatos, fez uma ameaça. Nós podemos ter um candidato a presidente, podemos apoiar esse candidato. E mais, esse candidato não é igual ao Bolsonaro.
Natuza Neri
Deixa eu só dar um passo para trás aqui. Potenciais candidatos são Ronaldo Caiado, governador de Goiás, cujo mandato acaba, portanto, agora, este ano, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e Ratinho Júnior, governador do Paraná. Os três mandatos acabam este ano.
Fernando Abrúcio
E acho que dois dos três, Natuza, demoraram muito para se desvencilhar do bolsonarismo e, de certa maneira, o bolsonarismo acreditou que poderiam estar juntos, todos eles, até no primeiro turno. Mas, com essa jogada do Kassab, ele disse, não, Ratinho e Callado não estarão juntos com o bolsonarismo de jeito nenhum no primeiro turno. Talvez no segundo turno, mas ainda tem um talvez. Eduardo Leite nunca participou dessa, digamos, aliança bolsonarista maior. Eduardo Leite é o grande nome que podemos chamar no Brasil de centro. Ao fazer o lançamento dessas três candidaturas, ele de fato enfraqueceu uma aliança maior de centro-direita em torno do Bolsonaro, que na verdade estava sendo pensada por um certo momento em torno do governador Tarcísio de Freitas, mas com o nome do Flávio Bolsonaro, PSD tá fora, acho que PP e União Brasil estão fora, e aí MDB com certeza está fora. Sobra um ou outro ali, não sei se Podemos vai entrar, até por brigas regionais que afetam o bolsonarismo. E o que o Lula tem feito nessa jogada, por isso que eu acho que não é a questão de tirar o Alckmin da vice-presidência, quer dizer, Eu amo os líderes regionais do Centrão que me apoiaram. Eu falei, mas eu poderia falar, Matheus, André, Fufuka. Eu amo. Esses são meus amores, vocês estarão comigo. E, por outro lado, tentar reduzir o alcance do bolsonarismo na busca de apoios de centro para direita.
Natuza Neri
Eu quero entender essa equação, porque, pelo que você está me dizendo, a estratégia de, ou o movimento, melhor dizendo, de Gilberto Kassab, ele prejudica Flávio Bolsonaro porque ele isola Flávio Bolsonaro no que você chama de gueto. Por outro lado, também houve uma leitura de que esse movimento prejudicaria Lula ao lançar um nome da direita ou da centro-direita, a depender da régua de cada um, que pode tirar votos do atual presidente, votos dados por pessoas que seriam anti-bolsonaristas, por exemplo. Colocando essas duas possibilidades na balança, é pior para quem a candidatura de um nome do PSD de Gilberto Kassab? Para Lula ou para Flávio Bolsonaro? Eu sei que essa não é a discussão de vice, mas eu fiquei com essa curiosidade.
Fernando Abrúcio
Eu acho que é pior para Flávio Bolsonaro, porque a gente olha os resultados das pesquisas eleitorais, esse eleitor, digamos, mais de 100 do lado direito, uma maior parte dele hoje, digamos, tem uma avaliação negativa do governo. Então seria difícil recuperar essa parte simplesmente não tendo um candidato, tendo um vazio naquele espaço. mas seria uma possibilidade de um candidato de oposição, e o candidato de oposição mais forte se chama Flávio Bolsonaro, tentar buscar esse eleitor. No primeiro turno já foi, acho muito difícil, e acho difícil as pessoas já no primeiro turno fazerem esse tipo de eleitorado, fazerem um voto, digamos, vamos acabar o jogo no primeiro turno, acho difícil isso. Então prejudica mais o Flávio Bolsonaro, inclusive do ponto de vista partidário, porque a decisão do Kassab, ela transbordou para outros partidos, de tal maneira que PP, União Brasil, com certeza, além do MDB e do PSD, não darão tempo de televisão para Flávio Bolsonaro.
Natuza Neri
Só para explicar, você falou tempo de TV funciona da seguinte maneira. Um partido político tem direito a um maior tempo de TV quanto mais deputados ele elegeu na última eleição. Como os partidos que mais elegeram deputados federais É bom que se frise. Na última eleição foram PL de Flávio Bolsonaro e PT de Lula, logo esses são os partidos com o maior número de minutos de tempo de TV. Como é que se amplia esse tempo de TV? Quando os partidos formam a tal da coligação. Outros partidos se juntam àquele partido que tem o candidato à presidência e formalizam uma aliança eleitoral presidencial. Aí você soma os tempos de TV a que cada partido tem direito e aí isso vai definir qual é o grau do seu latifúndio ou não no horário eleitoral gratuito. Mas vou voltar aqui para a discussão de vice, que é o que nos move neste episódio. Uma pergunta antes de entrar mais numa outra possibilidade de vice para a Lula. Vice da voto no Brasil? Queria que você respondesse essa pergunta de um milhão de dólares, Abrúcio.
