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Natuza Neri
Pelo terceiro dia, os Estados Unidos e Israel seguiram os ataques contra o Irã. Mais tropas e mais caças já estão a caminho. E o presidente americano, Donald Trump, ao contrário do que vendeu para os Estados Unidos durante a eleição, disse que não pretende parar tão cedo. Nós temos as forças armadas maiores e mais fortes em todo o mundo e facilmente venceremos. Vamos levar o tempo que for necessário. Desde o início, nós projetamos quatro a cinco semanas, mas nós temos a capacidade de ir mais adiante e vamos fazer isso. Junto com os ataques, veio a retaliação, expandindo o conflito pelo Oriente Médio. Desde sábado, as notícias traçam no mapa alianças e alvos.
Hossein Kalou
Nós estamos acompanhando, neste momento, explosões que ocorrem no Líbano, no subúrbio de Beirute, capital do país. É possível ver essa grande coluna de fumaça, muita destruição aqui. Nós vemos prédios, imóveis, muitos deles já danificados por explosões anteriores.
Natuza Neri
Também houve explosões no Catar, no Bahrein, em Oman e nos Emirados Árabes Unidos. Instalações de petróleo e gás na Arábia Saudita foram atingidas. E no Kuwait, jatos F-15 dos Estados Unidos foram abatidos por engano pelo exército aliado.
Unknown Expert or Correspondent
Durante os ataques de hoje, um drone atingiu uma base militar do Reino Unido, no Chipre. É uma ilha do Mediterrâneo que faz
Hossein Kalou
parte da União Europeia. Alemanha, França e Reino Unido admitem intervir no conflito, caso Teherã continue a bombardear outros países na região. Mas é uma ideia, por enquanto, não apoiada pela União Europeia, que numa declaração conjunta fez um apelo à contenção e à via diplomática para solucionar a crise.
Natuza Neri
O secretário-geral da ONU pediu o fim imediato das hostilidades e falou do risco de uma guerra regional ainda mais ampla. Do lado americano, o discurso é de afastar o histórico de incursões problemáticas. O chefe do departamento de guerra afirmou, inclusive, que o conflito com o Irã não será um novo Iraque, que esta é uma guerra com um fim estipulado. Encerrar o programa nuclear iraniano. Para Pete Hexett, o objetivo não é uma mudança de regime, mesmo que este já tenha mudado de comando. Mas não foi isso que disse Trump ao anunciar os bombardeios. No próprio sábado, ele conclamou a população iraniana a se sublevar.
Hossein Kalou
Bombas cairão por todos os lados.
Natuza Neri
Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo.
Hossein Kalou
Ele estará pronto para ser tomado por vocês.
Natuza Neri
Esta será provavelmente a única chance em gerações.
Hossein Kalou
A morte de Ali Khamenei há quatro
Natuza Neri
dias coloca o mundo em estado de ansiedade. O planeta todo é afetado nas mais diversas frentes. Petróleo, malha aérea, transporte marítimo, o preço do ovo e das moedas nacionais e o dólar. Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje é A guerra no Oriente Médio e o futuro do regime iraniano. Neste episódio, eu converso com Hossein Kalou, cientista político e conselheiro do CEBRE, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Terça-feira, 3 de março. Hussein, a gente viu o que aconteceu no sábado, a extensão dos ataques, a gente também viu a reação iraniana, mísseis, drones contra Israel e países do Oriente Médio que têm bases americanas por lá, só que de lá para cá a situação piorou e vem piorando Hora a hora o Hezbollah atacou Israel, o Israel bombardeou Beirute, capital do Líbano. Drones iranianos também atingiram agora a infraestrutura no Catar, que é um país parceiro dos americanos na região. Antes de entender quem são todos os atores envolvidos e os interesses nessa história, pedi para que você nos esclareça algo importante. Já é possível afirmar que estamos diante de uma guerra generalizada no Oriente Médio?
