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Ana Tuzanera
Tim Black, um plano exclusivo pra você descobrir a sua melhor versão.
Cláudio Castro
Não param de chegar corpos aqui nesse ponto que a gente está. Infelizmente, uma imagem que choca os moradores e, claro, a todos nós.
Ana Tuzanera
O dia seguinte, a operação mais letal da história do Rio de Janeiro ficou marcado por uma cena. Corpos expostos na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, depois de serem retirados de uma mata, a Mata da Vacaria, pela própria comunidade. A gente está numa região conhecida como pedreira. É uma região de mata, um lugar de difícil acesso.
Parentes/Comunidade local
E a gente está aqui acompanhando o trabalho de parentes. Elas estão aqui procurando por corpos, procurando por essas pessoas.
Ana Tuzanera
É um trabalho bem desesperador. De um lado, moradores reclamando que nenhuma autoridade apareceu para fazer perícia ou para recolher os corpos. De outro, autoridades dizendo que a polícia não sabia da existência daqueles cadáveres ali. E mais, que eles foram adulterados. Ouça o que disse Felipe Cury, secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Felipe Cury
Com roupas camufladas, com colete balisco, portando essas armas de guerra aqui. Aí apareceram vários deles, só de cueca ou só de short, descalços, sem nada. Ou seja, é um milagre que isso operou. Parece que eles entraram no portal e trocaram de roupa.
Ana Tuzanera
Os números só ficaram mais claros ao longo da quarta-feira.
Parentes/Comunidade local
O número oficial de mortos na operação policial de ontem, no Rio de Janeiro, praticamente dobrou na manhã desta quarta-feira. De 64, saltou para 121.
Ana Tuzanera
Uma tática inédita ajuda a entender porque foram tantas mortes numa área de mata. A polícia diz que, de maneira intencional, levou o conflito para a região conhecida como Vacaria. E lá, no alto do morro, quem esperava era a tropa de elite da polícia. Assim disse o secretário da Polícia Militar do Estado, Marcelo de Menezes.
Cláudio Castro
E o que a gente traz de diferente nessa operação, fazendo com que aquelas imagens recorrentes de diversos marginais da lei, narco-demonistas, fortemente armados, O dia após a.
Ana Tuzanera
Operação também foi marcado por reuniões e por novos embates políticos.
Deputado de oposição/Mendonça Filho
Agora está todo mundo correndo atrás para apresentar e discutir proposta, porque a eleição está batendo a porta. A sociedade no meio. E a sociedade está no meio esperando respostas.
Ana Tuzanera
Da redação do G1, eu sou Nath Zaneri e o assunto hoje é A politicagem na segurança pública. Um episódio para entender os detalhes da mega-operação contra o Comando Vermelho no Rio e como essa ação expõe a falta de coordenação entre governos por motivos políticos. Eu converso com Ricardo Balestreri, coordenador do Núcleo de Urbanismo Social e Segurança Pública do INS Persidades. E com Bernardo Mello Franco, colunista do Jornal O Globo e comentarista da Rádio CBN. Quinta-feira, 30 de outubro. Ricardo, o governador Cláudio Castro classificou a operação como um sucesso. Ela foi de fato um sucesso?
Ricardo Balestreri
A operação foi um fiasco, um fracasso. Para começar, quando você tem quatro policiais mortos, em nenhum lugar decente e civilizado do mundo, uma operação dessa seria considerada um sucesso. Como é que morreram quatro policiais? Isso é um escândalo. Uma operação bem feita, bem planejada, não pode morrer nenhum policial. Os policiais são fundamentais para a manutenção do Estado Democrático de Direito. A vida deles tem que ser preservada. Agora, quando você usa 2.500 policiais, onde a maior parte deles não tem know-how para entrada em comunidades dominadas pelo crime fortemente armado, Isso acaba sendo uma consequência. A gente tem que ter mais responsabilidade, inclusive, na preservação da vida dos policiais. Eu lamento demais que se use policiais dessa forma. No Rio de Janeiro tem setores da polícia que entram em comunidades conflagradas como ninguém. Mas tem setores que não têm a preparação para fazer esse tipo de coisa. Então, para fazer uma operação espetaculosa, de grande efeito midiático e enganar a plateia, parecer que o governo toma atitudes em relação à segurança pública, você reúne 2.500 policiais e coloca a gente efetivamente com condições plenas de entrar e gente sem condições de entrar. Então vai dar bobagem, vai dar consequências negativas. O outro fiasco é que é mais uma operação invasiva. A Universidade Federal Fluminense, algum tempo atrás, fez uma pesquisa, de 15 anos até 2002, da quantidade de operações desse tipo no Rio de Janeiro. Foram quase 18 mil operações invasivas. E dessas 18 mil operações invasivas, quase 600 terminando em chacinas. E o que é mais triste, o nível de eficácia disso é menor do que 2%. Então, como é possível, com o Estado... que está tão acostumado a fazer bobagem em segurança pública e não obter nenhum resultado, como é possível que ele continue insistindo nessa metodologia fracassada e depois ainda tendo a coragem de se gabar que foi um sucesso? Obviamente não foi, isso é um ufanismo ridículo. Até pra ser ufanista tem que ter conteúdo, né?
Cláudio Castro
Se não dá pra contar com apoio, a gente foi e fez a nossa operação e foi um sucesso ontem, tirando a vida dos policiais, o resto da operação foi um sucesso. E a gente não fica aqui chorando, a gente fica trabalhando.
