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Natuza Nery
Um verde que parece não acabar. Árvores imensas com copas que parecem alcançar o céu. Tão densas que quase não deixam o sol tocar o solo. O ar é quente e úmido. A chuva é frequente. Assim são as chamadas florestas tropicais. O nome deixa claro. Elas ficam nas áreas tropicais do planeta, na faixa entre os trópicos de Câncer e o de Capricórnio. estão na África Central, em países como o Congo, no Sudeste Asiático, em regiões como a Indonésia e a Malásia, e na América do Sul. Uma parte importante dessas florestas está aqui no Brasil, sob nossa responsabilidade. A Mata Atlântica, que se estende por toda a nossa faixa litorânea, e a Floresta Amazônica. Sozinha, ela ocupa 421 milhões de hectares, quase metade do território brasileiro. Uma área tão grande que, para você ter uma ideia, equivale à soma dos países da União Europeia, e que é vital para o equilíbrio climático da Terra.
Narrator/Reporter
Uma grande quantidade de água passa por dentro das árvores e ajuda a formar um ciclo dinâmico lá em cima. Árvores transpiram, as folhas liberam água na forma de vapor. Cada gigante lá embaixo lança na atmosfera mais de mil litros por dia. E na Amazônia, existem cerca de 600 milhões de árvores. É como se um rio maior que o imenso Amazonas corresse nos céus, influenciando o clima de toda a América do Sul.
Natuza Nery
Nos últimos 40 anos, o Brasil perdeu mais de 50 milhões de hectares de vegetação nativa, segundo o MapBiomas. É como se Minas Gerais tivesse simplesmente desaparecido do mapa.
Narrator/Reporter
A destruição da floresta já altera as chuvas na Amazônia, muda o clima em muitas regiões no país, mexe com um sistema que a natureza criou para equilibrar o planeta.
Natuza Nery
Foi com foco nesse bioma que o Brasil lançou oficialmente uma de suas principais propostas para a COP30, que começa nesta segunda-feira em Belém, no coração da Amazônia. Estamos falando do fundo de florestas tropicais para sempre. A sigla em inglês é meio esquisita. TFFF. A ideia é captar empréstimos de governo e da iniciativa privada com juros baixos. O dinheiro será reinvestido em projetos com maior taxa de retorno. E a diferença? O lucro do fundo é então repassada para países que mantêm florestas tropicais em pé. Simplificando bem, é como se fosse um banco da floresta.
Ricardo Abramovay
Considera que nós podemos chegar a 10 bilhões de dólares para financiar as florestas tropicais do mundo todo, inclusive a brasileira.
Natuza Nery
O TFFF é exatamente para remunerar aqueles que protegem e que prestam serviços ecossistêmicos para o equilíbrio do planeta. A lógica é direta. Se a floresta cai, o planeta aquece. Se a floresta fica de pé, a gente ganha tempo.
Climate Expert/UN Representative
Era o que todo mundo tinha combinado em outra COP, a 21, em Paris. Os países concordaram em reduzir as emissões de gás carbônico para não deixar que o planeta aquecesse mais de 1,5 grau na comparação com níveis pré-industriais. Só que em 2024, o mundo já registrou média de temperatura acima disso. E a ONU divulgou um relatório que mostra que de janeiro a agosto, a média foi 1,42 grau acima.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a economia da floresta em pé. Neste episódio, eu converso com Tasso Azevedo, engenheiro florestal e coordenador-geral do MapBiomas, e com Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados e do Instituto de Energia e Ambiente da USP. Segunda-feira, 10 de novembro. Tasso, você é um dos idealizadores da primeira versão do Fundo Florestas Tropicais, vou chamar assim, para não ter que falar TFFF. O fundo foi lançado oficialmente pelo Brasil durante a cúpula dos líderes da COP. Integrantes do governo brasileiro vêm com muito bons olhos a recepção a esse fundo. Então, para começo de conversa, eu quero te perguntar por que o foco na preservação das florestas tropicais?
