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Ana Karina Porto
A oferta do chamado chip da beleza, feita pelo ginecologista, veio acompanhada de promessas tentadoras.
Natuzaneri
Ia emagrecer bastante, ia virar uma pessoa extremamente disposta, ia ter muita energia, eu ia ser uma nova criatura.
Vítor Boiadjã
O nome até parece moderno, tecnológico. Chip da beleza. Mas o produto, um implante hormonal colocado sob a pele, não é um chip, e muito menos da beleza. É aí que começa o problema. Substâncias que deveriam ser usadas em casos específicos, com indicação médica, passaram a ser vendidas com uma promessa tentadora. Mais disposição, emagrecimento, ganho de massa muscular, mais libido. Um mercado que se expandiu e hoje movimenta milhões de reais. Por trás dele, uma engrenagem. Médicos que prescrevem, treinam outros profissionais e indicam farmácias de manipulação. Um ciclo que vai da consulta à venda do produto. E que, segundo o Conselho Federal de Medicina, levanta suspeitas de conflito de interesse. Às vezes você se sente insegura de seu marido procurar outra pessoa porque você já não está se sentindo tão bem.
Natuzaneri
Esse é o doutor Lázaro Lourenço, que vende cursos para médicos. O João teve acesso às aulas dele, em que mostra como outros médicos podem persuadir pacientes. O roteiro apelativo é que ensina a captar pacientes, mas parece de vendas.
Vítor Boiadjã
Fala logo do produto, escuta. Vender é uma bela arte de fazer pergunta. Dentro desses chips, muitas vezes, estão hormônios esteroides. O mais conhecido é a testosterona, mas também aparecem nomes como gestrinona, oxandrolona, progesterona. Substâncias associadas a ganho muscular e que não têm indicação reconhecida cientificamente para os usos estéticos que são prometidos.
Ana Karina Porto
Mas a Priscila logo começou a sentir os efeitos colaterais.
Natuzaneri
Queda absurda de cabelo. Comecei a ficar com várias entradas aqui. Crescimento absurdo de pelos. Acne. Ganhei peso. Em quatro meses eu ganhei 10 quilos. Não ganhei a tal disposição. Fiquei mais depressiva mesmo tomando medicação.
Vítor Boiadjã
E o uso indiscriminado dessas substâncias pode causar danos graves à saúde.
Ana Karina Porto
A Anvisa atualizou as regras para o
Natuzaneri
uso daqueles implantes hormonais que ficaram popularmente conhecidos como chips da beleza. Essa nova resolução mantém a proibição de manipulação, comercialização e uso desses implantes hormonais para fins estéticos, para ganho de massa muscular ou para melhorar o desempenho esportivo das pessoas.
Vítor Boiadjã
E é no ambiente mais difícil de regular que esse mercado mais cresce, o mundo digital. Os alvos são, principalmente, as mulheres. No algoritmo, a promessa de autoestima vira isca. E o chip da beleza é só uma das portas de entrada para um universo maior que vai da suplementação a uma indústria inteira voltada para vender um ideal de corpo. Karine queria um corpo sarado e mais autoestima quando decidiu botar o chip da beleza em 2021. Mas logo depois teve ganho de peso, espinhas, suor noturno. Ela diz que para remediar os efeitos colaterais, a médica receitou mais chips. Foram três.
Ana Karina Porto
Paguei mais um valor bem expressivo para colocar outro chip. Hoje está o seguinte, eu tenho os três chips aqui dentro de mim.
Vítor Boiadjã
Karine diz que a médica garantiu que os implantes não estão mais liberando hormônios. E que os chips, como estão, não representam risco. Para retirá-los, ela teria que fazer uma pequena cirurgia. Mas, por enquanto, está preocupada em recuperar a saúde. Para isso, procurou outro médico.
Ana Karina Porto
Eu fiz isso puramente por estética. E uma estética que eu não consegui. Eu te garanto que foi um ano e meio da minha vida para tudo voltar ao normal.
Natuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boedian é...
Vítor Boiadjã
A febre dos implantes anabolizantes no Brasil. Neste episódio, eu converso com Thalita Vespa, jornalista repórter do G1 e especialista em saúde, e com Clayton Luiz Dornelis Macedo, doutor em endocrinologia clínica e especialista em medicina do esporte pela Unifesp. Ele também é diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Quinta-feira, 7 de maio. Ali tá muito bom ter você aqui com a gente. Primeiro, parabéns pela reportagem. Também, se você puder repassar, os parabéns à Poliana Casimiro sobre chips de beleza. Eu queria começar então a nossa conversa tentando saber como é que vocês chegaram nessa pauta, como a pauta chegou até vocês.
Natuzaneri
O Liana e eu, a gente acompanha muito essas tendências em redes sociais, de saúde principalmente, e a gente conversando, a gente falou uma pra outra, cara, tá todo mundo usando bomba mesmo? Porque é o que parece que tá todo mundo usando bomba. Então surgiu dessa pergunta, dessa curiosidade, e a gente foi fuçar pra entender que sim, tá todo mundo usando bomba, mas não é daquele jeito que a gente tá acostumado a ver. As pessoas na academia, atletas de bodybuilding, Não, é uma coisa diferente. Pessoas comuns, como a gente, que tem uma rotina de trabalho, estão usando o bombe e, muitas vezes, elas nem sabem. E a gente começou a pesquisar e foi quando a gente se deparou com um mercado que fatura muito dinheiro, que envolve médicos, médicos que dão cursos para médicos e farmácias de manipulação.
Vítor Boiadjã
Bomba não é suplemento. O que a gente tá falando aqui?
Natuzaneri
A gente tá falando de hormônios esteroides, que são oxandrolona, gestrinona e testosterona. Esses são os principais hormônios esteroides que são inseridos nesses implantes hormonais.
Ana Karina Porto
Meu nome é Karina Porto, eu fui vítima dos implantes hormonais manipulados, especificamente o chip da beleza. Vou fazer aqui um relato. sobre o meu caso. Falei, acho que não é o caso de eu colocar o implante. Ele falou, não, porque agora você tá entrando na menopausa, a sua pele vai ficar inteirinha craquelada, você vai virar, eu nunca mais esqueço essa frase, de mulher-pera você vira mulher-maçã, de tanto que você vai engordar. Começou a me deixar assim, já foi só abaixando assim na cadeira, né? Tenho quase certeza que o seu caso é um caso pra implante. Eu falei, olha, eu não gostaria de colocar implante porque eu tenho um rim só. E ele já sabia disso, que eu tinha um rim só.
Vítor Boiadjã
Conta pra gente como é a história da Ana Karina, o que ela viveu.
Natuzaneri
A Ana Karina a gente descobriu ainda nessa busca da reportagem dentro do Tribunal de Justiça e descobrimos que ela havia processado um médico por efeitos muito graves relacionados ao implante hormonal. Ela conta pra gente que ela foi até a clínica com queixas de infecção urinária de repetição e quando o médico percebeu que ela estava na menopausa acabou associando essas infecções urinárias de repetição à menopausa. E aí ele teria dito a ela que os implantes hormonais ajudariam em todos os sintomas da menopausa, que ajudaria a amenizar o cansaço, daria mais energia, aumentaria a libido. Só que ela não sabia que o que estaria inserido naquele implante seriam anabolizantes. Ela não sabia.
Vítor Boiadjã
Então tem uma diferença aí, de um implante de hormônio para reposição hormonal para implante de anabolizante, é isso?
