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A
Itaú Empresas. Conte com o banco especialista para te apoiar em todos os momentos do seu negócio.
A perda de fôlego já era esperada.
B
E a economia brasileira desacelerou no terceiro trimestre.
A
O IBGE atualizou os números hoje, o PIB ficou praticamente estável, subiu 0,1%. Mas a composição desse número, que é a soma de tudo que o país produz, trouxe algumas surpresas.
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Os economistas estavam esperando que serviços viessem mais fortes e serviço veio bem fraco, 0,1%. Que a indústria viesse mais fraca, até porque julho, agosto e setembro foi quando pegou todo o problema do tarifaço, mas teve um aumento da indústria de 0,8%. E teve também o aumento da água pecuária. Não se esperava que houvesse aumento da água pecuária porque a água pecuária nesse período do ano normalmente ela se retrai e ela teve um crescimento positivo.
A
Isso num cenário em que a inflação segue melhor do que muitos economistas projetavam. A inflação foi subindo e chegou no máximo, num pico de 5,5% em abril e desde então, com os juros no patamar bastante alto de 15%, a inflação começa a cair e agora finalmente chegou nesse limite de tolerância que é o 4,5%.
C
O mercado não esperava ver tão cedo a inflação se aproximar do teto da meta estabelecida pelo Banco Central.
A
Mesmo com o mercado de trabalho muito aquecido.
C
A gente fala agora de desemprego, que voltou a cair. A taxa ficou em 5,4% nos três meses encerrados em outubro. É o menor valor desde o início da série histórica há mais de uma década.
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A renda média do trabalhador no trimestre.
A
Também foi recorde, segundo a IBGE. Chegou a R$ 3.528. O mercado de trabalho aquecido ajuda os trabalhadores na negociação de salários e no aumento dos rendimentos. Um cenário diferente de anos anteriores e que dá pistas para entender o que vem em 2026.
C
Da redação do G1, eu sou Nathuzan Nery e o assunto hoje com Vítor.
A
Boedian é.
A economia do Brasil agora e as perspectivas para 2026. Meu convidado é Samuel Pessoa, doutor em economia pela USP, pesquisador macro do BTG Pactual e do FGV Hibre. Sexta-feira, 5 de dezembro.
Bom, Samuel, o IBGE divulgou nesta quinta-feira o resultado do PIB no terceiro trimestre, que foi uma alta de 0,10%. Esse número aponta para um consolidado perto dos 2% no ano. Como você avalia esse resultado? Como que eles estão batendo com as suas previsões para a economia, que foram feitas um ano atrás?
B
Ele veio como a gente esperava. É um sinal de desaceleração da economia, ou seja, a política monetária está fazendo o seu serviço. E a gente tem hoje um número que nós temos por ano, antes dessa divulgação era dois, que era exatamente o que eu tinha previsto em dezembro do ano passado. Mas houve nessa divulgação uma revisão para melhor do desempenho da economia no primeiro semestre. e isso subiu a economia durante o ano todo. Não muda nada no filme ao longo do ano e principalmente nesse segundo semestre, que é um filme de desaceleração, como o dado de hoje mostrou. Mas como houve uma revisão que levou o valor da economia da produção no primeiro semestre, provavelmente o fechamento do ano deve ser dois e dois.
A
É, você acertou, mas muitos economistas acabaram errando em algumas previsões macroeconômicas do país e aí eu queria te ouvir um pouco sobre os fatores que têm levado a esses erros em previsões, não só desse ano, tá? Em anos anteriores também. Explica pra gente por que é tão difícil prever o desempenho da economia brasileira.
