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Luiz Inácio Lula da Silva
Aquilo que parecia impossível, deixou de ser impossível e aconteceu.
Vitor Boiadjan
Foram 12 dias entre Lula dar esta declaração durante a Assembleia Geral da ONU e uma conversa entre ele e Donald Trump de fato se concretizar. Na manhã desta segunda-feira, por 30 minutos, os dois presidentes conversaram. Uma conversa amistosa.
Ricardo Abreu
Essas notas de encontros, entre dois chefes de estado sempre tem ali as suas nuances e os recados que elas transmitem. Eles destacam que o encontro aconteceu em tom amistoso e que os dois líderes relembraram ali aquela química que bateu entre os dois no encontro ali na Assembleia Geral da ONU. Os dois ficaram relembrando, olha, tem uma química legal, maravilha.
Vitor Boiadjan
Do lado de lá, a reação também foi positiva.
Nath Uzaneri
Acabamos de ter a informação que o presidente Donald Trump publicou nas redes sociais dele. O resultado dessa conversa com o presidente Lula está aqui na Truth Social, que é a rede social do presidente americano. Então ele está dizendo que nessa manhã discutiram muitas coisas, mas que o foco principal foi a economia, comércio entre os dois países. Aí segue o Trump dizendo que eles vão ter mais discussões e que eles vão se encontrar num futuro não muito distante. E esse fim aqui, que ele diz assim, gostei da ligação, nossos países se darão muito bem juntos. A tarde, em uma entrevista na Casa Branca, Trump repetiu que teve uma ótima conversa com o presidente Lula, que ele.
Luiz Inácio Lula da Silva
Chamou de homem bom.
Nath Uzaneri
E que vão começar a fazer negócios.
Vitor Boiadjan
Depois de meses de escalada na atenção diplomática e econômica, aumentaram as expectativas para que as coisas melhorem.
Ricardo Abreu
Nós estamos muito otimistas que vamos avançar para o ganha-ganha, o win-win, o ganha-ganha nessa relação com investimentos recíprocos e equacionamento na questão tarifária. Foi muito boa a conversa, melhor até do que nós esperávamos, então estamos muito otimistas aí.
Luiz Inácio Lula da Silva
A minha conversa com o Trump foi uma conversa muito amigável, conversa de dois presidentes de dois países importantes, das duas maiores democracias do Ocidente. A partir de amanhã vai começar a ter conversa, eles vão ter uma reunião nos Estados Unidos para começar a discutir o Brasil. E eu terminei a conversa pedindo ao presidente Trump para por seu coração para o Brasil, gente, é pro seu coração. Não coloque ninguém com preconceito para conversar com o Brasil. A gente gosta de conversar e nessas conversas é um jogo de ganha-ganha, não é um jogo de perde-perde. Eu estou feliz com a conversa por telefone com o presidente Trump. É surpreendentemente a forma cordial com que a conversa aconteceu.
Nath Uzaneri
Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje com Vítor Boedian é...
Vitor Boiadjan
A ligação entre Lula e Trump. Converso com Ricardo Abreu, repórter da TV Globo em Brasília. Depois falo com Leonardo Trevisan, doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais da ESPM. Terça-feira, 7 de outubro. Ricardo, bom, o dia chegou. Trump e Lula se falaram por telefone na manhã dessa segunda-feira. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que a conversa foi positiva, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou estar otimista com a possibilidade de Trump rever o tarifaço. Agora, o que você conta pra gente do que mais eles conversaram, Ricardo?
Ricardo Abreu
Olha Vitor, segundo o Planalto e também as fontes com quem a gente conversa na diplomacia e que participaram tanto da articulação quanto da ligação em si, essa foi uma conversa em tom agradável. Uma fonte até me disse assim, olha, foi boa o tempo todo. E essa ligação, que foi de Trump para Lula, e não o contrário, vale dizer, também, durou cerca de meia hora, que é um tempo considerável. Achei muito interessante que o Planalto e o Itamaraty também reforçaram aquele termo, que teve uma química entre Lula e Trump. E aí Lula também faz uma brincadeira junto a Trump com a idade dos dois, os dois brincam ali, os dois que têm 79 anos, né, beirando os 80, falam da juventude, como eles se sentem jovens, então isso foi um ponto também de quebrar ali aquele tom mais formal da conversa.
