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Ana Tuzaneri
Imagine um novelo todo emaranhado de fio. Toda vez que um desses fios é puxado, o nó aperta ainda mais. Nessa história, o enrosco mais recente é a prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Reporter 1
Prisão feita em São Paulo, numa operação.
Ana Tuzaneri
Que investiga suspeitas de crimes envolvendo a venda do banco.
Reporter 1
Segundo a PF, Daniel Vorcaro tentava fugir pelo aeroporto de Guarulhos.
Reporter 2
Ele chegou de helicóptero, estava no terminal de aviação executiva e, de acordo com os agentes, pretendia pegar um jatinho com destino a Malta, na Europa. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que a operação apura 12 bilhões de reais em fraudes.
Ana Tuzaneri
A prisão aconteceu na noite da segunda-feira, horas depois de ter sido anunciada uma proposta para comprar o banco.
Reporter 2
Um consórcio liderado pelo Fictor Holding Financeira e também com investidores dos Emirados Árabes Unidos anunciaram a negociação para a compra do Banco Master.
Ana Tuzaneri
Foi a segunda tentativa de venda emperrada. Na primeira, o comprador interessado era o BRB, o Banco de Brasília. Naquele momento, o Master era questionado por práticas agressivas, a oferta de aplicações com rendimentos muito acima da média. e havia dúvidas se o banco conseguiria arcar com seus compromissos. A oferta do BRB, um banco estatal, era como uma boia de salvação para reforçar o caixa do Master.
Reporter 1
O negócio havia sido anunciado em março. A transação dependia da autorização do Banco Central, que atua como regulador e supervisor do sistema financeiro. O BC vetou o negócio.
Ana Tuzaneri
Essa operação de compra e venda foi analisada pelo Banco Central, que viu alguma coisa estranha ali. Mais tarde, a Polícia Federal entraria em cena. E foi aí que os investigadores descobriram uma série de fraudes num banco que teve um crescimento meteórico nos últimos anos.
Estevam Tayar
Isso aqui é a crônica de uma tragédia totalmente anunciada do ponto de vista de uma crise anunciada. Todo mundo sabia que ia chegar nesse ponto, a gente até comentava, o próprio mercado financeiro, os políticos, ninguém tá surpreso com a prisão do Daniel Vorcaro. O que a gente não sabe é a extensão desses crimes que estão sendo investigados.
Ana Tuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a fraude bilionária no Banco Master. Meus convidados são Estevam Tayar, coordenador de economia do Valor Econômico em Brasília, e Fernando Torres, editor executivo do mesmo jornal. Quarta-feira, 19 de novembro. Estevam, para a gente entender esse enrosco do Banco Master, eu queria te pedir para nos explicar quem é este empresário Daniel Vorcaro.
Estevam Tayar
O Daniel Forcaro é empresário de Minas Gerais, ele é um empresário jovem, ele tem 42 anos e ele mesmo se auto-intitula ali como um outsider da Faria Lima. Ele é originário de uma família ali do setor de construção civil e ele deu um grande salto ali quando ele comprou o Banco Máxima. O Banco Máxima era um banco que estava em funcionamento até meados da década passada e faliu por causa de rombo de caixa, e o próprio Vorcaro decidiu assumir esse banco com outros investidores, ele já era um empresário, mas não tinha o destaque que ele tem, e ele se juntou a outros investidores, comprou o banco em 2017, demorou ali, teve um trâmite todo de autorização do Banco Central, que só foi sair em 2019, ainda com o nome máxima, e aí em 2021 ele assumiu esse nome de Banco Master.
Police Federal Representative
A Operação Compliance Zero foi autorizada pela Justiça Federal aqui em Brasília para apurar os crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta e gestão temerária. A Polícia Federal prendeu também Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, um dos sócios do Banco Master, e três diretores da instituição, Alberto Félix de Oliveira Neto, Augusto Ferreira Lima e Luiz Antônio Bull, além de dois executivos de uma Fintech. A PF cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Brasília. Os agentes apreenderam joias, um relógio e vinhos importados de alto valor.
