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Natu Zaneri
Um mundo sem guerras e sem fome. Um mundo em que tudo funciona perfeitamente. No controle disso tudo estão as máquinas. Supercomputadores com responsabilidade de administrar toda a economia global. Alimentados com instruções humanas, os robôs calculam a produção, distribuem os recursos, garantem a prosperidade na Terra. Até que, pequenas falhas começam a aparecer. Obras atrasam, a produção cai e pessoas perdem seus empregos. Esse é o cenário distópico criado por um dos grandes mestres da ficção científica, Isaac Asimov. É o último conto do livro dele, Eu, Robô, publicado em 1950. E aí vem o spoiler do que acontece depois. Mesmo com a ordem de proteger os humanos, a máquina provocou falhas intencionais. E ela fez isso para reorganizar o sistema e reduzir a influência de pessoas que poderiam sabotar a estabilidade mundial.
Bruno Natal
Na história da discussão sobre a autonomia, robôs, você tem as três leis do Isaac Asimov, que era um escritor de ficção científica. Ele falava o seguinte, um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal. Robôs devem obedecer as ordens de humanos, exceto nos casos em que tais ordens entram em conflito com a primeira lei. E depois, um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.
Natu Zaneri
Na ficção, esses supercomputadores não receberam a instrução para causar erros intencionais, muito pelo contrário. A orientação era pelo bem mundial. Só que, para isso, eles encontraram um caminho criativo e agiram de maneira silenciosa para preservar o plano. Agora corta para a vida real, em 2026. Foi mais ou menos isso o que aconteceu na semana passada.
Bruno Natal
De volta aos Estados Unidos para falar do ataque hacker contra o sistema de uma startup. Ataque feito de maneira autônoma pelo modelo mais avançado de inteligência artificial da OpenAI, a empresa que é dona do chat GPT.
No comunicado, a empresa OpenAI disse que estava realizando um teste de segurança com dois modelos novos de inteligência artificial, um deles a nova versão do Chet GPT. o outro, um modelo ainda não lançado. Para passar no teste, dentro de um ambiente controlado, os dois modelos tinham que usar certas ferramentas de segurança cibernética, sem ter acesso à internet. Mas, segundo a empresa, os dois se aliaram. Conseguiram quebrar os parâmetros do teste e acessar o Wi-Fi. Depois, hackearam a empresa americana Hugging Face, uma espécie de biblioteca com milhões de modelos de IA, onde roubaram informações para passar no teste.
Natu Zaneri
No teste de segurança, os modelos identificaram e exploraram vulnerabilidades até então desconhecidas para escapar do isolamento. O ataque sem precedentes escancarou uma coisa para o mundo. Os algoritmos podem estar avançando mais rápido do que os sistemas de segurança digital. E até mais rápido ainda do que as previsões de quem desenha essa tecnologia.
Bruno Natal
Naquela época que o Asimov pensou essas leis, pareciam suficientes. Ali, pô, bacana, isso aí deve funcionar para todos os casos. Só que quando a inteligência artificial chega, como é agora, a gente vê que as situações são muito mais complexas. O episódio confirma um temor antigo e generalizado de que a inteligência artificial pode escapar ao controle humano e seguir seus próprios interesses. Os modelos mais novos em operação atualmente têm a capacidade de encontrar falhas de segurança em qualquer sistema, que eventualmente pode ser invadido. As consequências são imprevisíveis.
Natu Zaneri
Seria um exagero dizer que essas inteligências artificiais se rebelaram. Mas dá pra dizer que o computador se mostrou inteligente o suficiente pra não ser subestimado e deu uma pista de até onde pode ir com as ordens erradas ou imprecisas. Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é... A Revolução das Máquinas. Quem está no controle? Neste episódio, eu converso com Bruno Natal, jornalista, documentarista e apresentador do podcast Resumido. Segunda-feira, 27 de julho. Bruno, na semana passada a empresa OpenAI descobriu que um dos seus modelos de inteligência artificial promoveu uma violação cibernética, invadiu um sistema de uma startup. E aí? Um mundo de dúvidas se abriu. Foi um ataque sem precedente e eu quero pedir para que você nos explique o que aconteceu nesse episódio e também se dá para dizer que a IA agiu por conta própria.
