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Carolina Ricardo
Tim Black, um plano exclusivo pra você descobrir a sua melhor versão.
Natuza Nery
A cena é a seguinte. Drones sobrevoam uma área urbana e lançam bombas do céu. No solo, colunas de fumaça se erguem em meio a prédios, casas, escolas e hospitais. Uma massa cinza visível em diferentes pontos da cidade. E uma intensa troca de tiros. É o retrato de uma guerra e de um novo patamar no confronto entre a polícia e as facções criminosas. Estamos falando do Rio de Janeiro.
Reporter/Journalist
O que a bandidagem tá fazendo?
Carolina Ricardo
Tá usando drones pra lançar bombas, isso.
Reporter/Journalist
Aconteceu com equipes da CORE.
Analyst/Commentator
Isso aí mostra também o espaço e.
Carolina Ricardo
A capacidade que os bandidos têm, tempo.
Expert/Consultant
Pra fazer isso, dinheiro pra fazer isso. Por quê?
Carolina Ricardo
Porque eles estão estabelecidos em áreas que o Estado perdeu.
Natuza Nery
Ainda durante a madrugada da terça-feira, pelo menos 2.500 policiais avançaram sobre os complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte. Lá, vivem mais de 290 mil pessoas.
Carolina Ricardo
As polícias usaram blindados e helicópteros. Muitas barricadas foram incendiadas por criminosos. Veículos de demolição entraram para retirar esses obstáculos. Algumas casas da região foram atingidas pelos disparos.
Natuza Nery
Uma mega-operação com o objetivo de prender cerca de 100 traficantes equipados com armamento de padrão militar.
Reporter/Journalist
Contra chefes do Comando Vermelho do Rio e de outros estados, policiais civis seguiram os traficantes pela trilha na mata, enquanto homens do BOPE cercavam os bandidos pelo outro lado. A maior parte das mortes aconteceu ali, onde também os quatro policiais mortos na operação foram baleados. Com 64 mortos, segundo o governo do estado, essa foi a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro.
Natuza Nery
A reação foi imediata.
Reporter/Journalist
Bandidos montaram barricadas nas vias de diferentes regiões, com ônibus, carros ou caçambas de lixo para impedir o trânsito. Até às 5 horas da tarde, a Prefeitura contabilizou 34 pontos de bloqueio em vias de todas as regiões, com exceção da Zona Sul. Segundo o Sindicato das Empresas de Ônibus, mais de 70 veículos foram sequestrados e usados como barricadas. A violência afetou o funcionamento de 200 linhas de ônibus.
Natuza Nery
Num país como o Brasil, o Rio foi o mais recente cenário de um filme de terror. Um filme também visto em outras partes do nosso território. Ouça o que diz Bruno Langeani, consultor do Instituto Sou da Paz.
Bruno Langeani
O Rio de Janeiro continua sendo o estado mais preocupante, onde quase 10% de tudo que é apreendido são armas de maior poder de fogo. Mas é bastante preocupante o crescimento que a gente viu na pesquisa no Espírito Santo, onde o crescimento passou de 460% desse tipo de arma entre as apreensões. Três em cada quatro fuzis apreendidos na região sudeste são ou do calibre 5.56 ou do calibre 7.62, que não por coincidência foram os calibres mais vendidos para civis durante o governo Bolsonaro e também calibres muito comuns em uso pelas forças de segurança.
Natuza Nery
O Instituto Souda Paz calcula que 1.655 fuzis, submetralhadoras e metralhadoras foram apreendidos em 2023 no sudeste do Brasil, região que é berço das maiores facções criminosas. Um fuzil é capaz de disparar uma quantidade impressionante de munições quase que simultaneamente. Rajadas que atravessam barreiras como se fossem feitas de papel.
Bruno Langeani
Os fuzis de fabricação nacional são os que lideram as apreensões, mas fuzis também vindos dos Estados Unidos, Bélgica, Alemanha, aparecem com frequência nas apreensões.
Natuza Nery
Com estilhaços que não poupam vidas.
Resident/Witness
Em Aúma, a bala parou na parede. Em Olaria, o alvo foi a janela de um apartamento no 11º andar. Na Penha, a bala atravessou a janela do banheiro, bem na direção da pia. A moradora falou sobre o susto.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a operação mais letal do Rio e o crime com poder de guerra. Eu converso com Henrique Coelho, repórter do G1 Rio, e com a advogada e socióloga Carolina Ricardo, diretora executiva do Instituto Sudapaz. Quarta-feira, 29 de outubro. Henrique, os focos dessa operação foram o complexo do Alemão e da Penha, áreas dominadas pelo Comando Vermelho. Eu queria te pedir para nos explicar que regiões são essas, por favor.