Hossein Kalou
O que nós temos, primeiro, é uma guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Não se trata de uma guerra de necessidade, é uma guerra de escolha. é uma guerra de agressão. Toda guerra de escolha é uma guerra que viola o direito internacional, portanto, lhes torna uma guerra de agressão, assim como a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Então, estamos diante disso, porque o Irã estava na mesa de negociação, o Irã estava negociando, o Irã havia feito concessões importantes aos Estados Unidos, razão pela qual uma rodada de negociação começaria hoje. segunda-feira, dia 2 de março, em Viena, para tratar do avanço do diálogo no nível técnico quanto à extração do urânio enriquecido a 60% pelos uranianos de Teherã. Bom, é isso, é o quadro. Portanto, o que nós temos hoje é uma guerra entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, que se espalhou pela região. Não é uma guerra regional no sentido Irã contra os países, senão uma guerra que se espalhou pela região em função da presença americana por diversos países do Golfo Pérsico. Os Estados Unidos possuem bases militares na Arábia Saudita, no Catar, nos Emirados Árabes, no Kuwait, no Iraque, na região de Erbil. E os iranianos haviam alertado de que, uma vez forem agredidos militarmente, eles iriam retaliar. E a forma de retaliação seria atacar as bases americanas dentro da região. O Irã atacou os Emirados Árabes, Qatar, Bahrein e Kuwait. Todos esses países têm bases americanas no Golfo Pérsico. O Iraque e a Jordânia, outros países que também têm bases militares americanas, também foram alvo. Já a Arábia Saudita afirmou que o Irã atacou a capital Riad e a região leste do país. Essa é a forma de zoazória que eles encontraram. Então, em primeiro momento, eles atacaram essas bases. Obviamente, no segundo momento, fecharam o Estreito de Hormuz. Obviamente que, além de atacar as bases, eles também estão procurando, como passo subsequente, atacar os interesses econômicos dos Estados Unidos na região.
Natuza Neri
O Irã conta com uma geografia privilegiada, porque controla o estreito de Hormuz, por onde passa um quinto da produção de petróleo mundial. Especialistas apontam que esse fechamento pode fazer o preço do barril de petróleo, que já vinha subindo desde o início do ano, superar 100 dólares.
Hossein Kalou
E aí a gente vê, por exemplo, o aumento do preço do barril de petróleo, o barril de petróleo salta aí da casa dos 70 e poucos dólares, já está quase na casa dos 80 e poucos dólares, entrou na casa dos 90 dólares, o preço de gás na Europa aumentou 50%, o preço do seguro dos cargueiros petrolíferos que estão ali parados no estreito de Ormuz disparou excessivamente, então há um dano econômico considerável hoje no mundo que vai gerar um efeito inflacionário, isso da perspectiva econômica. Da perspectiva militar, o que a gente vê, os Estados Unidos se organizaram para uma campanha militar curta, imaginavam que seria de uma semana, um pouco mais, até de duas, já falam de quatro, cinco semanas, ou talvez mais, ou seja, eles no curso, no transcurrir desse conflito, já fazem uma recalibragem quanto à questão temporal. Eles trabalham com duas linhas, ou ora eles dizem que querem acabar com o programa nuclear, e se contradizem nesse aspecto porque eles haviam afirmado no ano passado que obliteraram o programa nuclear iraniano e agora dizem que querem acabar com o regime iraniano. Essa missão me parece muito mais complexa, essa operação de acabar com o regime não se faz somente com ataques aéreos, isso teria que ser a partir de um ataque terrestre, um ataque terrestre envolve uma mobilização muito grande, não se resolve num mês e não se resolve somente decaptando o regime, porque a natureza do regime iraniano é um regime que é horizontalizado, não é verticalizado, é um regime que possui múltiplas forças políticas, muito mais sólido, muito mais ideológico.
Natuza Neri
Quem é que manda no Irã?
