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Anonymous Victim or Witness
Tem coragem de tirar a vida de
Anonymous Commentator or Interviewee
uma mulher e deixar os filhos sem
Anonymous Victim or Witness
a mãe Tá lá na cadeia, o indivíduo Daqui a pouco ele tá na rua, aí vai ter a próxima vítima, o próximo feminicídio E assim todo dia acontece, todos os dias Foi apenas em
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
2015 que o feminicídio se tornou lei A letra que define esse crime é bem clara Sempre que uma mulher for assassinada pelo fato de ser mulher Mas mudar a lei não foi suficiente. Desde lá, uma década atrás, o número de feminicídios cresce sem parar. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025 foi o ano que mais registrou esse crime. 1.568 casos.
Anonymous Victim or Witness
Quantas vezes mais uma mãe vai ter que passar numa reportagem agora como eu tô?
Anonymous Commentator or Interviewee
Quantas vezes?
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
É como se a cada seis horas uma família brasileira perdesse uma mãe, uma filha, uma irmã para o ódio de gênero. Observe o que mostram os dados coletados pelo Fórum de Segurança Pública. Cerca de um terço das mulheres brasileiras sofreu agressões verbais somente no último ano. E mais da metade da população brasileira relatou terem visto ou ouvido uma mulher ser xingada ou humilhada. É uma dor que está presente na família, na escola, no trabalho, no trânsito, em praticamente todos os lugares, se não em todos os lugares. É uma tragédia que, quando não é interrompida na origem, se torna uma escada visível de violências.
Anonymous Expert or Commentator
O machismo vai ser a forma como a sociedade se estrutura, de maneira a hierarquizar, colocar o homem como superou a mulher. Então a gente vai ver isso em vários âmbitos da vida, no dia a dia do casal, vai ver no trabalho, no mercado de trabalho.
Anonymous Commentator or Interviewee
Algumas falas que a gente acaba escutando, querendo ou não, e toda mulher já escutou em algum momento da vida, ele pode reforçar, sim, essa visão social de que somos inferiores, fisicamente, intelectualmente, somos inferiores aos homens.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Em geral, essa violência vai sendo alimentada com o que, para muitos, pode até parecer inofensivo. Começa com uma piada sobre a capacidade de dirigir ou um comentário jocoso sobre a menstruação na rede social. E assim, no degrau mais baixo, vem o discurso, que vai aumentando, vai aumentando, que constrange, diminui e agride as mulheres.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Vocês já ouviram essa frase?
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Não precisa reagir assim.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Você está de TPM? Muitas de nós já ouvimos essa e outras variações em situações de desqualificação e desprezo. Isso é misoginia.
Anonymous Expert or Commentator
A misoginia é o ódio à mulher. É um aprofundamento do machismo. É o desprezo pela mulher. A misoginia é muito mais violenta. Seria o machismo aprofundado e com o encerramento do ódio.
Anonymous Commentator or Interviewee
Permite que os homens acreditem de que ele tem o poder sobre a vida e a morte de uma mulher.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Ocorre que no topo dessa escada, que vai ficando mais e mais cruel a cada degrau, está o feminicídio.
Anonymous Narrator or Reporter
Na mensagem que a polícia conseguiu ali durante o inquérito, a Gisele diz o seguinte, você não me respeita não, não sabe conversar, ontem enfiou a mão na minha cara. O tenente coronel Geraldo Neto responde, eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa, com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa, provedor e fêmea beta, obediente e submissa, como toda mulher casada deve ser.
Gisele Alves foi encontrada morta, com um tiro na cabeça, no dia 18 de fevereiro, no apartamento onde o casal morava, no Brás. De acordo com a investigação da corrigidoria, a versão apresentada pelo oficial de que Gisele havia se suicidado depois de uma discussão, não era verdadeira. Para os investigadores, ela foi assassinada pelo próprio Geraldo Neto.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Para tentar interromper essa escalada na violência contra a mulher, o Senado aprovou por unanimidade o Projeto de Lei nº 896. Ele equipara a misoginia ao crime de racismo. O mesmo já aconteceu com a LGBTfobia, por exemplo. Isso aconteceu em 2019. Mas por um caminho diferente do Congresso. Foi a partir de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. A proposta que saiu do Senado define o crime como a manifestação explícita de ódio às mulheres.