Nath Uzaneri
Foi extremamente amistosa a conversa. Logo no início, depois daquela coisa que a gente chama rasgação de seda, que Trump falou, olha, realmente nosso encontro na ONU foi muito bom, Lula chega a mencionar que está, neste mês, fazendo 80 anos, que ele é um pouco mais velho de Trump. Trump entra na brincadeira e diz, é, eu me sinto como um jovem de 40 anos e sei que você também está muito bem. fisicamente. Puxa, Trump sempre bateu muito em Joe Biden pela idade semelhante, enfim, e faz de certa maneira o que foi visto como um elogio à Lula.
Ricardo Abreu
Você tem, claro, um ponto principal dessa conversa, que é que canais que antes estavam bloqueados foram abertos, né? O que faltava para isso ser aberto era justamente o diálogo direto entre Lula e Trump, que foi o que aconteceu nessa segunda-feira. Você tem o presidente Lula dizendo a Trump que está disposto a encontrá-lo pessoalmente, que tem um ponto aí que é fundamental esse encontro e que tem também de importante na conversa um outro fator. uma ausência nessa conversa, que é o fator Bolsonaro, que não entra no diálogo. O presidente Trump não fez nenhuma menção também ao judiciário brasileiro, diferentemente do que fez em outras ocasiões, por meio de carta ou mensagens em redes sociais. Quem fez a menção ao judiciário foi o Lula, que pediu a retirada das sanções contra os ministros do Supremo do.
Nath Uzaneri
Palácio do Planalto detalhou a conversa. Segundo a nota, Lula solicitou a retirada da sobretaxa de 40% imposta a produtos nacionais e das medidas restritivas aplicadas contra autoridades brasileiras.
Ricardo Abreu
E veio também a fala de Trump sobre a conversa, importante destacar, porque a gente tinha, Vitor, uma versão da conversa do lado brasileiro, mas ainda apreensivo com o termômetro americano. E Trump posta nas redes sociais dizendo que teve uma conversa muito boa com Lula, com o foco principal na economia e no comércio, também afastando questão ideológica, e o próprio presidente americano destacando que vai ter novas conversas, um encontro futuro, num futuro não muito distante e que gostou da conversa e que os países vão se dar bem. Então, para a diplomacia brasileira, isso foi um golaço.
Vitor Boiadjan
Ricardo, você tem muitas fontes no Itamaraty e a gente sabe que deu o anúncio de Trump lá na ONU pra esse dia em que os dois conversam por telefone, claro, tem um preparativo, tem um trabalho por trás. Conta pra gente como é que foi a preparação desse terreno pro telefonema, o que a gente sabe dessa pré-conversa?
Ricardo Abreu
É uma construção mesmo, feita ao longo principalmente do mês de setembro, até se chegar àquele encontro nos bastidores da Assembleia Geral da ONU e o discurso de Trump que até aquele ponto, até aquele momento tinha surpreendido as pessoas, mas que na verdade tinha sido construído tijolo a tijolo, não teve nada ao acaso. Até pelo medo também de não acontecer por parte do Brasil, não aconteceu o que aconteceu com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, com o presidente da África do Sul, Siril Ramaphosa, também, que foram ali de forma pública, distratados, diplomaticamente também distratados, na frente de câmeras.
Nath Uzaneri
Ao receber a visita do presidente da África do Sul, Donald Trump fez acusações falsas de que o país enfrenta um genocídio contra pessoas brancas. Com dedo em riste e elevando o tom de voz, Trump disse a Volodymyr Zelensky que o ucraniano não se encontra em condições de ditar nada e está assumindo o risco de uma terceira guerra mundial.
Ricardo Abreu
Esse era o principal temor da diplomacia brasileira. O que os diplomatas também idealmente queriam e que está se desenhando, que é você ter aí duas etapas de contato. Primeiro, uma ligação, como a gente viu nessa segunda-feira. E aí, segundo, Segunda etapa, uma parte presencial. O vice Geraldo Alckmin, nessa construção, faz ali reuniões com o embaixador Jameson Greer, que é representante do USTR, representante comercial dos Estados Unidos. Também conversa muito com o secretário de comércio americano Howard Lutnick. Você tem a diplomacia trabalhando nos bastidores, também num contato direto com a Casa Branca e também com o Departamento de Estado. Então, tudo isso até a gente chegar finalmente a esse fim de semana, quando houve uma costura final, articulação final para a ligação acontecer.
Vitor Boiadjan
Se falava muito de uma preocupação de não constranger, de não haver um constrangimento num eventual encontro presencial. De acordo com o que a gente viu hoje no telefonema, foi até aqui, a química tá rolando, né?
