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Narrator/Host
A Polícia Federal está nas ruas para mais uma fase da operação que investiga fraudes em descontos de aposentados e pensionistas do INSS.
Affected Pensioner
São 10 mandados de prisão, 63 mandados de busca e apreensão.
Ana Tuzaner
Um dos presos foi o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, que, segundo a PF, recebia até 250 mil reais por mês em propina. Ele era considerado peça estratégica para manter ativa uma estrutura bilionária de desvios.
Affected Pensioner
A outra autoridade, além do Alessandro Stefanuto, que é alvo de medida cautelar hoje, no caso de Stefanuto à prisão, é o José Carlos Oliveira, ex-ministro do Trabalho e Previdência entre 2021 e 2022, que hoje assina como Ahmed Mohamed Oliveira. Ele está usando tornozeleira eletrônica. Essa foi a determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, contra ele.
Ana Tuzaner
Mais um episódio na longa série de escândalos que mancham o sistema público de previdência do país. Criado para garantir segurança e dignidade a quem trabalhou a vida inteira, o INSS se tornou alvo recorrente de golpes. Um campo minado de interesses, onde a vulnerabilidade de milhões de aposentados é transformada em moeda.
Affected Pensioner
Eu fui olhar direitinho, porque até então eu não entrava em vez trato dos meus pagamentos, não. Eu vi lá o desconto, quase 80 reais, já há cinco meses. Eu não autorizei nada, não me falaram nada. E quem autorizou? Aí é que tá o problema, né?
Diego Scherulli
É pouco? É.
Affected Pensioner
Mas é meu.
Narrator/Host
Os convênios para descontos dos pagamentos do INSS são legais. Essas entidades oferecem, por exemplo, serviços como auxílio funeral, odontológico e psicológico. A legalidade está no desconto não autorizado.
Ana Tuzaner
O escândalo acabou desaguando numa comissão parlamentar de inquérito, que foi instalada para investigar como esses descontos indevidos se espalharam pelo sistema. As investigações mostraram que falsas associações de aposentados se utilizavam do sistema do Instituto para cobrar serviços que nunca foram prestados. Mas tem um outro lado da moeda. Do lado de fora das agências do INSS, o terreno também é fértil para golpes. Um exemplo disso é o assédio a aposentados e pensionistas na porta de unidades de atendimento. A promessa? Acelerar a concessão dos benefícios.
Narrator/Host
O atual.
Ana Tuzaner
Presidente do INSS, Gilberto Valer Jr, que assumiu justamente após o escândalo ser descoberto, afirma o que parece óbvio. Esse tipo de assédio na porta das agências é crime. A ordem dos advogados é clara. Não existem atalhos. O pedido de aposentadoria é gratuito. Mas, na prática, o que se vê é o uso da fila da Previdência como negócio.
Narrator/Host
A gente fica indignada, né? Um dinheiro suado, porque é muito pouco. Eles tentam tirar de tudo quanto é forma.
Affected Pensioner
Eu fiquei surpreso e chateado também, porque é tão pouco, né, o dinheiro que a gente recebe. E eu acredito que, assim como eu, muitos brasileiros, né? que foram lesados nisso, sentem-se prejudicados.
Ana Tuzaner
A gente precisa. A gente já é pobre, já não tem qualquer coisa, não tem nada. E ainda se pegar o dinheiro da gente e não entregar, mas isso é um roubo mesmo, né? Da redação do G1, eu sou Nathuzaneri e o assunto hoje é a engrenagem de fraudes no INSS. Neste episódio, eu converso com Isabela Camargo, repórter da TV Globo em Brasília. E com Diego Scherulli, advogado e presidente do IBDprev, o Instituto Brasileiro Independente de Direito e Pesquisas em Previdência. Sexta-feira, 14 de novembro. Isa, quero começar pela notícia mais recente. Por que o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi preso? Quais as suspeitas contra ele?