Anonymous Commentator or Interviewee
A proposta altera a lei de racismo e inclui a misoginia entre os crimes de preconceito de raça, cor, etnia, religião e nacionalidade. Apenas será de um a três anos de prisão e multa. Dessa forma, os crimes não prescrevem e são inafiançáveis. O texto também prevê punição para quem incitar ou induzir atos de misoginia, o que inclui a internet, onde vimos crescer discursos de ódio contra as mulheres nos últimos anos. E a pena deverá ser dobrada nos casos em que a misoginia for cometida no contexto de violência doméstica. O projeto foi aprovado com 67 votos a favor e nenhum contrário no plenário do Senado.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Mas o consenso parou na porta da Câmara dos Deputados. Parlamentares que criticam o projeto falam em censura e mordaça ideológica. Nas redes sociais, os discursos se dividem.
Anonymous Commentator or Interviewee
Será que um debate de conflito de opiniões ou de conflito de opiniões religiosas, políticas, isso pode caracterizar?
Não.
O limite ali é caracterizado pelo ódio em si. Se há uma expressão, se há uma versão tácita traduzindo o ódio da figura feminina, isso de fato vai caracterizar a misoginia.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje é a lei contra a misoginia, o embate no Congresso e nas redes sociais. Neste episódio, eu converso com Nathalie Malveiro, procuradora de Justiça Criminal do Ministério Público do Estado de São Paulo e mestrando em Direito Penal pela Universidade de São Paulo. Terça-feira, 7 de abril. Nathalie, muito tem se falado sobre o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo. Como é que essa lei se aplicaria na vida real?
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Esse projeto de lei é bastante simples. Na verdade, ele equipara a conduta de misoginia e inclui essa conduta em uma lei que já existe desde 1989, que é a lei que trata sobre o preconceito de raça, de origem, de cor. Para que não fique nenhuma dúvida do que é misoginia, porque acho que esse é o ponto mais importante em relação a esse tema, para que a gente não vá buscar a interpretação do que é misoginia num buscador da internet, a própria lei ela define o que é misoginia. Considera-se misoginia a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres. Isso vai ser considerado misoginia para a aplicação dessa lei.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Nas redes sociais, desde que o Senado aprovou esse projeto, começaram a surgir uma série de mentiras. Então eu quero testar essas mentiras contigo, tá? Primeiro, fazer elogios a uma mulher passaria a ser crime. Segundo, discordar de mulheres em debates ou discussões também Poderia levar alguém pra cadeia. Terceiro, menos empresas vão querer contratar mulheres por medo de cometer misoginia. Queria que você nos explicasse cada um desses pontos e por que eles não são verdadeiros.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Em que um bom dia pode exteriorizar ódio ou aversão às mulheres? Me parece que não há nenhuma possibilidade de que isso aconteça. Em que uma discordância de uma opinião com uma mulher pode exteriorizar ódio ou aversão às mulheres? Em que uma não-contratação pode exteriorizar ódio ou aversão? pode esterilizar ódio ou aversão. Então, efetivamente, se a empresa não contratar mulheres, ela pode estar incluída não nessa e até em outras legislações e legislações trabalhistas que falam sobre a discriminação de gênero. Na verdade, o próprio fato de empresários dizerem que não vão contratar mulheres é que pode ser considerado misoginia e não contratar as mulheres. Então, a gente tem que deixar tudo muito claro porque veio muita fake news em cima dessa aprovação desse projeto de lei. Um exercício bom da gente fazer é a gente trocar a questão de mulher para a questão de raça ou cor, por exemplo. Quando a lei veio lá em 1989, também se achou um absurdo, mas agora tudo vai ser crime, então não posso mais fazer piada com negro que vai ser crime. E causou aquela comoção inicial e hoje nós temos muito Claro que não se pode fazer piadas com negro porque é crime. Temos muito claro que não pode se fazer piadas com, por exemplo, nordestinos e que é crime. E com o tempo nós também vamos entender que algumas condutas em relação às mulheres também são condutas que diminuem, que desqualificam, que desumanizam as mulheres e que, portanto, vão estar incluídas no escopo dessa legislação.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Esse exercício que você propõe, ele me parece bastante didático. Agora, por exemplo, fazer uma piada, que eu já ouvi muitas, você já deve ter ouvido inúmeras, do só podia ser mulher. Algo errado deu, só podia ser mulher. Isso seria crime, por exemplo?