Ricardo Abreu
E o foco era esse da diplomacia, quebrar ali um gelo, quebrar uma espécie de animosidade que poderia surgir se colocar dois chefes de estado que até então vinham trocando farpas, mesmo que indiretamente nas redes sociais, por meio de discurso simplesmente frente a frente, isso era um ponto de atenção para o Itamaraty e também para o Palácio do Planalto. Não queria ver ali sua comunicação jogada fora diante de uma catástrofe que seria um encontro mal sucedido. Por isso a ligação foi tão importante e esses gestos até aqui para a diplomacia brasileira estão sendo comemorados.
Vitor Boiadjan
Bom, e agora, pelo menos o que se falou oficialmente dessa conversa, abriu-se possibilidades de um encontro presencial e o presidente Lula aventou três possibilidades. Na Malásia, durante a cúpula da ASEAN, que é o Encontro Anual dos Líderes do Sudeste Asiático, na COP, aqui no Brasil, no Pará, em novembro, E também uma possibilidade mesmo do presidente brasileiro viajar aos Estados Unidos. Qual é o cenário que melhor se desenha para esse encontro?
Ricardo Abreu
Diante desses três cenários, o Itamaraty tenta não projetar ali um local exato do que seria o ideal para uma conversa, até para não ter frustração. E isso aí seria regredir algumas etapas. Mas você tem uma ida a Washington, pode acontecer. O presidente Lula pode pegar um avião e conversar com o presidente Donald Trump, é o que os diplomatas dizem.
Nath Uzaneri
Questionado se pode ir ao Brasil para a Copa em novembro, Trump respondeu, eu iria em algum momento. E completou, ele, Lula, virá aqui. Nós conversamos sobre isso.
Ricardo Abreu
A questão da COP que acontece em novembro, você tem uma questão mais delicada, que é ideológica, ainda falando sobre o governo Donald Trump, que é a questão do meio ambiente. Trump em nenhum momento sinaliza que vai à COP. Vale lembrar, o presidente Lula faz o convite, mas não tem uma resposta de Trump também para esse convite. poderia ser mais difícil ter esse encontro em Belém. E o que se vê mais provável é essa cúpula que você cita da ASEAN, Associação das Nações do Sudeste Asiático, porque ela acontece ali no fim de outubro, na Malásia, e os dois presidentes estão previstos. para irem lá. O presidente Lula é um presidente convidado, há uma expectativa ainda não confirmada por Washington, mas que Donald Trump vá também, então pode rolar esse encontro às margens, como a gente diz, como a diplomacia diz, às margens dessa cúpula, ali arranjar uma agenda dos dois presidentes e eles se encontrarem.
Vitor Boiadjan
Como a diplomacia, que você tem ouvido, avalia essa ligação entre Lula e Trump, Eles veem como um sucesso do trabalho deles, uma costura. O que você tem ouvido aí dos diplomatas?
Ricardo Abreu
Ainda não é o sucesso final, mas a diplomacia já fala muito em grande evolução. Esse foi um termo que eu ouvi de diferentes fontes do Itamaraty e do Planalto também. Porque você tinha até aqui tentativas técnicas, mas sempre com o chefe americano, Donald Trump, bloqueando qualquer tratativa. sempre que havia um contato técnico de ministro para ministro ou de ministro para secretário, a resposta que vinha dos Estados Unidos era o que a Casa Branca vai falar para a gente continuar conversando. Então, os canais antes estavam bloqueados, principalmente desde a carta enviada por Trump anunciando a sua insatisfação com o processo no Judiciário, ainda no dia 9 de julho. Então, a diplomacia agora entende que isso abre caminhos para uma negociação técnica a ser feita pelas equipes, mas também com esse canal direto de diálogo, muito importante frisar aqui, aberto pelos dois presidentes, que vão ter agora essa linha direta para se falar com a Val da Casa Branca.
Nath Uzaneri
A grande comemoração dos brasileiros foi exatamente a troca de telefones, porque isso significa que acabou a intermediação. É claro que quem vai negociar esse próximo passo é o Departamento de Estado, mas Trump abriu a porta. É como se fosse falar, qualquer coisa liga para mim.
