O Assunto — “A química entre Trump e Lula” (24/09/2025)
Host: Natuza Nery (G1)
Convidado: Guilherme Casarões (Cientista político – Florida International University)
Tema: Análise dos discursos antagônicos entre Lula e Donald Trump na ONU, o surpreendente encontro entre os dois e suas implicações para as relações internacionais, para a política brasileira e para o futuro das instituições multilaterais.
Visão Geral do Episódio
Neste episódio especial, Natuza Nery recebe o cientista político Guilherme Casarões para decifrar o impacto dos discursos trocados entre o presidente brasileiro Lula e o presidente norte-americano Donald Trump na abertura da Assembleia Geral da ONU de 2025. O diálogo aborda as posições profundamente opostas dos dois líderes em temas centrais (soberania, democracia, clima, Palestina, multilateralismo) e discute o surpreendente e cordial encontro entre ambos, questionando se pode haver espaço para negociação e qual será o impacto para as relações bilaterais e para o bolsonarismo.
1. Discurso de Lula na ONU: Soberania, Democracia e Multilateralismo
Tópicos centrais:
- Continuidade da tradição brasileira de abrir a Assembleia Geral
- Tom mais enfático do que em discursos anteriores
- Defesa contundente da democracia, da soberania nacional e crítica direta às sanções impostas pelos EUA ao Brasil
- Chamada global contra o autoritarismo e defesa do multilateralismo como solução para a crise mundial
Citações importantes:
- [00:11] Lula: “Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra as nossas instituições e nossa economia.”
- [00:52] Lula: “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos autocratas e àqueles que os apoiam. Nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis.”
- [01:54] Lula: “Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática. O ano de 2024 foi o mais quente já registrado. A COP30, em Belém, no Brasil, será a COP da verdade.”
- [02:33] Lula: “Nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza. O povo palestino corre o risco de desaparecer. Só sobreviverá como um Estado independente integrado à comunidade internacional.”
- [03:43] Lula: “Quando fecha suas portas, culpa migrantes pelas mazelas do mundo.”
- [04:09] Lula: “Existe um evidente paralelo. Entre a crise do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia. O autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente à arbitrariedade.”
Reflexão Analítica:
- Guilherme Casarões destaca que, embora Lula siga a estrutura tradicional, o discurso de 2025 teve um “tom mais firme”, comparável apenas ao discurso de Dilma Rousseff em 2013 após o escândalo da espionagem americana no Brasil, mas desta vez com ataques abertos do próprio presidente americano e, portanto, respondendo de forma mais direta e institucional.
- [08:50] Casarões: “Essa defesa da soberania foi o eixo estruturante do discurso e eu, sinceramente, achei muito bom o discurso. Muito correto e by the book, mas com esse tempero aí do momento.”
2. Discurso de Trump: Soberania, Tarifas e Desconstrução da ONU
Tópicos centrais:
- Defesa do “tarifaço” contra o Brasil e retórica de contenção do que chamou de “ameaças” brasileiras aos EUA (liberdades, censura, corrupção militarizada)
- Negação veemente da crise climática
- Visão pró-Israel e rejeição ao reconhecimento do Estado Palestino, associando-o a uma “recompensa ao terrorismo”
- Retórica radical contra migrações e fronteiras abertas
- Desdém e descrédito aberto à ONU
Citações importantes:
- [01:17] Trump: “Nós também estamos usando as tarifas para defender a nossa soberania e a segurança no mundo todo… O Brasil agora está enfrentando uma resposta com tarifas grandes. depois de seus esforços de interferir nos direitos, nas liberdades de cidadãos americanos e outros…”
- [02:18] Trump: “É o maior cascata, maior golpe já perpetrado no mundo. Mudança climática, não tem mais aquecimento global, não tem mais esfriamento global.”
- [03:48] Trump: “É hora de acabar com esse experimento falido das fronteiras abertas. Vocês têm o direito de controlar suas fronteiras como nós fazemos agora...”
- [04:23] Trump: “Mas não apenas as Nações Unidas não estão resolvendo os problemas que deveriam resolver, como ainda estão, às vezes, criando problemas.”
- [12:39] Trump: “Com sete guerras, lidei com líderes de cada um desses países e nunca nem recebi um telefonema das Nações Unidas... A única coisa que eu tive das Nações Unidas foi uma escada rolante que, quando eu estava subindo, parou no meio.”
- [16:18] Trump: “Eu tenho certa pena de ver o Brasil não estar indo muito bem e vai continuar sem ir bem. Eles só podem se dar bem quando estiverem trabalhando conosco. Sem a nossa ajuda, eles vão fracassar como outros fracassaram.”
Reflexão Analítica:
- Casarões sublinha como o discurso simboliza uma tentativa de “desacreditar e enterrar” a ONU. Enquanto Lula pede por reforma e fortalecimento do multilateralismo, Trump decreta um “funeral institucional” para a ONU.
- [12:58] Casarões: “…o Trump agora faz críticas à ONU de maneira muito mais escancarada, violenta… O discurso [teve] ton mais fúnebre, quase de funeral das Nações Unidas...”
3. O Encontro Surpreendente: Abraço e ‘Química’ entre Trump e Lula
Momento-chave:
- Após ambos os discursos, Lula e Trump se cruzam rapidamente nos bastidores.
- Trump relata publicamente um abraço, elogia Lula pessoalmente e fala que houve uma “química” entre eles.