Isabela Camargo
Olha, Alessandro Stefanutto, ele é investigado desde a primeira fase da operação de sem desconto, que foi deflagrada em abril. Lá atrás, tinha uma decisão judicial para que ele fosse afastado do cargo. Logo depois, ele acabou sendo demitido do governo. Qual é a primeira suspeita contra Alessandro de Sefanuto? É de que ele tenha tomado medidas no cargo para que esses descontos indevidos feitos pelas entidades associativas ocorressem, mesmo após algumas informações que já circulavam dentro do INSS. Então, por conta disso, ele foi afastado e demitido. Hoje, ele foi alvo de prisão. A operação desta quinta-feira foi autorizada pelo ministro André Mendonça. Por que ele é alvo? O repórter do G1, Márcio Falcão, acaba de trazer uma informação relevante. Os investigadores, que continuam apurando detalhes desta operação, descobriram que Alessandro Sefanuto estaria recebendo uma espécie de mesada enquanto estava na presidência do INSS, um valor que pode ter chegado a R$ 250 mil por mês. Essa apuração, portanto, justifica o pedido de prisão feito agora contra o Stefanutto. Ele que foi preso aqui em Brasília vai passar por aqueles procedimentos que são clássicos. Sempre que uma pessoa é presa, passa por um procedimento chamado audiência de custódia e depois vai permanecer preso. A prisão contra o Alessandro Stefanutto é preventiva. Isso quer dizer que ela não tem prazo para esgotar.
Affected Pensioner
Em nota, a defesa de Stefanuto afirmou que a prisão dele é ilegal porque o ex-presidente do INSS não tem causado nenhum tipo de embaraço à investigação.
Ana Tuzaner
Já que você entrou bem nessa história, vou te pedir para relembrar, então, o esquema para a gente. Como é que ele se estruturou?
Isabela Camargo
Em grande síntese, o que ocorre nesse esquema que foi mostrado pela Polícia Federal e pela Controladoria Geral da União é que entidades associativas que tinham acordos de cooperação técnico com o NSS, elas estavam fazendo descontos de aposentados e pensionistas. Qual é o problema? Esses descontos não foram reconhecidos por uma maioria esmagadora de aposentados e pensionistas. Então, de um lado, as entidades falavam que estavam ferocendo serviços, como por exemplo, serviço médico, serviço dentário, algum benefício para esse beneficiado, mas por outro lado, o benefício não chegava e sequer tinha sido requisitado.
Narrator/Host
A Sheila só descobriu o desconto ilegal na aposentadoria, no valor de R$ 45,00 por mês, numa conversa com um advogado.
Ana Tuzaner
Ele foi e deu uma olhada.
Narrator/Host
Ele falou, olha, está tendo um desconto aqui, de um seguro, você pediu?
Isabela Camargo
Eu falei, não, eu nem sabia que estava descontando isso no meu contra-cheque, porque a gente não costuma olhar.
Narrator/Host
Alertado pela Sheila, o marido foi verificar a conta. Só aí percebeu que também estava sendo vítima da fraude. Ele procurou a entidade que fazia o desconto.
Affected Pensioner
Aí eu falei, não, mas vem cá, quem autorizou? É isso que eu quero saber. Quem autorizou?
Narrator/Host
Ah, ninguém.
Isabela Camargo
Lá em abril, por exemplo, conversei com um casal, os dois tinham descontos indevidos. Eles descobriram por acaso, porque foram levar ali os documentos para um advogado, e viram, portanto, que tinham desconto que eles não tinham autorizado. O desconto mensal não era de um valor alto, ele variava de 20 a 40 reais. Agora, acontece que isso sangrando todo mês daquela pessoa que está mais vulnerável, que mais precisa desse valor, é claro que isso faz diferença, sem contar que foram muitos os descontos. A operação levantou até agora uma estimativa que de 2019 até 2024 esse valor ultrapasse 6 bilhões de reais.
