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Rafael Colombo
Quando fundou o PSD, em 2011, Gilberto Kassab disse que o partido não seria nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. Mas o Brasil mudou, o eleitorado mudou, e o partido também. Mas nem tanto. Hoje, Kassab define o PSD como o de centro-direita. Nesse novo rótulo, a estratégia que ele, presidente da legenda, apresentou ao país na última quarta-feira, faz sentido. O partido agora reúne uma trinca de presidenciáveis. Ratinho Júnior, governador do Paraná, é o mais antigo na sigla. Política brasileira e no mundo como um todo hoje está muito dinâmico, então, analisando o cenário para daí lá por meados de abril, através de um conselho que vai ser construído internamente, com bons quadros que tem o partido, de forma sem disputa interna, uma coisa bem harmônica mesmo e respeitosa. Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, chegou ao partido em maio de 2025, depois de 24 anos de PSDB. A gente tem divergências, tem diferenças, mas a gente consegue se reunir em torno de uma pauta comum. Aquela candidatura que emergir vai sair muito mais fortalecida para representar um campo de uma direita reformista, democrática, com pensamento liberal e, ao mesmo tempo, que respeite as diferenças do nosso país, E o mais recente, Ronaldo Caiado, governador de Goiás, que trocou União Brasil pelo PSD nesta semana. É um gesto de desprendimento de cada um, uma vaga só, e nós temos aí três grandes pretendentes. E com isso, nós nos submeteremos a uma escolha, e essa escolha será respeitada por nós, e aquele que for indicado terá o apoio dos demais. A CACAB articula um movimento em cada mão. Numa delas, propõe uma alternativa ao que chama de radicais. Uma espécie de terceira via que não é nem direita bolsonarista e nem esquerda governista.
Gilberto Kassab
E o PSD não é um partido de direita. É um partido que tem o Lothar Alencar, que tem o Antônio Brito, que tem o Omar Aziz. Não é um partido de direita. O PSD é um partido de centro. E nesse partido tem liderança de centro-esquerda, centro-direita, de centro.
Rafael Colombo
Com a outra mão, ele corteja o candidato que considera ideal, o seu chefe, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, estado onde ele, Kassab, é secretário de governo.
Ratinho Júnior
O Kassab sempre deixou claro que o candidato dele era o Tarcísio. Quando ele faz a articulação para levar o Caiado, ele está dizendo, ó, Eu acho que o Tarcísio não vai mais ser.
Rafael Colombo
Entre o bolsonarismo e o caçabismo, Tarcísio recusa a candidatura. Pelo menos, por enquanto. A gente conversa sobre isso desde 2023, que o meu interesse é ficar em São Paulo. Isso aí não tem gente, não tem controvérsia nenhuma. Falei lá atrás que eu tenho um comprometimento com o Estado de São Paulo. Enquanto isso, o PSD segue o plano. Nem governo, nem oposição.
Ratinho Júnior
O PSD, que é um partido que tem um pé no governo, com ministros do governo Lula e na oposição, com esses governadores de oposição, deve lançar um candidato justamente para manter essa linha de sou aqui um pouco governo, sou oposição um pouco lá. A tendência é que saia um nome desses três. Hoje, o nome mais forte do ponto de vista político é considerado Ratinho Júnior.
Vera Magalhães
Da redação do dia 1, eu sou Matuzaneri e o assunto hoje com Rafael Colombo é...
Rafael Colombo
A reorganização da direita rumo à eleição. Neste episódio, eu converso com Vera Magalhães, colunista do jornal O Globo e âncora e comentarista da rádio CBN. Sexta-feira, 30 de janeiro. Vera, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, sempre reforça que se o candidato à presidência da República fosse Tarcísio Gomes de Freitas, o PSD estaria junto da candidatura do governador de São Paulo à presidência da República. O governador repete, tem repetido, repetiu, aliás, quando deixou a visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro nesta quinta-feira, que é candidato à sucessão em São Paulo, a um novo mandato em São Paulo. Diante disso, Kassab desejou sorte a Flávio e garantiu que o PSD terá candidatura própria, seja Caiado, seja Ratinho, seja Eduardo Leite. Eu queria que você falasse um pouquinho para a gente, nos posicionasse sobre esse momento que a centro-direita e a direita passam a partir desse rearranjo que aconteceu durante a semana, Vera.