Citações e Momentos:
- [04:58] Trump: “Eu estava chegando e o líder do Brasil estava saindo. Nós o vimos, eu vi ele, ele me viu e nós nos abraçamos (…) por uns 39 segundos nós tivemos uma ótima química e isso é um bom sinal.”
- [05:30] Trump: “Nós concordamos em nos encontrar na semana que vem. Não tínhamos muito tempo para falar, só 20 segundos mais ou menos, mas nós conversamos, nós tivemos uma boa conversa. Mas ele parece um cara muito legal. Ele gosta de mim, eu gostei dele. E eu só faço negócio com gente que eu gosto. Quando eu não gosto, eu não gosto.”
- [16:34] Casarões: “Ele faz essa brincadeira… dizendo que encontrou o presidente Lula (…) houve uma química, rolou ali um match, digamos assim.”
Análise do Episódio:
- O gesto viralizou — rapidamente virou meme (“Bolsonaro com ciúmes”).
- Políticos ligados ao bolsonarismo (Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro) tentam descredibilizar o gesto: alegam tratar-se de uma jogada estratégica de pressão e constrangimento ao governo Lula.
- Diplomatas brasileiros avaliam o contato como uma oportunidade, mas com cautela (provável diálogo inicial reservado, por telefone ou videoconferência).
- [21:38] Natuza: “Eles [diplomatas] não receberam a fala de Trump com um sentimento eufórico… eles estão bastante cautelosos… também não pode achar que essa abertura, num improviso, não seja ali um furo de bloqueio, né?”
4. O Impacto Político e as Expectativas para o Diálogo
Pontos discutidos:
- O aceno de Trump pode significar uma “vitória da política externa brasileira”, ao menos no sentido de abertura de canal, quebrando meses de bloqueio.
- Possível enfraquecimento da narrativa bolsonarista de que só eles tinham acesso ao governo Trump.
- Risco de exposição ao constrangimento público, se o encontro se der em moldes desfavoráveis, como já ocorreu com outros líderes mundiais.
- Possíveis temas nas conversas: tarifas, pressões comerciais, regulação de redes sociais e agenda política ligada ao destino de Bolsonaro e decisões do STF.
Citação:
- [22:31] Casarões: “A gente pode considerar… uma vitória da política externa brasileira. E uma vitória em dois sentidos. Primeiro… esse canal de abertura. E outra… a quebra da narrativa de que o governo Lula não estava disposto a conversar… Pode ser que agora, com essa perspectiva de uma conversa, as agressões cessem, pelo menos temporariamente.”
- [25:38] Casarões: “…essa abertura do Trump… muda um pouco o curso de ação dos próprios Estados Unidos com relação ao Brasil… mina a narrativa prevalecente entre os bolsonaristas de que o único grupo a que Trump daria ouvido seria o grupo de Bolsonaro.”
5. O Futuro da ONU: Crise e Necessidade de Reforma
Tópicos principais:
- ONU enfrenta sua maior crise: desenho institucional herdado de 1945 está obsoleto;
- Conselho de Segurança com os mesmos membros e direito de veto inviabiliza ações em conflitos onde grandes potências têm interesses;
- O próprio descompasso entre o papel esperado e o papel exercido pela ONU gera insatisfação, alimentando críticas vindas principalmente dos EUA, agora acentuadas por Trump.
Citação:
- [28:55] Casarões: “A ossolescência está no desenho da ONU… O Conselho de Segurança mantém a mesma estrutura de grandes potências com o poder de veto que a gente tinha 80 anos atrás.”
- [31:42] Lula: “A voz do sul global deve ser respeitada e ouvida. A ONU… precisa se tornar novamente portadora de esperanças… da diversidade e da tolerância.”
- [32:11] Casarões: “Tirar a ONU da equação não vai resolver absolutamente nenhum dos problemas… A ideia é reforçar o papel da ONU, valorizar o seu legado e reformá-la para que ela possa, de fato, voltar a funcionar.”
Timestamps dos Principais Segmentos
- 00:11–04:34: Trechos dos discursos de Lula e Trump na ONU — posições antagônicas sobre economia, clima, Palestina, migração e multilateralismo.
- 04:34–06:28: Relato sobre o encontro relâmpago e amistoso entre Lula e Trump.
- 07:20–14:00: Análise de Guilherme Casarões sobre os discursos; comparação histórica e institucional.
- 14:00–17:19: Dinâmica do encontro de bastidores, impacto midiático e reações políticas.
- 17:19–24:38: Interpretações possíveis: gesto de aproximação ou armadilha política?
- 24:57–28:30: Repercussão para o bolsonarismo e para a política americana e diplomática.
- 28:30–32:25: Diagnóstico sobre a crise existencial da ONU; necessidade de reforma.
- 32:25–32:43: Encerramento com agradecimento ao convidado e panorama final.
Notas Finais
- O episódio apresenta uma análise aprofundada e equilibrada sobre a tensão política entre Brasil e Estados Unidos, colocando em perspectiva seus impactos domésticos e globais.
- O surpreendente gesto de cordialidade entre Lula e Trump funciona tanto como oportunidade para descompressão da crise quanto desafio diplomático arriscado para ambos os lados.
- O destino da ONU, como pano de fundo, espelha as dificuldades crescentes do multilateralismo diante de um mundo multipolar, com vozes do Sul Global buscando maior protagonismo.
Frase de Encerramento
[32:38] Guilherme Casarões: “Fico à disposição, Natuza, um grande abraço para todo mundo que está nos ouvindo.”