B
Olha, os economistas foram bem mal nos quatro anos terminados do ano passado, né? 21, 22, 23, 24. Erraram sistematicamente e foi mal mesmo porque foram erros sistemáticos. Todos os anos se previa um desempenho pior do que o desempenho observado. Agora, o fato interessante é que este fato, que é permanente durante quatro anos, teve ao menos essa permanência de quatro anos, eu avalio que tem alguns fatores distintos que se acumularam que se reforçaram e acabaram gerando durante esse período tão extenso de tempo, quatro anos, erros sistemáticos dos economistas. Primeiro, os economistas subestimaram a velocidade de recuperação da economia brasileira na pandemia, após a pandemia. Lá já no segundo semestre de 2020, mas principalmente 21 e 22. Se nós compararmos o Brasil com os demais países da América Latina, o desempenho que nós tivemos na pandemia foi significativamente superior. A economia brasileira foi bem na pandemia. Depois, Aparentemente, a capacidade de crescimento da economia, aquilo que os economistas chamam de PIB potencial, que é o máximo que a economia cresce sem pressionar a base de recursos da economia, ele se elevou. Lembrar que entre 2015 e 2021, 2015, no primeiro ano do segundo mandato da presidente Dilma, e 2021, terceiro ano do mandato do presidente Bolsonaro, durante esse extenso período de tempo que passa pela presidente Dilma, presidente Demer, e os primeiros três anos do presidente Bolsonaro, diversas reformas foram feitas. E essas reformas, elas maturam. e elas aumentam a capacidade de crescimento da economia. Por exemplo, o terceiro mandato do presidente Lula vai deixar uma boa herança, que é a reforma tributária, que todos os economistas avaliam, que elevará a capacidade de crescimento da produtividade nas próximas décadas.
C
Com a reforma, acaba o acúmulo de alguns impostos durante as etapas de produção. Todo o imposto pago com material, conta de energia, serviços terceirizados será abatido. A carga tributária paga ao longo da cadeia de produção será exatamente a mesma taxa de imposto que vai ser cobrada do consumidor final.
B
A gente vai ter ganhos de competitividade porque o investimento vai ficar desonerado, vai.
A
Ficar mais barato investir, então a produtividade do país vai aumentar, o crescimento tende a aumentar também.
B
Então o segundo motivo foi a subestimativa pelos economistas dos impactos desse esforço reformador que houve entre 2015 e 2021. E o terceiro motivo foi uma subestimativa do impacto do choque positivo de demanda em função de um forte aumento do gasto público, principalmente no bienio 2023-2024, mas alguma coisa também lá em 2022. Podemos dizer que houve um triênio, 22, 23, 24, uma política fiscal bastante intensa que acabou gerando um excesso de demanda que aumentou o crescimento em função de haver alguma ociosidade na economia. Ou seja, forte recuperação da economia na Covid, ganhos de produtividade no PIB potencial em função de reformas estruturais. Em uma subestimativa que nós tivemos do enorme impacto sobre a demanda da política fiscal muito ativa no triângulo 22, 23 e 24, explicam esses erros sistemáticos que os economistas cometeram.
A
Agora, Samuel, a gente está vendo um cenário em que aparentemente a política monetária está fazendo algum efeito em dar uma arrefecida no crescimento econômico, o que então pode gerar algum otimismo para quem espera taxas de juros mais baixas daqui por diante. Eu te pergunto, quando você acredita que o Copom vai começar a baixar os juros?
B
Então, a desaceleração, ela está vindo. A gente acha que no quarto trimestre a economia deve recuar 0,1%. E eu imagino que em janeiro deste ano, o Banco Central vai se reunir na última semana de janeiro do próximo ano, desculpe, em janeiro de 2026. Duas condições vão estar claras lá quando o Banco Central se reunir. Primeiro, o Banco Central já vai ter, o Banco Central e a sociedade, na última semana de janeiro, informações referentes ao mês de novembro do IBGE, da indústria do varejo e dos serviços. Ou seja, o Banco Central e todo mundo vai ter uma boa ideia de como foi o desempenho da economia no terceiro trimestre, no quarto trimestre, porque dos três meses do quarto trimestre já haverá informações completas dos dois primeiros meses. Se nós estivermos certos e, de fato, no quarto trimestre a economia recuar a 0,1, o Banco Central saberá, na última semana de janeiro do ano que vem, que a economia está, de fato, desacelerando solidamente. É uma desaceleração forte, sustentável. E isso dará um conforto. Adicionalmente, naquele período, dada a inflação que a gente acha que vai fechar esse ano em 4,4% e essa desaceleração que vai continuar, quando o Banco Central rodar o seu modelo na reunião, o modelo de inflação, o modelo gerará para ele que a inflação prevista pelo modelo no horizonte de tempo, que é relevante para a decisão de política monetária, estará dentro da meta, estará em 3 ou próximo de 3. Agora, de fato, a gente tem O Banco Central tem praticado juros muito altos durante muito tempo porque a política monetária tem sido, a política fiscal tem sido muito expansionista. Para vocês terem uma ideia, o gasto primário real já deflacionando pelo IPCA, então real já controlando pela insulação, o gasto primário em 23 contra 22 cresceu 9. Em 24 contra 23, cresceu 1,6. E 25, este ano, contra o 24 do ano passado, vai crescer 1,5. Então, você tem um impulso fiscal grande, mas ele está desacelerando. Nós avaliamos que o ano que vem vai haver uma leve aceleração, crescimento dessa mesma estatística que eu reportei aqui, que foi 9,6 e 1,5, ano que vem deve ser 3. E, evidentemente, a política monetária é muito contracionista para compensar esse ativismo, esse expansionismo fiscal.