Ricardo Abreu
Então agora, de repente, se Trump quiser, ele pode pegar o telefone e ligar diretamente pra Lula, pra falar com Lula. E vice-versa. Isso mostra uma confiança entre esses dois chefes de Estado nessa primeira aproximação. Trump, inclusive, cita novamente que Marco Rubio agora vai tratar pra que esse diálogo seja ampliado e pra que aconteça o encontro pessoal. Mas aqui vale também destacar que Marco Rubio tem um perfil ideológico, né? Ele defende sanções duras a governos alinhados à esquerda, tem um olhar para a América Latina, vem sendo polêmico nos seus pronunciamentos nas redes sociais. Então a diplomacia está apostando que agora, com a ordem de Trump, a postura de Rubio possa mudar.
Vitor Boiadjan
Um ponto muito relevante, o fato do Marco Rubio, sim, o agente político nisso tudo, tido como mais anti-esquerda ali nas tratativas internacionais de qualquer coisa que soa à esquerda, e Marco Rubio ter sido designado, como aparece na nota textualmente, como responsável por discutir tarifas com o ministro Geraldo Alckmin, vice-presidente também, é muito relevante.
Luiz Inácio Lula da Silva
Eu pedi para ele, para dizer ao Marco Rubio, que converse com o Brasil sem preconceito com o Brasil, porque pelas entrevistas que ele deu, parece que tem um certo desconhecimento da realidade do Brasil. Ele disse que vai dar tudo certo, que vai ter uma conversa. O que é mais importante, sabe o que aconteceu? É que, ao terminar a conversa, ele me deu o telefone pessoal dele. Eu dei o meu pra ele, pra que a gente não precisa de intermediário pra gente fazer as coisas boas para o Estado Unido e para o Brasil.
Ricardo Abreu
Mas é isso, apesar de um tom agradável, Trump também em nenhum momento fez nenhuma promessa à Lula diante dos pedidos do presidente do Brasil. Ele designa ali Rubio para tratar disso, então agora é ver a partir de agora como é que vai se dar esse diálogo e construir também, né, a diplomacia está apostando ainda na construção para ver quando finalmente o encontro tete-a-tete entre Lula e Trump vai sair.
Vitor Boiadjan
Trump não deixa de ser uma figura imprevisível, não é? A diplomacia como é que ela lida com possibilidade de todo esse encontro que está sendo custurado de maneira bem azeitada nesse momento perder, perder o ponto, azedar?
Ricardo Abreu
Sempre houve esse pé atrás da diplomacia brasileira, sabendo que a qualquer momento, a qualquer dia, podia vir uma postura até mais agressiva de Trump. Na ligação, o feeling de agora é muito de surpresa positiva porque Trump mostrou um bom humor, um lado que para o Brasil ele ainda não tinha mostrado, para o presidente Lula principalmente. Então esse é o olhar, mas o pragmatismo, você fala bem, Vitor, vai falar muito alto nesse momento, já de olho no possível encontro pessoal. É como se os passos tivessem sido dados agora, mas uma vez marcada essa conversa presencial, o jogo zerasse, ou melhor, do ponto de vista estratégico, esse jogo tivesse uma nova etapa a ser concluída.
Vitor Boiadjan
Tá certo, Ricardo Abreu, muito obrigado pela sua participação, pelos bastidores que você traz aqui pra gente, volte outras vezes aqui ao assunto.
Ricardo Abreu
Obrigado, Victor, sempre um prazer.
Vitor Boiadjan
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com Leonardo Trevisan. Professor, o senhor teve aqui num assunto no fim de julho, quando a gente falava na contagem regressiva para a entrada em vigor da tarifa 50% sobre vários produtos brasileiros. Naquela ocasião não havia nenhum canal de negociação aberto entre Brasil e os Estados Unidos e nesta segunda-feira, enfim, Lula e Trump conversaram. Que momento que nós estamos? O que mudou de lá pra cá?
Leonardo Trevisan
Eu desconfio que o Brasil tomou uma série de medidas, que todas elas pautadas pela mesma direção. Um profundo profissionalismo na diplomacia, em todos os sentidos. Eu acho que isso mudou.
Vitor Boiadjan
E foi muito bem guardado, é raro o Brasil guardar negociações de bastidores secretas, guardar dos jornalistas com quem falam tanto todos os dias. Então isso é um ponto positivo também, porque às vezes é importante que essa negociação ocorra sem maiores pressões externas.
