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Ana Tuzzanera
Desde julho, mês em que Donald Trump anunciou seu tarefaço contra o Brasil, o bolsonarismo enfrenta uma série de desgastes. A operação foi orquestrada por Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, que possui conexões com a Casa Branca. Trump não só tarifou o Brasil em 50%, como vinculou sua decisão ao que chamou de perseguição política Jair Bolsonaro. Resumo da ópera. A taxação pegou muito mal entre brasileiros. E quem explica isso é Felipe Nunes, diretor do Instituto de Pesquisa Quest.
Felipe Nunes
Quando perguntados, 72% dos brasileiros dizem que.
Carlos Mello
Donald Trump está errado ao impor taxas.
Felipe Nunes
Por acreditar que haveria ali uma perseguição a Bolsonaro no Brasil.
Ana Tuzzanera
Segundo as sondagens, a maior parte da população entendeu que a família Bolsonaro tem um objetivo muito específico.
Carlos Mello
69% dizem que Eduardo Bolsonaro defende interesses.
Unknown Researcher
Próprios e de sua família.
Ana Tuzzanera
Uma articulação internacional que parece ter virado um tiro no pé para a própria família Bolsonaro. Efeito reforçado pelos eventos da semana passada, quando Jair e Eduardo foram indiciados por coação, ou seja, por atrapalhar uma ação penal que tem Bolsonaro no banco dos réus. Para justificar o indiciamento, a Polícia Federal divulgou trocas de mensagens indicando a estratégia contra o país em benefício próprio.
Felipe Nunes
Segundo a PF, Eduardo Bolsonaro enviou mensagens ao pai evidenciando que a real intenção dos investigados não seria uma amnistia para os condenados pelos atos golpistas realizados no dia 8 de janeiro de 2022, mas sim interesses pessoais, no sentido de obter uma condição de impunidade de Jair Bolsonaro na ação penal em curso por tentativa de golpe de Estado. Eduardo afirmou. Se a anistia Light passar, a última ajuda vinda dos Estados Unidos terá sido o post do Trump. Eles não irão mais ajudar. Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia, ou enviar o pessoal que esteve num protesto, que evoluiu para uma baderna, para casa num semiaberto. Neste cenário, você não teria mais amparo dos Estados Unidos, o que conseguimos a duras penas aqui, bem como estaria igualmente condenado no final de agosto.
Ana Tuzzanera
E mais ventos desfavoráveis foram divulgados nesta segunda-feira.
Unknown Interviewer
Os entrevistados ainda foram questionados se Bolsonaro participou ou não da tentativa de golpe de Estado e a razão do julgamento que começa no dia 2 de setembro.
Unknown Research Analyst
Em março desse ano, subiu para 49. E agora, em agosto, chegou a 52% dos entrevistados. Os que disseram não eram 34% em dezembro passado. Chegou a 36% dos entrevistados.
Unknown Interviewer
Há quest que saber se os entrevistados acham que a prisão cautelar de Bolsonaro foi justa ou injusta.
Unknown Research Analyst
Ainda.
Ana Tuzzanera
Assim, o bolsonarismo segue como uma força importante que embaralha o cenário eleitoral de 2026.
Unknown Political Commentator
A pauta Bolsonaro continua monopolizando. A agenda política em Brasília, não estou falando do dia a dia das pessoas, estou falando da agenda política, tem muita influência o ex-presidente Bolsonaro no tabuleiro eleitoral. Então, por isso que muita gente em Brasília também está aguardando o desfecho do julgamento, porque acha que as coisas vão ter uma ou outra marcha assim que você tiver um desfecho no Supremo. A turma do Centrão não vão dizer isso publicamente, porque eles precisam do capital político do ex-presidente Bolsonaro, mas eles querem carregar o capital político, não querem carregar o candidato Bolsonaro.