Henrique Coelho
Essas regiões do contexto do Alemão e da Penha, elas ficam na zona norte do Rio de Janeiro, no coração da zona norte do Rio de Janeiro, e elas são, acho que dá pra dizer, algumas das principais regiões dominadas pelo Comando Vermelho já há muitos anos. Na verdade, acho que é possível dizer que elas são consideradas verdadeiros quartéis generais da facção nos últimos anos aí. Essas ações da polícia vêm sendo feitas nos últimos anos, pelo menos desde 2022, para tentar capturar e prender as principais lideranças daquela região. A principal delas, o principal alvo dessa operação de hoje é o Edgar Alves de Andrádio, conhecido como Doca da Penha ou Urso, que a gente vai falar sobre um pouco, sobre ele um pouco mais daqui a pouco, mas acho que é possível dizer que ele é o principal responsável por uma política expansionista do Comando Vermelho para diversas regiões do Rio de Janeiro, da região metropolitana e do Estado como um todo.
Natuza Nery
Tem um aspecto geográfico importante. O complexo da Penha fica perto de uma via muito movimentada, portanto é fácil escoar a arma por ali, certo?
Henrique Coelho
Isso, com certeza.
Narrator/Reporter
As 27 favelas dos dois complexos, na zona norte do rio, ficam próximas a duas importantes vias da cidade. A linha vermelha, que liga o centro à Baixada Fluminense e dá acesso ao Aeroporto Internacional do Galeão, e a linha amarela, que liga a Barra da Tijuca à Ilha do Governador. O Alemão e a Penha ficam localizados em áreas montanhosas da cidade, cercados por matas, o que facilita a fuga de bandidos.
Reporter/Journalist
Foi nessa região, conhecida como Vacaria, que os confrontos mais intensos aconteceram hoje.
Natuza Nery
Bom, Henrique, o governo do Rio diz que essa foi mais uma fase da chamada Operação Contenção para combater justamente o avanço do Comando Vermelho no Estado. Eu quero entender com você como é que foi a preparação para essa operação e como a polícia se planejou.
Henrique Coelho
Na tarde dessa terça-feira, o governador Cláudio Castro disse que as Forças de Segurança tiveram dois meses para se preparar para essa operação que aconteceu nos complexos do Alemão e da Penha. E o Gil apurou que muitas informações foram omitidas nas últimas semanas, informações de inteligência foram omitidas pela Secretaria de Segurança Pública e também pelas Secretarias de Polícia Civil e de Polícia Militar.
Reporter/Journalist
O Rio de Janeiro amanheceu sob muita tensão, com uma grande operação das polícias civil e militar nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio. O objetivo era cumprir 94 mandados de prisão contra chefes do Comando Vermelho do Rio e de outros estados, escondidos na região onde, segundo a Secretaria de Segurança Pública, vivem 280 mil pessoas.
Analyst/Commentator
Uma operação desse tipo vai requerer alguns meses, pelo menos, de montagem, né? Mas eu acho que o principal problema não é nem como é que a gente monta uma operação policial desse tipo, porque o Rio de Janeiro tem uma tradição de montar muitas operações desse tipo. Quer dizer, mais uma vez, quando a gente assiste a essa tragédia, esse caos todo, a pergunta que a gente faz é quais são os resultados históricos disso? Como é que isso se sustenta ao longo do tempo? Então, eu acho que na montagem de uma operação desse tipo, que requer muita inteligência, é imprescindível que a gente pense também como é que nós vamos fazer a diferença em relação àquilo que já fizemos antes e que não deu bons resultados.
Reporter/Journalist
A operação mobilizou 2.500 agentes. Traficantes reagiram à chegada da polícia com barricadas incendiadas e muitos tiros.
Henrique Coelho
Porque o que acontece é que aquela região de mata entre os complexos da Penha e do Alemão, ela é tomada por traficantes há muito tempo e é considerada uma região muito estratégica pro Comando Vermelho e pro tráfico de drogas ali naquela região. Dá pra dizer inclusive que uma parte considerável das mortes que já foram confirmadas na operação dessa terça-feira, elas aconteceram justamente naquela região de Mata, onde ficam muitos traficantes para justamente combater os invasores, principalmente as forças policiais e também fazer com que os chefes da facção fiquem protegidos nessas regiões de Mata, Natuza.