Vera Magalhães
Pois é, Rafael, a gente tem aí uma profusão de nomes sem que haja uma garantia de que esse grupo vai conseguir angariar votos o suficiente para realmente se apresentar como uma terceira via. Eu acho que essa é a grande angústia que guia quem está tentando colocar de pé uma candidatura alternativa à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. O Gilberto Kassab fez um movimento, um movimento que foi entendido por muitos como uma última tentativa de pressionar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Olha, estou aqui colocando umas opções e se você não tiver coragem de ir para o jogo, eu vou com uma delas.
Gilberto Kassab
O PSD não quer fazer alianças que não estejam convencidos de que tenham identidade com as nossas propostas.
Vera Magalhães
Isso também foi reforçado, ao meu ver, por uma entrevista que o Kassab deu nesta quinta-feira para o portal Uol. na qual ele fala abertamente sobre isso, ele elogia o Tarcísio, mas ele diz que é preciso distinguir lealdade que ele tem ao Bolsonaro de subserviência. Então, é um recado para o governador de São Paulo, que na verdade é chefe dele, porque ele ainda está como secretário do Tarcísio, de que pode ainda esperar por um aceno do Tarcísio, mas cada dia tá ficando mais difícil. Hoje mesmo ele visitou o Bolsonaro na Papo Din, então não vejo mais tanto espaço para ele dar esse grito de independência. Então, já que não vai ter Tarcísio, eles estão começando a tentar decidir quem seria esse candidato para ser colocado como uma alternativa a essa polarização. Na largada, o governador do Paraná leva algumas vantagens. Ele aparece mais bem posicionado nas pesquisas, ele é o mais antigo na casa, no PSD, e ele também é muito bem avaliado no seu estado, sairia ali com alguma possibilidade de largar bem no sul e talvez até no sudeste. Mas ainda tem muita água para correr embaixo dessa ponte, Rafael.
Rafael Colombo
Agora, Vera, é claro que é um momento de posicionamento, de candidaturas, de muita gente marcando posição. Nem sempre o que acontece agora vai ser sustentado daqui a um mês. O que dirá em outubro? Com Bolsonaro na disputa, no caso, Flávio. Com o ex-presidente Lula na disputa, procurando o quarto mandato. Sobra espaço para uma terceira via? Eu te faço essa pergunta levando em consideração o que aconteceu, por exemplo, em 2018. quando a chamada terceira via era representada pelo ex-governador de São Paulo hoje, vice-presidente Geraldo Alckmin. 4%, pior desempenho da história do PSTB numa eleição nacional. Em 2022, Simone Tebbet pelo MDB, 5%. Ou seja, não sobra espaço diante de uma polarização tão colocada quanto a que nós temos ou tivemos nas últimas duas eleições, entre um candidato do PT, Haddad em 18 e Lula em 22, e um Bolsonaro. Sobrará espaço agora? Não está faltando combinar com o eleitor, Vera?