Ana Tuzzanera
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a direita e o racha no bolsonarismo. Meu convidado é o cientista político Carlos Mello, professor do Insper. Terça-feira, 26 de agosto. Carlos, na semana passada todos nós tomamos conhecimento dos áudios trocados entre Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, justamente naquele dia em que o Bolsonaro e o filho dele, o Eduardo Bolsonaro, foram indiciados por coação. A gente também viu mensagens de Eduardo Bolsonaro pro pai que estão no relatório da Polícia Federal. As tais mensagens, uma delas que termina com dois palavrões. O que que esses áudios, essas mensagens trocadas dizem sobre o momento atual do ex-presidente da família dele?
Carlos Mello
Bom, no momento, como não poderia deixar de ser, né, Natuza, é péssimo. Veja, o Jair Bolsonaro está preso. Está preso em casa, mas está preso. E começa o julgamento dele no Supremo na semana que vem e a possibilidade de uma condenação também é muito grande, além do fato de ele estar respondendo já por outros processos, um deles inclusive agora com o seu filho Eduardo.
Felipe Nunes
A Polícia Federal indiciou o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro do PL por coação no curso do processo que investiga a tentativa de golpe de Estado. O relatório da Polícia Federal reúne os indícios colhidos pelos investigadores, como mensagens e áudios do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, segundo os investigadores, mostram um conjunto orquestrado de ações praticadas pelo grupo investigado.
Carlos Mello
Então o momento é muito ruim e foi arrastado para essa crise, pelas razões que nós vimos e ouvimos nas gravações, o pastor Malafaia, porque de alguma forma ele era um organizador, Enfim, de alguma forma ele enquadrava a família Bolsonaro.
Unknown Interviewer
A PF também apreendeu o passaporte e o celular do pastor Silas Malafaia. Ele é suspeito de liderar uma ação para coagir ministros do STF a suspender a ação penal contra Jair Bolsonaro.
Felipe Nunes
Mandei um áudio pra ele de arrombar e disse pra ele, a próxima que tu fizer, eu gravo um vídeo e te arrebento. Falei pro Eduardo, vai pro meio de um cacete, pô.
Carlos Mello
E dizia até o que fazer. Isso também foi bastante grave nesse processo todo em que se pretendeu coagir a justiça brasileira por meio de pressão no governo norte-americano.
Ana Tuzzanera
Bom, somado a isso, a gente ainda viu, na semana passada, nos últimos dias, para ser mais preciso, uma série de pesquisas divulgadas pela Quest, também com importantes sinais para a direita. Eu quero olhar para um levantamento, em particular, divulgado em 20 de agosto. A pesquisa mostra o seguinte, 51% dos brasileiros acham que interesses políticos de Trump motivaram um tarifaço. 71% consideram que o presidente dos Estados Unidos está errado por acreditar em perseguição a Bolsonaro. 55% acham que Bolsonaro e Eduardo agiram mal. 77% dizem que as tarifas vão prejudicar as suas vidas. Quando você junta todos esses elementos, que conclusões você tira? Como eles podem impactar o capital político da família Bolsonaro?
Carlos Mello
Bom, a primeira conclusão é que a família Bolsonaro está sequestrada pela sua bolha. Ouvindo demais da sua bolha, acreditavam ter um tipo de reação, colher um tipo de reação absolutamente contrária daquilo que as pesquisas estão demonstrando. Aliás, tem sido muito comum na política brasileira as bolhas nortearem a ação dos políticos e depois a realidade demonstrar que é coisa bem diferente do que se pensa. Então, nesse sentido, foi um tiro no pé. Porque se Bolsonaro estava desgastado, mais desgastado está. E nesse momento, Natuza, pode ser que a coisa mude daqui a mais de um ano, quando será a eleição, mas nesse momento a força majoritária política brasileira é o antibolsonarismo.
Unknown Researcher
Essa pesquisa Quest mostra que a primeira onda de reações ao tarifácio foi muito favorável ao governo. Isso pelo caráter flagrante tanto da chantagem de Donald Trump quanto dessa nova tentativa de golpe da família Bolsonaro. Ou se joga o devido processo legal no lixo para livrar o ex-presidente ou o Brasil que se vire com todas as suas exportações sobretaxadas em 50%.
