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Natu Zaneri
4 de outubro de 1957. Foi assim que começou a aventura humana no espaço sideral. O sinal que você acabou de ouvir é do Sputnik, o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. Projetado pela antiga União Soviética, seu lançamento fez o país comunista tomar a dianteira da corrida espacial. E aquele som era prova viva de que a Guerra Fria havia ultrapassado os limites planetários. O engenheiro por trás do projeto desenvolveu um sinal que pudesse ser recebido por aparelhinhos de rádio em qualquer lugar do mundo. Era uma estratégia clara de propaganda. Ele queria que a humanidade soubesse que os soviéticos estavam lá. Mas não só. O objetivo também era de intimidação. Não tanto pelo Sputnik em si, mas por causa do potente míssil que o colocou em órbita. Se o míssil era capaz de lançar um satélite para o espaço, ele poderia lançar, por exemplo, uma bomba ou várias contra os Estados Unidos. levou algum tempo para os americanos equilibrarem o jogo. Mas em 1969, a mesa foi definitivamente virada. A missão Apolo 11 pousava em solo lunar.
Lucas Fonseca
Seis
Narrator/Host
décadas depois desse episódio, o nosso satélite natural está no centro de uma nova corrida espacial.
Natu Zaneri
Uma missão que reafirma a liderança dos Estados Unidos.
Lucas Fonseca
Finalmente, Artemis II decolou. A missão que tá levando quatro astronautas pra um sobrevolo lunar histórico já começou.
Narrator/Host or Additional Commentator
Dois astronautas brancos, uma mulher e um astronauta negro é uma missão de uma diversidade como nunca tivemos anteriormente. O plano é dar duas voltas em torno da Terra e uma ao redor da Lua.
Narrator/Host
A meta é montar uma base permanente no Polo Sul e lançar uma estação na órbita lunar até 2030. China e Rússia, junto com mais 13 parceiros, planejando a sua própria base, a Estação Internacional de Pesquisa Lunar, prevista para 2035.
Natu Zaneri
E a Artemis II foi a que chegou mais longe da Terra. Ela atingiu mais de 400 mil quilômetros, o equivalente a 10 voltas em torno do globo.
Lucas Fonseca
Durante uma coletiva de imprensa, um repórter perguntou ao piloto da missão se ele queria deixar uma mensagem comemorativa para as pessoas em casa. Victor Glover disse que esta é uma oportunidade para lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais. A NASA divulgou uma imagem inédita da Lua feita pelos astronautas.
Natu Zaneri
Os astronautas puderam testemunhar um espetáculo, o nascer da Terra por trás do seu satélite natural. E registraram imagens nunca vistas de um lugar que permanecia somente sob o domínio da imaginação, o lado oculto da Lua.
Narrator/Host or Additional Commentator
A
Natu Zaneri
missão é um salto que ainda está no ar. Ela retorna à Terra na noite desta sexta-feira, carregada de objetivos.
Narrator/Host
montar bases, testar tecnologias, mandar astronautas. Mas não se engane, a Lua sempre foi um território estratégico. É um tesouro de recursos naturais. Ferro, silício, hidrogênio, titânio. E também tem hélio 3, com potencial para usinas de fusão nuclear. Sem falar da água. descoberto em 2008, fundamental para beber, cultivar, resfriar equipamentos. E o solo lunar, o regolito, pode ser usado como proteção contra radiação e também servir como material de construção. Com isso tudo, as bases lunares autossuficientes deixariam de ser só ficção científica.
Natu Zaneri
E também de um sonho, um dos mais antigos da humanidade.
Narrator/Host
A Lua ainda serviria como ponto de escala para outras destinas, como Marte.
Natu Zaneri
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é Artemis II e o futuro da nova corrida espacial. Neste episódio, eu converso com Lucas Fonseca, engenheiro espacial e CEO da Airvents, empresa de logística espacial, e com Márcio Alvarenga dos Santos, chefe da assessoria de cooperação internacional da Agência Espacial Brasileira. Sexta-feira, 10 de abril. Lucas, a gente conversa um dia antes da reentrada da Artemis II na nossa atmosfera. Conta pra gente qual é o tamanho do risco dessa operação.
