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Ana Tuzaner
O nome Groenlândia nasceu de uma estratégia de marketing. No século X, um viking norueguês conhecido como Eric o Vermelho batizou a maior ilha do mundo de Greenland, a Terra Verde. A ideia era trair colonos para aquele terreno geladamente hostil. Verde nunca foi bem a cor da ilha. Cerca de 80% da Groenlândia é coberta de neve.
Narrator/Reporter
A Groenlândia tem uma localização estratégica entre o Ártico e o Atlântico Norte.
Ana Tuzaner
Hoje, esse imenso e lindo tapete branco não precisa de propaganda. Ele atrai os olhos, esforços e a ambição da maior potência do planeta, os Estados Unidos. Durante seu primeiro mandato, Donald Trump já tinha dado o recado. Disse que queria comprar a Groenlandia. A Dinamarca respondeu que o território não estava à venda. Aquela declaração de Trump lá de trás foi tratada como bravata, até como piada. Mas aí veio o segundo mandato. E o tom endureceu. Agora, depois do ataque à Venezuela, a Groenlândia não sai mais da boca do presidente americano. Trump alega que a Dinamarca falhou em conter a ameaça russa na região e defende que a ilha é peça-chave de um escudo antimísseis que ele quer construir para os Estados Unidos, o chamado Domo de Ouro. Só que há mais em jogo. Sob o gelo da Groenlândia estão reservas valiosas de minerais críticos, petróleo, gás e terras raras. E mais, com o aquecimento global e o derretimento das calotas polares, novas possibilidades de exploração e de navegação vêm surgindo.
Narrator/Reporter
O planeta aquece aqui numa velocidade três vezes maior do que no resto do mundo. Isso vai mudar totalmente o tabuleiro geopolítico do planeta, porque portos como esse se tornarão muito mais importantes e o mar do Ártico abrirá rotas de navegação que nunca existiram antes.
Ana Tuzaner
Os Estados Unidos afirmam que vão ter a terra por bem ou por mal.
Narrator/Reporter
Nós precisamos da Groenlândia por motivos de segurança nacional. Eu digo isso há muito tempo. Um jornalista perguntou, você descarta usar força militar? Não vou assumir nenhum compromisso agora, mas talvez tenhamos que fazer alguma coisa.
Ana Tuzaner
Caso avancem por esse perigosíssimo caminho, os americanos colocariam à prova a maior e mais poderosa aliança militar do mundo, que existe desde 1949, a OTAN. Mas Trump age como um garoto mimado e trata a Gruelândia como se fosse o seu prêmio de consolação.
Narrator/Reporter
Trump enviou uma mensagem de texto para o primeiro-ministro da Noruega. Nela, Trump disse o seguinte, abre aspas, Além.
Ana Tuzaner
Da Dinamarca, sete países europeus, entre eles França, Alemanha e Reino Unido, já se posicionaram contra o avanço imobiliário americano no Ártico. Trump respondeu com tarifas, taxas que podem chegar a 25% em junho.
Narrator/Reporter
O presidente da França, Emmanuel Macron, escreveu, O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, afirmou, Países da União Europeia devem fazer agora uma reunião de emergência, está marcada para quinta-feira em Bruxelas. Uma possível resposta aos americanos pode ser a imposição de tarifas retalhatórias na casa de 93 bilhões de euros. Essas tarifas já entrariam em vigor no mês que vem, depois das tarifas americanas que o Trump agendou para o dia 1º de fevereiro. Os europeus também estudam outra possibilidade, que é o seguinte, restringir o acesso de empresas americanas ao mercado europeu. É um instrumento anti-coerção que foi criado em 2023 e é um instrumento tão poderoso, é capaz de causar um estrago tão grande no comércio bilateral entre a Europa e os Estados Unidos, que aqui na Europa os europeus estão chamando de bazuca comercial.
