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Narrator/Reporter
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Natuza Nery
Foi assim, no início da noite de domingo, que José Antônio Caste comemorou sua vitória na eleição presidencial chilena.
Narrator/Reporter
Os números foram mostrando uma vitória de José Antônio Caste em todas as regiões do país. E pouco antes das sete e meia da noite, a candidata adversária, Jeanette Jara, ligou a Caste, reconhecendo a vitória do adversário.
Natuza Nery
Advogado, Caste foi vereador e deputado por quatro mandatos. Alinhado à direita mais conservadora, Caste precisou moderar seu discurso ao longo da campanha.
Narrator/Reporter
O presidente eleito discursou a seus apoiadores. Reforçou suas promessas de campanha nas áreas de segurança pública e imigração. Diz que o país precisa de ordem nas ruas e que quem violar a lei vai sofrer o peso dela. Afirmou que o Chile é um país acolhedor, que quer receber estrangeiros, mas dentro da lei. E se um amigo estrangeiro que está radicado infringe a lei, também lhe vamos dizer que você tem que ir. O Caste pretende atacar essas questões com o que chama de um plano emergencial para os primeiros 90 dias de governo. Tem para isso o respaldo de 58% dos eleitores chilenos, a segunda maior vantagem em um segundo turno desde o fim da ditadura no país.
Natuza Nery
A ascensão da direita no Chile se soma a outra em um curto espaço de tempo. Em outubro, um país tradicionalmente governado pela esquerda rompeu esse ciclo após quase duas décadas.
Narrator/Reporter
O fim de uma era na política de um país vizinho, na Bolívia.
Rodrigo Pass Pereira, mas ele não é um outsider da política. É filho do ex-presidente Jaime Passamora e sobrinho do ex-presidente Victor Passa Estensoro. Possui um discurso que apela aos trabalhadores informais e aos pequenos comerciantes, propondo, abre aspas, capitalismo para todos, fecha aspas.
Natuza Nery
Dos 12 países sul-americanos, seis estão alinhados à esquerda e seis à direita.
Analyst/Commentator
A gente está vendo na América do Sul que a esquerda está mais à direita e a direita está mais à esquerda, pelo menos em termos presidenciais. A Argentina, a gente sabe, com o Javier Milley, agora o Chile vem se juntar a esse bloco. E aí tem muitas dúvidas, inclusive analistas na imprensa chilena se perguntando. O caste no governo, ele vai ser uma mistura de Milley com Bolsonaro, com outras lideranças da direita da América do Sul? Vai criar um caminho próprio? Vai ser outra coisa? Vai abrir os braços para receber também apoia os outros e tudo mais.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é a vitória da direita no Chile e o mapa ideológico da América do Sul. Minha conversa com Demetrio Maioli, sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. Demetrio é comentarista da Globo News e colunista dos jornais O Globo e Folha de São Paulo. Terça-feira, 16 de dezembro. Demetri, o Chile acabou de eleger o seu novo presidente, o José António Casti, e eu quero começar te perguntando o que que te chamou a atenção nessa corrida eleitoral?
Demetrio Maioli
Duas coisas. Em primeiro lugar, a escolha da candidatura da esquerda. Janete Jara era, vamos dizer assim, uma das piores candidatas possíveis do ponto de vista eleitoral pelo simples fato de que ela pertence ao Partido Comunista, o que significa que grande parte do eleitorado de centro teria muita dificuldade em votar em Janete Jara. Do outro lado, o que chamou a atenção, mas está longe de ser uma novidade, é a moderação retórica, eu não digo moderação política real, mas a moderação retórica de José Antônio Caste.
Natuza Nery
Ele deu uma calibrada na retórica dele, né?
Demetrio Maioli
Ele deu uma calibrada, ele parou de elogiar Pinochet. Isso já vinha lá da eleição de 2021, quando ele perdeu no segundo turno para Gabriel Boric. Mas agora ele fez um giro mais pronunciado, que eu insisto, é um giro mais retórico que de substância, na direção do centro.