Vera Magalhães
Eu acho que sim, e é engraçado, porque quando ele é colocado diante dessa questão em tese, o eleitor diz que quer essa terceira via. Então, muitas pesquisas, quando apresentam para o eleitor a pergunta de se ele prefere votar em Lula, em alguém indicado pelo Bolsonaro ou em alguém que não seja nem Lula nem Bolsonaro, essa opção vence. Em uma das últimas pesquisas da Quest, ali no final do ano, 24% disseram que gostariam de votar em alguém que não fosse nem Lula nem Bolsonaro, mas entre manifestar essa vontade e esse certo desconforto com essa polarização e de fato concretizar um voto numa alternativa tem uma distância imensa. Em 18%, é engraçado que agora a gente pensa no Geraldo Alckmin como terceira via, mas não foi nessa condição que ele foi lançado, Ele era o candidato de um partido, o PSDB, que até então era um dos polos principais da disputa. Ele teve uma aliança praticamente de A a Z com o marqueteiro de mainstream, com o maior tempo de TV, então ele era o candidato de um dos polos. Ele foi desidratando ao longo da disputa, não conseguiu se impor e o Bolsonaro veio não como uma terceira via, ele veio como aquele candidato anti-sistema que vem e quebra a ordem até então estabelecida. A última eleição que a gente teve uma possibilidade ali de uma terceira via crescer, a meu ver, foi a de 2014, em que o Eduardo Campos era visto como essa possibilidade de alguém capaz de quebrar a polarização que existia então, que era PT-PSDB desde 1994. Depois de 20 anos tinha essa possibilidade. Aí ele morre num acidente, é substituído pela Marina, ela chega a ficar em segundo lugar na disputa, mas é violentamente atacada pelos dois lados e desidrata no final. Então, ali tinha e chegou a ter uma chance de uma terceira via que não se viabilizou por pouco, mas desde então, você tem razão, não acontece isso.
Rafael Colombo
O próprio ex-prefeito, secretário Kassab, presidente do PSD, disse na entrevista para a Andréa Sadi nessa quinta-feira no estúdio e que em política nunca dá para dizer nunca ou jamais.
Ratinho Júnior
O senhor é secretário do governo Tarcísio e sempre disse que o candidato do senhor seria Tarcísio se ele fosse de fato candidato. Com essa movimentação toda, o senhor que é um homem experiente na política, participa muito dos bastidores da política. É possível dizer que Tarcísio está totalmente fora desse jogo da presidência da República em 26?
Gilberto Kassab
A palavra nunca, a palavra jamais, são palavras que você deve evitar na política, porque as circunstâncias mudam, os fatos novos surgem. Mas a avaliação que eu faço hoje, ainda no período da manhã, manifestações do Eduardo Tarcísio, É que o provável mesmo, e até porque ele tem sido agora muito enfático, é que ele seja candidato à reeleição em São Paulo.
Rafael Colombo
Mas nesse momento dá para descartar a candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, Vera?
Vera Magalhães
Não dá, eu acho que ele mesmo não descarta, ele mesmo parece alimentar um sonho recôndito ali de que o Tarcísio deu o seu grito de independência em relação ao Jair Bolsonaro, resolve ouvir os apelos dessa classe política, desse setor da classe política. representado pelo centrão e pela centro-direita e do empresariado e do setor financeiro e se lance candidato, mas isso, como eu disse, vai ficando cada vez mais difícil. Ele fez essa visita ao Bolsonaro, falou que tem um projeto de longo prazo para São Paulo ainda nesta quinta-feira, disse e reiterou ali o seu apoio ao Flávio Bolsonaro.
Rafael Colombo
E tudo o papel do senhor na candidatura do Flávio? Claro, sem dúvida, sem dúvida, como eu tenho afirmado constantemente, não tem dúvida nenhuma com relação a isso. Como eu falei, a gente conversou com amigos, a gente vai estar empenhado neste projeto, vamos entrar muito fortes, muito unidos.
Vera Magalhães
E a gente sabe que uma candidatura para ser construída fora dos candidatos já conhecidos, ela precisa de mais tempo. Então, a janela de oportunidade do Tarcísio vai se fechando. Ele tem demonstrado muito receio de não seguir à risca os desígnios do Jair Bolsonaro, e ele tem sido muito pressionado, violentamente pressionado, a meu ver, de uma forma bastante desrespeitosa pela família Bolsonaro, que trata o Tarcísio como se fosse seu subalterno. e não o governador do principal estado do país, mas ele também está ajudando a ser colocado nesse lugar quando ele aceita cada uma das pressões para toda semana ficar ajoelhando no altar do bolsonarismo.