Natuzaneri
Os únicos implantes hormonais hoje permitidos pelo CFM e indicados por sociedades médicas são os implantes anticoncepcionais. Qualquer outro chip com hormônio não é permitido nem recomendado pelas sociedades médicas. Em outubro de 2024, a Anvisa proibiu todos os tipos de implante para todos os fins. Mas, 34 dias depois, a gente aporou que houve um lobby, pressão desse mercado para que a Anvisa flexibilizasse um pouco essas regras e foi exatamente o que a Anvisa fez. A Anvisa manteve a proibição apenas para fins estéticos, mas também não deixa claro para qual outro fim isso é liberado. Então, essa brecha faz com que os médicos acabem prescrevendo isso para várias finalidades de saúde, sem comprovação científica e sem respaldo de sociedades médicas.
Vítor Boiadjã
Mas embora não tenha comprovação científica da eficácia do objetivo pretendido, a gente vê pelo caso da Anacarina que existem consequências fisiológicas do uso desse produto, né?
Natuzaneri
No caso da Anacarina, ela teve um infarto renal e é uma consequência muito grave, mais ainda pra ela porque ela só tem um rim. Ela teve uma condição na infância que fez com que ela perdesse o outro rim. Ela teve um infarto renal, ela teve um espessamento do endométrio que gerou uma hemorragia intensa, ela precisou passar por uma cirurgia e nessa cirurgia ela teve um problema no pulmão que fez com que ela parasse de respirar e ela quase morreu.
Ana Karina Porto
Durante a esteroscopia, eu tive edema pulmonar agudo e fui parar na UTI. Eu lembro que eu não estava entubada, aí eu nem lembro que eu chamou a Ana Karina. Aí eu falava assim, Ana, Ana? Aí eu só acordei e ela falou, ela tá viva, corre pra UTI. Aí quando eu acordei na UTI, 500 médicos olhando pra mim, falou, você aguenta ficar entubada? Você vai ter que ficar entubada. Eu falei, eu aguento. Eu não tenho outra opção, né? Aí eu fiquei entubada dois dias. Ligaram pro médico, ele não apareceu pra me visitar.
Vítor Boiadjã
Isso em quanto tempo de uso?
Natuzaneri
45 dias.
Vítor Boiadjã
Bom, vocês descobriram que existe um mercado aí que tá de maneira indiscriminada comercializando esses produtos e usando profissionais de saúde para veicular esses produtos aos pacientes, né?
Natuzaneri
Exatamente. O que acontece é o seguinte, a mulher chega no consultório de um ginecologista, de um endócrino, enfim, várias especialidades, e ela diz na consulta de rotina que ela sente um cansaço, está com pouca libido, e aí o médico traz essa solução do implante hormonal. Isso não é vendido como anabolizante, ele é vendido como uma coisa de saúde. Se você procura isso nas redes sociais, esses médicos que prescrevem esses implantes hormonais, eles estão por toda parte. Os médicos que a gente acessou na reportagem, Eles colecionam mais de milhões de seguidores. Eles participam de congressos de hormonologia, que é uma especialidade médica que o CFM não reconhece, e ensinam outros médicos a colocar o implante nas pacientes. A gente, inclusive, teve acesso a um curso de um desses médicos. A gente assistiu a todas as aulas e, nesse curso, ele ensina outros médicos a como manipular as pacientes, principalmente mulheres, para que elas queiram e aceitem um produto. É um produto que é muito barato para os médicos, eles produzem na farmácia de manipulação por R$ 200 e vendem isso por pelo menos R$ 4.500, podendo chegar a R$ 12.000. Então, nesses congressos, eles dizem que é o maior produto lucrativo da medicina hoje. E o CFM falou, inclusive, na mercantilização da medicina.
Vítor Boiadjã
Agora, qual é a capacidade da Anacarina de ser indenizada pelo que aconteceu com ela?
Natuzaneri
Ela foi indenizada, o processo já acabou, ela recebeu indenização por danos morais e estéticos, mas esse médico, ele segue podendo atuar. Ele não teve nenhuma punição no CFM. Pra que isso aconteça, ele precisa ser denunciado no CFM, o que a Ana Karina disse que já fez, mas o CFM, quando falou com a gente, disse que não podia comentar nenhum caso específico. É muito lucrativo para os médicos e as mulheres, que é quem mais sofre com isso, elas não são informadas do que está sendo colocado no corpo delas.
