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Arthur Dapieve
Nunca ouvi falar dele.
Natuza Nery
Não sei quem ele é." Foi assim que Donald Trump reagiu, em outubro passado, à escalação do porto-riquenho Bad Bunny para o show de intervalo do Super Bowl. Trump ainda disse que era ridículo escolher um artista que canta em espanhol para o jogo final da Liga de Futebol Americano, justamente o esporte que melhor simboliza a identidade dos Estados Unidos. E justamente no dia em que o país para. É o maior evento esportivo do ano, capaz de deixar mais de 130 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos, grudadas na frente da TV. E que movimenta bilhões de dólares. É tão importante que parece um dia de final de Copa do Mundo aqui no Brasil. Esse nome que Trump disse não conhecer é, na verdade, um dos músicos mais ouvidos do planeta. Benito Antonio Martinez Ocasio, Bad Bunny, liderou rankings no Spotify em 2020, 2021, 2022 e 2025, superando estrelas como Taylor Swift. Suas músicas já foram reproduzidas mais de 20 bilhões de vezes. Neste ano, Bad Bunny fez história ao ser o primeiro a ganhar o Grammy de Melhor Álbum com um disco totalmente em espanhol.
Narrator/Reporter
Os números dele demonstram que o mercado norte-americano, que os americanos celebram o trap latino que ele canta, o reggaeton que ele canta, a mistura que ele faz com uma série de outros ritmos mais tradicionais, especialmente da América Central, da América Hispânica.
Natuza Nery
Foi exatamente essa mistura de ritmos que Bad Bunny levou ao show do Super Bowl no último domingo, na cidade de Santa Clara, na Califórnia. Uma apresentação única, já que o astro tem evitado fazer shows nos Estados Unidos, com medo de que seu público seja alvo dos agentes do Ice. Cheia de símbolos e mensagens exaltando a América Latina, a apresentação levou Porto Rico para dentro dos Estados Unidos. A cada caminhada de Bad Bunny, novos elementos apareciam. Trabalhadores do campo, vendedores de ouro, manicures. Num cenário de cacita, construção tradicional porto-riquenha, ele recebeu artistas convidados com ascendência latina, como Cardi B, Jéssica Alba e Pedro Pascal. Ao lado de Lady Gaga, exibiu uma cerimônia de casamento com baile ao ritmo de salsa, com direito a mesinhas, bolo e até criança dormindo nas cadeiras. Uma cena que ressoa na memória de todo latino. Uma das músicas mais políticas de Bad Bunny foi cantada por Rick Martin, sentado numa cadeira de plástico dessas que a gente está acostumado a ver nos fins de semana. A faixa Lo Que Passou a Hawaii fala sobre o impacto do imperialismo americano na cultura do Havaí. Ao final, uma única frase em inglês, no meio de um desfile de bandeiras. Ao fundo, um telão exibia a frase, a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. Logo depois do show, a reação. Donald Trump foi à rede social e disse... E voltou a afirmar que ninguém entende uma palavra do que o cantor diz e que as danças são repugnantes.
Commentator
Os Estados Unidos são também fruto dessa contribuição desses imigrantes que vêm da América toda, como bem disse o Bet Bunny fazendo ali uma aulinha particular de geografia para o Donald Trump, citando os países indo do sul até o norte, falando inclusive até o Canadá, todos os países que compõem a América, entre eles os Estados Unidos da América, que receberam uma contribuição gigantesca de todo esse continente. Além de, obviamente, contribuições de fora, da África, da Ásia, de tantos lugares, os Estados Unidos são essa mistura.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje é Bad Bunny versus Donald Trump. Neste episódio, eu converso com Arthur Dapiev, comentarista da Globo News e professor de jornalismo cultural na PUC-Rio. terça-feira, 10 de fevereiro. Dapi, o Bad Bunny saiu de Porto Rico pro centro da cultura pop global, é o principal nome da música pop hoje, acho que já podemos dizer isso. Em 2025, foi, por exemplo, o artista mais ouvido no Spotify e agora, em 2026, levou o Grammy de álbum do ano com Debby tirar umas fotos. Vamos entrar um pouquinho na história dele. Quem é o Bad Bunny para além desse fenômeno cultural que a gente vê hoje?