Ana Tuzaner
No último sábado, milhares de pessoas saíram às ruas na Dinamarca e na Groenlândia e o recado foi direto. Trump, tire as mãos da Groenlândia. Por enquanto, as ameaças estão no campo econômico. Mas os países membros da OTAN sabem muito bem o que está em risco. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é... A Groenlândia em disputa e a OTAN sob ameaça. Eu converso com Vitélio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense. Terça-feira, 20 de janeiro. Vitélio, o Donald Trump trata a agroelândia como se fosse... dele, algo que ele tem, de qualquer jeito, que pegar. Aparentemente, é uma prioridade do governo dele, porque ele só fala disso. Ele está com uma ideia fixa e isso saiu do terreno da bravata, pelo menos do que achavam que era bravata no primeiro mandato, para o terreno da ameaça real. Segundo Trump, o território é vital para, palavras dele, construir um escudo antimísseis que poderia proteger todo o território americano, o que ele chama de domo de ouro. O que é e como funciona, como funcionaria esse Domo Vitélio?
Vitélio Brustolin
Essa ideia do Domo de Ouro é uma ideia que vem lá de 1983. Era uma iniciativa que o presidente Reagan lançou, ela foi apelidada de Guerra nas Estrelas, a ideia era colocar defesas antiaéreas em territórios inclusive da Groenlândia, do Canadá, no Alasca e também em satélites. Esse projeto consumiu 200 bilhões de dólares dos Estados Unidos durante décadas e ele nunca aconteceu de fato. O Obama acabou com esse projeto durante os governos dele e aí quando o Trump volta no primeiro mandato, ele volta a falar dessa iniciativa, mas é só agora, no segundo mandato, que ele colocou em ação. Ele está querendo investir mais 175 bilhões de dólares nesse projeto. E a ideia é justamente colocar armamento anti-mísseo, inclusive contra mísseis balísticos intercontinentais, em território da Groenlândia, mas também no espaço. A colocação de armas de destruição em massa no espaço viola tratados internacionais, viola o direito internacional. A Rússia tem um satélite anti-satélite, ele emite pulso eletromagnético e isso tem sido indicado como uma violação do direito internacional. Mas de qualquer forma, e aí para resumir bastante, não é necessário que os Estados Unidos anexem ou comprem a Groenlândia para colocar um sistema de defesa ali, porque já existe um tratado assinado em 1951 entre Estados Unidos e Dinamarca, que dá direito aos Estados Unidos de colocar tropas e armamento na Groenlândia. Esse tratado foi revisto em 2004 para atender à vontade das populações da Groenlândia, são 57 mil pessoas, Mas, via de regra, não há nenhuma necessidade de anexação ou compra ou qualquer outro ato dos Estados Unidos para implementar o domo de ouro na Groelândia, Natúzia.
Ana Tuzaner
Bom, se ele não precisa anexar, invadir, tomar a Groelândia para construir o domo de ouro, ou seja, um esquema de proteção de escudo antimício, por que ele está fazendo isso então?
Vitélio Brustolin
O Trump tem uma visão megalomaníaca do mundo, isso é um fato, e ele quer aumentar o território dos Estados Unidos, ele quer ser lembrado como o presidente que aumentou o território do país. Os Estados Unidos há muito tempo ambicionam adquirir a Groenlândia. Logo depois que foi adquirido o Alasca da Rússia em 1867, os Estados Unidos tiveram conversas informais com a Dinamarca em 1868 para adquirir a Groenlândia, também tentaram adquirir a Islândia. Depois a conversa voltou em 1910, mas foi na Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca foi invadida pelos nazistas, que os Estados Unidos ocuparam a Groenlândia. A Dinamarca assinou com os americanos um tratado permitindo a colocação de bases militares americanas na Groenlândia.
Narrator/Reporter
Bem no norte da Groenlândia, os Estados Unidos têm, desde a Segunda Guerra Mundial, essa base militar numa das regiões mais remotas do planeta. A ideia a princípio era impedir que os nazistas fizessem ataques daqui aos Estados Unidos. Depois virou ponto estratégico para defender os americanos de ataques nucleares da Rússia, que fica logo ali do lado.
Vitélio Brustolin
Então, essa questão de adquirir esse território, ela é antiga. Mas o Trump, que aliás é o negacionista das mudanças climáticas, está vendo o efeito do dregelo. Porque quando nós olhamos para o globo de cima, aquela área, o Círculo Polar Ártico, é toda formada por água. É diferente da Antártica, por exemplo, no Polo Sul, que é um continente, continente congelado. E aquela área é estratégica, porque por ali você consegue monitorar a Rússia, a China, você consegue trafegar a uma nova rota sendo formada naquela região pelo degelo.