Narrator/Reporter
Caste manteve a postura em seu discurso de vitória. Afirmou que tem profundas diferenças com o Jara, mas aos apoiadores pediu respeito ao adversário. Disse que vai ser o presidente de todos os chilenos e retomou o tom central de sua campanha nos temas mais sensíveis dessa eleição, segurança pública e imigração. O presidente atual, Gabriel Boric, recebeu o presidente eleito, José António Castro, e tiveram uma reunião de trabalho mesmo, com ministros de governo e a equipe de transição de Castro.
Demetrio Maioli
O que ajudou a produzir um resultado que era esperado. A vitória dele no segundo turno foi por uma margem muito grande.
Natuza Nery
Você citou uma das vezes em que o Caste disputou, e essa é a terceira vez que ele disputa. Na primeira, ele teve somente 8% dos votos.
Demetrio Maioli
Exato.
Natuza Nery
Que mudanças, tanto dele quanto do eleitorado, a gente consegue avaliar para explicar essa vitória de agora nessa terceira tentativa?
Demetrio Maioli
Veja, as mudanças dele existem, mas são de forma muito mais que de conteúdo, são de retórica muito mais do que de conteúdo. As mudanças principais são mudanças no cenário político. Na primeira candidatura de Kast, lá atrás, quando ele teve 8% dos votos, o Chile votava essencialmente no centro político, na centro-esquerda ou na centro-direita. Era um sistema político bastante estabilizado. O que aconteceu a partir de 2019, 2020, com as manifestações no Chile, é que o centro político foi praticamente destruído no país.
Narrator/Reporter
As manifestações começaram contra o aumento da passagem do metrô e mesmo com a revogação da medida, as manifestações continuaram. A população exige reformas sociais profundas diante da desigualdade crescente no país.
Demetrio Maioli
E essa destruição do centro político abriu espaço para os extremos políticos, para a esquerda e para a extrema direita de Caste. O eleitorado rejeitou Kast em 2021, no segundo turno, não porque queria Boric. Boric da esquerda teve 25% dos votos apenas no primeiro turno, mas porque o centro do eleitorado preferiu rejeitar José Antônio Kast. Dessa vez foi o contrário. O centro do eleitorado rejeitou a esquerda depois da experiência do governo de Boric, muito mal avaliado, com baixíssima popularidade. Então, o que mudou principalmente foi o cenário. Nessa mudança do cenário, é muito importante destacar que os temas centrais de campanha deixaram de ser temas de economia, de saúde, de educação, de segurança social, e passaram a ser temas essencialmente de segurança pública e imigração. É isso que deu a Vitória Caste.
Narrator/Reporter
O país continua sendo um dos mais seguros da América do Sul, mas viu a chegada do crime organizado internacional e o aumento da violência trazida por ele. Execuções, atentados, sequestros. Esse tipo de criminalidade assustou e preocupou a população. A taxa de homicídios no país passou de 4,5 por 100 mil habitantes em 2018 para 6 em 2024. A imigração foi outro tema dessa eleição. A população estrangeira dobrou entre 2017 e 2023, a maioria venezuelanos.
Natuza Nery
Demetrio, você explicava que o centro ruiu e que os extremos ocuparam esse espaço. O que você quer dizer com isso? O que são os extremos?
Demetrio Maioli
No caso, quando eu me referi à extrema-direita, à extrema-esquerda, eu estou falando apenas geometricamente, para distinguir dos partidos de centro-direita e de centro-esquerda, porque não é possível dizer que no Chile existam, exceto correntes muito minoritárias, existem correntes extremistas, antidemocráticas. O governo de esquerda de Gabriel Bollet foi um governo democrático. A própria Jeanette Jara, do Partido Comunista, candidata da esquerda nessas eleições, nunca colocou em questão a democracia chilena. E Kast também não coloca em questão a democracia chilena.
Narrator/Reporter
Não demorou nem uma hora e meia para que a candidata governista, Jeanette Rara, reconhecesse a derrota. Depois de ligar para o adversário, José Antônio Kast, Rara falou rapidamente a seus apoiadores. Disse que é na derrota que a convicção democrática tem que ser mais firme e que vai fazer uma oposição responsável.