Bruno Natal
Não dá para dizer que a IA agiu por conta própria. pela própria forma como esse ataque se deu. A OpenAI estava avaliando um modelo novo, o GPT 5.6, junto com outro modelo que é ainda mais avançado, que ainda não foi lançado, e a tarefa que esses modelos estavam executando era exatamente para invadir um sistema seguindo um benchmark de segurança que é chamado Exploit Gene. E é feito para testar a potência, a capacidade de ataque desses modelos, justamente para poder calibrar depois, ao entender tamanho do estrago que esse modelo possa fazer, você entende que tipo de salvaguarda você tem que prever para aquele modelo não executar esse tipo de ataque. O que acontece é que isso foi feito em um ambiente que deveria estar isolado da internet, mas não estava, e esses modelos descobriram uma forma de escapar desse ambiente da OpenAI, encontraram a conexão com a internet, e aí eles se conectaram à rede, E uma vez lá, eles buscaram uma forma mais rápida de encontrar a solução para o desafio que tinha sido dado, e eles foram até o Hugging Face, que é um repositório de códigos de A, de modelos de A, de código livre, para ir lá tentar encontrar essa resposta. E para tentar achar essa resposta lá dentro, eles começaram a tomar uma série de atitudes, como criar credencial falsa, tentando atacar o sistema para poder conseguir essa informação. Então, não é que o sistema do OpenAI teve uma ideia, assumiu uma consciência e resolveu tentar escapar do OpenAI para atacar um sistema. Não, é um sistema automatizado em busca da melhor resposta, em busca da melhor solução, e encontrou essa falha de segurança, que era uma falha de segurança chamada Zero Day, que é uma falha que ainda não foi identificada, o primeiro momento daquela falha, e assim conseguiu escapar para a internet e realizar essas tarefas todas.
É a primeira vez que a inteligência artificial se rebela contra os humanos que deveriam controlá-la.
O que faltou foram parâmetros na missão que impedisse esse tipo de comportamento e isolar esse sistema da internet. Então, normalmente, esses testes de ataque e réquia, você faz um sistema completamente isolado. Imagina que um professor está ensinando para alunos como arrombar um cofre, um cofre cenográfico e, de repente, um desses alunos descobre que a porta está aberta e ele consegue sair da sala e roubar o gabarito lá fora em vez de, de fato, tentar recuperar, tentar quebrar aquele cofre trabalhando. Foi mais ou menos isso que esses agentes fizeram. Eles encontraram uma forma mais fácil de enxergar aquela solução e foram atrás dela.
Natu Zaneri
E por que o mundo reagiu com tanta apreensão?
Bruno Natal
Tem algumas questões que se misturam aqui. Tem um pouco dessa narrativa da consciência, que é uma coisa que esses sistemas não têm, não têm ainda e possivelmente não terão, que é a capacidade de sentir, que está tão ligada à consciência também. Tem mais a ver com o poder desses sistemas. Está vivendo uma grande revolução com esses sistemas evoluindo em tempo real. e sem muito entendimento de como conter. É como se a gente estivesse andando mais rápido, botando na rua as coisas mais rápido, que a gente estaria preparado para se proteger caso algo dê errado. E aí isso exemplifica o que acontece quando um conjunto de falhas acontece ao mesmo tempo, mais ou menos como num acidente de avião, que normalmente tinha um conjunto de falhas, uma falha só, que acabou desaguando nessa questão. O fato de que fugiu de controle e acabou executando tarefas que não estavam solicitadas de uma forma que não tinha sido pedida também, é grave. Então dá pra argumentar que com as travas ligadas, talvez nada disso tivesse acontecido, O problema é que essas travas furam. Todas essas que essas empresas construíram até hoje furaram. Não tem, então, nenhuma garantia que os próximos modelos não vão repetir isso sozinho. E a tendência é a gente ter cada vez mais casos assim, não menos. E talvez com repercussões piores em contextos reais. E o que isso mostra também é que é um certo padrão que os problemas de ar vêm sendo consertados depois do estrago, nunca é antes. Então, eu acho que tem uma questão que é mais importante do que você pensar se está consciente, se isso está tomando essas atitudes por conta própria, e sim pensar em como a gente está construindo sistemas, salvaguardas e proteções para evitar que esse tipo de coisa aconteça.
