O Assunto – "A reorganização da direita rumo à eleição"
Host: Rafael Colombo (substituindo Natuza Nery)
Convidada: Vera Magalhães, colunista de O Globo e comentarista da CBN
Data: 30 de janeiro de 2026
Tema: Como a direita e o centro-direita estão se movimentando e se reorganizando para as eleições presidenciais de 2026 no Brasil, com foco na estratégia do PSD (Partido Social Democrático), a consolidação (ou não) de uma terceira via e os desafios para partidos e nomes que buscam romper a polarização entre Lula e o bolsonarismo.
Episódio em Resumo
O episódio trata do atual panorama da direita e centro-direita brasileira a caminho das eleições de 2026, em particular o reposicionamento do PSD sob Gilberto Kassab ao formar uma “trinca” de presidenciáveis (Ratinho Junior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado) após a recusa de Tarcísio de Freitas em entrar na disputa presidencial. Rafael Colombo e Vera Magalhães discutem os obstáculos para uma candidatura de terceira via, a força da polarização Lula vs. bolsonarismo, disputa interna e fragmentação partidária, e os bastidores de montagem de palanques estaduais.
Principais Pontos de Discussão
1. Reposicionamento do PSD e o Movimento de Kassab
- [00:02-03:08] O PSD, anteriormente descrito como partido “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”, agora se coloca como de centro-direita com três presidenciáveis: Ratinho Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado.
- Kassab tenta construir uma alternativa à polarização, apresentando a sigla como “nem governo, nem oposição” e articulando com duas frentes: oferecer uma terceira via reformista e liberal-democrata e, simultaneamente, buscar aproximação com nomes de destaque como Tarcísio de Freitas.
- Tarcísio recusa candidatura presidencial (por ora), focado em São Paulo [02:44].
“A gente consegue se reunir em torno de uma pauta comum. Aquela candidatura que emergir vai sair muito mais fortalecida para representar um campo de uma direita reformista, democrática, com pensamento liberal e, ao mesmo tempo, que respeite as diferenças do nosso país.”
– Eduardo Leite (00:35)
2. O impasse para a terceira via e a relevância das pesquisas
- [04:48-08:08] Vera Magalhães frisa a dificuldade crônica de viabilizar terceira via, especialmente pela resistência do eleitorado em concretizá-la, mesmo demonstrando insatisfação com a polarização nas pesquisas.
- Cita dados da Quest: mais de 24% manifestam querer um nome “nem Lula, nem Bolsonaro”, mas poucos convertem isso em voto real.
- Relembra casos de “fracasso” da terceira via em 2018 (Alckmin) e 2022 (Simone Tebet).
“Entre manifestar essa vontade [...] e de fato concretizar um voto numa alternativa tem uma distância imensa.”
– Vera Magalhães (08:08)
3. A incógnita Tarcísio e a dinâmica com o bolsonarismo
- [10:50-13:46] Discussão sobre a possibilidade (ou não) de Tarcísio lançar-se nacionalmente; Kassab, experiente, evita palavras definitivas (“nunca”, “jamais”) e mantém a esperança, mas reconhece o espaço cada vez mais reduzido.
- Vera destaca a tensão de Tarcísio entre afirmação de autonomia e pressões da família Bolsonaro, indicando que, ao se submeter ao bolsonarismo, o governador acaba reforçando sua subordinação.
“Ele tem sido muito pressionado, violentamente pressionado [...] pela família Bolsonaro, que trata o Tarcísio como se fosse seu subalterno, e não o governador do principal estado do país.”
– Vera Magalhães (12:20)
4. Caminhos para uma candidatura do PSD e (falta de) entusiasmo
- [14:19-16:52] A possível candidatura de Ratinho Jr., Caiado ou Leite não empolga entusiasticamente os setores empresariais e financeiros, que preferiam Tarcísio, mas veem no PSD uma opção frente ao risco de radicalizações (tanto do PT quanto de Bolsonaro).
- Destaca-se o medo do “antipetismo” e o receio de que um novo governo Bolsonaro crie instabilidade institucional, enquanto as opções alternativas atraem apoio mais pelo pragmatismo do que por convicção.
“Você tenta comprar um carro ou um apartamento com o qual você sonha, o dinheiro não dá e aí você vai para uma segunda ou terceira opção sem o mesmo entusiasmo.”