Natuza Nery
Temos que cumprir com responsabilidade.
Demetrio Maioli
O caste é de extrema direita do ponto de vista geométrico, mas ao contrário, por exemplo, do bolsonarismo, ele não contesta as instituições democráticas chilenas. Então, ele será um governo da direita dura no Chile, mas não um governo disposto a arrombar os portões das instituições. Tem mais uma coisa que vale a pena destacar. O sistema político chileno tende a puxar os governantes para o centro. Isso porque nem Boric tinha, nem Kast terá maioria no Congresso. Então, a ação real desses governantes é limitada, ou até certo ponto é limitada. Boric caminhou para o centro durante o seu governo. E é possível imaginar que Kast também caminhe para o centro, sem deixar de ser um governo de direita.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Demetrio Maioli. Você diria que a eleição que marca a vitória de Caste é uma eleição com viés de rejeição? Ou seja, para não eleger a candidata que o Chile rejeitou, mas se elegeu o Caste? Você tem dois drives numa eleição, né? O drive da rejeição, não quero que aquele candidato ganhe, e o drive do desejo, eu quero muito eleger aquele candidato. Qual foi o drive da eleição do Chile?
Demetrio Maioli
Como tinha sido em 2021, como foi agora, como tem sido as eleições no Brasil, como foram as eleições na Argentina. Essa é uma marca das eleições na América Latina no último ciclo. São eleições da rejeição, principalmente. E aí não se trata da rejeição apenas da figura de Jeanette Jara, é a rejeição à política que foi conduzida durante o governo Boric. principalmente porque esse governo começou com a proposta de uma constituição que era uma constituição radicalmente identitária, era um programa da esquerda identitária transformado em constituição. E aquela constituição foi rejeitada em plebiscito por mais de 60% do eleitorado em 2022. Isso marcou o declínio. do governo Boric logo no seu primeiro ano. Ele nunca se recuperou daquele golpe.
Natuza Nery
Portanto, ele não foi um bom cabo eleitoral. É bom a gente explicar que no Chile não tem reeleição, então ele não poderia ter se candidatado. Agora, eu queria olhar para um outro lugar na região que é a Bolívia. Bom, a Bolívia também elegeu neste ano um presidente de direita depois de quase 20 anos de hegemonia da esquerda no poder.
Narrator/Reporter
A Bolívia começa um novo ciclo político com a vitória do candidato de centro-direita Rodrigo Pass. Ele venceu no segundo turno das eleições presidenciais. É a primeira vez em 20 anos que o país não vai ter um governo de esquerda.
Natuza Nery
Dá com dois casos para definir um padrão nas eleições latino-americanas? Você olha como, de que forma, para a região em termos eleitorais?
Demetrio Maioli
Não, é mais do que dois casos, Natuza. Na América do Sul, você pode falar nesses dois casos e pode também, embora não tenha sido tão recente, apontar a eleição de Millet na Argentina. Mas são outros casos. Se a gente ampliar para a América Central, que faz parte da América Latina, Nós vamos ver eleições em El Salvador, já não tão recentes, levando ao poder a extrema-direita, eleições levando ao poder a direita na Costa Rica, no Panamá e agora, estão se contando os votos ainda, mas os dois candidatos são da direita, os dois candidatos que podem vencer em Honduras.
Natuza Nery
Justamente partindo desse ponto, a direita vai começar, vai passar a governar seis dos doze países da América do Sul. Eu queria tentar entender um pouco esse movimento mais profundamente que você já nos relata. sobre essa divisão. O que é um elemento unificador para além da pauta da segurança pública? Porque a gente está vendo o crime organizado crescendo, aumentando de tamanho e a reação ao crime organizado é um discurso mais conservador do ponto de vista da segurança pública, que tende a beneficiar os candidatos da direita. Há outros elementos em comum desses países que estão elegendo mais candidatos da direita?