Lucas Fonseca
Eu vou contar uma história que ocorreu na Artemis I. A Artemis I foi uma missão que mandou um módulo até a Lua, mas sem tripulação, para testar os conceitos, qualificar toda a tecnologia que tinha desenvolvida para essa missão específica. Na hora de entrar de volta pra Terra, o escudo térmico que protege a cápsula pra frear na atmosfera terrestre não funcionou da maneira que eles esperavam. Tiveram que refazer parte da tecnologia e pensar um ângulo de reentrada mais amigável pra não colocar os astronautas em risco. Esse é o nível do risco, porque isso tá sendo testado agora com astronautas, uma tripulação dentro, algo que não saiu dentro do que eles planejavam no primeiro momento.
Narrator/Host or Additional Commentator
O foco dos astronautas é preparar a nave para a volta à Terra. É o segundo momento mais crítico da missão, atrás apenas do lançamento. Ainda mais depois que o escudo que protege a cápsula do calor intenso da atmosfera sofreu danos durante a missão Artemis I em 2022. A Órion vai entrar na atmosfera a uma velocidade de 38 mil quilômetros por hora. Do lado de fora, a temperatura pode chegar a 2.800 graus Celsius por causa do atrito.
Natu Zaneri
Lucas, eu quero muito falar de Artemis II com você, mas eu quero olhar pra frente. Nós estamos, a partir da Artemis II, mais próximos de Marte do que antes?
Lucas Fonseca
Com certeza. Ir pra Lua é um aprendizado que vai servir pra chegar em qualquer lugar do Sistema Solar. Então, quando a gente olha pro futuro da economia espacial, a gente olha pra um futuro que vai tomar forma no Sistema Solar como um todo. Então, tamo falando de Marte, tamo falando de asteroides, de Luas, de outros planetas, e a Lua, nossa vizinha, É o primeiro passo disso tudo.
Natu Zaneri
E isso por que razão? Por que a Lua é importante para se chegar a Marte?
Lucas Fonseca
A gente enxerga a Lua como um entreposto. Entreposto no sentido de uma cama de teste de aprendizados, mas também de buscar recursos que vão permitir a gente acessar outros pontos do Sistema Solar, e leia-se aí Marte, a partir de recursos naturais que estão dispostos na Lua. A atmosfera da Terra é muito cruel, então qualquer foguete que você vai tirar do chão e levar para o espaço, normalmente você vê esses tamanhos colossais, onde um pedacinho pequenininho consegue chegar no espaço. Isso acontece porque a gravidade da Terra realmente é forte. Comparado com a gravidade da Lua, que é bem menor, você imaginar que você tem essa possibilidade de começar a criar cenários, de criar indústrias, manufaturas na Lua para acessar outros pontos do Sistema Solar, você acaba tirando da equação esses foguetes monstruosos que têm que sair da Terra.
Natu Zaneri
Para uma leiga como eu, é muito mais fácil uma espaçonave decolar da Lua e chegar muito longe do que se ele decolar da Terra, porque a força da nossa gravidade é muito alta.
Lucas Fonseca
Exato. Vamos aprender como é que é viver na Lua, como que eu vou gerir ali os recursos que existem na Lua, o que que eu tenho que levar, o que que eu consigo aproveitar para ter pessoas vivendo lá, coletando energia, produzindo equipamentos, para no futuro usar a Lua realmente como um entreposto que pode alcançar outros pontos do Sistema Solar sem ter que tirar essa massa gigantesca de equipamento da superfície da Terra.
Natu Zaneri
eu precisava voltar um pouquinho para trás. A gente teve a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética. Qual foi o status dessa corrida espacial? Localiza a gente nesse ponto da história.
