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Ana Tuzaneri
Tim Black, um plano exclusivo pra você descobrir a sua melhor versão. Não é apenas o fim de uma guerra, é o fim de uma era.
Hussein Ali Kallou
De terror e morte, o início de.
Ana Tuzaneri
Uma era de fé e esperança. Assim foi o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Parlamento de Israel. Trump classificou como histórico o dia da esperada libertação dos últimos 20 israelenses que ainda eram mantidos vivos pelo grupo terrorista Hamas. Depois de dois anos em cativeiro, as vítimas foram entregues em duas etapas.
Murilo Salviano
Por volta das 10 da manhã chegou primeiro o comboio então com os sete primeiros reféns libertados e depois, por volta do meio-dia, passado de meio-dia já, chegaram então os 13 outros reféns vivos também sob muita comoção e festa dos israelenses aqui.
Ana Tuzaneri
Depois de dois anos do ataque brutal do Hamas contra Israel e da guerra na Faixa de Gaza, não há mais reféns israelenses vivos em poder dos terroristas. Um reencontro com abraços, lágrimas e muita emoção.
Murilo Salviano
Essas são imagens que, finalmente, a população de Israel pode acompanhar e celebrar.
Hussein Ali Kallou
Do.
Ana Tuzaneri
Outro lado da fronteira, prisioneiros palestinos foram recebidos com festa.
Guga Chakra
Também a libertação de 250 palestinos que cumpriam prisão perpétua em Israel e 1.700 que foram presos em Gaza por uma série de circunstâncias, muitos não fizeram nada, que também voltam para suas famílias.
Ana Tuzaneri
Entre poeira e escombros, agora um território inteiro deverá ser reconstruído.
Correspondente local (Gaza/Egito)
O desafio dessa reconstrução é tremendo, enorme, gigantesco, porque toda a faixa de Gaza praticamente está destruída. É uma extensão aí de 40 quilômetros apenas. A região norte é a que concentrava a maior população antes da guerra estourar e é a que de fato está totalmente devastada, hospital, infraestrutura, central elétrica, estrada, rua, avenida, casa, comércio. Não sobrou quase nada na parte norte da faixa de gás.
Ana Tuzaneri
E uma população machucada pela guerra, pela fome e por tantas perdas, ainda precisa de todo tipo de suporte.
Correspondente local (Gaza/Egito)
Exatamente entre a faixa de Gaza com o Egito, e aqui tem todos os comboios humanitários aguardando a autorização para entrar e conseguir dar uma força, uma assistência para a população civil, que também está precisando de muito, de comida, de remédio, de roupa, de tudo.
Ana Tuzaneri
Também nesta segunda, o futuro de Gaza foi discutido em uma cúpula no Egito, para onde Donald Trump viajou depois de visitar Israel. Juntaram-se a ele outros chefes de Estado para selar o acordo.
Analista político
Todos estão ali coordenando para implementar esse cessafogo e também as próximas etapas de reconstrução de Gaza. Mais de 20 líderes mundiais estão participando desse encontro no Egito, a maioria da Europa e de países árabes. Mas uma ausência está sendo muito sentida do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
Ana Tuzaneri
Negociador-chave nesse processo, o presidente americano falou sobre uma próxima fase.
Murilo Salviano
É o novo amanhecer, que é o amanhecer da reconstrução. Talvez não seja a mais fácil, essa reconstrução, mas acho que nós fizemos muito da parte mais dura.
Ana Tuzaneri
Mas antes de falar em paz definitiva, um momento de cautela.
Guga Chakra
Não há paz nesse momento. É importante frisar. Há um cessar-fogo temporário igual ao que teve no começo do ano, quando também teve enorme onda de otimismo na ocasião. Esse é o cenário nesse momento. Aí tem muito discurso. Trump é um gene do marketing. Fala em paz. Fala em paz e não fala da situação na Cisjordânia, que é onde vive a maior parte dos palestinos. Três milhões de palestinos sem direito à cidadania. Essa é a excelente notícia e uma notícia para celebrar. Agora, não podemos ser ingênuos, para o futuro é para enorme ceticismo.
