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Natu Zaneri
28 de fevereiro. O dia estava começando em Teherã. Pouco antes de o relógio marcar 9 horas e 40 minutos do sábado, o céu da capital iraniana foi invadido por aproximadamente 50 jatos em altíssima velocidade. Eram caças israelenses F-15, que chegam a mais de 3 mil quilômetros por hora. Quando eles assumiram suas posições, os bombardeios começaram. Foram pelo menos 30 ataques de precisão com mísseis Blue Sparrow. Eles miravam o complexo do líder supremo iraniano, um quartel general, onde o Ayatollah Ali Khamenei e outras autoridades do regime estavam reunidos. Assim que os mísseis encontraram o alvo, uma grande nuvem cinza de fumaça surgiu no meio da cidade. Ali Khamenei estava morto. O primeiro objetivo do ataque, coordenado entre Estados Unidos e Israel, havia sido concluído com sucesso. Os agentes americanos israelenses tinham detalhes da localização de Khamenei e dos oficiais iranianos. Isso foi resultado de um sofisticado sistema de tecnologia de guerra que tem várias frentes de atuação. De um lado, é capaz de perseguir com um alto nível de precisão potenciais alvos estratégicos. De outro, pode hackear sistemas para se infiltrar neles e criar confusão nas comunicações do inimigo.
Christian Wittmann
Quando se fala no assassinato de Kaminei, é preciso dizer, foi uma operação de inteligência espetacular dos Estados Unidos e de Israel que só deu certo porque Kaminei decidiu que o martírio era melhor do que o esconderijo.
Natu Zaneri
O Irã imediatamente reagiu e lançou uma primeira onda de mísseis e drones contra Israel e países que têm base militar americana. A estratégia vem se repetindo desde então, com foco em atingir a infraestrutura desses países, principalmente as instalações de energia. O Irã segue com os ataques contra aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. A guarda revolucionária iraniana diz que tem o controle total do estreito de Ornuz, uma artéria econômica global por onde passam 20% do petróleo e do gás comercializados no mundo. O arsenal iraniano é o maior e mais diversificado de toda a região. Já se sabe, por exemplo, que foram disparados mais de 1.400 drones e centenas de mísseis balísticos. Alguns desses mísseis são do tipo Shahrab e do tipo Fatah, que chega a 6 mil quilômetros por hora e que pode transportar ogivas pesadas. E o regime dos Ayatollahs alega que parte do seu arsenal mais avançado ainda não foi colocado em campo.
Gunther Hutzit
Uma autoridade iraniana afirmou que o país vai mirar instalações nucleares israelenses caso Estados Unidos e Israel tentem impor uma mudança
Natu Zaneri
de regime ao país A guerra é também de narrativas. Analistas internacionais dizem que os dois lados estão lidando com estoques relativamente baixos de armamentos na região Mas o discurso de ambos parece bastante otimista. Estados Unidos e Israel anunciam que o conflito partiu para uma nova fase e prometem aumento drástico do poder de fogo nos ataques contra o regime. Já os iranianos dizem esperar que os adversários enviem tropas terrestres e que responderão a isso com golpes dolorosos. Prometem também usar novas armas. Armas que nunca foram vistas em combate até agora.
Christian Wittmann
Israel disse que está passando para a
Gunther Hutzit
próxima fase da guerra contra o Irã, visando desmantelar o regime e sua capacidade militar. Os Estados Unidos também apertaram cerco ao Irã. O secretário da Guerra, Pete Hexett, disse que a guerra continua contra o Irã, ela apenas começou, e que o poder
Christian Wittmann
de fogo dos Estados Unidos vai aumentar
Gunther Hutzit
dramaticamente nos próximos dias.