Ana Karina Porto
Mas ele não passou nada de informação sobre o chip especificamente. Eu falei, mas o que que vai colocar? Ah, vai colocar aqui, olha, pelos seus hormônios, precisa colocar estradiol, testosterona, e vamos colocar o chip da beleza que hoje é esterinona aqui, mas isso aí não faz mal? Falei, não, isso aqui só vai fazer bem pra você, isso aqui é vida. Só que não falou quantidade, não falou nenhuma reação adversa. Coloquei o chip, né? Não sabia nem o que eu tava colocando direito, porque ele não explicou.
Natuzaneri
E tem um agravante, só pra gente concluir aqui, que quando você coloca o chip, não dá pra tirar. Então, no caso da Ana Karina, embora ela estivesse com vários sintomas e problemas graves de saúde em 45 dias, não tinha o que ser feito, tinha que esperar passar aquele tempo de liberação dos hormônios, que ninguém sabe quanto tempo é. Porque eles acham que é 6 meses, mas como não tem estudo clínico embasando isso, às vezes é muito mais, às vezes é menos.
Vítor Boiadjã
Nem fazendo uma cirurgia?
Natuzaneri
Pode ser que o médico consiga, se ele abrir e ver se ele acha, num exame de imagem, o corpo absorve ele. E um outro risco é que muitas mulheres colocam um novo implante, sendo que aquele anterior nem terminou de liberar hormônio. E aí vai aumentando, escalonando dose e pode ser perigosíssimo.
Vítor Boiadjã
E é só mulher ou homens também estão sujeitos a essa oferta?
Natuzaneri
Esse mercado afeta mais as mulheres. Os homens, quando querem usar hormônios anabolizantes, fazem isso na academia. A maior preocupação das sociedades médicas é com as mulheres, porque segundo o que esses professores falam, as mulheres são o alvo mais fácil. Então, eles conseguem manipular melhor. E aí você tem várias indicações. Eles falam que funciona para menopausa, para lipedema, para várias coisas que muitas mulheres têm. E aí eles colocam isso para que a mulher compre o produto. Pra homem é diferente. O homem que quer usar um hormônio, ele acaba fazendo isso de outras formas, mas ele também não costuma usar chip.
Vítor Boiadjã
Como que é a cultura entre as mulheres do uso disso? Porque uma pode sugerir pra outra, olha, tô usando isso, tá funcionando pra mim, existe essa cultura?
Natuzaneri
É no boca a boca que esse mercado acaba se construindo, porque tem uma mulher ali, a tua amiga, que você vê todos os dias, começa a ficar com um ótimo corpo e ela te diz que tá fazendo reposição hormonal, colocou um chip que vai ajudar, mas ninguém sabe ou ninguém fala em anabolizante. E aí, você vê o resultado, é muito fácil de se convencer. Eu também quero aquele corpo, também quero chegar nisso. Se essa pessoa que tem a minha idade, 50 anos, tomar o mesmo pássaro que eu, eu também consigo. Também estou indisposta. O médico falou que colocou para a libido, a minha libido está baixa. Então, tudo isso acaba acontecendo. Tem pessoas que não têm efeitos colaterais absurdos. Tem pessoas que têm efeitos colaterais menores, como acne, engrossamento da voz, queda de cabelo. Isso acontece com todo mundo. Mas tem pessoas que têm efeitos colaterais muito piores. A gente, inclusive, entrevistou uma mulher que tinha bastante conhecimento na área, sim, mas ela foi na umba de uma amiga. E aí ela já conhecia uma médica, que era médica dela há muito tempo, então ela confiava na amiga, confiava na médica e também teve problemas gravíssimos. Hepatite medicamentosa, quase precisou ir pra fila do transplante.
Vítor Boiadjã
Como que é o mercado nas redes sociais desse mundo? Como é que é a publicidade disso?