Demetrio Maioli
Veja, há de fato uma onda da direita, não só na América do Sul, como também na América Central. É o Salvador, Costa Rica, Panamá, agora Honduras, estão elegendo candidatos da direita ou da extrema direita. E aí, com a solitária exceção da Argentina, onde o tema da economia e da corrupção foi fundamental na vitória de Millet e na derrota dos peronistas, em todos os outros lugares o tema unificador é a segurança pública. Ou seja, o cenário latino-americano está muito marcado pela ação da criminalidade e do crime organizado, do narcotráfico, em muitos desses países. Então, as candidaturas de direita surfam essa onda. E uma outra onda, que não é tão geral, mas é importante, foi importante no Chile, que é a onda da imigração. O Chile tem mais de E aí 2 milhões de imigrantes, na sua população de 20 milhões, o que é importante, e tem cerca de 350 mil imigrantes ilegais, principalmente venezuelanos. Então, o peso da imigração no Chile também contribuiu, mas o fenômeno principal é o discurso da segurança pública. É esse discurso que leva a direita, em alguns casos a extrema direita, ao poder em tantos países.
Natuza Nery
Bom, então direita governa ou vão passar a governar? No Chile, direita com o Casti, Bolívia direita com Rodrigo Paz, ou centro-direita, Argentina, Milei, Equador, Daniel Noboa, Peru, José Geri ou Geri, Paraguai, Santiago Pena. E aí a esquerda? Brasil, com Lula, Colômbia, com Gustavo Petro, Guiana, com Ali, Suriname, com Jennifer Simmons, Uruguai, com Yamandu Orsi e Venezuela, Nicolás Maduro, com diferentes gradações aqui à esquerda, porque Maduro é um ditador.
Demetrio Maioli
É, mas Natuza, vamos fazer uma distinção. Enquanto a direita tem um discurso comum, que é esse discurso segurança pública, o discurso imigração, e um ponto de referência comum, que é Donald Trump, a esquerda na América Latina, diferente de outras épocas, não tem mais um discurso comum, nem algum ponto de referência comum. A esquerda no Brasil, Lula, nunca foi muito próxima da esquerda chilena de Boric. Também jamais se aproximou muito de Petro na Colômbia. Era próxima da Venezuela, de Maduro, até as eleições venezuelanas e a catástrofe social e econômica se aprofundar naquele país. Então, na verdade, você tem muitas esquerdas. pluralidade de esquerdas na América Latina, sem uma plataforma comum e sem uma referência compartilhada. À direita, não. Existe essa onda de... Com isso, eu não quero dizer que Caste seja muito parecido com o Milley, eles são bastante diferentes, mas eles compartilham um ponto de referência, Donald Trump.
Natuza Nery
Curioso isso que você nos conta, porque a direita superarticulada e a esquerda... Fragmentada. Exatamente. Superfragmentada. Vamos jogar então um personagem importante a sua nova política. Estou falando de Donald Trump e uma espécie de reedição da doutrina Monroe, impactando as políticas internas aqui na América Latina, ou seja, intervenção a partir dos Estados Unidos nos assuntos de política interna dos países latino-americanos.
Demetrio Maioli
Pois é, veja, Donald Trump não é responsável pela vitória desses candidatos da direita. Não vamos fazer confusão, em cada país a direita chegou ao poder em função de cenários singulares, os cenários desses países. Mas Donald Trump aparece como o farol para todos esses candidatos e agora governantes de direita. No que que eles vão apoiar Donald Trump? Eles vão apoiar Donald Trump na sua tentativa de intervenção para retirar o governo Maduro na Venezuela, nisso vai haver uma frente comum, vão se mirar no discurso de Trump para falar de segurança pública, para falar de imigração e vão procurar vantagens econômicas e comerciais das suas relações com Donald Trump. Millet já conseguiu. na forma de tarifas muito mais baixas para a Argentina. É possível que Caste consiga isso no Chile. A política tarifária de Trump é fortemente influenciada pelas suas inclinações ideológicas. Donald Trump é um governo que se interessa pela América Latina, Talvez no mau sentido, mas ao contrário dos últimos muitos governos dos Estados Unidos, é um governo que tem olhos voltados para a América Latina e tem um secretário de Estado, o Marco Rubio, muito engajado com a América Latina e com a direita na América Latina.