Tasso Azevedo
É que as florestas, em geral, as florestas no mundo têm um papel fundamental de resfriar o planeta. Não só porque elas absorvem carbono, mas porque elas também têm muito evapotranspiração na sua, o equivalente a gente, a sua ar, e absorvem muita energia com isso. Então elas têm um efeito refrigerante no planeta, especialmente as florestas tropicais. As florestas tropicais, se a gente tirasse as florestas tropicais, o mundo seria meio grau mais quente, né?
Natuza Nery
Ah, é?
Tasso Azevedo
É. Então, elas têm esse efeito no mundo, né? Ela retira muito carbono da atmosfera todos os anos, mais ou menos um terço do que é emitido de carbono na atmosfera por queima de combustíveis fósseis é retirado da atmosfera pelo crescimento das árvores, especialmente nas regiões tropicais. Então a manutenção dessas florestas é fundamental, não só para o carbono que ela tira da atmosfera, mas por esse efeito de evapotranspirando, ela ajudar a gente a reduzir a condição de clima extremo do planeta. Então a ideia nesse fundo, quando a gente pensou nele, era a ideia de que Independente do que aconteceu no passado ou do que vai acontecer no futuro, se uma floresta está aqui no começo do ano e continua aqui no final do ano, durante esse ano ela fez um serviço importante para todos nós de resfriar o planeta.
Natuza Nery
Agora, como é que esse fundo vai funcionar? Por que ele é considerado tão inovador? Muita gente na COP, inclusive no encontro pré-COP, na verdade, elogiando países dizendo que ele tem uma tecnologia, digamos assim, inovadora e tal, em comparação com ações anteriores.
Tasso Azevedo
Eu acho que a parte mais interessante da inovação não é a que está sendo falada, não é o mecanismo financeiro. A parte mais importante do fundo é que ele é o primeiro fundo dessa natureza, o primeiro mecanismo dessa natureza, em que o incentivo à conservação e o desincentivo ao desmatamento, ele está no mesmo instrumento, que funciona assim. Se você mantém a floresta, a gente contabiliza quanto você tinha de floresta no começo do ano, quanto você tinha de floresta no final do ano. Aquilo que você mantém, digamos, você tenha mil hectares. Então, você vai receber por esses mil hectares. Só que para cada hectare que você desmatar, desconta 100 hectares do que você tem para receber. Então, se você... pela mecânica do valor que está colocado no fundo agora. Você tem a receber 4 dólares por hectare. Se eu tenho 1.000 hectares, seria 4.000 dólares, certo? Mas, se eu desmatar 1 hectare, eu tenho que descontar 100 hectares do que eu vou receber. Então, em vez de receber 4.000 dólares, eu recebo 400 dólares a menos, porque eu desmatei aquele 1 hectare. Então, ele é um incentivo que funciona um pouco assim, Natuza. Você conhece bem essa coisa que o incentivo econômico quando as pessoas reagem mais ao que elas perdem do que ao que elas ganham. Então você fala assim, eu vou ganhar 4 dólares por hectare. Ah, mas isso é muito pouco. Mas se você desmatar, você perde 400. Então essa é um pouco a conta que foi montada. Essa é a parte mais criativa e eu acho interessante do mecanismo, é ter as duas coisas juntas. Aí depois tem o fato de que você tem um mecanismo em que você paga políticos do conjunto de um país. E aí o país usa esse recurso pra fazer novas atividades de conservação ou investir em outras áreas importantes, como área de educação, saúde, o que ele quiser fazer que seja importante, né?
Natuza Nery
É, e aí levando em conta que esse dinheiro já vai estar programado pra algum lugar, né, uma economia não pode perder, um país não pode perder uma quantidade imensa de dinheiro.
Tasso Azevedo
Originalmente, quando a gente desenhou a primeira vez, a gente tinha pensado num valor mais alto, que era 30 dólares, até pra dar essa sensação de perda, né, quando você quando você desmatar 1 hectare, ao invés de ser 400 dólares de perda, seria 3 mil dólares de perda, porque não tem nenhum cultivo agrícola, nada que te dá esse retorno, né? Você desmata pra fazer alguma outra coisa. Então, essa é um pouco a ideia. Mas tudo bem, foi o que foi possível fazer com 4 dólares pra começar agora, começa sim. E depois, se tiver sucesso, se tiver mais recursos, pode também aumentar o valor.