Ricardo Balestreri
Eu acho que nesse sentido o governador, e eu não tenho nenhum compromisso com nenhum partido político, mas como especialista, como técnico da área, como ex-secretário nacional de segurança, ex-secretário de segurança pública de Goiás, eu me sinto com autoridade para dizer que esse ufanismo é ridículo, esse ufanismo sem conteúdo, essa operação a partir de critérios técnicos internacionais não seria bem vista por ninguém, como não está sendo bem vista por ninguém no mundo. O Rio de Janeiro que não merece isso, a população do Rio de Janeiro que não merece isso, hoje está sendo internacionalmente enxovalhada, com o mundo inteiro horrorizado com esses números, com contagem de mortes, e que aqui ninguém pense que eu tô passando pano pra bandido, que tô de alguma maneira acobertando esse horror tirânico que é o Comando Vermelho. Bandido tem que estar preso, bandido tem que ser julgado e preso. Bandido não pode estar dominando o território. Bandido não tem direito de andar armado e exercer poder sobre a vida de cidadãos honestos e trabalhadores. Bandido tem que ser combatido. Agora, bandido tem que ser combatido com inteligência, né?
Ana Tuzanera
Ricardo, um elemento que surgiu hoje e não estava no meu radar ontem o Procurador-Geral de Justiça do Estado, diz que representa o Ministério Público Estadual, disse que essa operação não era uma operação de reconquista de território. Ele disse que essa operação era vários mandados emitidos, decretados pela Justiça, que foram executados. Por que essa informação é importante para a gente entender o que aconteceu?
Ricardo Balestreri
Se isso for verdade, é pior ainda do que a gente pensa, porque sequer a hipótese que se exigiria de um governo democrático que é não permitir que o território fique na mão dos bandidos, podia até ser uma tentativa desastrada, mas pelo menos que fosse uma tentativa, quer dizer, se é menos ainda do que isso, a pergunta é como é que para cumprir mandados se realiza uma carnificina desse tamanho? Natuza, em qualquer lugar do mundo, você tem que prender. Não é que em alguma hipótese você não entre em confronto com bandidos e aí até eles percam a vida. Isso é admissível quando não há outra saída. Mas em qualquer lugar decente do mundo, você tem que prender os bandidos para obter mais informações com eles. Quer dizer, então, o que a gente tem no Rio é a eliminação dos meios de informação. Quer dizer, você mata e você perde a informação, você perde profundidade no processo. E aí, para cumprir alguns mandatos, se comete uma carnificina. Mas qual é o sentido disso? A Polícia Federal realizou, em 2025, 178 operações no Rio de Janeiro. 24 delas foram para combate ao tráfico, e armas. 24 operações que fizeram 210 prisões e aprenderam 190 armas. E não fizeram isso com pirotecnia, quer dizer, não tem um jeito inteligente de fazer as coisas, que não produza matança. Em qualquer lugar do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, a gente não sabe fazer nada com inteligência sem produzir carnificina, sem criar um drama, um trauma na população do Rio de Janeiro.
Ana Tuzanera
Agora, Ricardo, o comando das polícias disse que optou por uma estratégia de empurrar os criminosos para uma região de mata para que o confronto não se desse na área de asfalto. Como é que você avalia esse tópico em particular?
Ricardo Balestreri
Eu sinceramente acho que isso não é verdade. O que a gente conhece da dinâmica criminal é que enquanto o Estado enfrenta a linha de frente, perdão do termo chulo aqui, enquanto o Estado enfrenta a linha de frente mais pé de chinelo do crime, os gerentes locais do tráfico têm tempo de se esconder. É isso que de fato acontece. Não dá para depois usar isso e dizer, a gente fez isso pensadamente para que os bandidos se evadissem e a comunidade do entorno não fosse prejudicada. A pergunta é o seguinte, olha o prejuízo para a comunidade do entorno, que fundamento tem essa explicação, história da carochinha.
Ana Tuzanera
Ricardo, o chefe da Polícia Civil Deu a seguinte frase na quarta-feira, que é quando a gente grava. Abre aspas. Quanto mais inteligência tivermos, mais confronto vamos ter. Fecha aspas. Eu queria, à luz do seu conhecimento sobre segurança pública, que você analisasse pra gente essa declaração ou essa máxima.
Ricardo Balestreri
Pois é, eu acho que é exatamente o contrário. Quanto mais inteligência tivermos, menos confrontos temos. Aliás, isso é a lógica muito típica de livro, de cartilha da segurança pública no mundo inteiro. As boas corporações policiais do mundo inteiro, elas produzem muito pouco conflito e resolvem largamente os problemas da criminalidade. Você tem uma polícia federal brasileira que faz grandes operações com resultados muito significativos e praticamente não produz conflito, não tem nem troca de tiro. E muitas vezes essas operações não são no top econômico da sociedade, muitas vezes são operações realizadas em comunidades mais populares. É que eu acho que há um gosto no Brasil pelo espetacular. Você precisa, quer dizer, eu não me deixo emaranhar por essas explicações, porque eu acho que a verdade mesmo é que a gente precisa produzir imagens, som e fúria, para conquistar a credibilidade pública de uma população que está legitimamente farta da insegurança pública, que pede medidas rápidas e imediatas para a solução, que não tem contudo conhecimento técnico e que interpreta episódios desse tipo como atitudes para resolver o problema da segurança pública, porque inclusive falta memória Para lembrar que isso já foi feito muitas vezes no passado e não resolveu nada. Então, eu acho estranhíssimo esse argumento. Em qualquer lugar onde há inteligência, tem menos truculência, menos violência. Porque o que importa não é castigar o crime. Esse conceito também é extremamente atécnico, é extremamente anticientífico. O papel da segurança pura não é castigar os criminosos. O papel da segurança pura é impedir o crime. Mas, assim, num país que é sedento de sangue, que está farto da insegurança, de repente autoridade pública de maneira populista, ela fica trabalhando para dar esse tipo de resposta superficial e que agrada a plateia, é aplaudido pela plateia. Segurança pública não se resolve com politicagem. Segurança pública se resolve com boa técnica, em qualquer lugar do mundo. É que as pessoas também, às vezes, confundem inteligência meramente com investigação, o que é importante, mas é uma redução do conceito de inteligência. Inteligência em segurança pública é inteligência estratégica. E ela depende da polícia, mas ela depende também de gestores especialistas, porque administrar a segurança pública não é igual administrar a polícia. A polícia é uma parte da segurança pública muito importante, mas não se faz segurança pública só com polícia. Segurança pública é um tema de complexidade.
