O Assunto – A virada na relação entre governo e Centrão
Podcast: O Assunto | Host: Natuza Nery (G1)
Data: 16 de outubro de 2025
Visão Geral do Episódio
Neste episódio, Natuza Nery examina a recente virada na relação entre o governo Lula e o Centrão, detalhando os embates recentes, estratégias políticas e as consequências do atual reposicionamento do Planalto. Participam da conversa Guilherme Bausa (repórter político da Globo News) e Cláudio Couto (cientista político e professor da FGV-SP). O episódio aborda o cenário das negociações, revela bastidores do embate político, discute históricos do presidencialismo de coalizão e delineia o impacto dessas mudanças na governabilidade e na preparação para as eleições de 2026.
Principais Pontos e Discussões
1. O Estopim do Conflito: Derrota na MP do IOF
- [00:30] O governo foi derrotado na Câmara, que retirou de pauta a medida provisória que previa a substituição do aumento do IOF, essencial para a meta fiscal de superávit de até R$ 34 bilhões.
- Resultado: 251 votos pela retirada da MP e 193 a favor da discussão.
- Citação:
- “A oposição impôs uma derrota ao governo e retirou da pauta da Câmara a medida provisória criada para substituir parte do aumento do IOF.” – Natuza Nery [00:30]
- O Planalto concedeu grande parte das demandas do Congresso, mas foi surpreendido pela rejeição de sua base.
- [01:56] “O governo concedeu tudo que o Congresso pediu e no final o Congresso, a maioria, o Central e a oposição derrubaram a medida.” – Natuza Zaneri
- Resultado: Governo inicia demissões e troca de cargos comissionados indicados por membros infiéis do Centrão.
2. Timeline da Relação Lula 3 x Centrão
- [03:54] Cláudio Couto relembra que Lula foi eleito em 2022 sem apoio do Centrão, que apoiava Bolsonaro e tinha forte presença no Planalto, especialmente com Ciro Nogueira na Casa Civil.
- Ao montar o governo, Lula distribuiu ministérios entre MDB, PSD e União Brasil. Isso acalmou temporariamente a relação, mas tensões logo ressurgiram, especialmente em relação às emendas parlamentares e ao fim do orçamento secreto.
- “Sempre houve um incômodo muito grande do Centrão com a questão das emendas... Esse é um ponto central para entender a relação do Lula com o Centrão.” – Cláudio Couto [05:25]
3. O Fim do Orçamento Secreto e as Novas Dinâmicas
- [06:12] STF, no fim de 2022, acaba com o orçamento secreto. Parlamentares perdem acesso informal a recursos.
- Saída encontrada: Metade do orçamento secreto virou emendas individuais, a outra metade ficou com os ministérios. O governo, porém, manteve repasses informais conforme indicações políticas.
- Flávio Dino (STF) inicia auditoria e impõe critérios mais rígidos para as emendas, acirrando o tensionamento entre Executivo e Congresso.
- “Ministro Flávio Dino determinou auditoria de emendas do Congresso liberadas desde 2020 e praticamente eliminou as emendas em que parlamentares não prestaram contas...” – Natuza Nery [07:52]
4. O Novo Calculismo Político do Governo
- [09:44] Determina-se que quem vota com o governo mantém cargos; quem vota contra, perde indicações.
- Exemplo: União Brasil e Progressistas pressionam ministros (Fufuca e Celso Sabino) a deixar pastas, mas eles decidem permanecer no governo Lula.
- Demissões ocorrem de forma pública e anunciada, diferente do padrão político anterior.
- “Dessa vez, o governo resolveu dizer ‘Estou exonerando’ e começou a exonerar. O que explica esse movimento?” – Natuza Zaneri [12:19]
- Cláudio Couto aponta: Popularidade do presidente Lula está em alta, o que encoraja posturas mais assertivas e antagonismo ao Congresso, visto como impopular.
- “O governo decide partir por uma disputa política, tentar encontrar um discurso e também muda até o lema do governo: deixa de ser união e reconstrução e vira do lado do povo brasileiro.” – Cláudio Couto [13:46]
5. Impacto nas Pesquisas e Comunicação Pública
- [15:41] Tensionamento com o Congresso e postura de antagonismo popular aumentam a popularidade de Lula, especialmente quando o presidente posiciona-se contra medidas impopulares aprovadas pelo Parlamento.
6. Perspectiva do Centrão e a Reação ao Pente-Fino
- [17:30] Para alguns do Centrão, a estratégia do Planalto será prejudicial ao governo; outros veem oportunidade de ampliar espaço, já que os cargos exonerados podem ser ocupados por novos aliados.
- “É clássico dividir para governar.” – Natuza Zaneri [19:07]
- O rearranjo já está focado nas eleições de 2026, buscando consolidar uma base mínima para sustentação de um projeto eleitoral.