Fernando Abrúcio
Pode dar um pouco de voto, né? Numa eleição muito apertada como foi a de 2022, creio que se nós mantivermos o retrato atual, tende a ser a eleição de 2026 e faz diferença. Numa eleição não muito apertada, Marco Maciel e Jarlen Carr não deram votos suficientes para Fernando Henrique ou Lula, Temer não elegeu Dilma e assim por diante, o General Mourão não elegeu Bolsonaro. Mas uma eleição apertada, um vice que deu uma imagem de maior confiança, pode fazer com que alguns eleitores que estão ali em cima do muro, indecisos, votem. Eu acho que muita gente votou no Lula no segundo turno, olhando para o Alckmin. Olhando pro vice do Bolsonaro que tava ali mais em cima do olho e botaram. Isso num universo matemático de milhões de votos, se representar milhares de votos, cem, duzentos, trezentos mil, se só representar isso já é muito importante. para uma eleição presidencial apertada. Porque essa imagem, Lula e Alckmin, para lembrar a última eleição, uma imagem de que no contraste um equilibra o outro. E acho que é isso que Flávio Bolsonaro também está buscando, é alguém que equilibre.
Natuza Neri
Eu acho que vice não dá voto nenhum, tá? Eu acho que vice ajuda a contar uma história. Então, na de 2022, o vice, sendo Geraldo Alckmin, um ex-adversário de Lula, ajudava a sustentar aquela tese da frente ampla, né? Que Lula fechou, pediu apoio de diversos partidos, tentou atrair o centro para se viabilizar a presidente. Acho que essa história foi contada dessa maneira. Tenho dúvida se a história da Frente Ampla vai ser repetida, porque talvez não cole mais. Agora, que vice no Brasil assume o poder? Isso assume. Então, se as pessoas não consideram votar num candidato a presidente por causa do vice, pelo menos tem que se lembrar que no Brasil tem a assina do vice. Vou citar alguns. José Sarney, que assumiu após uma eleição indireta de Tancredo Neves, depois da morte de Tancredo. Mas vamos pegar aqui a eleição direta. Itamar Franco assumiu depois do impeachment de Collor. Michel Temer assumiu depois do impeachment de Dilma. Então, Abrúcio, vice é uma vaga importante se a gente for levar em conta a história brasileira.
Fernando Abrúcio
Sim, você esqueceu do João Goulart, né?
Natuza Neri
E além do João Goulart e Floriano Peixoto e Delfim Moreira, tem vários na história.
Fernando Abrúcio
Jango, na verdade, tem que lembrar que no período 46-64, o vice era escolhido, podia ser de uma outra chapa, isso é uma coisa interessante, e graças a Deus nós tiramos na porção de 88, e mesmo assim, o efeito Temer, acho que hoje o nome que mais vem à cabeça das pessoas é o efeito Temer, é um risco, a escolha do vice do Bolsonaro de 2022 foi pensando no efeito Temer. Acho que vice agrega coisas, porque assim, a escolha do voto não é apenas no nome, é num conjunto de coisas. Quando a gente faz pesquisa qualitativa, as pessoas vão juntando. Em 22, muita gente citou o Alckmin, e acho que em 26, menos gente vai citar o Alckmin, porque a narrativa vai ter que ser um pouco diferente. não porque o Lula deseja que seja diferente, mas porque, em Sumou o Mundo, se apresenta diferente para o presidente Lula, e a narrativa colocada ao Alckmin aí vai trazer menos votos do que tosse em 22. Mas também trazer alguém do MDP, alguém, digamos, de um partido mais ao centro para ser o vice do Lula, não agregaria tantos votos na narrativa, que as qualitativas mostram, quanto o Alckmin trouxe em 22, ou quanto o Zé Lenkart trouxe em 2002 para o Lula. Essa eleição, portanto, o vice, na verdade, para o Lula, ainda é muito importante no arco de apoios, na confiança e lealdade que o Lula tem em relação ao Alckmin, Em São Paulo, o Alckmin vai fazer campanha no interior do estado para o Lula e para os candidatos, creio eu, isso ajuda um pouco, mas o alcance é menor do que foi em 2022.