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Pode depender do contexto. Por exemplo, vamos pegar um caso aí que aconteceu outro dia de um jogador de futebol que, ao fim do jogo, queria reclamar da juiz a mulher e falou, não tem como uma mulher apitar um jogo tão importante.
Gustavo Marques (Football Player)
E eis que saca um argumento para justificar a derrota. Ele disse que a Federação Paulista de Futebol cometeu um erro, porque colocou uma mulher para pitar a partida. A frase do jogador do Bragantino foi a seguinte, abre aspas para ele, não adianta colocarem uma mulher para pitar um jogo desse tamanho, fecha aspas. O Gustavo Marques, depois de tomar banho e ir ao vestiário, procurou a imprensa na zona mista para pedir desculpas. Ele recebeu mensagens da esposa, recebeu mensagem da mãe e estava ali para pedir desculpa pelo que tinha dito.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Se nós trocarmos isso pra cor, por exemplo, não tem como uma pessoa negra apitar num jogo tão importante. Obviamente, nós estaríamos diante de uma questão de discriminação, de preconceito. Então, vê como fica claro quando a gente troca a discriminação, o preconceito, quando a gente passa a falar de uma pessoa negra, que nós já entendemos, nós já, como sociedade, nós já aprendemos que isso não se fala nem em brincadeira. Então, nós vamos ter que aprender que isso, em relação à mulher, também é assim, não se fala nem em brincadeira. Infelizmente, essa lei não vai acabar com a piada machista, não vai acabar com o comentáriozinho maldoso de que está em TPM ou de que só podia ser mulher, isso não vai acabar, mas vai acabar com comentários mais agressivos e mais hostis em relação a todas as mulheres, porque quando aquele jogador falou que um jogo desse porte não poderia ser apitado por uma mulher, não foi só aquela mulher que lhe ofendeu, ofende todas nós mulheres, porque ele trata como se nós não tivéssemos a capacidade de apitar um jogo de futebol. Mesma coisa quando ele fala, só poderia ser mulher para fazer essa besteira no trânsito. Claro que nós nos sentimos ofendidas, mas é uma questão muito menor, que não tem uma repercussão social. Então pode ser considerada, por exemplo, uma injúria em relação àquela mulher, mas não um crime de discriminação geral como quando ele ofende todas as mulheres.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Se a gente ampliar um pouco então o alcance dessa lei, o que acontece com esses movimentos ou perfis da chamada machosfera, os movimentos red pill, por exemplo,
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
eles estariam Exatamente esse conteúdo que desqualifica as mulheres, que desumaniza as mulheres, que faz com que as mulheres sejam vistas como seres inferiores, esse tipo de conteúdo vai sim estar abrangido por essa legislação.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
O propósito do homem está sempre acima do propósito da mulher.
Anonymous Narrator or Reporter
Com o passar do tempo, o valor
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
sexual do homem aumenta e o da mulher diminui. Sexo é extremamente fácil e barato hoje em dia, graças ao feminismo. Um dos problemas da infelicidade feminina é
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
que a mulher não quer servir.
