Loading summary
Natuza Nery
Antes de começar, um aviso. Este episódio tem conteúdo sensível. Se você ou alguém que você conhece estiver precisando de ajuda, procure o CVV, o Centro de Valorização da Vida, pelo número de telefone 188. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas.
Mother
Eu percebi que ela não estava conseguindo dormir, que ela só queria dormir se fosse durante o dia. À noite ela não dormia. Aí eu tive que sentar com ela e conversar. Filha, o que está acontecendo?
Natuza Nery
Essa é a voz da mãe de uma adolescente entrevistada por nossa produtora Nayara Felizardo. Nós preferimos omitir o nome para preservar a família.
Adolescent Daughter
Eu só queria ficar deitada na minha cama. Isso me deixava mais triste porque eram coisas que eu gostava, coisas que me animavam e eu já não queria mais fazer. Eu já não estava mais me reconhecendo e essa falta de reconhecimento me fazia ficar pior cada vez mais E essa
Natuza Nery
voz que você acabou de ouvir é da filha dela Você vai ouvir o relato dessas duas vozes ao longo do
Adolescent Daughter
episódio Aí ela dizia assim, eu tô
Mother
morrendo, é uma dor, é uma dor, tá me sufocando, tá me sufocando. E ela mudava de cor, assim que ela é morena, ela mudava de cor. E ela dizia assim, a senhora não tá vendo que eu tô morrendo sem fôlego? Meu fôlego tá acabando, tá acabando, tá acabando e eu tô morrendo, eu tô morrendo.
Natuza Nery
Essa jovem, hoje com 18 anos, conta um pouco mais da angústia que viveu.
Adolescent Daughter
Lidei com isso por um longo período da minha vida. Com 15 anos foi o pico de tudo. Eu não conversava com ninguém sobre, porque pra mim era eu por mim mesma. Eu não tinha que depender de ninguém, eu tinha que conseguir lidar com tudo com aquela idade que eu tinha E essa constante cobrança, esse sofrimento em silêncio me fazia desanimar diariamente Com o tempo veio a perda de interesse em tudo
Natuza Nery
que eu fazia Esse caso ilustra dados da pesquisa feita pelo IBGE sobre a realidade dos 12 milhões de brasileiros que têm entre 13 e 17 anos. Em 2024, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar ouviu 118 mil estudantes. 30% deles afirmam que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. E entre as meninas, esse índice é ainda pior, 41%. Para quase 20% deles, a vida não faz sentido.
Adolescent Daughter
Pensamentos ruins, eles surgiam em quase todos os momentos que eu me lembre. Quando as coisas boas aconteciam, eu ficava triste porque eu não sentia que eu merecia estar vivendo nada bom. Porque já que eu desejava não estar mais viva, na minha cabeça não fazia sentido eu poder passar por isso.
Mother
Comecei a perceber a quantidade de cicatrizes que estavam nas pernas, nas coxas. Muitas cicatrizes. Eu percebi que estava tudo estranho, mas não imaginava que tinha chegado a esse ponto. Aí, aqui comigo, ela tentou duas vezes. E aquilo ali acabou comigo. Aquilo ali acabou comigo.
Natuza Nery
E é um cenário que só se agrava. E é especialmente duro para as garotas. Cerca de 30% das meninas sentem que ninguém se preocupa com elas e relatam ter sofrido alguma humilhação dos colegas. Uma em cada quatro já sofreu assédio sexual. 12% dizem que foram estupradas. A maioria relata a preocupação excessiva com o dia a dia. Agora ouça o que Félix Rogério Moreira observa na escola onde ele é diretor.
Dr. Daniel Becker
As meninas têm se demonstrado bem mais frágeis em relação aos meninos, uma pressão
Alexandre Schneider
excessiva social sobre elas.
Dr. Daniel Becker
Os arquétipos de beleza, o que a sociedade tem cobrado das meninas, traz um peso enorme. Então, a gente observa no contexto escolar que as meninas se mutilam, se isolam, apresentam quadros de depressão, muitas também com síndrome do pânico. Esses casos não eram observados. há poucos anos atrás. O que acontece é que, com essas situações psicológicas vivenciadas pelas alunas, o prejuízo acadêmico-escolar também é muito grande.