Natuza Neri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Fernando Abrúcio. Teve uma outra possibilidade que chegou a ser falada muito nos bastidores. Eu me lembro que na eleição de 2024, era eleição para a prefeitura, eu conversava com uma pessoa muito próxima de Lula que dizia o seguinte, fazia o seguinte cálculo. que para circunstâncias de 2026, e claro que não existia Flávio Bolsonaro, não existia a prisão de Jair Bolsonaro, o Brasil era outro naquele momento, mas que para circunstâncias de 2026, pela idade de Lula, pelo fato dessa ser a última disputa eleitoral de Lula, pelo fato de Lula não ter conseguido ainda deixar fazer um sucessor claro dentro do PT, que o melhor nome seria Fernando Haddad. Por quê? Porque Fernando Haddad, uma vez na vaga de vice, seria construído ou teria condição de construir essa imagem e esse atributo de sucessor para as eleições futuras, para as eleições vindouras. E aí eu te pergunto, Se o desenho pendesse para isso? Primeiro, se você acredita que pode pender para Haddad. E segundo, se o desenho pendesse para isso, quais seriam as vantagens e desvantagens dessa articulação para as eleições de 2026?
Fernando Abrúcio
Olha, na verdade, eu não acredito. Eu acho que esse seu interlocutor confia demais no poder do PT atualmente.
Natuza Neri
Era petista. Não vou revelar a fonte, mas vou dizer que era petista.
Fernando Abrúcio
Nem o presidente Lula confia nesse vaticínio. Eu lembro uma vez, conversando com o ex-presidente Flanderrique, em que eu disse, olha, teve uma cientista política que elogiou o seu governo e disse, essa gosta mais do governo do que eu mesmo gosto. Então, assim, Acho que às vezes tem gente que não tem uma leitura política. E o presidente Lula tem uma leitura política de que é preciso ampliar.
Natuza Neri
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, falou um pouco hoje sobre as alianças, a organização dos palanques regionais. Diz que a prioridade do momento é construir alianças amplas para fortalecer a disputa nos estados. Edinho confirmou diálogos com o MDB, diz que espera ter uma conversa com o presidente nacional do partido, o deputado Baleia Rossi. Uma das intenções dessa aliança, claro, é atrair, de certa forma, eleitores de fora da esquerda.
Fernando Abrúcio
E ele sabe que a ampliação de 2026, por várias razões, é mais difícil de 2022. Em 2022, a razão principal da Frente Ampla chamava-se Bolsonaro, um governo que brigou com todo mundo. Então isso era mais fácil. Agora é mais difícil. Mais difícil, Congresso muito dividido. A ideia é, ah, mas o Lula não acenou pra frente ampla. Neste Congresso é muito difícil acenar pra qualquer frente ampla. É um cenário político muito difícil e o consularismo, goste ou não, continua com enorme força política. Então, diante disso, colocar o Fernando Haddad, que talvez seja o filho de eleto no PT do presidente Lula, nisto o seu informante tinha razão, digamos, é um tiro no pé. Lula não faria isso nem com ele, nem com o Fernando Haddad, eu acho. E, por isso, eu acho que Alckmin é favorito para continuar, caso não apareça nenhum novo fato, ele é o favorito para continuar. E Fernando Haddad, na verdade, está preocupado, sim, com 2030, o PT também, e todo mundo está preocupado com 2030, que vai ser a eleição em que não teremos nem o nome do Bolsonaro pai, que, na verdade, o Flávio Bolsonaro está nessa eleição por conta do nome do pai, nem o nome de Lula. Mas Fernando Haddad está preocupado em ter um poder de liderança maior dentro da campanha do Lula e se, por acaso, ele vencer a eleição dentro de um governo Lula. Acho que esse é um cálculo mais realista do que acreditar que uma chapa pura do PT ganharia a eleição presidencial. No Brasil de hoje, eu não tenho a menor dúvida que não ganharia.
Natuza Neri
É o candidato de Lula para a sucessão, ele é o candidato, mesmo gente no Palácio não querendo.
Fernando Abrúcio
Mas os aliados de Lula dizem o.
Natuza Neri
Seguinte, não, cada eleição é uma eleição, e 2030 só existe se houver a vitória de Lula em 2026. Se Lula vencer, Haddad provavelmente ocuparia um cargo de ministro da Casa Civil, por exemplo, e teria ali uma vitrine para trabalhar o seu nome para 2030.