Arthur Dapieve
Natuzzo, o Bad Bunny, eu acho que parte da chave desse sucesso é que, claro, talento à parte, ele é um sujeito comum da classe média baixa de Porto Rico, filho de um motorista de caminhão com uma professora aposentada, que trabalhou duro para chegar nesse superestrelato do qual a gente está falando agora. Ele foi empacotador de supermercados e depois conseguiu passar para uma universidade em Porto Rico. Ele se habilitou a fazer comunicação audiovisual, o que teria tudo a ver com ele, mas não concluiu o curso. Ele queria ser locutor de rádio. Mas aí a carreira musical foi puxando ele mais e mais fortemente. Ele começou a apostar no SoundCloud, uma plataforma exatamente de divulgação de áudios, de música. E aí foi ganhando público em Porto Rico e, por conta da grande comunidade porto-riquenha em Nova York, em particular, mas nos Estados Unidos como um todo, ele foi ganhando um público grande e, a partir daí, explodindo também no resto da América Latina, na Europa e em outras partes do mundo. Então, o que a gente viu no Super Bowl talvez seja o auge, ou menos um primeiro auge, de um estrelato global que ele foi cavando, batalhando ali com talento, mas também com suor, o que sempre conta muito nesses casos. Ele suou a camisa para chegar onde ele está.
Narrator/Reporter
É importante a gente dar um pouquinho de contexto para a nossa audiência de que, de fato, esse é um dos eventos mais importantes do calendário norte-americano. O Super Bowl tem uma relevância para a sociedade, para os esportes e para a cultura norte-americana, que é mais ou menos a experiência que a gente vive com uma Copa do Mundo no Brasil. Algo muito expressivo, muito significativo. A título de exemplo, comerciais nesse momento do intervalo do Super Bowl chegaram a valer ontem mais de 10 milhões de dólares, mais de 50 milhões de reais.
Arthur Dapieve
É carismático e também ajuda hoje em dia no contexto do mundo e dos Estados Unidos em particular, ele por conta de posições prévias bater de frente com o Trump. Mesmo que não fale diretamente do Trump, o que ele prega para os Estados Unidos é substancialmente diferente daquilo que o Trump prega para os Estados Unidos.
Natuza Nery
Eu quero até entrar um pouco mais nisso, né? Em que momento o Bad Bunny se transforma em símbolo de resistência? Mas acho que não só para os latino-americanos. Há fenômenos muito curiosos. Por exemplo, em diversos vídeos de palestinos de Gaza, a música dele, justamente essa, que em português significa eu deveria ter tirado mais fotos, a música dele aparece. Ontem mesmo eu vi um vídeo de um chinês num ambiente de mais gente cantando a música do Bad Bunny e a notícia vindo logo na sequência de que chineses estavam procurando mais aprender espanhol justamente por causa do Bad Bunny. E muita gente faz isso sem nem entender o que ele tá cantando. Qual é esse ponto de virada dele? Como é que ele se transforma, na sua avaliação, nesse símbolo de resistência, tanto latina, no contexto americano atual, mas mais do que isso?
Arthur Dapieve
Ele lembra aos Estados Unidos o que são os Estados Unidos e o que é, na verdade, o que são as Américas. Aquela desfile de bandeiras mencionando os principais países do continente.
Natuza Nery
Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Brasil.
Arthur Dapieve
Colômbia, Venezuela, Guyana, Panamá, Costa Rica, Nicaragua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Cuba, República Dominicana, Jamaica, Indía, Andilha, United States, Canadá. Amo mi madrelanda, mi patria, Puerto Rico. Aquilo ali é um espírito que fica um pouco adormecido nos tempos de hoje, porque ao menos a ideia, a utopia dos Estados Unidos era que não importava de onde a pessoa vinha, mas qual era o destino dela e o destino pós-guerra civil, guerra da secessão, era fazer a América. que é meio uma coisa no imaginário mundial, daí a migração, a importância cultural e não só militar dos Estados Unidos. Eu acho que não só o Bad Bunny está no topo por conta desse talento, dessa capacidade de misturar estilos, porque, claro, ele faz música latina, ele canta em espanhol, usa ritmos de Porto Rico, de outros países latino-americanos. Mas ele também, ele é sobretudo um trapper, ou seja, ele canta o rap mais pesado, mais sombrio, com uma batida mais grave. É assim, digamos assim, que era o cartão de visitas dele no mundo da música, mas ele mistura variadas influências. No meio da carreira dele, que na verdade em termos discográficos, como se dizia, tem só oito anos, Ele tinha músicas que faziam referências ao polícia, bandas de rock inglesas, então ele tem uma universalidade. E na verdade ele é universal sendo particular, sabe, como naquela famosa frase. Ele decidiu cantar a aldeia dele, pintar a aldeia dele.