Natuza Nery
Sem dúvida nenhuma. Esse dinheiro vai para o país ou vai para um projeto, por exemplo?
Tasso Azevedo
Então, essa é uma outra coisa importante. Ele vai para o país, aí dentro de cada país, uma das condições para receber o recurso é ter um mecanismo dentro do país, que faça a governança desse recurso e destine ele para ações que não contribuam para o desmatamento, mas que contribuam para a conservação ou para o desenvolvimento sustentável.
Narrator/Reporter
Presentes em mais de 70 países, as florestas úmidas guardam boa parte da biodiversidade do planeta e ajudam a regular o clima, absorvendo gases de efeito estufa. Esse fundo de investimentos vai receber dinheiro de governos e do setor privado, e uma parte do rendimento será destinada a países que mantiverem a floresta em pé. O Banco Mundial entra como gestor, vai administrar o fundo, fazer o repasse dos recursos e elaborar relatórios de transparência, ajudando a atrair investimentos. O governo espera que outros países anunciem contribuições durante a Conferência do Clima em Belém. A meta é reunir 25 bilhões de dólares até o fim do ano que vem. E com esse capital inicial, atrair mais 100 bilhões de dólares de investidores privados.
Tasso Azevedo
E aí tem uma condição que 20% desse recurso deve ser destinado a iniciativas que envolvem os povos da floresta, as populações indígenas. Então, essa é uma das condições previstas para poder receber o recurso. Tem algumas outras coisas também que o país tem que fazer, por exemplo, o país tem que estar com o desmatamento em queda, não pode estar crescendo o desmatamento.
Narrator/Reporter
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, divulgou nesta semana dados do sistema do programa de monitoramento desmatamento por satélite. Apesar dos registros deste ano, esse levantamento aponta uma redução de mais de 11%.
Segundo o PRODES, sistema que integra o Programa de Monitoramento dos Biomas Brasileiros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a taxa estimada de desmatamento na Amazônia é de 5.796 km², o que representa uma redução de 11,08% em relação a 2024, marcando o menor índice dos últimos 11 anos.
Tasso Azevedo
Então tem umas outras condições, mas essencialmente o recurso vai para o país e dentro do país, cada país terá as suas regras, os seus mecanismos de utilização desse recurso.
Natuza Nery
Itasso, como é que você avalia a proposta apresentada pelo Brasil? Você está otimista com ela? Está pessimista com a iniciativa? Como é que está teu humor em relação a isso?
Tasso Azevedo
Eu acho que é uma proposta importante, interessante, é uma inovação. Ele tem uma questão que é o mecanismo financeiro apresentado, ele é um pouco complexo demais, né? Até para explicar, às vezes o pessoal fica um pouco perdido, como é que vai funcionar, o que são esses 125 bilhões que estão sendo falados. Então, essencialmente é o seguinte, esse mecanismo vai ficar dentro do Banco Mundial, que vai ser o gestor. Aí o Banco Mundial vai emitir títulos de dívida que pagam 3% ao ano. Então, os investidores vão comprar esses títulos, que o Banco Mundial vai emitir, que vai pagar para eles 3% ao ano. Então, digamos que você arrecadou 100 bilhões de dólares vendendo esses títulos, aí o banco tem que pagar 3 bilhões por ano de volta, porque é 3% que você vai pagar de volta. Então, o banco vai pegar esse dinheiro, esses 100 bilhões, e vai investir em outros títulos que paguem mais do que 3%, preferencialmente paguem cerca de 7% ou mais. Então, digamos que ele compre títulos da dívida brasileira ou títulos da dívida de um outro país ou qualquer tipo de investimento que possa pagar 7%. Aí, esse recurso vai para o banco com esse 7%, digamos 7% de 100 bilhões seria 7 bilhões, ele paga os 3 bilhões de juros para quem comprou os títulos do banco e vai sobrar 4 bilhões. Esses 4 bilhões é o recurso que vai ser usado para pagar os países pela manutenção das florestas. Então, tem toda uma mecânica para poder aparecer os 4 bilhões. E por que 4 bilhões, eu estou falando? Porque existem 1 bilhão de hectares de florestas tropicais nos países. Então, se todo mundo proteger as florestas, você teria que ter 4 bilhões de dólares por ano para pagar 4 dólares por hectare para cada país. se o desmatamento for zero, né? Então, é essa que é a conta. Então, a dificuldade que tem é que pra você poder chegar a ter 4 bilhões por ano, você tem que captar todos esses 100 bilhões, tem que investir os 100 bilhões.