Natuza Nery
A dinâmica nas escolas é a seguinte, são os garotos os que menos sofrem bullying e são os que mais praticam. A misoginia entre jovens é um problema global. Uma pesquisa realizada pelo King's College de Londres aponta o seguinte, a geração Z, ou seja, aqueles que têm entre 14 e 30 anos, é a geração que mais defende a submissão das mulheres em relação aos homens. Isso não significa que os garotos também não sofram. A pesquisa conduzida pelo IBGE indica que eles são mais propensos a não desenvolverem relações próximas, ou seja, não fazem amigos. E pagam o preço da solidão. Ouça o que diz agora Alexandre Schneider, consultor e ex-secretário municipal de educação de São Paulo.
Alexandre Schneider
Na Inglaterra, eles acabaram de lançar, inclusive, um relatório num grupo de pesquisa, o relatório chama The Lost Boys, e eles mostram que os meninos estão, de um lado, se sentindo fragilizados por uma série de questões, são eles, eles têm desempenho pior do que as meninas. Eles são a maioria dos neném, aqueles que não estudam e não trabalham na Inglaterra. Eles sentem a falta de uma imagem paterna. Muitos são filhos de famílias monoparentais. E tudo isso tem jogado eles direto nesses grupos da internet que, de alguma forma, praticam. Eles chamam isso de manosfera ou machosfera. Aqui no Brasil, isso também está acontecendo.
Natuza Nery
Especialistas listam motivos dessa tragédia Uma crise econômica global, onde pautas civilizatórias regridem E um ambiente digital sem supervisão Hoje, a
Alexandre Schneider
criança ou o adolescente não estão seguros, trancados no seu quarto
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é a crise de saúde mental entre os jovens brasileiros. Neste episódio, eu converso com o pediatra, sanitarista e ativista pela infância, Daniel Becker. Daniel é autor do livro Os Mil Dias do Bebê. Quinta-feira, 2 de abril. Dr. Daniel, eu fiquei horrorizada com a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar que foi feita pelo IBGE. São dados aterradores sobre como estão vivendo os nossos jovens. A gente até mostrou na abertura desse episódio alguns dados dos mais chocantes sobre saúde mental de crianças e adolescentes. Eu queria ouvir a tua avaliação para tentar entender o que está acontecendo com esses adolescentes. Por que eles estão desesperançosos?
Dr. Daniel Becker
A gente vê que os nossos jovens que devem estar vivendo a fase mais alegre, mais descontraída, mais prazerosa da vida, que é a adolescência, que tem seus percalços, é claro, mas que tem muitos prazeres e descobertas, descobertas da sexualidade, as amizades, os esportes, as conquistas, os programas com a família, os programas com os amigos, isso tudo está se tornando tristeza, confinamento. Primeiro, a gente tem que olhar para os fatores gerais que estão fazendo com que a vida da humanidade se torne mais complexa. Na nossa juventude, a gente não enfrentava as ameaças que esses adolescentes estão enfrentando hoje e estão cientes dessas ameaças. Estão enfrentando no futuro deles, muito próximo, uma crise climática que é catastrófica, que se promete catastrófica e que já está se fazendo presente. Além disso, você tem uma série de fatores brasileiros que também agravam a situação dos adolescentes brasileiros. Primeiro lugar, a desigualdade. Então você tem adolescentes que são de classes menos privilegiadas, mais baixas na escala social, que sofrem com restrição de direitos, adolescentes negros que são perseguidos, que não podem correr na rua, que viram ladrões, que não podem andar descontraídos porque são bandidos, adolescentes que não podem se divertir porque podem ser criminalizados, que podem ser humilhados por serem negros e por serem pobres, etc. Depois você tem a questão das meninas, as que têm medo porque vivem numa cultura do estupro, que vivem numa cultura também de feminicídio, de ódio, de ódio à mulher, de misoginia.
Mother
Como mãe, eu me sentia arrasada. Ela chegou a ver essa cena que ele batia em mim na frente dela e tudo, que eu fazia de tudo para ela não ver. E, infelizmente, ela presenciou muitas brigas e eu jamais imaginava que tinha mexido com ela daquele jeito.
Dr. Daniel Becker
E aí você tem os fatores que vão, digamos assim, afunilando para dentro da família. Você tem hoje famílias que têm dificuldade de construir vínculos mais profundos, mais afetivos com seus filhos, desde a infância. E quando chega a sua adolescência, essa construção tardia já não é mais tão boa. Se você não teve uma boa conexão, construiu uma relação de amizade e confiança com a sua criança, vai ser muito difícil conseguir fazer isso na adolescência. E aí é briga, é bronca. Ele muitas vezes não conta, se afasta porque não tem confiança, porque essa confiança não foi construída na infância. E por que não está sendo construída?