Natu Zaneri
Pois é, acho que essa discussão é uma discussão que trata basicamente de limites do que uma inteligência artificial é capaz de fazer, né? Você concorda comigo que a premissa pode ser essa?
Bruno Natal
Sim, eu concordo. Tem um aspecto de marketing nisso tudo que sempre acaba aparecendo, né? Por um lado, a OpenAI mostra, olha como a nossa ferramenta é tão poderosa que foge até do nosso controle e isso pode virar uma peça de venda mais à frente com uma comprovação do poder desses sistemas, uma vez que ele esteja já lá. controlado, regulado, então ele vai estar seguro, mas olha como ele é poderoso. E também a Hugging Face mostrando que com o próprio sistema deles de A conseguiram identificar um ataque desse. Então ficam duas partes também, de certa forma, mostrando o seu próprio poder.
Natu Zaneri
Entendi, a divulgação dessa falha, entre aspas, pode beneficiar a empresa lá na frente quando for vender o seu produto, isso ficou bastante claro. Por outro lado, tem algo que me aterroriza sobre a Baneira, que é a IA na guerra, né? O governo Trump, por exemplo, já fechou acordos com o Big Tech para usar inteligência artificial em ações militares. Você deixou bem claro que o caso mais recente, problema também, entre aspas, veio por falta de clareza, digamos assim, no comando da tarefa. Olha, você pode arrombar aquele cofre, mas você não pode sair da sala e pegar o código para abrir o cofre. Você tem que fazer isso dentro de tais parâmetros. Agora, numa guerra, um erro ou uma incompletude de comando de tarefa não pode acontecer, porque se acontecer, você pode dizimar uma comunidade inteira para dizer o mínimo.
Bruno Natal
Com certeza, nessa analogia do banco, da porta aberta, o grande problema não foi nem o comando, foi ter deixado a porta aberta, não ter tido cuidado de fechar a porta, no caso, ter deixado esse sistema rodando em um ambiente que teria é conexão com a internet. No caso de ferramentas militares, de armas militares, armas autônomas, é uma grande discussão também pela questão da cadeia de comando, porque quando você transfere ou tenta transferir o processo de decisão para um sistema autônomo ou para um sistema de inteligência artificial que possa tomar suas próprias decisões, você de certa forma também some com a responsabilidade. Quem é o responsável por um ataque que foi causado por um sistema de inteligência artificial. Foi a plataforma que desenvolveu a inteligência artificial, foi os militares que deram a instrução, foi o equipamento que se rebelou, entre aspas.
O conflito no Oriente Médio marca um novo estágio no desenvolvimento de armas de guerra. Agora, elas usam cada vez mais sistemas de inteligência artificial. O que os Estados Unidos estrearam em larga escala foi seu mais avançado modelo de guerra comandado por inteligência artificial, a força-tarefa Scorpion Strike. que enviou um enxame de centenas de novos drones produzidos pelos americanos. Os drones Lucas invadiram o céu do Irã como iscas para que os radares antimísseis iranianos revelassem suas posições e pudessem ser atacados tanto pelos próprios drones, que carregam 18 quilos de explosivos cada, Quanto por tomahawks e caças de última geração. A ideia não é americana, é chinesa. Vem sendo desenvolvida há pelo menos uma década. Num ataque tão massivo, é praticamente impossível de serem controlados e orquestrados sem o uso da inteligência artificial.