Narrator/Reporter
No inverno, o mar do Ártico costumava congelar quase por completo. No verão, derreter devagar. Mas o risco de encontrar um iceberg era tão grande que esse mar era navegável por apenas 20 dias no ano. Agora, ele congela muito menos. Hoje em dia, durante quatro meses, navios podem passar por ali. A perspectiva é que, no futuro, todo o Polo Norte seja uma rota importante de tráfego marítimo.
Vitélio Brustolin
E é claro, a Groenlândia também tem minerais e terras raras. Ela tem menos terras raras que o Brasil, mas é um dos territórios que mais tem terras raras no mundo. O Trump poderia, se pedisse educadamente, negociar a exploração dessas terras raras. Isso teria que ser aceito pela população da Groenlândia.
Narrator/Reporter
Uma enorme reserva de petróleo e gás natural, é rica em minerais estratégicos, entre.
Vitélio Brustolin
Eles as terras raras, concentrados principalmente ao sul do território, em áreas ainda de difícil acesso e de condições climáticas adversas.
Narrator/Reporter
Isso explica porque até então a mineração.
Vitélio Brustolin
Não vinha avançando tanto na Groenlândia. Mas é um cenário que está mudando.
Narrator/Reporter
Muito com o derretimento acelerado do gelo na ilha também, todo o Atlântico Norte, causado pelo aquecimento global. Também há embaixo do gelo ouro, diamante, urânio, petróleo e gás.
Vitélio Brustolin
De qualquer forma, para responder a sua pergunta, o Trump quer tudo. Ele quer o território, ele quer o controle total, ele diz que a Rússia e a China estão se aproximando daquele território, mas, na verdade, o acordo de 1951 já permite que os Estados Unidos coloquem tropas na região para dissuadir a presença dos russos e chineses na Tusa.
Ana Tuzaner
Mas os chineses e os russos estão efetivamente se aproximando mais daquele território?
Vitélio Brustolin
Os russos não há dúvida. Naquela parte do mundo tem submarinos nucleares, nós sabemos disso, eles trafegam. Não são só submarinos russos, são também dos Estados Unidos, são também chineses, são franceses, isso é um fato. O ponto é que a China vem desenvolvendo muito mais ogivas nucleares, ela tinha 350 ogivas, agora está com 600, pretende chegar a 1500 nos próximos anos, isso em descumprimento do Tratado de Não-Proliferação Nuclear de 1968. Agora, de qualquer forma, o ponto não é a presença de forças estrangeiras naquele território. Na verdade, os europeus até achariam bom se os americanos ficassem mais presentes na Groelândia porque os europeus temem a Rússia, temem que a Rússia ataque outros países da Europa, especialmente países que já fizeram parte da esfera soviética, Estônia, Letônia, Lituânia, os países bálticos ou a Polônia. Esses países, a Finlândia também tem um temor, a Finlândia aderiu recentemente à OTAN por conta disso, a Suécia também, mas de novo, o tratado que existe já permite essa presença dos americanos na região. E aí há outros fatores importantes que precisam ser destacados. Uma pesquisa da Ipsos aponta que quase 80% da população dos Estados Unidos se opõe a qualquer tipo de uso da força para adquirir a Agroelândia ou anexar a Agroelândia É diferente, por exemplo, quando a gente lembra do Irã no ano passado Os Estados Unidos atacaram as instalações nucleares do Irã e o Trump alegou que o Irã apresentava risco iminente à segurança dos Estados Unidos e por isso ele precisava acionar o artigo 2º da Constituição e que o coloca como comandante em chefe das Forças Armadas e depois ele iria apenas justificar no Congresso. A mesma coisa com os narcotraficantes da Venezuela. O Trump alegava que estava atingindo os narcotraficantes porque eles apresentavam risco à população dos Estados Unidos e depois justificaria ao Congresso. Mas qual seria a justificativa para uma ação militar, o uso da força contra um país como a Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca? A Dinamarca, Natuza, em termos per capita, perdeu mais soldados nas guerras do Afeganistão e do Iraque, apoiando os Estados Unidos, do que os Estados Unidos. A Dinamarca é um dos maiores aliados dos Estados Unidos e isso já há muitas décadas. Então ninguém apoiaria o uso da força contra um território da Dinamarca, não teria apoio da população e não teria apoio do Congresso dos Estados Unidos, Natuza.
