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Nathuzan
Tim Black, um plano exclusivo pra você.
Rafael Alcadipane
Descobrir a sua melhor versão.
Kleber Tomaz
Nunca fui a versão. Nunca foi a versão?
Vitor Boiadjan
A voz que você acabou de ouvir é de Rui Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo. Ele falava sobre ameaças após ter sido questionado pelos jornalistas Aline Ribeiro e Gabriel de Campos do jornal O Globo e da rádio CBN durante a produção de um podcast que ainda vai ser lançado. Rui também falou sobre seu trabalho atuando contra facções e sobre proteção.
Rui Ferraz Fontes
Eu estou aposentado, eu não quero, eu tenho proteção de quem? Eu moro sozinho aqui, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é o meio deles. É, pra mim é muito difícil. Se eu fosse um policial da ativa, eu tava pouco me importando. Eu teria estrutura pra me proteger. Hoje eu não tenho estrutura nenhuma. Não tenho estrutura nenhuma.
Vitor Boiadjan
Uma entrevista gravada duas semanas antes que Rui ser assassinado.
Kleber Tomaz
Os atiradores saíram de um carro preto armados com fuzis e se posicionaram de frente pro veículo da vítima pra atirar.
Vitor Boiadjan
Uma emboscada que começou logo após Rui sair da prefeitura de Praia Grande, onde trabalhava como secretário de administração. Bandidos ficaram de tocaia dentro de um carro à espera dele por 15 minutos. Quando Rui passou de carro ao lado dos criminosos, eles atiraram. Rui continuou dirigindo e uma perseguição começou.
Nery
Segundo as investigações, ele tinha percebido que estava sendo seguido, mas perdeu o controle.
Vitor Boiadjan
Rui capotou o carro após bater em um ônibus em uma avenida movimentada de Praia Grande. Segundos depois, o carro com os criminosos se aproximou. Deles saíram três homens armados com fuzis que se posicionaram de frente para o carro capotado de Rui. Disparos cortaram o ar. Foram mais de 20 tiros em 6 segundos.
Nery
Segundos.
Vitor Boiadjan
Rui estava sozinho e sem proteção.
Nery
A arma do delegado Rui Fontes foi encontrada dentro da bolsa dele, da mochila dele, o que aponta que ele não teve tempo de reagir.
Nathuzan
Da redação do G1, eu sou Nathuzan.
Nery
Nery e o assunto hoje com Vítor Boedian é...
Vitor Boiadjan
A execução de Rui Ferraz Fontes. Quem era o ex-delegado-geral assassinado em Praia Grande e o que esse crime revela sobre a segurança pública? Eu converso com Kleber Tomaz, repórter do G1 em São Paulo, e com Rafael Alcadipane, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quarta-feira, 17 de setembro. Kleber, você é repórter policial já há bastante tempo, conhecia pessoalmente o delegado Rui Ferraz Fontes, então explica pra gente quem ele era e o que ele fazia, afinal, em Praia Grande, Kleber.
Kleber Tomaz
O doutor Rui Ferraz Fontes, ele era um delegado já com mais de 40 anos de experiência, Ele esteve à frente de um dos momentos mais críticos para a segurança pública do estado de São Paulo, que foi a época dos ataques do PCC que depois teve um revide das forças de segurança e esse episódio que ocorreu em 2006 ficou conhecido como Crimes de Maio.
Unknown Narrator/Reporter
Um estado de guerra, um inferno urbano.
Vitor Boiadjan
Os bandidos atacaram, a polícia e o Estado reagiram.
Unknown Official
A onda de ataques e rebeliões começou depois da transferência de oito bandidos perigosos do interior para a capital. Eles estariam planejando uma onda de rebeliões.
Nery
O medo de novos ataques transformou a capital paulista numa cidade fantasma.
Vitor Boiadjan
A sensação de insegurança se espalhou pela.
Nery
Capital e mais cinco municípios próximos.
Unknown Narrator/Reporter
Desde 2006, novas mães se juntam com relatos de violência contra os filhos que acabaram morrendo.
Nathuzan
Como se pode fazer um massacre em pleno século XXI, de mais de 600 jovens assassinados, no espaço de uma semana, e eles não conseguiram achar o agosto dos nossos filhos? Ninguém foi punido.