Natuzaneri
É muito fácil encontrar, em um clique você já acha. Os médicos, eles nem tentam esconder. É muito fácil, você colocar. A reposição hormonal vem de uma forma de propaganda com um discurso muito fácil de você acreditar. E aí, dentro disso, tem os congressos da hormonologia e, dentro desses congressos, as principais patrocinadoras são farmácias de manipulação, que é quem mais se beneficia disso. Então, na rede social é muito fácil. Você faz uma busca simples por reposição hormonal, uma busca, você já vai ser inundado. Eles não fazem isso escondido. Exatamente por essa brecha de dizer que não faço isso por estética, estou fazendo por saúde.
Vítor Boiadjã
Thalita Vespa, muito obrigado pela sua participação aqui no assunto. Mais uma vez, parabéns a você e a Poliana Casimiro pelo grande trabalho e o serviço que vocês estão prestando ao divulgar essa preocupante realidade aqui.
Natuzaneri
Obrigada a você, Victor.
Vítor Boiadjã
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com o Dr. Clayton Macedo. Dr. Clayton Macedo, eu queria começar pedindo uma explicação didática. Qual a diferença entre reposição hormonal e anabolizante?
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
A reposição hormonal é feita quando o indivíduo tem deficiência de um hormônio. O exemplo clássico é a deficiência de testosterona. Então, quando um homem, por algum motivo, tem falta do hormônio masculino, que é a testosterona, nós, como especialistas em hormônios, repomos essa testosterona. Isso é a reposição hormonal. O anabolismo hormonal, ou o uso de anabolizante sem indicação clínica, nós usamos a testosterona ou algum derivado sintético da testosterona, normalmente em doses que são acima das doses de reposição para causar o aumento da síntese de proteínas no organismo, no caso das proteínas do músculo, o anabolismo muscular, a hipertrofia muscular. Esse é um uso que não é científico, ele não é ético e ele não é permitido nem pela Anvisa e nem pelo Conselho Federal de Medicina.
Natuzaneri
Estavam proibidas de implantar os chips para fins estéticos, mas agora o apelo é outro. É tratamento para doenças. O problema é que não existe, pelo menos por enquanto, nenhuma pesquisa, nenhuma evidência que indique que eles são mesmo eficazes. Se esses implantes fossem tratados como medicamento, eles precisariam passar por uma série de testes antes de chegar na farmácia e serem oferecidos como tratamento.
Vítor Boiadjã
Então, afinal, o que são esses chips de beleza? O que contém nesses produtos e em qual categoria eles se enquadram melhor?
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
Os chips da beleza, na realidade, são implantes hormonais feitos de forma manipulada em farmácias de manipulação. É sempre importante a gente abrir um parênteses e fazer uma ressalva que existe um implante hormonal que é um anticoncepcional cujo composto é o etonogestrel. Ele é um derivado da progesterona e esse é aprovado pela Anvisa. Ele tem estudos, ele tem um fabricante, ele tem bula. e ele é utilizado para planejamento familiar, para anticoncepção, e ele é inclusive disponibilizado pelo SUS. Então tudo que a gente vai falar de implantes hormonais é sobre implantes hormonais manipulados. Eles são dispositivos, normalmente eles contêm hormônios, muitos desses hormônios, a própria testosterona, ou um segundo hormônio que é a gestrinona, que também é um anabolizante, e junto com esses hormônios podem se colocar outras substâncias. Também esses chips carecem de dados de segurança e de eficácia. Além da gestrinona, da testosterona, se coloca o próprio estradiol e no caso da mulher, que é o hormônio feminino, por exemplo, na menopausa e tem-se visto prescrições e usos de outras substâncias, muitas delas esdrúxulas, de diferente entendimento para nós fazermos a medicina baseada na ciência. Por exemplo, se colocam medicações para disfunção erétil, como é o caso da tadalafila, ou se coloca metformina, que é uma medicação para diabetes e quebra uma resistência hormonal. Essa metformina, ela é também distribuída gratuitamente pelo SUS, mas ela foi glamourizada e foi colocada nesses implantes, sendo vendidos por alto custo.