Natu Zaneri
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é As armas e a nova fase da guerra no Oriente Médio. Neste episódio, eu converso com Gunther Hutzit, professor de Relações Internacionais da ESPM, professor convidado da Universidade da Força Aérea, Unifa, e especialista em Defesa e Segurança Nacional. E com Christian Wittmann, professor de Direito da Unipampa e integrante do Conselho do ICAM, Sigla internacional para a campanha internacional pela abolição das armas nucleares. Segunda-feira, 9 de março. Gunter, de um lado Trump diz que possui um estoque praticamente ilimitado de armas essenciais nesse conflito, do outro o Ministério da Defesa do Irã diz que tem uma capacidade de resistência ofensiva americana e israelense acima do que Trump é capaz de planejar. Eu faço essa observação para te fazer uma pergunta bastante direta. Qual é o real poder bélico dos dois lados desse conflito?
Gunther Hutzit
Bom, o poder bélico americano é um orçamento de quase um trilhão de dólares. O grande problema para os Estados Unidos é que o estoque de mísseis está bastante baixo porque eles vêm doando e agora vendendo esses equipamentos principalmente antimísseis para a Ucrânia. Enviaram muitos para Israel nesses últimos três anos, especialmente na guerra dos Doze Dias contra o Irã no ano passado, e o que efetivamente, quanto eles têm de reserva para fazer uma guerra, isso é um segredo guardado a doze chaves. Então, isso é um ponto que realmente preocupa todos os estrategistas americanos, todos. Por isso mesmo é que há essa aposta do governo iraniano de que eles não vão conseguir sustentar esse conflito por muito tempo.
Natu Zaneri
E o que os dois lados desse conflito já mostraram em termos de armamento, em termos de capacidade de guerra?
Gunther Hutzit
Mostraram tudo o que tem, o que se sabe até agora que tem saído aos poucos na principalmente na imprensa americana e israelense, é que a primeira onda de ataque americana e israelense foi praticamente tudo de mais moderno do inventário dos dois países foi utilizado.
Christian Wittmann
Estados Unidos e Israel têm ampla superioridade aérea, não só local como regional. Bombardeiam os alvos que quiserem em liberdade absoluta. A marinha iraniana foi degradada ao máximo. Praticamente não existe hoje uma marinha iraniana.
Gunther Hutzit
Então, mísseis que vinham sendo desenvolvidos, especialmente o Blue Sparrow, que é um míssel lançado de avião, que ele sobe praticamente até o limite da atmosfera e aí mergulha para atingir o alvo, porque com isso fica difícil o oponente detectar o lançamento. O oponente seria a Rússia e China, com seus satélites, captarem o lançamento de um míssel, porque de um avião, É praticamente impossível isso. E foi por isso mesmo que eles conseguiram uma vantagem, uma surpresa também estratégica muito grande. Os jatos de Israel teriam usado 30
Christian Wittmann
bombas para atacar o complexo onde o líder supremo estava Isso aconteceu por volta
Gunther Hutzit
das 9h40 da manhã no horário local Essa quantidade de bombas foi necessária porque é possível que o líder supremo estivesse num bunker subterrâneo, debaixo do complexo, para garantir uma maior proteção Então, o ataque
Christian Wittmann
só teria o resultado esperado se fossem
Gunther Hutzit
usadas várias munições e ao mesmo tempo Outros prédios de Teheran também foram atingidos Foi o caso do gabinete do presidente do país, que depois divulgou um comunicado para confirmar que estava em segurança Agora,
Natu Zaneri
esse ataque que acabou matando Ali Khamenei, como é que ele se deu em termos de armamento?
Gunther Hutzit
Primeiro foi um serviço de inteligência combinado da CIA e do Mossad muito grande para conseguirem ter a certeza de que todos estariam no mesmo local, no mesmo horário.
Natu Zaneri
Isso se dá basicamente com informantes?