Kleber Tomaz
Então, ele esteve à frente das investigações nesse período também, e por esse motivo chegou a ser ameaçado de morte pela facção criminosa PCC. E, atualmente, ele estava em Praia Grande, onde trabalhava como secretário de administração. Ele já havia se aposentado.
Vitor Boiadjan
Cleber, o doutor Rui já foi delegado-geral da Polícia Civil, mas antes disso, lá em 1999, ele foi responsável por prender o Marcola. Conta pra gente como foi a atuação do delegado Rui contra o PCC.
Kleber Tomaz
O PCC, Vitor, surgiu em 1993 na Casa de Detenção e Custódia de Taubaté. Nesse período, o PCC começou a se articular, a fazer suas reuniões e ter um grupo que foi se fortalecendo. Em 1999, surgiu o nome de Marcola, que é o Marcos Ebas Camacho, apontado pelas autoridades como chefe, uma das lideranças do PCC, e o Rui, durante as investigações dele contra tráfico de drogas, formação de quadrilha, assaltos a banco, etc., chegou à prisão do Marcola. A equipe do Rui participou dessa prisão e o Rui é muito lembrado por isso. Por quê? Porque após essa prisão, Victor, o Rui como presidente do inquérito, que pegou não só Marcola, mas outras lideranças, levou esse caso para a justiça, que acabou nas condenações de Marcola e outros integrantes, e por conta disso, As penas foram altas e o PCC jamais esqueceu o Dr. Rui. Também tem outro ingrediente de vítima importante. Como o PCC estava surgindo ainda nessa época, anos 90, o Dr. Rui foi um dos primeiros, juntamente com as forças de inteligência da PM, a fazer o organograma do PCC. Eu, à época, em 2006, trabalhava em outro veículo de comunicação e pude ver esse organograma. eram 5.012 membros que o PCC tinha em meados de 2006. Isso era incrível, porque esse organograma tinha todo mundo, as lideranças, os sintonias finas, sintonias das gravatas, que são advogados que trabalhavam para o PCC. E diante disso, isso incomodou também o PCC, porque o PCC passou a ser monitorado pelas forças de segurança. É um outro ingrediente que fazia o PCC começar a ter uma animosidade maior com a figura do Dr. Rui.
Vitor Boiadjan
E ele também identificou, além do Marcola, o Geleião, o Cezinha, a cúpula do PCC também parece que foi ele que delineou melhor para o público.
Kleber Tomaz
Exato, ele participou ali diretamente dessas empreitadas e investigativas, para desenhar não só quem eram os membros, mas como eles agiam, como eles se integravam às comunidades, como eles acabavam sendo até bem vistos pelas comunidades carentes por exercer questões de controle em relação a pequenos crimes que eram cometidos lá e deixaram de ser cometidos, porque quem cometia crime nas comunidades acabava sendo punido. O doutor Rui acabou mapeando isso e essas informações foram, obviamente, para o Ministério Público, Justiça também e muitos dos livros que a gente vê atualmente sobre o PCC tem o dedo ali do Dr. Rui hoje em relação à investigação que propiciou esse leque de informações sobre a facção criminosa.
Vitor Boiadjan
Agora, uma entrevista recente num podcast que estava sendo produzido, ainda está em produção pelo jornal O Globo, pela rádio CBN, o doutor Rui, delegado Rui, disse que não havia recebido ameaças, mas você teve acesso a documentos que mostram que o PCC já tinha planos de matar o ex-delegado e outros investigadores desde o início dos anos 2000. Conta um pouco pra gente que documentos que são esses e o que eles revelam.
Kleber Tomaz
Olha, eu ouvi esse áudio recente do doutor Rui, Até ontem, Victor, eu conversei com o doutor Márcio Cristino, que foi promotor à época que o doutor Rui investigava mais a fundo o PCC, e até perguntei pro doutor Márcio se o doutor Rui tinha se queixado de alguma ameaça recente, e o doutor Márcio me respondeu que também não. Mas há documentos, Victor, não só documentos, como o próprio doutor Lincoln da Quia, chegou a comentar que, em 2010, chegou a avisar até o Dr. Rui de uma ameaça que o PCC tramava contra ele, quando o Dr. Rui trabalhava no 69DP, em São Paulo, e o plano do PCC era atacar o Dr. Rui na frente da delegacia. O Dr. Lincoln até comentou que acionou a rota, se não me engano, da PM, que foi lá para contornar a situação ou intimidar quem é que quisesse tentar alguma coisa contra o Dr. Rui. O Dr. Rui já recebeu diversas ameaças, viu, Victor, desde o início dos anos 2000, depois da prisão do Marcola, quando ele começou a pegar essas lideranças, que acabaram indo para um regime muito rígido de prisão, que é o RDD, regime disciplinar diferenciado. Esse regime disciplinar diferenciado é visto pelo PCC como uma crueldade, como uma punição, porque, na verdade, lá eles têm sérias restrições. de banho de sol, visitas, inclusive de parentes e advogados.