Natuza Nery
E ninguém pode desmatar esse 1 bilhão, né?
Tasso Azevedo
É, mas se você desmatar, só diminui o quanto paga, né?
Natuza Nery
Tá, entendi.
Tasso Azevedo
Se o desmatamento for, sei lá, 1 milhão de hectares, que, aliás, o desmatamento atual de flechas troficais é 2 milhões de hectares. Então, você paga menos porque se for 2 milhões, você tem que descontar os 2 milhões de hectares, que seriam multiplicado por 100, porque você tem que descontar 100 vezes aquilo que está desmatando, você descontaria 200 milhões de hectares. Originalmente, na proposta original, a gente fez uma coisa mais simples, que era 1 dólar para o barril de petróleo. Então, não tinha que fazer investimento, basicamente é 1 dólar para o barril de petróleo. que é uma coisa que é irrelevante quase para a economia do petróleo, mas que faria uma enorme diferença aqui. Mas eu acho que foi uma escolha feita nesse momento, porque se considerou que seria mais fácil você captar como investimento do que captar como, digamos, uma contribuição voluntária do setor de petróleo e gás. E também nada impede que no futuro se possa também fazer esse mecanismo, um mecanismo que capte recursos do petróleo pra fazer esse investimento nas florestas. Nada impede que aconteça.
Natuza Nery
Taço, muito obrigada por ter explicado de maneira tão clara o funcionamento desse fundo pra nós. Bom trabalho pra você.
Tasso Azevedo
Tá bom, pra você também.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com o Ricardo Abramovay. Ricardo, eu conversava com o Tasso Azevedo, que me explicava bastante sobre o Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Com você eu quero olhar mais para essa ideia de que vale a pena manter a floresta de pé do ponto de vista econômico. Quais são os ganhos dessa escolha?
Ricardo Abramovay
A proposição geral é a seguinte, não há infraestrutura mais importante na América Latina do que a floresta. Isso pode parecer paradoxal, esquisito dizer isso diante da enormidade das rodovias, das instalações industriais, etc. Por que a floresta é a mais importante infraestrutura da América Latina? Em primeiro lugar, porque é ela que responde pelas águas da hidroeletricidade. Sem a floresta, ou seja, sem os rios voadores que transportam água pela evapotranspiração das árvores, normalmente quando chove em algum lugar na Tusa, a chuva entra no solo, vai para o lençol feático, etc., e forma um ciclo. Na floresta é diferente. A chuva cai sobre a floresta e as folhas das árvores, quando transpiram, dão lugar a rios voadores, e esses rios percorrem o conjunto do continente latino-americano, e a chuva, esse fluxo, ele não vai além dos Andes, porque os Andes impedem. Então isso forma uma massa de água sobre o continente latino-americano, que responde pelas hidrelétricas, então mais de metade da geração brasileira de energia elétrica vem de hidrelétrica. Ora, desde 2014, a quantidade de água que chega às usinas tem ficado bem abaixo da média histórica. Então, é um problema isso ligado ao desmatamento que compromete esses rios voadores. Mas não é só eletricidade. A agricultura brasileira é uma agricultura quase inteiramente dependente de chuva. Só 13% da área agrícola é irrigada. E se alguém disser, não, então vamos irrigar mais, É problemático, porque hoje a agricultura irrigada custa muito caro e usa um recurso escasso. Esse é um trunfo do Brasil. Então, a gente manter a agricultura a partir da chuva é extremamente importante. Isso supõe a existência dos rios voadores e, portanto, da floresta tal como ela existe hoje. Hoje nós já temos perdas, voltando um pouco à hidroeletricidade, nós já temos perdas na energia elétrica. gigantescas, chegando a um bilhão de reais na geração de energia por escassez de água. A falta de água na floresta dá lugar a incêndios, as hidrovias da Amazônia, em função da destruição da floresta, já estão começando a sofrer, portanto, o escoamento de grãos pela hidrovia já é comprometedor, e se a gente não tiver floresta, a gente não tem abastecimento de água nas cidades. Até o sistema cantareira, aqui de São Paulo, tem cenários críticos desde 2014, em função justamente da água que está faltando nos rios voadores.