C
A agência de classificação de risco Mudes manteve a nota de crédito do Brasil. A Mudes manteve o Brasil com a nota BA1, o último estágio antes do grau de investimento, mas rebaixou a perspectiva da nota, de positiva para estável. A Mudes afirmou que o Brasil vem crescendo de maneira sólida, tem uma economia diversificada, fez reformas estruturais e está menos vulnerável a choques externos. mas listou fatores para explicar o rebaixamento da perspectiva. A pior acentuada na capacidade de governo pagar a dívida pública. A rigidez nos gastos públicos e um progresso mais lento do que o esperado no corte de gastos. O aumento do custo do financiamento da dívida pública, com uma dívida maior do que a prevista nesse ano e no ano que vem.
A
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Samuel Pessoa.
Samuel, você colocou aí que ainda há um expansionismo fiscal, porque além do governo ter feito relativamente pouco no sentido de diminuir os gastos primários, ainda jogou um monte de coisas para fora da meta fiscal, do arcabouço fiscal. No entanto, a inflação esse ano parece que vai ficar dentro do limite da meta. Você pode explicar para a gente esse cenário?
B
Em dezembro do ano passado, eu esperava que a inflação fosse ser esse ano de 6%. Ela não foi de 6, ela vai ser provavelmente de 4,4. Então, é um erro de 1,6 ponto percentual. É um erro muito grande. Esse erro deveu-se, Victor, a três fatores. Dois muito fáceis de entender e um terceiro mais complicado que a gente está estudando agora. Estamos olhando para ele com mais cuidado agora. O primeiro é bem simples. A gente teve o Liberation Day, o dia da libertação, segundo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lá 2 de abril desse ano, em que ele fez uma política muito agressiva e o resultado dessa política, por uma série de motivos, foi produzir uma desvalorização da moeda americana contra todas as moedas. A moeda americana funciona como unidade de conta, ou seja, para o comércio internacional, os bens e os serviços, que não sejam commodities, que são transacionadas em mercado de bolsa, como trigo, ferro, petróleo, soja, carne, etc., que não seja isso, os outros bens e serviços têm seu preço fixado em dólar, e há uma rigidez de preço. Quando tem uma desvalorização da moeda americana contra todas as moedas, há uma onda desinflacionária em todo o mundo e essa onda nos atingiu. Então uma parte da desinflação a mais do que eu imaginava é fruto dessa desvalorização do dólar contra todas as moedas, inclusive contra o real, do fortalecimento do real.
C
E o câmbio, que estava em 6,18 no começo do ano, que a previsão é que chega a 7, e está terminando o ano em 5,35. Então os números melhores do que o previsto e melhor do que estava.
B
Segundo motivo, é a agropecuária. A produção agrícola desse ano foi a maior da história. Não só foi a maior da história, mas esse ano foi o ano que está entre os dois ou três anos da história em que houve o maior crescimento em relação ao ano anterior. Acho que a produção de grãos aumentou quase 50 milhões de toneladas, algo assim. A primeira estimativa da safra de grãos.