Unknown Expert
Ele estava jurado de morte pelo PCC já desde 2006. O Rui foi um dos responsáveis pela ideia de transferir toda a liderança do PCC para um único presídio aqui na região oeste de São Paulo. que era a penitenciária 2 de presidente Wenceslau. Me parece que uma autoridade que dedicou mais de 40 anos ao combate ao crime organizado deveria ter alguma proteção do Estado. O PCC hoje é uma máfia e como máfia eles não perdoam. A execução Ela tarda, mas não falha.
Vitor Boiadjan
A gente está falando muito do PCC e, de fato, o que a polícia tem trazido até agora são suspeitos que, de fato, tinham envolvimento com a facção criminosa. Mas eu queria também que você trouxesse o que mais está na mesa de hipóteses de investigação, de linhas de investigação que foram iniciadas logo após a execução do delegado doutor Rui na noite da segunda-feira.
Kleber Tomaz
Victor, é muito bem lembrado por você. Além do próprio PCC, que é uma das hipóteses que teria partido da facção a ordem para matar o doutor Rui, tem também uma outra hipótese, que não é descartada, que pelo fato do doutor Rui ter assumido a Secretaria da Segurança da Administração em Praia Grande, ele poderia estar mexendo com algum criminoso insatisfeito com a atuação dele lá e, em represália, ter sofrido uma emboscada. Mas, até o momento, não há nenhuma comprovação de que tenha sido OPCC ou de que tenha sido alguém ligado a algum desafeto do doutor Rui, a um possível desafeto em relação à atuação dele na Prefeitura.
Vitor Boiadjan
O que a gente sabe, pelo que dá para ver nas imagens, isso talvez com alguma segurança é do preparo daqueles que executaram a tarefa, né? Sim, a gente vê o veículo chegando, o motorista do veículo onde estavam os assassinos permanecendo no veículo, uma pessoa sai de um lado para segurar o trânsito e fazer uma escolta enquanto outros dois saiam em direção ao veículo do doutor Rui que já estava capotado faziam a execução e rapidamente retornavam ao veículo que fez uma manobra de fuga e saiu na contramão. Então, do preparo, não há dúvidas, né? Não eram despreparados esses assassinos.
Kleber Tomaz
Sem dúvida, Victor, não são criminosos despreparados, são muito bem treinados, inclusive treinados com capacidade de tiro. Vai caber agora às autoridades identificar quem são esses autores, saber como é que eles tiveram esse preparo. para poder executar esse crime.
Unknown Narrator/Reporter
Nós tivemos acesso a imagens de câmeras de segurança que mostram o carro dos criminosos estacionando bem nesse ponto às 18h02. Eles ficaram 14 minutos parados. O expediente de Rui terminou às 18h15. Ele entra no carro que estava no estacionamento da prefeitura. Os criminosos percebem, ligam o farol e assim que Rui passa, os bandidos atiram. Fontes da polícia afirmam que possivelmente ele foi baleado já nesse momento. Logo depois dos tiros, o ex-delegado saiu em disparada e os criminosos foram atrás.
Nery
Ele entrou na avenida em alta velocidade, bateu em dois ônibus e capotou. Um carro preto veio logo atrás. Três homens armados desceram. Dois vão até o carro e atiram. Segundo a polícia, os bandidos usavam fuzis e coletes à prova de bala e estavam com máscaras. Os investigadores encontraram 47 cápsulas de balas disparadas pelos bandidos. Um dos carros usados no assassinato foi incendiado a dois quilômetros do local do crime. Em outro veículo abandonado havia fuzis e munição. Os peritos conseguiram achar impressões digitais no carro.