Adolescent Daughter
Esses problemas pareciam se multiplicar e aumentar cada vez mais. Eles acabavam se tornando enormes na minha cabeça. E eu não conseguia lidar com... tudo ao mesmo tempo. Acredito que o maior fator era a autocobrança. Eu sempre queria tentar ser a melhor possível em tudo pra deixar as outras pessoas orgulhosas, felizes. E na minha cabeça eu não podia falhar de jeito nenhum.
Dr. Daniel Becker
porque a vida urbana, especialmente, afasta as famílias. Quanto mais abaixo na escala social, maior esse afastamento fica. Pessoas que chegam muito tarde em casa, trabalham em escala 6x1, enfrentam engarrafamentos, que moram longe do trabalho, e chegam exaustos e não têm como realmente ficar conversando, cuidando do filho, que tem que cozinhar, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. A conexão vai se dissolvendo entre pais e filhos desde a infância, E chega na adolescência, essas figuras estão muito longe uma da outra. E aí você tem os fatores que estão levando ao pior deles, que é o confinamento dentro de casa e, portanto, o confinamento dentro da tela.
Natuza Nery
Diferentemente da minha época, a adolescência hoje acontece dentro de plataformas digitais. E aí eu quero te ouvir sobre as consequências disso.
Dr. Daniel Becker
Há 50, 60 anos atrás, o território do adolescente era a rua, era o bairro. Descia, chegava da escola, descia, botava uma roupa, um short e uma blusa, ia jogar bola, bolinha de gude, pular malharinha, conversar, ia na casa dos amigos, jogava videogame com fulano, chamava amigo na casa dele. Enfim, isso está em extinção. O território O território do adolescente hoje é cada vez mais o quarto, cada vez mais fechado, e dentro do quarto cada vez mais o computador e o celular, quando tem um computador. As pessoas mais pobres ficam dentro do celular. E aí, encerrando essa panorâmica difícil, você tem o vício imposto pelas redes sociais. Vocês falaram outra hora, outro dia, em um episódio, sobre o processo da meta do YouTube, que estão viciando crianças e adolescentes. O vício é, digamos assim, a porta aberta para o dano. Eles criam inúmeros mecanismos de segurar, de reter a atenção de adolescentes dentro dessas telas. Aquele aparelhinho se torna a coisa mais importante da vida. E aí você tem um fenômeno extraordinário, porque você tem o afastamento da criança e do adolescente dos principais fatores que formaram a espécie humana. Então, a convívio com a luz do sol, o movimento durante o dia, o sono durante a noite. Olha só, tudo está acabando. A brincadeira com os pares, a interação social, a criatividade, o pensar, o enfrentar dos momentos de tédio, que é fundamental para liberar a imaginação, para a autorreflexão, que mesmo que não seja consciente, ela acontece. A necessidade de enfrentar esses momentos difíceis, necessidade de enfrentar frustrações e lidar com elas, a necessidade de enfrentar conflitos quando estão interagindo entre pares ou na família, porque os conflitos ensinam muito o que os americanos chamam de friction, quer dizer, as dificuldades que a vida impõe, tudo isso desaparece dentro das redes sociais. E as crianças não estão mais tendo que enfrentar esse tipo de situações. As experiências sociais, familiares, esportivas, naturais, na natureza, escolares, que eles precisam viver para se desenvolver, inclusive o adolescente que está desenvolvendo naquele momento da puberdade as funções executivas, estão desaparecendo. E a gente troca isso por 5, 6, 8, 10 horas de conteúdo muito nocivo que a gente pode falar de hoje.
Natuza Nery
Dr. Daniel, como mãe de um adolescente, é um período muito desafiador. Eu sinto essa tristeza e essa preocupação cotidianamente. A pesquisa traz dados muito sérios, muito graves, porque ela mostra, no caso das meninas, uma tristeza e uma insatisfação que é mais presente entre elas. Eu queria entender por que isso tem a ver com a misoginia que você se referia, esse medo permanente pelo fato de ser menina, de ser mulher. Já os meninos, a pesquisa indica que eles têm mais dificuldades de fazer amigos. Pergunto se isso tem a ver com videogame e também com o tempo de tela. Queria entender melhor essas duas consequências na clivagem de gênero.
