O Assunto – "A guerra mais letal para jornalistas"
Data: 27 de agosto de 2025
Host: Natuza Nery
Convidados: José Hamilton Ribeiro (jornalista veterano, autor de “O Gosto da Guerra”), Arthur Romeu (diretor para América Latina da Repórteres Sem Fronteiras)
Visão Geral do Episódio
Este episódio de “O Assunto” explora o contexto e as consequências do conflito Israel-Gaza para jornalistas, destacando como a guerra em Gaza se tornou a mais letal da história moderna para profissionais de imprensa. Natuza Nery entrevista José Hamilton Ribeiro, repórter brasileiro que cobriu a Guerra do Vietnã, e Arthur Romeu, diretor da ONG Repórteres Sem Fronteiras, para discutir o papel e os riscos dos jornalistas em zonas de guerra, o impacto histórico das mortes e as violações ao direito internacional humanitário.
Principais Pontos e Discussões
1. A Gravidade do Momento para Jornalistas (00:02 – 03:37)
- Natuza Nery descreve o cotidiano perigoso dos jornalistas em zona de guerra, especialmente em Gaza, e destaca o ataque israelense que matou cinco jornalistas no Hospital Nasser em 25 de agosto.
- Dados alarmantes: Entre 197 e 247 jornalistas mortos desde o início da guerra em Gaza (2023), segundo CPJ e ONU, respectivamente.
- "Esses números representam mais do que a soma do número de jornalistas mortos nas duas guerras mundiais, na guerra do Vietnã e ainda nos conflitos na Iugoslávia e no Afeganistão.” (Narrator, 01:47)
- A presença de jornalistas independentes únicos em Gaza e as severas restrições impostas por Israel à imprensa internacional.
- “Nenhum grande veículo tem um repórter próprio no território palestino.” (Narrator, 02:13)
- Enfoque sobre a importância da imprensa para o conhecimento das atrocidades da guerra – e a escalada da “guerra de narrativas”.
2. Memórias e Lições da Guerra do Vietnã – Entrevista com José Hamilton Ribeiro (03:37 – 11:54)
- Relato pessoal sobre a cobertura da Guerra do Vietnã, incluindo o episódio em que perdeu uma perna ao pisar numa mina.
- “O momento daquela explosão é uma coisa muito confusa na minha cabeça. [...] A bomba explodiu na minha perna.” (José Hamilton Ribeiro, 08:26)
- Reflexão sobre os motivos de cobrir guerra como repórter:
- “Eu queria estar onde estivesse a notícia mais quente do dia, a notícia mais calorosa, mais importante do momento. [...] Não tenho nenhum arrependimento.” (José Hamilton Ribeiro, 07:44)
- Sugestão aos jovens jornalistas:
- “O correspondente de guerra [...] é quase que uma especialidade [...] depende de um pouco de coragem, um pouco de audácia, um pouco de falta de juízo, talvez principalmente isso, falta de juízo.” (José Hamilton Ribeiro, 10:14)
- Destaca-se a importância do lado humano das relações formadas em zonas de conflito, contrapondo a dor com laços de amizade.
3. Adjetivos e Números Sem Precedentes em Gaza – Entrevista com Arthur Romeu (12:39 – 29:17)
Escala Inédita de Mortalidade para Jornalistas (13:12 – 15:58)
- “Nunca em tão pouco tempo se matou tantos jornalistas numa situação de conflito armado. [...] Não há precedentes, é uma situação completamente inédita.” (Arthur Romeu, 13:12)
- Comparações históricas: Em Gaza, mais mortes em menos de dois anos do que nas duas guerras mundiais juntas, Vietnã, Síria (em dez anos) ou Ucrânia.
- “Em média, mais de dez jornalistas assassinados mortos nesse conflito por mês.” (Arthur Romeu, 14:46)
O Papel Protegido dos Jornalistas e Violações do Direito Internacional (16:41 – 18:37)
- Journalistas têm status de civis por direito internacional humanitário; ataques deliberados são crimes de guerra.
- O trabalho jornalístico é crucial para registrar violações de direitos humanos e influenciar a opinião pública global.
- “O olhar desses jornalistas foi fundamental [...] para que houvesse uma tomada de consciência do drama que estava sendo vivido no front.” (Arthur Romeu, 16:53)
Consequências da Ausência de Jornalistas no Front (18:37 – 20:36)
- A ausência da imprensa leva ao “apagão mediático”, restringe o direito à informação e aumenta o poder das narrativas oficiais, propaganda e desinformação.
- Cita a importância dos últimos relatos de jornalistas como Anas Al-Sharif e Mariam Daga, que deixaram testamentos emocionantes antes de morrer:
- “Sem esse olhar de jornalistas [...] talvez a gente não tivesse a dimensão de que isso estivesse ocorrendo dessa forma.” (Arthur Romeu, 18:57)
Casos Emblemáticos: Anas Al-Sharif & Mariam Daga (21:23 – 25:10)
- Relato sobre a morte de Anas Al-Sharif, da Al Jazeera, alvejado por drone, e a campanha de difamação que sofrera por parte de Israel.