Ana Tuzanera
Sim, sem dúvida. Por falar nisso, Tem duas propostas legislativas, uma que já foi, tá no escaninho do Congresso Nacional desde abril, que é a PEC da Segurança Pública, e uma parte da sociedade, dos políticos que representam a sociedade brasileira, parte da sociedade à direita, não quer, que é a PEC da Segurança Pública. e um outro que não saiu ainda do governo federal, que está demorando já um bocado para chegar ao Congresso, que é o Projeto de Lei Antifacção. Queria uma avaliação do senhor sobre essas duas iniciativas.
Ricardo Balestreri
Olha, Natuzzi, em primeiro lugar, a PEC não caminhou por politicagem também. A reação de alguns governadores candidatos foi muito forte, porque é a gente que se importa mais com a própria candidatura do que com a dor do povo brasileiro. O que, aliás, é muito comum na história brasileira ao longo dos tempos. E essa reação foi muito forte e paranoica, dando a entender que o governo federal gostaria de assumir o comando monopolístico da segurança pública no Brasil. Isso é uma obtusidade, um absurdo. Qualquer pessoa inteligente, minimamente técnica, sabe que nunca houve, de parte do governo federal, nenhuma tendência, nenhum desejo de tomar conta da segurança pública no Brasil inteiro e, com isso, invadir o poder dos estados. Isso é conversa mole pelo dia opinião pública. Na verdade, a rejeição que se deu, ela se deu por um temor de resolver os problemas. Quer dizer, o governo federal leva anos para assumir o seu papel de coordenador político. Nós estamos num Estado federado, mas onde o governo da União tem um papel de coordenador político. E isso não é nenhum desrespeito à Constituição. Quer dizer, por que nós temos um governo da União, então? Se não é para coordenar as diversas atividades.
Ana Tuzanera
E quais os dois ganhos que a PEC da Segurança traz? Um ganho da PEC da Segurança, melhor dizendo, e um ganho da lei antifacção?
Ricardo Balestreri
Olha, a PEC da Segurança, em primeiro lugar, um grande ganho, ela propõe uma unificação das informações, da inteligência de todo o país. Isso é uma loucura no Brasil, porque nós temos inteligências diversas, Muitas delas muito competentes, mas que não trocam informações. É um país que age como se fossem vários países na área da segurança. Você não tem como enfrentar um crime organizado que é nacionalizado e internacionalizado. Então a PEC, por exemplo, vem trazer isso. Quer dizer, como é que você interpreta, paranoicamente, dizendo que o governo da União está tentando invadir as competências dos Estados? Isso realmente é uma conversa de politicagem para preservar e para, de alguma forma, promover governadores que têm legítimas aspirações políticas, mas que deviam ter mais honestidade intelectual, que não estão tendo, efetivamente. Não estão tendo. A aspiração política é legítima. Agora, ela tem que ser acompanhada por honestidade intelectual e não houve rejeição. Por isso é que a PEC parou. A outra medida, que é a PL anti-facções, Ela é superinteressante, é um avanço efetivo. Ela permiciona infiltração pessoal, ela permiciona infiltração de falsas empresas, de pessoas jurídicas, montadas para acompanhar o fluxo do dinheiro. Ela permiciona uma apreensão rápida e menos burocrática de bens. Então, isso é um avanço proposto pelo PL, né? Antifacções, né? Esse PL propõe um agravamento de penas corretamente proposto. E está correto, se criou no Brasil uma ideia, que o que importa não é o tamanho da pena, mas a certeza da punição. É uma frase clássica proferida um dia pelo grande becaria, pelo grande criminalista becaria. Mas isso não pode virar um dogma. É claro que o tamanho da pena também importa. Agora, o tamanho da pena importa para criminoso e importante. para criminoso que tem realmente liderança no processo. O senso comum acredita em bravata, né? É uma beleza quando o sujeito diz que bandido aqui não se cria, que bandido bom é bandido morto, quer dizer, as pessoas estão há 40 anos ouvindo isso e votando nessa gente incompetente, perversa e de má fé, né? O Brasil tem que aprender a não fazer mais isso. A gente tem que aprender a votar melhor também no campo da segurança pública. Eu não estou me referindo aqui a nenhum partido. Em todos os partidos. Em todos os partidos você encontra gente correta, moralmente, eticamente bem posicionada. Em todos os partidos você encontra pilantra que ilude a opinião pública dessa forma.
Ana Tuzanera
Ricardo, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui do assunto. Te desejo um bom trabalho.
Ricardo Balestreri
Também muito obrigado.