Gunther Hutzit
Não. Também é que é a inteligência humana, como se diz, mas principalmente por inteligência eletrônica, ou seja, conseguem rastrear celulares, conseguem rastrear, por exemplo, o Mossad conseguiu hackear as câmeras de monitoramento das ruas de Teherã e conseguiram pegar um padrão de movimentação de quando o Kamenei se deslocava. Parece uma coisinha simples, mas você vai juntando todas essas peças, você consegue formar um quadro sabendo exatamente a movimentação que ele está fazendo, que os outros líderes estão fazendo e ainda por cima. O Mossad também conseguiu hackear as antenas de celular ali da região para que se alguém tentasse avisar O governo, tanto o Kamenei quanto os outros militares, de que um ataque estava em andamento, não conseguiriam. Ou seja, foi um serviço de meses de preparação. Então quando esse também é um dos motivos que foi decidido esse ataque, ataque que foi durante o dia. Então eles começaram o sábado como se fosse normal, porque israelense e americano ataca de noite, não ataca de dia. E eles se reuniram e aí que duas horas antes da reunião começar, 200 caças israelenses lançados no ar, foram por volta de 30 desses mísseis Blue Sparrow que foram disparados que levaram em torno de 15 a 20 minutos para chegar em Teheran e destruir os prédios onde eles estavam.
Natu Zaneri
E qual é o poder de estrago desse Blue Sparrow?
Gunther Hutzit
Dependendo da carga, ele pode danificar fortemente um prédio de vários andares. Foi por isso que eles lançaram 30 para ter certeza que toda a estrutura dos prédios que tinham vários andares desabariam, para ter certeza que ninguém sobreviveria a esse ataque. Então, é uma carga por volta de 300 até 500 quilos de explosivo.
Natu Zaneri
Agora eu quero destrinchar contigo um pouco mais das estratégias de cada lado, a começar pelos Estados Unidos. Por exemplo, o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas Americanas disse que o exército vai mudar de estratégia para essa fase 2. A gente está chamando de fase 2, me corrija se eu estiver errada. E até então, os bombardeios eram lançados em grandes ondas. A promessa é de que os ataques sejam mais pontuais e ainda mais precisos. É exatamente isso que dá para esperar por parte dos americanos neste segundo momento da guerra.
Gunther Hutzit
Primeiro a gente tem que entender que eles estão tendo que improvisar, se adaptar, porque ao que tudo indica, eles acreditaram que se se levantassem o Khamenei e toda a liderança militar, a estrutura do governo iraniano se desintegraria e acabaria pedindo para negociar ou até mesmo houvesse um levante popular. Eu acredito até mesmo que os assessores mais próximos de Trump acreditavam nisso, até pelo sucesso, a partir do ponto de vista americano, do que foi a operação que eles fizeram contra Maduro na Venezuela. Como isso não aconteceu e não ia acontecer, eles agora estão tendo que improvisar, porque essa primeira fase, fora isso, eles estavam caçando os lançadores de mísseis balísticos do Irã, porque o Irã tem mísseis de curto e médio alcance, para as pessoas entenderem, curto alcance é um míssel que varia de 300 até 750 quilômetros, médio alcance é que chega até 1.800, até 2.000 quilômetros de alcance, da primeira classe teriam provavelmente em torno de 1.000 da segunda, em torno de ainda uns 2.000 mísseis. Só que a quantidade de veículos lançadores, entre aspas, caminhões que têm a capacidade de lançar esses mísseis, um número muito menor, em torno de 70. E o que americanos e israelenses fizeram nessa primeira fase? Caçar esses caminhões. Porque sem esses caminhões lançadores, não adianta nada ter esses mísseis. E por isso que nos primeiros dias muitos foram lançados e nos últimos dias esse número de mísseis vem caindo. Então essa foi a estratégia inicial. Como o governo não caiu, agora eles estão tendo que se adaptar. Eles estão indo atrás das pessoas que estão sucedendo, as lideranças iranianas.