Fernando Torres
Os advogados de Daniel Vorcaro divulgaram uma nota e nela afirmam que desde o anúncio da venda do Banco Master estão à disposição para cooperar com as autoridades, fornecer informações e participar de audiências.
Estevam Tayar
Ele é um empresário também, ele transita ali no meio do futebol, ele é sócio do Atlético Mineiro e ele tem muitas conexões políticas e aí com todo o espectro político. Ele tem interlocução ali com o senador Ciro Nogueira, que é presidente do PP.
Ana Tuzaneri
Parece que eles são bem próximos, né?
Estevam Tayar
Eles são bem próximos. O presidente da União é António Rueda, mas também ali, gente do governo, ele é próximo do ministro Rui Costa, da Casa Civil, que é um homem de confiança do presidente Lula. O governador aqui do Distrito Federal, Ibanez Rocha. O governo do Rio de Janeiro, por exemplo, por meio de fundo de previdência, já investiu alguns bilhões em fundos de investimento do banco, então ele é muito próximo desse mundo.
Ana Tuzaneri
Isso chama muito a atenção, porque ele se vinculou a políticos de direita e de esquerda, não parecia ter muita ideologia, me corrija se eu estiver errada, e o caso dele é um caso muito impressionante de subida meteórica, que normalmente no Brasil não acontece sem conhecer as pessoas certas. Faz sentido o que eu estou dizendo?
Estevam Tayar
Sim, ele precisou circular muito para Brasília, por Brasília, para conseguir autorizações para negócios. Isso está muito bem documentado numa matéria da revista Piauí, que saiu no ano passado, e ele sempre foi um jeito que ele encontrou de figuras extremamente poderosas aqui em Brasília, ele se aproximou delas como forma de expandir seus negócios.
Police Federal Representative
A PF investiga a atuação do Banco de Brasília com relação à aquisição de carteiras de crédito que significavam 30% de todos os seus ativos, circunstância que configura indício relevante de que a instituição pública buscou amparar o Banco Master em sua crise de liquidez. A polícia apura ainda as razões pelas quais o BRB desconsiderou irregularidades graves nas operações. A decisão aponta que as transferências vinham sendo realizadas desde 2024, mesmo diante das ressalvas formuladas pelo Banco Central, bem como dos reiterados pedidos de informações e de monitoramento dirigidos à instituição. E que, nesta hipótese, há indícios veementes da prática do crime de gestão fraudulenta dos gestores do BRB em colúio com os diretores do Banco Master. A decisão destacou que a substituição entre os créditos BRB Master ocorreu por pura.
Ana Tuzaneri
Camaradagem, Bom, eu quero agora passar para um outro elemento da nossa conversa, que é a própria ascensão do Banco Master. Um banco que começa pequenininho, mas que logo começa a chamar atenção do setor financeiro e do Banco Central, que fiscaliza o sistema financeiro. Para dar uma unidade de medida para essa nossa Discussão aqui. Em cinco anos, o patrimônio líquido do Master passou de 219 milhões de reais para quase 5 bilhões de reais. Que tipo de estratégia permitiu isso?
Estevam Tayar
Olha, essa foi uma estratégia muito agressiva e, enfim, teve uma série de ramificações que a gente está vendo agora. O que ele fazia, basicamente, existem os certificados de depósitos bancários, que são aqueles títulos que são títulos que o correntista empresta dinheiro para o banco e o banco paga de volta para o correntista depois.
Ana Tuzaneri
Só para ver se eu entendi. Você me empresta um dinheiro aí e eu vou te pagar uma taxa de juro para que você consiga fazer um bom negócio maior do que o restante do mercado está praticando, é isso?