Fernando Abrúcio
É bom lembrar que Fernando Henrique construiu essa candidatura como ministro da Fazenda. Dilma construiu essa candidatura não como vice, mas dentro do governo, particularmente dentro do governo Lula II.
Natuza Neri
Chefe da Casa Civil, foi primeiro ministra de Minas e Energia e depois foi para a Casa Civil, recebeu o selo de mãe do PAC, do então presidente Lula e virou a sucessora dele.
Fernando Abrúcio
Então o Fulano Haddad está vislumbrando isso. Acho que a dúvida do Haddad é que Pra fazer isso, ele tem que concorrer a algum cargo em 2026 e ele não sabe qual concorrer. O Lula vai pedir pra ele concorrer a algum cargo em São Paulo.
Natuza Neri
Agora eu quero olhar pra vice de Flávio Bolsonaro, pra candidatura de vice de Flávio Bolsonaro, as pesquisas mais recentes. apontam uma consolidação de Flávio Bolsonaro como candidato mais competitivo, o que frustrou muitas das análises políticas até o ano passado, porque os próprios líderes do Centrão diziam, não, não pode ser o Flávio porque ele não tem chance e tal. As pesquisas agora estão mostrando que ele tem chance e ele vai mostrar em algum momento quem será o vice ou a vice ao lado dele. E aí tem várias possibilidades. Já se falou de ter um governador cujo mandato vai acabar agora, na condição de vice. Romeu Zema, por exemplo, do Partido Novo, que está governador de Minas Gerais. Alguns defendem uma mulher para ver se eles conseguem quebrar uma resistência de parte do eleitorado feminino e essa mulher poderia ser a senadora Tereza Cristina, que foi ministra da Agricultura do Pai. Outros falam em Guilherme Derrit, que foi secretário de Segurança de São Paulo aqui no governador Tarcísio. O que você está enxergando de possibilidade de vice de Flávio Bolsonaro, mas mais do que isso? Qual seria o perfil de vice que contribuiria para Flávio Bolsonaro contar essa historinha?
Fernando Abrúcio
Eu acho que o nome que Flávio Bolsonaro sonha todos os dias é do governador Roméu Zema. Esse é o nome, porque o Estado de Minas Gerais é um Estado decisivo na eleição presidencial e se montaria uma aliança presidencial entre o PL e o Partido Novo. O Partido Novo tem votado muitas vezes e atuado muitas vezes junto com o bolsonarismo. Qual o risco, qual a dificuldade dessa escolha? Primeiro, que o Partido Novo, sim, tem atuado muito junto com o bolsonarismo, mas pode, na verdade, ser engolido pelo bolsonarismo. Pode virar o PC do B do bolsonarismo. E tem muita gente no partido que tem um outro sonho com o partido. Sim, pode-se apoiar Flávio Bolsonaro no segundo turno, apoiar várias coisas que os bolsonaristas acreditam, mas se o Partido Novo simplesmente foi ebulido pelo bolsonarismo, o pessoal do MBL que já montou um partido toma lugar de novo no conjunto eleitorado que tem essa preferência política. Além disso, o Zema tá olhando pra 2030, Zema, Ratinho, outros que tão concorrendo a governador, como Eduardo Paes, gente, no PT como Fernando Haddad, e talvez quem tá mais olhando 2030 há mais tempo do que todos os outros, o Gilberto Kassab, Muita gente já tá pensando o seguinte, essa luta é Flávio Bolsonaro e Lula, não tem o que fazer aí. E se eu me filiar também completamente, eu posso apanhar, não seguro tudo, mas se eu me filiar completamente, eu vou ser engolido por essa força. É um pouco o raciocínio do Kassab espalhou por todo o sistema político. E isso pode fazer com que o Zema, até para tentar fortalecer o Partido Novo nas eleições legislativas, há um problema de cláusula de barreira, dificuldades que podem ocorrer com o Partido Novo. Concorrer, provavelmente vai perder a eleição. Mas vai montando por quatro anos porque 2030 não haverá na cédula o nome pelo menos do Lula e pode ser que não tenha nem o nome de Bolsonaro. Então ele poderia aparecer como alguém que fez um governo de empreendedor, de livre mercado lá em Minas Gerais e poderia ser um candidato. A fora isso, a eleição em Minas tem um problema para essa aliança. O vice-governador, que é o candidato do Sema ao Governo do Estado, filiou-se ao PSD. E isso pode trazer problemas nesse arranjo todo, nesse desenho todo, em como vai