Ana Tuzaner
Bom, Vitélio, nos últimos dias a gente viu uma movimentação militar na região, França, Reino Unido, que são potências militares, enviaram tropas para a Agroelândia, outros países no total, oito países europeus. Qual é o objetivo dessa movimentação? Isso de alguma maneira pode parar Trump? Imagino que não, né?
Vitélio Brustolin
Não, o objetivo é só dissuadir o Trump, porque ele disse publicamente que a Gurelândia, para se defender, tem dois trenóis puxados por cachorros. Essa foi a afirmação do Trump.
Narrator/Reporter
A troca de mensagens começa assim. Domingo, 3h48 da tarde. O primeiro-ministro norueguês, Jonas Stern, escreve. Caro senhor presidente, caro Donald. sobre a Groenlândia, Gaza, Ucrânia e o seu anúncio de tarifas de ontem. Você conhece a nossa posição sobre esses temas, mas acreditamos que todos deveríamos trabalhar para abaixar o tom e acalmar a situação. Precisamos estar unidos. A resposta veio 27 minutos depois, às 16h15. A Dinamarca não pode proteger a Groenlândia da Rússia ou da China. E por que eles têm o direito de ter o território, afinal? Não existem documentos escritos, apenas o fato de que um barco desembarcou lá centenas de anos atrás. Mas nós também tivemos barcos desembarcando lá. Fiz mais pela OTAN do que qualquer outra pessoa desde a sua fundação. E agora a OTAN deveria fazer algo pelos Estados Unidos. O mundo não está seguro. A menos que tenhamos o controle completo e total da Groenlândia.
Vitélio Brustolin
Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda. Esses países agora o Trump diz que vai aplicar tarifas contra eles. Primeiro de 10% agora, nos próximos dias, e depois 25% a partir de junho. Isso se não houver uma negociação para aquisição da Groenlândia pelos Estados Unidos.
Narrator/Reporter
Ministros europeus das finanças, que participaram de uma reunião em Bruxelas, criticaram os americanos. As reações também vieram de Portugal, da Espanha e de vários outros países que não foram alvos diretos de Donald Trump. Essa defesa firme, explícita, não é apenas solidariedade. É que o presidente americano, ao punir alguns, acaba causando um efeito cascata no continente. Toda a economia do bloco europeu sente o peso dessas tarifas. Estados Unidos e União Europeia mantém atualmente a maior parceria bilateral do planeta. O fluxo de comércio e investimentos ultrapassou o patamar de um trilhão e meio em 2024.
Vitélio Brustolin
Assim, Natuza, os Estados Unidos assinaram dois acordos com esses países no ano passado. Com a União Europeia foi um acordo que obriga a União Europeia a pagar mais 15% de tarifas para os Estados Unidos. com o Reino Unido foi um acordo que obriga o Reino Unido a pagar mais 10% e ter cotas de exportação para os Estados Unidos. Então o Trump está rasgando esses acordos comerciais que acabou de assinar com esses países. Mas isso ainda é o ponto mais fraco dessa história toda, porque Esses aliados históricos dos Estados Unidos são parte do que torna os Estados Unidos uma potência hegemônica, que tem sido ameaçada pela China e pela Rússia, mas as parcerias estratégicas de um país como os Estados Unidos são fundamentais para a manutenção desse país no status quo. O que acontece é que perder esse tipo de aliados ou ameaçar esses aliados ou desembarcar de uma estratégia de mais de 80 anos não faz a América grande novamente como Trump quer. Na verdade, torna a América menor, enfraquece os Estados Unidos e isso tem sido dito tanto por senadores republicanos quanto democratas e também por deputados. Essa discussão ocorre dentro dos Estados Unidos hoje. E ocorre num nível em que a Câmara e o Senado aventam a passar um impeachment contra o Trump caso ele use a força contra a Gurelândia, Natúzia.