Estevam Tayar
Exatamente, é isso. E eles são títulos super disseminados no mercado porque eles são seguros, são práticos, eles têm diferentes opções de rentabilidade, são títulos líquidos, você consegue se desfazer. Só que a estratégia do Banco Master foi de sempre pagar uma taxa nesse CDB muito acima da média do mercado. Eles pagavam ali, varia, mas uma média de 140% do CDI, que é outro título que é super seguro, e os outros bancos pagam algo muito mais próximo de 100% do CDI, então tinha uma diferença muito grande ali. Isso atraiu muito os investidores para o Banco Master, mas com o tempo isso começou a chamar a atenção do mercado, de outros agentes do mercado. Essa estratégia de pagar um retorno muito elevado tem um risco. Começaram a surgir dúvidas sobre se o Master ia conseguir honrar aquilo. E essa estratégia foi muito baseada num fundo que chama Fundo Garantidor de Créditos. É um fundo que as próprias instituições financeiras criam, ele é privado, ele tem atualmente 160 bilhões de reais e ele serve justamente para cobrir calotes, enfim, bancos que quebram, dívidas com os correntistas. Só que esse fundo, ele estabelece um limite de 250 mil reais, por CPF ou CNPJ do investidor, ou seja, tem um limite ali. E o que os mercados viram, o que o mercado viu, os atores do mercado, é que o Banco Master estava crescendo muito ali, o número de CDBs que seriam cobertos pelo FGC, por esse fundo, na comparação com o tamanho que o Master tem no mercado. Hoje, o Banco Central divulgou números.
Fernando Torres
O.
Estevam Tayar
Máster, o conglomerado todo, ele tem só 0,57% dos ativos totais do sistema financeiro e 0,55% das captações totais. Mas para ter uma ideia, o próprio FGC divulgou hoje que os ativos elegíveis a serem reembolsados pelo FGC em caso de quebra, ligados ao Master, eles estão na casa de 42 bilhões de reais. É mais de um quarto do dinheiro que tem ali no FGC. Isso traz um problema para as outras instituições, porque, no limite, o máster estava jogando risco para as outras instituições.
Financial Expert
A estimativa é de que 1 milhão e 600 mil credores terão direito de receber cerca de 41 bilhões de reais. É o maior resgate da história do Fundo Garantidor de Créditos. O Fundo Garantidor é formado por recursos de 250 bancos e financeiras associados e não tem dinheiro público. Hoje, esse colchão de garantia tem 122 bilhões de reais. O pagamento não é automático. Os credores precisam se manifestar. Para isso, o primeiro passo é baixar o aplicativo do Fundo Garantidor, fazer o cadastro com nome completo, CPF e data de nascimento, criar uma senha de acesso e informar um e-mail para validar tudo. Depois é preciso informar sua conta bancária para receber o dinheiro. O presidente do Fundo Garantidor de Créditos diz que o pagamento não é imediato.
Fernando Torres
O FGC vai receber a lista de beneficiários da garantia do liquidante. Isso costuma acontecer cerca de 30 dias, mais ou menos, depois da liquidação, ou seja, daqui a 30 dias.
Ana Tuzaneri
E que tipo de investimentos o Banco Master fazia?
Estevam Tayar
Tem contratos públicos, ele também investiu em empresas e setores que sempre foram considerados pouco transparentes. O Banco Master investia em setores pouco transparentes. Só para dar um exemplo, nas últimas semanas, as empresas que entraram no radar, nas manchetes, a Ambipar e a Aoi, que são empresas que em diferentes níveis estão enfrentando problemas de recuperação judicial, de falência, ele já investiu nelas.
Ana Tuzaneri
Bom, no fim de março agora, o Banco de Brasília, que é o BRB, um banco público, surpreendeu todo mundo ao anunciar que ele queria comprar a maior parte do Banco Master. Isso quando o Banco Master já era tema de conversas, de rodinhas em Brasília, de gente dizendo isso vai dar ruim, isso vai dar problema. Relembre pra gente então, Estevam, essa operação. O que aconteceu? Qual era a oferta? Quem era o responsável por isso dentro do BRB?