Carlos Mello
Pelo que os números mostram, ninguém parece estar do lado do ex-presidente. Não significa que estão exatamente a favor do presidente Nula, mas contrários a ações que, por mais que neguem agora, foram articuladas e despertadas por eles.
Ana Tuzzanera
Colocando então esse forte sentimento a que você se refere, ao lado de um outro sentimento que também é muito presente em tempos de eleição. Quando você compara o antibolsonarismo e o antipetismo, que conclusões você tira?
Carlos Mello
Olha, esse movimento é volátil, né? Isso inclusive tem acontecido em vários lugares do mundo há muito tempo já. As pessoas não votam exatamente a favor, as pessoas votam contra, contra aquilo que as pessoas não querem. E há uma troca, num determinado momento você tem um espírito, vamos lá, mais antes trampista, como foi em 2020.
Ana Tuzzanera
Como foi no próprio 2022, né?
Carlos Mello
Por isso... Como foi em 2022 aqui no Brasil. Só para fazer uma referência entre os dois países. Na verdade, o que nós temos agora seria de se esperar que o antipetismo crescesse pelo desgaste de ser governo. Mas não é o que nós estamos acompanhando. Por quê? Porque a oposição tem feito um enorme favor ao governo. Não se trata só da questão das tarifas, não. Antes, O Congresso Nacional havia dado uma bandeira para o presidente Lula no momento em que ele não tinha uma bandeira alguma na mão, que foi aquele decreto legislativo a respeito do IOF. Ali se permitiu ao governo fazer o discurso dos pobres contra os ricos. E agora, com essa pichotada do tarifaço, se permitiu ao governo empunhar a bandeira da defesa das instituições e da soberania nacional.
Ana Tuzzanera
Eu quero jogar atenção agora sobre os potenciais candidatos da direita, começando pelo governador Tarcísio de Freitas. Mas já quero colocar aqui uma pimenta nessa história. Por quê? O governador Tarcísio de Freitas, se decidir se candidatar à presidência da República, ele precisa se desincompatibilizar. Precisa sair do cargo de governador no comecinho de abril. Portanto, ele precisaria das bênçãos de Bolsonaro no finalzinho ali de março. o que tem gente que considera um tempo cedo demais. Bolsonaro, por sua vez, já disse o seguinte, olha, eu pretendo ser candidato à Presidência da República. Ah, mas e o TSE? O senhor está inelegível. Sim, eu vou. Mesmo assim, eu vou. Mais ou menos o que fez o Lula quando se candidatou à Presidência da República e depois entrou o Haddad. Então, esses prazos não se conversam, porque se Bolsonaro vai deixar para o finalzinho do segundo tempo de eleição e Tarcísio precisa decidir isso no começo de abril, esses prazos não se conversam. Como é que você avalia esse dilema no caso específico de Tarcísio de Freitas?
Carlos Mello
Pronto, o doutor Ulisses dizia As pessoas o criticavam muito porque ele só decidia sobre pressão. E ele respondia a essas pessoas da seguinte forma, sim, eu só decido mesmo sobre pressão. É assim mesmo que se faz. Não faz muito sentido você fazer opções antes da hora. A política é timing. Você não pode deixar passar o tempo, mas você não pode se antecipar ao tempo. Nesse momento, quem observa as movimentações do governador Perciso, você o vê cavalgando dois cavalos. O da reeleição em São Paulo e o da candidatura presidencial. Ele, de alguma forma, precisa estar preparado para os dois. Por quê? Porque não se sabe como estará o presidente Lula. E olha como a política é volátil. Há 60 dias, os analistas apressados diziam que o presidente da república era um pato manco. Olha, o governo tem muitas fragilidades, e naquele momento estava mesmo no seu pior momento, provavelmente. Mas os fatos novos acontecem e mudam tudo. Então, nesse momento, o que eu vejo o Tarcísio fazendo? Vejo ele participando de tudo quanto é evento, de todos os cumbescotes possíveis em setores empresariais que o apoiam, e vejo ele também ao mesmo tempo indicando ali a possibilidade de permanecer no governo como mais concreta. Aliás, é isso que tem dito o ex-prefeito Kassab, que é notabilizado pela sagacidade política eleitoral.