Ana Tuzaner
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Vitélio Brustolini. Eu sei que quando a gente analisa o processo histórico, ao fim, ao cabo, esse período tende a render uma América, como eles chamam, mais enfraquecida. O fato é que agora tá todo mundo meio que morrendo de medo, porque sabe que o Trump não tem muito limite. Os países da Europa, inclusive, têm sido criticados, os líderes europeus, por serem, numa linguagem bem brasileira, tem nenhum papel de gatinho e não de tigre em relação aos arrobos do Trump. Anexar, invadir a Agroelândia pode ser um ponto de virada nisso ou não? Ou eles tendem a ter esse comportamento mais passapanista, digamos assim?
Vitélio Brustolin
Bom, a Europa está num momento de corrida armamentista como nunca se viu desde a Segunda Guerra Mundial. A Europa está investindo 800 bilhões de euros em rearmamento e grande parte desse recurso em indústrias próprias, na sua base industrial de defesa local. que era exatamente o que o Trump não queria. O Trump queria que a Europa adquirisse mais armamento dos Estados Unidos. Foi por isso que ele pressionou, inclusive, os países da OTAN a investirem 5% do PIB em defesa e não até 2%, que era o que havia antes nas tratativas. O que acontece? é que a Europa se vê pressionada de um lado pelo Putin e do outro lado por um aliado histórico, que seriam os Estados Unidos, que seria o líder da OTAN. Em 2019, o presidente Macron chegou a dizer que a OTAN tinha sofrido morte cerebral. Porque lá no primeiro mandato o Trump já aventava sair da OTAN, o criticava os países da OTAN, Angela Merkel da Alemanha na época dizia que a Europa não poderia mais depender dos Estados Unidos. Então os líderes europeus já sabiam como seria o governo do Trump porque tinham a experiência do primeiro mandato. Mas nesse segundo mandato as questões são muito mais isolacionistas dos Estados Unidos e mercantilistas. Então, isso faz com que atores como os países europeus invistam mais na sua defesa, mas também faz com que atores menores, países que não têm alianças, procurem outras formas de se defender. Então, veja só, Natusa, nós temos o Japão, por exemplo, que foi alvejado por armas nucleares na Segunda Guerra, falando em adquirir armas nucleares. Nós temos a Coreia do Sul, que tem a vizinha ali, a Coreia do Norte, com 50 ogivas, também violadora do Tratado de Não-Proliferação, saiu do tratado porque tinha um programa clandestino, falando em adquirir armamento nuclear. Nós temos países como a Polônia, que foi tomada durante quatro anos pelos nazistas e por cinco décadas pelos socialistas da União Soviética, investindo 5% do PIB em defesa e também aventando a adquirir armas nucleares. A Alemanha poderia ser nuclear em termos de semanas, porque ela já tem um parque bastante desenvolvido. Então, o que acontece nesse cenário em que potências militares ameaçam anexar territórios de países a despeito da carta da ONU, a despeito do direito internacional? E aqui eu não estou falando só do Trump, também tem a questão da Rússia invadindo a Ucrânia, já tinha invadido a Geórgia em 2008, da China invadindo territórios dos seus vizinhos, o mar territorial dos seus vizinhos, criando ilhas artificiais para fazer aeroportos no mar do sul da China para tomar o mar territorial dos seus vizinhos. Nós estamos falando de potências que não respeitam, que rasgam o direito internacional e que fazem com que países menores temam pela sua segurança e por isso procuram em todos os meios para se defender, inclusive meios atômicos.
Ana Tuzaner
Você cita a OTAN e eu quero ampliar a lente sobre a OTAN. Primeiro, uma rápida explicação tua. Qual foi o contexto de criação da OTAN em 1949? Quais eram os princípios que uniam os aliados naquele momento? Só pra gente ficar na mesma página.