Unknown Expert or Correspondent
O presidente governa, ele decide os ministérios, qual vai ser a política, a política pública de saúde. Só que o presidente não controla as forças armadas. Que é um elemento fundamental do poder. É importante entender que o Estado iraniano é organizado de uma maneira em que o poder é extremamente fragmentado em diversas estruturas políticas.
Natuza Neri
Com a morte do Ayatollah Khomeini em 1989, assumiu o Ayatollah Ali Khamenei. Morto agora nos ataques por inimigos que ele alimentou em quase 40 anos, se opondo à hegemonia americana e israelense na região. Citou outros personagens como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e por aí vai. Quem são os personagens ocultos ou não óbvios desse conflito até aqui? Ou, vou avançar até, quem é que pode entrar dando essa escala regional de um conflito geral no Oriente Médio?
Hossein Kalou
o arco de aliança do Irã já está envolvido, quer dizer, você tem o Al-Hashd Shabi, que é a Força de Mobilização Popular no Iraque, eles já estão atuando, já estão operando na região de Erbil, atacando, digamos, as infraestruturas americanas vinculadas aos curdos na região de Erbil, já estão atuando. O Hezbollah no Líbano ontem atacou Israel a partir do sul do Líbano lançando seis mísseis contra o norte de Israel.
Unknown Expert or Correspondent
O primeiro-ministro do Líbano condenou duramente o Hezbollah pela ação contra Israel. Não que ele tenha qualquer simpatia pelo Israel, ele não tem. Mas o governo libanês e a maioria dos libaneses não querem que o Líbano se envolva em uma guerra dos outros. Na visão do Líbano, essa é uma guerra do Irã e de Israel. O Líbano não tem nada a ver com esse conflito, portanto, não queria esse envolvimento. Mas o governo libanês, mesmo sendo contra o Hezbollah, não conseguiu segurar o grupo e agora a tendência é que continue essa escalada entre Israel e o Hezbollah.
Hossein Kalou
A gente ainda tem os RUTs que por hora não agiram até o presente momento, mas a depender do curso da escalada, nos próximos dias ou semanas podem vir a entrar no contexto operacional do conflito. O que Rússia e China, que estão por hora calados, apenas estão se manifestando diplomaticamente. Mas é óbvio que eles já estão envolvidos de forma indireta, porque eles vêm abastecendo o Irã com armamento. Antes do início da guerra, eles já vinham abastecendo o Irã com armamentos e também com informações de inteligência e também com informações satelitais. de posicionamentos da armada americana e também dos movimentos.
Natuza Neri
Inclusive a China, Hussein?
Hossein Kalou
Inclusive a China, obviamente. A China é um aliado estratégico. A China não quer ver o Irã cair nas mãos americanas. A China é um dos patrocinadores da presença do Irã nos BRICS. O Irã é um dos principais fornecedores de petróleo para a China. O Irã é uma peça-chave no enquadramento da estratégia chinesa do Belt and Road, de cinturão e roda, ou seja, da Rota da Seda, da interligação, digamos, da Ásia para a região euroasiática, vamos dizer assim. O Irã é peça fundamental, digamos, na engrenagem estratégica da expansão da China para o Oriente Médio, embora a China não pretenda se envolver diretamente no conflito, ela se envolve oferecendo aporte logístico. Por exemplo, 20 cargueiros chineses, digamos, equivalentes ao KC-390 que o Brasil tem, aviões similares, desceram em Teherã, em sul, estamos falando de um mês e meio para dois meses atrás, com armamento, armamento, digamos, mísseis aquáticos que tem por finalidade alvejar navios de guerra. além de sistema de radares, além de sistema de defesa antiaéreo. Então, a China não deseja ver o Irã cair na malha estratégica do bloco pró-Estados Unidos. Nem a Rússia gostaria de ver isso. A Rússia também forneceu ao Irã vários materiais béis e um sistema de defesa antiaéreo que é carregado no ombro, cujo qual você consegue, até uma distância de 4 km, atingir aldos móveis próximos, digamos, à órbita de 4 km. Então, esses dois países vêm abastecendo o Irã com armamento desde junho, desde a guerra de 12 dias, do meio do ano passado, de julho do ano passado, de forma, digamos, silenciosa. Eles não precisam anunciar, mas isso dentro do contexto do Médio Oriental já é conhecido, esse apoio bélico.