Natuza Nery
Bom, já que você cita isso, né, que eles estão poderosamente armados nessa região de mata, mas não só, impressionou muito o tipo de armamento utilizado ao longo do dia durante a operação desta terça-feira. Uma delas eram, ou pelo menos uma parte, foi usada para atacar as forças de segurança. Falo de drones com granadas, que lançavam granadas. Conta um pouco pra gente, Henrique, desse arsenal ou desse poderio bélico, a gente já pode chamar assim, utilizado pelos traficantes, pelos criminosos do Comando Vermelho.
Henrique Coelho
Então Natuza, sobre o drone, especificamente sobre o uso de drone como uma plataforma para lançar explosivos, dá para dizer que não é a primeira vez que isso acontece no Rio de Janeiro. A gente já teve outros momentos em que esses drones foram utilizados para lançar explosivos, para lançar granadas em brigas de facções, em brigas de facções envolvendo o comando vermelho e principalmente o terceiro comando puro. que tem uma briga com o Comando Vermelho pelo controle de algumas regiões, principalmente na Zona Norte da cidade, que é a mesma região onde ficam os complexos do Alemão e da Penha. A gente já tem registros disso entre os morros do Quitungo e da Pedreira. e também em algumas partes da Ilha do Governador. Mas eu acho que, pessoalmente falando, a utilização desse instrumento para combater as forças de segurança, como a gente viu hoje, é a primeira vez que eu vejo.
Reporter/Journalist
Esse vídeo mostra quase 200 disparos em apenas um minuto. Moradores registraram também balas traçantes da janela de casa. Para tentar impedir o avanço dos agentes, traficantes revidaram com uma nova estratégia de ataque. Segundo a polícia, lançaram bombas com drones.
Henrique Coelho
Com relação a armas de grosso calibre encontradas com os traficantes do Comando Vermelho de uma forma geral em todo o estado, principalmente nas regiões do complexo do Alemão e da Penha, isso se deve muito à política expansionista insuflada pelo DOCA nos últimos anos.
Narrator/Reporter
A polícia afirma que as ordens para a tomada de territórios no Estado passam por dois chefes da facção, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, que cumpre pena num presídio federal, e de Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso. Ele está solto e tem 269 anotações criminais e 26 mandados de prisão abertos. Hoje, o Disque Denúncia aumentou de mil para 100 mil reais, a recompensa por informações que levem à prisão dele. Esse valor só tinha sido oferecido uma vez por informações que levassem ao traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beramar. Nos últimos quatro anos, só o traficante Doca comandou a expansão do Comando Vermelho para quase 50 áreas entre bairros e favelas da capital e da Baixada Fluminense.
Natuza Nery
Bom, por fim, Henrique, a gente viu ao longo de terça-feira uma guerra de versões entre o governador Cláudio Castro e o ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Conta pra gente o que cada lado alegou.
Henrique Coelho
Bom, Natuza, o governador Cláudio Castro afirmou hoje durante uma coletiva de imprensa no final da manhã dessa terça-feira, que o governo do estado estava sozinho nas ações de segurança da operação de hoje. Ele disse que pediu ajuda três vezes e que três vezes teve essa ajuda negada, principalmente com relação ao pedido de carros blindados e ao uso das Forças Nacionais de Segurança. Segundo ele, o governo federal teria dito que haveria necessidade de uma garantia da lei da ordem, de uma operação que envolvesse a garantia da lei da ordem, que é uma operação para casos específicos. O Rio já teve esse tipo de operação algumas vezes em eventos importantes aqui nos últimos 30 anos, pelo menos.
Resident/Witness
Infelizmente, dessa vez, como ao longo desse mandato inteiro, não temos o auxílio nem de blindados, nem de nenhum agente das forças federais, nem de segurança, nem de defesa.
Henrique Coelho
O governo federal, por outro lado, disse que mantém a atuação no Rio de Janeiro desde outubro de 2023 e que a Operação Nacional de Segurança Pública vai ficar vigente até o final desse ano, até o dia 16 de dezembro desse ano. O Ministério da Justiça disse que foram 11 solicitações de renovação da Força Nacional de Segurança Pública no Rio de Janeiro e que todas essas 11 pedidos de renovação foram atendidos. Mas fica essa guerra de versões entre o governador do Rio de Janeiro que diz que o governo do Rio está sozinho e o governo federal que diz, por sua vez, que continua auxiliando o governo do Rio de Janeiro no combate à criminalidade. É importante dizer, Natuza, só para complementar, que há um plano de retomada de territórios que está sendo finalizado pelo governo do estado do Rio de Janeiro, está inclusive já com todas as suas fases definidas, mas ainda vai ser apresentada a versão final desse documento ao Supremo Tribunal Federal, que foi quem fez o pedido desse plano de retomada de territórios, Natuza.