Leonardo Trevisan
O primeiro ponto que a gente tem que notar é o recado dado pelo governo brasileiro, pela voz do ministro da economia, o Fernando Haddad, nenhuma retaliação aos Estados Unidos. Esteve um peso enorme. Não foi o próprio presidente que falou, mas todo mundo entendeu que era esse o recado. Então, o governo como um todo parou com isso. E aí se abriu um espaço para uma ação que não é inédita no Brasil, mas ela foi bastante eficiente. O vice-presidente da República, com toda a imagem que tem, eu lembro que todos nós podemos ter essa lembrança. O vice-presidente falando à frente, atrás dele todo o agronegócio. Todas as facções do agronegócio ali não foi diferente na tarde desse mesmo dia com a indústria. Então, isso foi complementado com uma ação muito eficaz da diplomacia brasileira em todos os sentidos, até no sentido militar. Os militares brasileiros se aproximaram dos militares americanos, o empresariado brasileiro fez exatamente a lição de casa que tinha que fazer.
Vitor Boiadjan
Então não vamos duvidar que do lado americano como do lado brasileiro, o setor produtivo, por lá, o setor importador de café, de carne, de outros produtos, faz uma pressão que tem a ver com os resultados na inflação nos Estados Unidos, em emprego, em uma série de coisas. E do lado brasileiro a gente sabe há quanto tempo estão envolvidos integrantes, representantes do setor produtivo brasileiro nas tentativas de tentar reaproximar o governo. Então acho que é um momento de.
Leonardo Trevisan
Então eu acho que o grande comunicado para eles foi, vocês são superavitários conosco, e o comunicado mais forte, vocês vão perder. E eu acho que nós procuramos os empresários americanos que sabiam perfeitamente como dar esse recado na Casa Branca. O primeiro deles era a poderosíssima União de bares e restaurantes, café. Café é o impulsionador de consumo. Você para no bar para tomar um café, mas compra muitas outras coisas. Então, o café não podia ficar muito caro. Essa ideia abriu um caminho, é claro que o suco de laranja, é claro que outros pontos, mas nós não podemos esquecer das seis mil, olha o número, são seis mil indústrias americanas que têm cadeia produtiva integrada com o Brasil. todos iriam perder.
Ricardo Abreu
Então estamos muito otimistas aí que a gente vai avançar e o presidente Lula destacou a disposição do Brasil para o diálogo e para a negociação. São 201 anos de amizade entre Brasil e Estados Unidos. E reiterou também que entre os países do G20, só três países os Estados Unidos têm superávit, só três. Reino Unido, Austrália e Brasil. Então não há nenhuma razão para ter uma tarifa extra de mais 40%.
Leonardo Trevisan
O segundo ponto, ele tinha feições geopolíticas muito definidas. Nós não devíamos nos aproximar tanto da China, não era só a China. Nós estávamos abrindo novos caminhos de comércio porque outros fregueses estavam ocupando o lugar que era dos Estados Unidos. Isso tinha um sentido tanto geopolítico como a própria complementação. Esse conjunto de pressões se transformou num lobby muito eficiente do Brasil. Eu não acredito, não sei se você acredita, eu não acredito muito em amor à primeira vista. Acho que o Trump não é muito de amor à primeira vista, mas ele achou melhor fazer esse amor à primeira vista em relação ao Lula e o teatro foi muito bem montado. De novo, a diplomacia agiu e agiu de um jeito que foi muito eficiente. Não sobrou arestas e o resultado dessas arestas é o telefonema de hoje de manhã.
Vitor Boiadjan
Levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil, que mostrou que o impacto do tarifácio nas nossas exportações foi menor que o esperado aqui para o Brasil, inclusive com realocação do destino de parte das nossas exportações. Que leitura que o senhor faz desse resultado e como ele nos fortaleceu para as negociações iniciadas agora?
Leonardo Trevisan
Todos que já negociaram com empresários americanos ou com líderes americanos sabem que os americanos, como qualquer um, não gostam de rasgar dinheiro, não gostam de jogar dinheiro fora. E principalmente eles. Então, quando nós olhamos o que aconteceu em agosto, ele era um sinal de alerta muito consistente. A Câmara de Comércio americana foi a primeira a mostrar esses números, inclusive nos Estados Unidos, mostrou lá primeiro e depois aqui. 18,5% em agosto de 2025, vendido a menos para os Estados Unidos do que em agosto de 2024. Porém, as exportações brasileiras, tanto em quantidade quanto em valor, em agosto de 2025, na comparação com agosto de um ano antes, tinham crescido 3,7%, em outras palavras. não adiantou muito a pressão americana. Outros apareceram para comprar, e não foi só China. Se você olhar, metade dos países asiáticos compraram no Brasil. Se você olhar Egito, Indonésia, vários entraram nas negociações, sem contar, evidentemente, o sinal muito forte da carne. Não foi à toa que empresários brasileiros foram recebidos desse setor, foram recebidos por Trump. Nesse contexto, de importância da JIF, que eles conseguiram abrir portas no governo Trump. Então, a gente lembra que eles foram.