Kleber Tomaz
Para você ter uma ideia, Victor, o carro do doutor Rui teve 29 perfurações de tiros de fuzis. Esses fuzis são armas de uso restrito, onde é preciso muita capacidade técnica para você atirar com o fuzil.
Vitor Boiadjan
Bom, Kleber, tem muita coisa ainda pra gente conhecer a respeito dessa execução. Muitas dúvidas surgem. Tenho certeza que você vai continuar acompanhando com o profissionalismo de sempre esse assunto. Então, muito obrigado pela sua participação por enquanto e volte, por favor, outras vezes aqui ao assunto.
Kleber Tomaz
Eu que agradeço, Victor. Muito obrigado.
Vitor Boiadjan
Espera um pouco que eu já volto pra falar com Rafael Alcadipane. Rafael, esse episódio da morte do ex-delegado Rui Ferraz Fontes levantou uma discussão sobre a proteção a agentes de segurança depois da aposentadoria. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que Rui poderia ter pedido escolta, mas não fez. Nessa terça-feira, o Secretário Nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubo, disse que o governo já discute ampliar a proteção a agentes públicos mesmo depois da aposentadoria. Mas na prática, como é que ela é feita hoje? Idealmente, como que ela deveria ser? É preciso hoje fazer a solicitação? Ou o Estado tem obrigação dependendo do agente? Como é que funciona e como você acha que ela deveria ser?
Rafael Alcadipane
Olha, em primeiro lugar, a gente é a primeira vez que a gente vê uma geração de pessoas que teve uma ligação, um enfrentamento tão direto ao crime organizado, se aposentando e saindo das suas funções públicas. A gente não tinha esse histórico no Brasil, então o Brasil tá prendendo com isso. Em países como Itália, até mesmo o Chile, essa proteção ela tá prevista, agora a pessoa tem que requisitar. O que eu acho é que, embora via o expediente, mas não é um expediente que é comum as pessoas saberem que tem e não ser solicitado. Por isso eu acredito que o doutor Rui aí acabou não solicitando. Agora, a gente não pode também impor uma escolta a uma pessoa, porque limita muito a vida da pessoa. É uma decisão ao fim e ao cabo daquele indivíduo em particular, se ele quer ter ou não essa escolta.
Vitor Boiadjan
Olhando pro assassinato, olhando pro caso dessa execução de um delegado importante aqui na história do combate ao crime organizado em São Paulo, o que que há naquela ação que nos diz claramente que os criminosos estão longe de ser amadores?
Rafael Alcadipane
Você vê que tem toda uma preparação, né? Eles chegam ali, eles começam atirando na prefeitura, né? O doutor Rui já havia sido atingido na prefeitura, são as informações mais recentes do caso que mostram. Você vê que eles estão com um veículo grande, há uma possibilidade daquele veículo ser blindado. Estão com armamento longo, estão com colete balístico, estão com a cara coberta. Eles saem do veículo e cada um sabe muito bem o que fazer, pra onde ir, a forma de sair desse veículo. Fica um motorista, quer dizer, você denota que é uma ação totalmente planejada estruturada e organizada e os executores são pessoas que têm familiaridade com ações táticas, né? Então é isso pra mim que chama atenção quando a gente vê essa ação em termos do modus operandi do fato em si.
Vitor Boiadjan
Agora, tem algumas características bastante peculiares nesse caso, né? Se a gente for comparar com a execução mais em impressionante, recente, foi o caso de Vinícius Grisbar, que foi executado à luz do dia no aeroporto de Guarulhos, só que ele era um potencial delator dos esquemas de uma facção criminosa, do PCC. O caso do delegado Rui, ele já estava até aposentado dessa função, ele estava atuando como secretário de administração da prefeitura de Praia Grande. Então, Se a gente puder fazer um comparativo, o que tipo de risco poderia oferecer ou de interesse para uma execução como essa poderia oferecer o Dr. Rui para o que aconteceu com ele?
