O ASSUNTO – “A economia da floresta em pé”
Podcast G1 | Data: 10 de novembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidados: Tasso Azevedo (coordenador-geral do MapBiomas), Ricardo Abramovay (professor sênior, USP – Instituto de Estudos Avançados e Instituto de Energia e Ambiente)
Visão Geral do Episódio
Este episódio de O Assunto aborda o conceito de “economia da floresta em pé”, explorando como a preservação das florestas tropicais, especialmente da Amazônia, é essencial para o equilíbrio climático global, a geração de energia, a segurança hídrica, a bioeconomia e o futuro econômico do Brasil. Natuza Nery conversa com especialistas para explicar a proposta do novo Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), lançado na COP30, e discute caminhos práticos e desafios para conciliar desenvolvimento com preservação.
Principais Tópicos e Insights
1. A Importância Global das Florestas Tropicais
- [00:04–02:07]
- As florestas tropicais cumprem função vital no resfriamento do planeta pela absorção de carbono e evapotranspiração – criando os chamados “rios voadores”.
- A Amazônia, sozinha, responde por quase metade do território brasileiro e influencia o clima de toda a América do Sul.
- Mais de 50 milhões de hectares de vegetação nativa foram perdidos no Brasil em quatro décadas: “É como se Minas Gerais tivesse simplesmente desaparecido do mapa.” – Natuza Nery [01:44]
2. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF)
Participação: Tasso Azevedo
- [02:45–15:29]
- O fundo propõe captar recursos via empréstimos com juros baixos, reinvesti-los e distribuir a rentabilidade para países que mantêm florestas em pé.
- Inovação: mecanismo único que une incentivo à conservação e desincentivo ao desmatamento no mesmo instrumento.
- Para cada hectare de floresta mantida, recebe-se US$ 4. Para cada hectare desmatado, desconta-se 100 hectares do saldo.
- O repasse ocorre apenas a países com redução de desmatamento e 20% do recurso é destinado a povos da floresta, em especial indígenas.
- Frase marcante:
- “A parte mais interessante da inovação não é o mecanismo financeiro. [...] O incentivo à conservação e o desincentivo ao desmatamento estão no mesmo instrumento.” – Tasso Azevedo [06:27]
- “Independente do que aconteceu no passado ou do que vai acontecer no futuro, se uma floresta está aqui no começo do ano e continua aqui no final do ano, ela fez um serviço importante para todos nós de resfriar o planeta.” – Tasso Azevedo [05:12]
- O Banco Mundial será gestor, emitindo títulos, investindo o montante e repassando o lucro.
- Meta: mobilizar US$ 25 bilhões até o fim de 2026, atrair depois US$ 100 bilhões em investidores privados.
3. Complexidade, Transparência e Direcionamento dos Recursos
- [11:28–15:29]
- Países precisam de mecanismos claros de governança para aplicar o dinheiro exclusivamente no que favorece a conservação ou o desenvolvimento sustentável.
- O sistema prevê penalização direta e significativa para incentivos negativos.
- Ainda enfrentam desafios de explicação sobre o funcionamento do fundo, devido à sua complexidade financeira.
4. Justificativa Econômica da Floresta em Pé
Participação: Ricardo Abramovay
- [16:01–20:30]
- A floresta é a principal infraestrutura da América Latina, pois regula os recursos hídricos responsáveis tanto pela geração de energia hidroelétrica quanto pela agricultura.
- “Não há infraestrutura mais importante na América Latina do que a floresta.” – Ricardo Abramovay [16:01]
- O desmatamento compromete os “rios voadores”, reduzindo chuvas, prejudicando hidrelétricas, a navegação fluvial, agricultura e o abastecimento urbano.
- A insegurança hídrica aumenta custos e prejudica cidades e atividades econômicas no continente.
5. A Bioeconomia como Caminho
- [20:30–25:26]
- Bioeconomia tem duas frentes:
- A sociobiodiversidade florestal (produtos tradicionais indígenas, ribeirinhos etc.), hoje com pouca infraestrutura e pouca valorização.