- “O governo está preocupado com a governabilidade, quer mandar o recado para o centrão, mas quer trazer pedaços desses partidos... para construir a candidatura do Lula em 2026.” – Cláudio Couto [18:37]
7. O “Governo Congressual” e o Novo Presidencialismo de Coalizão
- [19:57] Guilherme Bausa explica como mudanças estruturais no presidencialismo de coalizão, desde 2015, deram mais poder ao Congresso, especialmente com a aprovação das emendas impositivas. Isso diminuiu a capacidade de barganha do Executivo e dificultou disciplinar a base governista.
- “O governo perdeu esse instrumento [de barganha]... presidente fraco abre espaço para que o Congresso ocupe, e foi isso que aconteceu ali, gerou uma mudança estrutural.” – Guilherme Bausa [20:09]
- O Centrão, agora mais ideológico, não precisa mais escolher entre recursos ou pautas: pode garantir ambos.
8. Retaliação, Divisão Interna e a Nova Lógica dos Cargos
- [23:03] Guilherme Bausa compara infidelidade parlamentar à metáfora do “casado com vida de solteiro”, para ilustrar deputados que mantêm cargos, mas votam contra o governo.
- Hoje, cargos de segundo escalão são instrumentos de influência regional e eleitoral, mas a fidelidade em votações não acompanha automaticamente as nomeações.
- “Melhor pelo menos tornar isso caro para elas e que... resolvam voltar à mesa de negociação. Se não vai por bem, vai por mal.” – Guilherme Bausa [24:09]
- Antes, retaliações eram pontuais e discretas; agora são públicas, mirando impacto eleitoral e político.
9. Do Centrão Antigo ao Novo
- [25:29] Natuza discute como o Centrão evoluiu, tornando-se mais poderoso e ideológico a partir de Eduardo Cunha.
- [26:03] Risco de retaliação do Centrão: governo pode sofrer novas derrotas, pois a lógica dos partidos já não depende só de cargos, mas de identidade programática e controle orçamentário.
10. Estratégias para o Senado e Divisão dos Adversários
- [27:41] Governo aumenta o foco no Senado, onde tende a obter mais apoio – senadores têm obrigações eleitorais diferentes e menos regionalizadas que deputados.
- Manter ministros do Centrão no governo serve para aprofundar divisões nesses partidos e evitar oposição monolítica.
- “Dividir seus adversários é sempre uma boa estratégia para qualquer político.” – Guilherme Bausa [28:41]
11. Lideranças na Câmara: Hugo Mota e Arthur Lira
- [30:08] Hugo Mota, presidente da Câmara, é visto como fragilizado e perdido, sem controle sobre o próprio partido (Republicanos).
- Arthur Lira, ex-presidente, segue influente, buscando aliança estratégica para disputar o Senado em 2026 (por Alagoas).
- “Os indicados do Lira não foram demitidos, embora membros do seu partido tenham sido demitidos.” – Guilherme Bausa [31:29]
Notáveis Citações
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“A oposição impôs uma derrota ao governo e retirou da pauta da Câmara a medida provisória criada para substituir parte do aumento do IOF.”
— Natuza Nery [00:30] -
“Sempre houve um incômodo muito grande do Centrão com a questão das emendas... Esse é um ponto central para entender a relação do Lula com o Centrão.”
— Cláudio Couto [05:25] -
“O governo decide partir por uma disputa política, tentar encontrar um discurso e também muda até o lema do governo: deixa de ser união e reconstrução e vira do lado do povo brasileiro.”
— Cláudio Couto [13:46] -
“Melhor pelo menos tornar isso caro para elas e que... resolvam voltar à mesa de negociação. Se não vai por bem, vai por mal.”
— Guilherme Bausa [24:09] -
“Dividir seus adversários é sempre uma boa estratégia para qualquer político.”
— Guilherme Bausa [28:41]
Timestamps de Segmentos-Chave
- [00:30] Derrota do governo na MP do IOF e início da crise com o Centrão
- [03:54] Histórico da relação Lula 3 – Centrão
- [06:12] Fim do orçamento secreto pelo STF
- [09:44] Prática de punição explícita a infiéis e demissões
- [12:19] O ineditismo de demissões públicas como estratégia política
- [15:41] Impacto nas pesquisas e divisão com Congresso
- [17:30] A visão do Centrão, eleições de 2026 e reorganização de cargos
- [19:57] Presidencialismo de coalizão e fortalecimento do Congresso
- [23:03] A metáfora do “casado mas com vida de solteiro” para deputados infiéis
- [26:03] Possível retaliação futura do Centrão
- [27:41] Foco do governo no Senado e divisão dos adversários
- [30:08] Diferença entre Hugo Mota e Arthur Lira
Conclusão
O episódio apresenta um panorama profundo da virada nas relações entre o governo e o Centrão. Explica as origens históricas, detalha os embates do momento — em especial a reação do governo à infidelidade parlamentar com demissões públicas e mudanças de cargos — e destaca a evolução do Congresso, que hoje detém mais poder e autonomia. O governo Lula aposta em antagonismo com o Legislativo como estratégia de sobrevivência política e eleitoral, apostando também em dividir seus adversários, sobretudo de olho nas eleições de 2026. O cenário é dinâmico, e a disputa por governabilidade, cargos e narrativas deve se intensificar.