Ana Tuzanera
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com Bernardo Mello Franco. Bernardo, quero avaliar a atuação do governador Cláudio Castro, olhando para os primeiros momentos do pronunciamento dele diante da megaoperação. O que dá para dizer?
Bernardo Mello Franco
Olha Natuza, política e polícia sempre se misturaram muito aqui no Rio de Janeiro. O debate de segurança pública sempre foi central nas eleições do governador, não poderia ser diferente. E no caso do Claudio Cascio, vale lembrar como é que esse personagem entra em cena. O Cascio era um vereador de primeiro mandato, um político pouquíssimo conhecido no Rio, quando se elegeu vice-governador na chapa do Wilson Witzel, aquele do tiro na cabecinha. O Witzel foi caçado e o Cláudio Cascro assumiu. Então, estou fazendo essa memória para a gente situar o campo político dele e qual foi o tipo de discurso que levou ele para o poder. Nessa terça-feira, logo depois da operação policial, os corpos ainda estavam sendo contados nas favelas quando o Cascro subiu no palanque. Ele dá uma coletiva com um teor político muito forte. E qual que é a primeira coisa que ele faz? É arranjar culpados, buscar bordes expiatórios. Então, ele faz uma crítica ao governo federal, tratando do Ministério da Justiça e do Ministério da Defesa.
Cláudio Castro
Infelizmente, dessa vez, como ao longo desse mandato inteiro, não temos o auxílio nem de blindados, nem de nenhum agente das forças federais, nem de segurança, nem de defesa.
Bernardo Mello Franco
E depois também faz um ataque ao Supremo Tribunal Federal, culpando aquele julgamento da ADPF das favelas pela situação de descontrole no Rio.
Cláudio Castro
Explicando à população que é fundamental, depois de cinco anos de ADPF, muitas barricadas, muita dificuldade para a polícia entrar, ainda são o que nós chamamos de filhotes dessa ADPF maldita. Infelizmente, um partido político ingressou e prejudicou demais o Rio de Janeiro, mas as polícias, com muita coragem, estão trabalhando desde cedo.
Bernardo Mello Franco
E isso chamou a atenção porque o Castro é um político que está há cinco anos como governador do Estado. E ele apontou o dedo para todo mundo, menos para o próprio governo. Também vale a gente observar que o grupo político dele tem ampla maioria na Assembleia Legislativa do Rio. O grupo político dele tem ampla maioria também na representação federal do Rio de Janeiro e Brasília. Veja que os três senadores do Rio são afiliados ao PL, que é o partido do Cláudio Castro e do ex-presidente Bolsonaro. Então, ele reclama de falta de ajuda, ele aponta dedo para outras instâncias de governo, mas, na prática, ele está usando isso também como uma manobra para não assumir a própria responsabilidade pela crise da segurança no Rio.
Ana Tuzanera
Bom, logo depois que ele deu essa declaração, Cláudio Castro se apressou em telefonar para a ministra Gleisi Hoffman para dizer, olha, não era a minha intenção fustigar o presidente da república em dado momento. ele conversa com o ministro da Casa Civil, o Rui Costa, e segundo as apurações que eu fiz, Bernardo, o Rui Costa foi bastante duro, disse assim, olha, é mentira o que o senhor está dizendo, governador, é injusto com o presidente da República, que já teve três GLOs no Rio de Janeiro nesse terceiro mandato, e segundo esses relatos com fontes do governo federal, a gente vai para o Rio de Janeiro". Ele, não, não precisa e tal, eu vou a Brasília e tal. Não, governador, a gente vai ao Rio de Janeiro, o senhor está dizendo que o governo federal desapareceu, o que é mentira. Então agora o governo federal vai até o Rio de Janeiro. E aí que eles desligaram, depois o Cláudio Castro ligou de volta, dizendo assim, não, eu vou mesmo, eu tenho que ir para Brasília porque eu tenho que resolver um outro assunto lá, eu acho que em algum momento o Cláudio Castro deve ter imaginado que a ida do governo federal até o Rio de Janeiro não ficaria bem na fotografia. Eu quero pegar justamente esse ponto, ficar bem na fotografia. A gente está falando de um estado colapsado em termos de condições de combater o crime organizado, a gente está falando de um país com muitos problemas de se combater o crime organizado, 17 mil quilômetros de fronteira e as pessoas ainda estão preocupadas em ficar bem na foto. Onde é que está o problema aí?
Bernardo Mello Franco
É, infelizmente esse debate da segurança pública está partidarizado e tende a ser cada vez mais, Natuza, à medida que a gente está se aproximando da eleição de 2026. E todas as pesquisas estão mostrando que a segurança pública está no topo das preocupações do eleitor brasileiro. Então, a gente vai ver muita informação e contra-informação, a gente vai ver muita politização e polarização desse assunto, que deveria, obviamente, ter uma abordagem mais técnica, uma abordagem mais focada na prevenção dos crimes e na proteção da população civil. Agora, o discurso que o Cláudio Kasko encampa, que é o discurso da direita mais radical, é sempre do prendo e arrebento, a política do bang-bang. E a gente sabe que esse discurso dá muito voto no Brasil e no Rio de Janeiro em particular. Eu lembrei na outra resposta do Wilson Witzel, que se elegeu prometendo que a polícia ia ter carta branca para matar. Então, esse é um discurso politicamente poderoso, ainda mais numa situação em que a população se vê amedrontada, a população está sentindo as dores da falta de segurança na rua, está convivendo com a epidemia do roubo de celular. Então, é um tema muito polarizante e que acaba levando muito voto também. Infelizmente, eu acho que a gente não vai conseguir se livrar dessa instrumentalização política do debate. O que cabe para a sociedade e também para a imprensa é cobrar respostas efetivas para problemas reais que estão aí. E certamente a resposta não passa pelas puras e simples matanças policiais. Muita gente tem lembrado que se a matança resolvesse o problema da segurança, o Rio de Janeiro ia ser o estado mais seguro do Brasil. E infelizmente não é isso que acontece.