Anonymous Narrator or Reporter
Essas são apenas algumas das muitas frases machistas difundidas na internet todos os dias em perfis com milhares de seguidores. Trezentos, oitocentos mil. Curso online sobre a filosofia dos red pills. Homens que acreditam que são superiores às mulheres e que o feminismo deve ser combatido, pois ele estaria oprimindo a classe masculina. O mundo que esses grupos habitam na internet tem nome. Machosfera. Um movimento que começou nos Estados Unidos para combater o crescimento do feminismo no início dos anos 80. Com a chegada da internet, eles passaram a atuar de forma anônima em locais escondidos da web. Mas hoje estão disseminados nas redes sociais mais conhecidas.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
O NetLab da UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez um levantamento em 2024. Eles chegaram a 137 canais de uma rede social em que o conteúdo misógeno, esse conteúdo masculinista, ele é divulgado. Para você ter uma ideia, esses 130 canais produziram mais de 100 mil vídeos. que foram vistos 4 bilhões de vezes, tiveram 23 milhões de comentários. Ou seja, é toda uma geração de meninos, de homens, sendo educados por esse tipo de conteúdo, que desqualifica a mulher, que diz que a mulher tem que ser submissa, que a mulher deve mesmo ganhar menos, porque, afinal de contas, ela tem que sair mais cedo pra buscar o filho na escola. Então, olha só como isso vem educando esses meninos de uma forma absolutamente misógina, de uma forma em que eles odeiam as mulheres. Nós vimos também há pouco tempo atrás que viralizou ali uma trend em que os meninos ensinavam o que fazer quando a mulher dizia não a um pedido de casamento, a um pedido de namoro. E eles reagiam com socos, com chutes, até com facadas.
Anonymous Narrator or Reporter
Ensinando o que os homens supostamente deveriam fazer ao receber um não diante de um pedido de casamento. E aí eles batem em bonecos ou no ar mesmo, fingindo ser uma mulher, esfaqueiam, pegam uma arma de fogo e esse seria o comportamento que esses influenciadores estariam divulgando. Conteúdo dessa trend em questão que faz, obviamente, apologia à violência contra a mulher, discurso de ódio contra a mulher e potencial cometimento de outros crimes.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Esse tipo de conteúdo é um conteúdo que está divulgando e está disseminando o ódio em relação às mulheres, o ódio da mulher quando a mulher ousa dizer não para esse homem. A Maria da Penha vem dizendo isso, que a misoginia virou um produto, porque esse tipo de canal, de internet, eles faturam em cima desse tipo de conteúdo. 80% desses canais, eles ou vendem produtos, ou vendem cursos, ou eles cobram pra participação do chat, ou seja, eles monetizam os cliques, os likes dentro desses canais. E a gente tem que fazer alguma coisa, porque senão daqui a 20 anos eu vou estar aqui, uma colega minha vai estar aqui, uma outra jornalista, ou você, e a gente vai estar falando do mesmo assunto, porque nós estamos formando meninos que lá na frente vão ser homens violentos.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Muita gente, muitos homens, sobretudo, eles não veem a violência em comentários como esse, de que a mulher deve ser submissa. Ou eles não veem violência ao dizer que a mulher casada, ela não pode se maquiar ou ela não pode usar roupa curta. E elas talvez não entendam que esse tipo de violência que sai como um comentário, ele é a antessala de violências maiores, né? Isso é que parece que tá difícil da sociedade que não se engaja nessa luta, parece que tá difícil de entender.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
É importante a gente dizer que a violência contra a mulher, ela ocorre exatamente no momento em que a mulher desobedece, no momento em que a mulher diz não àquele homem. Então, se aquele homem tem uma expectativa que aquela mulher deve obediência a ele e ela diz não, quando o filho desobedece, a gente castiga. Então, é a mesma dinâmica. Então, se ele aprendeu que aquela mulher deve obediência a ele e aquela mulher se rebela não obedece ou contesta aquela determinação que ele deu, usando maquiagem, querendo trabalhar fora, querendo continuar os estudos, rompendo o relacionamento, ele se sente no direito de punir aquela mulher com a violência. Então, olha como essa dinâmica, ela tá completamente interligada. Se a gente tá ensinando os meninos que a mulher tem que ser obedecida por ele, que ele é superior à mulher, que a mulher deve obediência. E se a gente tá ensinando as meninas cada vez mais que elas têm que estudar, que elas têm que trabalhar, que elas têm que ter autonomia e que elas são donas dos seus narizes e donas dos seus destinos, Como é que a gente vai fazer quando juntar esses meninos que aprenderam isso com essas meninas que aprenderam aqui? Os meninos vão querer submissão e essas meninas vão dizer que não. Como a gente está criando uma sociedade que vai naturalizar de novo a violência ou essas meninas vão continuar sendo mortas, como nós agora.