Rafael Colombo
O Carlos Bolsonaro se refere a ele como eterno ministro. O que é eterno ministro? É eterno subordinado do papai. E ele se prestou, quer dizer, ou se prestou esse papel, ou foi obrigado, ou achou melhor, mais conveniente politicamente, que também não é uma decisão fácil, ficar submisso a Bolsonaro, virar um apêndice do bolsonarismo.
Vera Magalhães
Então, não dá pra dizer nunca, o Kassab é um que nunca diz nunca, jamais dirá nunca, mas esse espaço tá ficando dramaticamente estreito.
Rafael Colombo
Havia uma expectativa de alguns setores, quase todos eles do mercado financeiro, parte do agronegócio, empresariado, simpáticos à possibilidade da candidatura nacional do governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, que nesse momento parece pouco provável. Uma candidatura do PSD, seja ela Ratinho, seja ela Caiado, seja ela Eduardo Leite, pode trafegar nessa estrada que hoje parece desocupada, já que a expectativa era que ela estivesse ocupada pelo governador de São Paulo, Vera?
Vera Magalhães
É aquela coisa que você tenta comprar um carro ou um apartamento com o qual você sonha, o dinheiro não dá e aí você vai para uma segunda ou terceira opção sem o mesmo entusiasmo, me parece ser isso que acontece com essas candidaturas. Rafael, você não tem por parte nem do estamento político e nem desses setores econômicos uma coisa, ah, com esses daí a gente vai ganhar, com esses daí realmente a gente vai superar o PT, que parece ser esse o principal motor desses setores, superar o governo do PT, mas também não querem, eles têm medo. dá volta a um período de instabilidade diária que foi o governo Bolsonaro, isso também não interessa para quem vive de estabilidade que é empresário e que é mercado financeiro, então o Flávio Bolsonaro. que carrega com ele necessariamente esse DNA e que uma vez eleito vai transformar o seu governo já nos primeiros dias numa plataforma para soltar o pai, para eximir o pai de qualquer responsabilização no caso do da tentativa de golpe, isso já vai levar na largada que exista um embate entre o governo e o Supremo Tribunal Federal, então acho que isso afugenta o voto desses setores econômicos, daí porque uma alternativa de centro-direita vai ser abraçada num primeiro momento, mas aí eu não sei como esses setores vão se comportar se na chegada da eleição a coisa tiver realmente afunilando entre Lula e de Flávio Bolsonaro e eles acharem que é melhor tomar uma decisão de segundo turno já no primeiro, como foi em 22. A senadora, então senadora, Simone Tevet, hoje ministra, não chegou a passar daquela votação modesta porque, embora nominalmente todo mundo enxergasse nela os atributos desse candidato liberal, liberal de centro, etc., na hora do vamos ver, se dividiu entre aqueles que viam no Lula um reforço para a democracia, uma garantia para a democracia, e aqueles que votaram no Bolsonaro pelo seu antipetismo. Então, a escolha acaba sendo antecipada pelo fator medo e pelo fator rejeição.
Rafael Colombo
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Vera Magalhães. Vera, ao mesmo tempo em que ensaia essa possibilidade de candidatura à presidência da República, que segundo o próprio Kassab não seria uma candidatura contra ninguém, mas a favor do Brasil, bem ao estilo do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o partido mantém três ministros no governo Lula. Tem o ministro da Pesca, tem o ministro da Agricultura e tem o ministro de Minas e Energia também. É correto avaliar essa possibilidade de candidatura do PSD como uma tentativa do partido de se valorizar cada vez mais para um eventual segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula e um eventual governo de Flávio Bolsonaro ou Lula com uma grande bancada com votos puxados por políticos importantes e bem populares nos seus estados, o PSD seja cada vez mais fundamental para ocupar não três, mas quatro, cinco, seis ministérios, enfim, seja lá quantos forem.
