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Um vídeo que se tornou viral na internet levantou um debate sobre a exposição e a exploração de crianças e adolescentes nas plataformas digitais.
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O vídeo denuncia como a busca por dinheiro, por meio da chamada monetização nas plataformas digitais e o funcionamento dos algoritmos das redes sociais contribuem para crimes contra crianças e adolescentes. Foi preciso a manifestação de um fenômeno da internet para amplificar um problema da internet. E um problema que não é especialmente novo.
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O vídeo foi feito por Felipe Bressane.
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Pereira, conhecido pelo apelido Felca.
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Ele ficou famoso por suas reações a conteúdos e produtos.
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O influenciador mostrou como imagens de crianças e adolescentes são usadas por abusadores nas redes sociais. E também abordou outra questão, quando esse tipo de conteúdo é incentivado por um adulto que lucra, e muito, com as visualizações. Felca apontou um nome.
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Ítalo Santos.
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O perfil dele foi retirado do ar.
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Depois da denúncia, mas antes, eram 17 milhões de pessoas que acompanhavam as postagens.
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Ítalo já era investigado antes de o vídeo de Felca viralizar. Ele foi preso na sexta-feira, 15 de agosto.
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A gente já tem a confirmação da.
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Prisão do influenciador Ítalo, aquele que foi denunciado no vídeo do Felca. Essa prisão foi executada, já foi concluída, e teve a participação do Ministério Público do Gaeco, em conjunto com o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Civil da Paraíba e também teve a participação do Laboratório de Operações Cibernéticas da Diretoria de Integração e de Inteligência de OPE e.
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Claro, Secretaria Nacional de justiça também, ligada.
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Ao Ministério da Justiça. Uma força-tarefa que estava na investigação do influenciador em relação a crimes de tráfico humano e exploração sexual infantil. A defesa do influenciador nega qualquer crime e diz que vai provar a inocência dele.
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Ainda que as questões trazidas por Felca no vídeo já fossem conhecidas, foi na voz do influenciador que elas furaram bolhas, na sociedade e também em Brasília.
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O assunto não é novo nem no Congresso, mas foi o vídeo do influenciador Felca que acabou pressionando a Câmara a agir. Hoje, na Câmara, há 61 projetos que tratam do assunto. 35 foram protocolados desde a publicação do vídeo...
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Dessas dezenas de projetos, um está mais avançado.
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Esse projeto prevê, entre outros pontos, que as plataformas removam conteúdos ofensivos sem necessidade de ordem judicial, impõe controle sobre publicidade infantil e que crianças só tenham perfil se vinculado ao dos pais. As punições para descumprimento da lei vão de multa até a proibição das atividades das plataformas que, pelo texto, também podem ser responsabilizadas civil e criminalmente.
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E em paralelo à mobilização no Congresso, o tema segue mobilizando discussões.
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A gente proteger das crianças e dos adolescentes no ambiente virtual, a gente precisa de um esforço de toda a sociedade, do poder público, das big techs e das famílias E aí eu queria deixar muito claro aqui que essa discussão, ela precisa ser super partidária, não importa qual a orientação política de cada um essa urgência da proteção das crianças e dos adolescentes no ambiente virtual, ela não pode ser sequestrada pela polarização política. Por quê? Porque é interesse de todo mundo que as crianças e os adolescentes não estejam sujeitos à violência, à mortes, à instigação de automutilação, a serem cooptados por criminosos, a serem vítimas de predadores sexuais. E é isso que está acontecendo hoje em dia. Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje com Vítor.
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Boedian é... Adultização de crianças e adolescentes, pauta pública e política. Neste episódio, o converso com Laís Peretto, diretora executiva da Childhood Brasil, uma organização social que atua no combate ao abuso à exploração sexual de crianças e adolescentes há mais de 25 anos. E com a psicóloga Nay Macedo, especialista em proteção infanto-juvenil na era digital. Segunda-feira, 18 de agosto. Laís, desde que o vídeo do Felca sobre adultização viralizou, a gente viu uma enxurrada de novos projetos sobre o tema chegar ao Congresso. Você já acompanha de perto as discussões legislativas sobre os direitos de crianças e adolescentes há algum tempo. Então, de forma geral, como você vê essa mobilização intensa em tão pouco tempo? Ajuda ou atrapalha?