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Nathalie Malveiro. Chama atenção, por exemplo, que mulheres que são líderes, que são eleitas, que são reconhecidas pelo poder que têm, inclusive o poder de voto, porque tem lugar no Congresso Nacional, elas se colocaram contrárias a essa equiparação, a essa legislação. Vou citar algumas mulheres. Julia Zanatta, que é do campo bolsonarista, chamou o texto de censura. Queria muito ter um olhar sobre esse aspecto, de que o texto levaria a uma censura. Bia Kiss, outro exemplo, falou que a lei estimularia uma segregação de gêneros. Também queria ter um olhar sobre isso. E a senadora Damares Alves, que inicialmente votou a favor, depois se disse em dúvida. Queria que você nos ajudasse a entender o posicionamento dessas mulheres que são mulheres de poder, são mulheres em posições de liderança.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Olha, primeiro que acho que a gente tem que tranquilizar todo mundo que é contra essa legislação. que vai demorar muito tempo para o judiciário aplicar essa legislação como ela deveria ser aplicada. A própria lei do racismo, ela levou anos até que os tribunais começassem a aplicar adequadamente essa legislação. Então, o judiciário é um poder bastante conservador e vai demorar para aplicar essa legislação como ela deveria ser aplicada. Infelizmente, vai demorar para a gente começar a ter condenações por misoginia. O que a gente pode falar em relação a essas mulheres é que, infelizmente, elas se colocam a serviço de homens que querem conservar, conservadores, esse tipo de sociedade que a gente tem hoje em dia, que é boa para os homens, mas não é boa para as mulheres. Nós estamos morrendo na mão dos homens. Óbvio que nós queremos mudar alguma coisa, mas, como eu disse, dos likes, monetiza, enfim, na internet, muitos políticos também tiram lá os seus likes e os seus votos, mantendo ali uma dinâmica de que são conservadores, que essa lei vai criar discriminação reversa. Causou isso em relação ao racismo de cor, por exemplo? Eu não vejo isso. Esse preconceito de raça, que já é previsto na lei desde 89, causou uma segregação entre brancos e negros no nosso país. O que permitiu foi com que negros não mais sofressem uma discriminação abominável, como nós mulheres estamos sofrendo.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
ou que nos casos de discriminação isso pudesse ser punido pelo judiciário. E sob a ótica da liberdade de expressão, de que a lei provocaria uma censura? Eu fiquei muito na dúvida sobre esse ponto.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
A gente falar algo negativo em relação a uma pessoa que, por exemplo, venha do Nordeste. Alguém vai defender que isso é liberdade de expressão? Trazer uma característica e imputar uma característica negativa a uma pessoa negra. Alguém vai defender que isso é liberdade de expressão hoje, em 2026? Não. É a mesma coisa. Nós naturalizamos algumas ofensas contra a mulher que, aos roucos, nós vamos desnaturalizar, como nós fizemos em relação a por a raça e a procedência, exatamente da mesma forma. Essa discriminação e preconceito, ele vem muitas vezes revestido de piada, de liberdade de expressão, de liberdade religiosa. O que nós vamos começar a fazer é desnaturalizar isso. Não é piada, não é engraçado, não é liberdade de expressão, é ofensa. Não é liberdade religiosa, é submissão. Então, é isso que nós vamos ter que começar a trabalhar e o judiciário vai trabalhar com toda a calma, com toda a cautela, dentro dos parâmetros que essa própria lei traz. Então, a misotinia, ela está inserida dentro de uma legislação que já existe. Agora, a gente naturalizou a violência contra a mulher, a gente naturalizou as ofensas contra a mulher, a gente naturalizou a discriminação contra a mulher. Nós tivemos, há pouco tempo atrás, um presidente que dizia que não contrataria mulheres porque elas engravidam. Nós vamos ter que aprender como sociedade que isso não é correto, como nós aprendemos em relação a cor, raça e procedência.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Você citou uma expressão que se conecta muito com aquela ideia de censura, a liberdade religiosa, um pastor que do púlpito pregue que a mulher tem que ser submissa ao homem, à luz dessa legislação, se ela de fato for aprovada pela Câmara dos Deputados. Esse pastor, por exemplo, ele poderia ser punido por esse tipo de discurso?