Vitélio Brustolin
Olha, logo que termina a Segunda Guerra, está claro que haverá uma guerra fria, está claro que os soviéticos não vão tirar tropas de países do leste europeu que foram ocupados na guerra contra os nazistas. Os Estados Unidos tinham desenvolvido seu armamento nuclear em 1945, a CIA tinha uma previsão de que os soviéticos fariam suas primeiras ogivas em 1952, mas eles antecipam e fazem em 1949. E é justamente em 1949 que é criada essa organização justamente para que os países do oeste europeu consigam, com uma aliança com os Estados Unidos, conter os soviéticos. A União Soviética criou o Pacto de Varsóvia em 1955, e o Pacto de Varsóvia vai continuar existindo até a dissolução da União Soviética em 1991. Só que aí, seis meses depois da dissolução da União Soviética, a Rússia cria uma nova organização, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que é justamente uma organização para fazer frente à OTAN. Dessa organização participam países como a Armênia, por exemplo, a mesma Armênia que não foi ajudada pela Rússia agora na guerra contra o Azerbaijão e que reclama que a Rússia não cumpriu sua parte e agora se aproxima do Ocidente. Então, essas organizações são organizações de segurança coletiva. Os países ingressam nessas organizações porque se houver ataque contra um deles, isso vai ser considerado um ataque contra todos eles. É por isso que depois que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, países que antes tinham uma opinião de neutralidade, como a Suécia e a Finlândia, decidiram ingressar na OTAN. De qualquer forma, Anatuza, essas organizações são organizações justamente para dissuadir o uso da força de atores maiores, com mais armamento, com mais potência militar. Mas quando essas organizações têm confrontos internos, então nesse momento nós vemos a maior potência da OTAN, que são os Estados Unidos, ameaçando o uso da força contra um país menor, que é a Dinamarca, que é um aliado histórico. Isso nunca foi previsto.
Ana Tuzaner
Pois é, portanto ele quebra a argamassa da OTAN, que é o mexeu com um, mexeu com todos. Mas esse mexeu com um, mexeu com todos sempre valeu para aqueles que não faziam parte da OTAN. Não se imaginava que alguém de dentro da OTAN, o líder da OTAN, ou seja, a cabeça desse corpo, dissesse o seguinte, eu vou mexer contra um de nós. Não é a morte, não seria a morte da OTAN nesse caso?
Vitélio Brustolin
Ainda não, ainda não, porque não foi usada de fato força, não houve uma guerra, não houve uma invasão.
Ana Tuzaner
Claro, isso na hipótese de invasão, não agora, retoricamente não dá para dizer isso, mas se ele invade a Agroelândia, se ele anexa a Agroelândia, não seria a morte da OTAN?
Vitélio Brustolin
Ah, seria, isso sem dúvida, e são vários líderes internacionais que afirmam isso, nem sou eu que estou dizendo. Agora veja, aqui a gente precisa entrar numa questão de legalidade, porque para o Trump chegar a esse ponto, ele tem que estar num nível de governança dos Estados Unidos equivalente a um déspota. E assim, por mais que ele tenha maioria na Câmara e no Senado nesse momento, as eleições de mid-term, de meio de mandato, são daqui a dez meses, são em novembro. E no primeiro mandato ele já perdeu a Câmara nas eleições de meio de mandato. As eleições nos Estados Unidos têm ido muito mal para os republicanos e existe uma tendência de que uma das casas, pelo menos, seja perdida para os democratas no meio do mandato. Então, veja só, Natuza, nas eleições de midterm é renovada toda a Câmara e um terço do Senado. A margem, as cadeiras que o Trump tem de vantagem são poucas e mesmo os senadores e deputados republicanos seriam contra o uso da força contra a Groenlândia. Aqui eu quero ser bem específico, porque a legislação dos Estados Unidos permite que apenas o Congresso financie ações militares. Então, para o Trump ter uma empreitada militar sobre a Groenlândia, o Congresso teria que autorizar fundos para essa ação militar. E isso, pela discussão que existe hoje no Congresso, não aconteceria, Natuza.
Ana Tuzaner
Quero entrar em um outro tópico desse nosso tema. A primeira ministra da Dinamarca disse o seguinte, abre aspas, o mundo irá parar caso os Estados Unidos decidam tomar a Groenlândia à força. A gente viu manifestações esse fim de semana da população na Dinamarca indo às ruas, na Agroelândia também pra protestar, queria muito a sua avaliação sobre essa declaração, que é mais ou menos uma variação do que você acabava de responder aqui sobre a morte da OTAN.