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Pois é, Vitor, quando o vídeo do Helca viralizou, para nós, da sociedade civil, que já trabalhávamos com advocas na causa da proteção à infância, a gente viu a onda com um certo otimismo, porque ele furou muitas bolhas, chegou a lugares que nós, como técnicos da sociedade civil, nunca conseguiríamos chegar. Então, ele conseguiu alertar o país todo sobre um risco que as nossas crianças e adolescentes estão expostas, que a gente nunca conseguiu.
B
Era um vídeo que talvez seja inocente, mas ele caiu na malha do algoritmo P. Então, ele foi para esses pedófilos que todos eles têm um algoritmo parecido com esse, onde eles condicionam para receber esse mesmo vídeo, né? E é assustador porque eles pegam conteúdo que é inocente e transforma num ponto de troca mesmo, olha.
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No início da semana passada, com o início dos trabalhos parlamentares, a volta do processo, nós estávamos aguardando a votação de um PL que a gente já estava trabalhando há bastante tempo, na verdade, um PL que foi do senador Alessandro Vieira, que já tinha passado por comissões lá no Senado, já tinha sido aprovado no Senado, estava tramitando já há três anos e estava agora na Câmara para ser aprovado. O Hugo Motta ia colocar, ia pautar urgência nessa semana passada. um pouco antes da viralização do vídeo, né? Então, parecia o momento certo, né? Para que o Brasil, pelo menos conhecesse, né? Conhecendo os riscos das crianças e adolescentes, apoiassem esse projeto. Mas assim como essa comoção nacional, houve também essa enxurrada de projetos de lei. Então, além desse projeto que já estava em construção, muito maduro, um texto robusto, chegaram lá mais de 30 projetos, além dos que já tinham sido colocados, que estavam somando. A gente esteve na quarta-feira lá com o presidente da Câmara, E ele contou pra gente que já tinha na palca dele, lá no pedido, pra começar a avaliar 61 PL. É um momento em que todo mundo quer ter um certo protagonismo, né? E a proteção da infância, ela não tem espectro político. Então, assim, é uma coisa que realmente ganhou um vulto inimaginável. Agora, e o Hugo Motta se viu nessa questão de, em dias, tá com uma quantidade de PLs nessa temática de adultização, de regularização de redes. que, de certa forma, num segundo momento, trouxe pra gente um desafio maior, porque pareceu que a gente ia retroardir no PL 26 e 28, que já estava até o avançado.
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Acho que esse texto do Alessandro Vieira, ele é bom, ele lida com esse assunto de três maneiras. Ele obriga as plataformas a agirem preventivamente para retirar conteúdo de exploração sexual infantil.
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Depois, ela obriga as plataformas, quando elas.
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Se depararem com esse conteúdo, a avisar as autoridades e reter essas provas digitais para investigação. E, finalmente, ela cria mecanismos de notificação e retirada, ou seja, vai ter, se algum usuário se deparar com esse conteúdo, ele vai poder relatar o problema e a plataforma tem que tirar. Então, tem dispositivos bem desenhados, de acordo com modelos internacionais disponíveis.
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Então, foi o nosso medo era que isso se misturasse. E foi anunciado, ele tinha anunciado que haveria uma comissão geral e um grupo de trabalhos aí para começar as discussões de todos esses PLs, mas a gente se mobilizou de novo todas essas organizações e membros de academia, médicos, enfim, quem já estava ajudando na construção desse PL e marcamos essa audiência com ele lá na quarta-feira, fomos para Brasília. E ele foi super transparente com a gente, estava com esse dilema, se ele colocava o PL 2628, que já estava muito maduro, nessa comissão onde se ia avaliar todos esses projetos, que para o nosso entender seria um retrocesso, ou se ele mantinha o plano original, de votar a urgência do projeto, e depois o mérito, possivelmente, logo em subida. Então, nós fomos muito cachativos, assim, e eu acho que ele também não tinha a ciência da maturidade desse projeto e do cuidado com o qual ele foi construído. Então, no geral, agora ele já publicou ontem que vai votar a urgência, Então, agora nós estamos otimistas, acho que a gente pode ter um belo legado aí pela frente. E isso não deixa de colocar em perspectiva que todos os outros projetos de lei também podem ter coisas muito boas e que devem ser avaliados. Então, a comissão continua acontecendo, mas ela vai ser avaliada, esses projetos vão ser avaliados de uma forma separada do Projeto de Lei 2328.