Ana Tuzzanera
Kassab, inclusive, que pode disputar na vaga de vice o governo de São Paulo ao lado do Tarcísio, se essa for a opção política de Tarcísio.
Carlos Mello
Pelo menos é essa a pretensão do Kassab.
Ana Tuzzanera
Exatamente.
Gilberto Kassab
Gilberto Kassab também falou ali com os jornalistas sobre a candidatura do partido. Quem será o nome do partido ali para a 26? Reafirmou ali, citou de novo o nome do Ratinho Júnior, que é governador do Paraná, e do Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que são os nomes aí que estão postos como nomes do partido para concorrer na eleição do ano que vem, mas disse que uma eventual candidatura do Tarcísio poderia provocar uma reflexão no partido. Claro, a gente lembra, ele é aliado do Tarcísio de Freitas.
Ana Tuzzanera
Agora, tem um outro ponto aí. com base no que a gente ouviu dos áudios da semana passada, de Eduardo Bolsonaro, de Jair Bolsonaro, de Silas Malafaia. Como é que seria, se você fosse fazer aqui um exercício de tentar entender o que aconteceria no futuro, como é que seria esse apoio do bolsonarismo a Tarcísio? Seria um apoio engajado, seria um apoio dividido?
Carlos Mello
Olha, as pessoas que entendem um pouco de política, estão um pouco familiarizadas com política, tendem a olhar para os políticos como seres racionais, da mesma forma como o sujeito econômico é racional. Mas a racionalidade na política é outra, você pode perder ganhando e pode ganhar perdendo. Num sentido colocado, para a família Bolsonaro, ganhar uma eleição com Tarcínios e perder o controle da direita pode ser tão ruim ou pior do que perder a eleição diretamente. Ganhar a eleição sem o apoio fechado de Tarciso ao perdão ao ex-presidente, e veja, não é um perdão formal. O próprio Flávio Bolsonaro disse que o compromisso deveria ser enfrentar o Supremo na negativa desse perdão.
Flávio Bolsonaro
Então vai ter que ser alguém na presidência da república que tenha o comprometimento, eu não sei de que forma, de que isso não seja cumprido. É uma hipótese muito ruim porque a gente está falando de possibilidade de força, de uso da força. A gente está falando de possibilidade de interferência direta entre os poderes. Certamente o candidato que o presidente Bolsonaro vai apoiar vai ter que ter esse compromisso sim.
Carlos Mello
Primeiro essa tensão ali de que Tarciso será eventualmente presidente da República. Será um sujeito independente ou será amarrado aos desígnios do bolsonarismo?
Ana Tuzzanera
Eu imagino que essa é a segunda resposta, se a gente for pegar as próprias declarações do Tarcísio. Vamos acreditar no que ele está dizendo. Ele está dizendo que é leal até debaixo d'água ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Então, se ele é o escolhido, eu imagino que ele vai cumprir a promessa.
Carlos Mello
Eu citei o doutor Ulisses da Guarda, sou obrigado a citar o Tancredo, que dizia que o bom político vai com o outro até a sepultura, mas não se joga. Tem esse detalhe.
Ana Tuzzanera
E teve o episódio do boné, em que ele aparece usando o boné do Trump e do MAGA, do Make America Great Again, e aí logo em seguida veio a notícia do Tarifasso implicando setores, empresas e por aí vai.
Carlos Mello
Veja, o Tarcísio está numa situação muito complicada. Ele precisa dos focos de Jair Bolsonaro pra ter um arranque. no país inteiro. Mas se o antibolsonarismo for a força dominante da eleição do ano que vem, ele pode até chegar no segundo turno, mas ele pode receber o veto pelo antibolsonarismo quando for disputar a última etapa da eleição. É complicado para ele.