Nath Uzaneri
O grupo empresarial que mais doou dinheiro para a Festa de posse do Trump.
Leonardo Trevisan
5 milhões de dólares, mais do que as big techs.
Nath Uzaneri
E aí o destaque são os irmãos Batista.
Leonardo Trevisan
JF tem 180 mil empregados no Brasil.
Nath Uzaneri
Nos Estados Unidos tem 75 mil, emprega 75 mil pessoas.
Leonardo Trevisan
O JF, ele tem planos de investimentos de 1 bilhão de dólares nos Estados.
Nath Uzaneri
Unidos com ampliação de plantas industriais.
Leonardo Trevisan
Evidente que a carne tem um impacto alto. Os Estados Unidos é um país feito por pessoas com padrão salarial alto. Padrão salarial alto come proteína e carne estava subindo 7,5%. Então, de alguma forma, esse impacto, que era direto no bolso, direto no café da manhã, esse impacto, a Câmara do Comércio mostrou que o superávit que os Estados Unidos tinham conosco iria se transformar num prejuízo pra eles. Eu acho que isso foi um impulsionador, sem dúvida nenhuma. Vamos chamar de amor à primeira vista do presidente Trump.
Vitor Boiadjan
E na conversa, vamos falar agora do conteúdo do que foi dito e que se tornou público. Nessa conversa, Lula mencionou sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal. A gente não sabe qual foi a resposta do presidente americano, mas o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro não foi citado nenhuma vez, segundo os relatos. O senhor vê a abertura para essa revisão dessas medidas mais políticas?
Leonardo Trevisan
Esse é um ponto delicado e talvez seja isso que é a grande tarefa da nossa diplomacia, principalmente com a diplomacia americana. A gente precisa lembrar, lembra dos 46% de produtos isentos? Vamos lembrar um pouquinho como é que isso aconteceu? Foi uma viagem do chanceler brasileiro Mauro Vieira para a ONU em Nova Iorque. Ele aproveitou a viagem e fez um pulinho em Washington, onde ele se sentou com o Marco Rubio, com o gênero dele. Nessa conversa, que ninguém sabe o que aconteceu, algumas horas depois saiu a isenção de 46%.
Luiz Inácio Lula da Silva
O presidente americano Donald Trump repetiu com.
Leonardo Trevisan
O Brasil o roteiro que se habituou a seguir nas relações internacionais de comércio. Ele anunciou um aumento brutal de tarifas, estabeleceu uma data para aplicar os percentuais novos, ameaçou tomar medidas punitivas adicionais e 35 horas antes do juízo final tarifário, esticou o prazo em mais cinco dias e abriu quase 700 exceções na lista de produtos brasileiros que vão ser taxados em 50%.
Ricardo Abreu
A Câmara Americana de Comércio para o Brasil fez um cálculo do impacto da nova decisão de Donald Trump. A lista de exceções atinge 694 produtos que o Brasil exporta para os Estados Unidos. Segundo a Anchan, num comércio de 42 bilhões de dólares no ano passado, as exceções somaram 18 bilhões, 43% do total.
Leonardo Trevisan
Isso é fato. A gente não pode brigar com os fatos. Há um espaço diplomático para que essa tensa situação em torno de uma interferência em soberania interna, que o Brasil não vai aceitar, Isso talvez tenha um ponto. Talvez mais importante do que a soberania seja informar o presidente Trump, fazer o presidente Trump ter acesso a outro tipo de informação sobre a política brasileira. Eu acho que isso já aconteceu. Em absoluta e discreta viagem, um dos principais ouvidos do presidente Trump, Richard Grenell, esteve no Brasil há praticamente três semanas atrás, passou algumas horas no Rio de Janeiro com o vice-presidente Geraldo Alves. E teve uma outra, Richard Grenell é o sujeito que reabriu as negociações da Chevron na Venezuela, por exemplo. Reabriu as negociações na Arábia Saudita que redundou na primeira viagem do Trump à Arábia Saudita. Só pra vocês lembrarem com quem nós estamos falando. em absoluto silêncio, diplomata de carreira, é o ouvido do Trump. Eu desconfio que ele levou outro tipo de informação sobre como estavam as classes mais conservadoras no Brasil. Quem as representava de fato? E eu acho que a partir daí nós temos que lembrar que Trump nunca, vamos dizer desse jeito bem brasileiro, amarrou todos os seus ovos, colocou todos os seus ovos nessa cesta. Eu lembro uma declaração do presidente Trump nos jardins da Casa Branca dizendo o seguinte, há um mês atrás, um pouco mais, ele não é meu amigo.
