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Natuza Nery
Mulhidos de câmeras, gravadores, celulares, papel, caneta e colete à prova de balas. Jornalistas que documentam destruição, fome, deslocamentos forçados, mostram ao mundo, com grande dificuldade e risco, o que acontece no front. Mostram o que dói ver, ainda que através da lente filtrada do repórter.
Narrator/Reporter
Um ataque de Israel na faixa de Gaza matou 20 pessoas. Cinco eram jornalistas.
O trabalho deles era fundamental para que jornais e TVs do mundo inteiro mostrassem o que vem acontecendo no território palestino.
Natuza Nery
Eles estavam na Faixa de Gaza e morreram no último 25 de agosto durante um ataque israelense ao único hospital que há por lá.
Narrator/Reporter
Um drone atingiu um andar usado por jornalistas no Hospital Násser, em Canhões, no sul da Faixa de Gaza. Esse homem indignado mostrava um equipamento de transmissão ao vivo e uma câmera com microfone, destruídos. Enquanto outros jornalistas e socorristas se aproximavam para prestar socorro. Minutos depois do primeiro ataque, houve uma segunda explosão.
Natuza Nery
Em comunicado, Israel lamentou o incidente e disse que as autoridades vão investigar o caso.
Narrator/Reporter
Um porta-voz militar declarou que as forças israelenses não têm civis e jornalistas como alvo e que o Hamas usa o hospital como escudo.
Natuza Nery
Menos de uma semana antes, outro ataque.
Arthur Romeu
Os cinco jornalistas da Al Jazeera estavam acampados do lado de fora do hospital Al Shifa, que fica no leste da cidade de Gaza, quando foram atingidos pelos bombardeios.
Natuza Nery
Perdas que já fizeram o conflito ser o mais letal da história para profissionais da imprensa.
Narrator/Reporter
Segundo o Escritório de Direitos Humanos da ONU, já são 247 desde o início da guerra, em 2023. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, por outro lado, fala em 197 vítimas. Esses números representam mais do que a soma do número de jornalistas mortos nas duas guerras mundiais, na guerra do Vietnã e ainda nos conflitos na Iugoslávia e no Afeganistão.
Nesse momento, na faixa de Gaza, só há jornalistas independentes. Nenhum grande veículo tem um repórter próprio no território palestino. Desde o início da guerra, Israel só liberou a entrada de alguns jornalistas estrangeiros, sempre cercados pelo exército e sujeitos a restrições sobre o que podem e o que não podem filmar.
Natuza Nery
Nenhuma vida vale mais do que a outra, a gente sabe. É por meio do trabalho da imprensa que se conhece as atrocidades de uma guerra.
Narrator/Reporter
O bombardeio reforça uma guerra de narrativas que se soma ao conflito armado e mantém repórteres na linha de fogo. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, manifestou grave preocupação com o que chamou de ataques repetidos à imprensa em Gaza. A ONU, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas e a ONG Repórteres Sem Fronteiras condenaram o bombardeio e pediram uma investigação independente. As realidades da guerra muitas vezes são distorcidas pela força das armas. O secretário-geral da ONU pediu respeito aos profissionais do jornalismo para que possam fazer seu trabalho livres dos abusos e do medo.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje é A guerra mais letal para jornalistas. Neste episódio, eu converso com o jornalista José Milton Ribeiro. Ele é autor de O Gosto da Guerra, livro em que narra sua cobertura da guerra do Vietnã para a revista Realidade, em 1968, quando perdeu uma perna ao pisar em uma mina terrestre. Depois, eu falo com Arthur Romeu, diretor para América Latina da ONG Repórteres Sem Fronteiras. Quarta-feira, 27 de agosto. José Hamilton, você cobriu a guerra do Vietnã, tem marcas no corpo até hoje. Eu quero aproveitar a sua ilustre presença aqui no assunto para te pedir para nos contar como é que foi cobrir esta guerra.
José Milton Ribeiro
Olha, já faz algum tempo, né? Eu era então um jovem repórter, cheio de ideias mirabolantes na cabeça, né? aceitei a possibilidade de participar de uma guerra, imagina, lá na Ásia, do outro lado do mundo, lá no Vietnã. Mas foi uma coisa que hoje, olhando assim à distância, eu não me arrependo não, não me arrependo não. Foi um momento da minha vida em que houve momentos assim de dor, de dor, né, de dor, de sofrimento, mas também houve um lado muito simpático e humano de amizade lá. Eu tinha um amigo chamado Nguyen, que é um nome bem comum lá no Vietnã. Tipo Silva, assim, todo mundo chama Neguinho lá, né? Muito simpático, muito caloroso, muito humano, a gente se deu muito bem. Teve alguns momentos terríveis lá, mas também houve momentos de grande ligação humana, muito afeto humano. E um amigo que durou a vida toda.