Vítor Boiadjã
Doutor, o senhor tem recebido pacientes que usaram esses produtos com queixas? Enfim, como é que estão chegando os relatos aí no seu consultório?
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
Bastante. Todos nós, especialistas, atendemos no dia a dia complicações do mau uso de hormônios. Eu gosto de dizer que os hormônios hoje são a bola da vez. Eles são vendidos nas redes sociais, em clínicas de luxo, infelizmente por influenciadores ou até artistas ou esportistas como sendo a solução para tudo. Se a pessoa está cansada, é falta de hormônios. Se a pessoa tem libido diminuída, é sempre falta de hormônios. Até pode ser uma das causas, mas existem várias outras. Se tem alteração da potência sexual, falta hormônios. Se quer ganhar mais massa muscular, usa hormônios. Se está obeso, usa hormônios para secar. Então, nesse contexto, o mau uso desses hormônios tem trazido efeitos adversos rotineiros na nossa prática de Olhando assim, é até
Vítor Boiadjã
difícil acreditar que a cantora Fly, de
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
28 anos, não estivesse feliz com o corpo.
Ana Karina Porto
A gente se compara bastante com outras pessoas e a gente acaba tentando recorrer o tempo todo a métodos, a procedimentos para a gente estar sempre bem esteticamente. Já muda um pouquinho o metabolismo, né? Eu já sofri mais. E aí foi nesse momento que eu busquei esses métodos de shape, da beleza. Vinha essa promessa de emagrecimento, de ganho de massa, de melhora da pele, de melhora de celulite.
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
Já no primeiro mês, levou um grande susto.
Ana Karina Porto
Começou a cair bastante meu cabelo. A minha pele foi a minha maior tristeza. Meu rosto começou a encher completamente de esquinha. E o meu corpo inchando muito. Então, foi com o chip que eu ganhei 10 quilos.
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
E esses efeitos adversos são sistêmicos. O hormônio tem como princípio regular funções do organismo inteiro. Desde o cérebro, alteração comportamental, ansiedade, irritabilidade. O coração é um órgão que sofre muito com o uso de anabolizantes causa um estado de mais facilidade para coagulação, isso gera embolia, trombose, deixa o sangue mais grosso, mais cheio de hemácias, isso também aumenta o risco de embolia e de trombose, causa arritmia, aumenta o tamanho do coração, que também é um músculo e também sofre, e tudo isso faz com que usuários desses hormônios eles têm mais risco de ter infarte, AVC, de terem morte prematura, numa idade onde não seria esperado esse tipo de complicação. O fígado também sofre, nós podemos ter hepatite medicamentosa e nós podemos ter tumores benignos, ou malignos do fígado. Na mulher, engrossamento da voz, aumento do clitóris, ambos, a voz e o clitóris são alterações irreversíveis e podem ser causadas pelo uso de esteroides anabolizantes. Então os efeitos são múltiplos, eles são imprevisíveis, muitas vezes podem ser graves e até fatais. Então é importante deixar bem claro que o acompanhamento médico ele não garante segurança quando o hormônio é mal utilizado, quando ele é utilizado sem indicação.
Vítor Boiadjã
Doutor, eu quero entender como é que a gente chegou nessa situação e aí apontar para todas as frentes. Primeiro no público que demanda isso, um público crescente que consome nas redes sociais, também nessa oferta de produtos que antes não existia, permitindo que farmácias de manipulação acessem produtos que antes estavam restritos à indústria farmacêutica, por exemplo, E, finalmente, a responsabilidade dos médicos de não trazer a consciência para os seus pacientes.