Political Analyst
Porto Rico é uma ilha do Caribe e é considerado um território não incorporado dos Estados Unidos. Isso significa que Porto Rico pertence aos Estados Unidos, mas não é nem o estado da federação e nem um país independente. Os porto-riquenhos, então, são cidadãos americanos, têm a cidadania americana, só que eles têm um status político limitado. O Congresso americano, por exemplo, é quem, ditas regras, controla as fronteiras de Porto Rico, a defesa e até mesmo as relações internacionais que a ilha tem com o mundo inteiro. Os moradores de Porto Rico não podem nem votar nas eleições presidenciais americanas, sendo que é o Congresso americano que cuida da vida deles.
Arthur Dapieve
Nisso ele canta o mundo, daí a possibilidade de ser atendido, cultuado, admirado por chineses, palestinos, moradores de Gaza, enfim, libaneses, por conta dessa universalidade que ele atingiu por intermédio da música propriamente dita. Quanto ao espanhol, ao castelhano, A maneira de cantar dele também não é muito fácil de entender para todos os falantes de espanhol. Porque do Chile até o México se fala espanhol de maneiras muito distintas. Mas muita gente também nunca entendeu os Beatles e cantava os Beatles, embora os Beatles falassem de uma maneira clara que não era a maneira com que eles falavam entre si. Eles falavam inglês muito de de livro de aprendizado, quando na verdade o sotaque de Liverpool é bem mais complicado. E aí as pessoas entendem, porque o sentimento de raiva, ou de alegria, ou de emoção amorosa mesmo, passa na voz, mesmo que a gente não entenda a voz.
Natuza Nery
Mas e essa pegada política nesses oito anos de discografia?
Arthur Dapieve
Eu acho que o que torna ele esse porta-voz de uma luta política, que não é só latina, não é só americana, eu acho que foi a raiva. Eu acho que a raiva é um baita de um poder também, quando você se indigna com alguma coisa. O primeiro marco mais político na carreira dele é quando, na convenção ainda, que elege o Trump em 2024, Um comediante republicano faz um comentário dizendo que Porto Rico era uma ilha de lixo no meio do Caribe. E aí naquela ocasião o Bad Bunny faz um political statement porque ele replica uma mensagem da Kamala Harris. Ele se posiciona a favor da outra candidatura. E eu acho que a partir daí com a eleição do Trump, com as políticas implementadas pelo governo Trump, pelos comentários do Trump e de seus principais assessores, essa raiva, essa indignação de ver Porto Rico tratado como um lugar de segundo escalão, uma terra de ninguém, associado aos Estados Unidos, mas não parte dos Estados Unidos, eu acho que isso cresceu.
Puerto Rico Expert
Ele disse que Porto Rico é um dos lugares mais corruptos da Terra, isso pelas redes sociais, falou que o sistema político está quebrado ali nessa ilha, nesse território americano, e que os políticos são incompetentes. Lembrou que o Congresso aprovou bilhões de dólares na última vez para ajudar a ilha, mas que o dinheiro foi parar nas mãos de políticos desonestos. As autoridades de Porto Rico acusaram o presidente americano de ser negligente, de tratar de maneira desigual Porto Rico, do Texas e da Flórida, que enfrentaram furacões também naquela mesma época que Porto Rico enfrentava. E naquela época, o presidente Trump chegou até a ameaçar retirar a ajuda federal da ilha, alegando que não poderia ajudar para sempre e dizendo até que a ilha já estava muito mal antes, com problemas de infraestrutura e dívidas de bilhões de dólares.
Arthur Dapieve
Eu acho que talvez o germe disso tenha estado naquele furacão que varreu Porto Rico. Trump foi a Porto Rico, maltratou Porto Rico como se fosse realmente uma ilha de lixo no meio do Caribe. Então, ver-se desrespeitado, ser desrespeitado, acho que isso foi alimentando o lado político do Bad Bunny. E, ao mesmo tempo também, é bom que você diga que esse lado político, em tempo de rede social, também ajuda a engajar os fãs. Então, juntando a música e juntando o posicionamento político, ele percebeu que tinha um campo ali que ele podia externar as opiniões e, ao mesmo tempo, fazer a música dele ser ainda mais conhecida.