Ana Tuzaner
Bom, e tem muita coisa que a gente não sabe ainda, né? Eu conversava, por exemplo, com um familiar que disse que notou um desconto que ele não tinha autorizado de 80 reais. Então, daí você tira a gama de situações que a grande imprensa sequer toma conhecimento porque ela não integra uma acusação formal, né? Então, estava ali, à torto e à direito, acontecendo toda sorte de descontos inadvertidos. Acho que vale a pena a gente focar o operador desse esquema, é conhecido como careca do INSS, o nome dele é Antônio Carlos Camilo Antunes, ele é alvo da CPI, CPI essa que foi instalada, começou a funcionar em agosto, que você também tem feito a cobertura, ele já estava preso, mas foi objeto de novo mandado de prisão. O que a gente sabe sobre esse novo mandado?
Isabela Camargo
Sempre que a gente fala de um operador, é importante explicar porque ele é tão importante. O operador, segundo uma investigação da Polícia Federal, é quem faz o vínculo daquela pessoa que está sendo beneficiada por um esquema de corrupção e em hipótese daquele que está permitindo que o esquema aconteça. Ou seja, é quem seria o responsável por repassar os valores para manutenção do esquema de corrupção. O Antônio Carlos Camilo Antunes foi alvo de um novo mandado. As informações sobre ele ainda estão sendo mantidas com alguma reserva. Ele esteve na CPI, chegou a responder algumas perguntas e a negar os fatos. Acontece que a CPI também já aponta, por exemplo, que ele teve um aumento patrimonial que não tem lastro. Diversos carros foram apreendidos com ele, ou seja, é um personagem importante dessa investigação que está sendo aprofundada dia após dia.
Ana Tuzaner
Agora, Isa, já que a gente está no tópico CPI, eu queria te perguntar se houve, de fato, o avanço. Houve alguma descoberta nova? Porque nos últimos anos as comissões parlamentares de inquérito, elas normalmente bebem na fonte de investigações que já estão em curso e relativamente avançada. Essa CPI teve algum diferencial ou basicamente ela tem seguido o rastro da investigação da Polícia Federal?
Isabela Camargo
Natuza, eu conversei com alguns parlamentares da CPI hoje, quando vocês me fizeram um convite para participar do assunto, e ouvi deles. Qual o balanço que eles fazem? Eu estou falando nesse primeiro momento de parlamentares da oposição ao governo, ou seja, são os parlamentares que querem levar essa CPI adiante, que brigaram para que ela fosse instalada. O que esses parlamentares falam para mim é o seguinte, a grande importância da CPI no entendimento deles é não deixar o assunto morrer. Eles entendem que o trabalho que eles fazem ali de provocar as testemunhas, de buscar dados, de pedir informações, também provoca que essa investigação conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria Geral da União, que ela siga adiante. Portanto, eles entendem que tem um papel sim, acham que tem uma limitação por conta das investigações estarem ainda em sigilo, muitos pedidos acabam sendo negados, por exemplo. Todas essas pessoas que são investigadas acabam tendo o direito de ficar em silêncio quando vão depor na CPI, o que os parlamentares consideram um prejuízo Antônio Carlos.
Affected Pensioner
Camilo Antunes, o chamado careca do INSS, conseguiu um habeas corpus do Supremo e, como é investigado, não tinha a obrigação de falar. Na comissão, Antônio Carlos se recusou a responder às perguntas do relator. O relator já me julgou e condenou sem sequer me ouvir. E por isso não responderei às perguntas de vossa celeste. Mas o relator, o deputado Alfredo Gaspar, fez questão de falar. Está presente aqui o autor do maior roubo aos aposentados e pensionistas da história do Brasil. As afirmações do relator irritaram o advogado de Antônio Carlos e a sessão acabou virando um bate-boca.
Isabela Camargo
De qualquer maneira, eu peguei um balanço aqui de alguns dados. Essas são informações oficiais da presidência da CPI e do INSS. Até o momento, 24 pessoas foram movidas e tem 700 documentos que foram recebidos pela CPI. Os documentos, a gente sabe, é sempre uma oportunidade de investigadores observarem e buscarem mais detalhes daquilo que ainda pode não ter sido descoberto pelos investigadores. E se, por um lado, eu estou falando do que os parlamentares da oposição estão dizendo, os parlamentares da base que seguem na CPI, o que eles defendem, sessão após sessão, é que esta é uma operação que foi deflagrada por esta Polícia Federal e, principalmente, pela Controladoria-Geral da União durante a gestão do presidente Lula. Então, no entendimento dos governistas, Eles defendem que não há nenhum interesse em que esses fatos não sejam revelados e que eles também querem que a investigação siga adiante.