Estevam Tayar
A oferta inicial do BRB foi essa em março, que você mencionou. Ela era de R$ 2 bilhões por 58% do banco. O BRB falava muito que tinha foco, que era uma maneira de se expandir nacionalmente. O próprio governador Ibanez Rocha falava que a operação se justificava, os técnicos do banco também, o presidente Paulo Henrique, ele se justificava. Tinha até cálculos que eles falavam que o governo do Distrito Federal falava que ia trazer de dividendos para o Estado com essa operação e era muito calcada nessa estratégia de expansão nacional do BRB. A proposta foi feita em março, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica aprovou inicialmente a operação, porque ele não viu problemas concorrenciais, mas o Banco Central ficou muito mais tempo ali analisando, foi um processo longo de cinco meses, que passou por várias diretorias, várias áreas, teve a Diretoria de Fiscalização, de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, são técnicos que acompanham esse assunto de perto e faz tempo.
Ana Tuzaneri
E.
Estevam Tayar
No fim eles acabaram por inviabilizar essa operação. Ao longo desses cinco meses, a proposta do BRB mudou várias vezes, ela foi ficando menor, eles foram excluindo alguns ativos problemáticos, dessa operação justamente para tornar mais palatável ao Banco Central, para ver se o Banco Central aprovava, mas não foi suficiente. O Banco Central, no fim, ele julgou que a operação não se sustentava em termos econômicos, financeiros, e vetou, foi em setembro isso.
Ana Tuzaneri
Bom, acabou que essa operação do BRB chamou muita atenção e jogou muito holofote sobre o Master. E aí o Ministério Público entrou na dança e disse, tem cheiro de coisa estranha aqui, vou pedir mais informações. O Banco Central também disse, me dá mais informações sobre essa operação e Eu quero ver qual é que é. Eis que o próprio Banco Central notou que a papelada que dava sustentação para as operações que o Banco Master dizia que tinha era uma papelada que foi meio que aprontada às pressas. Assim, diria a Polícia Federal depois. A PF, então, entra nessa história e começa a fazer uma operação conjunta que deságua nessa de hoje que é a Compliance Zero. O que os investigadores descobriram?
Estevam Tayar
Hoje dá para dizer que essa crise passou de patamar, porque subiu de patamar, porque se antes era uma crise de um banco jogando no limite do risco, agora o que Polícia Federal, Banco Central, Ministério Público, o que as investigações indicam é que o Master estava fabricando, estava criando créditos falsos na casa de 12 bilhões de reais, para o BRB para justificar a operação.
Police Federal Representative
A PF identificou que o Banco Master emitiu aproximadamente R$ 50 bilhões em títulos de CDBs, prometendo juros acima das taxas de mercado. Segundo a investigação, R$ 12 bilhões estariam descobertos porque ativos da empresa, como imóveis e capital próprio, têm baixa liquidez, ou seja, o banco teria dificuldades para vendê-los. Para passar ao mercado a impressão de que não tinha problema de liquidez, o Master simulou ter aplicado parte dos 50 bilhões de reais em ativos que não existem, de acordo com a APF, comprando créditos fictícios de uma empresa chamada Tirreno. O Master não pagou nada por essa compra, mas logo em seguida vendeu esses mesmos créditos ao BRB, que pagou 12 bilhões e 200 milhões de reais pelo negócio, sem documentação, para socorrer o caixa do Banco Master.
Ana Tuzaneri
Bom, na segunda-feira eu estava no ar quando chegou, na Globo News, quando chegou a informação de que uma holding chamada Victor tinha apresentado uma proposta para comprar o Banco Master. Como é que essa holding entra na história e quem é essa holding?