A
2025-2026 é de uma produção acima de.
B
354 milhões de toneladas. Se ela se confirmar, os agricultores brasileiros vão colher a maior safra de grãos.
A
Da história do país.
B
O São Pedro ajudou muito, nós tivemos uma condição de clima perfeita. Isso não é comum nessas circunstâncias. Por quê? Porque o Brasil tem duas safras, a safra de verão e a safra de inverno. E o Brasil é um continente, um país continental. Ou seja, por sermos um país continental, a gente tem uma certa variabilidade nas diversas regiões dos climas. Para acontecer o que aconteceu este ano, a gente tem que ter clima bom nas duas safras em todas as regiões do país, e isso aconteceu este ano. e isso ajuda numa inflação menor de alimentos. Teve um outro fator que ajudou na inflação menor de alimentos, que é um efeito colateral, que não é nem bom, mas acaba ajudando a inflação, é o efeito colateral da taxa de juros. O pecuarista tem boi e vacas no pasto.
Política monetária coloca os juros a 15%. Ele começa a fazer conta, o pecuarista. Ele vê aquele boi no pasto, e pensa quanto ele vai ganhar vendendo os boi, mais tempo. Ele pode antecipar o abate do boi, transformar aquele recurso em dinheiro e deixar no banco. Se o juro está muito alto, essa escolha é mais razoável. Inclusive, começa a ser razoável, e aí vem o efeito colateral da política monetária, o abate de fêmeas. Abate fêmeas, transforma as fêmeas em dinheiro e deixa no banco. Evidentemente, se está batendo fêmea, ou ano que vem, ou ano subsequente, a gente não sabe ao certo, vai faltar fêmeas, portanto vai faltar biseu, garrote, vai faltar carne lá na frente. Esse ciclo da carne é bem conhecido, bem estudado. E, portanto, esse ano teve uma inflação de carne menor do que se imaginava por conta do impacto dessa política monetária muito forte no abate de felho.
C
Hoje, na fazenda do Seu Aldo, em Acorizal, está assim. De um lado, 400 vacas prontas para o abate e mais 400 chegando para a engorda.
B
Nós temos uma coisa que os outros não têm.
A
Nós temos carne sobrando.
B
O mundo todo está precisando de carne. Terceiro motivo, esse a gente está estudando, todo mundo está se perguntando o que é isso, é que apesar do mercado de trabalho estar muito apertado, apesar da taxa de desemprego ser muito baixa, nas mínimas históricas, a inflação de serviços não está explodindo. Ela está alta, ela não está caindo, mas pela condição do mercado de trabalho, ela deveria estar em uma dinâmica de muito maior aceleração e isso não tem se visto. Aparentemente ocorreram mudanças estruturais no mercado de trabalho, que faz com que aquilo que os economistas chamam de taxa natural de desemprego, que é aquela taxa que equilibra o mercado de trabalho, tem pressionar a inflação, que no Brasil há 20 anos atrás ela era em torno de 10%, hoje a taxa de desemprego, que não pressiona a base de recursos da economia, está mais próxima de 7%. Então a gente está com uma taxa de desemprego abaixo da natural, há sim um excesso de demanda no mercado de trabalho, mas essa pressão sobre o mercado de trabalho é menor do que as estimativas mais antigas da taxa natural de desemprego sugerem. E isso explica por que a inflação de serviços está relativamente estacionada estabilizada quando deveria estar crescendo mais asseveradamente.
Apesar da desaceleração dos serviços, que representam quase 70% da economia, as exportações aumentaram, mais de 3%, mesmo no auge das sanções do governo americano. Uma das razões foi a agilidade do agro, que cresceu 0,4% e foi capaz de encontrar novos compradores driblando as tarifas americanas.
C
O Ministério da Fazenda comentou o resultado, disse que veio pouco abaixo das previsões de mercado e que surpreendeu principalmente o menor crescimento do setor de serviços, mas que, em contrapartida, os desempenhos da agropecuária e da indústria vieram acima do esperado.