Ana Tuzaner
Bom, na operação sem desconto, entre outros alvos, também são investigados o deputado estadual Edson Araújo, ele é do PSB do Maranhão, B de bola, e o deputado federal Euclides Petersen Neto, que é do Republicanos de Minas Gerais. Por que o INSS acaba sendo essa autarquia em que a política e crime se misturam há tanto tempo, Isa?
Isabela Camargo
Natuza, você que também cobre Brasília há tanto tempo, sabe que aqui na esplanada dos ministérios os olhos ficam voltados para os órgãos e para os ministérios que têm mais orçamento. O valor do orçamento da Previdência esse ano, fui buscar esse dado também, é de mais de R$ 970 bilhões, ou seja, é muito dinheiro envolvido e por conta disso o INSS, que é uma questão tão importante para quem mais precisa desse benefício, é uma política de Estado importante, mas também acaba sendo visada aí por quem tem algum interesse excluso, ou seja, de alguma forma tenta se aproveitar de forma indevida daquilo que é dinheiro público.
Ana Tuzaner
Isa Camargo, muito obrigada por ter topado conversar aqui com a gente, um prazer te receber aqui no assunto.
Isabela Camargo
Obrigada a você pelo convite.
Ana Tuzaner
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Diego Scherulli. Diego, na quarta-feira o Plenário do Senado aprovou um projeto proibindo descontos associativos e agora o texto segue para a sanção do Presidente da República. Quero te pedir para nos explicar brevemente sobre se essa medida pode eventualmente ajudar a conter desvios.
Diego Scherulli
O que essa medida está fazendo nada mais é do que revogar uma disposição que a Lei de Benefícios da Previdência Social, que a Lei nº 8.213, de 1991, já trazia, permitindo desconto associativo. O que ela está fazendo é revogando essa disposição, mas é algo que o governo já deixou de fazer. Então, na verdade, ela só está legalizando algo que o governo já está fazendo e evitando que essas entidades, no futuro, possam entrar com ações exigindo o cumprimento da lei.
Ana Tuzaner
Bom, quando você esteve aqui no assunto foi o episódio de número 1.454, foi em abril deste ano, a gente conversou bastante sobre a sequência de golpes envolvendo algumas associações, mas também existem golpes contra os segurados envolvendo empréstimos. Por que eles são tão comuns? Por que o INSS é esse celeiro de golpes aplicados em pessoas que precisam tanto da sua aposentadoria?
Diego Scherulli
Então, o NSS em si, a gente costuma até dizer que nós temos que separar as fraudes que acontecem contra os segurados das fraudes que são praticadas dentro do NSS. Por exemplo, a fraude dos empréstimos consignados, quando ocorrem, são feitas diretamente com os segurados. O NSS é só um instrumento de desconto em folha.
Ana Tuzaner
Então, isso dá a impressão de que a coisa é maior e está mais contaminada do que é de fato a instituição em si.
Diego Scherulli
Sim, está muito contaminada, até porque as pessoas que dependem do INSS, dependem dos seus serviços, na maioria delas são pessoas vulneráveis do ponto de vista de conhecimento técnico, de conhecimento contratual, às vezes assinam coisas que não deveriam, ainda mais os últimos empréstimos que estavam sendo possíveis ser assinados pelo telefone, por um caixa de banco, qualquer coisa do tipo. Então, a fraude estava realmente aberta e o INSS era um caminho para o desconto, para a operação dessa fraude, mas não é uma fraude que originou dentro do INSS. Entende? É diferente, por exemplo, dessa das associações, que ela ocorreu dentro do INCS com o mecanismo INCS. No caso da fraude dos empréstimos consignados, o INCS é um facilitador, mas um facilitador sem saber que é.
Ana Tuzaner
E a fraude do falso advogado, que parece ser tão comum e pegar tanta gente vulnerável, pra usar um termo que o senhor usou?