Dr. Daniel Becker
Isso tem tudo a ver com o mundo digital. A gente conhece os recortes de gênero dos prejuízos causados pelo excesso de telas, especialmente o excesso de redes sociais, o tempo passado em redes sociais com seus algoritmos nocivos que empurram o pior conteúdo possível para que a criança ou adolescente seja retido ali porque engajam e elas ficam sendo estimuladas por aqueles vídeos curtos que fragmentam a atenção. Além dessas, a pesquisa foca em danos à saúde mental, as emoções. A gente tem que também lembrar que os danos acontecem à cognição, eles estão deixando de aprender porque não conseguem prestar atenção. Mas em relação à saúde mental, existem os danos mais amplos que atingem ambos os sexos, por exemplo, a disseminação do ódio, do racismo, da intolerância, do fascismo, tudo isso está crescendo o negacionismo, né? Crianças acreditando que não tem crise climática, que a Terra é plana, que vacina não funciona, que precisa comer só carne, que legume faz mal, enfim, esse tipo de circulação de fake news e de mentiras na internet que fazem tão mal e que estão atingindo crianças de ambos os sexos. Agora, no recorte de gênero, o que acontece? As meninas, quando você... Isso é uma experiência que já foi feita inúmeras vezes, e aparecem de vez em quando os estudos. Quando você cria uma conta de adolescente de 13 anos, que é a idade permitida, supostamente permitida pelas redes sociais, de menina, Acontecem duas coisas. Primeiro, os predadores. Qualquer foto que ela coloque, pode ser um selfie de rosto, ela vai começar a receber comentários de predadores. Ai, que linda gatinha, que vem no direct imediatamente. Impressionante. 32 segundos ao tempo médio. Segundo, o conteúdo que ela começa a receber é sempre o mesmo. A experiência de uma delas, que veio da Inglaterra, foi clicar só em gatinhos, naquelas buscas, Mas ela começa a receber no seu feed vídeos de beleza e esses vídeos vão piorando e vão começando a se tornar extremos. E ela vai vendo aquelas mulheres filtradas artificialmente com a sua beleza, inflada artificialmente e vendendo produtos para elas. e vai vendo também as amigas dela postando vidinhas editadas, onde elas estão fazendo festas, indo em festas e fazendo viagens com a família, ou as blogueirinhas infantis, que são extremamente tóxicas, fazendo dancinhas em Paris e não sei o quê, sempre cheias de amigos, e ela vivendo ali a vidinha dela. média, normal, com a sua barriguinha, suas espinhas, e ela começa a se odiar. No documentário que a Globo fez, espetacular, Anatomia do Post, tem uma frase de uma menina, que acompanha uma blogueirinha dessas, que revela tudo.
Adolescent Daughter
Eu não sei o que seria a beleza perfeita, mas eu acho que eu consigo ver em todos, menos em mim. Eu odeio a minha insegurança com o fubo, eu odeio a minha personalidade e odeio a minha aparência.
Dr. Daniel Becker
Então, essa junção do medo, da cultura do estupro, da violência que está circulando nas escolas, especialmente, junto com esse massacre, E aí esse massacre é complementado pelos vídeos de apologia à automutilação, de apologia ao suicídio. Ela começa a ver vídeos de meninos que falam em suicídio e que se automutilam, e ela vai muitas vezes seguir essas comunidades e vai começar a fazer esse mesmo caminho. Os meninos, a mesma coexperiência, você cria uma conta de futebol, uma conta de menino de 13 anos que clica só em futebol, e imediatamente começa a receber vídeos de violência, violência extrema, pancadarias, linchamentos, porrada de rua, extermínio policial, e aí começa vídeos de bullying, de provocações na escola, e ele começa a receber bullying dos seus colegas, ver seus colegas sofrendo bullying ou fazendo bullying com ele, e ele começa também a receber os conteúdos misóginos, na violência, ódio, fascismo, tudo no pacote, e aí começam os conteúdos misóginos, que vão se radicalizando também. Uma característica que o algoritmo tem é ir radicalizando os conteúdos à medida que o tempo vai passando e a criança vai ficando cada vez mais nesse conteúdo. Então ele começa a receber os vídeos, primeiro começam com um memezinho de brincadeira com a mulher, que a mulher tem que pilotar fogão, depois uma piadinha, o cara contando uma piadinha, depois começam os vídeos francamente misóginos, disfarçados de fortalecer o homem, o homem tem que ser mais forte, mais potente, mais alfa, tem esse alfa ou Betinho, o Betinho não serve pra nada, que é o discurso incel, é o discurso Red Pill, o conteúdo é sempre o mesmo.