Estevam Tayar
A Victor é uma holding que ela fica em São Paulo, ela é uma holding pouco conhecida, ela não é um grande player, ela tem ali investimentos em indústria alimentícia, serviços financeiros, inclusive infraestrutura, tem negócios no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, mas ela é uma holding recente, de alguns anos pra cá ela não é um grande player, E ela surgiu, pegou meio todo mundo de surpresa ali com esse anúncio, ele foi feito ontem, seria um aporte de 3 bilhões de reais no Banco Master que eles estariam oferecendo. Pelo que foi divulgado ontem, o Forcaro sairia de vez do Banco Master e ele iria se desfazer do negócio e passar para frente.
Ana Tuzaneri
Estêvão, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no assunto, bom trabalho para você.
Estevam Tayar
Eu que agradeço, Natuza.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com o Fernando Torres. Fernando, e o Banco Master? Por que ele passou tanto tempo fazendo essas operações que agora são muito questionadas, sem que houvesse uma ação mais contundente do Banco Central? O que aconteceu? Dá para dizer que o Banco Central cochilou nessa história?
Fernando Torres
Eu tendo a achar que o Banco Central demorou um pouco para agir, mas só para explicar aqui para o ouvinte, o Master cresceu basicamente ofertando CDBs com remuneração mais alta do que a média do mercado, com isso ele conseguiu captar muito dinheiro, e esse dinheiro era captado com garantia do FGC, E esse banco conseguia captar muito dinheiro, mas era um dinheiro que custava caro, e ele precisava, então, operar esse dinheiro do lado do ativo, fazendo operações mais arriscadas do que um banco tradicional costuma fazer. E ele foi pedalando isso por um tempo, por um tempo você consegue fazer isso, E acho que acendeu o alerta do Banco Central em algum momento, em que o Banco Central colocou alguns limites, tanto do lado da captação, quanto do lado do ativo. Do lado da captação, o Banco Central teve algum momento em que ele disse que, olha, um banco não pode ter mais do que x% do total de tudo que ele capta com garantia do FGC. Ele botou uma trava ali. Mas em vez de botar uma trava que já pegasse o master imediatamente, ele botou uma regra de adaptação. Até por causa disso, o Banco Master em algum momento foi procurar outras fontes de captação, a gente teve até aquelas notícias de que ele tentou fazer uma captação com letras financeiras com a Caixa Econômica, que acabou sendo vetada ali pela área técnica da Caixa Econômica, Essas medidas do Banco Central já tinham ali um master como endereço, só que acabou demorando, o banco já estava talvez grande um pouco demais. Do lado do ativo, o Banco Central também trouxe regras, por exemplo, é típico ali que o master investia em pré-precatórios, e o Banco Central também botou uma limitação disso, mudou a regra e passou a exigir, olha, novas compras de precatórios vão... demandar um capital próprio, que é um pouco técnica essa parte, mas é como se o banco precisasse de um patrimônio líquido muito maior se ele quisesse ter novos precatórios, mas não atingir os precatórios antigos do Master.
Reporter 1
Enquanto a operação da Polícia Federal estava em curso, o BC anunciou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras empresas do grupo, como a corretora de câmbio, títulos e valores mobiliários. A ação também prevê a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição. Na prática, com a liquidação extrajudicial, o banco vai sair do mercado, deixará de existir. O Banco Central agiu para cumprir o papel de preservar o sistema financeiro nacional. A liquidação, segundo o Banco Central, foi motivada pela grave crise de liquidez do Master, pela falta de dinheiro em caixa para honrar compromissos como saques para correntistas e investidores do banco e por graves violações às normas do sistema financeiro.