Christian Wittmann
O exército israelense atacou o prédio da Assembleia dos Clérigos do Irã, lugar onde seria escolhido o próximo líder supremo do país. Israel infiltra toda a alta cúpula do Irã com espiões, como nós vimos em junho passado, como nós vimos agora, com assassinatos deliberados e precisos de altas lideranças do Irã. Por que Israel divulga isso? Israel divulga isso para mandar uma mensagem à elite política iraniana, dizendo, nós sabemos de tudo, nós sabemos onde cada um de vocês está.
Gunther Hutzit
E estão também começando, ao que tudo indica, a preparar grupos minoritários dentro do Irã, como os kurdos ou como os baluches, para eles se revoltarem contra o governo iraniano. Ao que tudo indica, isso é estratégia americana.
Natu Zaneri
E essa estratégia para tentar minar o regime por dentro.
Gunther Hutzit
O Irã teve que mandar tropas da guarda revolucionária de Teherã para o noroeste, para onde fica essa área com kurdos, minoria kurda, já com receio de que isso possa acontecer. Ou seja, está dispersando forças, está complicando o cálculo e o raciocínio da liderança.
Natu Zaneri
Lembrando que os curdos são considerados o povo sem Estado, eles vivem em pedaços de diferentes países, inclusive o Irã. Os curdos iranianos são considerados menos fortes do ponto de vista de mobilização de insurreição do que os curdos iraquianos, tanto que os Estados Unidos estão fazendo uma abordagem, sobretudo junto aos curdos iraquianos, para promover essa sublevação, essa insurreição para corroer o regime por dentro. Agora, Gunther, quero analisar o Irã do ponto de vista da sua estratégia bélica até aqui.
Gunther Hutzit
O Irã, Natuza, vem se preparando para essa guerra, para esse ataque, há 47 anos, desde que o regime chegou ao poder. Porque é um regime que se estruturou ideologicamente, militarmente, economicamente e socialmente para enfrentar essa guerra contra os Estados Unidos. maior inimigo e que eles sabiam que mais cedo ou mais tarde seriam atacados. Então, sabendo que militarmente eles não conseguiriam nunca enfrentar de igual para igual, eles se prepararam para uma estratégia de fazer o custo o risco dessa guerra para os Estados Unidos e para os aliados dos Estados Unidos ficar muito alto. Como eles fizeram? Primeiro, anunciaram o fechamento do distrito de Hormuz. É que já saiu bastante na imprensa, em torno de 20% do petróleo consumido todos os dias no mundo passa por ali e, portanto, fez o preço do petróleo sair de torno de US$ 60 para US$ 85 e pode subir ainda mais. Só para as pessoas terem uma ideia, Nos anos 2010, quando se começou a falar ainda lá no governo George W. Bush de atacar o Irã por causa do programa nuclear deles, o então presidente Mahmoud Ahmadinejad dizia que se me atacarem, 200 dólares o barril vai ser pouco. Porque ele ameaçava isso, incendiar qualquer navio petroleiro que passasse ali. Ainda não chegou em 200. Mas, dependendo do que acontecer, pode chegar. E aí isso impacta a economia dos Estados Unidos e do mundo inteiro. Ou seja, uma pressão de todos os outros governos, por exemplo, dos europeus, para Trump parar essa guerra. Lançar todos esses mísseis e principalmente os drones que o Irã está lançando nos países árabes das monarquias que são aliados dos Estados Unidos também faz parte dessa estratégia. para que esses governos que não querem entrar na guerra pressionem Donald Trump a aparar o mais cedo possível, porque o custo da guerra está ficando alto para eles, tanto em não exportar petróleo quanto destruição e mortes nos seus territórios. É isso que a estratégia que ficou clara que o governo iraniano montou.
Natu Zaneri
Eu vou tentar aqui uma proporção pra ver se a gente consegue transformar isso numa imagem. Em termos de capacidade bélica, a gente tá comparando uma formiguinha, no caso do Irã, com um elefante, no caso dos Estados Unidos.