Vera Magalhães
É, eu acho que o apetite desse partido é meio ilimitado, assim como de todos os partidos com essa característica de partidos com forte presença congressual. A nossa governabilidade foi se estabelecendo de uma maneira tal que você fazer bancada na Câmara, principalmente, é o principal ativo que você pode ter na política, porque é isso que vai determinar que acesso você vai ter às fatias do fundo eleitoral e do fundo partidário e que vai determinar o tempo de TV, que é uma outra moeda importante em períodos de eleição. Partidos como o PSD estão sempre nessa disputa para ser uma das maiores bancadas da Câmara. E nisso, há quem ache que ter um candidato do partido, e seria a primeira vez que o PSD teria esse candidato, pode ajudar a fortalecer o número 55, que é o número da legenda, e alavancar ainda mais essa presença do PSD na Câmara. Se isso acontecer, vai ser de novo um partido importante para garantir governabilidade a quem quer que seja eleito, porque a gente tem visto essa divisão da direita muito forte com o PL e a esquerda ainda um pouco menos com o PT, mas quem dá a governabilidade para um lado ou para o outro é essa massa de partidos que está no miolo, no recheio desse sanduíche.
Rafael Colombo
Mas ia valer muito esse apoio, né?
Vera Magalhães
É um apoio que deve vir fragmentado, eu acredito, porque as sessões estaduais do PSD têm ali muitas diferenças em relação à sua posição em relação ao Lula em Minas, tanto você mencionou Alexandre Silveira, mas também O Rodrigo Pacheco, que ainda está afiliado ao PSD, são próximos hoje ao presidente Lula. E no Amazonas, o Omar Aziz, que vai ser candidato ao governo, é muito próximo ao Lula. Na Bahia, tem ali a ala do senador Otto Alencar, muito próximo ao PT. Então, vai ser difícil tirar um apoio a Flávio Bolsonaro ou a Lula oficialmente. O que deve acontecer é liberar para cada um fazer o jogo que bem entender. e aí depois ser relevante em qualquer resultado que exista.
Gilberto Kassab
Olha, a lei permite. Se o PT estiver apoiando Eduardo Paes, por que ele não vai no palanque de um candidato petista que tem o Lula como candidato e ele como candidato a governador? A lei permite, não é nenhuma irresponsabilidade, nenhuma liberdade, nenhuma malandragem.
Rafael Colombo
Tem o Rio também, com a candidatura do Eduardo Paes, que ninguém sabe exatamente até que ponto vai se envolver, embora tenha prometido isso, até que ponto vai se envolver de fato ou não com a campanha do... do presidente Lula, que deve ser candidato à reeleição, um estado com forte votação bolsonarista nas últimas eleições também, é um outro aspecto importante para a gente levar em consideração. E do ponto de vista do governador Caiado, Vera, como é que você avalia esse movimento? Ele tinha certeza de que no União Brasil, ou pelo União Brasil, não seria candidato à presidência da República. Ele troca o não do União Brasil pelo pode ser do PSD, é por aí?
Vera Magalhães
Acho que sim, embora eu acho que pode ser para ele, seja mais próximo ou não, né? pelo fato de ele ser entre os três o mais radicalmente opositor ao Lula e aí fazendo sempre um discurso muito duro contra o PT e contra o Lula, que não combina com essa característica total flex do Kassab que você muito bem descreveu. Então, eu acho que ele vem para o partido para ter uma saída honrosa, talvez. dessa disputa. É um partido que vai garantir a ele uma plataforma para expor suas ideias, para expor as realizações à frente do governo de Goiás, para ser colocado em igualdade de condições com outros governadores, portanto, não ser tratado de forma desrespeitosa, como ele achava que vinha sendo tratado pela direção da União PP, que é um partido voltado eminentemente para a business e que estava tratando com total falta de consideração a ideia dele de ser pericandidato, mesmo ele sendo um quadro histórico do PFL, depois DEM, depois União.
Gilberto Kassab
A vinda do Caiado tem uma vinculação com o atual seu partido, que com muita transparência lhe chamou e comunicou que o projeto presidencial dele não teria nenhuma chance.