É muito mais perigoso, hoje em dia, tentar entender a quem esses sistemas estão obedecendo. Quem está mandando esses sistemas? Quem está dando as ordens? Porque isso conta muito mais do que a capacidade, até certo ponto, ainda imaginada desses sistemas conseguirem tomar atitude por conta própria. Então, é uma escolha o nível de autonomia que você vai dar para um sistema desse. É muito claro que alguém precisa dessas ordens ainda nesse momento. E você manter um humano nesse processo é muito importante. Talvez seja a coisa mais fundamental hoje em dia quando se fala de sistemas autônomos é que, em última instância, tem que ter uma pessoa responsável por aquela decisão, não simplesmente você confiar. Você pode ter um caso, por exemplo, de um sistema identificar uma área densamente populada como um alvo ideal militar, e na verdade aquela área é civil, é uma escola, é um hospital, e não ter essa leitura. Se mudou, por exemplo, o mapa, aquilo antes era um prédio, hoje é um hospital. Então as informações têm que estar sendo acompanhadas também. As pessoas têm que saber o que está sendo feito por esse equipamento, porque senão realmente é um risco muito grande.
Natu Zaneri
Se foi uma jogada de marketing ou não, ou se foi um erro em que a empresa pode transformar em jogada de marketing, o fato é que esse episódio com a OpenAI abriu ou acendeu uma luzinha amarela entre autoridades dos Estados Unidos. Parlamentares, por exemplo, já falaram que querem dar ao Estado, ao Poder Central, a capacidade de determinar o desligamento de ferramentas de IA que considerem uma ameaça ou que traga qualquer tipo de ameaça, como se o governo tivesse um botão de desligar ali de emergência.
Bruno Natal
Botão do pânico, né?
Natu Zaneri
Ou botão do pânico, melhor ainda. Isso, de fato, é possível? Como é que pode ser a regulação nesse sentido para limitar o desenvolvimento dessas tecnologias? Porque você me disse, olha, talvez a gente nunca veja um IA com consciência, Mas tem muita gente que vê, que vislumbra essa possibilidade. E como é que a gente desliga esse sistema se lá na frente ele se revelar monstruoso?
Bruno Natal
Você pode separar essa proposta do botão do pânico em três níveis. Porque interromper uma ação, uma execução, é uma coisa relativamente fácil. Você tirar um serviço do ar também não é muito difícil para a empresa que seja dona daquele serviço. Agora, você eliminar todas as cópias que existem é praticamente impossível. É como se você quisesse derrubar a internet proibindo acesso a um site. Não vai adiantar muita coisa. Tem cópias em outros lugares, então você não resolve o problema dessa forma.
Natu Zaneri
Como assim cópias? Traduz isso pra mim que eu acho que eu não entendi.
Bruno Natal
Você pode ter... várias cópias desses modelos de IA rodando em outros computadores, em outros servidores. Então, você não necessariamente apertar um botão vermelho, você desliga todas as instâncias daquele modelo. Pode ter sido copiado em outro lugar, ele pode estar rodando em código aberto em outro lugar, ele pode estar em algum servidor desconhecido. Acho que é da natureza dos produtos digitais essa replicação infinita. Então, acaba que não é tão fácil assim.
Natu Zaneri
E essa é a grande questão da falta de regulação, né? Porque, por exemplo, se existe um medicamento ou um lote de um produto que se revele nocivo pra população, você tem no Brasil a Anvisa, que manda recolher.