Parentes/Comunidade local
A gente está falando de uma operação que resultou em mais de 120 pessoas mortas, dentre os quais 4 policiais assassinados e ontem noticiavam-se pelo menos 6 policiais baleados. Então a gente está falando de servidores públicos que saíram para trabalhar e não voltaram para casa. A gente está falando de uma cidade que teve seu cotidiano completamente interrompido, aulas suspensas, posto de saúde que deixa de funcionar, uma população aterrorizada e 120 vítimas que nós nem sabemos quem são. Tá, mas qual que é o resultado disso? Isso efetivamente interrompeu os negócios ou atacou sensivelmente os negócios do Comando Vermelho? Porque me parece que o Comando Vermelho hoje tá vendendo droga do mesmo jeito no país inteiro, não só no Rio de Janeiro. Então, a gente não percebe qual que é a efetividade, pra além da tragédia humana, a efetividade de uma operação como essa em desbaratar uma organização criminosa que tem atuação transnacional.
Bernardo Mello Franco
A gente vê um Estado que é marcado, tem a sua história marcada por grandes massacres policiais, isso desde os anos 90, com a chacina de Vigário Geral, a chacina da Candelária, mais recentemente a chacina do Jacarezinho, já no governo Cláudio Castro, e agora esse episódio dessa terça-feira, que já se torna o mais letal da história do Estado. Não é trivial. Gente, morreu mais gente no Rio de Janeiro, nessa terça-feira do que no massacre do Carangiru, em São Paulo. Então, é um fato histórico que a gente está assistindo. Um fato que vai ser lembrado por anos, por décadas, por gerações. E é em cima desse fato que alguns políticos estão tentando montar o seu palanque para a eleição de 26.
Ana Tuzanera
Pois é, a gente está falando de um cenário, como você mesmo visitou, muito polarizado, muito politizado. A esquerda é muito criticada por não saber dar soluções para problemas de insegurança pública. A direita, por outro lado, também não me parece ter o condão de resolver, porque a gente está falando de um estado que já é governado pelo campo da direita há algum tempo, outros estados também governados pelo campo da direita, não dão soluções. Então a gente olha para um lado do espectro político, a solução não parece vir. Olha para o outro, a solução também não parece vir. Onde é que está o problema aí, então?
Bernardo Mello Franco
Olha, se a esquerda já não tinha pouco problema nessa agenda, Natuza, ainda ficou pior depois da declaração desastrada do presidente Lula nessa viagem na semana passada, quando ele disse que o traficante seria vítima do usuário de drogas. Claro, ele depois tentou se consertar, fez ali um pedido meio torto de desculpas, mas você pode ter certeza que essa declaração vai ser usada também contra ele na disputa eleitoral de 26. E nesse caso, Lula não tem a que culpar. A frase mal posta, mal colocada, mal pensada, foi dele mesmo. E reforça o estigma que existe sobre a esquerda, de que a esquerda, ao defender a bandeira dos direitos humanos, estaria defendendo bandidos. É claro que uma coisa não é igual à outra, mas o fato é que essa compreensão se tornou muito popular, ganhou muito a rua no Brasil. E claro que o Bolsonaro, com aquele discurso dele muito alinhado a essa ideia das forças de segurança terem licença ele falava o tempo todo na campanha no chamado excludente de lucitude, isso tudo contaminou muito o debate político. De onde que vão vir as respostas? Acho que ninguém tem uma solução mágica para esse assunto. Se alguém tivesse, já teria sido implementada. Mas certamente não é da instrumentalização das tragédias, das chacinas, das mega-operações policiais. E no caso do Rio, a gente vê um ciclo que vai se retroalimentando, se repetindo. Essa política de segurança, baseada na mega-operação, em que o Estado chega de uma vez só, de surpresa, com helicóptero, com caveirão, sai atirando, causa terror e pânico, mata dezenas de pessoas e se ausenta no dia seguinte, essa política nunca deu certo e nunca dará. É preciso que tenha o mínimo de planejamento, não só de inteligência para poupar vidas humanas, para evitar morte, ferimento de inocentes, como também, principalmente, para que o Estado chegue nessas comunidades de outra forma. Porque veja, a gente está falando de 119 pelo menos mortos, segundo o balanço oficial. Hoje a gente está gravando esse programa no dia seguinte, Natuza. E qual é a consequência concreta disso tudo que a gente viu para o poderio do Comando Vermelho no Rio? Não consegui ver ainda, fora a apreensão ali de cerca de 100 fuzistas. Ainda não tem uma demonstração clara de que essa facção comunhosa ficou menos forte, menos poderosa. E tem menos ainda um sinal de que vai haver alguma mudança para as pessoas que moram nessas regiões. Veja, o complexo do Alemão, o complexo da Penha, são áreas enormes da zona norte do Rio. E hoje elas amanheceram de luto, com muito sofrimento, muita tristeza, muitas famílias velando os mortos, mas sem nenhuma alteração concreta. Não dá para a gente dizer que essa região, depois da operação de terça-feira, ficou livre do comando da tirania do tráfico. E isso que é o mais triste nessa história. Quer dizer, é imaginar que tudo isso está sendo causado, tudo isso está sendo vivido pela população e no dia seguinte a rotina de dominação pelo crime organizado permanece igual.