Gunther Hutzit
Um rato. Um rato e um elefante. Porque o rato consegue, às vezes, assustar o elefante. O formiquinha, não. E é isso que o rato tá fazendo com o elefante. Tá assustando. Porque não saiu como esperado. E é por isso que o presidente Trump já começou a avisar os seus eleitores. Mais soldados poderão morrer. Coisa que ele não esperava.
Natu Zaneri
Tem uma pesquisa nova feita pela Reuters, Ipsos. A pergunta é a seguinte, os americanos aprovam o ataque de Trump ao Irã? Considerando aqui todos os adultos, apenas 27% aprovam, 43% desaprovam. A pesquisa foi feita antes do exército americano anunciar a morte de quatro militares durante o conflito Agora, Gunther, a guerra eclodiu quase nove meses depois daquele conflito de junho que você já citou, quando os Estados Unidos atacaram as bases nucleares do Irã e naquele momento ele disse que os Estados Unidos tinham obliterado essas unidades nucleares e agora com essa guerra em algum momento não se falou a verdade. Ou foi naquele ou foi agora no último sábado. O que mudou no poderio bélico e na estratégia de combate de Teheran desde então? Aquele ataque serviu para o Irã acelerar a sua preparação para essa resistência de agora? Porque o que você está dizendo, em outras palavras, é eles se prepararam para resistir o máximo possível, uma vez que eles não têm como brigar com gente tão grande do ponto de vista bélico.
Gunther Hutzit
O que aquela guerra fez foi destruir a defesa antiaérea de médio e alta altitude do Irã. Por isso que os aviões israelenses voaram durante 12 dias sem serem incomodados. E a gente já está aí há vários dias de novo sem serem incomodados. A única coisa é que esses aviões não podem voar em baixa altitude, porque aí os mísseis antiaéreos russos que o Irã tem, aí podem abater. Portanto, isso dificulta a ação aérea americana e israelense, mas não impede. Então, aquela guerra já abriu caminho para ficar mais fácil essas primeiras ondas de ataque. Mas, por outro lado, também deixou claro que, no meu entender, o presidente Trump mentiu naquela declaração que tinha obliterado, porque muitos analistas americanos falaram, acho que é um pouco cedo demais para dizer isso, como o Irã entendeu que tem que espalhar o máximo possível de todas as suas capacidades, tanto de enriquecimento de urânio quanto de equipamento militar, para dificultar esse bombardeio. Então, o que ficou claro, os iranianos viram que suas defesas aéreas russas não eram tão boas quanto eles pensaram e eles se adaptaram ao que tudo está indicando, eles souberam se adaptar a essa nova realidade.
Natu Zaneri
Gunter, olhando para trás, o que os ataques do ano passado, de junho do ano passado, tem a ver com esses de agora? Se a gente fosse analisar essa história em capítulos.
Gunther Hutzit
Com certeza, a guerra de junho de 25 foi um ponto alto para Israel, que conseguiu jogar o Irã no seu ponto mais fraco da história pós-79, pós-Revolução Islâmica. Porque Israel perdeu os seus aliados do Hamas, do Hezbollah no Líbano, dos Houthis no Iêmen. Perdeu também Bashar al-Assad da Síria, que era um aliado muito próximo. E, portanto, todo aquele arco da resistência estava se dissolvendo, sobrando vários das milícias xiítas no Iraque. E, portanto, abriu caminho para Israel se rearmar, os Estados Unidos também se prepararem para essa guerra e atacarem, porque o grande objetivo do governo Netanyahu e de Trump é uma mudança de regime no Irã, não é o programa nuclear, não é um acordo, não, é mudar o regime. do ponto de vista israelense, porque o Irã é a maior ameaça existencial a Israel, e do ponto de vista do presidente Trump, para ele entrar na história como o presidente que conseguiu eliminar dois inimigos americanos, Venezuela e Irã. O que também pode ter contribuído para o Trump aceitar esse ataque, há notícias de que a China teria concordado em vender mísseis hipersônicos antinavios para o Irã. Esses mísseis alterariam o equilíbrio entre ataque e defesa da marinha americana numa operação como essa. Então há essa última variável que pode ter pesado na Casa Branca e no Pentágono.