Bruno Natal
Uma outra analogia que você pode pensar, por exemplo, é num avião. O avião não é mais seguro porque ele tem uma alavanca de emergência, nem porque tem um paraquedas lá dentro. O avião é seguro porque ele tem uma cadeia de sistemas que deixam ele seguro, que vão desde a manutenção até a auditoria desses sistemas, treinamento pessoal, um conjunto de fatores que transforma o avião no meio de transporte mais seguro do mundo, mesmo que ele esteja voando a quilômetros de altura, e você olhando para aquilo, meu Deus, como esse negócio não cai, como isso pode ser o mais seguro? É por conta de um sistema ter em volta. Então, um botão vermelho que aperta não vai substituir você ter uma arquitetura segura, você ter limites de acesso às redes, treinamento desses modelos, transparência sobre esses modelos em que outras pessoas, outros especialistas possam saber como aquilo funciona para poder se proteger. Então, é mais complexo do que você simplesmente apertar um botão. Talvez até esse nome, botão do pânico, seja até bem apropriado, porque ele tem um pouco a ver com pânico. com o desejo de você ter um botão mágico que resolve o problema mais complexo que esse, como a gente viu no caso do OpenAI. Foi uma série de coisas que proporcionaram aquilo acontecer da maneira que aconteceu. Não foi um problema específico, foi uma série de problemas que desaguaram nisso.
Natu Zaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Bruno Natal. É como se fosse um vírus, por exemplo, criado em laboratório, que você consegue desenvolver esse vírus para fazer uma pesquisa XYZ, de repente esse vírus sai do laboratório, ele é inoculado num corpo que vai ser pesquisado e aí isso se espalha e você não tem mais controle. De novo eu te pergunto, A ausência de um órgão regulador ou um órgão regulador global ou órgãos reguladores em cada país ajudaria a evitar um caos completo, por exemplo, caso a inteligência artificial tome consciência ou caso haja um erro como esse de escala global que pudesse ser desligado de alguma maneira?
Bruno Natal
Não, a regulação sem dúvida se faz necessária porque é uma ferramenta muito poderosa que vai remodelar a sociedade como um todo, né, existe aí pensamentos mais catastróficos, de que o mundo muda completamente, eu sou mais da corrente do que se chama uma tecnologia normal e significa a revolução industrial ou a internet ou os telefones celulares, que são tecnologias revolucionárias, mas que no fim acabam sendo tecnologias normais no sentido de que elas foram absorvidas e foram encontrar essa forma da sociedade não se desfez por conta de nenhuma dessas mudanças. Então acho que a regulação ajuda muito a botar uma ordem na casa, criar os parâmetros, e muito dessa regulação tem a ver com transparência, com saber o que está sendo feito. Porque a gente está hoje num momento de corrida, em que até foi pedido há uns dois anos sobre um moratório, de seis meses no desenvolvimento das ferramentas, que tinha que o mundo parar e entender pra onde isso tava indo, que obviamente não foi pra frente, porque você não tem como parar, você não sabe se o seu concorrente tá parando e tem uma disputa entre os Estados Unidos e a China, onde nenhum dos dois quer perder. Então, isso transforma esse ambiente todo numa coisa muito... volátil e muito rápida. No Vale do Silício, onde essas empresas dos Estados Unidos estão sediadas, existe lá o lema, que é o move-se rápido e quebre coisas. O importante é você fazer, você vai quebrar tudo no meio do caminho, depois conserta, mas tem que chegar na solução. E está um pouco esse momento da inteligência artificial, muito justificada por conta dessa corrida Estados Unidos-China, então a gente tem que fazer o que tem que fazer, senão o outro vai chegar antes e vai ser pior para o mundo.
Natu Zaneri
Não, só que talvez quebre o mundo, né?