Rafael Alcadipane
Eu acredito que são duas principais linhas de investigação. A primeira linha que seria uma vendeta sobre o passado dele, sobre aquilo que ele fez e que ele construiu ao longo da sua carreira nesse enfrentamento ao crime organizado, que desagradou muitas lideranças do crime organizado, falam inclusive agora de uma pessoa que teria saído da cadeia, um criminoso que teria saído da cadeia há cerca de um mês e que está na região onde ele estava ali. e poderia ter tido, entre aspas, o apetite para realizar esse tipo de ação, dado o passado, né, as relações passadas e de as prisões e tudo que ele fez contra o crime organizado, e também de ações presentes, né. O doutor Rui, ele era uma pessoa muito... que não parava em termos de investigação, ele era apaixonado pela investigação e ele não parava de fazer isso e de fazer isso o tempo todo, aonde quer que ele estivesse e, possivelmente, na sua função ali como secretário municipal, ele deve ter se deparado com questões que são questões complexas, que podem ter o envolvimento do crime organizado encontrado, as licitações a gente sabe que isso acontece, e pode ter desagradado fontes, pode ter desagradado figuras do crime organizado, e aí sabendo que o assassinato daquela pessoa que já tem esse histórico, tem esse interesse de realizar essa ação espetacular que acaba o vitimando. Então acho que esse é o ponto, é uma ligação de passado e presente com relação ao que ele representou e o que ele poderia estar fazendo nesse momento de enfrentamento ao crime organizado. Agora, ainda é muito cedo, os fatos estão sendo descortinados, há indicações de algumas figuras que talvez estivessem envolvidas com o crime que foram identificados.
Unknown Official
Os investigadores já chegaram aos nomes de dois suspeitos. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, disse que a polícia já pediu a prisão temporária deles.
Rafael Alcadipane
A gente montou uma grande força-tarefa, essa força-tarefa vai estar em campo, a prioridade máxima é solucionar esse caso. Só com uma investigação profunda a gente vai poder descortinar os fatos e saber de fato o que aconteceu.
Vitor Boiadjan
Mas então, nesse momento, pelo que a gente está entendendo, nenhuma hipótese está descartada até o momento?
Rafael Alcadipane
Eu acredito que não, acho que é muito cedo, nós não temos nem 24 horas dos fatos ainda, no momento que a gente realiza essa entrevista, então a gente precisa ter um pouco mais de tempo, essas investigações tomam um pouco de tempo, pra você poder pegar todo o quebra-cabeça, todos os vestígios que foram deixados, eventuais denúncias anônimas que possam ter chegado, eventuais testemunhas e pessoas que tenham interesse em dar informações à polícia, pra que a gente possa aí montar o quebra-cabeça completo e descobrir o que de fato aconteceu. Claro que há indícios fortíssimos da presença do crime organizado, porque o jeito da ação, como você bem ponderou, ela lembra o caso do delator do PCC, lembra a prática de crime do PCC, é comum o PCC utilizar esse tipo de arma, esse tipo de subterfúgio, em suas ações, mas são indícios. A gente precisa que ainda a investigação se descurtir.
Vitor Boiadjan
E aí, como você bem mencionou, já em menos de 24 horas, a gente tem aí o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme de Ritchie, já dizendo que identificou dois suspeitos pela execução do delegado doutor Rui Ferraz e que vai pedir a prisão temporária deles. Como que você avalia a divulgação dessas informações, da maneira como foi? Informações preliminares antes mesmo da prisão desses suspeitos?
Rafael Alcadipane
Isso é completamente inadequado, falta de profissionalismo, o absurdo das autoridades de segurança pública do governo do estado de São Paulo. Esse tipo de informação não pode ser divulgado. Uma coisa é divulgar que existe um suspeito preso ou dois suspeitos presos depois que a polícia executou o seu trabalho, que a justiça concedeu a prisão e a pessoa foi presa. Isso prejudica muito a investigação. O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Guilherme de Ritt, disse que no segundo veículo usado pelos criminosos, os peritos conseguiram identificar vestígios relacionados a um primeiro suspeito.
Unknown Official
Já temos um primeiro indivíduo identificado e qualificado. A Polícia Civil já está requisitando a prisão desse criminoso. Possui vários antecedentes criminais, em especial por crimes graves como crime de roubo e como crime de tráfico de drogas, tanto com maioridade penal quanto ainda como adolescente infrator.