se aliar ao Bolsonaro. Daí, Flávio Bolsonaro olha para o seu segundo nome, que é o nome da senadora Tereza Cristina. Um nome muito importante no âmbito brasileiro, uma pessoa que conhece muito o agronegócio, uma senadora de boa qualificação, Mas que tá no PP, e o PP, e acho que depois do Banco Master ainda mais, tende a não apoiar nenhum candidato presidencial. Ela teria que sair do PP pra ser candidata do Flávio Bolsonaro. Afora isso, também o estado dela, Mato Grosso do Sul, embora o bolsonarismo seja muito forte, Ela precisa articular bem isso porque tem lá a eleição estadual, que tem um jogo que não tem muito a ver com bolsonarismo versus lulismo. Até porque o lulismo é muito fraco no Bato Grosso do Sul. Então, essa coisa atrapalha o nome da Tereza Cristina e acho que, pelas falas dela, pelo menos que eu vi, Natuza, ela tá muito reticente com uma candidatura vice. Ela acha que é um risco muito grande. Ela queria ser vice do pai. Acho que agora, do filho, ela tem mais dificuldade. E aparece um terceiro nome, que é o do Derrite. Porque, no fundo, escolher Zema ou Tereza Cristina é tentar ampliar o perfil do Flávio Bolsonaro. E desses, o Zema amplia mais do que a Tereza Cristina. Mas, se não for possível ampliar, o grande tema que o bolsonarismo tem força para a eleição de 2026 é segurança pública. E aí o Derritte seria um ótimo nome. Alguém poderia retrocar, mas a ação do Derritte quando foi pra Câmara, lá pra toda a discussão do projeto transfacção não foi muito boa. O eleitorado mediano nem sabe disso. E acho que isso não vai fazer muita mudança no eleitorado que... acredita numa pauta mais dura da segurança pública, e por mais que a gente diga que as evidências mostram que isso não tem resultado algum, isso atrai eleitorado. Mas, tanto por nome da Tereza Cristina quanto do Gerritz, pra serem vice do Slavo Bolsonaro, eles têm que pular do barco do PP num prazo de mais ou menos um mês. Porque o risco do PP não apoiar o Slavo Bolsonaro é gigantesco. Então eles teriam que ir pro PL, ou pra algum partido em que houvesse muita segurança. Portanto, a decisão do vice do Flávio Bolsonaro talvez tenha que ser apressada em comparação à decisão do vice do Lula.
Natuza Neri
Fernando Abruzzi, um prazer enorme, como sempre, receber você aqui no Assunto. Muito obrigada.
Fernando Abrúcio
Obrigado a você, Natu.
Natuza Neri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catellan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast Summary — 19/02/2026
Neste episódio, Natuza Neri conversa com o cientista político e comentarista da GloboNews, Fernando Abrúcio, sobre os bastidores das escolhas para as vagas de vice-presidente nas chapas para a eleição presidencial de 2026. A discussão, em clima de análise, examina por que a vaga de vice se tornou objeto de intensas negociações, os principais nomes em pauta, como Alckmin virou favorito e jogadas estratégicas tanto do campo governista quanto da oposição liderada por Flávio Bolsonaro. O episódio contextualiza a importância política do cargo ao longo da história brasileira e questiona: vice realmente dá voto no Brasil?
“Desses, o Zema amplia mais do que a Tereza Cristina. Mas, se não for possível ampliar, o grande tema que o bolsonarismo tem força para a eleição de 2026 é segurança pública. E aí o Derritte seria um ótimo nome.”
— Fernando Abrúcio (29:52)
Fernando Abrúcio:
Natuza Neri:
Resumo:
O episódio revela como o cargo de vice-presidente, aparentemente secundário, está no centro das macroestratégias eleitorais para 2026. Soma-se a preocupação germânica com a estabilidade da chapa, o desejo de ampliar apoios e bloqueios a adversários, e o entendimento prático de que, na política brasileira, o vice frequentemente acaba no topo — seja pela lealdade, por acidentes de percurso ou por cálculos nada triviais de sobrevivência do sistema político.
Para quem não ouviu:
Saiba que a corrida dos vices para 2026 é, ao mesmo tempo, disputa simbólica, cálculo eleitoral e termômetro de futuros arranjos políticos. O episódio traça um panorama didático e bem-humorado das peças-chave do xadrez eleitoral brasileiro.