Lucas Fonseca
Existiu uma linha de chegada, e é interessante, que foi os Estados Unidos que estipulou qualquer final. da corrida espacial, porque até então estava tomando de lavada da União Soviética, que levou o primeiro homem espaço, a primeira mulher, o primeiro animal, o primeiro satélite. Então, tudo a União Soviética venceu. Em determinado momento, os Estados Unidos falaram que quem chegar na Lua primeiro venceu a corrida. Então, o lance acabou em 1969, quando o Neil Armstrong pousou na Lua. e, a partir daí, começou a tomar um formato muito diferente a economia espacial. Começou a se buscar a sustentabilidade econômica. Então, olhando pra trás, principalmente na época da Apollo, os gastos públicos eram colossais. Eles perceberam que isso aí não era sustentável no longo prazo, e aí começaram a buscar meios de reduzir esses custos, e foi quando veio o projeto do ônibus espacial. A ideia do ônibus espacial é que poderia ser reutilizável e que abaixaria os custos. Infelizmente, nunca chegou lá O ônibus espacial, olhando pelo viés da engenharia, é uma maravilha, é moderna Mas quando você olha pelo viés econômico da coisa, teve uma falha muito grande do que foi planejado
Narrator/Host or Additional Commentator
O ônibus espacial americano é a primeira nave que volta ao espaço O custo
Lucas Fonseca
total deste programa do ônibus espacial é de um trilhão de cruzeiros, mas neste momento o principal cliente do programa é o Pentágono com objetivos militares. Isto tem provocado protestos dos russos e críticas, mesmo entre os defensores do programa espacial americano. E a gente só viu isso sendo transformado para um sistema mais economicamente sustentável a partir dessa entrada das empresas dos bilionários, que a gente chama de dos barões do espaço, na corrida espacial. Então, a partir do momento que a SpaceX entrou na corrida espacial e conseguiu reutilizar um foguete, os preços começaram a cair de 10 a 15 a 20 vezes e hoje é muito mais fácil o acesso ao espaço do que era há 50 anos atrás.
Natu Zaneri
Primeira missão organizada por uma empresa privada,
Narrator/Host
a SpaceX, a chegar à Estação Espacial Internacional.
Natu Zaneri
Isso encerraria a dependência que hoje os Estados Unidos tem da Rússia, já que desde que os americanos aposentaram os ônibus espaciais, as naves russas Soyuz são as únicas capazes de levar astronautas à estação. Por isso que a Artemis é importante, porque ela tem essa associação com grupos privados. É isso também, além de associação com outros países?
Lucas Fonseca
A Artemis, concebida originalmente, tinha essa ideia de uma colaboração de muitos países. Então, você tem a Missão Artemis e você tem os Acordos Artemis. Os Acordos Artemis é como se fosse uma atualização da Lei Geral do Espaço Exterior, que foi assinada ainda na década de 60 na ONU. Hoje não se consegue mais sentar na mesa e discutir todo mundo Então o que os Estados Unidos fez que é um pouco tendência? Olha, eu vou escrever meus próprios termos, quem quiser vir comigo, vem aqui e colabora Então ele começou a assinar esses tratados bilaterais com vários países, mais de 60, e o Brasil é um deles, para atualizar toda essa forma de manejo, de quem é responsável por quê, a partir do momento que você vai além da óbita da Terra Quando é que
Natu Zaneri
a China começa a surgir como um player ou até mesmo a substituir a União Soviética? Onde é que começa a história da China nessa disputa?
Lucas Fonseca
O golpe que eu diria de misericórdia na União Soviética foi quando eles tentaram ter um veículo espacial muito parecido com ônibus espacial. E foi muito custoso para a União Soviética desenvolver esse veículo. e foi inclusive um dos motivos que criou o colapso econômico. Quando você teve esse colapso, ficou a herança do que já existia na União Soviética. Então, ela tem uma família de foguetes que é muito seguro, tem uma robustez, uma solidez muito grande, até mais do que os veículos americanos. E isso é muito interessante, porque mais de uma década, os Estados Unidos ficou sem ter um vetor de acesso à estação espacial e usava carona com os próprios russos. Então, ele usava essa herança do período soviético pra chegar na estação espacial pegando carona com os russos. A China começou a despontar, vou dizer que nos últimos 20 anos, ela começou a despontar de uma maneira muito sólida E vem muito coerente com esses planos todos de 100 anos que a China faz, também fez para essa área espacial E ela estipulou que até 2030 ela gostaria de ter uma base na Lua E eu acho que é isso que vem assustando todo mundo, porque ela vem cumprindo os prazos E aí isso levantou essa necessidade dos Estados Unidos repensar o programa Artemis para conseguir bater de frente
Natu Zaneri
com a China E só pra deixar claro, não existe nenhuma pegada de um astronauta chinês na Lua até hoje. A China jamais pisou na Lua, certo?
Lucas Fonseca
Nenhuma outra nação pisou na Lua além dos americanos. Os americanos foram da Apollo 11 até a Apollo 17, e aí a única que não pisou na Lua foi a Apollo 13, que tem o filme famoso com o Tom Hanks. Mas fora esses, da 11 à 17, todos pousaram e pisaram na Lua. Fora eles, só missões robóticas. Agora, missões robóticas, Índia, Japão, a própria Rússia, China, Estados Unidos, todo mundo tem mantido alguma constância de missões lunárias. Só não tem levado pessoas até lá, e a gente tá vendo nesse momento essa volta das pessoas pra Lua.