Ana Tuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a libertação dos reféns e a reconstrução de Gaza. Eu converso com Murilo Salviano, correspondente da TV Globo na Europa e enviado especial ao Oriente Médio. Ele conversa comigo direto de Jerusalém. e com Hossein Ali Kallou, cientista político, pesquisador de Harvard e conselheiro do SEBRE, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Terça-feira, 14 de outubro. Murilo, você está numa das coberturas mais intensas da sua vida, você não dorme já há bastante tempo. Eu te agradeço por ter topado conversar com a gente e eu queria muito que você descrevesse o momento do retorno dos reféns israelenses pra gente. Como é que foi acompanhar isso de perto?
Murilo Salviano
Eu e o repórter cinematográfico Ross Salinas estivemos dos dois lados, do lado palestino e do lado israelense. Nós fomos até Jerusalém Oriental e agora, hoje, passamos o dia em Jerusalém Ocidental, aqui do lado israelense. Israelenses e palestinos falam sobre alívio. Esse é o momento de alívio. Os israelenses dizem que é alívio por conta da devolução dos reféns, que passaram mais de 700 dias em cativeiro. Esses 20 reféns que estavam vivos, ninguém sabia exatamente quais eram as condições físicas e psicológicas deles, enfrentando esses bombardeios também na Faixa de Gaza. E do lado palestino, alívio pelo fim da ofensiva militar, que matou mais de 67 mil palestinos, muitos civis, crianças, a fome ali na Faixa de Gaza, o território praticamente todo destruído. Essa sensação de alívio une os dois lados. Agora, hoje, aqui nas ruas, a gente viu uma grande ebulição de festas no momento em que esses reféns foram liberados, esses 20 reféns vivos. As pessoas estavam nas ruas literalmente se jogando pra cima, com música alta, gritando. Aqui em Jerusalém eles montaram um acampamento em frente à residência oficial do primeiro-ministro pra pressioná-lo pro cessar fogo e pra devolução dos reféns. Ou seja, as famílias passaram mais de 700 dias acampadas naquele local e ali muita festa. Perguntei para uma menina o que você está sentindo e ela disse, é o melhor dia da minha vida. Uma outra garota me respondeu, você é do Brasil? Então, para a gente isso aqui é praticamente uma Copa do Mundo. A gente ganhou uma Copa do Mundo. Esse era o sentimento nas ruas aqui em Israel, só que a temperatura desse sentimento foi virando ao longo do dia quando Hamas não cumpriu com a devolução dos corpos. Então dos 48 reféns que permaneciam ali na faixa de Gaza, 20 estavam vivos, foram devolvidos, 26 estão mortos, dois o paradeiro ainda é incerto e hoje Israel esperava receber esses corpos todos, eu conversando na madrugada com uma fonte militar do IDF, ele me contou o seguinte, Murilo, a gente nas negociações já sabia que o Hamas não devolveria todos os corpos, porque eles disseram que não sabia a localização de alguns deles. Eles esperavam, os militares israelenses esperavam receber metade desses corpos, ou seja, 13, 14 corpos.
O Hamas, então, devolveu hoje, conforme o combinado de 28 corpos, apenas 4. Já se sabia, quando o cessar-fogo foi acordado, que o Hamas não entregaria todos os 28, mas a previsão é de que entregaria 15, pelo menos.
Será que o que a gente viu até agora foi só um cessar-fogo ou é, de fato, uma paz mais prolongada?
Ana Tuzaneri
Murilo, você disse que esteve dos dois lados, então eu vou te pedir para nos contar que histórias te marcaram.