Natuza Nery
Porque... Para você, como jornalista, foi importante cobrir aquela guerra. Qual era a sua missão?
José Milton Ribeiro
Olha, eu acho que naquele momento a guerra do Vietnã era, do ponto de vista jornalístico, o assunto mais importante do mundo naquele momento. Porque era uma aventura americana lá na Ásia, Uma aventura, não sei se em treslocada lá dos americanos, mas enfim. Eles estavam lá no Vietnã, na retórica americana, eles estavam participando do trabalho de uma democracia amiga, que era como eles consideravam o governo do Vietnã da época.
Narrator/Reporter
A Guerra do Vietnã foi uma das maiores disputas geopolíticas entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética no contexto da Guerra Fria. As cifras não são precisas, mas o governo do Vietnã fala em 4 milhões de mortes no país e mais de 58 mil soldados norte-americanos faleceram durante o confronto. A derrota das tropas norte-americanas em Saigon, em 30 de abril de 1975, representou mais que o fim da guerra entre o Sul e o Norte. Para os Estados Unidos, foi o fim de uma batalha que buscava impedir a ascensão do comunismo na região.
José Milton Ribeiro
Enfim, eles estavam numa aventura militar lá na Vietnã, que não deu certo, em muitos pontos não deu certo.
Natuza Nery
E você sabia que você poderia correr riscos e ainda assim você foi cobrir essa guerra. Por que, José Hamilton?
José Milton Ribeiro
Eu era um repórter ansioso naquela época, e eu queria estar onde estivesse a notícia mais quente do dia, a notícia mais calorosa, mais importante do momento. E foi uma aventura profissional. De que eu não tenho nenhum arrependimento, é uma aventura profissional digna, né, digna. E a parte humana teve problemas, teve problemas, eu sofri um pouco lá.
Natuza Nery
Como é que foi o episódio em que você perdeu a perna?
José Milton Ribeiro
Olha, o momento da explosão, né, da bomba. a explosão da bomba, porque a bomba foi uma armadilha com uma bomba. A bomba explodiu na minha perna. Então, o momento daquela explosão é uma coisa muito confusa na minha cabeça. Hoje ainda é mais ainda, é muito confusa, porque... Imagina você, eu era um jovem, né? Então, muito forte até, e alto e tal. Eu estava lá no meio de soldados também, animados e tal. A gente estava numa patrulha, sabe? com uma companhia do exército americano, nós estamos fazendo uma patrulha lá no campo, ou numa armadilha, numa mina, tipo uma armadilha, um rastilho, um rastilho assim.
Natuza Nery
Você é levado ao hospital?
José Milton Ribeiro
Sim, depois do acidente eu fui levado para o hospital americano.
Natuza Nery
E você sai do hospital e volta para o Brasil sem a perna?
José Milton Ribeiro
Sem a perna, sem a perna.
Natuza Nery
Lembrando, José Milton, dessa cobertura e o seu trabalho como jornalista, muito reconhecido aqui no Brasil, você disse que tem muito boas memórias, né? Que esse drama pessoal, ele, pelo que eu entendi, ele não foi a parte mais importante do seu trabalho como jornalista. O que que você diria hoje pra jovens jornalistas que querem, como você foi, cobrir uma guerra?
José Milton Ribeiro
Olha, é uma questão de invocação, de busca de prestígio profissional. A atuação do correspondente de guerra, que é o caso, é quase que uma especialidade do jornalismo comum. A pessoa que tem propensão para isso, que tem interesse nisso, procura se informar e vai, de certa forma, fazendo um curso informal, mas fazendo um curso de cobertura de guerra para ele chegar no lugar, tendo o mínimo de informação sobre o que é aquilo. Aí depende de um pouco de coragem, um pouco de audácia, um pouco de falta de juízo, talvez principalmente isso, falta de juízo, não é nada especial, não é nada do destino, não é coisa da vida comum do trabalho de jornalista, de repórter.
