O Assunto – A execução do ex-delegado-geral de São Paulo
Data: 17 de setembro de 2025
Host: Vitor Boiadjan
Convidados: Kleber Tomaz (G1), Rafael Alcadipane (FGV/Fórum Brasileiro de Segurança Pública)
Visão Geral do Episódio
Este episódio mergulha na execução de Rui Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, assassinado em Praia Grande. Com entrevistas de jornalistas e especialistas em segurança pública, o episódio busca entender quem foi Rui, sua trajetória no combate ao crime organizado, as circunstâncias do assassinato e o que isso revela sobre a segurança de agentes públicos no Brasil e o poder das facções criminosas como o PCC.
Principais Pontos e Discussões
1. Quem era Rui Ferraz Fontes?
[03:13] Kleber Tomaz:
- Delegado com mais de 40 anos de experiência, foi figura chave no enfrentamento ao PCC nos anos 2000, especialmente durante a onda de ataques e as “Crimes de Maio” de 2006.
- Responsável direto pela prisão de Marcola, líder máximo do PCC, em 1999, e produção do primeiro organograma detalhado da facção, mapeando mais de 5 mil membros.
- Constantemente ameaçado de morte pelo PCC, inclusive com relatórios e investigações detalhados pela polícia e Ministério Público.
- Atuava recentemente como secretário de administração em Praia Grande, já aposentado da polícia.
Notável citação:
"Ele esteve à frente de um dos momentos mais críticos para a segurança pública do estado de São Paulo, que foi a época dos ataques do PCC."
[03:13] – Kleber Tomaz
2. Circunstâncias da execução
[01:01 – 02:10]
- Rui foi executado em uma emboscada ao sair do trabalho na prefeitura de Praia Grande.
- Os criminosos aguardaram por cerca de 15 minutos, o surpreenderam, Rui tentou fugir, mas bateu e capotou o carro. Três homens armados com fuzis dispararam cerca de 20 tiros em 6 segundos, sem chance de reação – a arma de Rui estava guardada na mochila.
- O nível de preparo dos executores indicava alto grau de profissionalismo e ligação com o crime organizado.
Notável citação:
"Os atiradores saíram de um carro preto armados com fuzis e se posicionaram de frente pro veículo da vítima pra atirar."
[01:01] – Kleber Tomaz
3. Histórico de ameaças e contexto com o PCC
[05:18 – 11:47]
- Rui foi alvo de constantes ameaças desde o início dos anos 2000, especialmente após o endurecimento penal das lideranças do PCC.
- Relato de plano do PCC em 2010 para matá-lo na porta da delegacia. O regime disciplinar diferenciado (RDD) foi visto pelo PCC como provocação, elevando ainda mais o desejo de retaliação.
- Fontes e outros especialistas reforçam a capacidade do PCC de planejar e executar retaliações de longo prazo.
Notável citação:
"O PCC hoje é uma máfia e, como máfia, eles não perdoam. A execução: ela tarda, mas não falha."
[11:44] – Especialista não identificado
4. Linhas de investigação
[11:47 – 13:42]
- Principal hipótese é vingança do PCC, mas também se considera represália local devido à atuação de Rui como secretário municipal, possivelmente mexendo com interesses de criminosos regionais.
- Nenhuma hipótese foi descartada, mas a ação extremamente coordenada reforça a ligação com o crime organizado.
5. Profissionalismo dos executores
[13:01 – 14:40]
- Planejamento detalhado, uso de coletes, fuzis de uso restrito, máscaras e táticas de bloqueio do trânsito.
- Investigações identificaram vias de fuga e o descarte de veículos queimados, indícios de experiência e treinamento.
Notável citação:
"São muito bem treinados, inclusive treinados com capacidade de tiro. Vai caber agora às autoridades identificar quem são esses autores, saber como é que eles tiveram esse preparo para poder executar esse crime."
[13:42] – Kleber Tomaz
6. Falta de proteção a policiais aposentados
[15:56 – 16:44]
- Debate sobre a insuficiência de proteção estatal a agentes de segurança aposentados, mesmo os que participaram de combates diretos ao crime organizado.
- O estado obriga o agente a solicitar proteção, algo pouco divulgado. Rui nunca pediu escolta.