Natu Zaneri
Na prática, o que esses mísseis hipersônicos fariam?
Gunther Hutzit
Eles voam entre 3 e 5 vezes a velocidade do som, voam muito rente ao mar, tornando-os quase impossíveis de serem detectados e as defesas antimísseis em tempo destruí-los. Essa categoria é nova em termos de equipamento militar. Eles já tinham mísseis supersônicos que já tinham vendido para o Irã, mas para esse tipo de mísseis, os navios americanos, uma esquadra americana já estava preparada para se defender. Hipersônicos não. Na verdade, nenhum país no mundo tem estrutura para se defender desse tipo de novo equipamento.
Natu Zaneri
Eu quero terminar fazendo uma outra comparação, porque você disse que em termos de arsenal, o Irã seria um rato, os Estados Unidos seria um elefante. E a China, de quem a gente fala muito pouco nesse aspecto, seria que animal?
Gunther Hutzit
A China quer se tornar um mamute. mas ainda não tá lá. A China, eu diria que é um elefante com no máximo um ano de idade, dois, tá crescendo e vai crescer muito mais pra tentar superar os Estados Unidos. No mínimo, se igualar, superar. O grande problema pra China é que houve nos últimos 4 anos, uma série de expurgos na mais alta cúpula militar e tudo indica que problemas de corrupção. Ou seja, Xi Jinping olhou para o que Vladimir Putin da Rússia estava passando na Ucrânia, em grande parte o desastre militar russo na Ucrânia foi por problemas de corrupção e está olhando e falando, será que eu não estou passando pela mesma coisa? Será que se eu tiver que enfrentar os Estados Unidos mesmo, frente a frente, eu tenho essa capacidade? Então, ele tem um planejamento de retomar Taiwan, mas ele teve que adiar, em alguns anos, esse plano.
Natu Zaneri
A China se tornaria, a depender das atuais condições de temperatura e pressão, a China deixaria de ser esse elefante, esse filhote, um elefante jovem se tornaria um mamute ou teria poder para se transformar num mamute? Em quanto tempo, Gunther?
Gunther Hutzit
Alguns analistas dizem que 15 a 20 anos, mas tudo ficando como está. E é por isso que os americanos estão se preparando também. É por isso que mais recentemente se começa a falar de uma nova categoria de bombardeiro estratégico, que é furtivo, uma nova categoria de caça furtivo, desenvolvimento de inteligência artificial, robótica e o próximo passo é computação quântica. E isso os americanos estão na frente.
Natu Zaneri
O que é computação quântica, Gunter?
Gunther Hutzit
Computação quântica é um computador que consegue fazer cálculos na velocidade, na quantidade que os computadores hoje, com a tecnologia que nós temos hoje, não conseguem fazer. A gente está falando de mais de 4 bilhões de cálculos por milissegundo. Só para as pessoas terem uma ideia, um computador quântico consegue quebrar qualquer Qualquer código de criptografia em questão de segundos.
Natu Zaneri
Não haveria mais segredo na humanidade.
Gunther Hutzit
Bingo. Então você sabe tudo o que o outro governo tá conversando e discutindo.
Natu Zaneri
Nossa, Gunther, eu já quero fazer um outro episódio com você. Aguenta aí, tá? Que já já eu te chamo. Muito obrigada. Você manja muito disso. Sempre um prazer te ouvir.
Gunther Hutzit
Imagina. Obrigado pelo convite. Sempre um prazer estar com vocês.
Natu Zaneri
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com o Christian Wittmann. Cristian, eu queria que você desenhasse um cenário do uso da inteligência artificial nos armamentos e na logística. De que forma Estados Unidos, Israel e até mesmo o Irã estão se valendo do uso da I.A. nessa guerra?