- A transformação do setor agropecuário, sobretudo a pecuária bovina, grande emissora de gases de efeito estufa, com tecnologias para diminuir sua pegada ambiental.
- “O Brasil hoje é o quinto maior emissor global de gases de efeito estufa, e se o rebanho bovino fosse um país, seria o sétimo maior emissor do mundo.” – Ricardo Abramovay [23:34]
- Tecnologias simples e já disponíveis podem melhorar a produtividade e sustentabilidade da pecuária, gerando valor sem ampliar emissões.
- Bioeconomia tem duas frentes:
6. O Papel da Política Pública e da Transição Energética
- [25:26–29:32]
- Para alcançar os objetivos anunciados, é preciso política pública forte, tanto para valorizar produtos da floresta quanto para modificar práticas agropecuárias.
- O dilema do petróleo: metade da produção brasileira é exportada, mas, segundo Ricardo Abramovay, apostar no futuro do petróleo é indiferente a um horizonte de colapso ambiental.
- “Eu prefiro apostar na segunda hipótese: que vamos reduzir o uso de combustíveis fósseis e preservar a vida.” – Ricardo Abramovay [28:44]
- COP30 é vista como momento decisivo para transformar promessas em políticas concretas e investimentos reais na preservação e bioeconomia.
Destaques e Timestamps de Trechos Memoráveis
-
Definição do mecanismo inovador do TFFF:
“Você vai receber por esses mil hectares [de floresta mantidos]. Mas, se desmatar 1 hectare, desconta 100 hectares do que você tem para receber. [...] O incentivo econômico é mover as pessoas pelo medo da perda mais do que pela recompensa.” – Tasso Azevedo [06:27] -
O tamanho do impacto do desmatamento:
“É como se Minas Gerais tivesse simplesmente desaparecido do mapa.” – Natuza Nery [01:44] -
Importância da floresta para energia e agricultura:
“Sem a floresta, [...] mais de metade da geração brasileira de energia elétrica [...] é comprometida. A agricultura brasileira é quase inteiramente dependente de chuva – isso supõe a existência dos rios voadores.” – Ricardo Abramovay [16:01–18:15] -
O futuro da produção pecuária na Amazônia:
“Hoje são 90 milhões de cabeças de gado na Amazônia, criadas por 400 mil agricultores. Isso não vai desaparecer do dia pra noite. Temos que investir em tecnologias produtivas acessíveis que não comprometam o meio ambiente.” – Ricardo Abramovay [25:30] -
Sobre o dilema do petróleo:
“O horizonte do petróleo valendo muito daqui a 10 anos é um horizonte em que a vida será muito, muito, muito mais difícil do que ela é hoje e, portanto, eu preferiria não apostar nesse horizonte.” – Ricardo Abramovay [28:44]
Estrutura do Episódio por Tópicos e Timestamps
- [00:04] Introdução: O que são as florestas tropicais, sua extensão e papel no planeta.
- [01:44] Dados sobre desmatamento no Brasil e suas consequências.
- [02:07–04:42] Lançamento e conceito do TFFF para a COP30.
- [04:42–15:29] Detalhamento do fundo com Tasso Azevedo.
- [15:32–29:32] Debate com Ricardo Abramovay: economia da floresta, bioeconomia, setor agropecuário, transição energética e desafios políticos.
Tons e Linguagem
O episódio mescla didatismo, tecnicidade e urgência, com explicações acessíveis e exemplos próximos da realidade do brasileiro. O tom é assertivo, mas esperançoso quanto ao potencial de inovação e transformação, mesmo diante dos desafios.
Resumo Final
Este episódio de O Assunto demonstra como o futuro do Brasil e do planeta depende de mantermos a floresta em pé — por razões ambientais, sociais e econômicas. A criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre abre caminhos inovadores de financiamento à conservação, mas seu sucesso depende do cumprimento de rigorosos critérios de sustentabilidade e da mobilização tanto do setor público quanto do privado. Os convidados mostram que a floresta vai além do meio ambiente: ela é infraestrutura, fonte de energia, agricultura, desenvolvimento econômico e, cada vez mais, aposta de futuro para o Brasil e a humanidade.