Unknown Research Analyst
Um grande encontro durante todo o dia na capital paulista reuniu, entre outros, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, Romeu Zema, governador de Minas Gerais, Ronaldo Caiado, governador de Goiás. Muitos não admitem até que são candidatos. Isso é o caso, por exemplo, do governador de São Paulo, o Tarcísio de Freitas, nega que seja candidato, em vários momentos faz isso.
Unknown Announcer
E ele tem reafirmado, nos bastidores e publicamente, que vai ficar no governo de São Paulo, que não está pensando em ser candidato. Mas já está vestindo um figurino. Esse é um figurino de candidato. É um debate nacional. E agora até já tem um pré-lema de campanha segundo aliados próximos. Mas ele insiste que... Por quê? Também não pode se adiantar muito mais do que isso justamente por causa da reação que a gente vê nos bastidores e publicamente da família Bolsonaro.
Carlos Mello
E um outro erro que se comete na Tunza é de achar que o governador de São Paulo é naturalmente um grande player, um grande jogador nisso tudo. Ora, o último governador de São Paulo eleito presidente da república foi Jânio Quadros. E olha que nós tivemos de lá pra cá figuras de ponta muito mais expressivas do que Tarcísio. Nós tivemos Franco Montoro, Orestes Quércia, Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e até o João Dória. Então não é tão simples assim pro governador de São Paulo se colocar. Ele precisa de um arranque, só que isso pode ser um grande complicador, sobretudo em regiões mais pobres das capitais, mesmo dos estados ricos e também nos estados do Nordeste, onde as pesquisas mostram que a diferença a favor do presidente Lula é muito grande.
Ana Tuzzanera
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Carlos Mello.
Carlos Mello
Para iluminar e passar a visão, o.
Unknown Announcer
Prêmio LED chama você pra participar da sua seleção.
Carlos Mello
Estudantes, educadores, empreendedores é o futuro em transformação.
Unknown Announcer
Serão seis projetos e o edital já tá na mão.
Carlos Mello
MovimentoLED.com.br. Inscrições prorrogadas até dia 10 de setembro. Bom.
Ana Tuzzanera
Tirando o Tarsísio da fotografia, quem tem mais chance dos nomes do campo da direita?
Carlos Mello
Eu acho que pela ordem seria, é difícil afirmar, mas o meu sentimento nesse momento, pelas articulações todas, seria Ratinho Júnior. Por quê? Vamos por partes, vamos dizer por que não outros. Ronaldo Caiado é de um estado muito menor do que o Paraná. E também com uma visão um pouco estigmatizada, que vem desde lá da primeira eleição direta em 1989.
Ana Tuzzanera
Estigmatizada em que sentido, Carlos?
Carlos Mello
Muito, muito duro, muito conservador, muito... ligado ao agronegócio, que é uma força econômica muito relevante, mas não é exatamente uma força política eleitoral tão relevante assim. Fosse o contrário, Jair Bolsonaro não teria perdido a eleição em 2022. Romeu Zema, que diria que é outro postulante, que até já lançou a candidatura, Está no jogo de uma forma talvez um pouco mais voluntarista, ousada. Não sei nem se o Partido Novo, que hoje não tem nada a ver com o Partido Novo que o elegeu lá em 2018, que é muito mais bolsonarista, defenderia seu nome até o fim. Mas para ele, que está terminando seu segundo mandato, e que não tem exatamente nada a perder, vale a pena tentar, mas eu não o vejo como um player de fato relevante. Eu colocaria Ratinho Júnior porque ele carregaria uma boa parte, a maioria dos votos do sul do país, que hoje mostra nas pesquisas é a região mais conservadora, teria votos também do centro-oeste, e dos setores empresariais de São Paulo. Ora, se estiver favorecido pelos ventos do antipetismo, Pode ter em eleição, mas aí fica a questão, Natuza. Se os ventos do antipetismo favorecerem alguém, o nome seria do Tarsísio, não do Ratinho. Porque estaria na preferência dos setores que são os mesmos que o apoiam.