Fernando Torres
Então o Banco Central, de certa forma, viu um pouco do que estava acontecendo e tentou conter essas brechas legais que o Master estava usando para crescer e ficar grande. Tem uma parte agora que eu acho que talvez tenha ficado obscura. Uma característica do Master é que ele usava muitos fundos de investimento para colocar as operações de crédito, em vez de serem diretas, elas ficavam dentro de fundos de investimento. E aí tem uma questão jurídica, que a CVM que olha fundos de investimento e o Banco Central, em tese, não olha fundos de investimento. Então, fica um espaço nebuloso. Então, quando está dentro de um fundo de investimento, que não é um fundo de investimento igual qualquer pessoa investe, é um fundo de investimento que o banco é o único cotista, Mas fica uma estrutura em cascata, um fundo tem participação num outro fundo que tem ali uma debênture estruturada e tem um crédito que está lá dentro. Essas estruturas, elas são difíceis de ver, elas são opacas mesmo. E acho que é isso que, na hora que está sendo descoberto agora, você vende, quando você vende uma carteira de crédito do Master para o BRB, você vende um pacote desse que está meio turvo. E aí, supostamente, você acha que tem operações de crédito lá dentro, o que o Banco Central foi ver é que a operação de crédito é um bando de papelada, você tem que ter o documento de alguém dizendo que pegou dinheiro emprestado e que está devendo para o banco. E aí, quando o Banco Central foi olhar, aparentemente, boa parte dessas operações que estavam dentro desse fundo, nessa estrutura encascada, elas não são verdadeiras, elas não existem. Então, eu acho que talvez venha alguma novidade por aí no Banco Central querer puxar a regulação de fundos de volta para ele, como já foi na década de 90, ou então, sim, uma vez que o fundo está dentro de um banco, o Banco Central tem que olhar isso também.
Ana Tuzaneri
Bom, e a partir de agora, neste dia que a gente grava, o Banco Central fez uma intervenção no Banco Master. Queria entender que intervenção foi essa.
Fernando Torres
São alguns CNPJs ali do Master, o Banco Master de Investimentos, o Banco Master SA, quando o Banco Central decreta essa liquidação extrajudicial dessas entidades e também ali da corretora. ele nomeia um liquidante, em que esse liquidante vai ficar responsável por, de um lado, passar para o Fundo Garantidor de Créditos, ali a lista de pessoas que têm dinheiro para receber e para o Fundo Garantidor de Créditos pagar, e do outro fazer um pente fino do lado do ativo para saber desses 60, 80 bilhões de reais que o Master diz que tem de ativos, o que existe de verdade e começar a vender, vender, fazer dinheiro com esses ativos, repassar para outros participantes de mercado, para pegar esse dinheiro e devolver pelo menos uma parte, o que for possível, para o fundo garantidor de créditos. E tem um pedacinho ali, que é o banco múltiplo, que tem a Will Financeira, nesse caso não houve liquidação extrajudicial, foi decretado ali o regime de administração temporária, em que se deve tentar vender a Will sem precisar passar por esse processo de liquidação, que costuma ser demorado, custoso. Então, se houver uma solução de mercado que alguém compre a Will sem precisar passar por esse processo, é melhor para todo mundo.
Ana Tuzaneri
E o que acontece com mais de um milhão de pessoas que têm dinheiro lá dentro?
Fernando Torres
O FGC divulgou 1,6 milhão de pessoas que tem para receber até o limite de 250 mil reais, o FGC deve pagar. Então, muita gente, a gente está falando que esse número é enorme de pessoas, comprou ali CDB do Banco Master via corretora, via plataforma de investimentos. Se você tinha até 250 mil reais, incluindo os rendimentos, desse período. Até a data de ontem, você deve receber esse dinheiro de volta. Nos últimos anos, o FGC fez um trabalho de digitalização e automatização desse tipo de processo. A expectativa, eles não fazem uma promessa, mas a expectativa é de que, em cerca de um mês, esses investidores vão conseguir receber o dinheiro de volta. Então, a pessoa precisa baixar o aplicativo do FGC e, por enquanto, aguardar a lista dos credores, dessas pessoas, vai ser enviada pelo liquidante dos bancos para o FGC e o FGC vai lá ordenar essa lista e vai depositar, então, na conta de todo mundo. Agora, quem tinha mais do que 250 mil, aí fica sem essa diferença. Se você tinha 300 mil, 250 mil, você vai receber os outros 50 mil. Não, se você tinha 1 milhão, só vai receber 250 mil. E grandes investidores, fundos de pensão, regimes próprios de estados, municípios, esses realmente vão ficar sem o dinheiro.