Murilo Salviano
Natuza, vários relatos muito fortes, tanto do lado palestino quanto do lado israelense. Na Praça dos Reféns, em Tel Aviv, que eu passei ontem o dia, foi muito impressionante ver o apoio dos familiares, alguns com filhos mortos, outros com filhos vivos retornando, mas dizendo que o que eles viveram ali eles vão guardar para sempre. Uma pessoa com quem eu conversei que me marcou muito foi o Udi. Ele é primo de um refém, o Talhaim, que foi morto, ou seja, o corpo dele está para ser devolvido, ainda não foi devolvido. Ele foi morto nos ataques terroristas do dia 7 de outubro. O corpo dele foi levado para Gaza. Esse refém, o Talhaim, ele comandava a equipe de segurança do kibbutz de Nir Irzak. Ele tinha três filhos no momento do ataque. A esposa estava grávida do quarto. Inclusive esse quarto filho nasceu sete meses depois da morte do ataque terrorista e o primo dele, o Yud, está ainda na expectativa da devolução do corpo. Ele não sabe se esse corpo vai ser devolvido ou não, mas a família quer fazer esse funeral. O Udi disse que é muito difícil de acreditar que isso está acontecendo, que essa devolução, que essa possível devolução pode de fato acontecer. Foram dois anos trabalhando para engajar a comunidade internacional, para botar essa pressão para que Israel e Hamas conseguissem entrar num acordo. E o Udi falou o seguinte, para eles, para os familiares, tem sido um momento de muita ansiedade, porque existe a possibilidade mesmo com o acordo de algumas famílias não receberem o corpo. E ele me disse uma coisa muito interessante, ele disse que esse plano do presidente americano Donald Trump é um ponto de esperança, ninguém sabe exatamente até onde vai levar, se vai ser só um cessar-fogo, se vai ser uma paz duradoura, se vai ser apenas o fim desse conflito, mas ele disse que esse plano de paz está ajudando a acabar com a violência, está ajudando a reconstruir a região, a desradicalizar a situação no Oriente Médio e ele disse que é necessário paz tanto do lado palestino quanto do lado israelense, porque ele diz que os filhos, as crianças de ambos os lados precisam crescer num ambiente mais saudável e de paz. Então há uma preocupação de ambos os lados também, desses civis, de melhoria, de fim de conflito, de fim dessa tensão.
Guga Chakra
É um dia para enorme celebração. Os 20 reféns israelenses, que ficaram dois anos nas mãos do Hamas e do Jihad Islâmico, voltam para suas famílias. É emocionante ver as imagens. Centenas de prisioneiros palestinos em Israel também voltam para suas famílias. Centenas de milhares de palestinos podem, nesse momento, sobreviver sem o temor de que sejam alvos de bombardeios de Israel. Voltar pra casa é complexo porque a maior parte das casas deles foram destruídas. Dito isso, é um cenário muito melhor do que o de duas semanas atrás.
Murilo Salviano
Natuzzo, um personagem bem interessante que eu conheci em Jerusalém Oriental, ou seja, do lado palestino, foi o Ahmad. Ele é livreiro. Ele tem uma livraria muito conhecida ali em Jerusalém Oriental. E ele disse que por conta desse aumento das tensões nessa guerra, houve muitas... acusa Israel e os militares israelenses de abuso de poder de algumas rondas irregulares ali do lado palestino e ele diz que numa dessas rondas os militares entraram dentro da livraria dele inclusive tem imagens da câmera de segurança começaram a vasculhar os livros e disseram que ele estava preso por vender livros que incitavam a violência contra os israelenses O Ahmad, um livreiro muito conhecido daqui, foi preso, dois dias depois foi solto porque não foi encontrado nenhuma prova contra ele por vender esses tais livros E a entrevista com o Ahmad foi muito interessante porque ele defende uma paz mais duradoura no Oriente Médio, mas ele não acredita que esse plano de Donald Trump vai ser tão eficaz Ele disse que é um conflito muito antigo com raízes muito profundas e ele vê muita politicagem do presidente americano, ele diz que é apenas um enlace, então ele é um dos pessimistas em relação a esse plano americano.
Ana Tuzaneri
Agora, Murilo, o que acontece com os 2 mil prisioneiros palestinos liberados?