B
Esse projeto que você menciona, ele foi apresentado em 2022, portanto ainda no governo passado, ele então vem aí há três anos sendo discutido e ele é o que está mais avançado, ele passou já pelo Senado e está tramitando na Câmara dos Deputados. Então, explica pra gente, em linha geral, o que é esse projeto, como ele pretende aumentar a segurança das crianças no ambiente digital.
A
Eu resumiria em, talvez, cinco grandes pilares. O primeiro é a obrigação das plataformas digitais a criar produtos e serviços pensando primeiramente na segurança dos crianças e adolescentes. E quando a gente fala em plataformas digitais, é um espectro mais amplo também, redes sociais, jogos eletrônicos, enfim, todas essas aplicações que podem ter no ambiente online. O segundo grande pilar é a exigência de transparências contra os algoritmos e as recomendações. evitando que os conteúdos, não só perigosos e danosos, mas criminosos mesmo, sejam mostrados à criança e adolescente. Então isso aqui é um extremo cuidado importantíssimo que a gente investe bastante aqui no processo de lei. O terceiro pilar é a obriviatoriedade de remoção rápida desses conteúdos ilegais ou prejudiciais para esse público específico, para crianças e adolescentes. O quarto pilar seria a proibição do uso de dados de crianças e adolescentes para aqueles comerciais, que é o que a gente chama de perfilamento, né? Reforçando, assim, mecanismos de segurança para que eles não tenham acesso a conteúdos que são extremamente danosos. E também se reforça o acompanhamento parental, claro. E, por fim, eu diria que é um quinto pilar, e nós da Child somos muito afeitos a esse pilar, que é o estabelecimento de mecanismos de denúncia e fiscalização. Eu diria que são essas cinco grandes linhas gerais.
B
Por que agora, na Câmara, alguns parlamentares estão apontando problemas relacionados à liberdade de expressão?
A
Eu realmente acredito que não leram o projeto de lei, talvez até por essa enxurrada de novos projetos que apareceram, ou podem estar confundindo com aquele antigo PL 2630 lá das fake news, porque não é um PL sobre censura ou regulação de conteúdo, é exclusivamente sobre a proteção de crianças e adolescentes. Muito necessário separar essas coisas para que não se confunda esse PL antigo das fake news com esse 2628, que nós até carinhosamente já apelidamos de PL-PELCA. O PL-PELCA é focado exclusivamente nessa proteção de crianças e adolescentes e tem um texto muito técnico. Para compreender em quais situações as plataformas devem remover o conteúdo sem autorização judicial, eu recomendo a esses parlamentares, ou até o público em geral que tem essa curiosidade, a leitura exclusiva do artigo 6º do PL. que tem uma lista do rol de conteúdos que podem ser, que devem ter sido removidos diretamente, tem autorização judicial, que quando eles forem prováveis de serem afetados por crianças e adolescentes. E eu tenho certeza que a grande maioria vai concordar que esse artigo garante que o foco seja a proteção das crianças e adolescentes, porque a gente está falando aqui de exploração e abuso sexual, violência física, cyberbullying, assédio, conteúdo pornográfico, incentivo a comportamento de vício, que prejudique saúde mental, como depressão, transtornos alimentares e até automutilação. Então, são coisas que elas são muito óbvias, sabe? Que são muito focadas na proteção, então esse PL é taxativo. Hoje, por exemplo, se uma plataforma equivocadamente derruba um conteúdo, porque hoje se usa muita inteligência artificial, não tem redutor, tem uma equipe muito rígida de moderação, o usuário não tem nem a quem recorrer se foi um equívoco, não tem o que fazer, não tem pra quem reclamar. E nesse IPL, a gente coloca lá uma cláusula, o artigo 29, o que vai ser mais específico, onde em caso de conteúdos que são derrubados indevidamente, o usuário tem o direito de contestar essa decisão.
B
Esse é um fenômeno que acontece não só no Brasil, o mundo inteiro está passando por isso. Então, como você trabalha nessa área, eu queria saber se você tem algum exemplo de legislação fora do país que vem sendo feita, vem sendo criada também para endereçar, para enfrentar esse desafio da exposição das crianças na internet.