Natuza Neri
E esse ataque a que você se refere é o ataque de junho do ano passado, quando três unidades do programa nuclear foram abatidas e a gente não sabe a extensão, porque não temos a comprovação do quão destrutivo ou destrutivos foram aqueles ataques.
Hossein Kalou
É, nós, eu e você, Natuza, porque o governo Trump disse que obliterou o programa nuclear iraniano. declaração oficial da Casa Branca. Sim, mas é porque a gente não
Natuza Neri
tem prova disso, né? O mundo não tem prova.
Hossein Kalou
É, o mundo não tem prova, mas o discurso deles é esse. Tanto é que eles estão sendo cobrados pelo Partido Democrata, pela população, E pela mídia americana, inclusive no editorial do New York Times, sendo cobrados que, ó, vocês estão dizendo que vão para a guerra para destruir o programa nuclear, mas vocês disseram que obliteraram. Então, qual é a razão de ir para a guerra?
Natuza Neri
Agora, tem um outro personagem nessa história que eu queria muito que você qualificasse, porque você já falou de Rússia, já falou de China. A Europa está tomando partido de quem?
Hossein Kalou
A Europa está dividida no que diz respeito a isso. Parte da Europa tomou lado do direito internacional e parte da Europa, lamentavelmente, tomou lado do unilateralismo. Explico isso. Países como a Noruega, Espanha e Suíça condenaram o ataque de Israel dos Estados Unidos. No entendimento desses países, houve uma violação ao direito internacional, trata-se de uma guerra de agressão, assim como Rússia fez na Ucrânia. E esses países entendem que o Irã estava negociando e estava fazendo concessões. Portanto, não havia uma causa que justificasse a agressão. Bom, por outro lado, países como Alemanha, França e Reino Unido, que estavam criticando o Trump por causa do seu unilateralismo no que diz respeito à Grolandia, por exemplo, que estavam acusando o Trump de enfraquecer o sistema multilateral, que estavam avocando o direito internacional como princípio basilar para a diplomacia mundial e para a resolução pacífica das controvérsias, Surpreendentemente, eles fazem manifestações oficiais de apoio ao uso da força de forma unilateral, que viola a Carta das Nações Unidas no momento em que o Irã estava negociando. Apoiam o ataque militar ao Irã e isso significa endossar o unilateralismo.
Natuza Neri
Vamos lá para a Assembleia Geral da ONU, vamos ver o representante iraniano. Carta das Nações Unidas. Uma guerra contra as leis internacionais, uma guerra contra a ordem legal internacional sobre a qual o Conselho de Segurança e as Nações Unidas, como tudo, vêm sendo construídas há décadas.
Hossein Kalou
Se você quiser atacar outro país, bom, você tem as instituições multilaterais, você pode aprovar uma resolução no Conselho de Segurança para tal penalidade. E isso foi surpreendente, porque isso prova a paradoxalidade do discurso no que diz respeito ao direito internacional. Isso significa que o discurso deles com a Rússia se torna totalmente ambivalente. Por exemplo, se o Putin nesse momento agora decidir, por exemplo, pegar e mandar uma dúzia de mísseis contra o palácio do Zelensky e matar o Zelensky, que nem Israel e Estados Unidos fizeram contra o Ayatollah Ali Khamenei, o Putin pode justificar, estaria justificado pelo discurso europeu. Pelo discurso de França, Alemanha e Reino Unido, teria justificado. Então, há uma paradoxalidade, acaba expondo os países europeus, essa divisão na Europa, Ela revela o antagonismo de posições no que diz respeito aos valores do direito internacional.
