O Assunto — Episódio: A pressão pela anistia do golpe
Data: 5 de setembro de 2025
Host: Natuza Nery (G1)
Convidado principal: Bernardo Mello Franco (colunista de O Globo, comentarista da CBN)
Tema central: O movimento político, especialmente no Congresso Nacional, pela anistia dos investigados e condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro, e seus desdobramentos institucionais e históricos.
Visão Geral
Neste episódio, Natuza Nery recebe Bernardo Mello Franco para destrinchar a crescente pressão por uma anistia ampla que poderia beneficiar os condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo potencialmente Jair Bolsonaro e aliados. Em um debate que passa pela articulação de partidos do Centrão, o cálculo eleitoral para 2026 e a história de impunidade no Brasil, o episódio explora o impacto dessa movimentação para a democracia, as tensões entre Congresso e Supremo, e as consequências institucionais a médio prazo.
Principais Pontos de Discussão
1. O "bastidor" da Praça dos Três Poderes e o contexto político atual
- [00:01–00:41] Natuza apresenta a Praça dos Três Poderes como o epicentro das decisões nacionais e destaca a movimentação inédita da semana com julgamento no STF e articulações intensas no Congresso.
- Citação: "Se o Brasil fosse um estádio de futebol, a Praça dos Três Poderes não passaria de um grãozinho de areia ali no Círculo Central. Mas é lá que se decidem todas as partidas." — Natuza Nery [00:06]
2. A ascensão do movimento pró-anistia no Congresso
- [00:41–01:23] Bernardo Mello Franco destaca o crescimento abrupto do movimento, principalmente na Câmara, pela anistia aos condenados, incluídos políticos do União Brasil, Republicanos e PP.
- Operação é motivada por interesses eleitorais e pela necessidade de apoio do capital político bolsonarista.
3. O papel do Centrão, negociações de bastidor e crise na base governista
- [01:23–01:43] Pressão de partidos com ministérios, novos alinhamentos e ameaças de punição a quem não seguir o bloco.
- [02:34–02:53] Governo sente a força da extrema-direita e tenta articular resistência com apoio popular.
4. Tarcísio de Freitas: principal artífice do movimento
- [03:38–06:47] Entrevistado destaca mudança no protagonismo do movimento com Tarcísio assumindo versão "bolsonarista raiz", visando garantir apoio para 2026.
- Ele realiza reuniões e se aproxima do núcleo bolsonarista.
- Citação: "O Tarcísio entrando nessa articulação acaba mudando a direção dos ventos no Congresso." — Comentator [04:29]
5. Pautas ocultas e "acordão nacional"
- [05:17–06:47] Natuza ressalta uso da anistia como moeda num grande acordo político que inclui PEC da blindagem, aumento do fundo eleitoral e flexibilização nas regras de emendas parlamentares.
- Citação: "Isso me leva a lembrar de uma frase famosa da época da Lava Jato, frase do ex-senador Romero Jucá, de que tinha que fazer um grande acordo nacional para estancar a sangria." — Comentator [06:47]
6. Efeitos colaterais para Tarcísio e riscos para o centro político
- [08:48–12:28] Tarcísio é visto arriscando a imagem de "direita moderada" ao aderir de forma explícita à linha bolsonarista/antissistema.
- Há temor que isso afaste o eleitorado de centro, vital para a vitória em 2026.
7. O papel decisivo de Arthur Lira e a fragilidade de Hugo Mota
- [12:28–15:37] Arthur Lira continua mandando nos bastidores da Câmara e usa sua influência para costurar apoio à anistia, apesar do protagonismo formal de Hugo Mota.
- Episódio recente de motim mostra fraqueza de Mota e reafirma liderança de Lira.
- Citação: "O Hugo Mota saiu menor nessa crise, mas a democracia também saiu fragilizada. É a lei do golpismo mesmo." — Comentator [14:07]
8. O Senado e a atuação de Davi Alcolumbre
- [15:37–20:20] No Senado, a movimentação é por uma “anistia light”, excluindo organizadores e financiadores dos atos do 8/1.
- Alcolumbre busca aprovar projetos alternativos de redução de penas, com menos impacto para Bolsonaro e cúpula golpista.