A
É, isso tá nos livros aí de qualquer estudante de primeiro ano de economia, ele vai receber essa lição, né? A alta empregabilidade pressiona a inflação. E o que você tá dizendo aí é que não tá sendo o caso nesse momento, né? O quanto que essas novas dinâmicas do mercado de trabalho também estão desafiando os economistas?
B
A gente viu, houve uma quebra estrutural no mercado de trabalho, ou seja, a forma como o mercado de trabalho pressiona a inflação de serviços, quebrou, mudou. Continua qualitativamente do mesmo jeito, o mercado de trabalho mais apertado pressiona a inflação de serviços, mas houve uma quebra quantitativa, ou seja, a taxa natural de desemprego, que era alguma coisa próxima de 10, ela caiu 3 pontos percentuais, aparentemente. Quais são os fatores que promoveram essa queda? Foram vários fatores. Primeiro, a gente tem que se lembrar, houve uma reforma trabalhista lá no governo Temer para flexibilizar o contrato de trabalho. Ela está sendo usada. Segundo fator, a gente envelheceu. A sociedade brasileira está envelhecendo e o desemprego é muito concentrado em jovens. Se diminui o número de jovens, diminui a taxa natural de desemprego. Também nós estamos melhorando a escolarização da mão de obra e pessoas mais escolarizadas têm menos desemprego. Depois, como você mencionou aqui, por progresso tecnológico, foram nos últimos 10 anos criadas algumas ocupações, nomeadamente motorista de Uber, entregador de iFood, E essas ocupações são muito fáceis de serem acessadas. Um trabalhador desempregado, se ele quiser trabalhar como motorista de Uber ou entregador de iPod, ele consegue essa vaga, ele produz a vaga rapidamente. Então, a fricção no mercado de trabalho com essas novas ocupações ligadas a essas novas tecnologias deve ter diminuído. E, finalmente, houve uma grande expansão do programa Bolsa Família, o valor básico do benefício cresceu muito, e se é verdade que todos os estudos que eu conheço até 2019 e 2020 não apresentaram nenhum impacto do programa Bolsa Família sobre a disposição ao trabalho da população, já há alguns estudos iniciais que documentam que depois que o Bolsa Família foi muito turbinado aumentou muito o seu valor do benefício básico, começa a haver em alguns grupos demográficos uma certa evidência de que o programa está mexendo na disposição ao trabalho de pessoas.
A
Existem duas regras para que a família com emprego deixe o Bolsa Família.
B
Quando a renda passa o teto de.
A
R$ 706,00 por pessoa, a exclusão é imediata. E quando a renda fica abaixo desse valor, é possível acumular parte do benefício e o salário. Nesse caso, a saída só acontece após um período. Samuel, o que você vê aí pela frente em 2026? A gente teve a aprovação agora da lei de diretrizes orçamentárias que vai garantir a liberação, o calendário de emendas parlamentares até o primeiro semestre do ano que vem.
C
Deputados e senadores votaram hoje a lei de diretrizes orçamentárias e estabeleceram pagamento de 13 bilhões de reais em emendas obrigatórias já no primeiro semestre do ano que vem.
A
Então, ao que parece, uma gastança já garantida. E também queria saber sobre o cenário internacional. O que você vê de desafios e de oportunidades para o Brasil?