Natuza Neri
Hussein, antes de falar de como essa guerra pode escalar ou para que lado ela pode escalar, queria só resolver aqui um outro ponto contigo. O governo iraniano afirmou que um dos seus ataques atingiu o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o que o governo israelense nega ataques que teria se dado no gabinete dele em Jerusalém. Aqui no Brasil, o ex-chanceler do governo Lula, Celso Amorim, hoje assessor especial de Lula, disse, abre aspas, devemos nos preparar para o pior. O que é o pior, Hussein? É uma guerra que implique ataques nucleares, por exemplo?
Hossein Kalou
Olha, Natuza, eu acho que Uma guerra dessa magnitude está em processo de escalada contínua. Não estamos nos dias iniciais. Eu acho que... os Estados Unidos ainda não empregaram seu potencial letal. A tendência é que, com o passar dos dias, eles empregam armas mais potentes, mais destrutivas. Eles têm um banco de alvo robusto no Irã e o objetivo, me parece, é destruir a infraestrutura militar iraniana por completo. Esse é o objetivo, na minha opinião, nas próximas semanas. Uma vez que... Enfim, não é viável destruir o regime, não é viável você destruir o programa nuclear por completo, então você vai destruir a infraestrutura militar. Israel é um país que não mede consequências, não respeita nenhum tratado internacional, não me surpreenderia, digamos assim, se optar por usar armas táticas nucleares. Agora, daí empregar isso também tem consequências, tá? E os iranianos, por seu lado, também não empregaram as suas melhores capacidades bélicas. Há uma leitura no Oriente Médio de que tanto os EUA quanto os EUA subestimaram a capacidade de quanto o Irã detém de mísseis. Houve um cálculo equivocado de quanto o Irã detém de mísseis e de qual é a capacidade destrutiva desses mísseis.
Natuza Neri
Lembra do que se diz sobre a capacidade em termos de mísseis do Irã, é de que eles teriam uma grande quantidade de mísseis de curto e de médio alcance, mas não teriam mísseis de longo alcance a ponto de atingir os Estados Unidos, por exemplo.
Hossein Kalou
Não, eles não têm isso definitivamente, mas o objetivo deles não é atingir os Estados Unidos, é o quanto que eles podem causar estrago dentro do contexto regional. E o tendão de Aquiles do Trump é Israel, Israel que fez o Trump ir para a guerra, o Netanyahu que fez o Trump ir para a guerra. e o Netanyahu que pode fazer o Trump parar a guerra.
Natuza Neri
Aliás, esse é um argumento que já vi na imprensa americana a partir de republicanos, de que Trump está descumprindo uma promessa que ele fez de campanha para atender na visão desses republicanos um interesse de Israel. Trump, por exemplo, você já pisou nesse ponto, que Trump disse que essa guerra, projetou essa guerra para cinco semanas, você também já nos contou que talvez tenham subestimado a capacidade de resistência e de retaliação do Irã. Então eu te pergunto diante disso, um, qual é a expectativa real do tempo de duração dessa guerra e qual é o impacto dela para Donald Trump no seu ambiente doméstico. Porque muitos americanos, Hussein é bom que se diga aqui, se perguntam agora o que o Irã tem a ver com o preço das casas, o que o Irã tem a ver com o preço das coisas, da inflação, com falta de plano de saúde, com falta de atendimento, com corte de gastos, enfim.