Diego Scherulli
A fraude do falso advogado, ela pega num ponto sensível do cliente de um processo previdenciário, que é aquela ansiedade em torno de um benefício, ansiedade em torno da revisão de uma aposentadoria. Então, às vezes, essa pessoa liga o fraudador e dá uma esperança de algo que não existe, né, e acaba que essa pessoa cai. Isso acontece porque o INSS, às vezes, é tão ineficiente a alguns serviços públicos, que a maioria das pessoas buscam a justiça. Então, às vezes, um fraudador com discurso frágil consegue convencer a pessoa de que, ó, conseguimos o seu direito na justiça, o processo judicial saiu, vamos pagar aqui um tributo, vamos pagar o imposto, que aí você vai receber o dinheiro que o INSS está te devendo.
Narrator/Host
Presencia a atuação dos puxadores, pessoas que abordam segurados do INSS na porta da agência prometendo serviços de advogados. Esta mulher não sabe que está sendo gravada e já oferece uma advogada para atender.
Diego Scherulli
Fazer uma consulta é gratuito, ela está disponível. E você é advogada? Não, é a doutora Ana Paula.
Narrator/Host
O INSS admite que o assédio dos puxadores acontece nas agências em todo o país. Muitas vezes, os segurados ficam sujeitos a golpes no momento em que mais precisam de orientação. O presidente do instituto reforçou que o segurado pode usar o aplicativo Meu INSS ou agendar um atendimento presencial.
Diego Scherulli
Então, com uma promessa vaga, muitas das vezes eles conseguem fazer vítimas várias. Hoje é uma das fraudes que movimenta muito recurso financeiro de forma ilícita.
Ana Tuzaner
Esses criminosos, eles se passam por falsos advogados, prometem a liberação dos benefícios ou de uma indenização, e aí eles pedem pagamento adiantado, né?
Diego Scherulli
É, na verdade, eles têm acesso ao processo judicial. Essa não é uma fraude que sai de dentro do INSS, não são os dados do INSS que fazem parte da fraude, e sim dados do processo judicial. Eles conseguem acessar as plataformas e os processos digitais judiciais e mandam para os clientes, inclusive, as petições, falam em nome do escritório, colocam a nossa foto, a logo do nosso escritório, falam como se fôssemos nós.
Ana Tuzaner
Ou seja, o senhor também é vítima, né?
Diego Scherulli
Sim, toda semana. Toda semana no meu escritório a gente tem que fazer uma lista de transmissão pros clientes, falando, ó, tão se passando por nós, cuidado. Eu sei que todos os escritórios no Brasil são. Agora, os escritórios previdenciários são o foco, porque os clientes caem de forma mais fácil.
Ana Tuzaner
Existe algum mecanismo pra evitar isso?
Diego Scherulli
Hoje o mecanismo que eu enxergo é uma alteração na legislação do ponto de vista do controle dos dados, inclusive dos dados dos processos judiciais, quem acessa o processo judicial. Não me parece hoje que tá tendo um esforço de quem controla os processos judiciais digitais pra evitar esse tipo de acesso indevido, né? A gente tenta às vezes até... retirar o nome da parte do processo, o e-mail, ou alguns dados sensíveis, telefone, mas isso é vedado, os juízes mandam incluir tudo no processo. Pedimos sigilo no processo, os juízes não deixam. Então, nós precisamos parar pra pensar muito como isso deve funcionar e como que nós podemos evitar. Mas a melhor orientação nesse momento é orientar quem tem um processo judicial de que a regra de ouro é não pagar nada sem receber. Essa é a regra de ouro. E o que esses golpes fazem é falar assim, você tem que pagar um imposto, tem que pagar um tributo pra poder receber o dinheiro. Não existe isso. Qualquer imposto ou tributo a gente só paga depois que recebe. Então, muitas das frases a gente vê, Natuza, é que as pessoas caíram por uma indução muito boba, mas eles pegam muito nesse sentimento de, olha, saiu a sua aposentadoria, parabéns, você tá aposentada, mas pra aposentar você precisa pagar o imposto aqui de renda adiantado, ou você precisa pagar o honorário do advogado adiantado. A regra é, só paga depois que o dinheiro tá na conta.