Natuza Nery
E esse show do Super Bowl teve recorde de audiência, foram 135 milhões de telespectadores. E ali ele aparece com uma bandeira de Porto Rico, num tom de azul mais claro, que é associado à causa da independência do território em relação aos Estados Unidos, colocou a bandeira de diversos países da região com a inscrição juntos somos a América, então ele ressignifica essa ideia de América também, é muito curioso, inclui inclusive o Brasil, então uma apresentação Cheia de statements para ficar no anglicismo, né? Cheia de marcos, de posicionamentos políticos muito fortes. Queria, então, rechear essa percepção com as tuas avaliações sobre esse momento.
Arthur Dapieve
Eu acompanho esse show de Super Bowl há muito tempo, por conta primeiro do esporte e depois os shows foram ficando crescentemente mais importantes a partir de um show do Michael Jackson em 1993. Olha, eu nunca vi algo tão bem pensado quanto o show do Bad Bunny. Claro que musicalmente tem atrações que me são mais caras, tipo os Rolling Stones, por exemplo. Agora, em termos de cenografia, de coreografia, de simbologia, nada chegou nem perto disso. Porque a coreografia era particularmente complicada, a maneira como as pessoas interagiam e como ele ia passando aquele cenário. ali marcado, sobretudo, por aquelas plantações de cana fake, de cana-de-açúcar fake, ele vai conduzindo aquilo e cada um daqueles quadros, daquelas cenas, porque é quase um curta-metragem de 13 minutos, Vai marcando a identidade porto-riquenha com a cana-de-açúcar, com os senhores jogando dominó, com as mulheres fazendo a unha, vendendo bebidas, como os boxeadores que fazem parte também do orgulho nacional porto-riquenho. O tom da bandeira, como você disse, que é o mesmo tom de azul usado no vestido da Lady Gaga, que era a coisa mais fora do padrão ali por cantar em inglês e por não ter uma ligação direta com aquela história, uma ligação artística, certamente. E esse desfile de bandeiras final que ele menciona os países, ele subverte esse slogan, God Bless America, que é usado por todos os presidentes americanos, mas é pensado com a América igual a Estados Unidos da América. Ele lembra que as Américas são todas as Américas, do Sul, Central e do Norte. Então, ele vai do Chile ao Canadá, passando pelo Brasil, Cuba, lembrando que tudo isso é América. Na verdade, ele poderia expandir isso para o mundo todo, por conta das comunidades que vivem lá. Então, o tom da bandeira, as bandeiras, o que ele está falando, o fato dele não falar em inglês no show, a única frase é exatamente, God bless America. É tudo um political state, uma maneira como ele se porta, o colorido da apresentação, a maneira como as pessoas gesticulam. É tudo dizendo, olha só, nós somos porturriquenhos, nós somos latinos, nós ainda estamos aqui. Aliás, ele diz isso no final da apresentação. E tudo isso conduzido pela bola, né? Porque ele tá com a bola oval durante boa parte desse percurso e perto de terminar mesmo ele joga aquela bola no chão como quem faz um touchdown, como quem faz um gol de futebol americano.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Dapief. É muito curioso isso, porque a gente vem observando o Estado, e aí eu falo da Casa Branca, que lidera o AIS, num processo de desumanização dos latinos, o que tem acontecido lá. A gente lembra da detenção de um garotinho de cinco anos de idade, o Liam, da morte da René Guri, enfim, tantas outras tragédias, famílias separadas, enfim, é um processo muito triste para a comunidade latina em geral, para os imigrantes latinos e, de uma certa maneira, me pareceu que esse show dele foi uma estaca, assim, de que não, olha aqui, nós somos latinos e temos que nos orgulhar de sermos latinos. Eu queria tentar dimensionar um pouco do potencial impacto político disso, porque quando a gente olha para os números, Trump vem perdendo apoio na comunidade latina. Há um levantamento publicado na CBS, uma pesquisa de opinião, mostrou que o apoio de Trump entre latinos caiu de 49% para 38% nos últimos 12 meses, mas os resultados ainda são positivos para Trump, a despeito desse momento que eu acabei de descrever. Você acha que episódios assim, que marcos assim podem aprofundar um desgaste, tem esse poder ou esse condão de aprofundar o desgaste de Trump na população latina, nos Estados Unidos?