Hossein Kalou
A base maga está dizendo que o Trump está colocando Israel first, Israel primeiro, não é America first. É isso que está sendo discutido hoje nas redes sociais americanas. O custo para Trump é alto. Quanto maior dura a guerra, pior o custo para ele. Primeiro é o custo econômico da guerra, os custos econômicos da guerra. são grandes, porque ele está usando o imposto do contribuinte americano. Dois, o impacto econômico gera inflação, que vai gerar inflação, não tenha dúvida disso. Terceiro, você tem o impacto das baixas, dos soldados mortos, do maquinário destruído. Então isso vai começar a chegar e vai ter impacto na opinião pública americana. Isso já vai gerar crítica da base e dos dois partidos. A popularidade dele está baixa. Então, partindo desse prospecto que se desenha, o Trump planejou uma vitória rápida e decisiva. Ele subestimou a resistência e a capacidade bélica do Irã. Então, qual é a tendência? Se ele recuar, Fica péssimo pra ele. E se ele avançar e não consegue ter resultado concreto, também fica ruim pra ele. A questão é, durante o transcorrer dessas quatro semanas, ele precisa encontrar, e essa é a avaliação que ele deve estar fazendo, o momento certo de tentar parar. o momento certo em que ele possa ser percebido como vitorioso, possa ser percebido, não que ele vai ser vitorioso, possa ser percebido, possa criar imagem de vitorioso para ele sair do combate e negociar uma trégua com os iranianos. Mas diante do relato, o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, já negou. E disse que o país não vai negociar com os Estados Unidos. A questão é, os iranianos quererão parar? Na minha opinião, os iranianos quererão arrastar esta guerra para o maior tempo possível, para o maior prazo possível. Porque o maior tempo possível gera o maior dano possível para o Trump. Essa que é a questão. Porque eles já precificaram a perda. Eles estão sob sanções, Natuza. Eles não perdem mais nada, tá entendendo? Antes de matar o Kaminei, pra eles a guerra era uma guerra de efeito político. Quando você mata o Kaminei, que é o líder supremo, que tem uma função, veja bem, mais religiosa do que política. A guerra pra eles agora é uma guerra religiosa, não é uma guerra política mais. É uma guerra de inspiração religiosa, é uma guerra sacro-santa. Então, eles estão dispostos a ir até o limite. É o que eles estão dizendo agora. É, go all out. Ir com Pra tudo ou nada.
Natuza Neri
E isso eu queria te perguntar, né? ele. Como é que vai se dar o processo de sucessão do Ali Khamenei? Você já disse que essa se transforma internamente numa guerra sacrosanta, ou pelo menos pro exército iraniano. Como é que se dá, número um, a sucessão do Ali Khamenei? Qual é o nível de abalo com sua morte para o sistema? E qual vai ser o papel da guarda revolucionária iraniana, como é o nome dela, nesse processo?
Hossein Kalou
Veja bem, o Irã é um país muito complexo, multifacetado politicamente, embora se pareça um regime monolítico. Não é monolítico no sentido, digamos, verticalizado. Ele é um regime composto por múltiplas forças políticas, certo? Você tem lá os teocratas, você tem lá os reformistas, os moderados, você tem lá a guarda revolucionária. Tudo isso compõe lá um mosaico do sistema político iraniano. Então, assim, É muito difícil você... desmantelar a estrutura do regime, entendeu? Então, se o Trump acha que eliminando as lideranças, na expectativa de novas lideranças da guarda chegarem para cujo qual ele pode negociar com elas, ele tá muito enganado, ele não conhece o Irã, entende? Ele não conhece. Ou não tá ouvindo nos Estados Unidos as pessoas certas que conhecem o Irã. Porque tem pessoas que conhecem. O Irã não é um país, é uma civilização. Os Estados Unidos é um país, mas não é uma civilização. É importante entender isso. Os caras são os péssaros. Agora, como é que vai se dar o processo de sucessão? O Caminet era um