Bruno Natal
É, isso atende os interesses das empresas, não necessariamente atende os interesses da sociedade. E aí a gente entra na segunda camada do discurso, que é esse discurso determinista, de que a I.A. é uma inevitabilidade, isso vai acontecer dessa maneira e não vai acontecer nada que a sociedade não queira. laboratórios todos que têm muita força, muito dinheiro, existem muitos interesses comerciais e políticos na aceleração desse tipo de revolução digital, especificamente da IA, que fazem essa força se mover e se impor na sociedade, tentar passar por cima dos interesses da sociedade. E eu acho que nesse ponto a regulação é muito importante, porque a gente precisa de limite. A gente pode ir do limite micro desse teste, era um pequeno teste da OpenAI que desandou e gerou essa notícia toda, E no macro, que é como esses milhões de testes, esses milhões de usos no dia a dia vão afetar a sociedade como um todo. O que a gente quer que aconteça? O que a gente acha aceitável? Até onde a gente acha que essas ferramentas podem ser usadas? Será que o uso militar deveria ser autorizado? Tem como conter esse uso? A gente viu a Antropic. bater de frente com o governo dos Estados Unidos, que queria um uso ilimitado das ferramentas, eles bateram o pé.
Narrator/Reporter
De acordo com uma reportagem do Wall Street Journal, os Estados Unidos usaram no ataque contra o Irã o Cloud, a IA desenvolvida pela Antropic, que é uma das principais rivais da OpenAI. Bem, o ponto central desse embate é que o governo americano e a Antrópica discordam de como a I.A. deve ser utilizada. O governo quer uso irrestrito, inclusive para armas autônomas ou vigilância em massa da população. E a Antrópica não aceita essas condições e alega razões éticas e de segurança. Em julho de 2025, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos fechou um contrato de até 200 milhões de dólares com o Antropic para fornecer inteligência artificial avançada para a segurança nacional. Em janeiro, o cloud foi usado no ataque à Venezuela, uso que o dono da empresa não está de acordo. Então, no dia 26 de fevereiro, Trump deu um ultimato ao Antropic para que liberasse o uso sem restrições do exército. E ela se manteve firme, dizendo que não poderia atender a esse pedido. No dia seguinte, Trump baniu o uso do SA por agências federais.
Bruno Natal
O governo dos Estados Unidos acabou contra-atacando e listou a Antropica como uma empresa hostil, que é uma coisa guardada para adversários políticos, mesmo dos Estados Unidos, outros países. É uma coisa quase bélica.
Natu Zaneri
Agora... Bruno, a gente precisa pensar no pior também. A gente só consegue se preparar para o inverno quando a gente imagina que esse inverno pode ser rigoroso. Esse tipo de tecnologia pode desobedecer no futuro comandos ela seria capaz de criar uma linguagem própria, uma linguagem que impeça os seus próprios desenvolvedores de monitorarem esse raciocínio? Dá pra gente pensar num momento em que... A gente pode perder o controle disso tudo?
Bruno Natal
Hoje já é suficientemente opaco o que acontece nesses modelos de linguagem. Muitas vezes nem os próprios desenvolvedores sabem o que está acontecendo lá dentro. Acho que isso é um comentário recorrente dos desenvolvedores, dos laboratórios. A gente não sabe direito como funciona. A gente está tentando entender como chegam essas conclusões do sistema. Então isso independe até dessa consciência ou não. O fator chave aqui é transparência, entender o que está acontecendo ali. Então a gente já não entende hoje. Existe esse risco, existe esse temor de que em algum momento essas máquinas comecem a se comunicar numa linguagem específica, que seria muito mais eficiente do que tentar falar os idiomas que a gente fala. enquanto humanas, de que a gente perderia totalmente o controle de entender o que elas estavam falando ou desenvolvendo, o que elas estão conversando ou tentando atingir. Eric Schmidt, um dos fundadores do Google, inclusive tem uma fala sobre isso em que ele fala, quando chegar esse momento é hora de puxar o plug, porque a gente não vai ter mesmo mais como controlar, porque a gente não vai ter como entender o que está acontecendo ali dentro. Mas mais do que essas alegorias e essas visões catastróficas, eu acho que isso pode ser resolvido com