Vitélio Brustolin
Olha, Natuza, eu vou responder essa com uma perspectiva histórica. A Segunda Guerra Mundial não começou como uma grande guerra, ela começou com guerras regionais. com o Japão imperial projetando poder sobre a China, com a Alemanha nazista projetando poder sobre a Europa, e com a Itália fascista do Mussolini projetando poder sobre o Mar Mediterrâneo e a Etiópia. Num dado momento, os três perceberam que tinham interesses em comum e formaram o eixo, e aí se tornou uma guerra mundial. Caso haja uma ação militar dos Estados Unidos contra um dos seus aliados, nós veremos guerras regionais intercaladas. Então, já existe o contexto da guerra da Rússia contra a Ucrânia, que a Europa considera uma guerra contra a Europa, existe o contexto das guerras no Oriente Médio, nesse momento existe uma trégua entre Israel e o Hamas, mas O Irã financiou grupos como o Hamas, o Hezbollah, o governo do Bashar al-Assad, que agora caiu, os Houthis no Iêmen, e o Irã também fornece os drones Shaheed que a Rússia usa para atacar a Ucrânia. Agora, veja só, se nesse mesmo contexto houver uma agressão dos Estados Unidos a um país europeu, nós veremos um contexto pré-Guerra Mundial, ou já estaremos dentro dela e precisaremos apenas chegar a um consenso sobre isso, ou nem tanto. Nós veremos a força se impondo, as tropas marchando sobre o território, mais ou menos como aconteceu em setembro de 1939, quando os nazistas marcharam sobre a Polônia. Então, os fatos precederão a nossa interpretação. Então, realmente, seria um cenário catastrófico para o mundo todo e, de novo, eu espero que os Estados Unidos tenham freios e contrapesos suficientes para impedir esse tipo de ação do Trump, Natuza.
Ana Tuzaner
Portanto, quando você diz isso em termos de risco global, eu entendo a sua avaliação como o episódio Groelândia não é um episódio que afeta a Groelândia e o direito internacional, é algo que pode escalar para o mundo todo e botar todo mundo em risco, não só a população que vive lá.
Vitélio Brustolin
Exatamente, e veja, não é nem que todos os países do mundo precisariam estar envolvidos nisso, mas todos sofreriam as consequências, porque afetaria as cadeias globais e seria uma guerra que se expandisse um pouco. Então, para a Ásia, por exemplo, no contexto da Coreia do Norte, que também está envolvida na guerra ao lado da Rússia, atacando seus vizinhos, os coreanos já fazem testes de mísseis nas águas do Japão, já existe uma animosidade entre a Takaishi, a nova primeira-ministra do Japão, e a China por conta de Taiwan. Se isso escalar um pouquinho mais, acaba envolvendo o mundo todo direto ou indiretamente, Natuza.
Ana Tuzaner
Vitélio, super obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho para você.
Vitélio Brustolin
Sempre um prazer. Até a próxima.
Ana Tuzaner
Antes de terminar um recado, se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é Assunter mesmo, dá 5 estrelas e compartilha esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Este episódio usou áudios da Deutsche Welle. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou Ana Tuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 20 de janeiro de 2026
Host: Ana Tuzaner (Natuza Nery)
Convidado: Vitélio Brustolin, Professor de Relações Internacionais, UFF
Este episódio analisa a crescente tensão internacional em torno da Groenlândia e o impacto sobre a estrutura e a coesão da OTAN. A host Ana Tuzaner conversa com o professor Vitélio Brustolin para contextualizar o cenário geopolítico, explicar os interesses americanos no Ártico, as respostas europeias e os riscos para a ordem internacional, especialmente com as políticas expansionistas do governo Trump em seu segundo mandato.
Origem estratégica do nome (00:02):
Groenlândia foi batizada por Erik, o Vermelho, para atrair colonos – uma estratégia de marketing, pois 80% da ilha é coberta de neve.
Importância geopolítica atual (00:26-00:43):
O episódio oferece uma imersão detalhada nos dilemas do momento: a possível crise existencial da OTAN, o papel catalisador dos Estados Unidos no sistema internacional contemporâneo e o impacto do aquecimento global sobre a geopolítica. A discussão vai além da Groenlândia, exemplificando como o rearranjo de forças e o desprezo ao direito internacional podem repercutir para todo o planeta.