Narrator/Reporter
A estratégia de segurança nacional apresentada hoje pelo governo Trump. Um documento que tem como horizonte a ascensão da China, mas que no meio do caminho aponta a América Latina como região prioritária para os Estados Unidos numa retomada da doutrina Morrill. A doutrina leva esse nome porque foi apresentada ao Congresso americano há 200 anos pelo então presidente James Morrill. Ali, a ideia era repelir a ascendência da Europa sobre o continente americano como um todo. Qualquer avanço nesse sentido seria considerado um ataque aos Estados Unidos. Lembrando que muitos países da Europa colonizaram a América Latina. A doutrina Monroe teve altos e baixos ao longo da história, mas nunca desapareceu e ainda está viva na memória a sua aplicação nos anos 60 e 70, quando os Estados Unidos, a pretexto de conter a influência da União Soviética, patrocinaram golpes e ditaduras na América Latina.
Demetrio Maioli
Então, o que se pode esperar são acordos comerciais, econômicos desses países com Donald Trump nos Estados Unidos, a adoção do discurso americano sobre migração e segurança pública e um apoio integral às ações dos Estados Unidos contra o regime de Maduro na Venezuela.
Natuza Nery
Para estressar o argumento eu vou fazer uma simplificação, tá? Se a gente está tratando, neste episódio, de uma articulação maior da direita com base num discurso muito parecido em termos de segurança pública, Se a gente está vendo a direita aumentando de tamanho em termos de pessoas governadas na América Latina, quando a gente olha para a eleição brasileira, significa que um candidato de direita tem muito mais chance de vencer a eleição em razão do discurso de segurança pública, porque a gente sabe que esse é um discurso muito comum na direita, não que a direita consiga dar conta dos problemas de segurança pública de maneira exemplar, senão o Rio seria uma Suíça, mas de qualquer maneira isso aponta para uma tendência, o que a gente está vendo na região tem mais chance de acontecer aqui no Brasil, Untaria.
Demetrio Maioli
Teria. E eu estou usando o condicional devido às singularidades do Brasil. Em condições normais de temperatura e pressão, tudo isso seria verdade. A onda que leva a direita ao poder na América Latina, não teria por que não se manifestar no Brasil. Nós não temos um problema sério de imigração, de imigração ilegal, nós não temos esse problema, pelo menos num nível sério, mas nós temos um problema seríssimo de segurança pública, de ação do narcotráfico, de ação do crime organizado. E esse vai ser um discurso da direita nas eleições do ano que vem. Qual é a diferença? E por que é difícil imaginar que o Brasil siga o mesmo caminho? A diferença é que a extrema-direita se desmoralizou no Brasil com a sua tentativa de golpe de Estado, um processo contra Bolsonaro e os seus asseclas, com a condenação dos golpistas, de um lado. E do outro lado, existe uma esquerda no Brasil que tem raízes populares profundas. Eu falo menos do PT, e mais do lulismo. As raízes populares profundas do lulismo fazem com que a esquerda não seja sempre uma candidata à vitória no segundo turno das eleições. No Brasil, a esquerda é favorita. Ou seja, o que pode acontecer é que, ao contrário de tantos países da América Latina, a esquerda volte a vencer em 2026. Mas isso não é certo. Isso não é certo porque o discurso da segurança pública terá um peso, como já tem um peso muito grande também no Brasil.
Natuza Nery
Demetrio Maioli, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no assunto. Volte outras vezes.