- “O Anas Al Sharif vinha sendo acusado por Israel de ter envolvimento com o Hamas, [...], pintando esse jornalista um alvo nas costas.” (Arthur Romeu, 21:23)
- Notável momento: Al-Sharif tira colete e capacete ao vivo para narrar um cessar-fogo — “muito emocionante essas imagens”.
- Mariam Daga, repórter freelancer da Associated Press, morta no mesmo hospital, deixou "mensagem de esperança" ao filho pedindo que, se tivesse uma filha, desse a ela o nome da mãe em homenagem.
- “É uma mensagem incrivelmente de esperança. Uma dedicatória [...] pedindo que ele siga sendo quem ele quer ser.” (Arthur Romeu, 25:10)
Impunidade, Denúncias e Bloqueio Informacional (26:46 – 29:17)
- Das quatro denúncias apresentadas ao Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, poucas respostas práticas ou justiça concreta até o momento.
- “A triste realidade é que muito pouco acontece, né? Muito pouco acontece.” (Arthur Romeu, 26:54)
- Fala-se num “apagão mediático” estratégico, com ataques a jornalistas servindo para impedir o fluxo de informação livre e minar a cobertura independente dos acontecimentos em Gaza.
- Arthur Romeu cita a Resolução 2.222 do Conselho de Segurança da ONU (2015), que reforça o dever de proteção aos jornalistas em áreas de conflito.
Tópicos Centrais Abordados
- Aumento inédito de jornalistas mortos na guerra em Gaza
- Comparação histórica dos dados de mortalidade
- Importância e riscos do jornalismo de guerra
- Violação dos direitos internacionais à proteção de jornalistas
- Efeitos do apagão mediático e das restrições à imprensa
- Histórias humanas por trás das estatísticas – cartas, testamentos e homenagens
- Impunidade diante das denúncias de crimes de guerra
Frases Marcantes com Timestamps
-
“Esses números representam mais do que a soma do número de jornalistas mortos nas duas guerras mundiais, na guerra do Vietnã e ainda nos conflitos na Iugoslávia e no Afeganistão.”
– Narrator (01:47) -
“É quase que uma especialidade do jornalismo comum. A pessoa que tem propensão para isso, que tem interesse nisso, procura se informar [...] depende de um pouco de coragem, um pouco de audácia, um pouco de falta de juízo, talvez principalmente isso, falta de juízo.”
– José Hamilton Ribeiro (10:14) -
“Nunca em tão pouco tempo se matou tantos jornalistas numa situação de conflito armado. [...] Não há precedentes, é uma situação completamente inédita.”
– Arthur Romeu (13:12) -
“O olhar desses jornalistas foi fundamental [...] para que houvesse uma tomada de consciência do drama que estava sendo vivido no front.”
– Arthur Romeu (16:53) -
“Sem esse olhar de jornalistas como a Nasser Al-Sharif, [...] talvez a gente não tivesse a dimensão de que isso estivesse ocorrendo dessa forma.”
– Arthur Romeu (18:57) -
“É uma mensagem incrivelmente de esperança. [...] pediu que ele siga sendo quem ele quer ser [...] caso venha a ter uma filha, que ele nomeie a filha com o nome dela em homenagem.”
– Arthur Romeu (25:10) -
“A triste realidade é que muito pouco acontece, né? Muito pouco acontece.”
– Arthur Romeu (26:54)
Timestamps para Referência
- 00:02 – Introdução: riscos enfrentados por jornalistas no front
- 01:47 – Estatísticas das mortes de jornalistas em Gaza e contexto internacional
- 04:27 – Início da entrevista com José Hamilton Ribeiro
- 08:26 – Relato do acidente em que perdeu a perna na guerra
- 10:14 – Conselhos a jovens jornalistas interessados em coberturas de guerra
- 13:12 – Início da análise de Arthur Romeu sobre números sem precedentes de mortes
- 16:53 – Proteção internacional aos jornalistas em conflitos
- 18:57 – O papel da imprensa nas guerras e consequências do seu apagamento
- 21:23 – Caso Anas Al-Sharif: morte emblemática e perseguição
- 25:10 – Mensagem póstuma da jornalista Mariam Daga
- 26:54 – Impunidade nas denúncias ao TPI e o “apagão mediático”
Conclusão
O episódio ressalta o papel fundamental e corajoso dos jornalistas em zonas de conflito, alertando para o perigo histórico e sem precedentes vivenciado na guerra em Gaza. Além de dados e análises, são compartilhadas memórias pessoais e histórias humanas, evidenciando que por trás das estatísticas estão indivíduos comprometidos em trazer a verdade à tona, mesmo sob risco de vida. A impunidade diante de crimes cometidos contra jornalistas e o bloqueio informativo reforçam o apelo por uma resposta global contundente para salvaguardar o jornalismo e, por extensão, o direito à informação da sociedade.
Ouça este episódio para entender profundamente como a cobertura jornalística é tão vital – e perigosa – nas guerras do nosso tempo.