- Além de demandas formais, há discussão ética e operacional sobre impor escolta obrigatória.
Notável citação:
"A pessoa tem que requisitar. Não é um expediente que é comum as pessoas saberem que tem e não ser solicitado. [...] Não podemos impor uma escolta a uma pessoa, porque limita muito a vida da pessoa."
[16:44] – Rafael Alcadipane
7. Investigações e críticas à comunicação oficial
[21:00 – 23:48]
- Dois suspeitos identificados, com pedidos de prisão temporária, mas divulgação precipitada das investigações foi criticada por Rafael Alcadipane por poder prejudicar o andamento do caso e facilitar fuga de envolvidos.
- Episódios semelhantes já tiveram investigações prejudicadas por anúncios políticos prematuros.
Notável citação:
"Isso é completamente inadequado, falta de profissionalismo, o absurdo das autoridades de segurança pública do governo do estado de São Paulo."
[22:10] – Rafael Alcadipane
8. Cooperação entre polícias e política
[24:08 – 25:21]
- Polícia Federal ofereceu apoio, mas governo estadual recusou.
- Alcadipane defende a soma de esforços entre polícias, especialmente em casos ligados ao crime organizado com dimensões nacionais e internacionais.
- O caso evidencia tensões e vaidades políticas entre esferas estaduais e federais.
9. Dinâmica da segurança pública na Baixada Santista
[26:00 – 27:20]
- Porto de Santos é essencial à logística do tráfico internacional, tornando a região estratégica para o PCC.
- Fragilidades sociais e urbanas facilitam domínio territorial pelo crime organizado, comparando a região à situação do Rio de Janeiro.
- Recuperação desses territórios pelo Estado exige políticas integradas em todos os níveis de governo.
Notável citação:
"O Porto de Santos é o centro nevrálgico para que isso possa acontecer, porque é um dos principais pontos de escoamento desse nó logístico que o Primeiro Comando da Capital desempenha."
[26:09] – Rafael Alcadipane
Momentos Memoráveis e Citações-Chave
-
"Eu estou aposentado, eu não quero... Eu moro sozinho aqui, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é o meio deles. [...] Eu não tenho estrutura nenhuma."
[00:38] – Rui Ferraz Fontes (duas semanas antes de sua morte) -
"Como se pode fazer um massacre em pleno século XXI, de mais de 600 jovens assassinados, no espaço de uma semana, e eles não conseguiram achar o agosto dos nossos filhos? Ninguém foi punido."
[04:21] – Mãe de vítima dos Crimes de Maio -
"A execução: ela tarda, mas não falha."
[11:44] – Especialista sobre o modus operandi das máfias -
"Isso não é protocolo em polícias sérias do mundo..."
[23:00] – Rafael Alcadipane sobre divulgação prematura de informações
Timestamps dos Principais Segmentos
- [00:14 – 02:10] – Contexto e detalhes da execução
- [03:13 – 11:47] – Trajetória de Rui Fontes, atuação contra o PCC e ameaças
- [13:01 – 15:15] – Características do crime e do preparo dos executores
- [16:44 – 17:26] – Debate sobre proteção para aposentados
- [17:42 – 19:07] – Motivações possíveis (vendeta e ameaças atuais)
- [21:00 – 23:48] – Críticas à gestão das investigações e vazamentos
- [26:00 – 27:20] – Panorama da criminalidade e insegurança na Baixada Santista
Conclusão
O episódio evidencia como a execução de Rui Ferraz Fontes é resultado da tensão histórica e crescente entre agentes do Estado e o crime organizado no Brasil, apontando falhas de proteção institucional e a força das facções. Expõe a necessidade de políticas de Estado para proteger agentes, melhor integração entre forças policiais e respostas firmes e coordenadas ao domínio territorial dos criminosos. Destaca também o papel estratégico do Porto de Santos e da Baixada Santista no tráfico internacional, e o risco de a justiça ser ameaçada pelas vaidades políticas na gestão da segurança pública.
O episódio é marcado por análises técnicas, testemunhos emocionantes e críticas contundentes às práticas político-institucionais do setor de segurança brasileiro.