Rafael Alcadipane
Isso não é protocolo em polícias sérias do mundo que eu conheça, que eu não conheço polícia séria do mundo que iria permitir que esse tipo de questão acontecesse. A gente sabe que não foi a Polícia Civil que vazou a informação, mas sim o Secretário de Segurança Pública, que provavelmente nesse momento não há fã de dar uma resposta. A gente sabe que o grupo político dele é candidato a cargos na próxima eleição. Não há fã de dar uma resposta, acaba prejudicando um trabalho sério de investigação que pode colocar tudo a perder, na medida em que esses criminosos, uma vez sabendo que estão sendo procurados, eles podem se evadir, as outras pessoas podem se evadir sabendo que há vestígios que foram deixados, e isso gera muito. A gente viu no caso do Gritsbach como que isso gerou, atrasou as investigações. Isso não é uma maneira profissional e correta de se proceder, e é lamentável que isso venha da principal autoridade de segurança pública do estado de São Paulo.
Vitor Boiadjan
Agora, a Polícia Federal já se ofereceu para ajudar nessas investigações. Qual que é a tua opinião? Mais ajuda ou atrapalha? Nesse momento é importante todo mundo trabalhar, deixar de lado as vaidades e trabalhar em conjunto ou não? A Polícia de São Paulo já tem essa condição de fazer a investigação por conta própria?
Rafael Alcadipane
A Polícia de São Paulo é uma polícia muito bem preparada, tem as condições de realizar essa investigação, de enxergar até aos executores e também aos mandantes desse crime bárbaro, mas eu acho, eu sou da opinião que toda ajuda é bem-vinda. Então, se a Polícia Federal tiver algum tipo de laboratório, algum tipo de auxílio de forense, da parte de perícia ou até mesmo investigadores que possam ter informações ou que possam pensar uma cabeça pensa melhor do que outra, a gente tem que deixar a vaidade de lado, enfrentamento ao crime organizado tem que ser feito por todas as estruturas do Estado, então, do meu ponto de vista, se for necessário para o Centro Civil de São Paulo, precisado o apoio, tem que solicitar e deixar de lado essas questões políticas, essa questão de orgulho, que é muito mais ligada à política dessa divisão que a gente vive hoje do que a questão técnica.
Unknown Official
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, disse que já ofereceu ajuda da Polícia Federal.
Claro que a responsabilidade da apuração é do governo de São Paulo. Eu hoje liguei para o governador de São Paulo, prestando a minha solidariedade pessoal. Nós nos colocamos à disposição do Estado, sobretudo no que diz respeito à Polícia Científica. Tudo isso nós colocamos à disposição, se necessário, do governo de São Paulo.
Vitor Boiadjan
O secretário da Segurança Pública, Guilherme de Ritch, recusou o apoio da Polícia Federal nas investigações. Para a gente terminar, esse crime aconteceu em Praia Grande, um município do litoral sul de São Paulo, um município que tem muita relação com a dinâmica da Baixada Santista, onde tem o porto, onde tem atividades de facções criminosas, onde já teve uma operação da Polícia Militar de São Paulo bastante ostensiva, não há muito tempo. Dá uma descrição para quem não conhece bem a região, qual é o status da segurança pública da região e como que se desenvolvem as atividades das facções por lá.
Rafael Alcadipane
A gente precisa lembrar, antes de responder essa pergunta, que o que o FCC faz, ele é uma empresa de logística, onde ele pega cocaína dos países andinos e manda para a Europa, para a Oceania, para a África, para outros países do mundo. E para isso, o Porto de Santos é o centro neurálgico para que isso possa acontecer, porque é um dos principais pontos de escoamento desse nó logístico que o Primeiro Comando da Capital desempenha. E diante disso, a Baixada Santista virou um local de interesse estratégico do Primeiro Comando da Capital. É uma região de muita vulnerabilidade social, de muita desorganização e desordenação urbana, e a gente sabe que essa desorganização urbana favorece a presença do crime organizado, e ali eles tomaram conta mesmo. Há várias regiões ali, comunidades em que a polícia só entra sobre a troca de tiros, onde o PCC domina áreas inteiras ali daquela região. Então, a gente está falando de um contexto, é a parte de São Paulo que mais se assemelha ao Rio de Janeiro, tanto pela sua questão geográfica, quanto pela forte presença do crime organizado e de criminosos fortemente armados. E é urgente, Vitor, que a gente comece a retomar esses territórios, porque esse domínio territorial do crime organizado nessas regiões ele é muito perigoso para o Estado, porque o crime começa a ganhar cada vez mais força. Por isso, a gente precisa ter políticas que envolvam o governo federal, o governo estadual, governos municipais, para retomar essas posições, esses territórios de volta para o Estado.