Natuza Nery
Pelo que eu entendi, o ministro também negou que o Cláudio Castro tivesse pedido ajuda para essa operação de hoje, e disse apenas que o pedido de blindados, que este sim chegou ao Ministério da Defesa, o Ministério da Defesa inclusive confirma, ele só poderia ser enviado para o Rio de Janeiro no âmbito de uma operação de garantia da lei e da ordem. Para isso acontecer, porque a gente já viu várias vezes essas operações acontecendo no Rio de Janeiro, o Estado precisa, o Estado local, o Estado do Rio de Janeiro no caso, precisa reconhecer a incompetência de lidar com o problema e aí sim o Governo Federal decreta a GLO, não é isso?
Henrique Coelho
Exatamente. Acho que é possível dizer que o governo federal desmentiu, pelo menos alega que a versão apresentada pelo Cláudio Castro não é verdadeira sobre o pedido de ajuda para esta operação de hoje especificamente.
Government Official/Spokesperson
O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou em nota que mantém a atuação no Rio de Janeiro desde outubro de 2023 com a Força Nacional e que tem atendido prontamente a todos os pedidos do governo do Rio de Janeiro para o emprego da Força Nacional e afirmou que repassou mais de R$ 470 milhões para o Estado nos últimos anos. Segundo o Ministério, o Rio de Janeiro usou menos da metade do dinheiro. No Ceará, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, negou que tenha recebido o pedido do governo do Rio para a operação de hoje.
Expert/Consultant
O combate à criminalidade, seja ela comum, seja ela organizada, se faz com planejamento, com inteligência, com coordenação das forças. Enfim, não posso julgar porque não estou sentado na cadeira do governador. Não recebi nenhum pedido do governador do Rio de Janeiro, enquanto ministro da Justiça e Segurança Pública, para esta operação. Nem ontem, nem hoje, absolutamente nada.
Government Official/Spokesperson
No fim do dia, em entrevista ao vivo para o RJTV, o governador Cláudio Castro admitiu que não pediu ajuda para o governo federal para a realização da operação de hoje. Castro disse que sabia que a ajuda federal dependeria da decretação da GLO e que houve um mal entendido sobre a declaração dele mais cedo.
Resident/Witness
Não houve, porque o que a gente considera que é o que a gente precisa deles para a operação seria a questão dos blindados. Essa era a necessidade, necessidade que nós já sabemos pelas outras três experiências que a gente não conta com a possibilidade de ajuda em virtude de não haver possibilidade de engenharia. Com certeza, houve uma leitura errada da minha fala.
Henrique Coelho
A gente já sabe que existe uma tensão entre o Cláudio Castro e o governo federal por conta dos lados políticos diferentes que o presidente Lula e o governador Cláudio Castro tomaram nos últimos anos. Vamos ver o que vai acontecer daqui pra frente nesses próximos meses e também em 2026, que é o ano importante já que tem eleições federais acontecendo na Tusa.
Natuza Nery
Pois é, fica tudo contaminado em razão disso. Henrique, muito obrigada. Foi muito bom conversar contigo.
Henrique Coelho
Obrigado, Natuza. Sempre as ordens.
Carolina Ricardo
Um abraço.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto pra continuar minha conversa com a Carolina Ricardo. Carolina, a gente grava depois de ver cenas muito impressionantes de um cenário de guerra no Rio de Janeiro, a gente vê uma demonstração brutal de força de grupos criminosos armados com fuzis, Com drones que lançam granadas sobre as forças de segurança pública, um estudo recente do Soldapaz mostra um aumento na apreensão desse tipo de arma de guerra aqui no Brasil. O que a gente pode falar sobre isso?
Carolina Ricardo
A gente fez uma análise no Soldapaz tentando compreender mais de 7 mil armas apreendidas nos estados do sudeste brasileiro. aprendidas pelas polícias estaduais e pela polícia federal, com foco no que a gente chamou de armas de estilo militar. O que são essas armas de estilo militar? São metralhadoras, submetralhadoras e fuzis. E analisar, como é muito difícil saber totalmente o perfil das armas que estão em circulação nas mãos de criminosos, uma análise importante é poder olhar qual é o perfil das armas que as polícias aprendem. Quando a gente analisa essas armas apreendidas, a gente identifica que elas não chegam a um total de 5% de todas as armas apreendidas nos estados do Sudeste, mas 5% de armas desse nível de potência, como fuzis, submetralhadoras e metralhadoras, já indica um número muito assustador. E quando a gente olha, por exemplo, no caso do Rio de Janeiro, em que cerca de 10% de todas as armas apreendidas no Estado nesse período aí de 2019 e 2023 são armas de estilo militares, que no Espírito Santo a gente viu um aumento entre 2019, cerca de 1,5% das armas apreendidas eram de estilo militar e em 2023 chega a quase 9%, a gente percebe que tem um impacto muito significativo no crime, a circulação dessas armas.