Vera Magalhães
Então, acho que ele vem em busca de um certo respeito e uma uma narrativa, porque ele vai dizer que pelo menos houve uma disputa, que pelo menos as ideias dele puderam ser ouvidas e que aí prevaleceu alguém que ele respeita também, um outro governador, um outro governador assim como ele com dois mandatos, bem avaliado. Então dá uma lógica para a narrativa dele, não é só alguém que vai ser totalmente escanteado pelo próprio partido, Rafael.
Rafael Colombo
Muito bem. Vera, queria te fazer uma outra pergunta sobre a forma como o governo... É claro, o governo é governo, então é natural que tenha uma outra preocupação para além de quem está se preocupando exclusivamente com a questão eleitoral. Mas, independentemente de quem seja, se é que haverá um candidato do PSD à presidência da República, o partido, do ponto de vista local, tem conseguido construir algumas boas pré-campanhas. um pré-candidato em Minas Gerais, forte, é o vice-governador, tem um pré-candidato no Rio de Janeiro, que é o prefeito do Rio de Janeiro, tem as figuras de Ratinho Júnior e Eduardo Leite, para se não forem os candidatos à presidência da República concorrerem ao Senado e conseguirem puxar boas votações para o Legislativo também, para a Câmara, tem o PSD da Bahia, que você lembrou, tem o PSD do Sergipe, tem o PSD do Amazonas, ou seja, do ponto de vista local, a coisa está mais ou menos estruturada. E nesta quinta-feira foi confirmada a saída do ministro Rui Costa para os próximos dias agora, para os próximos meses, a chegada da Miriam Belchior à Casa Civil, 20 ministros vão sair do cargo, tem a intenção de convencer o Haddad a sucumbir e aceitar ser candidato ao governo de São Paulo. Como é que você vê, do ponto de vista do governo, a construção dessa pré-campanha local para que tudo isso junto dê uma musculatura maior à candidatura do presidente da República? Se a gente for levar em consideração, por exemplo, no Sudeste, Com exceção dessa dúvida que é o Eduardo Paes, Minas, São Paulo ainda não tem uma candidatura com peso para dar sustentação à campanha nacional. Você vê a velocidade com que o governo está reagindo a esse movimento, Vera?
Vera Magalhães
O governo demorou para organizar os palanques estaduais. O Lula não se preocupou suficientemente com isso, assim como ele nunca se preocupou em, por exemplo, fazer um sucessor claro ou indicar para onde iria a sua própria sucessão dentro da esquerda, dentro do PT. O Bolsonaro sacou a importância de fazer uma bancada no Senado bem antes. Então, desde a eleição de 22, ele já falava que quem controlasse o Senado também teria ali a possibilidade de fazer impeachment de ministros do Supremo. Então, a lógica, dentro daquela lógica dele sempre muito elementar, ali muito rústica, ele enxergava a eleição do Senado como importante para essa meta, essa espécie de obsessão que ele tem de fazer impeachment de ministros do Supremo.
Rafael Colombo
Se vocês me derem, por ocasião das eleições do ano que vem, 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil. Não interessa onde esteja, aqui ou no além. E.