Natuza Nery
José Hamilton, pois eu considero que o seu trabalho foi um trabalho extraordinário quando você decide ir até um outro país, cobrir uma guerra, trazer informações para a sociedade brasileira. Eu te agradeço muito por ter topado conversar com a gente, foi um prazer entrevistá-lo.
José Milton Ribeiro
Obrigado, obrigada. Tuas ordens.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com Arthur Romeu.
Arthur Romeu
Para iluminar e passar a visão, o Prêmio LED chama você pra participar da sua seleção.
Narrator/Reporter
Estudantes, educadores, empreendedores é o futuro em transformação.
Arthur Romeu
Serão seis projetos e o edital já tá na mão. MovimentoLED.com.br. Inscrições prorrogadas até dia 10 de setembro. Arthur.
Natuza Nery
A gente sabe que a vida de um jornalista vale tanto quanto a vida de qualquer cidadão. A guerra em Gaza traz números superlativos em muitos aspectos e um dos aspectos é em relação à morte. também de jornalistas. São 247 repórteres mortos na guerra em Gaza segundo a ONU e eu queria que você nos ajudasse a dimensionar esse número. Ele é comparável a outros conflitos em alguma medida?
Arthur Romeu
Nunca em tão pouco tempo se matou tantos jornalistas numa situação de conflito armado. As situações de conflito armado são um território, uma área de risco para a atividade profissional do jornalismo, mas os números, como você disse Natuza, são superlativos, são mais de 200 casos. A Repórteres Sem Fronteiras, através de um trabalho minucioso de investigação, identificou que em ao menos 56 desses casos, esses jornalistas foram deliberadamente visados ou estavam exercendo atividades no momento em que foram mortos. Não há precedentes, é uma situação completamente inédita, é difícil comparar com outros conflitos, mas a gente tem visto algumas comparações feitas com números da Primeira, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra do Vietnã, da Coreia e em outros conflitos armados, e simplesmente não é comparável, é um número que transcende qualquer expectativa, sem dúvida, o conflito armado em que a Repórter Sem Fronteiras mais documentou casos de jornalistas assassinados em tão pouco tempo.
Natuza Nery
Eu tenho aqui algumas comparações que eu queria consultá-lo. Quase três vezes maior que o total combinado da Primeira e Segunda Guerra Mundiais, que somaram 69 jornalistas mortos. Guerra do Vietnã, Cambódia e Laos foram 71. E na invasão russa-ucrânia, que segue desde 2022, 19. Esses dados estão corretos?
Arthur Romeu
São dados que ilustram a dimensão do que a gente tá vendo agora. A gente tá falando de menos de dois anos de conflito e são aí, em média, mais de dez jornalistas assassinados mortos nesse conflito por mês. Então, é uma escala, de novo, sem precedentes. Talvez um outro conflito de longa duração e que a gente tenha visto uma quantidade tão significativa de casos é o da Síria. Então, na Síria, durante dez anos de monitoramento de casos de jornalistas mortos cobrindo esses conflitos, sequestrados, vítimas de outros tipos de violação no conflito que houve na Síria, a gente chega a números comparáveis, mas a gente está falando de uma escala temporal de 10 anos em comparação a menos de dois. De fato, mais uma vez, é algo inédito. Faltam palavras, muitas vezes, para a gente poder descrever essa situação e as imagens que a gente viu ontem da cidade de Gaza não são casos isolados. Faz parte de uma tendência que vem se confirmando desde outubro de 2023 nas operações que vêm sendo conduzidas pelas Forças de Defesa de Israel em Gaza.
Narrator/Reporter
As principais agências de notícias do mundo.
Arthur Romeu
Divulgaram um comunicado conjunto em que mostram grande preocupação com a fome de jornalistas em Gaza e pedem que o governo de Israel libere a entrada e a.
Narrator/Reporter
Saída destes profissionais do território palestino. Foram a Reuters, a Associated Press e a France Press, as maiores do mundo A britânica BBC News também endossou o documento que diz Agora, eles enfrentam as mesmas circunstâncias terríveis que aqueles que cobrem.
Natuza Nery
E quais são os principais direitos garantidos a jornalistas em zonas de conflito, em zonas de guerra? O que o direito internacional, humanitário, reconhece em relação aos jornalistas?