- Citação: "No Senado a banda toca diferente, quer dizer, o Davi Alcolumbre tem total domínio do plenário." — Comentator [17:05]
9. Riscos de "cavalo de Troia" legislativo e manipulação de textos
- [20:20–22:52] Dirigentes do Centrão admitem negociar textos mais restritos, mas há risco de inclusão de anistia ampla via emendas.
- Circula projeto da oposição que levaria Bolsonaro de volta ao jogo eleitoral, perdoando inclusive crimes eleitorais desde 2019.
10. A tradição de impunidade no Brasil e o trauma dos golpes
- [23:32–27:48] Natuza propõe reflexão sobre recorrente desvalorização da democracia por políticos que deveriam defendê-la.
- Histórias de anistia após golpes (1964, ditadura, JK) são revisitadas para mostrar padrão de conciliação e falta de punição, abrindo caminho para novos atentados à ordem democrática.
- Citação: "A tradição de conciliação, de perdão, de acordões por cima para deixar todo mundo impune, ela acaba levando instabilidade para o regime democrático." — Comentator [26:32]
- Memorável: Relato do voto do ministro Alexandre de Moraes no STF sobre o papel da punição para evitar repetição de golpes.
11. STF, o risco de crise institucional e o futuro da anistia
- [27:48–32:07] Possível aprovação da anistia pode desencadear crise entre Legislativo e Judiciário, já que STF pode declarar a medida inconstitucional.
- Histórico recente de decisões do STF contra perdões presidenciais é relembrado.
- Futuro da anistia dependerá do desfecho das eleições de 2026 e da composição futura do Supremo.
Frases Notáveis (com Timestamps e Atribuição)
- "Se o Brasil fosse um estádio de futebol, a Praça dos Três Poderes não passaria de um grãozinho de areia ali no Círculo Central. Mas é lá que se decidem todas as partidas." — Natuza Nery [00:06]
- "O Tarcísio entrando nessa articulação acaba mudando a direção dos ventos no Congresso." — Comentator [04:29]
- "Isso me leva a lembrar de uma frase famosa [...] tinha que fazer um grande acordo nacional para estancar a sangria." — Comentator [06:47]
- "O Hugo Mota saiu menor nessa crise, mas a democracia também saiu fragilizada. É a lei do golpismo mesmo." — Comentator [14:07]
- "No Senado a banda toca diferente, quer dizer, o Davi Alcolumbre tem total domínio do plenário." — Comentator [17:05]
- "A tradição de conciliação, de perdão, de acordões por cima para deixar todo mundo impune, ela acaba levando instabilidade para o regime democrático." — Comentator [26:32]
- "No Brasil, até o passado é incerto." — Comentator [31:47]
Timestamps de Segmentos Relevantes
- 00:01–02:53 — Introdução e cenário da Praça dos Três Poderes.
- 03:38–05:17 — O papel de Tarcísio de Freitas na arrancada da pauta da anistia.
- 06:47–08:48 — Movimentos do Centrão: “acordão” e cálculos políticos.
- 12:28–15:37 — Arthur Lira, Hugo Mota e os bastidores da Câmara.
- 15:37–20:20 — Estratégia do Senado sob Davi Alcolumbre.
- 20:20–22:52 — Risco de "cavalo de Troia" no texto da anistia.
- 23:32–27:48 — Reflexão histórica sobre golpes, anistias e instabilidade democrática.
- 27:48–32:07 — STF, constitucionalidade da anistia e o perigo de crise institucional.
Conclusão
O episódio apresenta uma visão multifacetada da pressão pela anistia dos golpistas de 8 de janeiro, mostrando que o movimento não é apenas impulsionado por demanda bolsonarista, mas também por estratégias de sobrevivência e autoproteção de setores do Congresso. Líderes como Tarcísio de Freitas e Arthur Lira buscam capitalizar o desgaste do governo e garantir espaço para a direita nas eleições de 2026, enquanto o Senado, sob Alcolumbre, tenta limitar danos institucionais. A tradição histórica de impunidade brasileira é apontada como alerta para os possíveis reflexos dessa escolha. O desfecho dependerá, em última instância, do posicionamento do STF e dos rumos políticos pós-2026 — no Brasil, o jogo nunca realmente acaba quando o árbitro apita.