Reporter/Journalist
A operação prendeu 81 pessoas, apreendeu um arsenal, 93 fuzis e drogas.
Carolina Ricardo
E aí, quando a gente olha o que está acontecendo no Rio de Janeiro, a gente pode, enfim, casar um pouco essas informações ao ver o tamanho do poderio bélico das facções criminais no Rio a partir dessa operação deflagrada hoje.
Natuza Nery
E olhando agora para as forças de segurança, elas têm capacidade para enfrentar criminosos com esse tipo de armamento?
Carolina Ricardo
A luz vermelha eu diria que acende para a gente entender o nível de poderio bélico na mão do crime organizado é justamente que a gente percebe que está em circulação e na mão desses grupos organizados, armas muitas vezes tão ou mais potentes que as próprias armas das polícias. Então, por exemplo, quando a gente pensa em fuzil, um fuzil é uma arma que tem uma potência muito maior do que uma pistola, por exemplo. Ele consegue disparar de forma direta de 30 até 100 munições, munições muito mais potentes, numa distância muito maior, então são armas que podem atingir até distâncias de 500 metros, que tem poder para transfixar paredes, por exemplo, o que gera muito mais o que a gente chama de balas perdidas. As metralhadoras são aquelas armas que a gente não consegue nem carregar na mão, que precisam ter um apoio, apoiadas, com uma quantidade maior ainda de munições que os fuzis, que conseguem atirar até um quilômetro de distância, com muita precisão, muita energia, derrubando até aeronaves. Eu gosto de dar esse exemplo porque, quanto das nossas polícias estão, de fato, aparelhadas com esse tipo de arma? Como é que uma operação dessa vai para a rua, vai ser deflagrada, considerando esse tipo de armamento e com forças de segurança muito menos equipadas? Então, eu acho que mostra uma desigualdade importante e, portanto, a gente precisa pensar em outras estratégias que as forças de segurança precisam tomar para lidar com o crime organizado no Brasil.
Natuza Nery
Bom, e se há um incremento de armas desse calibre? No Brasil, a gente pode dizer o quê? Que está chegando mais armas em volume impressionante ou está se apreendendo mais arma? É a primeira opção ou a segunda opção?
Carolina Ricardo
Pelos estudos que a gente vem fazendo, inclusive por outros dados, então um dado que do ponto de vista absoluto é pequeno, mas que mostra um aumento no desvio de armas, por exemplo, compradas pelos CACs, os caçadores, atiradores e colecionadores. Em 2018, a gente teve reportadas o número de 62 armas roubadas, armas longas. E em 2024, esse número foi de 181. Claro, é um número absoluto pequeno, mas se a gente pensar que podem ter sido fuzis essas armas roubadas, o impacto que isso tem no crime organizado é grande. Então, são alguns dados aí que a gente já pode começar a analisar para afirmar que há um aumento dessas armas, até porque não houve uma variação tão grande nas apreensões, mas sim uma mudança de perfil nas armas apreendidas. E aí, claro, a gente precisa entender quais são as fontes dessas armas. Então, a primeira fonte, que é tradicionalmente, inclusive, afirmado pelas autoridades, é o tráfico internacional que chega por outras fronteiras, por exemplo, o Paraguai, que chega pelos países que fazem fronteira com o Brasil, muitas armas americanas que acabam chegando ao Brasil, mas a gente consegue perceber também, ao analisar os dados da nossa pesquisa, é que do percentual, por exemplo, das armas dos fuzis, que tinha a numeração preservada, uma das maiores produtoras é a Taurus, que é uma empresa brasileira. Então, foi uma arma produzida, vendida e comprada aqui. Então, a gente pode dizer que há um movimento interno. O percentual, o tipo de fuzil mais aprendido é o 5.56. e o 762, que foram autorizadas para aquisição de civis na gestão Bolsonaro, em que houve uma grande flexibilização do acesso às armas. Então, quando a gente percebe que um tipo de arma foi amplamente adquirida por civis e ela passa a predominar no perfil das armas apreendidas, é um sinal de que há também um desvio nacional. Não quero aqui dizer que todo mundo que comprou arma legalmente desviou para o crime, Mas a gente vê casos, inclusive de investigações policiais, que mostram que atiradores são usados como laranja pelo crime organizado para poder comprar essas armas e repassar para o crime. Um outro perfil de fonte de armas também é o que a gente chama de armas artesanais. Então, por exemplo, no caso das submetralhadoras, são armas artesanais montadas com peças de armas ou adaptadas. Então, também uma produção nacional caseira. Fuzis montados, que a gente chama de Ghost Guns, que são as armas fantasmas. Então, fuzis montados, por exemplo, com peças americanas, peças nacionais. A gente viu recentemente operações no interior de São Paulo, deflagrando, enfim, chegando a desvendar aí pequenas fabriquetas semi-industriais no quintal de moradores do interior, produzindo arma. Então, a arma vem de fora, mas a arma é desviada internamente e a arma, infelizmente, também tem sido produzida agora desse modelo semi-artesanal. Então, a gente precisa ter um olhar mais amplo e pensar quais são as estratégias de enfrentamento para fechar esse ciclo, esse fluxo de produção de armas e de entrada de armas no nosso país.