Arthur Romeu
O direito humanitário internacional é muito claro ao classificar um status, de dar um status de proteção para o trabalho de jornalistas. Eles não são considerados combatentes, são partes neutras, tem mesmo status de civis, não combatentes, por entender que a atuação desses profissionais num contexto como esse é absolutamente essencial para levar um das informações do que vem acontecendo e como testemunhas oculares desse primeiro rascunho da história que vai acontecendo no caso do conflito. É fundamental para que a sociedade, não só nas fronteiras do conflito, mas também em outros países do mundo, que são impactados de muitas formas por essa situação, possam estar cientes e terem acesso a uma informação que não é uma informação totalmente dependente das versões oficiais das partes envolvidas nesse conflito. Então, o olhar desses jornalistas foi fundamental em vários momentos da história, Acho que a gente pode citar a Guerra do Vietnã como um momento histórico particularmente emblemático em que o papel dos jornalistas cobrindo essa guerra foi fundamental para que houvesse uma tomada de consciência do drama que estava sendo vivido no front e mudar a opinião pública e fazer com que a gente tivesse acesso, enquanto a nossa humanidade compartilhada, a nossa empatia pudesse chegar mais perto das consequências desse tipo de conflito armado. Então é um papel absolutamente central que os jornalistas exercem e por isso ele é amplamente garantido desde as convenções de Genebra, enfim, todos os textos aí que garantem a atuação desses profissionais no contexto de conflito armado e dão esse respaldo a essa atividade, inclusive classificando ataques deliberados contra jornalistas como crimes de guerra.
Natuza Nery
Você já passou por isso, mas eu vou pedir para que você esclareça um pouco mais. Por que é importante que profissionais da imprensa estejam dentro dos conflitos? E o que a sociedade perde quando os jornalistas não estão lá ou quando há restrições ao trabalho da imprensa?
Arthur Romeu
Os jornalistas, eles servem como um vetor da garantia do direito a um acesso a uma informação plural, veraz, confiável, independente, sobre os fatos. Então, muitas vezes, quando a gente está falando sobre essa situação, a gente não está falando somente, e ainda que seja já muito, da integridade física e emocional desses profissionais que estão atuando nesse contexto. A gente está falando do nosso próprio direito, como cidadãos de qualquer país do mundo, de ter acesso a essas informações, de estarmos bem informados sobre os acontecimentos globais. Conflitos armados são lugares onde tradicionalmente ocorrem uma grande quantidade de crimes e violações de direitos humanos, crimes de guerra. Então ter a presença de profissionais de imprensa registrando isso, ao menos é uma forma de você garantir o acesso ao direito à informação. trazer uma forma, um olhar que é diferente daquele que é utilizado nas lógicas de propaganda e de guerras de desinformação, que também são mobilizadas pelas diferentes partes que estão envolvidas no conflito, e em produzir esse sentimento que a opinião pública no mundo, que as sociedades do mundo entendam, se aproximem do impacto das consequências do que uma guerra representa. Sem esse olhar de jornalistas como a Nasser Al-Sharif, que foi morta há duas semanas, repórter importante da Al-Jazeera, sobre a situação da fome em Gaza, talvez a gente não tivesse a dimensão de que isso estivesse ocorrendo dessa forma e as consequências.
Narrator/Reporter
O ataque aéreo israelense que matou o jornalista da TV Al Jazeera, Anas Al Sharif, de 28 anos, quatro cinegrafistas e um repórter freelancer local, foi feito por um drone que acertou intencionalmente a tenda onde eles trabalhavam, perto do hospital Al Shifa, no leste da cidade de Gaza. No local do ataque, restos de tendas destruídas, escombros e manchas de sangue ainda são visíveis. O Escritório de Direitos Humanos da ONU, autoridades de Gaza, a rede Al Jazeera e diversas organizações internacionais definiram o bombardeio como uma grave violação do direito internacional humanitário.
Arthur Romeu
O Anas Al Sharif vinha sendo acusado por Israel de ter envolvimento com o Hamas, associando esse jornalista a ações de um grupo terrorista. Isso vinha acontecendo já há vários meses, pelo menos desde outubro do ano passado, ainda que as provas ou os documentos que subsidiassem essas acusações sempre foram e ainda são absolutamente frágeis, pintando esse jornalista um alvo nas costas. Esse jornalista que era também um dos rostos mais conhecidos do jornalismo, da cobertura pra Aljazeera, para essa agência internacional, a Ojasíria, da cobertura do que vinha acontecendo em Gaza. Ele tinha apenas 28 anos, se consolidou como repórter aluno desse conflito.