Mother
Os Red Pill, que pregam que é necessário se aproveitar das mulheres e torná-las submissas para recuperar a virilidade perdida em céu. Eles se auto-intitulam celibatários involuntários, culpam as mulheres por não conseguirem ter relações sexuais e endossam a violência contra qualquer grupo sexualmente ativo, inclusive contra comunidades LGBTQIA+. Os MGTOW. Essa é uma sigla para men going their own way. Em português, homens seguindo o próprio caminho. Eles acreditam que a sociedade deve romper com as mulheres porque, segundo eles, o feminismo tornou as mulheres perigosas.
Dr. Daniel Becker
E aí começam os vídeos francamente misóginos de humilhação, de mulher não tem que dizer não, mulher tem que obedecer, se ela dizer não você tem a licença para estuprar, e a coisa vai se agravando por aí.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Daniel Becker. Agora faz sentido para mim a pesquisa que eu vou citar. É um levantamento feito pelo Instituto Global de Liderança Feminina do King's College de Londres, que ouviu mais de 23 mil pessoas e o resultado é impressionante. Um em cada três jovens entre 14 e 30 anos afirma que a esposa deve sempre obedecer ao marido. Então vem daí, mais do que a população entre 62 a 80 anos de idade. Ou seja, é uma turma muito mais reacionária do que pessoas de idade acima de 60 anos.
Dr. Daniel Becker
É impressionante, eu vi essa pesquisa, é o dobro na Tusa. A minha geração, a gente aprendeu alguma coisa, né? Pessoal que nasceu no pós-guerra, a gente tem 13% só dos homens que acreditam que a mulher deve obedecer ao marido. Dessa galera, a geração Z, é exatamente isso. Eles acreditam que a mulher deve obedecer ao marido, um terço deles. É espantoso, é espantoso. A igualdade de gêneros, que é um dos valores mais básicos que a humanidade conseguiu cultivar e que estava realmente florescendo na sociedade, está invertendo o caminho. É altamente... Eu não sei nem o que pensar disso, é muito grave.
Mother
A primeira vez que você viu esses casos de violência no Discord, você ficou assustado?
Adolescent Daughter
Depois eu já meio que fui acostumando, né? De 2015 para 2016, conheço só um
Natuza Nery
grupo de jogo, mas não existia um
Adolescent Daughter
grupo que tinha uma coisa mais diferente.
Natuza Nery
Era muita gente fazendo apologia ao nazismo, racismo, tipo, livremente. Era misoginia também.
Adolescent Daughter
Eu já importunei algumas garotas, já. Xinguei, falava as coisas. Tem coisa que eu me arrependo, realmente.
Natuza Nery
O futuro fica comprometido, o futuro passa a ter clareza de piora. Quando nessa idade a gente tem, em geral, uma expectativa positiva em relação ao futuro, esperançosa em relação ao futuro. Se um terço está assim, imagina com o aprofundamento da relação com as telas e o aperfeiçoamento das estratégias dos algoritmos. E só a título de curiosidade, para quem tem dúvida, porque muita gente pode confundir, geração Z é a geração de nascidos entre 1997 e 2012. E aí, doutor Daniel, eu queria encerrar contigo com uma pergunta Eu acho que vai ser muito importante para mães, pais, educadores entenderem quais são os possíveis caminhos para ajudar a despiorar esse cenário, já que melhorar talvez não seja a primeira etapa. Acho que despiorar pode ser a etapa mais possível. Quais os sinais eles nos dão? Que tipo de dicas eles nos dão de pistas, melhor dizendo, de que algo assim está acontecendo?