Ana Tuzanera
Bom, quando Cláudio Castro disparou contra o governo, o governo respondeu. negou que tivesse recebido qualquer tipo de pedido de ajuda por parte do governador do Rio de Janeiro. Em compensação, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, disse que no nível ali da hierarquia entre as polícias houve uma comunicação na área de inteligência e que o setor de inteligência da PF foi convidado a participar da operação, mas olhando ali o planejamento, considerou não ser uma operação razoável. A gente não sabe muito bem o que isso quer dizer.
Andrei Passos Rodrigues
Do estado do Rio de Janeiro e nós não fomos comunicados que seria deflagrada nesse momento. Houve um contato anterior do pessoal da inteligência da Polícia Militar com a nossa unidade do Rio de Janeiro para ver se haveria alguma possibilidade de atuarmos em algum ponto nesse contexto. A partir da análise do planejamento operacional, a nossa equipe entendeu que não era uma operação razoável para que a gente participasse. O colega do Rio de Janeiro informou ao seu contato operacional que a Polícia Federal segue o seu trabalho de investigação, de polícia judiciária, fazendo o seu trabalho de inteligência, mas que naquela operação que é do Estado, tinha mais de 100 mandados, se não me engano, para cumprir, do Estado do Rio de Janeiro, nós não teríamos nenhuma atribuição legal para participar, e, portanto, não fazia sentido a nossa participação.
Ana Tuzanera
Olhando agora para o governo federal e para as respostas que ele deu nessas últimas 24 horas, que conclusões você tira?
Bernardo Mello Franco
Primeiro, o timing desse episódio foi muito desfavorável para o governo. Eu digo isso porque o presidente Lula estava em voo, voltando de uma viagem para a Ásia, portanto, ele ficou muito tempo fora do ar. pelas informações que a gente tem, ele foi informado durante o voo, ele tinha ali acesso a telecomunicações, mas não pôde fazer reunião, não pôde, enfim, de fato, coordenar uma resposta efetiva do governo. Essa resposta só começou a vir no dia seguinte. E para o público que não está envolvido na luta política, que quer, na verdade, a solução para o problema da segurança, acho que o que ficou nessas primeiras horas foi apenas o bate-boco. Quer dizer, um governador que se exime de culpa, tenta responsabilizar Brasília pela confusão do Rio e, do outro lado, o governo federal também tentando, de certa forma, se defender mais do que propor alguma coisa de concreto para resolver o problema.
Ministério da Justiça e Segurança Pública
O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou em nota que mantém a atuação no Rio de Janeiro desde outubro de 2023 com a Força Nacional e que tem atendido prontamente a todos os pedidos do governo do Rio de Janeiro para o emprego da Força Nacional e afirmou que repassou mais de R$ 470 milhões para o Estado nos últimos anos. Segundo o Ministério, o Rio de Janeiro usou menos da metade do dinheiro. No Ceará, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, negou que tenha recebido o pedido do governo do Rio para a operação de hoje.
Felipe Cury
O combate à criminalidade, seja ela comum, seja ela organizada, se faz com planejamento, com inteligência, com coordenação das forças. Enfim, não posso julgar porque não estou sentado na cadeira do governador. Não recebi nenhum pedido do governador do Rio de Janeiro, enquanto ministro da Justiça e Segurança Pública, para esta operação. Nem ontem, nem hoje, absolutamente nada.
Bernardo Mello Franco
Esse bate-boca, ele causa manchete, ele abastece a gente que vive aqui da cobertura política, mas causa muito pouco efeito sobre a política pública e, na ponta ali, sobre a vida da população. Agora, se a gente olhar para o passado, Lula já está no terceiro governo. E o que a gente viu nos outros mandatos foi que, de certa forma, ele repetiu um padrão de presidente da República no Brasil, que é de deixar esse assunto meio para lá, para os governadores, Natuza. Esse assunto da segurança pública é um assunto tóxico, ainda mais no Rio de Janeiro, porque o governador fica marcado por tragédias, fica marcado por casos de grande repercussão, e o presidente da República, que não comanda as polícias, normalmente não quer se associar a essa agenda negativa. Claro que nesse ano teve ali a proposta da PEC da Segurança Pública, que de certa forma foi o governo federal pela primeira vez se propondo a assumir um papel mais ativo nesse debate, nessa política pública, Mas o fato é que isso ainda não saiu do papel.
Deputado de oposição/Mendonça Filho
Deputado de oposição me dizendo que vão conversar com o Gumota, alguns já conversaram com o Gumota, o deputado Mendonça Filho, eu conversei com ele longamente ontem, ele é o relator da PEC da Segurança Pública, ele me disse que vai entregar o relatório em novembro e que acredita que pode passar esse relatório em dezembro e eu falei, mas e no Senado? Ele acha que você tem uma urgência, porque tem uma urgência na sociedade desse assunto, que o Senado vai aprovar. E eu falei, até porque ano que vem é ano de eleição, sabemos como funciona o Congresso Nacional. Agora, pergunto para vocês, e vou repetir isso o tempo todo aqui, tá bom, a PEC é o debate, chegou em abril, nós estamos em novembro, a gente descobriu isso agora? Isso não foi tratado na reunião de governadores de direita, porque eles são contra a PEC da Segurança Pública, então eles são a favor de quê?