– Vera Magalhães (14:19)
5. O papel do PSD como partido ‘pivô’ e força congressual
- [18:00-20:15] O PSD almeja ampliar sua bancada na Câmara, usando a candidatura presidencial para fortalecer o número do partido e negociar espaço nos futuros governos, independentemente do vencedor.
- Estrutura política estadual robusta, mas fragmentada; não há garantia de apoio nacional único a Bolsonaro ou Lula.
“A nossa governabilidade foi se estabelecendo de uma maneira tal que você fazer bancada na Câmara, principalmente, é o principal ativo que você pode ter na política...”
– Vera Magalhães (18:00)
6. O papel e o cálculo de Ronaldo Caiado
- [20:35-22:30] A entrada de Caiado no PSD é vista tanto como busca de plataforma mais respeitosa do que União Brasil, quanto uma movimentação pragmática (não necessariamente para vencer, mas para entrar no jogo com mais dignidade).
7. Montagem de palanques estaduais e desafios do PT e Lula
- [24:46-28:41] Lula demorou a iniciar montagem de palanques estaduais, o que pode fragilizar sua base fora do Nordeste.
- PT não tem “plano B” em São Paulo — pressão para que Haddad concorra ao governo estadual, reconhecendo que será uma candidatura de “sacrifício”, mas essencial para equilibrar nacionalmente.
“O governo largou atrasado e vai ter dificuldade na montagem desses palanques.”
– Vera Magalhães (28:17)
8. Pulverização vs. concentração de candidaturas à direita
- [28:41-30:57] Rafael propõe um dilema: melhor pulverizar ou concentrar candidaturas à direita?
- Vera: Especialistas divergem, mas a tendência histórica no Brasil é de concentração em dois polos (execeção: 1989). Não há sinais de que o padrão será rompido nas próximas eleições.
“O Brasil tem cada vez mais uma concentração do eleitorado em torno de determinados grupos políticos. [...] Você por muito tempo não sabia quem seriam os dois candidatos no segundo turno, que foi a eleição de 89. Desde então, houve uma espécie de concentração da vontade do eleitor em torno de dois polos sempre.”
– Vera Magalhães (29:21)
Timestamps de Segmentos-Chave
- [00:02-03:08] – Origem e atual estratégia do PSD, fala de Kassab e presidenciáveis
- [04:48-08:08] – Desafios para a terceira via e o dilema do “querer” X “votar” do eleitor
- [10:50-13:46] – O papel e os dilemas de Tarcísio de Freitas
- [14:19-16:52] – Reações do mercado e análise das opções do PSD
- [18:00-20:15] – Estratégia do PSD para ampliar bancada e manter força política
- [24:46-28:41] – Palanques estaduais, PT e o caso Haddad em SP
- [28:41-30:57] – Debate: pulverizar ou concentrar candidaturas à direita?
Notas de Fala Marcantes
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Gilberto Kassab sobre pragmatismo político:
“A palavra nunca, a palavra jamais, são palavras que você deve evitar na política, porque as circunstâncias mudam, os fatos novos surgem.” (10:50)
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Vera Magalhães sobre relações do PSD e fragmentação estadual:
“Vai ser difícil tirar um apoio a Flávio Bolsonaro ou a Lula oficialmente. O que deve acontecer é liberar para cada um fazer o jogo que bem entender...” (19:26)
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Vera Magalhães sobre o dilema eleitoral da centro-direita:
“A escolha acaba sendo antecipada pelo fator medo e pelo fator rejeição.” (16:52)
Conclusão
O episódio expõe as fraquezas e potencialidades dos projetos de centro-direita e direita no Brasil em 2026, ilustrando como partidos buscam espaço entre a polarização cada vez mais marcada, mas esbarram em limitações históricas e estruturais para consolidar uma candidatura do “meio”. O PSD surge como peça-chave, mas ainda sem conseguir empolgar ou garantir consistência nacional, enquanto o PT corre para recuperar o atraso fora do Nordeste e manter competitividade.
Tonalidade: O tom ao longo da conversa é pragmático e crítico, ressaltando o distanciamento entre as intenções dos partidos e as reais possibilidades eleitorais, a fragmentação pragmática do cenário brasileiro e os bastidores movediços das grandes alianças nacionais.