Narrator/Reporter
Imagina um organismo vivo que se autorregula pela interação entre todos os elementos e espécies aqui presentes. Dos minerais aos animais, até aqueles que não podemos enxergar. É capaz de fazer chover, secar, florescer, crescer. Uma interação perfeita, capaz de garantir a vida na Terra. Vida, aliás, que é parte importante desta regulação. Tanto que quando uma espécie é afetada a ponto de deixar de existir, todo o organismo se desregula. Ele até tenta se equilibrar novamente, mas às custas de afetar todo o ecossistema. Nunca na história da Terra, uma espécie sozinha tinha sido capaz de mudar o curso natural do clima, como vem ocorrendo desde a Revolução Industrial.
Ricardo Abramovay
O problema hoje é que nós não.
Climate Expert/UN Representative
Somos capazes, nós todos aqui na Terra, de nos adaptarmos a uma temperatura aumentada em tão curto prazo, parece 1,5 o pouco, né?
Ricardo Abramovay
Mas é muito, é como se milhões.
Climate Expert/UN Representative
De barris de petróleo fossem queimados por segundo.
Natuza Nery
É muito interessante isso, porque eu nunca tinha pensado por esse aspecto, né, de que os nossos rios voadores são a mais básica da infraestrutura para qualquer tipo de desenvolvimento. Agora, é curioso porque a bioeconomia, também é vista como uma espécie de caminho para combinar essas duas coisas, né? Desenvolvimento e preservação da Amazônia. ela... Quais são os setores mais promissores desse modelo? Porque quando a gente fala disso, em geral as pessoas têm muita dificuldade de enxergar. E eu me lembro de uma frase do presidente Lula agora, no encontro de líderes, nesse momento pré-COP, em que ele dizia que a preservação devia entrar no cálculo do PIB.
UNEP Representative
O relatório de emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que o planeta caminha para ser 2,5 graus mais quente até 2100. Segundo o mapa do caminho Bacu-Belém, as perdas humanas e materiais serão drásticas. Mais de 250 mil pessoas poderão morrer a cada ano. O PIB global pode encolher até 30%. Por isso, a COP30 será a COP da verdade. É o momento de levar a fério os alertas da ciência.
Natuza Nery
Quais são os setores mais promissores, portanto, e o que ainda falta para que eles se tornem cadeias produtivas robustas, como é o agro, por exemplo?