Natu Zaneri
Mas se a China nunca nem pisou na Lua, por que os Estados Unidos estão com medo? E explica pra gente isso que você deixou no ar. Os Estados Unidos começaram a se voltar mais pra Lua do que pra Marte. Ainda que Marte seja a última ou a próxima grande fronteira espacial, eu fiquei com a impressão de que a Ártemis passou a se voltar pra Lua como se a Lua fosse um objetivo mais duradouro, muito antes do que chegar a Marte.
Lucas Fonseca
começando pela parte chinesa, né? A China não pousou nenhum taikonauta, que é o nome que se dá aos astronautas provenientes da China, mas tem feito várias missões pra Lua. Já tá na sexta missão, robótica todas, mas ela conseguiu, por exemplo, pousar no lado mais distante da Lua, o lado que a gente chama de lado oculto, e conseguiu germinar um feijão no lado oculto da Lua. Os Estados Unidos nunca fez isso. A China conseguiu colocar, por exemplo, um sistema de satélites de comunicação pra garantir que todo momento, inclusive do lado oculto da Lua, tenha comunicação com a Terra. E aí tem um ponto interessante. Os Estados Unidos agora foi com a Artemis 2 até a Lua e os astronautas ficaram 41 minutos sem conseguir falar com a Terra. Poderiam ter pedido pra China. Eu acho que a China até cederia os satélites de comunicação. Mas eu não consigo imaginar o Trump, por exemplo, pedindo pra China pra dar esse suporte. E aí vale a narrativa do herói vivendo 41 minutos sem ter comunicação. Tendo dito isso tudo, você me perguntou também o lance do porquê que os Estados Unidos hoje tá se voltando pra Lua. Os Estados Unidos, quando ele começou a pensar na Ártemis, ele tinha essa ideia de colocar uma estação espacial na órbita da Lua pra ser feito com outros parceiros internacionais. Algo muito parecido com a estação espacial internacional que a gente tem em baixa órbita terrestre, que tá aí a 400km da Terra. Só que eles começaram a construir, começou a estourar orçamento, estourar prazo, e a China começou a colocar os prazos dela em dia. Os Estados Unidos viram ela executando o passo a passo pra chegar na Lua até 2030. Houve essa reestruturação do programa Artemis, eles desistiram dessa estação internacional e falaram, olha, os Estados Unidos vão pousar na superfície, vamos chegar antes da China com uma base na Lua, e vocês parceiros aí de outros países, se quiser vir junto, venham, mas não precisamos de vocês. Ficou até uma situação meio saia-justa com os outros países, Acho que todo mundo esperava um pouco que isso fosse acontecer, mas está todo mundo agora tentando se adaptar para essa nova realidade.
Natu Zaneri
Ou seja, os Estados Unidos, na prática, esqueceram Marte por hora. É isso?
Lucas Fonseca
Eu diria que o discurso de chegar em Marte continua forte pelo motivo de que Marte ainda é o local mais próximo do que seria viver no nosso próprio planeta. Então, se um dia a gente quiser ser espécies interplanetárias, Marte vai ser o primeiro local onde teremos um mochinho próximo do que é viver no planeta Terra. Mas, economicamente falando, busca de recursos naturais, busca de energia, todos os holofotes estão mirando a Lua nesse momento.
Natu Zaneri
Por que que Marte nos oferece essa possibilidade?
Lucas Fonseca
Marte tem uma gravidade muito mais próxima da gravidade da Terra, tem uma atmosfera que ajuda a proteger, raios UVs, por exemplo. Questão de temperatura, quando você está na parte equatorial de Marte, são temperaturas de 5, 6 graus positivos, então você tem pessoas aqui no nosso planeta que vivem a menos 60. Tem que lembrar de uma coisa, né? Toda a evolução foi feita baseado no que a gente tem como local de moradia. Então, quando pegamos na instituição humana que somos atualmente, foi baseado no que o planeta nos supriu. Ir pra um outro planeta nunca vai ser tão bom quanto morar na Terra. Mas a gente acaba buscando planeta que tem características um pouco mais próximas de coisas que a gente tem no nosso próprio planeta, pra que a vida seja um pouco mais confortável. A Lua é extremamente inóspita. Teremos que preparar muitos conceitos, muitas estruturas, novas tecnologias para ter essas pessoas vivendo de forma permanente na Lua.