Natuza Nery
As armas que vêm de fora entram no Brasil como?
Carolina Ricardo
Olha, Natuza, tem muitas formas. Por exemplo, a gente sabe que, na nossa pesquisa também, a gente identificou que um percentual importante dos fuzis apreendidos são fuzis de origem americana, daqueles que tinham a numeração preservada. Então, por exemplo, muitas armas vêm dos Estados Unidos. Então, muitas dessas armas chegam via correio, chegam via marítima, chegam sendo traficadas em navios. As peças das armas, as armas que a gente identificou como armas montadas, muitas vezes são peças que chegam pelo correio, porque... Pelo correio? Pelo correio, porque você tem muita facilidade para a venda de arma e venda de peças de arma nesse país e você consegue, enfim, eventualmente ter traficantes lá que enviam peças separadas pelo correio ou também por navios, por via marítima, elas chegam aqui, a gente não tem um sistema de fiscalização que dê conta e é fácil sair de lá e é fácil entrar no Brasil. A gente sabe que tem as armas que chegam via terrestre, então a fronteira do Paraguai é uma área bastante frágil, as fronteiras, a tríplice fronteira lá, as fronteiras em outras áreas como Ponta Porã, enfim, essas áreas na região norte do Brasil, ali em Roraima. Então, as fronteiras secas também são fronteiras que permitem a entrada de arma. Então, infelizmente, a gente tem, do ponto de vista das armas que chegam de fora do Brasil, muitas possibilidades dessa arma chegar aqui. E acho que um outro ponto que eu acabei não falando, também existe desvio dessas armas de estilo militar dos próprios arsenais das forças de segurança. No caso das metralhadoras aprendidas, a gente viu no nosso estudo, aquelas que tinham a numeração preservada, são armas que são de forças de segurança que acabam sendo desviadas do exército. Então, a gente sabe também que eventualmente há esse desvio. Então, é preciso pensar em como proteger os arsenais públicos, das polícias, do exército, para evitar que essa arma seja desviada também para o crime organizado.
Natuza Nery
Bom, então se é correto dizer que o Estado do Rio de Janeiro, assim como outros, não só, não há exclusividade, está perdendo a guerra para as facções criminosas, o governo federal também, porque a atribuição de proteger as fronteiras é do governo federal, né?
Carolina Ricardo
Pois é, Natuza, sem dúvida, eu acho que a gente tem um desafio como país de colocar essa agenda do enfrentamento ao crime organizado como agenda prioritária.
Expert/Consultant
Propusemos ao Congresso Nacional uma PEC da Segurança Pública, que visa exatamente a coordenação das forças federais com as forças estaduais e também com as forças municipais. O compartilhamento de inteligência, ações coordenadas, planejadas antecipadamente, é isso que nós estamos precisando. O crime organizado hoje é um fenômeno ou é uma patologia extremamente preocupante, não é mais um fenômeno só local, é nacional e até global.
Government Official/Spokesperson
Cláudio Castro foi um dos governadores críticos à proposta, sob o argumento de defesa da autonomia dos estados.