Ricardo Abramovay
Quando a gente fala em bioeconomia, tem duas dimensões fundamentais. A primeira se refere à economia da sociobiodiversidade florestal, ou seja, são produtos que são de maneira milenar levados adiante por populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas, produtos de uma vastíssima diversidade. Eu estava lendo a tese de um aluno na USP e ele mostra que a alimentação tradicional das populações indígenas é composta de uma vasta quantidade de produtos. Só que esses produtos, por que eles não chegam aos mercados? Porque as infraestruturas planejadas e implantadas na Amazônia não se voltam a esses produtos. A Amazônia se transformou no grande almoxerifado em que o Brasil vai buscar energia barata, matérias-primas, agrícolas e minerais que possam fortalecer a balança comercial, que é importante, sem dúvida, Mas não há uma infraestrutura voltada à valorização dos produtos da sociobiodiversidade florestal. O transporte desses produtos depende basicamente de óleo diesel, a energia que eles usam não é uma energia renovável, não existe em larga escala uma microindustrialização desses produtos, o gelo é escasso, quer dizer, isso tem que ser objeto de uma política pública que é barata e que pode trazer muitos frutos. Agora, a gente precisa prestar atenção porque nós precisamos também da bioeconomia no próprio setor agropecuário, Por quê? Por exemplo, a pecuária bovina, que é responsável por uma parte gigantesca das emissões brasileiras. O Brasil hoje é o quinto maior emissor global de gases de efeito estufa, e se o rebanho bovino brasileiro fosse um país, esse país seria o sétimo maior emissor do mundo de gases de efeito estufa. É um dado muito impressionante. Se o rebanho bovino global fosse um país, ele seria o segundo maior emissor atrás da China, mas à frente dos Estados Unidos. Olha que coisa impressionante.
Natuza Nery
Mas aí você fala de rebanho bovino mundo todo, né?
Ricardo Abramovay
Mundo todo. só o brasileiro seria o sétimo. Ora, existem tecnologias que permitiriam reduzir estas emissões e tecnologias que não são parafernálias quase inimagináveis, tecnologias como introdução de leguminosas na pastagem, consorciação entre pastagens e plantações arbóreas e a própria Embrapa já tem isso muito desenvolvido e isso precisa ser fortalecido na política pública porque é uma oportunidade para reduzir a área de pastagem e ao mesmo tempo aumentar a produtividade, porque a produtividade da pecuária bovina na Amazônia hoje é muito baixa.
Natuza Nery
Mas é exatamente esse setor que é o mais promissor?
Ricardo Abramovay
A meu ver esse setor é extremamente promissor dentro do setor agropecuário porque aí nós temos a possibilidade de promover uma drástica redução de emissões de gases de efeito estufa desde que sejam feitas transformações nos métodos de criação bovina com a introdução justamente de amendoim forrageiro de plantios arbóreos etc, o que permite reduzir essas emissões sem que haja redução da produtividade e sem emprego nem de produtos químicos como agrotóxicos etc, e usando produtos locais na terminação da criação do gado. Essas técnicas foram desenvolvidas pela Embrapa, chamam-se método guachupé, pode ser consultado por todo mundo, e elas estão se expandindo, o que não significa uma expansão infinita do consumo de carne e tal, nada disso. Mas hoje na Amazônia nós temos 90 milhões de cabeças de gado, criadas por 400 mil agricultores. Isso não vai desaparecer do dia pra noite. Então, nós temos que melhorar as tecnologias de produção sob a base de métodos produtivos acessíveis e que não comprometam a qualidade dos serviços ambientais e que invertam o processo de degradação que está acontecendo hoje.
Natuza Nery
Agora, Ricardo, olhando de novo para o discurso do Lula, agora, dias atrás. Ele diz, reverteu o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários. Olhando especificamente para esse núcleo da fala do presidente, o que precisa ser feito para ontem, a partir de uma resolução dessa COP, para que haja resultados nesse sentido? Para reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis?