A
Tem alguns países que estão notadamente à frente, principalmente na Europa, França, Suécia. A Suécia, a nossa organização, que é fundada pela Rainha Silva da Suécia, já acompanha a maturidade da regulamentação lá. Mas tem outros países europeus também, como a Inglaterra. E países em desenvolvimento, a própria Indonésia, que colou na legislação britânica, também está à frente. Mas eu queria ressaltar, Vitor, é que o exemplo dos Estados Unidos, onde recentemente a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online virou uma prioridade nacional. Incrivelmente, republicanos e democratas deixaram as diferenças de lado para apoiar os projetos conjuntos, como são dois especificamente, o Kids Online State Act, que foi aprovado no ano passado no Senado, está na Câmara agora, mas já tem um outro projeto que chama Take Down Act, foi aprovado na Câmara e no Senado em 2025, já foi sancionado pelo presidente Trump, até agora em 2025 mesmo. E foram projetos criados para combater abusos, exploração e todos os riscos causados pelas tecnologias de redes digitais, redes sociais, etc. Então, eu acho que o Brasil, tem agora a chance de aprovar um marco de progressão online importantíssimo. Esse projeto de lei 2328, que está em discussão desde 2022, passou já por diversas audiências públicas, escutas de especialistas, como eu disse, médicos, educadores, empresas, inclusive as Big Tags, a sociedade civil, a gente tem uma chance linda de ter um texto que estabelece normas de proteção à infância e adolescência, que a gente até já tá chamando de ECA digital, né? Porque ele realmente busca regulamentar e sem fugir, assim, agregando fatores de proteção ao ECA e à própria Constituição, tá? Tudo em consonância.
B
Laís, geralmente quando a gente enfrenta um problema, a gente encontra soluções técnicas e soluções adaptativas. As técnicas, o que a gente está vendo em discussão, é um projeto de lei, criar uma lei para todo mundo obedecer a lei, que é o desejável. Agora, uma solução adaptativa seria também a gente transformar a nossa forma como sociedade de lidar com o assunto. E aqui eu queria colocar essa dúvida sobre Como nós, como sociedade, devemos também nos tornar responsáveis pela segurança das crianças no ambiente digital? E aqui incluindo pais, mães, escolas e os próprios jovens, como é que eles podem se conscientizar? Porque muitos jovens sonham em ser influenciadores, como o Felca. mas nem todos vão ter o mesmo senso de responsabilidade. E a gente viu aí um influenciador sendo preso porque usava justamente esse desejo dos jovens de se expor e colocava eles sendo alvos de crimes.
A
A Polícia de São Paulo prendeu o influenciador Ítalo Santos e o marido dele, Israel Vicente, na investigação de tráfico de pessoas e exploração sexual infantil. A Justiça da Paraíba tinha decretado a prisão preventiva dos dois.
B
O influenciador e o marido estavam nesta casa em Carapicuíba, na Grande São Paulo. O policial pediu que os dois se identificassem.
A
Seu nome? Ítalo José Santos Silva. Bom dia, seu nome? Israel Nathan Vicente. Vocês estão sendo presos pelo DEIC, aqui de São Paulo. Mandado de prisão da Paraíba.
B
Segundo o delegado que fez as prisões, os dois estariam se preparando para fugir do Brasil. O Ministério Público da Paraíba investiga Ítalo, Santos e Israel Vicente desde o ano passado por suspeita de exploração sexual, trabalho infantil, artístico irregular e tráfico de pessoas. O influenciador tem mais de 20 milhões de seguidores. Os vídeos divulgados por ele nas redes sociais mostram crianças e adolescentes em danças eróticas, com pouca roupa. Segundo a investigação, as imagens eram monetizadas e ainda serviam de chamariz para rifas e sorteios na internet. A defesa de Italo Santos e do marido afirmou que os dois vieram para São Paulo de férias, que são inocentes e que vai ingressar com pedido de habeas corpus para libertar os clientes.
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O caso de Italo Santos ganhou repercussão depois da denúncia do youtuber Felca sobre vídeos que promovem a adultização de crianças e adolescentes nas redes sociais.
B
Então, eu queria entender de que forma que a sociedade pode ampliar a própria consciência e se adaptar para esse mundo para se proteger e proteger nossas crianças.
A
Eu acho que é começar pela conscientização de como você iniciou a sua pergunta e de que o papel de profissão das crianças e adolescentes é de toda a sociedade. Não adianta a gente deixar a incumbência só para os pais, que muitas vezes são menos digitalizados do que os filhos, têm jornadas duplas, triplas, não sabem implementar os mecanismos de de controle parental. O perigo de expor fotos, principalmente dos filhos, nas redes sociais aumenta junto com o avanço da inteligência artificial. Qualquer foto que você publica na internet, nas redes sociais, pode cair nas mãos de pessoas mal intencionadas. Só que, na maioria das vezes, as imagens falsas expõem as pessoas a situações constrangedoras, humilhantes, devastadoras e podem até alimentar uma rede de pedofilia.
