O Assunto — "A corrida dos vices para a eleição presidencial"
Podcast Summary — 19/02/2026
Episódio em Resumo
Neste episódio, Natuza Neri conversa com o cientista político e comentarista da GloboNews, Fernando Abrúcio, sobre os bastidores das escolhas para as vagas de vice-presidente nas chapas para a eleição presidencial de 2026. A discussão, em clima de análise, examina por que a vaga de vice se tornou objeto de intensas negociações, os principais nomes em pauta, como Alckmin virou favorito e jogadas estratégicas tanto do campo governista quanto da oposição liderada por Flávio Bolsonaro. O episódio contextualiza a importância política do cargo ao longo da história brasileira e questiona: vice realmente dá voto no Brasil?
Principais Pontos da Conversa
O precedente: Lula e Alckmin em 2022
- O episódio abre relembrando a inusitada união de Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB) para derrotar Jair Bolsonaro.
- Fernando Abrúcio (00:19): “Quando nós começamos a imaginar o Alckmin vice do Lula... em 2021, falava, ‘isso aqui é uma loucura’... a política é capaz de coisas extraordinárias.”
- A aliança foi fundamental para apresentar Lula como candidato “da frente ampla pela democracia” (00:39).
- O sucesso da parceria consolidou o “clima de grandes amigos” entre Lula e Alckmin até 2026 (01:14).
A vaga de vice em 2026: aberta ou negociada?
- Natuza detalha rumores recentes sobre possíveis mudanças de vice, enfatizando conversas entre Lula e Gilberto Kassab (PSD) (01:45).
- As chances do PSD assumir a vice são tidas como mínimas, mas há forte interesse do PT em ampliar alianças, principalmente com partidos de centro e o MDB — como defendido por Renan Filho, ministro dos transportes (02:54).
- Baleia Rossi, presidente do MDB, tem visão divergente sobre tal aliança (03:28).
Estratégias do campo de Flávio Bolsonaro
- O bloco de oposição consolida o nome de Flávio Bolsonaro, enquanto articula possíveis vices, como Romeu Zema (Novo), Tereza Cristina (PP), e Guilherme Derrite (PL) (04:02).
- Valdemar Costa Neto (04:02): “Tereza Cristina é o máximo para tudo, até para presidente. Tereza Cristina é quem eu queria que fosse vice do Bolsonaro na outra eleição.”
Análise da escolha de Alckmin e possibilidades para o vice de Lula (05:18 em diante)
Por que Alckmin?
- Fernando Abrúcio (05:18): Lula quis “ampliar a candidatura dele para novos setores” — movimento semelhante ao de suas chapas com José Alencar em 2002/2006.
- Foco no eleitorado paulista, já que São Paulo é “o maior colégio eleitoral do país.”
- Alckmin mostrou-se leal e útil, inclusive “decisivo na crise com os Estados Unidos.”
- Abrúcio acredita que Alckmin ainda é favorito para ser vice em 2026.
O dilema: manter ou trocar o vice?
- Lula abre conversas sobre o posto — mas, segundo Abrúcio (07:03), “não me parece que é trocar o vice... é fortalecer alianças” e ao mesmo tempo “diminuir a chance de outros partidos do centrão apoiarem Flávio Bolsonaro.”
- MDB é cortejado para a chapa, mas enfrenta resistências históricas e internas:
- Michel Temer é “peça problemática” para uma aproximação firme com o PT (09:03).
- Parte do MDB, especialmente no sul e centro-oeste, tende a não apoiar Lula.
Movimento de Gilberto Kassab e fragmentação do centro (10:28 em diante)
- Kassab (PSD) ameaça a polarização lançando três candidatos de fora do bolsonarismo: Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior (10:33–11:16).
- Fernando Abrúcio: O movimento enfraquece aliança de centro-direita ao redor de Flávio Bolsonaro e sinaliza para partidos como PP, União Brasil e MDB que não apoiem o bolsonarismo.
- Lula busca “dizer que ama o MDB” para fortalecer apoios regionais e isolar o bolsonarismo num “gueto” (09:03; 13:10).
O poder (ou não) do vice para ganhar votos
- Pergunta central: Vice dá voto?
- Fernando Abrúcio (16:15): “Pode dar um pouco de voto… Numa eleição muito apertada... faz diferença.”
- Exemplo prático: “Muita gente votou no Lula no segundo turno, olhando para o Alckmin.”
- Mas ressalva: em eleições menos apertadas, o vice afeta pouco o resultado.
- Natuza (17:27): “Acho que vice ajuda a contar uma história...” e cita o papel de composição, não necessariamente decisivo na escolha do eleitor.