Narrator/Reporter
Inclusive, recentemente, o mesmo Al-Sharif fez críticas públicas ao grupo terrorista. O jornalista deixou pronta uma mensagem póstuma postada no perfil dele e nesse texto aqui ele diz que teve a voz silenciada e que viveu a dor em todos os detalhes, experimentou o sofrimento e as perdas, mas nunca hesitou em transmitir a verdade e sem distorção.
Arthur Romeu
Ele, de certa forma, presenteou A sociedade, o mundo, com uma das imagens mais emblemáticas, talvez uma delas que esteja na memória, é quando houve o anúncio do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em que ele, ao vivo, vai tirando o capacete, vai tirando o colete à prova de balas aos poucos, enquanto ele narra essa decisão, esse anúncio. de um cessar-fogo. E é muito emocionante, são muito emocionantes essas imagens e ver toda a população que estava cercando esse jornalista na hora que ele vinha fazendo essa transmissão ao vivo, celebrando esse momento junto. É uma história, de outras tantas, que relata a humanidade por trás desse número. Eu acho que outros casos, agora como o da Mariam, que foi uma repórter que foi morta nos ataques no bombardeio contra o complexo hospitalar ontem no centro das cidades de Gaza, uma das cinco, ela era correspondente para a Society Press. Marian Daga tinha 33 anos, era mãe de um menino que deixou Gaza no início da guerra, e ela vem fazendo reportagens sobre a condição dos hospitais e a desnutrição das crianças. Ela atuava como freelancer da agência Associated Press. repórteres que vinham fazendo esse trabalho e ela tinha um filho pequeno e a gente viu algumas homenagens sendo feitas a essa jornalista com as imagens que ela vinha fotografando do conflito nos últimos meses. São imagens profundamente tocantes, então a ideia de que uma pessoa que vinha narrando isso em primeira mão, que já tinha o seu testamento pronto, uma mensagem para o seu filho, para caso ela morresse, quer dizer, toca a gente num lugar que tira só o chapéu de jornalista e coloca um chapéu da humanidade compartilhada por trás da atuação profissional dessas pessoas, que está muito centralmente mobilizada pela ideia de que é importante narrar o que está acontecendo. Acreditar piamente de que, ao narrar aqueles acontecimentos, você pode estar provocando algum tipo de mudança.
Natuza Nery
Você menciona um bilhete deixado por uma das jornalistas mortas em Gaza. O que ela dizia?
Arthur Romeu
É uma mensagem incrivelmente de esperança. É uma mensagem que... Uma dedicatória, na verdade, ao filho, pedindo que ele siga sendo quem ele quer ser e que caso ele venha a ter uma filha no futuro, ela pede que ele se case, que ele tenha uma vida preenchida, uma vida feliz. E que caso desse caso venha a ter uma filha, que ele nomeie a filha com o nome dela em homenagem. Então, são mensagens muito emocionantes, sempre. E o Anas al-Sharif também tinha feito uma dedicatória, já tinha pronto um testamento para caso ele fosse assassinado. Quer dizer, você vê o nível que a gente tá falando, são jornalistas que vão para uma situação de conflito que estão cobrindo isso, que sabem dos riscos que estão colocados, que seguem atuando nessa linha de frente, mas que já vão deixando mensagem de despedida, né? Porque entendem que a probabilidade de que eles consigam seguir exercendo essa profissão no contexto atual é absolutamente Então, a gente vem chamando atenção para isso. A gente, a Repórteres Sem Fronteiras, já fez quatro denúncias no Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra nesse contexto. Isso vem sendo somado aos inquéritos e às investigações que o Tribunal Penal Internacional tem conduzido sobre as denúncias de filhos de guerra, de maneira geral, nesse conflito.
Natuza Nery
E o que acontece com essas denúncias? O que aconteceu? Se algo aconteceu com essas quatro que vocês já apresentaram?
Arthur Romeu
A gente teve comunicações de parte do Tribunal Penal Internacional de que elas seriam incluídas nas investigações gerais. Mas a triste realidade é que muito pouco acontece, né? Muito pouco acontece. A gente já tá chegando numa altura em que vão nos faltando palavras pra descrever essa situação. De maneira geral, Repórteres Sem Fronteiras tem chamado a atenção pra uma lógica de apagão mediático, né? Esse tem sido o termo que a organização vem utilizando globalmente. mostrando que essas mortes não são isoladas, ou seja, que elas são parte integral de uma estratégia de apagão mediático, de blackout informativo do que vem acontecendo, que inclui, sim, denúncias graves, de ataques deliberados contra jornalistas que estavam devidamente identificados como jornalistas, mas também destruição de prédios de agências internacionais de notícia, equipamentos, o fato de impedir a entrada de jornalistas e correspondentes internacionais que querem cobrir esse conflito armado, que não podem fazer e quando vão fazer isso tem que entrar às raras ocasiões, sendo acompanhados pelos Pelas forças de defesa israelense no território que limita muito a autonomia desses profissionais na hora de fazer a cobertura.