B
Uma ferramenta como essa, você pode pegar só o rosto de uma criança e transmutar num corpo desnudo, botar em posições.
A
Sexualizadas, simplesmente parecer que é realmente uma imagem real. E a gente também não pode deixar só para escola, a gente também não pode deixar só para o Estado, muito menos deixar só para os crianças e adolescentes que não estão ainda formados para discernir. É um papel coletivo. O vídeo do youtuber Felca já alcançou milhões de visualizações desde que foi postado nas redes sociais. E esse levantamento a respeito do Disque 100, logo depois dessa postagem, desse vídeo, houve um aumento muito significativo dessas denúncias do Disque 100. Para vocês terem uma dimensão, até dia 4 de agosto haviam sido registradas cinco denúncias. Até o dia 10, 326 denúncias. E nesse sentido, eu acho que os elegevadores estavam muito recolhidos, estavam tímidos. Então, eu acho que é isso. Cada um tem o seu papel, mas a gente não vai conseguir fazer nada sozinho, a gente precisa de um coletivo.
B
Laís, muito obrigado pela sua participação. Volte outras vezes aqui pra falar com a gente no assunto.
A
Muito obrigada.
B
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com a Naima cedo.
A
Movimento.
B
Led.Com.Br inscrições prorrogadas até dia 10 de setembro. Nai, eu estava conversando com a Laís sobre como o Congresso está debatendo projetos que envolvem a proteção da criança, do adolescente no ambiente digital. Um tema que ganhou muito fôlego na sociedade com o vídeo do Felca sobre adultização. Bom, agora com você que é psicóloga, eu quero entender o que envolve esse termo. Você pode explicar, dar exemplos concretos do que é a adultização de crianças e adolescentes?
C
Adultização é quando uma criança ou adolescente são colocados em papéis, em funções, em responsabilidades que são mais apropriadas a fases adultas do que a fases relacionadas à infância ou adolescência, né? Então, podem ser linguagens, podem ser comportamentos, podem ser acesso a conteúdos, pode ser atividades que não estejam adequadas à infância e que dificultam que a criança se compreenda dentro do universo infantil, né? Então, nas formas mais sutis, às vezes é um pouco mais difícil da gente enxergar porque elas são mais invisíveis, né? É quando a criança consome conteúdos que não são adequados pra idade dela, e podem ser desde as redes sociais que a gente acaba ficando mais habituado a perceber, mas podem ser filmes, séries, jogos, músicas, ou podem ser, por exemplo, quando elas estão submetidas a linguagens de um teor que é inadequado pra sua idade, pra sua faixa etária. Pode ser cobrança excessiva, pode ser a exploração pra tarefas que são mais abusivas, ou pra tarefas que sejam mais exigentes, como passar menos tempo brincando, estudando. Então, de formas mais expressivas, a gente consegue visualizar essas atividades ligadas à erotização e à sexualização, mas elas podem estar em outras práticas e comportamentos que a gente costuma ver com menos frequência.
B
Focando agora nessa perspectiva mais grave da erotização de crianças e adolescentes, eu queria entender como aumentou nos últimos anos a preocupação da sociedade sobre isso, né? Como que essa mudança se refletiu na produção cultural, seja na TV, nos livros e agora na internet.
C
Historicamente, a erotização precoce foi muito naturalizada na nossa sociedade, especialmente na sociedade brasileira, pelas culturas de massas. Então, na TV, no cinema, nas revistas, a gente viu muitas personagens adolescentes e até infantis retratadas de forma sexualizada, quase sempre interpretadas até por atrizes adultas, mas que tinham alguma estética infantil retratada. Então, aos poucos, a regulamentação dessas plataformas, do audiovisual sobretudo, foram ajudando a gente a perceber mais mudanças. Então, a classificação indicativa foi ficando mais rigorosa, os horários de exibição foram ficando mais estritos, a proibição de determinadas cenas ou da performance das crianças em algumas produções. Só que com a internet, esse controle praticamente desapareceu. Hoje qualquer criança pode ser exposta ou pode se expor a esse tipo de conteúdo sem nenhum tipo de filtro e qualquer adulto pode acessar essas crianças também através da internet. Hoje em dia qualquer pessoa pode produzir os próprios conteúdos e colocar isso na internet. Os algoritmos são aqueles que vão distribuir essas imagens e aí eles frequentemente vão presentear aquelas que são mais viralizáveis, que engajam mais. E a gente já tem muitas evidências demonstrando que o que engaja mais tem a ver com crianças e adolescentes e até muitas vezes em contextos erotizados.