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Eu preciso avaliar até que ponto ele está lá exercendo a sua liberdade religiosa, até que ponto realmente os preceitos da Bíblia que ele segue devem ser interpretados dessa forma e até que ponto em 2026, em um país em que mais de 50% dos lares são chefiados por mulheres, a gente ainda tem que ter esse discurso de que a mulher tem que se submeter ao marido. Mais de 50% não tem marido, tocam a casa sozinha. A gente sabe aí a quantidade de mulheres que são mães solo. Será que também esse discurso não tem que ser atualizado dentro desse ambiente da igreja? Porque já é uma preocupação a violência doméstica em relação a mulheres evangélicas. O Fórum de Segurança Pública lançou estudos deste ano, de 2025, E ele já traz um índice mais alto de mulheres evangélicas vítimas de violência doméstica, em torno de 42%, quando nas mulheres em geral é em torno de 30 e poucos por cento, católicas 35%. Então, nós já temos um número mais alto de mulheres vítimas de violência doméstica dentre as evangélicas. muito, possivelmente, por conta deste discurso, desta colocação ali em relação ao casamento, em relação à mulher ter que se submeter ao marido. Será que não existe formas de colocar isso que uma interpretação da Bíblia mais adequada ao século XXI, que traga então mais tranquilidade para aquela família? Porque eu imagino que qualquer líder religioso é que os seus frequentadores ali do seu templo, da sua igreja, vivam bem, vivam felizes, vivam em paz e longe de violência. De alguma forma, esse discurso está levando a mais violência e isso precisa ser revisto também, né? Porque eu acho que tem o preceito máximo da Bíblia é amais os uns aos outros. e não agredivos uns aos outros. Eu acho que inclusive os pastores, os líderes religiosos, aqueles comprometidos mesmo com a comunidade, já estão avaliando isso e já estão fazendo uma leitura dessa questão de uma forma mais adequada, de forma que eles não coloquem as mulheres da sua congregação, da sua igreja, enfim, em risco.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Eu me lembrei, inclusive, enquanto o tio ouvia falar do policial que mata a mulher, também policial, ele dizia que ele era o marido e ela devia obediência a ele. Quando ela desobedeceu, na visão dele, ele tirou a vida dessa mulher.
Anonymous Narrator or Reporter
Mensagens extraídas no celular do oficial da Polícia Militar, Geraldo Neto, revelaram que ele humilhava a esposa Geraldo, cobrava até que ela deveria manter relações sexuais, em troca de ele ser o provedor da casa Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo E isso não era um pedido. Ele deixou bem claro que era uma ordem quando disse, enquanto você estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
jeito Eu cito isso porque as palavras têm um poder de propagação, de manutenção e de reforço de violência. E talvez seja isso que as pessoas que se dizem contra o feminismo. O feminismo nada mais é do que a luta por uma igualdade de direitos para os gêneros. Que a mulher não seja subjugada pelo fato de ser mulher e de que o homem não a considere menor, enfim. Então, eu cito esse caso como lembrança de que esse tipo de pensamento é um pensamento que mata e tem matado mais e mais mulheres aqui no Brasil.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
E essas próprias deputadas que questionam tanto e criticam tanto o movimento feminista, na verdade, só estão lá por conta do movimento feminista. por conta do movimento sufragista, inicialmente, que permitiu que as mulheres votassem e depois que fossem votadas. Elas recebem os seus salários em uma conta corrente pessoal delas por conta do feminismo, porque até 62 a mulher não podia ter uma conta bancária sem autorização do marido, elas não podiam nem ter um emprego sem autorização do marido. Então, é um discurso bastante interessante, porque elas são contra, mas elas se beneficiam de toda essa luta. Então, assim, vão lá vocês, façam a luta por mim e depois eu venho por trás e me beneficio e ainda critico vocês. Dizendo que o feminismo foi longe demais, que ainda morrem no Brasil quatro mulheres por dia, nós estamos ainda atrasadíssimo. Essa legislação é uma legislação que a gente toma como um avanço civilizatório, mas na verdade a gente precisar de uma lei penal que diga Em 2026, que você não pode expressar ódio às mulheres em redes sociais ou no seu ambiente de trabalho, parece uma coisa absurda, né? Que a gente precise de uma legislação que diga isso. Então, a gente vê como um avanço, mas, ao mesmo tempo, é um avanço que mostra pra gente que, realmente, a gente ainda tá muito atrasado em relação à igualdade de gênero.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