Murilo Salviano
Natuso, uma parte deles, 1.700, eles foram presos em operações de Israel em Gaza. Então, eles não tinham sido julgados ainda. Outros 250, eles foram condenados por prisão perpétua. Alguns desses presos já foram devolvidos para territórios palestinos, como, por exemplo, Faixa de Gaza, a maioria, uma parte foi enviada para Cisjordânia, outra para Jerusalém Oriental, onde eu estou aqui pertinho, e um pequeno grupo foi mandado diretamente para o exílio, foi mandado para o Egito, porque, segundo o Israel, são criminosos, mas perigosos. Algumas organizações internacionais da Tusa falam, inclusive, de que alguns desses presos que foram devolvidos tão feridos, o Crescente Vermelho inclusive chegou a fazer alguns atendimentos já no território palestino, não dá para dizer ainda em que momento esses palestinos ficaram feridos, se foi no conflito ou se foi na prisão em Israel, a gente vai ter que aguardar, mas fato é que houve muita festa do lado palestino também comemorando a chegada desses prisioneiros e uma das entrevistas bem fortes também é de uma palestina que ela diz pra gente hoje é feriado nacional Você descreveu muito.
Ana Tuzaneri
Bem o clima popular. Eu queria pegar emprestado o teu olhar para tentar descrever o clima político no dia em que Trump esteve aí em Israel, o dia em que 20 lideranças se reuniram no Egito para falar sobre Gaza. O que dá para você contar para a gente?
Murilo Salviano
Natuza, por onde você anda aqui em Israel, tanto em Jerusalém Ocidental quanto Tel Aviv, você vê placas com o rosto de Donald Trump, você vê bandeiras americanas, você vê mensagem de agradecimento ao presidente americano. O presidente americano tem sido visto aqui em Israel como a grande figura, o grande responsável pelo acordo e também como o grande herói, o responsável pela finalização dessa guerra, desse conflito e a devolução dos reféns, algo que incomodou O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e também a ala mais dura, a ala mais radical do primeiro-ministro, que defendia inclusive a manutenção do conflito, a manutenção da ofensiva militar.
Guga Chakra
A coalizão de poder dele deixa muito claro que é contra o estabelecimento de um Estado palestino. A coalizão do Netanyahu, membros mais extremistas, defendem a anexação da Cisjordânia, que é um território reivindicado pelos palestinos para um futuro estado, mas cuja maior parte é ocupada por Israel, com a construção de dezenas de assentamentos, onde vivem centenas de milhares de colonos israelenses, de forma ilegal pela legislação internacional.
Murilo Salviano
Fato é, Donald Trump, ele é visto como o grande herói, Na Praça dos Reféns, em Tel Aviv, em que eu estive duas noites atrás, os enviados especiais dos Estados Unidos estiveram presentes, o Steve Whitkoff, que é um enviado americano para o Oriente Médio, o Jared Kushner, que é o genro de Donald Trump, que já assumiu essa função no primeiro mandato, e a Ivanka, que é a filha de Donald Trump, teve presente também. Os três foram ovacionados e um momento muito impactante foi no discurso Witkoff decidiu citar Benjamin Netanyahu e nesse momento a Praça das Famílias dos Reféns fez uma grande vaia ao primeiro-ministro, Witkoff ficou ali meio sem graça, reforçou que Netanyahu foi responsável pela costura do acordo, mas as pessoas não abaixaram a cabeça, continuaram vaiando, foi um momento de bastante desconforto político E uma vírgula bastante interessante dessa história, Natuza, é que hoje lá no Parlamento de Israel, os repórteres perguntaram para o Donald Trump, você viu a vaia para o Benjamin Netanyahu na Praça dos Reféns? E o Donald Trump respondeu, eu vi, mas eu fui ovacionado. Então esse é o tom político desse momento aqui no Oriente Médio.
Ana Tuzaneri
Curiosa essa resposta dele. Murilo Salviano, muito obrigada, meu amigo, pelo esforço de reportagem, de cansado, com uma cobertura intensa como essa, difícil também, estar aqui conversando com a gente no assunto. Muito obrigada e bom descanso.