Bernardo Mello Franco
Então, de concreto mesmo, o governo federal manda tropas, decreta uma intervenção federal do Rio, que é uma ação radical, no limite. Ou, na prática, ele só fica ali nesse campo da cooperação, que depende muito da boa vontade do governador. Então, quando você tem um governador de um campo político da direita mais radical contra um presidente da esquerda, da centro-esquerda, a tendência é que essa cooperação fique ainda mais difícil e, provavelmente, é isso que a gente vai assistir a partir de agora nessa discussão do Rio de Janeiro.
Ana Tuzanera
A gente bota muito na conta da política, mas todos os debates públicos no país são permeados pela política. Eu acho que o que tem aí nesse debate é cinismo mesmo, não é política. É cinismo, você pode até dar o nome de politicagem. Muitos especialistas sérios estão dizendo o seguinte, olha, não existe uma solução milagrosa, não existe uma bala de prata, mas existe um conjunto de coisas que faz sentido. Então a PEC da Segurança Pública faz sentido. o projeto anti-facção criminosa faz sentido. E aí o próprio governador Cláudio Castro, que diz que quer ajuda do governo federal, quando surge uma PEC, uma proposta de emenda à Constituição, colocando o governo federal como coordenador de ações de combate ao crime organizado, porque tem que ser, porque o crime organizado se conversa, ao contrário de Cláudio Castro e o Governo Federal, o Comando Vermelho e o PCC fazem acordos, inclusive de operação. O crime está se falando e a política não. Ele diz que não, ele diz que não concorda. Então tem muita gente dizendo, vá pelo caminho da PEC da Segurança, ainda que ele seja alterado por forças à direita, não tem problema, faz parte do debate público mesmo, mas aí na hora que Alguém aceita o convite para a contradança, o governador simplesmente finge que não é com ele e se encontra com outros governadores de direita mostrando que, sim, a coisa está completamente contaminada.
Bernardo Mello Franco
Porque no momento em que o governo federal propôs a PEC, ele disse que não, que não queria interferência na política do Rio, na autonomia dos estados. E no momento que acontece uma crise desse tamanho, ele aponta o dedo para cima e diz que a culpa é do governo federal que não está ajudando. Então você vê aí que o discurso vai se moldando conforme os fatos vão acontecendo. Agora, outra frente da exploração política desse caso, É justamente essa articulação entre os governadores do campo da direita que a gente está assistindo a partir dessa quarta-feira. O Cláudio Castro parece ter articulado uma comitiva de governadores que está planejando vir ao Rio de Janeiro para expressar apoio ao governador do Estado contra o governo federal. E aí a gente está falando de eleição na veia, porque muitos desses governadores que estão de malas prontas para vir ao Rio são personagens da sucessão presidencial, alguns como pré-candidatos, outros querendo ser vice. Enfim, são personagens conhecidos do eleitor e que estão tentando capitalizar também essa disputa em proveito próprio. Veja o Ronaldo Caiago, governador de Goiás, que chegou ao ponto de oferecer tropas goianas para ajudar a polícia do Rio. Imagina como é que isso ia ser possível. Você tirar um policial militar lá do interior de Goiás, soltar ele numa favela do Rio e falar, meu amigo, se vira. Não é bom nem para o Rio, nem para o policial que vai sair de lá para, enfim, atuar em circunstâncias muito adversas num território que ele não conhece. Então, o que a gente está vendo aí? É pura e simples exploração política, ou como você falou, politicagem. E, claro, os dados se mexendo na direção da eleição de 2026. Essa história da cooperação dos governadores é algo que aqui no Rio, na tua vai produzir aquilo que a gente chama de muita espuma para pouco chope. Ou seja, pode ser que produza manchete, produza foto, produza fato político, mas a chance de chegar a uma solução para o problema da segurança é quase nenhuma. Por outro lado, o governo federal também fica premido pelo calendário eleitoral. Será que o presidente Lula vai querer decretar uma intervenção federal no Rio de Janeiro nesse momento, e aí vai se associar a toda e qualquer crise que acontecer daqui até a eleição de 2026? Isso me parece muito improvável. Da mesma forma, o Cláudio Cascro tem demonstrado que não vai pedir uma GLO, não vai pedir uma entrada das Forças Armadas, porque isso, na prática, significaria ele admitir a falência da política de segurança do Estado. Então, como sempre, a população fica espremida entre a disputa política, entre o discurso eleitoral, e fica, na prática, desprotegida. Isso que a gente, infelizmente, tende a acontecer.
Ana Tuzanera
Bernardo Mello Franco, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho para você.
Bernardo Mello Franco
Obrigado pelo convite. Espero que no próximo seja diante de um tema mais ameno.
Ana Tuzanera
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Host: Ana Tuzanera (Natuza Nery) | Convidados: Ricardo Balestreri (Especialista em Segurança Pública) & Bernardo Mello Franco (Colunista d’O Globo)
O episódio aborda a recente megaoperação policial no Rio de Janeiro, a mais letal da história do estado, que deixou pelo menos 121 mortos, incluindo quatro policiais. O foco é discutir como a ação policial evidencia a falta de coordenação, o uso político da segurança pública e a ineficácia das operações espetaculosas. Especialistas convidados debatem as motivações dos gestores públicos, as consequências para a população e possíveis caminhos para melhorar a segurança no Brasil, especialmente diante da polarização política e das eleições de 2026.