- Lembra que, historicamente, o vice pode acabar assumindo a Presidência — citando Sarney, Itamar, Temer, João Goulart e outros (18:36).
Possibilidades (remotas) de Haddad para vice
- Especulação sobre Haddad ser vice para virar sucessor de Lula (20:21).
- Abrúcio (21:49): “Não acredito. Esse seu interlocutor confia demais no poder do PT atualmente.”
- Lula entende a necessidade de ampliar sua base, não estreitar numa “chapa pura.”
- Abrúcio (22:47): “Em 2022, a razão principal da Frente Ampla chamava-se Bolsonaro... Agora é mais difícil.”
- Haddad é cotado como potencial nome do PT para 2030, mas não para vice agora.
- “Uma chapa pura do PT não ganharia a eleição presidencial. No Brasil de hoje, eu não tenho a menor dúvida que não ganharia.” (23:40)
O vice de Flávio Bolsonaro: perfis e dilemas
- Flávio Bolsonaro tem mais opções em aberto:
- Favorito: Romeu Zema (Novo) — ajudaria a enfrentar Lula em Minas Gerais, mas corre risco de engolir o Novo pelo bolsonarismo. Além disso, Zema tem interesse próprio em 2030.
- Outra opção: Senadora Tereza Cristina (PP/MS) — querida por lideranças, mas o PP é avesso a apoiar presidente diretamente. Cristina mostra-se reticente (26:51–28:58).
- Terceira via: Guilherme Derrite (PL), pautando-se em segurança pública — tema central do bolsonarismo atualmente.
- Se não conseguir alguém que amplie o eleitorado, pondera-se o apelo à pauta dura como diferencial eleitoral (29:44).
“Desses, o Zema amplia mais do que a Tereza Cristina. Mas, se não for possível ampliar, o grande tema que o bolsonarismo tem força para a eleição de 2026 é segurança pública. E aí o Derritte seria um ótimo nome.”
— Fernando Abrúcio (29:52)
Citações Notáveis
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Fernando Abrúcio:
- “A política é capaz de coisas extraordinárias.” (00:24)
- “A escolha do voto não é apenas no nome, é num conjunto de coisas.” (18:44)
- “Vice não dá muitos votos, mas pode ser decisivo em uma eleição apertada.” (16:15)
- “Chapa pura do PT não ganharia a eleição presidencial. No Brasil de hoje, eu não tenho a menor dúvida que não ganharia.” (23:40)
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Natuza Neri:
- “Acho que vice ajuda a contar uma história.” (17:27)
- “Vice é uma vaga importante se a gente for levar em conta a história brasileira.” (18:25)
Tópicos-Chave por Tempo
- 00:01–04:16 – Relembre da união Lula-Alckmin em 2022, contexto das atuais negociações para vice.
- 05:18–10:28 – Análise de Abrúcio sobre motivação, vantagens e desvantagens de manter ou trocar de vice.
- 10:28–13:10 – Movimento estratégico de Gilberto Kassab, impacto sobre Flávio Bolsonaro.
- 14:03–17:27 – Vale a pena ter “vice forte”? O vice realmente decide votos? (spoiler: só em eleição mesmo apertada).
- 20:21–24:51 – Discussão sobre Fernando Haddad como hipótese (remota) de vice e como provável nome do PT para 2030.
- 25:28–31:44 – Perfis cotados para vice de Flávio Bolsonaro; variáveis estratégicas da oposição.
Memórias e Encerramento
- O episódio encerra reforçando que, apesar das movimentações, Alckmin segue favorito para ser vice de Lula.
- Flávio Bolsonaro corre contra o tempo para escolher um nome que amplie as possibilidades de sua chapa, considerando o peso de Minas (Zema), o agronegócio (Tereza Cristina), ou apostando na segurança pública (Derrite).
Resumo:
O episódio revela como o cargo de vice-presidente, aparentemente secundário, está no centro das macroestratégias eleitorais para 2026. Soma-se a preocupação germânica com a estabilidade da chapa, o desejo de ampliar apoios e bloqueios a adversários, e o entendimento prático de que, na política brasileira, o vice frequentemente acaba no topo — seja pela lealdade, por acidentes de percurso ou por cálculos nada triviais de sobrevivência do sistema político.
Para quem não ouviu:
Saiba que a corrida dos vices para 2026 é, ao mesmo tempo, disputa simbólica, cálculo eleitoral e termômetro de futuros arranjos políticos. O episódio traça um panorama didático e bem-humorado das peças-chave do xadrez eleitoral brasileiro.