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
É uma pergunta complexa, mas muito importante. Hormônio hoje é a bola da vez. Existe um culto ao corpo perfeito. Aqui no Brasil nós encaramos essa indicação errada de hormônios para fins estéticos e de performance como um problema de saúde pública. Tão grande é a quantidade de efeitos adversos e casos complicados e também o número que é subestimado. A gente tem poucos dados de usuários. Esses implantes hormonais são comercializados pelo próprio médico em clínicas de luxo, algumas farmácias de manipulação, acho que é importante deixar bem claro que as farmácias de manipulação exercem um papel social muito importante, nós temos inúmeros produtos que precisam ser manipulados e são importantes. mas não é o caso dos hormônios. Algumas farmácias de manipulação se transformaram em verdadeiras indústrias, produzindo em escala industrial. O mais grave, recrutaram médicos para prescrição e dentro dessa via de mão dupla, os médicos acabaram aprendendo técnicas que não são só da utilização do hormônio, mas são técnicas de monetização, de consultório, são técnicas de brindagem jurídica, e a partir daí esse mercado, como ele é altamente lucrativo, ele se petrofiou bastante. Na reportagem do G1, notas fiscais do preço e custo de um implante hormonal menos de R$ 200. E esses implantes são colocados por R$ 5.000, R$ 8.000, R$ 10.000, até mais, dependendo do número desses implantes. Então isso cria um mercado altamente lucrativo, que infelizmente seduz muitos médicos. A população também quer o caminho mais fácil, hoje a gente tá vendo um fenômeno aí também com com as medicações anti-obesidade e um ecossistema muito parecido com essas medicações manipuladas também. Nós temos um outro fator também que é o aumento gigantesco de número de vagas e de novas faculdades de medicina, sendo que o sistema de pós-graduação e principalmente de residência médica ele infelizmente não dá conta dessa demanda de tantos profissionais recém-formados. E esse mercado acaba se tornando sedutor. O jovem recém-formado, ao invés de ir prestar atendimento à saúde da população, a trabalhar com uma medicina mais preventiva a nível da saúde pública, ele acaba sendo seduzido por esse novo mercado de fitness, de hipertrofia, de anti-envelhecimento e agora esse fenômeno também de medicações anti-obesidade.
Vítor Boiadjã
O senhor percebe também essa exploração de insegurança, da autoestima nesse algoritmo da beleza com outros produtos como suplementos e vitaminas também?
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
Também, esse mercado ele alimenta um ecossistema gigantesco, né? A gente vê nesse mesmo modelo soros desnecessários, vitaminas desnecessárias, agora vem vindo Uma avalanche aí nova, né? Então tem o que se chama de peptídeos, que são cadeias de aminoácidos que têm inúmeras funções. As próprias medicações anti-obesidade ou insulina, por exemplo, são peptídeos, né? Mas existem peptídeos aí que são contrabandeados de forma irregular, injetáveis, produtos que são para uso em animais, em pesquisas animais, com dados científicos apenas de estudo in vitro. Estão sendo extrapolados, fazendo a população de cobaia, estão sendo administrados aí prometendo rejuvenescimento agudo, melhora de vários aspectos da saúde. Então esse cenário vai se autoalimentando, as pessoas procuram uma fonte mágica para melhorar a shape, para melhorar a pele, para melhorar a composição corporal, para retardar o envelhecimento, para melhorar a libido, para melhorar a potência e esse mercado fornece o que a pessoa idealiza ou o que ela viu através de um influenciador ou o modelo de corpo que ela enxergou em uma artista, em algum atleta e a partir daí essa busca ela vai sendo intermitente e contínua.
Vítor Boiadjã
Dr. Clayton Macedo, muito obrigado tê-lo aqui conosco no assunto.
Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo
Eu que agradeço. Muito obrigado eu.