Ana Tuzaner
Você conhece alguém que caiu num golpe assim?
Diego Scherulli
Sim, e pessoas de qualificações e culturas diferentes. Nós temos aí pessoas de baixa renda, com baixa escolaridade que caíram, e temos pessoas, auditores fiscais do trabalho, auditores fiscais da Receita Federal, que são 500 mil, que já caíram. em golpes nesse sentido. Porque eles são muito... Eles são muito... Eles conseguem induzir muito bem. Pra você ter uma ideia, numa das... Aqui que é o da Receita Federal, eles fizeram uma audiência. Tinha um juiz numa sala virtual, com um advogado dizendo que era do nosso escritório, outro dizendo que era advogado da União. Ficou ali uns quinze minutos numa audiência, numa conversa, pra... Fala assim, não, agora eu julgo procedente aí o seu pedido, aí eu vou mandar pra senhora pagar a guia do imposto aí, a senhora paga e eu libero o dinheiro pra você. eles se reinventam, e se reinventam todos os dias. Teve uma, inclusive, que ligou pra gente do banco, ela ia transferir mais de 36 mil reais de honorário. Ela tava no banco, desesperada, eu tô aqui, já tem duas horas, você vai me falar com vocês, eu tô tentando transferir o dinheiro e não tá dando, porque a conta não tá recebendo o valor, eu tô fazendo e tá voltando. Eu preciso te pagar porque eu preciso desse dinheiro. Eu falei, mas o que você tá fazendo? Calma, que honorário? Seu processo acabou de dar entrada. Era um processo de um mês, tava na justiça.
Ana Tuzaner
Nossa, por sorte ela ligou pra sua própria defesa, pro seu advogado, senão ela teria pagado 36 mil reais pra um criminoso, pra um golpista.
Diego Scherulli
Ela já tinha perdido 3.800, ela ia perder esses 36 mil a mais. Ela tinha pago 3,800 de custos judiciais, que ela falou que os que cobraram dela, e tava transferindo os 36 mil. Falou assim, eu só vou, o dinheiro só sai na sua conta depois que você pagar os honorários. Que isso, o advogado recebe depois que o cliente recebe, não é o contrário. Então, as pessoas têm que entender que a regra de ouro é só paga depois que recebe.
Ana Tuzaner
E tem ainda um agravante que é, como você dizia, um público de mais idade que muitas vezes tem dificuldade com o digital. Eu até conversava com o presidente do INSS logo no começo dessa crise sobre se o digital seria de fato a melhor forma de comunicação com os segurados. porque muitas vezes as pessoas não dominam o digital. E ele foi me explicando que isso é, de fato, quase que uma dificuldade, porque pelo papel, quando você manda comunicação pelo papel, também abre muita margem para golpe. Então, você fica entre a cruz e a caldeirinha, né?
Diego Scherulli
É, e na verdade os golpes são feitos externos ao INSS. Por exemplo, hoje o INSS tem o GOVBR, que é pra você acessar, você tem que ter o GOV, aí tem a dupla verificação do GOV, que você tira um código de acesso pelo aplicativo, então além da senha do GOV tem que ter a dupla verificação, isso dá muito problema, porque o celular trava, o GOV trava, a gente não consegue acessar. Mas isso não impede a fraude. Por exemplo, as fraudes mais comuns são empréstimo consignado e as associações. As associações foram feitas dentro da INSS, a pessoa não tinha que fazer nada, eles simplesmente incluíram na folha de pagamento. A pessoa nunca ouviu falar, nunca assinou nada. Então, não dependeu de uma ação, foi feito dentro da INSS. Agora, a fraude dos empréstimos consignados, muitas das vezes, é feita no banco. E o banco transmite informação para o INSS, então o segurado não tem muito o que fazer para aceitar ou impedir que isso aconteça, não é o login dele que vai permitir que essa fraude aconteça, um refinanciamento ou coisas do tipo. Então hoje, por exemplo, esse projeto de lei que foi aprovado agora, ele cria um mecanismo de autorização em várias etapas de um empréstimo consignado. Então a pessoa vai ter que autorizar no caixa, vai ter que autorizar no aplicativo, ou seja, vão ser duas, três autorizações para que, de fato, aquela consignação em folha entre para ser descontada pela NSS.