Christian Wittmann
A grande questão é o uso da inteligência artificial, até que momento ela poderia ser considerada legal. Ou seja, ao final do ataque, esse ataque foi comandado por um humano com o uso auxiliar de inteligência artificial é uma questão. A questão se torna preocupante quando as armas possam ter, e já existe essa tecnologia, a capacidade de determinar um alvo e empregar fogo a atirar contra esse alvo de forma autônoma. E esse, por exemplo, é um debate muito central na discussão americana que ocorreu recentemente com o presidente Trump e a empresa Antropic. porque essa empresa entendeu por bem não liberar o uso da sua inteligência artificial para esses mecanismos autônomos de emprego da força. Contrário aos interesses americanos e ao que tudo indica, a OpenAI, que é a detentora do chat EPT, ela autorizou o governo dos Estados Unidos a usar de forma indiscriminada a inteligência artificial para esse sistema de armas autônomas. A cláusula de contrato da Antropik pedia
Gunther Hutzit
que sua tecnologia não fosse usada em armas que podem mirar e atacar um alvo de forma autônoma, sem controle dos humanos. Na sexta-feira, um dia antes do ataque,
Christian Wittmann
o secretário de guerra americano Pete Hagseth
Gunther Hutzit
publicou um longo texto acusando o fundador
Christian Wittmann
da Antropik de colocar a ideologia do
Gunther Hutzit
Vale do Silício acima das vidas americanas. Ele afirmou, o Departamento de Guerra deve ter acesso pleno e irrestrito aos modelos da Antropik para todo e qualquer propósito legal na defesa da República.
Natu Zaneri
Explica esse episódio pra gente, por favor.
Christian Wittmann
É justamente um debate que as campanhas de sociedade civil, nas ONGs com as quais eu colaboro, nós estamos enfrentando justamente esse debate ético que, vamos dizer assim, saiu do âmbito das Nações Unidas e agora está dentro das empresas. E a Antropic é um grande exemplo de pessoas que se tornaram inconformadas com o modelo de negócio, por exemplo, da OpenAI, e decidiram mover os seus esforços em outra empresa, no caso, o Antropic, que estabeleceu nas suas diretrizes corporativas que a inteligência artificial nunca poderia ser utilizada para determinados fins, como os sistemas letais autônomos. E isso irritou muito o governo americano, especialmente as forças armadas, porque isso acaba por limitar a possibilidade de uso da força pelo governo americano nas suas operações. E veja só, assim como muito empresário gosta de tornar automático diversos sistemas da sua gestão, como a emissão de nota fiscal, enfim, receber pedidos dos seus clientes, O exército também gostaria, o máximo possível, reduzir a quantidade de efetivo militar de pessoas e ampliar o uso de máquinas para alcançar os seus fins militares. Então, o debate da inteligência artificial surge justamente da tecnologia sendo empregada para facilitar, baratear o processo bélico.
Natu Zaneri
E tem o aspecto também da larga escala, né? Porque se consegue fazer muito com menos e aí custos menores do que os armamentos tradicionais. Fica mais barato do ponto de vista econômico entrar numa guerra?