Vera Magalhães
Com base nisso, ele foi pegando ali, olhando no espectro dos apoiadores da direita, quem seria forte o suficiente para disputar o Senado e bancar essas candidaturas, inclusive com mudança. de domicílio eleitoral. Seu filho Carlos Bolsonaro, que é vereador no Rio, vai ser candidato por Santa Catarina. Mas, nos últimos meses, ele sofreu alguns reveses nessa estratégia. O Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos, com isso não deverá ser candidato em São Paulo. O próprio Flávio, que era um candidato à reeleição no Rio, não vai sair para o Senado, vai sair para a presidência. Então, o Lula talvez entre nessa brecha, nesse flanco de momento de enfraquecimento do bolsonarismo para tentar colocar de pé candidaturas mais ou menos competitivas aos governos e ao Senado. Acontece que fora do Nordeste, cenário de escassez do PT, de nomes capazes de realmente vencer disputas para essas duas posições. Em São Paulo é onde o jogo é mais importante, porque estudos, vários deles feitos por institutos de pesquisa e pelos próprios partidos, mostram com números que perder de pouco em São Paulo em 2022 foi importante para garantir a vitória do Lula no plano nacional. E isso, a candidatura do Fernando Hadir ao segundo turno ajudou a que o resultado em São Paulo ficasse menos dispare do que as pesquisas mostravam. Então, ele se quer repetir essa estratégia e essa performance em São Paulo. Para isso é que o Haddad está sendo tão pressionado a ser de novo candidato. É uma candidatura de ir para o sacrifício, pelo menos pela terceira vez.
Ratinho Júnior
O PT não tem plano B em São Paulo para a disputa do governo do Estado. É Fernando Haddad. Eles querem que o ministro da Fazenda vá para o sacrifício em 2026. mesmo sabendo que deve perder a eleição se o candidato for mesmo Tarcísio de Freitas. Muitos aliados de Haddad falam, mas vai dar discurso, vai queimar Haddad agora e vai dar discurso para Tarcísio em 2030, porque Haddad é o candidato de Lula para a sucessão, ele é o candidato, mesmo gente no Palácio não querendo.
Vera Magalhães
O Haddad eu acho que está disposto a fazer o sacrifício de novo e, com isso, ele espera se cacifar para 2030, para ser finalmente o nome mais ou menos de consenso no PT, embora um conselho no PT fora do Lula seja muito difícil, mas o governo largou atrasado e vai ter dificuldade na montagem desses palanques, Rafaela.
Rafael Colombo
Pra gente encerrar e te liberar, Vera, pra centro-direita, pra quem tem a intenção de evitar um novo mandato do Presidente da República, É melhor que no primeiro turno haja mais candidaturas desse grupo, é melhor que haja uma candidatura concentrada em torno de uma figura ou duas figuras no máximo. E esse campo da centro-direita deve se organizar como? Tendo eventualmente Flávio Bolsonaro, um candidato do PSD, a Federação União Brasil PP, você acha que a tendência é liberação de diretório para que cada um faça o seu caminho, qual é o rumo que as coisas devem tomar?
Vera Magalhães
Olha, essa pergunta sobre se é melhor uma concentração ou uma pulverização de candidaturas, aquela do tipo para qual cada especialista ou cada partido ou cada interessado tem uma resposta diferente, você consegue colher respostas absolutamente opostas a depender ou do interesse ou do viés de quem te responde. O que a literatura das eleições tem mostrado é que, independentemente do número de candidaturas, O Brasil tem cada vez mais uma concentração do eleitorado em torno de determinados grupos políticos. Já foi PT e PSDB e agora é bolsonarismo e lulopetismo. Então, a tendência aqui, o que acontece nas grandes democracias, nas mais consolidadas, de você ter ali um bipartidarismo na prática, ela tem se mostrado nas últimas eleições no Brasil. A gente teve uma só eleição em que houve realmente uma pulverização em que você por muito tempo não sabia quem seriam os dois candidatos no segundo turno, que foi a eleição de 89. Desde então, houve uma espécie de uma concentração da vontade do eleitor em torno de dois polos sempre, mas por hora, As pesquisas não mostram que, a despeito dessa vontade que o eleitor manifesta de sair dessa polarização, isso esteja para acontecer num período de tempo muito próximo, Rafael.
Rafael Colombo
Vera Magalhães, muito obrigado pelo papo aqui com a gente. Vera, volte sempre, viu?
Vera Magalhães
Ah, eu adoro o assunto, volto sempre. Muito legal também a gente trocar pela primeira vez junto aqui. Gostei muito, obrigada.