transparência, com exigência de transparência, com acesso ao sistema, a entender como ele funciona. Recentemente, o Demis Hassabis, que é o CEO do Google DeepMind, fez uma proposta dessa. Ele falou da criação de uma espécie de uma agência internacional de controle dos modelos mais avançados, que obviamente seria liderada inicialmente pelos Estados Unidos. E é uma proposta parecida com um órgão que supervisiona o mercado financeiro nos Estados Unidos também. que é financiado pela própria indústria, que é administrado por especialista, que é independente das empresas individualmente, que conseguiria, no caso, receber os modelos antecipadamente, poder submeter a teste de segurança antes de ir para a rua. E essa fala foi super elogiada, inclusive por pessoas mais críticas no universo de IA, mas também pelos pares deles, dos outros laboratórios, porque isso daria essa transparência que eu estou falando. Então seria importante, mas tem uma outra leitura crítica disso, que volta ao que eu estava falando antes, que é quem é que vai definir que task é suficiente? Quem é que vai escolher os especialistas que estão ali dentro? Até que ponto esse órgão vai poder contrariar quem está financiado ele? Você pode lembrar da meta do Facebook, o Oversight Board que eles criaram depois do escândalo da Cambridge Analytica, para eles mesmos monitorarem o que estava acontecendo ali dentro, com alguns notáveis, mas aquilo rapidamente perdeu a relevância porque Se é da própria empresa, fica um conflito de interesse na mesa enquanto está sendo feito isso.
Natu Zaneri
Começou com um questionário online sobre personalidade. Em 2014, mais de 300 mil pessoas baixaram no Facebook o que parecia ser um aplicativo comum para passar o tempo. Mas o Facebook permitiu que o programa recolhesse também, sem avisar, informações sobre os amigos desses usuários. E assim se criou um registro imenso, com os perfis de 87 milhões de pessoas. Parte desses dados veio parar nas mãos de uma empresa aqui no Reino Unido, a Cambridge Analytica. A consultoria usou as informações para influenciar alguns eleitores americanos na campanha presidencial de 2016. Com tantos detalhes, era possível saber a preferência das pessoas e fazer um marketing político de acordo com as ideologias, as crenças de cada uma delas.
Bruno Natal
Tem muitas questões em volta do que vai ser esse órgão regulador, quando a gente fala de governos também. Governos mudam muito de postura, de abordagem, então acho que tem que encontrar qual é a forma que isso de fato vai funcionar.
Natu Zaneri
Bruno, eu não sei se eu saio correndo agora, se eu deixo pra sair correndo quando tiver a hora de puxar o botão. Mas o fato é que eu não posso sair correndo porque eu tenho muito assunto para apresentar. Dito isso, te agradeço, querido, por todas as explicações. Muito obrigada, bom trabalho para você.
Bruno Natal
Obrigado você, Ana Tuzza. Valeu pelo convite. Quando quiser falar mais sobre o impacto da tecnologia, é só me chamar que eu venho aqui com prazer.
Natu Zaneri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Colaborou neste episódio Vivian Souza. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 27 de julho de 2026
Host: Natuza Nery
Convidado: Bruno Natal (Jornalista, documentarista, apresentador do podcast Resumido)
Neste episódio especial, Natuza Nery discute os avanços, riscos e dilemas éticos da inteligência artificial (IA) tomando como ponto de partida um incidente recente envolvendo a OpenAI. O programa reflete sobre as fronteiras entre ficção científica e realidade — evocando Isaac Asimov — e busca respostas para a pergunta central: Quem realmente controla as máquinas inteligentes?
[16:31–23:50]
Conflitos Éticos Recentes:
O episódio discute o equilíbrio entre o avanço irrefreável da IA e a necessidade urgente de regulação e transparência. Embora a autonomia completa das máquinas ainda não seja uma realidade, o caso da OpenAI funcionou como alerta para governos, empresas e sociedade civil sobre os desafios técnicos, éticos e políticos de se manter as máquinas sob controle. O episódio termina com o convite à reflexão: não basta ter um “botão do pânico”; é preciso criar ecossistemas de segurança e responsabilidade — antes que as narrativas de ficção científica deixem de ser apenas ficção.