Affected Pensioner
O projeto foi aprovado no plenário do Senado em regime de urgência, isto é, com prioridade sobre todas as demais matérias. O texto já tinha sido aprovado na Câmara em agosto, agora vai ser submetido à sanção pelo presidente Lula para virar lei. O texto aprovado proíbe descontos das mensalidades associativas nos benefícios administrados pelo INSS, mesmo com autorização. e acaba com a possibilidade de antecipação do pagamento de dívidas do crédito consignado. As contribuições a associações poderão ser feitas por boleto bancário.
Diego Scherulli
Então isso com certeza vai ajudar a reduzir um pouco a fraude, mas não vai impedir, porque a maior parte dessas fraudes acontece ali no contrato, numa taxa de juros alta, num refinanciamento sem autorização e coisas do tipo.
Ana Tuzaner
Isso é um fenômeno de Brasil ou esses golpes são dados nessa escala em outras partes do mundo? O senhor tem essa informação?
Diego Scherulli
O que nós já conseguimos obter de informação, que é muito rasa, que os outros países não divulgam muito, em países menos desenvolvidos é comum você ter esse tipo de fraude. Em países mais desenvolvidos, não. Até porque envolve um órgão público, uma autarquia pública pagadora de benefícios, muitas vezes essas autarquias nem se metem a descontar nada pra ninguém. Quer fazer um desconto em um crédito em folha? Pois, não tente em conta, não precisa fazer pela autarquia previdenciária fazendo um desconto direto pra uma instituição financeira ou pra uma associação, que é o caminho que nós estamos caminhando aqui no Brasil pra chegar.
Ana Tuzaner
Doutor Diego, muito obrigada pelas suas explicações, esclareceu muita coisa aqui pra gente do assunto. Bom trabalho.
Diego Scherulli
Obrigado, vocês também.
Ana Tuzaner
Antes de terminar um aviso, o governo prorrogou até 14 de fevereiro de 2026 o prazo para contestar descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Isso pode ser feito de três formas. Pelo site ou pelo aplicativo Meu INSS, na aba Consultar descontos de entidades associativas. Também dá para fazer por telefone, ligando gratuitamente para a Central 135, de segunda a sábado, das 7h da manhã até às 10h da noite. ou também pelos Correios. Mais de 5 mil agências oferecem atendimento assistido e gratuito. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Thiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 14 de novembro de 2025
Host: Ana Tuzaner (G1)
Convidados: Isabela Camargo (repórter TV Globo Brasília), Diego Scherulli (advogado, presidente do IBDprev)
No episódio “A Engrenagem de Fraudes do INSS”, o podcast investiga o recente escândalo de fraudes bilionárias no sistema previdenciário brasileiro, destacando a operação da Polícia Federal que resultou na prisão de autoridades de alto escalão, inclusive o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto. O episódio mergulha nos mecanismos das fraudes, as vulnerabilidades do INSS, impactos para aposentados, avanços na CPI, e as limitações das soluções propostas. Especialistas analisam as causas estruturais do problema, o papel da legislação e trazem relatos reais de vítimas.
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O episódio tem tom informativo, indignado e empático, priorizando a voz dos prejudicados e a análise especializada. Os convidados explicam didaticamente os mecanismos das fraudes e suas falhas estruturais, com linguagem clara e acessível, sem perder o rigor investigativo.
Este episódio do O Assunto revela a envergadura do esquema de fraudes no INSS, afetando direta e dolorosamente os mais vulneráveis. Aponta limitações estruturais do sistema, desafios políticos e legais, e ressalta a necessidade de vigilância constante, educação dos segurados e mudanças legislativas para conter esse ciclo de golpes. Um alerta para a sociedade e uma prestação de serviço essencial para os ouvintes.