Murilo Salviano
Um prazer enorme, adoro vocês, um beijo.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Hussein Kalou. Roussein, nesta segunda-feira, que é o momento em que a gente grava, o Trump fez um discurso no parlamento israelense. Entre outras coisas, ele disse o seguinte, abre aspas, não se trata apenas do fim de uma guerra, mas do fim da era de terror e de morte, fecha aspas. E ele também continua, abre aspas, gerações no futuro lembrarão deste momento como aquele em que tudo começou a mudar, fecha aspas. Ele também elogiou em determinado momento Benjamin Netanyahu. Eu quero começar citando o meu colega Guga Chakra, que num comentário destacou uma guinada, ele nota uma guinada no discurso do Trump nas últimas semanas. A guinada seria o seguinte, se no começo do discurso dele ele falava de um certo domínio de Israel sobre Gaza, agora ele já dá declarações que permitem avaliar uma autodeterminação do povo palestino, o que poderia abrir uma brecha para a criação do próprio Estado palestino. Eu queria a tua avaliação desse momento, da fala do Trump no parlamento israelense e se ela foi boa ou ruim para Netanyahu.
Hussein Ali Kallou
Natuza, obviamente que o plano do Trump é um plano nada mais e nada menos que constituir um cessar-fogo e um cessar-fogo extremamente frágil. Ele não prevê a criação de um Estado palestino, ele não prevê o forçalicimento da tese de uma soberania e uma autonomia palestina, ele não prevê a independência dos palestinos, ele não prevê a construção de um Estado palestino dentro das fronteiras de 1967, conforme prevê as inúmeras resoluções das Nações Unidas, Portanto, o plano não oferece nada que o discurso do Trump alude a ser.
Analista político
Trump disse, nesse momento, que começou agora a fase 2 das negociações de paz em Gaza. Porque o plano apresentado pelos americanos tem 20 tópicos, que devem ser seguidos por uma paz duradoura. E eles estão divididos em três fases. A primeira é a que a gente está vendo agora, a libertação dos reféns, dos prisioneiros palestinos e o cessar fogo. As negociações para a segunda fase começam agora. A ideia é destruir os túneis subterrâneos do Hamas na faixa de Gaza e também todo o armamento do grupo terrorista. Países árabes devem se juntar no que chamam de força temporária de estabilização. Depois, começariam as negociações para a fase 3, a de implementação de um governo de transição para Gaza. Esse governo seria formado por palestinos técnicos. São eles que vão criar um novo cotidiano para Gaza e fazer os planos de como reerguer a terra devastada. Esse governo seria apolítico, se encarregaria apenas das tarefas cotidianas. Um comitê internacional, chamado de Comitê da Paz, chefiado por Donald Trump, supervisionaria esse governo. Outros membros deverão ser anunciados, mas um dos nomes é do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Hussein Ali Kallou
Eu vejo que esse discurso é muito mais uma tentativa de um auto-reconhecimento a um feito que ele entende que é um feito histórico da perspectiva da sua política externa, Trump, mas não um reconhecimento do direito de existência do povo palestino e do direito de existência de um Estado palestino. Mesmo porque, para que haja a existência de um Estado palestino, é preciso que Israel cumpra as resoluções internacionais previstas pelo Conselho de Segurança da ONU. Então, enquanto Israel não decidir cumprir a sua parte dos acordos de paz de Oslo, nada do discurso do Trump terá valido.
Ana Tuzaneri
Vamos então explicar esses acordos de paz de Oslo da década de 90 para nossa audiência que eventualmente não saiba o teor desses acordos, Hussein?
Hussein Ali Kallou
Os Acordos de Paz de Oso, selados no início da década de 90, em 93, eles prevêm a construção, a constituição de um Estado palestino dentro do território de 1967, ou seja, a Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental como capital. Esses acordos preveem a desmilitarização das facções armadas palestinas. O que aconteceu ao longo desse processo? O escopo do acordo era terra em troca de paz. Você devolve a terra e, de forma consecutiva, as duas nações se reconhecem. O que aconteceu a partir de lá? Os palestinos reconheceram o direito de existência de Israel, ao passo que o Estado de Israel não devolveu os territórios ocupados para os palestinos, senão ampliou o processo de ocupação. Esses acordos de Oslo foram assinados, as negociações de Oslo foram concluídas entre o Yasser Arafat, o grande líder palestino e o Isaac Rabin, que foi assassinado pelo extremista judeu da direita israelense. E logo, os acordos de paz acabam naufragando.