Ana Tuzzanera
E aí a gente chega num outro nome que é o do governador de Minas, Romeu Zema. Então a gente tá falando aqui de quatro candidatos, Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Quais são as chances de Zema a preço de hoje, claro, porque essas coisas variam muito, né?
Carlos Mello
Olha, o governador de Minas Gerais é uma figura controversa, não é? Embora ele tenha sido eleito e reeleito, em Minas Gerais, em Minas ser um estado muito importante, inclusive um indicador antecedente do resultado da eleição, eu não vejo o nome de Romeu Zema se espalhando pelo país, não consigo perceber dessa forma. E também não vejo, com o apoio de setores empresariais, como o Tarcísio, ou o Ratinho, ou até Caiado, Note, quem foi eleito de verdade pelo bolsonarismo foi o Tarcísio, que foi o candidato do Bolsonaro em 2022 e, aliás, foi eleição nome tirado do bolso do colete do Jair Bolsonaro para disputar a eleição. aproveitou os ventos do bolsonarismo em 2018, Ratinho também e Ronaldo Caiado, mas de alguma forma, sobretudo Caiado e Ratinho já tinham uma vida política antecedente a essa onda do bolsonarismo em 18. Então eu noto que aí, pela ordem, seria mesmo Tarcísio, Ratinho, Caiado e Zeba fazendo aqui um o meu rédio dizendo que, é claro, tudo pode mudar.
Ana Tuzzanera
Bom, então, claramente, pelo que eu depreendo do que você falou até agora, há uma entropia no campo da direita. Muita termodinâmica, muita agitação e, às vezes, uns batendo cabeça com outros. E no campo da esquerda? Ele parece menos incerto na sua avaliação?
Carlos Mello
Seriam naturais as especulações se Lula seria candidato ou não. Não só pelas questões de idade ou, eventualmente, de saúde, mas também se Lula estaria disposto a disputar ou não uma eleição perdida. Veja, com tudo o que aconteceu, com as bandeiras que lhe foram dadas, empunhando ali o stand-up dos pobres contra os ricos e agora da soberania nacional, Lula criou corpo e é um candidato muito natural, ainda que a questão da idade e da saúde ainda estejam guardadas. Mas do ponto de vista eleitoral, as chances de disputar a eleição e ganhar cresceram muito. Se isso acontecer ou não, Evidentemente que só a história dirá, mas eu não vejo contestação ao nome dele, até porque... Isso é um problema para a esquerda. A esquerda não conseguiu gerar um líder, nem no próprio PT isso é ponto pacífico. Então, é uma força, mas talvez essa força represente uma fraqueza, que é a dificuldade de gerar quadros. Eu acho que isso só estará realmente definido, pelas circunstâncias, na próxima eleição, que será em 2030.
Ana Tuzzanera
Ia te perguntar exatamente isso. Se a esquerda ainda tem um líder em conteste, como você diz, o grande desafio para esse campo vai ser, para esse campo liderado pelo PT, melhor dizendo, vai ser em 2030, porque o partido não tem um sucessor natural à Lula. É isso?
Carlos Mello
É isso. Primeiro porque há uma um desgaste natural. Veja, seriam, se ganhar a eleição em 2026, seis mandatos do PT da esquerda. Há um desgaste muito forte.
Ana Tuzzanera
Quatro com Lula, se ganhasse, e dois de Dilma.
Carlos Mello
Isso traz um desgaste natural. Segundo, que um líder dessa dimensão, a não ser que seja por uma onda repentina, como foi 2018, e essa onda nasceu lá em 2013, Um líder não surge assim de uma hora para a outra, ele é criado ao longo do tempo. Vamos lembrar que o presidente Lula... Ele surge no sindicalismo, ele disputa a eleição em 82, perde, ele é um deputado relativamente apático.
Ana Tuzzanera
Na constituinte?