E as leis, elas podem contribuir, em alguma medida, Mas há algo que transforma de maneira inequívoca que é a educação. Eu sempre digo no ar que a gente precisa aprender a criar meninos que não agridam e não sejam violentos, e aí é no verbo e no ato com meninas. Mas também é preciso criar meninas que não passem pano para qualquer tipo de violência de um menino contra ela, seja a violência da palavra que reproduz e faz a violência permanecer e a violência física.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Isso que você colocou é muito importante porque só essa lei não vai também resolver o problema. Assim como a lei do feminicídio não resolveu, assim como o aumento da pena do feminicídio não resolveu o problema do feminicídio. O problema da violência contra a mulher, basicamente, ele tem dois pilares grandes. O primeiro é o machismo estrutural. Somos uma sociedade formada na base patriarcal, machista. E o segundo é a desigualdade de gênero, que até hoje persiste. Até hoje, mulheres ganham menos do que homens. Até hoje, mulheres são discriminadas no trabalho. Até no serviço público, chegou-se aí a pesquisas de que as mulheres ganham menos do que os homens. Então, esses dois pilares, eles precisam mudar para que a gente consiga enfrentar essa violência toda de gênero contra as mulheres. E a gente precisa trabalhar, então, na base deles. E a educação é aquilo que vai fazer com que a gente mude essa chave. Só que se a gente, ao invés de educar pela igualdade de gênero, a gente não tem feito isso, a gente permite que os meninos acessem conteúdo que estimula a desigualdade, que estimula que eles são superiores, que as mulheres têm que ser submissas, aí essa conta não fecha mesmo. Que bom que nós temos agora mais esse instrumento legal pra nós conseguirmos combater, por exemplo, todos esses grupos misóginos, misoginistas, enfim. Mas é importante que a gente comece a falar de forma muito séria sobre educação nas escolas. As escolas precisam começar a explicar aos meninos e às meninas por que que não existem mais esses papéis de gênero, por que que mulheres hoje em dia trabalham e, portanto, homens têm que também dividir as tarefas da casa. São coisas que parecem pequenas, mas que refletem lá na frente nessa desigualdade e nessa desobediência ou nessa expectativa de obediência dos meninos e é isso que a gente tem que combater.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Nathalie, foi muito bom te ouvir, super explicativo, te desejo tudo de bom e um bom trabalho também.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Obrigada. Eu que agradeço e dessa vez a gente acha que pode até dizer que a gente está comemorando um avanço, mas que seja um avanço e que ele traga realmente coisas boas para nós mulheres, porque nós estamos cansadas de morrer.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
É isso aí. Muito obrigada, doutora Natalia. Foi ótimo te ouvir, viu? Obrigadão.
Nathalie Malveiro (Prosecutor and Expert)
Obrigada você, Natuza.
Nath Uzaneri (Host/Journalist)
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Eu sou Nathuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 7 de abril de 2026
Host: Natuza Nery
Convidada principal: Nathalie Malveiro (Procuradora de Justiça Criminal, MPSP e mestranda em Direito Penal – USP)
Neste episódio especial de O Assunto, Natuza Nery debate o avanço e os desafios do Projeto de Lei n° 896, que equipara a misoginia ao crime de racismo, trazendo impactos diretos tanto no Congresso Nacional quanto nas redes sociais e na vida cotidiana. O episódio analisa o contexto dos dados crescentes sobre feminicídios no Brasil, a cultura patriarcal, a influência da chamada “machosfera” e dos movimentos de ódio nas redes, a disseminação de fake news e os embates ideológicos e jurídicos que marcam a tramitação e discussão da lei.
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O episódio mostra que apesar dos avanços legislativos, a batalha contra a misoginia no Brasil ainda é longa, exigindo mudança cultural profunda, educação, e enfrentamento aos discursos de ódio naturalizados em diversos ambientes. A lei se apresenta como um marco civilizatório, mas apenas junto à educação e à desnaturalização da violência será possível alcançar, no futuro, uma sociedade verdadeiramente igualitária para mulheres e homens.