B
Certo. Dá pra dizer que existe uma consequência no comportamento, na personalidade e também no desenvolvimento cognitivo dessas crianças expostas à adultização?
C
Sim, Victor, seguramente dá pra gente dizer que a adultização vai deixar marcas profundas nessas crianças e adolescentes que são atravessados por esse contexto que é social, que é racial muitas vezes, e até de sexo, né? No comportamento a gente pode falar de crianças que podem começar a imitar esses gestos mais sexualizados, erotizados, a linguagem, o vocabulário que você vê que não é próprio da infância, podem reproduzir falas que são mais agressivas ou violentas, que estão muito além até da sua compreensão, que às vezes repetem sem entender exatamente o que estão dizendo. Na questão da personalidade, a gente vê muito frequentemente relatos de meninas, especialmente meninas negras e de famílias mais vulneráveis, que assumem cuidado com os irmãos precocemente, que fazem tarefas domésticas passando menos tempo estudando ou brincando. Muitas são tratadas até com menos respeito, ou mais pressão, como alguns meninos, né, que são colocados em tarefas mais ligadas a comportamentos violentos, a dominação, né. Então, no desenvolvimento cognitivo a gente pode falar ainda sobre o cérebro dessas crianças e adolescentes, que tá plenamente imaturo, né, que ainda está em desenvolvimento, e que é treinado pra reagir o tempo inteiro nesse modo de sobrevivência.
B
A Fundação Abrinque, que há 35 anos desenvolve projetos de proteção à infância, é uma das primeiras entidades do país a alertar para os prejuízos que a adultização traz às crianças.
A
Propensão a ter problemas psicológicos, por exemplo.
C
Como crises de ansiedade, comportamento até suicida.
A
Numa fase mais da adolescência, depressão, enfim.
C
Então ela acaba tendo impactos bem profundos.
A
E duradouros dentro desse processo de desenvolvimento.
C
Essa exposição à adultização precoce vai colocá-los nesse modo de sobrevivência, muito mais buscando a submissão ou o poder, em vez do diálogo, da cooperação, da fraternidade, que são características muito mais ligadas à infância do que a outras fases.
B
Tem um outro aspecto, um outro conceito que também tá ganhando tração é o sharingting, né? É um termo anglófono, mas quer dizer os pais que compartilham imagens dos próprios filhos nas redes sociais. A gente vê aí alguns pais mais preocupados hoje colocando aquele carimbo lá do emoji no rosto do filho. O que as pesquisas acadêmicas dizem sobre essa prática de exposição indiscriminada das imagens de crianças que não têm controle sobre a sua imagem porque estão sendo divulgadas pelos próprios pais?
C
Sim, Victor. O sharing team é esse termo que foi cunhado para definir quando os pais ou responsáveis compartilham informações relacionadas às crianças e adolescentes. Frequentemente, a gente tem a tendência a achar que isso está relacionado somente às imagens, mas tanto podem ser as imagens, fotos e vídeos, como podem ser informações pessoais dos filhos. Então, às vezes, eles retratam desde o signo da criança, a personalidade da criança, o humor da criança, se ela estava se sentindo bem, se ela estava se sentindo mal, se ela teve uma crise nervosa, ou dados como o uniforme, a rotina. Então, são muitas informações que vão sendo passadas e frequentemente vão ficando de posse dessas plataformas. E a gente tem muitas evidências sobre os riscos dessa prática. Por exemplo, tem um estudo da Universidade Oberta da Cataluña, junto com a Polícia Nacional da Espanha, que demonstrou que até 72% do material de abuso sexual infantil que foi apreendido a partir da internet com predadores, teve origem em postagens familiares, das suas famílias, das suas escolas, das empresas. Então, muitas vezes, essas fotos que são aparentemente inocentes são fontes de coleta desses dados, dessas imagens, dessas informações pessoais.
A
Para especialistas, isso ocorre, por exemplo, quando há publicação, até mesmo por parte de pessoas da família, de imagens de cunho erótico ou sexualizado dos menores, o que configura crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. Pode servir como uma isca para pretensa.