homem de 86, 87 anos. Ele já estava adoentado. Ele já estava, digamos, sabendo que estava nas últimas, nos seus últimos dias de vida. Então, o processo de transição já se deu no Irã há um tempo. os seus sucessores já estavam sendo preparados, não é uma coisa vamos esperar morrer para ver quem assume, não é assim que funciona dentro da conformação do regime iraniano e ali tá funilando para três nomes basicamente, é isso aí, não tem, vai ser uma escolha entre três nomes que já vinham sendo preparados Assim, da perspectiva do regime, a morte do Khamenei como foi, ela foi assim, magnífica, entendeu? Assim, é meio hilário dizer isso, mas é isso, foi magnífica, porque o Khamenei poderia morrer daqui a uma semana, daqui a um mês, doente, numa cadeira de roda, no leito de hospital, mas morreu de uma forma como ele foi, ele morreu de forma gloriosa na perspectiva dos iranianos, é importante entender a cultura. a cultura persa e a cultura religiosa associada à cultura persa. Ele morreu de forma gloriosa, mártir, assassinado pelos seus piores inimigos da forma como foi. Porque a morte dele matou a mobilização da dissidência iraniana que foi celebrar. Quando saíram os apoiadores do regime, em comoção, isso matou os manifestantes, quer dizer, a oposição que tentou celebrar. Acabou, entendeu? Na verdade, o Trump acabou fazendo um grande serviço ao regime e desencadeou o processo de sucessão de forma gloriosa. Agora, como é que vai ser? A escolha não vai depender de uma pessoa? Ah, vamos escolher o fulano A ou o Beltrano B? Não é isso. A escolha vai ser assim. Nós queremos dialogar com o Ocidente, nós queremos nos fechar para o Ocidente. Assim que vai ser a escolha.
Natuza Neri
Isso é o que você chama de linha moderada e linha dura.
Hossein Kalou
Aí é essa que vai ser a escolha. Porque a gente fica, digamos, absorvendo informações vindas dos centros, digamos, ocidentais, e a gente olha para o Kaminé como um cara linha dura. Na verdade, Dentro da percepção oriental, o Carminei era um cara flexível, aberturista, tanto que durante o seu período de liderança lá, Você teve um presidente linhador, que é o Ahmadinejad, mas todos os outros eram, digamos, ou moderados ou reformistas. O Rafsanjani era moderado. O Khatami era reformista. O Rouhani era moderado, que abriu o diálogo para o programa nuclear com o governo Obama. O Pesekchian é um reformista, que está dialogando. O diálogo coincidente para a negociação, etc., não acontece sem a autorização do líder supremo. Então, é importante ter essas nuances, que a gente não tem muitas vezes aqui, só se estudar muito, mas voltando para o ponto. Então, a decisão vai ser, não vamos ter alguém mais aberturista, Ou seja, alguém que vai ser, vai manter a linha para um diálogo com o Ocidente ou não? Ou nós vamos ter alguém em linha dura ultraconservador? Porque se a escolha for assim, a escolha vai recair sobre uma pessoa que vai fechar o diálogo com o Ocidente. O Irã vai virar endógeno e não vai dialogar. E o caminho vai ser o quê? Construção de um arsenal nuclear. Não tenha dúvida disso. Custe o que custar. Custe o que custar. E o Kaminei era o quê? Qual é o embate do Kaminei com a Guarda Revolucionária? Ele tentava contrabalancear a Guarda Revolucionária. A Guarda queria a bomba atômica, o Kaminei que não queria, tanto que ele teve que fazer um decreto religioso. Então é isso que precisa ser compreendido. Esse é o embate. Se a escolha for por alguém em linha dura, essa linha dura, ultraconservador, ele vai acabar se alinhando com a guarda revolucionária, tá entendendo? E aí eu acho que o cenário fica muito mais, na minha opinião, obscuro, na minha opinião, para a região e para o Ocidente.
Natuza Neri
Hussein, muito obrigada pelas explicações todas. Bom trabalho pra você nessa observação constante do mundo neste momento.
Hossein Kalou
Natuza, muito obrigado, querida. Sempre é um prazer estar com você.