Natu Zaneri
Se a gente fosse simplificar muito a posição dessa corrida espacial, você diria que Estados Unidos e China, e aí os países agregados, os países que estão auxiliando essas duas potências, eles estão empatados nessa corrida, os Estados Unidos estão à frente muito ligeiramente, Ou a China estaria na frente, que não me parece ser o caso.
Lucas Fonseca
Estados Unidos ainda é a grande potência da área espacial, embora a China esteja chegando. E eles têm prazos estipulados. Então a Artemis IV, que é a Artemis que vai pousar na Lua, está prevista para 2028. A primeira missão chinesa para pousar na Lua está prevista para final de 29 e começo de 30. Se os cronogramas se cumprirem, Estados Unidos vai chegar primeiro e aí tem a importância da Artemis II. Tudo ocorrendo dentro do nominal, dentro do que foi esperado, aumenta essa narrativa que os Estados Unidos conseguirá chegar em 28, embora seja um prazo muito difícil. Mas parando pra pensar que em 1962 o Kennedy fez aquele discurso super famoso do Texas, que nós vamos pra Lua não porque é fácil, mas porque é difícil, e essa é a melhor maneira de medirmos a nossa própria capacidade, e em 69 os Estados Unidos estavam na Lua, dá pra acreditar que é possível executar nesse prazo. Então
Natu Zaneri
os Estados Unidos estão ainda bastante à frente da China, certo?
Lucas Fonseca
Bastante eu não diria, mas estão na frente e se conseguirem manter o cronograma vão chegar antes.
Natu Zaneri
se te oferecessem para ir para Marte, você moraria em Marte?
Lucas Fonseca
Provavelmente as primeiras pessoas que virão para Marte não vão voltar, e aí morrerão lá. Eu já pensei nisso várias vezes, eu acho que se eu fosse o primeiro, tipo o Neil Armstrong que foi para a Lua, o Lucas Fonseca que foi para Marte e não voltou, eu acho que eu toparia. Se eu fosse o segundo, eu acho que não.
Natu Zaneri
Mas por que as pessoas não voltam?
Lucas Fonseca
Ir para Marte hoje são seis meses de viagem. Depois você tem que ficar um ano na superfície para preparar mais seis meses de viagem de volta. Ainda é muito complexo. Adoraria acreditar que essas missões vão ser estruturadas de forma que vão conseguir ir e voltar. Mas o risco é muito alto e talvez o primeiro astronauta que vá para Marte encontre algum problema no meio do caminho e não consiga voltar. É nesse sentido que eu quero dizer. Mas é claro, as missões sempre são pensadas para trazer segurança para a vida do astronauta e que consiga ser cumprida como um todo. Mas o desafio está em um patamar muito acima e, eventualmente, esses astronautas não vão voltar.
Natu Zaneri
E o que você acha que vai acontecer com a Artemis II?
Lucas Fonseca
Quero muito acreditar que vão entrar com um sorriso de orelha em orelha e vão servir de inspiração para a humanidade.
Natu Zaneri
Estamos torcendo para isso e ansiosos por essa imagem histórica. Lucas, sem palavras para te agradecer, muito obrigada.
Lucas Fonseca
Obrigado, pessoal.
Natu Zaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Márcio Varenga dos Santos. Márcio, eu quero voltar no tempo com você para mostrar como a gente está numa nova era espacial realmente. No projeto Apolo, o objetivo era chegar à Lua e voltar. Agora, no Ártemis, é estabelecer uma estação lunar. Como é que vai ser essa estação? Qual é a utilidade dela?