Vítor Boiadjã
Nesse episódio, você ouviu trechos da entrevista de Ana Carina Porto para as repórteres Poliana Casimiro e Thalita Vespa. Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Colaborou neste episódio Paula Paiva Paulo. Eu sou Vítor Boiadjã e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Date: May 7, 2026
Host: Natuzaneri & Vítor Boiadjã (G1)
Guests: Thalita Vespa (jornalista G1), Dr. Clayton Luiz Dornelis Macedo (endocrinologista)
Neste episódio, a equipe do G1 investiga o crescimento explosivo do mercado dos chamados "chips da beleza" — implantes hormonais, vendidos muitas vezes sob promessas de emagrecimento, melhora do bem-estar, do desempenho esportivo e auto-estima. São discutidos os riscos à saúde, o contexto de regulamentação frouxa, o conflito de interesses médicos e os impactos da cultura do corpo perfeito.
| Tópico | Participante | Trecho/Insight | Timestamp | |--------------------------------------------|-------------------------------|------------------------------------------------------------------------------------------------|---------------| | Oferta dos chips e promessas | Ana Karina Porto / Natuzaneri | "Ia emagrecer bastante, ia virar uma pessoa extremamente disposta..." | 00:02–00:18 | | Expansão do mercado e ciclo médico | Vítor Boiadjã | "Por trás dele, uma engrenagem. Médicos que prescrevem..." | 00:18–00:44 | | Efeitos adversos críticos | Natuzaneri | "Queda absurda de cabelo... ganhei peso... fiquei mais depressiva..." | 01:53–02:11 | | Brecha regulatória e lobby | Natuzaneri | "houve um lobby, pressão desse mercado para que a Anvisa flexibilizasse..." | 07:25 | | Caso grave: Ana Karina Porto | Ana Karina Porto/Natuzaneri | Infarto renal, hemorragia intensa, edema pulmonar, internação em UTI | 08:22–09:14 | | Cultura do boca-a-boca | Natuzaneri | "É no boca a boca que esse mercado acaba se construindo..." | 13:17 | | Público-alvo e manipulação | Natuzaneri | “...as mulheres são o alvo mais fácil... funciona para menopausa, para lipedema...” | 12:36 | | Lucratividade do setor | Natuzaneri | “...produto que é muito barato para os médicos, produz na farmácia por R$200, vende a R$ 4.500”| 10:24 |
| Segmento | Descrição/Participantes | Timestamp | |----------------------------------------|------------------------------------------|--------------| | Introdução do tema | Natuzaneri, Ana Karina Porto | 00:02–00:18 | | Mercado e conflitos de interesse | Vítor Boiadjã | 00:18–01:25 | | Efeitos colaterais pessoais | Natuzaneri (relato) | 01:53 | | Regulação da Anvisa, lobby | Natuzaneri | 07:25 | | Caso Ana Karina Porto detalhado | Ana Karina, Natuzaneri | 06:34–09:14 | | Cultura do uso e manipulação | Natuzaneri | 13:17 | | Papel das redes sociais | Natuzaneri | 14:23–15:05 | | Esclarecimento técnico | Dr. Clayton Macedo | 15:37–16:48 | | Descrição dos chips e composição | Dr. Clayton Macedo | 17:16 | | Riscos sistêmicos e efeitos adversos | Dr. Clayton Macedo & Ana Karina Porto | 21:05–23:12 | | Mercado, ética médica e sociedade | Dr. Clayton Macedo | 23:39 | | Extrapolação para suplementos/peptídeos| Dr. Clayton Macedo | 27:00 |
O episódio escancara o perigo da febre dos implantes hormonais para fins estéticos. Expõe os mecanismos de sedução e manipulação, a exploração da insegurança feminina, os graves riscos à saúde, brechas regulatórias e o alto grau de conflito de interesses envolvido. O caso de Ana Karina Porto é o retrato dos danos silenciosos da medicalização sem respaldo científico e o retrato de um Brasil refém do culto ao corpo perfeito.
Resumo Geral:
Neste mergulho jornalístico, “O Assunto” utiliza relatos pessoais, análises de especialistas e investigação para mostrar as nuances — e muitos perigos — de um mercado que cresce à sombra da ciência e da ética, impulsionado tanto pelo desejo de transformação física rápida quanto pela promessa (infundada) de juventude e bem-estar.