Nath Uzaneri
Ele não é um amigo de mim.
Leonardo Trevisan
Ele é alguém que eu conheço. ele já salvou essas aparências lá atrás. Eu acho que a gente precisa ter isso com clareza para a gente saber de com quem e como nós estamos lidando, de que tipo de estrutura nós estamos lidando. É preciso que a gente observe isso para entender melhor que talvez os ouvidos do presidente Trump tenham recebido outro perfil sobre como é o quadro político brasileiro.
Nath Uzaneri
O tarifaço está em vigor desde 6 de agosto, com uma lista de 700 exceções. Ao anunciar a medida, Trump citou o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, que classificou como caça às bruxas. Segundo Lula, o assunto não foi tratado na conversa de hoje.
Luiz Inácio Lula da Silva
Eu achei importante porque não era para discutir mesmo, eu acho que foi um equívoco de alguém que orientou o presidente Trump. Ele não tocou no assunto, eu não toquei no assunto.
Vitor Boiadjan
Professor, o que esperar agora? Afinal, a redução das tarifas ou a entrada de mais produtos na lista de isenção podem estar no horizonte?
Leonardo Trevisan
Isso, mas o próprio presidente Trump já, e a diplomacia brasileira, o Palácio Planalto já divulgou nesse sentido. que ele mandou o Marco Rubio resolver os problemas. Em outras palavras, todas as arestas serão resolvidas antes. Não esqueçamos a conversa de Marco Rubio com Mauro Vieira, que redundou nos 46% de isenção. É fato. Então, de alguma forma, quando você olha para isso, há um espaço. Eu acho que antes do encontro presidencial, nós teremos outras notícias. É claro que a festa, o teatro, a situação fica reservada para os dois, mas todo o trabalho de aproximação... Porque eu não acredito que tudo será isento. Por exemplo, aço e alumínio, esquece. Não é só o Brasil. A Inglaterra está com a mesma pressão, Coreia, Japão, aí é uma questão interna, é uma questão de escolha estratégica americana com aço. Isso não vai ter, mas os outros produtos nós podemos abrir, nós temos 46%, 35% ainda podemos abrir. Eu acho que vai acontecer, e vai acontecer principalmente uma aproximação da diplomacia presidencial, isso vai acontecer. Não podemos deixar de lado que os dois avisaram que eles colocaram seus... Um tomou nota do telefone do outro. A gente conversa a hora que precisar. Esse ponto me parece essencial para dispensar interlocutores mais apressados de um lado ou de outro. Acho que fica aí um caminho aberto. Eu acredito muito no final de outubro, começo de novembro, nessa reunião do dos países do Sudeste Asiático, que o Brasil geralmente participa, eu acredito muito que nós teremos aí a porta aberta para um primeiro encontro e talvez até uma visita de Estado do presidente Lula aos Estados Unidos.
Vitor Boiadjan
Na conversa, segundo relatou o nosso repórter Ricardo Abreu, houve uma espécie de superficialidade, mas a perspectiva de continuidade aí com equipes mais técnicas, com o vice-presidente Geraldo Alckmin, liderando do lado brasileiro, e com o secretário de Estado, Marco Rubio, do lado americano. Como é que vai ser colocar Rubio nessa mesa de negociações, ele que é um personagem muito mais ideologizado dentro da política do governo dos Estados Unidos. Foi muito vocal, inclusive, com relação às sanções contra as autoridades brasileiras.