Vitor Boiadjan
Rafael Kadipani, muito obrigado por ajudar a gente a entender um pouco mais o que aconteceu, esse crime surpreendente aí para a luta, o combate ao crime aqui no Estado de São Paulo e no país. Volte outras vezes aqui para o assunto, viu?
Rafael Alcadipane
Muito obrigado pelo convite.
Vitor Boiadjan
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Eu sou o Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 17 de setembro de 2025
Host: Vitor Boiadjan
Convidados: Kleber Tomaz (G1), Rafael Alcadipane (FGV/Fórum Brasileiro de Segurança Pública)
Este episódio mergulha na execução de Rui Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, assassinado em Praia Grande. Com entrevistas de jornalistas e especialistas em segurança pública, o episódio busca entender quem foi Rui, sua trajetória no combate ao crime organizado, as circunstâncias do assassinato e o que isso revela sobre a segurança de agentes públicos no Brasil e o poder das facções criminosas como o PCC.
[03:13] Kleber Tomaz:
Notável citação:
"Ele esteve à frente de um dos momentos mais críticos para a segurança pública do estado de São Paulo, que foi a época dos ataques do PCC."
[03:13] – Kleber Tomaz
[01:01 – 02:10]
Notável citação:
"Os atiradores saíram de um carro preto armados com fuzis e se posicionaram de frente pro veículo da vítima pra atirar."
[01:01] – Kleber Tomaz
[05:18 – 11:47]
Notável citação:
"O PCC hoje é uma máfia e, como máfia, eles não perdoam. A execução: ela tarda, mas não falha."
[11:44] – Especialista não identificado
[11:47 – 13:42]
[13:01 – 14:40]
Notável citação:
"São muito bem treinados, inclusive treinados com capacidade de tiro. Vai caber agora às autoridades identificar quem são esses autores, saber como é que eles tiveram esse preparo para poder executar esse crime."
[13:42] – Kleber Tomaz
[15:56 – 16:44]
Notável citação:
"A pessoa tem que requisitar. Não é um expediente que é comum as pessoas saberem que tem e não ser solicitado. [...] Não podemos impor uma escolta a uma pessoa, porque limita muito a vida da pessoa."
[16:44] – Rafael Alcadipane
[21:00 – 23:48]
Notável citação:
"Isso é completamente inadequado, falta de profissionalismo, o absurdo das autoridades de segurança pública do governo do estado de São Paulo."
[22:10] – Rafael Alcadipane
[24:08 – 25:21]
[26:00 – 27:20]
Notável citação:
"O Porto de Santos é o centro nevrálgico para que isso possa acontecer, porque é um dos principais pontos de escoamento desse nó logístico que o Primeiro Comando da Capital desempenha."
[26:09] – Rafael Alcadipane
"Eu estou aposentado, eu não quero... Eu moro sozinho aqui, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é o meio deles. [...] Eu não tenho estrutura nenhuma."
[00:38] – Rui Ferraz Fontes (duas semanas antes de sua morte)
"Como se pode fazer um massacre em pleno século XXI, de mais de 600 jovens assassinados, no espaço de uma semana, e eles não conseguiram achar o agosto dos nossos filhos? Ninguém foi punido."
[04:21] – Mãe de vítima dos Crimes de Maio
"A execução: ela tarda, mas não falha."
[11:44] – Especialista sobre o modus operandi das máfias
"Isso não é protocolo em polícias sérias do mundo..."
[23:00] – Rafael Alcadipane sobre divulgação prematura de informações
O episódio evidencia como a execução de Rui Ferraz Fontes é resultado da tensão histórica e crescente entre agentes do Estado e o crime organizado no Brasil, apontando falhas de proteção institucional e a força das facções. Expõe a necessidade de políticas de Estado para proteger agentes, melhor integração entre forças policiais e respostas firmes e coordenadas ao domínio territorial dos criminosos. Destaca também o papel estratégico do Porto de Santos e da Baixada Santista no tráfico internacional, e o risco de a justiça ser ameaçada pelas vaidades políticas na gestão da segurança pública.
O episódio é marcado por análises técnicas, testemunhos emocionantes e críticas contundentes às práticas político-institucionais do setor de segurança brasileiro.