Ricardo Abramovay
Primeiro lugar, metade da exploração de petróleo do Brasil hoje é para exportação. Claro que exportar é muito importante, o Brasil precisa de divisas, etc. Isso é muito importante. Agora, é óbvia a contradição entre a aspiração democrática, civilizatória de combater os combustíveis fósseis, cujo principal produtor nos Estados Unidos hoje são os principais produtores e exportadores de combustíveis fósseis no mundo. Então, entre os cinco maiores, tanto de petróleo, como de carvão, como de Se a gente quiser fazer uma transição, o raciocínio de que nós vamos ter que explorar petróleo para fazer a transição, é um raciocínio que padece do seguinte vício, ou daqui a 10 anos o petróleo, quando as reservas brasileiras descobertas se forem de fato confirmadas, ou daqui a 10 anos estas reservas valerão muito, então isso significa que o mundo chegou a um ponto de elevação da temperatura global média insuportável para a civilização, ou se nós formos bem sucedidos naquilo que o presidente Lula preconiza, que é a redução dos combustíveis fósseis, esse petróleo não vai valer nada e, portanto, o esforço de tê-lo explorado não vai compensar. Eu prefiro apostar na segunda hipótese do que na primeira. Porque eu tenho 72 anos, eu quero que os meus filhos, meus netos, vivam num mundo em que a vida seja possível. E o horizonte do petróleo valendo muito daqui a 10 anos é um horizonte em que a vida será muito, muito, muito mais difícil do que ela é hoje e, portanto, eu preferiria não apostar nesse horizonte.
Natuza Nery
Ricardo, muito obrigada por você ter topado conversar aqui com a gente do assunto. Bom trabalho para você.
Ricardo Abramovay
Obrigado, Natuza.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Natuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Host: Natuza Nery
Convidados: Tasso Azevedo (coordenador-geral do MapBiomas), Ricardo Abramovay (professor sênior, USP – Instituto de Estudos Avançados e Instituto de Energia e Ambiente)
Este episódio de O Assunto aborda o conceito de “economia da floresta em pé”, explorando como a preservação das florestas tropicais, especialmente da Amazônia, é essencial para o equilíbrio climático global, a geração de energia, a segurança hídrica, a bioeconomia e o futuro econômico do Brasil. Natuza Nery conversa com especialistas para explicar a proposta do novo Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), lançado na COP30, e discute caminhos práticos e desafios para conciliar desenvolvimento com preservação.
Participação: Tasso Azevedo
Participação: Ricardo Abramovay
Definição do mecanismo inovador do TFFF:
“Você vai receber por esses mil hectares [de floresta mantidos]. Mas, se desmatar 1 hectare, desconta 100 hectares do que você tem para receber. [...] O incentivo econômico é mover as pessoas pelo medo da perda mais do que pela recompensa.” – Tasso Azevedo [06:27]
O tamanho do impacto do desmatamento:
“É como se Minas Gerais tivesse simplesmente desaparecido do mapa.” – Natuza Nery [01:44]
Importância da floresta para energia e agricultura:
“Sem a floresta, [...] mais de metade da geração brasileira de energia elétrica [...] é comprometida. A agricultura brasileira é quase inteiramente dependente de chuva – isso supõe a existência dos rios voadores.” – Ricardo Abramovay [16:01–18:15]
O futuro da produção pecuária na Amazônia:
“Hoje são 90 milhões de cabeças de gado na Amazônia, criadas por 400 mil agricultores. Isso não vai desaparecer do dia pra noite. Temos que investir em tecnologias produtivas acessíveis que não comprometam o meio ambiente.” – Ricardo Abramovay [25:30]
Sobre o dilema do petróleo:
“O horizonte do petróleo valendo muito daqui a 10 anos é um horizonte em que a vida será muito, muito, muito mais difícil do que ela é hoje e, portanto, eu preferiria não apostar nesse horizonte.” – Ricardo Abramovay [28:44]
O episódio mescla didatismo, tecnicidade e urgência, com explicações acessíveis e exemplos próximos da realidade do brasileiro. O tom é assertivo, mas esperançoso quanto ao potencial de inovação e transformação, mesmo diante dos desafios.
Este episódio de O Assunto demonstra como o futuro do Brasil e do planeta depende de mantermos a floresta em pé — por razões ambientais, sociais e econômicas. A criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre abre caminhos inovadores de financiamento à conservação, mas seu sucesso depende do cumprimento de rigorosos critérios de sustentabilidade e da mobilização tanto do setor público quanto do privado. Os convidados mostram que a floresta vai além do meio ambiente: ela é infraestrutura, fonte de energia, agricultura, desenvolvimento econômico e, cada vez mais, aposta de futuro para o Brasil e a humanidade.