Ana Tuzaneri
Um pouco antes da nossa conversa, o presidente Trump assinou, junto com líderes do Catar, do Egito, da Turquia, um acordo de cessafogo em Gaza. Governantes europeus, governantes árabes participaram dessa cúpula que foi realizada no Egito, mas o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu recusou o convite e simplesmente não foi. Apesar de a gente não ter detalhes do conteúdo do que foi assinado, eu quero te ouvir sobre os significados desse acordo e da forma como ele foi feito, foi firmado.
Hussein Ali Kallou
Eu acho que o mais importante do acordo é, digamos, o estabelecimento de um cessarfo, que é a paralisação do massacre e do genocídio da população palestina de Gaza. e também do retorno dos sequestrados israelenses para suas famílias. Diria que essa é a variável mais importante de tudo. O quão isso vai perdurar, ninguém vai saber. Isso depende, sobretudo, do governo Netanyahu, que tem a força maior sobre as consequências. Agora, o processo de que foi assinado basicamente se baseia, se gira em torno do plano proposto pelo presidente Trump, que é a reconstrução de Gaza. E esse processo de reconstrução prevê uma tutela internacional, uma tutela árabe. Se a tutela for árabe, ela é menos pior, mas ela precisa ter amparo e legitimidade a partir do povo palestino. Sem essa legitimidade, será muito difícil esse processo de reconstrução ser exitoso. Mesmo porque, para fazer esse processo de reconstrução, é preciso fazê-lo junto com organizações palestinas, porque é preciso ser realizado no terreno. Se essa tutela for internacional e não árabe, aí a coisa fica mais complicada, porque aí nós temos a institucionalização de uma colonização estrangeira. fica muito mais complicado ser aceito pela população local, especialmente a população de Gaza. O povo palestino como um todo, na minha avaliação, vai tentar rejeitar e a população de Gaza mais ainda. Então, nós voltamos praticamente a meados do século XX, que é a tutela de forças estrangeiras colonialistas sobre uma população autóctona. E uma força tela internacional, como se aludiu a Tony Blair, por exemplo, seria um péssimo exemplo, especialmente pelo passado britânico na região. O caos israelo-palestino é resultado do colonialismo britânico. Entende? Agora, é preciso de uma força securitária, isso é fato. Se essa força securitária pôr uma força conjunta de países árabes, Egito, Jordânia e, entendo, de autoridade palestina, isso pode ser um denominador facilitador para a estabilização, digamos, de grasa.
Ana Tuzaneri
Bom, você já deixou bem claro que o grande desafio para esse novo momento é que seja estabelecido um governo ou uma administração, melhor dizendo assim, que a população palestina reconheça. Mas lembrando que no plano de cessar fogo está lá um conjunto de tecnocratas com com aprovação do governo de Israel e supervisionamento dos Estados Unidos. Passado esse momento, se esse desafio for superado, quais são os outros que se erguem diante da população palestina para reconstruir Gaza? Um lugar onde falta comida, onde falta remédio, onde faltam hospitais, itens essenciais à sobrevivência.
Hussein Ali Kallou
É fundamental, acho que em primeiro momento, qualquer processo de reconstrução precisa endereçar imediatamente as necessidades mais prementes do povo palestino de Gaza. E as necessidades mais imediatas é combate à fome, porque o que foi imposto à Gaza é um regime de fome, é um regime de exceção, de imposição de fome. Então, é preciso combater a fome, é preciso que haja a entrada de mantimentos para a população local. Segundo, assistência médica. O que falta em Gaza é assistência médica e medicamentos. Em segundo estágio, quando isso for suprido em primeiro momento, aí que nós vamos falar de moradia, vamos falar de reconstrução, vamos falar de outros elementos. A minha única preocupação é que dentro desse plano se estabeleceu uma coisa me parece muito delicada e muito sorrateira. São as zonas econômicas especiais, que ninguém explica o que é. O que é zona econômica especial? Isso não é uma necessidade premente da população palestina.