B
Ano que vem é ano eleitoral, e a gente sabe que em ano eleitoral todo o cronograma de execução do gasto público antecipa um pouco, tanto do ponto de vista dos interesses do executivo quanto do ponto de vista dos interesses dos deputados e senadores que vão concorrer à reeleição. O ano termina em outubro, então tem até outubro. É um ano de 10 meses, é um ano mais curto e isso antecipa todo o cronograma de execução do gasto público. Então é natural que haja uma briga para que as emendas sejam pagas mais no início do ano. Isso todo ano é assim e o ano que vem não vai ser diferente. Naquela conta que eu te disse, o ano que vem o gasto primário, com todos aqueles ajustes que eu mencionei aqui, deve crescer em termos reais 3%, já está levando em consideração todos esses gastos, inclusive em menos. Então, a minha avaliação é que vai haver uma certa reversão daquela trajetória de redução da taxa de crescimento do gasto primário, não é muito intensa, e isso já está considerado no nosso ciclo de queda de selic. Como eu falei aqui, nós achamos que em janeiro, na reunião do Banco Central, o ciclo deve se iniciar numa velocidade lenta e o orçamento de corte de taxa de juros para o ano que vem é de 3 pontos percentuais, seria que deve sair de 15 e terminar o ano que vem em 12, o que ainda é uma taxa alta. Nós teremos um juro real de 8% no final do ano que vem, que ainda é uma taxa de juros que coloca a política monetária num terreno contracionista. Ainda estamos praticando contração monetária. Evidentemente, a continuidade do ciclo de política de redução de juros, de política monetária de redução de juros para 2027, dependerá muito do que for anunciado de ajuste fiscal, de programa de consolidação fiscal pelo governo eleito. Do ponto de vista externo, me parece que uma surpresa positiva poderia vir da economia americana. Temos muita dificuldade de acompanhar a economia americana, porque houve aquele shutdown do Estado americano, o mais longo fechamento do Estado americano da história, foram mais de 50 dias, e até agora nós não estamos com as estatísticas normalizadas. O IBGE deles parou de divulgar os dados. Nós só temos dados até setembro. Inclusive, o dado que foi divulgado hoje para o Brasil, da desempenho da economia no terceiro trimestre, esse dado nós só teremos para os Estados Unidos no final desse mês agora, dezembro. Ou seja, qualquer pessoa que discuta a economia americana o fará uma certa dificuldade, porque estamos meio num voo cego. Mas pode ser que a economia americana desacelere mais rapidamente. Não é o meu cenário. Eu acho que a economia americana está bem, mas tem dados mistos. E pode ser que, de fato, ela desacelere. E se ela desacelerar mais do que as pessoas imaginam, haverá uma redução mais intensa do juro lá nos Estados Unidos. E quando os juros americanos caem, isso nos ajuda. Isso é bom para a economia brasileira. Então esse, me parece, é o maior espaço que eu vejo para um choque externo positivo. Diria para você que o mundo nos ajudou muito esse ano com toda essa desinflação produzida pela desvalorização do dólar contra todas as moedas. Acho que o ano que vem a gente não vai ter a mesma ajuda.
A
Mas o governo parece que está mantendo o otimismo, que vai cumprir pela primeira vez dentro do arcabouço fiscal um superávit primário no ano que vem. A gente teve para esse ano uma meta neutra, nem superávit nem déficit, que deve ser alcançada com muito esforço o piso, ou seja, um pequeno déficit. Mas a previsão do governo que deve ser mantida no orçamento do ano que vem é um superávit primário. Você acha que é possível ou é muito otimismo?
B
Não, porque a gente acha que a meta vai ser atendida quando a gente considera no primário todas as isenções, as exceções, a gente vai chegar num déficit de 0,4% do PIB, alguma coisa assim.
A
Mas veja, o leilão do pré-sal dessa quinta-feira, que era uma grande aposta do governo para ajudar a fechar as contas, arrecadou cerca de R$ 1,5 bilhão a menos do que se esperava.
B
Está no limite, mas ele tem feito isso desde o início do governo. E, verdade seja dita, as surpresas que existiram foram mais a favor do governo do que um certo ceticismo do mercado, desde o início desse terceiro mandato do presidente Lula. O governo, muito por medidas de aumento de receita que acabaram gerando um resultado que na média surpreendeu um pouco, o governo conseguiu cumprir, está conseguindo cumprir as metas. Evidentemente tem todos esses problemas das exceções que foram aumentando no tempo, A lei.
C
De diretrizes orçamentárias aprovada hoje estabelece outras regras para o ano que vem. A meta do governo será de um superávit de R$ 34,3 bilhões. Como o arcabouço fiscal, a regra de controle das contas públicas, estabelece um intervalo de tolerância para a meta. de 0,25% do Produto Interno Bruto, o resultado final em 2026 poderá variar entre um déficit zero e um superávit de mais de R$ 68 bilhões. O relator retirou até R$ 10 bilhões do cálculo da meta das estatais não-dependentes. Os parlamentares também aprovaram uma mudança no cálculo de correção dos valores do fundo partidário e o fundo pode passar de bilhão e meio no ano que vem.