Demetrio Maioli
Conversar com você é sempre um prazer imenso, Natura.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catelan. Eu sou Ana Tuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Date: 16/12/2025
Host: Natuza Nery
Guest: Demetrio Maioli (Sociólogo, Doutor em Geografia Humana pela USP, comentarista da GloboNews)
In this episode, host Natuza Nery discusses the landslide victory of José Antonio Kast, a right-wing candidate, in the Chilean presidential election. The conversation with sociologist and political analyst Demetrio Maioli explores the factors behind this shift, the fragmentation and realignment of political forces in South America, and the broader regional trend of the right attaining executive office across Latin America. The discussion provides context, comparative insights, and predictions relevant to ongoing political transformations in the region.
Election night & Immediate Reactions:
“Pouco antes das sete e meia da noite, a candidata adversária, Jeanette Jara, ligou a Caste, reconhecendo a vitória do adversário.” (00:30)
Kast’s Campaign & Shift in Rhetoric:
"Ele parou de elogiar Pinochet... Agora ele fez um giro mais pronunciado, que eu insisto, é um giro mais retórico que de substância, na direção do centro." (04:15)
Security & Immigration as Central Issues:
Erosion of Centrism & Polarization:
“O centro político foi praticamente destruído no país.” (05:59)
Opportunities for Extremes:
"Eu estou falando apenas geometricamente... não é possível dizer que no Chile existam... correntes extremistas, antidemocráticas." (08:58)
“São eleições da rejeição, principalmente... é a rejeição à política que foi conduzida durante o governo Boric." (11:52)
Recent Shifts Beyond Chile:
"Há de fato uma onda da direita, não só na América do Sul, como também na América Central. E aí, com a solitária exceção da Argentina... em todos os outros lugares o tema unificador é a segurança pública." (15:17)
List of Countries by Governing Alignment:
The Right:
“À direita... eles compartilham um ponto de referência, Donald Trump.” (17:36)
The Left:
Natuza: “Curioso isso que você nos conta, porque a direita superarticulada e a esquerda... Fragmentada.”
Demetrio: “Exatamente. Superfragmentada.” (19:01)
Trump as a Beacon for the Latin American Right:
“Donald Trump aparece como o farol para todos esses candidatos e agora governantes de direita.” (19:37)
Resurgence of Monroe Doctrine:
“A política tarifária de Trump é fortemente influenciada pelas suas inclinações ideológicas... tem olhos voltados para a América Latina.” (20:30)
“Nós temos um problema seríssimo de segurança pública... esse vai ser um discurso da direita nas eleições do ano que vem. Agora... as raízes populares profundas do lulismo fazem com que a esquerda não seja sempre uma candidata à vitória no segundo turno das eleições. No Brasil, a esquerda é favorita. Ou seja... a esquerda volte a vencer em 2026. Mas isso não é certo... o discurso da segurança pública terá um peso, como já tem um peso muito grande também no Brasil.” (23:31)
On Kast’s transformation:
"Ele parou de elogiar Pinochet... Agora ele fez um giro mais pronunciado, que eu insisto, é um giro mais retórico que de substância, na direção do centro." (Demetrio Maioli, 04:15)
On fragmentation vs. unity:
"À direita... eles compartilham um ponto de referência, Donald Trump." (Demetrio Maioli, 17:36)
Natuza: “Curioso isso que você nos conta, porque a direita superarticulada e a esquerda... Fragmentada.”
Demetrio: “Exatamente. Superfragmentada.” (19:01)
On the persistence of US influence:
"A política tarifária de Trump é fortemente influenciada pelas suas inclinações ideológicas... tem olhos voltados para a América Latina." (Demetrio Maioli, 20:30)
On Latin America’s election mood:
"São eleições da rejeição, principalmente..." (Demetrio Maioli, 11:52)
This episode provides a nuanced look at the decisive rightward shift in Chile and its place in the Latin American context. The analysis illuminates both national and regional trends—security and immigration as drivers, the collapse of the political center, and the increasing importance of US policies under Trump. The conversation suggests Brazil’s own political future may be influenced by these factors, while also shaped by its unique recent history.
Overall Tone:
Conversational, analytically rigorous, and accessible—balancing concrete data, regional comparison, and political theory, with a focus on what these shifts mean for listeners in Brazil and the broader Latin American context.