Analista político
O plano americano cita criar empregos, oportunidades e esperança. Gaza se transformaria numa chamada Zona Econômica Especial, com tarifas favoráveis aos países envolvidos na reconstrução, como os Estados Unidos. E aí, a comunidade internacional estabeleceria uma conversa entre israelenses e palestinos, que culminaria no reconhecimento da Palestina como um Estado. O Banco Mundial estimou, no começo do ano, que seriam necessários investimentos na ordem de 50 bilhões de dólares.
Hussein Ali Kallou
Isso não interessa imediatamente à população palestina de Gaza, e nem aos interesses nacionais palestinos. O interesse nacional palestino é que tenha um Estado palestino, é que tenha uma soberania palestina, e que haja reconhecida a autodeterminação do povo palestino. É isso que interessa a eles, não é zonas econômicas especiais.
Guga Chakra
O que tem a favor nesse momento, que pode deixar mais otimista? A figura do Trump, a mudança do Trump. que o Trump, no começo da administração dele, ele defendeu a limpeza étnica dos palestinos na faixa de Gaza. Ele defendia que os Estados Unidos assumissem a faixa de Gaza. Ele deu uma tremenda guinada nas últimas semanas e passou a incorporar, a defender o acordo que era proposto pela comunidade internacional, aceitando agora um processo que possa levar à criação do Estado palestino e pressionando o Netanyahu.
Ana Tuzaneri
Rousseff, muito obrigado. Eu sei que você está na Índia, não é isso?
Hussein Ali Kallou
Isso, estou na Índia, estou aqui na Índia, na Ásia, enfim, numa conferência internacional.
Ana Tuzaneri
Tarde da noite, você topou conversar com a gente. Hussein, muito obrigada, viu? Um abraço, bom trabalho.
Hussein Ali Kallou
Um abraço, Natuza, tchau, tchau.
Ana Tuzaneri
Este episódio usou áudios da Reuters. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catelan. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast: O Assunto
Data: 14 de outubro de 2025
Host: Ana Tuzaneri
Convidados principais:
Neste episódio especial, o podcast "O Assunto" aborda o momento histórico da libertação dos últimos reféns israelenses pelo Hamas, após dois anos de cativeiro, e discute os imensos desafios da reconstrução da Faixa de Gaza. A pauta inclui depoimentos diretos de personagens, a análise do novo plano mediado pelos EUA, o clima nas ruas dos dois lados do conflito, debates sobre o destino dos prisioneiros palestinos e questionamentos acerca da viabilidade da paz e da autonomia palestina.
Quote marcante:
“Agora, toda a faixa de Gaza praticamente está destruída... não sobrou quase nada na parte norte da faixa de Gaza.”
— Correspondente local (02:00)
Quote memorável:
“Para a gente, isso aqui é praticamente uma Copa do Mundo. A gente ganhou uma Copa do Mundo.”
— Garota israelense (approx. 06:35, via Murilo Salviano)
Quote marcante:
“O plano do Trump é... um cessar-fogo extremamente frágil. Ele não prevê a criação de um Estado palestino... portanto, o plano não oferece nada que o discurso do Trump alude a ser.”
— Hussein Ali Kallou (18:24)
Quote crítico:
“O interesse nacional palestino é que tenha um Estado palestino, é que tenha uma soberania palestina... não é zona econômica especial.”
— Hussein Ali Kallou (29:31)
Quote de fechamento:
“Não há paz nesse momento. Há um cessar-fogo temporário... não podemos ser ingênuos, para o futuro é para enorme ceticismo.”
— Guga Chacra (03:45)
O episódio apresenta um panorama multifacetado do momento pós-guerra na Faixa de Gaza: entre o alívio coletivo, as festividades populares e a dura realidade de destruição humanitária. Apesar do cessar-fogo e do esforço retórico americano, os especialistas convidados deixam clara a fragilidade do plano em relação à paz real e à autodeterminação palestina, enquanto a reconstrução depende não só de bilhões em investimentos, mas de legitimidade e respeito pela soberania palestina.
O futuro permanece incerto — marcado tanto por movimentos de esperança quanto por ondas de ceticismo.
Resumo produzido com base em trechos, depoimentos e análises extraídas do episódio, mantendo fidelidade à voz dos participantes.