B
Divulgação de conteúdo pornográfico.
A
Às vezes é divulgado uma foto de uma criança de biquíni, que por si só não está nessa situação de erotização, de situação sexual, mas aquilo chama eventuais.
B
Violadores do direito para poder adquirir um.
A
Conteúdo que pode estar por trás daquilo. Esse seria o grande risco.
C
Então, a gente tem muitas evidências hoje pra dizer que, por exemplo, imagens de crianças que tenham menos roupa, e mesmo que essas imagens não sejam sexualizadas, como no caso dessa pesquisa que eu acabei de trazer, essa escala que a universidade apresentou, a maioria dessas imagens estava na escala zero, ou seja, não tinha nenhum nível de erotização. Então, ao passo que a gente tem pesquisas demonstrando que quanto menos roupa uma criança possa apresentar na internet nessas imagens, maior é a exposição e maior é a tendência de viralização, mesmo que as imagens não tenham nenhum nível de erotização, elas também são de interesses de predadores e de conteúdos que possam se tornar ferramentas pra violência.
B
Então, o que você está dizendo aqui é que não é só a responsabilidade do algoritmo das redes sociais, mas os próprios usuários, produtores de conteúdo também devem ficar atentos, ter consciência das consequências da postagem que fazem, é isso?
C
Sim, é o que os especialistas têm chamado de conteúdo autogerado, né? Então, a gente percebe que hoje, frequentemente, boa parte desses conteúdos que vão parar em roubo de dados, em roubo de privacidade, vão parar em contas falsas, vão parar em golpes ou são usados para fraudes e até para chantagem e extorsão ou para grupos de exploração sexual, Frequentemente, eles surgem das imagens que nós mesmos compartilhamos, porque são gratuitas, são abertas e são fartas, né? É um conteúdo autogerado, ou seja, os usuários geram essas imagens e elas são facilmente baixadas, feitas download, printadas, então é muito simples que esses criminosos possam acessar essas imagens.
B
Então qual é a recomendação? Porque muitas vezes os pais postam imagens dos filhos de maneira inocente porque tem os avós morando em outra cidade ou porque acha alguma atitude da criança engraçada e quer compartilhar com os amigos e esquece que a internet acaba sendo exposta aí para até quem não se conhece. Qual é a recomendação de comportamento dos pais para proteger os filhos?
C
Sim, grande parte dos adultos familiares ou escolas ou amigos vão compartilhar essas imagens com boas intenções. O problema é que o algoritmo não diferencia o que é afeto do que é exploração. Ele só vê o engajamento. Então, ele distribui mais para quem interage mais, inclusive para predadores e violadores. Como a gente pôde ver nesses vídeos que viralizaram nas últimas semanas, existe um interesse dos predadores de buscarem intencionalmente essas imagens e assim que eles buscam, eles vão receber muito mais essas imagens do que até os nossos familiares, até os nossos amigos. Então, é possível a gente tomar algumas medidas pra tentar minimizar esses impactos, mas a primeira medida de todas é a decisão bem informada. Então, a gente precisa saber que, de fato, não é seguro, a gente precisa saber que o direito de imagem é da criança, não é dos adultos, apesar deles terem o direito a partilha, porque isso não é ilegal no Brasil, né? Então, manter perfis fechados, só aceitar que você... conhece realmente, né, entendendo que mesmo os perfis fechados não estão plenamente seguros, a gente precisa, por exemplo, lembrar que entre os agressores de crianças e adolescentes, a maior parte deles são conhecidos das vítimas, né, então a gente precisa ter isso em mente também, que isso acontece no presencial e isso também se transpõe para o virtual, né. evitar fotos com uniforme escolar, com localização, com uma rotina previsível, não postar imagens em trajes que possam vulnerabilizar a criança ou que possam ser distorcidos, apesar da gente saber que já temos inteligência artificial hoje em dia, até dissimulando muitas dessas imagens. explicar pra criança, à medida que ela vai crescendo, que ela também tem direito de opinar sobre a sua imagem e respeitar, né, nós recebemos muitos relatos de crianças e adolescentes que se sentem constrangidas, que não gostam que os pais publiquem as imagens e que mesmo assim eles postam, que se envergonham, que cobrem o rosto e que os pais tratam isso muitas vezes de forma bem humorada ou acham que é assim mesmo, que é a fase, não respeitando e até quebrando um certo vínculo de confiança entre a criança e o adolescente e os pais. E usar alternativas cada vez mais seguras, como álbuns digitais fechados, ferramentas fechadas, mensagens diretas ou as chamadas de vídeo, que são mais seguras.