Financial Expert
Investidores de instituições como fundos de pensão e seguradoras também não têm cobertura do FGC e também entram na fila do processo de liquidação. É o caso dos fundos de pensão de servidores de pelo menos cinco municípios paulistas e do Rio Previdência, dos inativos do Rio de Janeiro. Em nota, o Rio Previdência disse que o investimento no Banco Master foi de aproximadamente 960 milhões de reais e que o pagamento de aposentadorias e pensões está garantido.
Fernando Torres
E aí vão ter que depender do processo de liquidação para ver se sobra algum dinheiro para receber.
Ana Tuzaneri
Fernando, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no assunto. Bom trabalho para você.
Fernando Torres
Eu que agradeço, Natuza.
Ana Tuzaneri
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Thiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 19/11/2025
Host: Ana Tuzaneri (G1)
Convidados: Estevam Tayar (coordenador de economia do Valor Econômico, Brasília), Fernando Torres (editor executivo do Valor Econômico)
Tema: Um mergulho na ascensão meteórica e na queda escandalosa do Banco Master — fraude na casa dos 12 bilhões de reais, desdobramentos para o sistema financeiro brasileiro e impactos para investidores e fundos públicos.
O episódio detalha os acontecimentos e investigações sobre a fraude bilionária que resultou na prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e na liquidação extrajudicial da instituição. Com jornalistas especializados e análise de contexto político e financeiro, o programa explica a trajetória do banco, os mecanismos fraudulentos usados e os impactos para investidores, fundos públicos e para o sistema financeiro do Brasil.
Quote:
“A prisão aconteceu na noite da segunda-feira, horas depois de ter sido anunciada uma proposta para comprar o banco.”
— Ana Tuzaneri (00:43)
Quote:
“Ele se vinculou a políticos de direita e de esquerda, não parecia ter muita ideologia... um caso muito impressionante de subida meteórica, que normalmente no Brasil não acontece sem conhecer as pessoas certas.”
— Ana Tuzaneri (05:24)
Quote:
“Eles pagavam uma média de 140% do CDI... Isso atraiu muitos investidores, mas começou a chamar atenção por causa do risco.”
— Estevam Tayar (08:33)
Quote:
“O Master estava fabricando, criando créditos falsos na casa de 12 bilhões de reais, para o BRB, para justificar a operação.”
— Estevam Tayar (16:12)
“Para passar ao mercado a impressão de que não tinha problema de liquidez, o Master simulou ter aplicado parte dos 50 bilhões de reais em ativos que não existem, comprando créditos fictícios... e logo em seguida vendeu esses ao BRB.”
— Representante da PF (16:45)
Quote:
“Eu tendo a achar que o Banco Central demorou um pouco para agir... O banco já estava talvez grande demais.”
— Fernando Torres (19:17)
Quote:
“Se você tinha até 250 mil reais, incluindo os rendimentos, desse período, até a data de ontem, você deve receber esse dinheiro de volta...”
— Fernando Torres (26:01)
Quote:
“Essas estruturas, elas são difíceis de ver, elas são opacas mesmo. Talvez venha alguma novidade por aí no Banco Central querer puxar a regulação de fundos de volta para ele.”
— Fernando Torres (22:14)
O episódio oferece um olhar amplo e acessível sobre o escândalo do Banco Master, explorando não só a fraude, mas também os buracos do sistema financeiro e as lições para investidores e as autoridades regulatórias. Revela o quanto relações políticas, estratégias de crescimento acelerado e brechas institucionais contribuíram para a maior fraude bancária dos últimos anos no Brasil, afetando desde pequenos poupadores até fundos públicos bilionários.