Rafael Colombo
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Este episódio usou áudio do jornal Folha de São Paulo. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Rafael Colombo e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Host: Rafael Colombo (substituindo Natuza Nery)
Convidada: Vera Magalhães, colunista de O Globo e comentarista da CBN
Data: 30 de janeiro de 2026
Tema: Como a direita e o centro-direita estão se movimentando e se reorganizando para as eleições presidenciais de 2026 no Brasil, com foco na estratégia do PSD (Partido Social Democrático), a consolidação (ou não) de uma terceira via e os desafios para partidos e nomes que buscam romper a polarização entre Lula e o bolsonarismo.
O episódio trata do atual panorama da direita e centro-direita brasileira a caminho das eleições de 2026, em particular o reposicionamento do PSD sob Gilberto Kassab ao formar uma “trinca” de presidenciáveis (Ratinho Junior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado) após a recusa de Tarcísio de Freitas em entrar na disputa presidencial. Rafael Colombo e Vera Magalhães discutem os obstáculos para uma candidatura de terceira via, a força da polarização Lula vs. bolsonarismo, disputa interna e fragmentação partidária, e os bastidores de montagem de palanques estaduais.
“A gente consegue se reunir em torno de uma pauta comum. Aquela candidatura que emergir vai sair muito mais fortalecida para representar um campo de uma direita reformista, democrática, com pensamento liberal e, ao mesmo tempo, que respeite as diferenças do nosso país.”
– Eduardo Leite (00:35)
“Entre manifestar essa vontade [...] e de fato concretizar um voto numa alternativa tem uma distância imensa.”
– Vera Magalhães (08:08)
“Ele tem sido muito pressionado, violentamente pressionado [...] pela família Bolsonaro, que trata o Tarcísio como se fosse seu subalterno, e não o governador do principal estado do país.”
– Vera Magalhães (12:20)
“Você tenta comprar um carro ou um apartamento com o qual você sonha, o dinheiro não dá e aí você vai para uma segunda ou terceira opção sem o mesmo entusiasmo.”
– Vera Magalhães (14:19)
“A nossa governabilidade foi se estabelecendo de uma maneira tal que você fazer bancada na Câmara, principalmente, é o principal ativo que você pode ter na política...”
– Vera Magalhães (18:00)
“O governo largou atrasado e vai ter dificuldade na montagem desses palanques.”
– Vera Magalhães (28:17)
“O Brasil tem cada vez mais uma concentração do eleitorado em torno de determinados grupos políticos. [...] Você por muito tempo não sabia quem seriam os dois candidatos no segundo turno, que foi a eleição de 89. Desde então, houve uma espécie de concentração da vontade do eleitor em torno de dois polos sempre.”
– Vera Magalhães (29:21)
Gilberto Kassab sobre pragmatismo político:
“A palavra nunca, a palavra jamais, são palavras que você deve evitar na política, porque as circunstâncias mudam, os fatos novos surgem.” (10:50)
Vera Magalhães sobre relações do PSD e fragmentação estadual:
“Vai ser difícil tirar um apoio a Flávio Bolsonaro ou a Lula oficialmente. O que deve acontecer é liberar para cada um fazer o jogo que bem entender...” (19:26)
Vera Magalhães sobre o dilema eleitoral da centro-direita:
“A escolha acaba sendo antecipada pelo fator medo e pelo fator rejeição.” (16:52)
O episódio expõe as fraquezas e potencialidades dos projetos de centro-direita e direita no Brasil em 2026, ilustrando como partidos buscam espaço entre a polarização cada vez mais marcada, mas esbarram em limitações históricas e estruturais para consolidar uma candidatura do “meio”. O PSD surge como peça-chave, mas ainda sem conseguir empolgar ou garantir consistência nacional, enquanto o PT corre para recuperar o atraso fora do Nordeste e manter competitividade.
Tonalidade: O tom ao longo da conversa é pragmático e crítico, ressaltando o distanciamento entre as intenções dos partidos e as reais possibilidades eleitorais, a fragmentação pragmática do cenário brasileiro e os bastidores movediços das grandes alianças nacionais.