[00:11 – 02:32]
“O número oficial de mortos na operação policial de ontem, no Rio de Janeiro, praticamente dobrou na manhã desta quarta-feira. De 64, saltou para 121.” – [01:32]
Convidado: Ricardo Balestreri
[03:30 – 13:39]
“A operação foi um fiasco, um fracasso. [...] Em nenhum lugar decente e civilizado do mundo, uma operação dessa seria considerada um sucesso.” – Ricardo Balestreri [03:30]
Alto número de policiais mortos: Mau planejamento e uso de contingentes despreparados.
Repetição de Operações Invasivas:
“No Rio de Janeiro tem setores da polícia que entram em comunidades conflagradas como ninguém. Mas tem setores que não têm a preparação para fazer esse tipo de coisa.” – Ricardo Balestreri [03:57]
“Você mata e você perde a informação, você perde profundidade no processo.” – Ricardo Balestreri [07:43]
“Para fazer uma operação espetaculosa, de grande efeito midiático e enganar a plateia, você reúne 2.500 policiais...” – Ricardo Balestreri [04:28]
“O que a gente conhece da dinâmica criminal é que enquanto o Estado enfrenta a linha de frente [...] os gerentes locais do tráfico têm tempo de se esconder.” – Ricardo Balestreri [09:45]
“Quanto mais inteligência tivermos, mais confronto vamos ter.”
“Pois é, eu acho que é exatamente o contrário. Quanto mais inteligência tivermos, menos confrontos temos.” – Ricardo Balestreri [10:48]
[13:39 – 18:43]
“A PEC da Segurança, em primeiro lugar, um grande ganho, ela propõe uma unificação das informações, da inteligência de todo o país.” – Ricardo Balestreri [15:44]
Convidado: Bernardo Mello Franco
[19:03 – 41:00]
“Ele faz uma crítica ao governo federal, tratando do Ministério da Justiça e do Ministério da Defesa.” – Bernardo Mello Franco [19:03]
“O discurso que o Cláudio Castro encampa, que é o discurso da direita mais radical, é sempre do prendo e arrebento, a política do bang-bang. E a gente sabe que esse discurso dá muito voto.” – Bernardo Mello Franco [23:25]
“Essa política de segurança, baseada na mega-operação [...] nunca deu certo e nunca dará.” – [28:42]
“A frase mal posta, mal colocada, mal pensada, foi dele mesmo. E reforça o estigma que existe sobre a esquerda, de que a esquerda, ao defender a bandeira dos direitos humanos, estaria defendendo bandidos.” – Bernardo Mello Franco [27:35]
“A direita, por outro lado, também não me parece ter o condão de resolver [...] outros estados também governados pelo campo da direita, não dão soluções.” – Ana Tuzanera [26:51]
[30:40 – 40:55]
“A partir da análise do planejamento operacional, a nossa equipe entendeu que não era uma operação razoável para que a gente participasse.” – Andrei Passos Rodrigues [31:21]
“Esse bate-boca, ele causa manchete [...] mas causa muito pouco efeito sobre a política pública e, na ponta ali, sobre a vida da população.” – Bernardo Mello Franco [34:17]
“No momento em que o governo federal propôs a PEC, ele disse que não, que não queria interferência na política do Rio, na autonomia dos estados. E no momento que acontece uma crise desse tamanho, ele aponta o dedo para cima e diz que a culpa é do governo federal que não está ajudando.” – Bernardo Mello Franco [38:13]
[40:55 – Fim]
“Como sempre, a população fica espremida entre a disputa política, entre o discurso eleitoral, e fica, na prática, desprotegida.” – Bernardo Mello Franco [40:55]
| Tópico/Segmento | Citação/Momento Marcante | Speaker | Timestamp | |:-------------------------------:|:------------------------------------------------------------------------------------------------------------|:----------------------:|:-----------:| | Megaoperação, contagem de mortos| “O número oficial de mortos [...] de 64, saltou para 121.” | Comunidade local | [01:32] | | Avaliação crítica | “A operação foi um fiasco, um fracasso. [...] Não pode morrer nenhum policial.” | Ricardo Balestreri | [03:30] | | Falta de inteligência | “Quanto mais inteligência tivermos, menos confrontos temos.” | Ricardo Balestreri | [10:48] | | Impacto político | “Ele dá uma coletiva com um teor político muito forte [...] É arranjar culpados, buscar bodes expiatórios.” | Bernardo Mello Franco | [19:03] | | Eficácia das operações | “Se a matança resolvesse o problema da segurança, o Rio de Janeiro ia ser o estado mais seguro do Brasil.” | Bernardo Mello Franco | [25:08] | | Culpabilização fresca | “No momento em que o governo federal propôs a PEC [...] no momento que acontece uma crise desse tamanho, ele aponta o dedo para cima e diz que a culpa é do governo federal que não está ajudando.” | Bernardo Mello Franco | [38:13] | | População desprotegida | “Como sempre, a população fica espremida entre a disputa política, entre o discurso eleitoral, e fica, na prática, desprotegida.” | Bernardo Mello Franco | [40:55] |
Este episódio escancara como segurança pública no Rio de Janeiro — e no Brasil — permanece refém de disputas políticas, soluções midiáticas e falta de planejamento integrado. Em meio ao luto e à indignação de comunidades, os especialistas sugerem que o caminho passa por inteligência, articulação institucional e honestidade intelectual, e não por discursos fáceis ou pirotecnia. O cenário descrito serve de alerta para as eleições de 2026, onde apropriações políticas da tragédia tendem a se intensificar, deixando a sociedade, mais uma vez, vulnerável.