B
Perfeito. Nay, muito obrigado pela sua participação. Volte outras vezes aqui ao assunto.
C
Sou eu que agradeço. Até mais.
B
Este episódio usou o áudio do canal do Influenciador Felca no YouTube. Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou o Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Date: August 18, 2025
Host: Vitor Boiadjan (G1)
Guests: Laís Peretto (Childhood Brasil), Nay Macedo (psychologist & child protection specialist)
This episode explores the urgent debate around the “adultização” (premature adultification) and exposure of children and adolescents on digital platforms, especially following recent viral denunciations. It examines the public, political, and legislative mobilization this controversy sparked, with analysis by legal advocates and mental health experts. The episode foregrounds the unique dangers children face online, discusses the sudden burst of legislative activity in Brazil, and offers both technical and social solutions.
“Foi preciso a manifestação de um fenômeno da internet para amplificar um problema da internet. E um problema que não é especialmente novo.”
— Guest B [00:12]
“Era um vídeo que talvez seja inocente, mas ele caiu na malha do algoritmo... onde eles condicionam para receber esse mesmo vídeo, né? E é assustador…”
— Laís Peretto [05:25]
“A proteção da infância não tem espectro político... ganhou um vulto inimaginável.”
— Laís Peretto [05:52]
“Eu realmente acredito que não leram o projeto de lei, talvez até por essa enxurrada de novos projetos que apareceram…”
— Laís Peretto [11:57]
“O Brasil tem agora a chance de aprovar um marco de proteção online importantíssimo.”
— Laís Peretto [15:40]
“O papel de proteção das crianças e adolescentes é de toda a sociedade…”
— Laís Peretto [19:41]
“Adultização é quando uma criança ou adolescente são colocados em papéis… mais apropriadas a fases adultas…”
— Nay Macedo [22:53]
“No comportamento a gente pode falar de crianças que começam a imitar esses gestos mais sexualizados... que às vezes repetem sem entender…”
— Nay Macedo [26:15]
“A maioria dessas imagens estava na escala zero, ou seja, não tinha nenhum nível de erotização…”
— Nay Macedo [30:46]
“O algoritmo não diferencia o que é afeto do que é exploração... ele só vê o engajamento…”
— Nay Macedo [32:53]
| Timestamp | Speaker | Quote | |-----------|------------|-------| | 00:12 | Guest B | “Foi preciso a manifestação de um fenômeno da internet para amplificar um problema da internet. E um problema que não é especialmente novo.” | | 05:25 | Laís Peretto| “Era um vídeo que talvez seja inocente, mas ele caiu na malha do algoritmo... onde eles condicionam para receber esse mesmo vídeo, né? E é assustador…” | | 05:52 | Laís Peretto| “A proteção da infância não tem espectro político... ganhou um vulto inimaginável.” | | 11:57 | Laís Peretto| “Eu realmente acredito que não leram o projeto de lei, talvez até por essa enxurrada de novos projetos que apareceram…” | | 15:40 | Laís Peretto| “O Brasil tem agora a chance de aprovar um marco de proteção online importantíssimo.” | | 19:41 | Laís Peretto| “O papel de proteção das crianças e adolescentes é de toda a sociedade…” | | 22:53 | Nay Macedo | “Adultização é quando uma criança ou adolescente são colocados em papéis… mais apropriadas a fases adultas…” | | 30:46 | Nay Macedo | “A maioria dessas imagens estava na escala zero, ou seja, não tinha nenhum nível de erotização…” | | 32:53 | Nay Macedo | “O algoritmo não diferencia o que é afeto do que é exploração... ele só vê o engajamento…” |
The episode weaves together urgent contemporary phenomena—the viralization of denunciations, the lightning-fast response of legislative bodies, and the insights of advocacy and psychology. It calls for urgent, cross-sectoral action to protect children in an era where technology and culture both converge to amplify risks. It urges technical, legislative, and collective social responsibility, with special attention to the unintended consequences of seemingly innocent online activity.
The dialogue is striking in its insistence that protection transcends political lines and demands vigilance from all corners of society. The memorable takeaways offer both concrete steps and a sobering reminder of the realities in Brazil and worldwide.