Natuza Neri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catellan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Host: Natuza Neri
Guest: Hossein Kalou (cientista político, conselheiro do CEBRE)
Date: 3 de março de 2026
Duration (main content): ~33 min
Neste episódio especial de “O Assunto”, Natuza Neri debate com Hossein Kalou, cientista político e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRE), sobre a escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, além dos desdobramentos regionais e as implicações para o regime iraniano após a morte do aiatolá Ali Khamenei. O episódio oferece um mergulho nas consequências geopolíticas, econômicas, militares e sociais do conflito, destacando nuances sobre alianças internacionais, o impacto nos mercados globais e o possível futuro político do Irã.
“Nós temos as forças armadas maiores e mais fortes em todo o mundo e facilmente venceremos. Vamos levar o tempo que for necessário.” — Donald Trump (cit. [00:17])
"Não se trata de uma guerra de necessidade, é uma guerra de escolha. É uma guerra de agressão." — Hossein Kalou ([04:45])
"O Irã conta com uma geografia privilegiada, porque controla o estreito de Hormuz, por onde passa um quinto da produção de petróleo mundial." — Natuza Neri ([07:19])
"O poder é extremamente fragmentado em diversas estruturas políticas." — Natuza Neri ([09:44])
“A China é um aliado estratégico. A China não quer ver o Irã cair nas mãos americanas.” — Hossein Kalou ([12:57])
“O discurso deles com a Rússia se torna totalmente ambivalente.” — Hossein Kalou ([18:20])
“Israel é um país que não mede consequências, não respeita nenhum tratado internacional, não me surpreenderia... se optar por usar armas táticas nucleares.” — Hossein Kalou ([20:22])
“O tendão de Aquiles do Trump é Israel... o Netanyahu que pode fazer o Trump parar a guerra.” — Hossein Kalou ([22:15])
"A base maga está dizendo que o Trump está colocando Israel first, Israel primeiro, não é America first." — Hossein Kalou ([23:43])
“O Irã é um país muito complexo, multifacetado politicamente, embora se pareça um regime monolítico.” — Hossein Kalou ([27:23])
“Desde o início projetamos quatro a cinco semanas, mas nós temos a capacidade de ir mais adiante e vamos fazer isso.” — Donald Trump ([00:17])
“É uma guerra de agressão, assim como a guerra da Rússia contra a Ucrânia.” ([04:48])
"O preço do seguro dos cargueiros petrolíferos que estão ali parados no estreito de Ormuz disparou excessivamente." — Hossein Kalou ([07:52])
“O Irã não é um país, é uma civilização. Os Estados Unidos é um país, mas não é uma civilização.” — Hossein Kalou ([27:44])
“Se a escolha for por alguém em linha dura... o caminho vai ser o quê? Construção de um arsenal nuclear. Não tenha dúvida disso. Custe o que custar.” — Hossein Kalou ([32:00])
“O Trump planejou uma vitória rápida e decisiva. Ele subestimou a resistência e a capacidade bélica do Irã.” — Hossein Kalou ([24:16])
O episódio traz uma análise didática, com falas incisivas e exemplos claros, reforçando a gravidade do momento internacional, sempre em busca de contextualizar para o ouvinte brasileiro o que está em jogo no tabuleiro global. Hossein Kalou se destaca pela clareza e franqueza, ao mesmo tempo em que adota uma perspectiva crítica sobre as motivações e consequências das decisões militares e diplomáticas dos atores envolvidos.
Este episódio aprofunda o entendimento sobre a guerra no Oriente Médio em 2026, mostrando que a disputa transcende um embate militar imediato, envolvendo intricados interesses energéticos, políticos, culturais e religiosos. A sucessão iraniana aponta para cenários de difícil previsibilidade, especialmente se o poder cair nas mãos de setores mais radicais, com risco real de uma escalada nuclear e de consequências econômicas globais ainda mais graves.
Recomendado para quem busca compreender a complexidade da crise, seu impacto internacional, e os potenciais desdobramentos para o Irã e para a ordem global.