Carolina Ricardo
A gente precisa colocar a importância de se construir investigação e inteligência sobre o fluxo das armas ilegais como prioritária na política de segurança. A gente fala muito pouco de enfrentar o tráfico de armas no Brasil, e isso é urgente, e aí tem responsabilidade para todo mundo, a Polícia Federal fortaleceu seu centro de rastreamento de armas, se conectar, porque a Polícia Federal aprende armas, as polícias estaduais também, elas precisam conversar para identificar essas armas, para conseguir fazer o correto rastreamento delas, criar delegacias especializadas em controle de armas, as desarmes, todo o Estado brasileiro deveria ter uma delegacia especializada para ter inteligência, para entender qual é o perfil, de onde vem, para se articular com a Polícia Federal, para você poder fazer um patrulhamento também mais efetivo, porque é impossível patrulhar toda a fronteira brasileira. Então, de novo, a gente precisa de inteligência e investigação para a gente conseguir direcionar de forma mais certeira, primeiro, para os fluxos de entrada internacional, não dá para imaginar que a gente vai patrulhar toda a fronteira do Brasil. Depois, a gente ter condição de rastrear as armas que são apreendidas para a gente entender do mercado interno como elas entram, se elas são montadas, que estrutura é essa para a produção artesanal dessas armas, colocar todas as polícias juntas, a polícia militar, as polícias civis, a polícia federal, para ter como agenda prioritária o controle dessas armas. Então, eu acho que falta ainda para todos os níveis o entendimento de quando a gente fala de controle de armas, a gente não está falando de desarmar o cidadão. Mas a gente está falando de dotar o estado de ferramentas para tirar a arma da mão do crime organizado.
Natuza Nery
Você citou por duas vezes ou mais a expressão arma artesanal. Quão fácil é fazer um armamento pesado assim numa fábrica caseira?
Carolina Ricardo
Olha, Natuza, na verdade não é que é, enfim, não é uma coisa que é extremamente simples, eu acho que tem níveis de conhecimentos que são necessários. Então, por exemplo, a gente sabe que muitas vezes são recrutados nas forças de segurança profissionais que têm essa expertise de armeiros. de montagem de armas, de manutenção de armas, para fazer isso. Então, primeiro, tem aí muito possivelmente uma conexão entre profissionais das forças de segurança que acabam migrando para o mercado criminal. Você precisa comprar equipamento, então você precisa ter algum recurso de investimento para isso. E, claro, é uma cadeia de montagem, você traz as peças, com a possibilidade dessas peças chegarem, como eu disse, por exemplo, via correio, você vai montando essa tecnologia. Não é uma coisa que se faça da noite para o dia. Mas, de novo, assim como todo mercado criminal, existe um mercado, uma cadeia produtiva que a gente tem visto se consolidando no Brasil. Por exemplo, eu não mencionei aqui, mas a gente também identifica, e não só no Brasil como em outros países da América Latina, armas impressas e impressoras 3D. Então, eu não consigo te responder exatamente qual é o nível de facilidade. Boa parte do material que a gente coletou e da nossa análise, por exemplo, 45% dos fuzis não tinha identificação da numeração. Isso pode ser porque, de fato, eles estavam com a numeração raspada, mas isso pode ser porque os nossos profissionais precisam ser treinados na identificação desse tipo de fuzil, por exemplo, que é um fuzil montado, que não vem com a numeração de fábrica. e ter uma forma de identificar mais rapidamente esse fuzil para analisar padrão e poder ter uma estratégia para enfrentar esse novo tipo de armamento.
Natuza Nery
Bom, recentemente, dias mesmo, o governo federal, o Ministério da Justiça, em particular, enviou para a Casa Civil uma proposta que foi batizada de lei antifacção. O texto enviado para a Casa Civil alcança esse problema do qual a gente está falando agora?
Carolina Ricardo
Olha, Natuza, a gente pode fazer uma análise sobre o documento, eu acho que ele tem uma medida muito positiva, de uma forma geral ele aumenta a pena para as organizações criminosas, que a gente sempre pode questionar o aumento de pena como a grande solução, mas eu acho que nesse caso ele é necessário, ele é importante, e ele coloca como um fator de aumento de pena os casos em que a organização criminosa possua acesso e uso de armas proibidas ou restritas, que são justamente essas armas de estilo militar, quando há participação de agente público, essa corrupção, e também o domínio territorial.
Government Official/Spokesperson
Semana passada, o governo federal anunciou outra proposta com foco no combate às facções criminosas, com o aumento da pena para integrantes e financiadores dessas organizações e a classificação de organização criminosa como crime hediondo. Esse texto ainda está em análise pelo governo, só depois será enviado ao Congresso.