Carlos Mello
Na constituinte, ele disputa e perde 89, disputa e perde no primeiro turno, em 94, 98, para ganhar só em 2002. Então, essas lideranças não se constroem de um dia para o outro. Então, você junta isso, esse tempo que é necessário de maturação em uma liderança política. Com o desgaste de seis mandatos em 2030, eu imagino que a situação do PT e da esquerda fique mais complicada. Agora, será um momento em que haverá também uma renovação da direita, porque esses nomes que estão aí também não têm de se repetir. Jair Bolsonaro seria candidato em 2030. Tem nomes novos surgindo, à esquerda, à direita, gente jovem que entrou na política em 2018, prefeitos, governadores, que têm se mostrado bastante eficazes em políticas públicas. Eu acredito que, nesse sentido, eu sou otimista, o que é raro em mim, mas eu acredito que em 2030 a gente pode ter uma renovação geracional, enfim.
Ana Tuzzanera
Você disse, e aí eu prometo que eu vou concluir, que tradicionalmente na política brasileira você tem quadros políticos que chegam ao topo da hierarquia da representação depois de muito tempo. Mas quando você olha para o mundo e também aqui para o Brasil, em casos muito específicos, você vê a lógica das redes sociais catalisando um pouco, pelo menos reduzindo esse tempo de maturação de um político. Isso não pode pesar, por exemplo, para o surgimento de nomes mais rapidamente?
Carlos Mello
Claro que pode pesar, mas isso as redes sociais por si não criam. Essas ondas de formação que as redes sociais ampliam muito, elas vêm junto com fatos políticos. Já em Bolsonaro, pode ter sido uma surpresa em 2018, mas isso foi gerado ao longo de uma série de acontecimentos que vieram desde 2013, com aquelas manifestações todas, críticas todas ao governo em relação aos estágios da Copa do Mundo em 2014, uma eleição muito complicada, talvez a pior eleição que o país tenha vivido nesse processo todo, que foi de 2014, uma eleição que não acabou, o impeachment. E toda a Lava Jato e o desgaste do governo Temer, aí sim surge o Jair Bolsonaro cavalgando redes sociais. Então, as redes sociais são importantes, mas, a meu ver, elas não têm o poder de gerar espontaneamente por sopro divino, a liderança política. Elas vocalizam, elas amplificam os fatos e ajudam a criar essas lideranças, mas elas não são a origem, necessariamente, dessas lideranças.
Ana Tuzzanera
Carlos, foi um prazer enorme conversar com você. Muito bom te ouvir. Bom trabalho.
Carlos Mello
Muito obrigado, Natuza. Sou um ouvinte assíduo do assunto no Percum.
Ana Tuzzanera
Este episódio usou um áudio do jornal Folha de São Paulo. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzanera e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 26 de agosto de 2025
Host: Ana Tuzzanera (G1)
Convidados: Carlos Mello (cientista político, Insper), Felipe Nunes (Instituto Quest), entre outros comentaristas
O episódio aprofunda as consequências do “tarifaço” de Donald Trump contra o Brasil e os impactos das investigações e denúncias recentes contra Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e seus aliados. Dá especial atenção às divisões no campo da direita, à crise do bolsonarismo e às perspectivas para possíveis candidaturas em 2026. Carlos Mello analisa o esfacelamento da base conservadora, a capacidade de articulação de novos nomes da direita e as diferenças principais entre os campos políticos no Brasil atual.
O episódio traça um retrato da candidatura à direita acossada por escândalos, desaprovação popular e dilemas estratégicos. O bolsonarismo resiste, mas está rachado e perde potencial eleitoral à medida que seu legado se associa a crises e investigações. O campo da direita, efervescente, não tem consenso sobre um novo líder capaz de unir todos os segmentos — Tarcísio de Freitas desponta, mas enfrenta grandes obstáculos. O campo da esquerda, por sua vez, depende do carisma e trajetória de Lula, com pouca renovação visível. As redes sociais aceleram o debate, mas não substituem a maturação das lideranças políticas, que continuam a depender, sobretudo, dos grandes eventos e articulações de bastidores.
Resumo feito a partir de transcrição do episódio “A direita e o racha no bolsonarismo” – O Assunto, G1 (26.08.2025).