Dr. Daniel Becker
Antunes, eu não quero terminar a nossa conversa de uma forma tão negativa. Eu concordo com você. A situação é muito complicada. A gente olha para o futuro com um certo pesar, mas a gente tem que entender uma coisa. Eu sou um pouco utópico. As utopias, aquela frase do Galeano, são como um horizonte. A gente se aproxima, eles se afastam. Mas as utopias também. A gente se aproxima delas, elas se afastam, mas elas estão nos fazendo caminhar. O que está acontecendo? Nós estamos desde 2010 vivendo a decadência, o descenso, que é quando os telefones celulares se mastificam, as app stores florescem e as redes sociais especialmente explodem. E agora a inteligência artificial trazendo também outros desafios, outros problemas. Mas, nos últimos dois anos, começa uma reação muito forte da sociedade. Começa a crescer um consenso de que as redes sociais estão fazendo mal especialmente para crianças e adolescentes.
Natuza Nery
Era um escape para mim.
Alexandre Schneider
O que você buscava lá nessa rede?
Natuza Nery
Eu buscava amizades que me levaram aqui.
Mother
O perfil desses adolescentes é esse, são meninos que não se ajustam ao mundo aqui fora. Lá eles encontram esse pertencimento e aí eles são captados ou cooptados pelo afeto.
Natuza Nery
Através desse afeto, dessa necessidade de aprovação
Mother
do grupo, de pertencimento, eles são levados a começar a praticar transgressões, e aí aquilo vai aumentando, crescendo.
Adolescent Daughter
Os dois braços dela é todo cheio de cicatriz.
Dr. Daniel Becker
O traço de automotivo é todo, é todo. O que que você se machuca?
Adolescent Daughter
Meu automotivo, porque eu não falo o que eu leio de ti. Saída ajudou, psicológica, educador, música.
Dr. Daniel Becker
Nós tivemos duas vitórias maravilhosas contra o excesso digital, que foi o banimento do celular na escola, que é absolutamente magnífico, que são quatro, seis, oito horas sem celular. brincando, interagindo, vivendo em grupo e também aprendendo. E por outro lado agora o ECA digital que vai conseguir sim, a gente tem que ter esperança, impedir que uma parte desse conteúdo extremamente tóxico chegue às crianças e adolescentes. Então vai melhorar nesse sentido. E tem muitos países banindo crianças da rede social até 16 anos, enfim. Tem uma reação mundial, existe uma conscientização gradual da sociedade e das famílias. Eu acho que a situação tende a melhorar, sim. Eu tenho esperança disso. Agora, o que a gente pode fazer em casa, além de confiar nessas políticas públicas e exigir também políticas públicas que permitam que as famílias vão para a rua, que seja uma uma rua, um ambiente natural mais agradável, que a gente tenha cidades arborizadas, que tenha praças arborizadas com brinquedos, que tenha campos de esporte, que as pessoas possam praticar, que as crianças possam brincar e os adolescentes e adultos se exercitarem.
Mother
Eu abraçava ela e chorava e dizia assim... Filha, eu tô aqui. Filha, sente meu abraço, sente que você tá comigo, que eu tô com você. Essas crises davam em qualquer horário. Quando eu menos esperava isso acontecia e eu abraçava ela. Depois disso, graças a Deus, nunca mais ela teve essas crises. Isso pra mim foi uma benção na minha vida. Mas foram cinco meses de... de desespero. Praticamente, eu vivi de cinco a seis meses de uma verdadeira loucura na minha vida.
Dr. Daniel Becker
Em casa, o que a gente tem que notar e o que a gente tem que fazer? Primeiro, notar os sinais de que esse adolescente não quer mais participar de reuniões com a família, de refeições de família que são tão importantes, que não quer conversar, que fica fechado no quarto, lá do celular, com o seu computador. Isso não pode. tem que proibir, que fica perdendo sono, que acorda muito cansado com olheira, que não quer ir pra escola, que tá com dor de barriga, muitas vezes esse é sinal de bullying, tem que perguntar na escola como é que ele tá, tem que ver as notas dele que começam a cair, ele tem uma série de sinais importantes, muitas vezes começa com um discurso perigoso, não sirvo pra nada, eu sou uma merda, esse mundo tá horrível, não quero mais viver nesse mundo, atenção gente, atenção, esse é sinal de depressão, esse é risco de suicídio, muita atenção, ao seu adolescente, ao seu pré-adolescente, adolescentes, que são os mais atingidos por essa crise de adoecimento.
Adolescent Daughter
O que me ajudou a passar por tudo foi, na verdade, o tempo. No passar do tempo, eu fui vendo que eu não precisava lidar com tudo sozinha. Eu comecei a conversar e estar com a minha família, carinho, apoio de todo mundo, me fez muito bem e me fez passar por tudo.