Narrator/Reporter
Enquanto isso, os ataques de Israel continuam. E essas e outras imagens continuam sendo registradas por repórteres que correm riscos. Que podem descobrir enquanto trabalham que um parente ou um amigo morreu.
Arthur Romeu
E a gente tem uma expectativa de uma resposta à altura. Então, o último chamado da RSF foi para que houvesse uma reunião emergencial do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Para além do quadro normativo do direito internacional humanitário, a gente tem outras resoluções que afirmam a importância do trabalho jornalístico em conflitos armados e uma dessas resoluções é do próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas. Tem uma resolução 2.222, de 2015, que afirma a relevância e que dá um caráter de que as partes do conflito têm que proteger a atuação dos jornalistas e criar estratégias de prevenção para que esses jornalistas possam seguir a tua.
Natuza Nery
Arthur, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no assunto. Boa sorte no seu trabalho.
Arthur Romeu
Obrigado Natuza.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Natuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 27 de agosto de 2025
Host: Natuza Nery
Convidados: José Hamilton Ribeiro (jornalista veterano, autor de “O Gosto da Guerra”), Arthur Romeu (diretor para América Latina da Repórteres Sem Fronteiras)
Este episódio de “O Assunto” explora o contexto e as consequências do conflito Israel-Gaza para jornalistas, destacando como a guerra em Gaza se tornou a mais letal da história moderna para profissionais de imprensa. Natuza Nery entrevista José Hamilton Ribeiro, repórter brasileiro que cobriu a Guerra do Vietnã, e Arthur Romeu, diretor da ONG Repórteres Sem Fronteiras, para discutir o papel e os riscos dos jornalistas em zonas de guerra, o impacto histórico das mortes e as violações ao direito internacional humanitário.
“Esses números representam mais do que a soma do número de jornalistas mortos nas duas guerras mundiais, na guerra do Vietnã e ainda nos conflitos na Iugoslávia e no Afeganistão.”
– Narrator (01:47)
“É quase que uma especialidade do jornalismo comum. A pessoa que tem propensão para isso, que tem interesse nisso, procura se informar [...] depende de um pouco de coragem, um pouco de audácia, um pouco de falta de juízo, talvez principalmente isso, falta de juízo.”
– José Hamilton Ribeiro (10:14)
“Nunca em tão pouco tempo se matou tantos jornalistas numa situação de conflito armado. [...] Não há precedentes, é uma situação completamente inédita.”
– Arthur Romeu (13:12)
“O olhar desses jornalistas foi fundamental [...] para que houvesse uma tomada de consciência do drama que estava sendo vivido no front.”
– Arthur Romeu (16:53)
“Sem esse olhar de jornalistas como a Nasser Al-Sharif, [...] talvez a gente não tivesse a dimensão de que isso estivesse ocorrendo dessa forma.”
– Arthur Romeu (18:57)
“É uma mensagem incrivelmente de esperança. [...] pediu que ele siga sendo quem ele quer ser [...] caso venha a ter uma filha, que ele nomeie a filha com o nome dela em homenagem.”
– Arthur Romeu (25:10)
“A triste realidade é que muito pouco acontece, né? Muito pouco acontece.”
– Arthur Romeu (26:54)
O episódio ressalta o papel fundamental e corajoso dos jornalistas em zonas de conflito, alertando para o perigo histórico e sem precedentes vivenciado na guerra em Gaza. Além de dados e análises, são compartilhadas memórias pessoais e histórias humanas, evidenciando que por trás das estatísticas estão indivíduos comprometidos em trazer a verdade à tona, mesmo sob risco de vida. A impunidade diante de crimes cometidos contra jornalistas e o bloqueio informativo reforçam o apelo por uma resposta global contundente para salvaguardar o jornalismo e, por extensão, o direito à informação da sociedade.
Ouça este episódio para entender profundamente como a cobertura jornalística é tão vital – e perigosa – nas guerras do nosso tempo.