Leonardo Trevisan
Olha, eu acho que você tocou num ponto correto e falou de uma forma correta. Eu concordo inteiramente. Marco Rubio é ideologizado, mas ele é obediente ao Salão Oval. Nunca nos esqueçamos disso. Eu desconfio que Marco Rubio receberá de Trump... o tom exato para tratar com o Brasil. Os anéis de influência do Brasil não estão paralisados só no comércio. O Brasil é um player importante num contexto que os Estados Unidos não querem perder amigos, que é o contexto de como lidar com China. O Marco Rubio foi um pouco apressado com o Índia. Eu acho que esse erro não vai ser cometido com o Brasil. O Brasil é muito importante até em aspectos militares nos 8.500 quilômetros de costa que nós temos aqui. Portanto, no Atlântico Sul e tudo que nós já fomos, basta lembrar nosso papel na Segunda Guerra Mundial. Então, quando a gente olha para esse processo, a gente vê que são muito mais fontes de aproximação e o Brasil deixou claro que não tem intenções de pertencer, por exemplo, à Rota da Seda. O Brasil tem ligações com o Ocidente. Tudo isso será lembrado a Marco Rubio. De alguma forma, ele é ideologizado, sim, mas ele obedece o salão oval, eu não tenho nenhuma dúvida disso.
Vitor Boiadjan
Professor Leonardo Trevisan, muito obrigado pela sua participação. Volte outras vezes ao assunto.
Leonardo Trevisan
Eu é que agradeço o convite. Muito obrigado, meu caro. Muito obrigado, Victor.
Vitor Boiadjan
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou o Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 7 de outubro de 2025
Host: Vitor Boiadjan (G1)
Participantes e entrevistados: Ricardo Abreu (repórter da TV Globo em Brasília), Leonardo Trevisan (doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais da ESPM), Luiz Inácio Lula da Silva (presidente do Brasil, trechos de fala), Nath Uzaneri, outros convidados e fontes.
O episódio explora em profundidade o impacto, os bastidores e as perspectivas da inédita ligação telefônica de 30 minutos entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump – ambos presidentes de seus países, em um momento de tensão e expectativa nas relações diplomáticas, comerciais e políticas entre Brasil e Estados Unidos. O programa detalha como o contato amistoso abre portas para negociações futuras, discute o novo canal direto entre os líderes, bastidores diplomáticos, reflexões sobre tarifas, sanções políticas e a relevância geopolítica do Brasil para os EUA.
Ligação inesperada concretizada após 12 dias do anúncio de Lula na ONU
Ênfase em temas econômicos
Declarações de otimismo
Preparação cuidadosa e “construção tijolo a tijolo”
Canais desbloqueados e fim da intermediação
Marco Rubio designado por Trump para negociar tarifas
Cenários analisados:
Trump não se compromete
Mudança duradoura na diplomacia:
Efeitos do tarifácio:
Lobby político e econômico brasileiro nos EUA
Sanções contra o STF e ausência de Bolsonaro no diálogo
Espaço para novas isenções e negociações
Marco Rubio e pragmatismo
| Timestamp | Conteúdo | |-----------|--------------------------------------| | 00:02 | Fala inicial de Lula sobre o improvável | | 00:52 | Trump posta nas redes sobre ligação | | 01:56 | Ricardo Abreu: “Estamos muito otimistas” | | 02:20 | Lula: relato amigável da conversa | | 03:46 | Detalhes dos bastidores, inclusive piadas sobre idade | | 06:23 | Pedido de Lula para retirada de sobretaxa e sanções | | 09:11 | Discussão dos possíveis próximos encontros | | 13:16 | Troca de telefones - fim da intermediação | | 14:43 | Lula narra troca direta de contatos pessoais | | 17:27 | Trevisan: mudança no profissionalismo da diplomacia | | 19:39 | Setor privado como agente-chave na negociação | | 22:34 | Análise econômica do impacto do tarifácio | | 24:18 | Destaca J&F como grande empregador nos EUA | | 30:35 | Trevisan prevê avanços antes de reunião presencial | | 33:13 | Trevisan: Marco Rubio, pragmatismo e hierarquia política |
O episódio se destaca pelo tom pragmático, otimista e analítico, alternando entre bastidores diplomáticos e análises de cenário futuro, sempre ressaltando o esforço brasileiro em manter o foco econômico e evitar disputas ideológicas. Ficou claro o ineditismo e a relevância do canal direto aberto entre Lula e Trump – algo tratado como vitória diplomática, ainda que cautelosa, e como oportunidade para redefinir um relacionamento bilateral fundamental nos próximos meses.
“Eu pedi ao presidente Trump para por seu coração para o Brasil, gente, é pro seu coração. Não coloque ninguém com preconceito para conversar com o Brasil. (...) É um jogo de ganha-ganha, não é um jogo de perde-perde.”
— Luiz Inácio Lula da Silva, [02:20]
Ideal para quem quer entender as engrenagens da diplomacia, comércio e política internacional entre Brasil e EUA, e a influência de personalidades, interesses privados e bastidores para além dos headlines.