Márcio Alvarenga dos Santos
Uma das questões importantes é que a Estação Espacial Internacional vai ser desativada. Então, muitos dos experimentos que nós fazemos na Estação Espacial Internacional vão precisar ser feitos em outro local. Então, a Lua é uma possibilidade, porque você tem baixa gravidade, você tem um ambiente que favorece experimentos que não seriam possíveis aqui da Terra. O segundo ponto é um novo anseio por recursos espaciais. São raramente encontrados na Terra ou, por exemplo, são minerais que têm muita dificuldade ou tem só em um país e aí você encontra em mais abundância no espaço. Então, tem minerais que valem muitíssimo, tem recursos que valem muitíssimos no espaço sideral. Então, também conhecer o ambiente para além da Terra É importante para chegarmos, ainda que estejamos também um pouco longe de fazer uma extração, por exemplo, de recursos, como a gente faz aqui na Terra. É muito mais complicado, então acho que a gente está um pouco longe disso do ponto de vista técnico, tecnológico, mas também é um interesse. E por fim, estabelecer uma base permite, além dos experimentos, você chegar um pouco mais próximo de Marte, que eu vejo que é o nosso próximo alvo.
Natu Zaneri
Existe uma corrida espacial, diversos países competindo. Ela tem características diferentes da corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, sabemos disso. Há outros personagens, outros países envolvidos. Mas uma vez que se queira implantar uma base lunar para ficar mais perto de Marte, de quem vai ser a Lua? De quem chegar primeiro?
Márcio Alvarenga dos Santos
Muita gente fala que a Lua não é de ninguém, né? E não é bem isso. A Lua é de todos. A Lua é da humanidade. Não existe comprar terreno na Lua. Existe um acordo da Lua, mas ele é um acordo que não teve muito sucesso. E ele fala que a gente pode explorar os recursos da Lua, mas quando isso acontecer, os países precisam se organizar para criar, digamos, um regime jurídico para isso. Mas, nesse acordo, não tem nenhum dos grandes players. Não tem Estados Unidos, não tem China, não tem Rússia. Então, ele não tem um peso. Hoje em dia, você tem ações unilaterais dos estados, você vê movimentos unilaterais sobre recursos espaciais, sem que essa discussão esteja sendo acertada. conjuntamente, já que a gente está falando de um corpo celeste que é de todos. É interessante isso, porque muito se fala a bandeira dos Estados Unidos na Lua, então aquele pedaço ali é dele? Não, isso não procede se você for considerar os tratados sobre o espaço. ainda é uma discussão muito interessante que acontece no âmbito da ONU.
Natu Zaneri
E pode haver uma situação muito bizarra de países disputando a propriedade da Lua, por exemplo, os Estados Unidos dizerem, olha, a gente botou a nossa bandeirinha lá primeiro, aquele lugar é nosso?
Márcio Alvarenga dos Santos
Pode, e pode sim. Inclusive, você tem lá a pegada do Neil Armstrong na Lua. Aquela pegada, ela é quase um patrimônio, não é verdade? Ninguém pode ir lá apagar a pegada. Como que você protege esse sítio, esse patrimônio, se não existe propriedade? São lacunas jurídicas presentes, bastante discutidas hoje em dia, e que a gente precisa preencher antes que todos cheguem lá.
Natu Zaneri
Só para a gente fechar, o árbitro disso É a ONU.
Márcio Alvarenga dos Santos
Eu diria que sim. Embora os Estados Unidos estejam se movimentando unilateralmente, etc., mas existe um comitê que discute espaço e foi esse comitê que estabeleceu a Constituição Espacial.
Natu Zaneri
Márcia, te agradeço imensamente por ter topado conversar com a gente. Muito obrigada.
Márcio Alvarenga dos Santos
Eu que agradeço. Tchau.
Natu Zaneri
Esse episódio usou áudio do filme Apolo 13, do desastre ao triunfo, da Universal Pictures. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Eu sou Natuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Host: Natuza Nery
Guests: Lucas Fonseca (engenheiro espacial, CEO da Airvents), Márcio Alvarenga dos Santos (Agência Espacial Brasileira)
Date: April 10, 2026
This episode explores Artemis II, NASA's historic crewed mission around the Moon, within the context of a renewed and evolving global space race. It contrasts today’s geopolitically multipolar “new space race” (notably between the US and China) with the Cold War era, examines the technical, economic, and legal challenges of lunar exploration, and considers the future implications for Mars and beyond. Guests Lucas Fonseca and Márcio Alvarenga dos Santos provide rich analysis from both technical and diplomatic standpoints.
This episode offers a comprehensive and thought-provoking examination of Artemis II as both an engineering feat and a harbinger of a new, competitive, and complex era in lunar and interplanetary exploration. The dialogue captures the technical, political, economic, and ethical stakes of the 21st-century space race, providing listeners with essential context for why lunar missions matter — for global power, scientific progress, and the human urge to explore.