Dr. Daniel Becker
E a família, obviamente, precisa abrir espaço para esse adolescente. Não pode ser um espaço confrontacional, tem que ser um espaço amoroso, amistoso, suave, delicado. Não é a relação com o adolescente, não é a relação com a criança. O adolescente quer se afastar naturalmente, então a gente tem que ir até ele, chamar ele para ver um jogo de futebol, chamar ele para jantar, para fazer um programa legal, para ir ao cinema, para ver um filme significativo, discutir esse filme, que seja na televisão. chamar para fazer uma reunião dos amigos dele, conversar de leve. Uma boa solução que a gente sempre recomenda é conversar no carro, porque no carro, no ônibus mesmo, a gente não olha para o adolescente, ele não se sente julgado, a gente está todo mundo olhando para frente e a conversa flui melhor, porque ele não se sente observado, julgado, a coisa começa a sair. E a gente tem que escutar o adolescente, tem que estar atento ao adolescente. tem que ter espaço de poder servir para ele como uma fonte de orientação, de guia, mas sem forçar, sem sermão, sem confrontação excessiva, e com muita delicadeza tentar se aproximar dele. se der sinais de que a coisa não vai bem, como esses que eu mencionei, tem que realmente entrar em contato com a escola, tentar entender melhor o que está acontecendo, pedir para arregaçar as mangas, arregaçar as pernas e levar para um profissional de saúde mental. É fundamental que os adolescentes mantenham um regime mínimo de contato com o mundo real. Então os pais têm que restringir o uso de telas, levar esses meninos para casa dos amigos para estudar, para a escola, para os esportes. É fundamental. O esporte salva na adolescência. Pedir uma rede de apoio para que possa ter contato, avô, tia, para que possa ter contato também com ele durante a semana. Todas as medidas muito importantes na família. A atenção amorosa ao adolescente hoje é fundamental. Eles dizem que se sentem não vistos, não reconhecidos, e isso agrava tudo. A partir daí, tudo começa a desmoronar também.
Natuza Nery
Muito obrigada mesmo por ter topado conversar com a gente. Eu acompanho o seu trabalho e muitas vezes me oriento pelo que você diz. Obrigada mais uma vez.
Dr. Daniel Becker
Obrigado a você, Natuza. Fico felicíssimo de ouvir o que você está dizendo. Contaminar você com as minhas utopias me dá esperança. Tudo de bom para você. Obrigado. Prazer falar com vocês.
Natuza Nery
Este episódio usou áudios da TV Cultura e do documentário Anatomia do Post, do Globoplay. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Nayara Felizardo. Eu sou Nathuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Date: 2 de abril de 2026
Host: Natuza Nery
Convidados: Dr. Daniel Becker (pediatra, sanitarista e ativista pela infância), Alexandre Schneider (consultor e ex-secretário de São Paulo), depoimentos de mãe e filha adolescentes
Este episódio aborda a crescente crise de saúde mental entre jovens brasileiros, com ênfase nas dificuldades específicas enfrentadas por meninas e meninos, e como fatores sociais, econômicos, familiares e, sobretudo, digitais, amplificam o sofrimento. A jornalista Natuza Nery conduz conversas sensíveis com especialistas, educadores e personagens reais, destrinchando dados alarmantes de pesquisas recentes enquanto busca orientação sobre como famílias e sociedade podem reagir — e “despiorar” o cenário.
Relato de Mãe e Filha ([00:19]-[01:27])
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (IBGE, 2024):
Escolas como cenário de sofrimento ([03:41]-[05:44])
Crescimento Global da Misoginia ([04:20]-[05:44])
Meninas:
Meninos:
Desigualdade e vulnerabilidade social ([06:58])
Fragilidade dos vínculos familiares
Reação social já começou ([22:58]-[25:46])
Orientação para famílias e educadores
Testemunho de dor e superação
Sobre misoginia online
Sobre esperança e utopia
O episódio oferece um retrato profundo e inquietante da saúde mental dos adolescentes brasileiros, emergindo com as vozes reais de jovens e familiares — e com a clareza crítica dos especialistas. Os desafios são múltiplos: sociais, digitais, familiares e institucionais. Mas há caminhos de ação — domésticos e públicos — enfatizados pelo otimismo realista dos entrevistados. A recomendação central: vigilância sensível, diálogo sem julgamento, limitação consciente do universo digital e um reencantamento com o mundo que existe fora das telas.