Carolina Ricardo
E é claro que eu sempre, quando faço essas recomendações, com muito cuidado e muito respeito, eu sei que é muito difícil ser policial e assumir essa agenda da segurança pública, mas eu acho que a gente tem no Brasil uma cabeça de que crime organizado é igual tráfico de drogas, portanto a gente precisa fazer operação policial. Primeira coisa, a gente precisa mudar essa leitura. O crime organizado vai muito além do que a gente vê, por exemplo, no Rio de Janeiro. Existe uma cadeia produtiva com outros mercados envolvidos e que a gente viu, por exemplo, na Operação Carbono Oculto, em relação ao PCC, todo o mercado de combustível. Então, a gente precisa ser capaz primeiro de mapear outros mercados, muitas vezes legais, e mapeando os mercados legais e ilegais, passar a mapear também o fluxo de armas de fogo como um grande mercado, então fazer mais análise de arma apreendida, usar mais inteligência policial, dotar as estruturas do Estado com capacidade de entendimento do fluxo dessas armas, fazer conexões internacionais. Aqui na região, enfim, na América Latina, a questão das armas é brutal e a gente precisa se conectar com os outros países. Fortalecer a Polícia Federal nesse sentido, o Centro de Rastreamento da Polícia Federal. Enfim, são todas medidas que não dizem respeito a operações, mas de investigação e de inteligência.
Natuza Nery
Carolina, muito obrigada por ter topado voltar o assunto para conversar com a gente.
Carolina Ricardo
Eu que agradeço, uma pena que seja numa situação tão difícil, mas é importante a gente poder debater e apresentar outros caminhos para lidar com esse problema. Obrigada, Natuza.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Thiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Date: October 29, 2025
Host: Natuza Nery (G1)
Guests: Henrique Coelho (G1 Rio), Carolina Ricardo (Instituto Sou da Paz)
This episode of "O Assunto" delves into the most lethal police operation in Rio de Janeiro’s history, exploring the dynamic and escalating confrontation between law enforcement and heavily armed criminal factions, particularly in the Complexos do Alemão and da Penha. Host Natuza Nery brings on experts and journalists to analyze the power balance, the militarization of both crime and policing, the origins and pathways of illegal weapons, and the urgent need for strategic changes in Brazil’s fight against organized crime.
Bruno Langeani (Instituto Sou da Paz) on Arms:
First-Hand Impact: Residents report stray bullets hitting homes even in upper floors, indicating the power and indiscriminate nature of the ongoing violence (03:59, Resident).
Henrique Coelho (G1 Rio):
Criminal Leadership:
Carolina Ricardo (Instituto Sou da Paz):
Trends in Arms Procurement:
Smuggling and Diversion:
National Responsibility:
New Federal Proposals:
Limitations of Policing-Only Approach:
The New Face of Arms Manufacturing:
On the scale of firepower:
On failed strategies:
On drone tactics:
On criminal market adaptation:
On tracing responsibilities:
On legislative priorities:
| Topic | Start Time | Speakers | |-------------------------------------------------|------------|------------------------| | Opening: Description of warlike scenes in Rio | 00:13 | Natuza Nery | | Use of drones and armament by gangs | 00:44 | Carolina Ricardo, others| | Police operation details and casualties | 01:28 | Natuza Nery | | Transport disruption and Rio under siege | 02:02 | Reporter, Natuza | | National scope of arms problem—Expert insight | 02:46 | Bruno Langeani | | Geography, expansion, and operation planning | 05:02 | Henrique Coelho | | Analysis of operation effectiveness | 07:55 | Analyst/Commentator | | Details of drone use in attacks | 09:29 | Henrique Coelho | | Political blame game: state vs federal roles | 12:52 | Henrique Coelho, others| | Arms analysis and type—deep dive | 18:50 | Carolina Ricardo | | Origins and flows of illegal weaponry | 23:22 | Carolina Ricardo | | The need for strategy, coordination, intelligence| 29:11 | Expert/Consultant, Carolina Ricardo | | Assessment of new federal proposals | 33:26 | Carolina Ricardo | | Episode wrap-up | 36:08 | Natuza Nery |
This episode provides a harrowing, in-depth look at how the conflict in Rio de Janeiro has reached levels comparable to open warfare, fueled by a rampant influx of military-grade weapons and ever-smarter criminal strategies. Through expert testimony and on-the-ground reporting, the discussion spotlights not just the immediate tragedy, but the systemic failures—logistical, political, and legislative—that sustain and escalate the cycle of violence. The need for coordinated intelligence, more robust tracing and restrictions on weapons, and a shift from reactionary policing to integrated strategies emerge as urgent takeaways for Brazil’s future security policy.