Christian Wittmann
E isso gera também uma preocupação na Tuz, assim como por exemplo minas terrestres que ainda existe o flagelo delas, elas estão em processo de extermínio, de limpeza dos terrenos, mas ela era uma arma extremamente barata. Então grupos armados não estatais como na Colômbia, um país irmão aqui do Brasil, usavam de forma indiscriminada produzindo mina terrestre em latas de azeite, nas antigas latas de azeite. E o fato é que hoje a possibilidade de você utilizar um drone como uma arma e a alteração de software pode ter a transferência não mais entre estados, de um estado ao outro, de forma horizontal, mas também uma transferência de armas e produtos bélicos de forma vertical dos Estados, essa proliferação para os grupos armados não estatais, mas aí nós chamamos justamente a atenção para os aspectos não só éticos como legais, como por exemplo o robô, esse sistema de ele não pode ser responsabilizado. Quem é que vai responsabilizar um robô pelo emprego errado e equivocado do uso da força? Quem é que vai responsabilizar, ao final, um robô? De que forma o robô vai ter a capacidade de distinguir entre um civil e um combatente? Regra básica dos conflitos armados. Aquele combatente, inclusive um militar, que passou a ser ferido, ele deixou de ser combatente. Ele deixou de ser um alvo militar. Aquele que se entrega deixou de ser um alvo militar. Os sistemas letais autônomos são geridos por códigos e sensores. Faltam a capacidade humana de perceber durante o conflito a aplicação de determinada regra ou não. Então há um grande debate e expondo justamente essas ilegalidades dos sistemas letais autônomos. É sempre necessário que ocorra um controle humano sobre os aspectos cruciais da arma, que é a identificação do alvo e o emprego da força. Se nós pegarmos os drones que foram empregados pelos Estados Unidos no conflito agora, eles já estão instrumentalizados com inteligência artificial e comunicação via satélite para serem alimentados e conversarem entre si a ponto de, conforme as instruções, programação inicial que eles recebem ou os comandos dados pelos operadores, você tem a capacidade de que eles possam se reorganizar durante o combate, durante o voo, a fim de não só, e aí tem várias utilidades a inteligência artificial como qualquer tecnologia dual, ela pode simplesmente mapear o terreno Então, por exemplo, simplesmente identificar alvos, como ela também pode identificar alvos e estando municiada com armamento, ela pode ser utilizada para o emprego da força em determinado aspecto.
Natu Zaneri
Cristian, muito obrigada pelas respostas. Bom trabalho para você.
Christian Wittmann
Perfeito. Muito obrigado pela oportunidade. Um grande abraço.
Natu Zaneri
Antes de terminar este episódio, eu preciso dizer que ele marca uma despedida aqui no assunto. A nossa queridíssima Amanda Polato está deixando a equipe do assunto para um novo desafio na vida dela. A gente vai sentir muita saudade, mas eu também não posso deixar de dizer que a gente torce muito pela Amanda, qualquer que seja o caminho que ela siga. Foram três anos em que a Amanda cumpriu uma missão fantástica aqui na produção do assunto. Então eu quero te dizer, Amanda, em nome de toda a equipe do assunto, dos seus colegas que se transformaram nos seus amigos, que você foi muito importante pra gente, vai continuar sendo e que a sua história tá escrita aqui, misturada com a história do assunto. Um beijo, boa sorte e a gente já se encontra. Este episódio usou áudios da BBC. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catellan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Nathuzaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Neste episódio especial, Natuza Nery conduz uma análise aprofundada sobre a escalada recente do conflito no Oriente Médio, explorando o impacto do assassinato do líder supremo iraniano após uma operação conjunta de EUA e Israel, os avanços tecnológicos em armamentos e inteligência, e as implicações estratégicas dessa “nova fase” da guerra. Os convidados são Gunther Hutzit, especialista em Defesa e Segurança Nacional, e Christian Wittmann, especialista em Direito Internacional e armas nucleares.
Sobre Computação Quântica ([25:00–25:41]):
Debate ético sobre armas autônomas ([26:14–29:17]):
Consequências políticas domésticas nos EUA ([17:34]):
Este episódio mergulha no uso de tecnologia de inteligência e armamentos de ponta que mudaram o equilíbrio do poder no Oriente Médio após o assassinato do líder supremo iraniano. Especialistas discutem o arsenal de cada lado, estratégias em evolução, desafios resultantes do uso de inteligência artificial militar (com forte embate ético), novas fronteiras armamentistas e o impacto global das manobras militares e econômicas do conflito. O episódio contextualiza o jogo de forças entre Irã, Israel, EUA e, em espectro crescente, China, revelando o quão complexa, instável e imprevisível se tornou esta “nova fase” da guerra no Oriente Médio.