B
Mas eu acho que o cenário fiscal está meio dado.
O governo deve atender ao piso da meta do ano que vem. Isso significa que, quando somo tudo, temos ainda um déficit primário e o problema fiscal vai ficar para ser resolvido a partir de 2027.
A
Só para a gente não perder a oportunidade, eu queria a tua opinião sobre esses recordes sucessivos da Bolsa de Valores.
B
Eu acho que tem dois movimentos, tem o movimento da bolsa americana, que é muito concentrado naquelas empresas ligadas aos investimentos muito intensos, está se fazendo inteligência artificial.
Preciso saber se é bolho ou não, mas eu acho que o preço está esticado demais. Eu conheço alguns artigos de economistas mais sóbrios que fazem contas com cuidado dos impactos da inteligência artificial sobre o crescimento econômico. Me parece que o impacto sobre ganhos de produtividade e crescimento nos próximos 10, 20 anos não serão bons, positivos, serão muito bons, mas não serão tão intensos que justificam os valores que nós temos vistos lá nos Estados Unidos. Eu acho que nos próximos anos, eu não sei exatamente com que velocidade, exatamente quando, Vai haver uma correção na bolsa americana. A bolsa brasileira está muito barata. Então, uma parte do movimento da bolsa brasileira, eu acho, pelo menos, não. Eu diria que o movimento da bolsa brasileira tem fundamento.
C
A perda de força da economia brasileira fez aumentar entre os investidores a expectativa por uma queda na taxa básica de juros no ano que vem. Isso contribuiu para o principal índice da Bolsa de Valores brasileira fechar em alta de 1,67% e bater um recorde novo de pontos.
B
Tem sempre uma dúvida que é como que será tratado o problema fiscal que a gente tem. Qual vai ser o plano do novo governo, seja ele quem for, para promover uma consolidação fiscal mais permanente e que nós possamos transitar para um equilíbrio macroeconômico com juros reais mais baixos. Esse é um tema que não vai ser lidado pela política econômica o ano que vem, mas está para o próximo ano e eu acho que a continuidade desse processo de elevação da Bolsa depende de como esse tema passará a ser tratado ao longo do processo eleitoral e de como ele será tratado em 2027. Ou seja, eu não vejo um espaço muito grande para continuar esse rali, a menos que nos próximos meses a gente tenha alguma informação mais clara e positiva de como A política, independente de quem ganha o processo eleitoral, vai lidar com esse desequilíbrio tão intenso que nós temos nas contas públicas.
A
Samuel Pessoa, muito obrigado pela sua entrevista aqui e pelas explicações ao assunto.
B
Eu que agradeço, é um prazer, eu sou ouvinte do assunto, então é uma alegria poder estar do outro lado da bancada dessa vez. Eu que agradeço a oportunidade.
A
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no Globoplay, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sarah Rezende, Luiz Felipe Silva, Thiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Neste episódio especial do podcast O Assunto, em comemoração aos 5 anos do programa, o jornalista Vitor Boiadjan entrevista Samuel Pessoa (doutor em economia pela USP, pesquisador do BTG Pactual e da FGV/IBRE). O foco é o panorama atual da economia brasileira após a divulgação dos resultados do PIB do terceiro trimestre de 2025, as razões para divergências entre previsões e desempenho real, as perspectivas diante das políticas fiscal e monetária, e os grandes desafios para 2026, incluindo o cenário eleitoral e internacional.
O episódio entrega uma análise detalhada do estado atual e das perspectivas da economia brasileira de forma clara, com Samuel Pessoa abordando as peculiaridades do ciclo recente, explicando erros sistemáticos de previsão do PIB e inflações, o papel das reformas e dos programas sociais, além de avaliar o impacto das eleições e do contexto internacional sobre o futuro econômico e os ativos brasileiros.
Para quem deseja entender as chances, riscos e desafios no horizonte econômico até 2026, esta conversa oferece um resumo acessível e atualizado, inclusive para quem perdeu o episódio completo.
Resumo por: O Assunto / G1