Arthur Dapieve
Eu acho que sim, Natuza. Essa audiência que você mencionou de 135 milhões, isso é nos Estados Unidos, mais o bilhão e tanto que assiste o show pelo mundo. E parte desse bilhão na América Latina, ou seja, em familiares, amigos de quem mora, dos latinos que já moram, nasceram num território americano. Então acho que o show dele capta o espírito do tempo. Não só ele cria o momento, como ele é criado pelo momento. Se a gente pensar, por exemplo, no filme Uma Batalha Depois da Outra, que é um dos concorrentes ao Oscar, é mais ou menos o mesmo cenário. Perseguição, encarceramento de crianças, de latinos, desumanização, como você bem lembrou. Tem um momento no show dele que a gente ficou até em dúvida na hora que acontecia, porque ele aparece entregando o Grammy que ele ganhou na semana passada para um garotinho. Seria ele aquele garoto que foi preso? Na verdade, é uma representação dele mesmo, o Bad Bunny jovem. A camisa é uma camisa que tem uma foto do Bad Bunny com aquela camisa listradinha. Então, ele se nutre desse momento e eu mesmo tenho um realimento desse momento. Eu acho que o Trump tem perdido apoio em todos os segmentos, por variadas razões, mas em todos os segmentos. e nesse segmento isso tende a se acirrar, porque aí você tem um porta-voz que foi maltratado pelo Trump o tempo inteiro, inclusive depois do espetáculo no Super Bowl, o Trump posta dizendo que ninguém entende uma palavra do que esse sujeito disse, ou seja, desconsiderando 20% da população americana que entende, sim, o que o Bad Bunny está cantando, como se o Bad Bunny tivesse falado apenas bobagens, balbuciado coisas.
Right-wing Commentator
Eu hoje conversei com alguns integrantes da direita ali, bolsonaristas, achando, avaliando que esse é o pior momento do governo Trump, desde o comecinho, porque é aquela junção de fatores. Você tem o tiro no pé que foi, aquele vídeo publicado na semana passada, aquele vídeo racista contra o casal Obama. Aí você tem essa ascensão e Bad Bunny marcando, fincando o pé também com essa grande liderança contra o AIS, que vem cometendo esses abusos, esses erros, esses crimes contra a sociedade americana. E você tem o show de ontem, e ainda por cima a reação do Trump.
Natuza Nery
Donald Trump classificou a apresentação do astro porto-riquenho como terrível, uma afronta ao que ele chama de grandiosidade da América. Também afirmou que ninguém entende uma palavra do que o astro fala.
Arthur Dapieve
Então, acho que esse desgaste tende a se aprofundar não só por conta do bad bunny ou do filme, mas por conta das próprias políticas particularmente cruéis ali do AIS.
Natuza Nery
E me parece que a percepção geral é um pouco essa a que você se refere, ou pelo menos do ponto de vista amplo, do ponto de vista da cultura latina mesmo. A página de opinião do New York Times publicou hoje um artigo dizendo a guerra cultural acabou. Bad Bunny ganhou. Então, ele tá sendo projetado nesse lugar, né?
Arthur Dapieve
Ele corporifica essa guerra cultural, o lado vencedor, aí segundo o New York Times, mas tem todo um momento, não só nos Estados Unidos, mas não dá pra gente também se excluir nisso. Ainda estou aqui, ter ganhado o Oscar de Melhor Filme Internacional ano passado, e de O Agente Secreto, tá muito bem cotado esse ano. Falando de coisas brasileiras, da história sombria do Brasil, também faz parte desse pacote de orgulho, assim, olha, ainda estamos aqui, a frase talvez não seja casual. Fazemos cinema, fazemos música, vivemos, alegramos, etc. Então tem uma coisa de júbilo, de orgulho, se o Trump e os seus desumanizam os latinos, é ele pregando o orgulho latino e esses filmes e outros artistas, mostrando que, ora bola, somos todos humanos, alguns calham de ser latinos, outros anglo-saxões.
Natuza Nery
E me chama a atenção o fato dele não ter feito, na turnê dele, uma apresentação nos Estados Unidos continental, justamente para evitar uma aglomeração de fãs imigrantes que pudessem ser capturados pelo Ice.
Arthur Dapieve
E até o temor de que, durante o Super Bowl, isso pudesse acontecer de alguma forma. Só que o público que vai ao estádio no Super Bowl não é, sobretudo, o público do Bad Bunny ou da Lady Gaga. É o público que torce pelos dois times envolvidos ali. Então, se alguém tivesse tido essa ideia de Jericho, ela teria que ter sido desmobilizada, porque, do ponto de vista da propaganda, do ponto de vista político, teria sido absolutamente desastrosa. Agora, shows específicos dele, ele tirou do território americano continental. Ele vai se apresentar logo depois do carnaval aqui em São Paulo, no estádio do Palmeiras. Ele selecionou ali alguns lugares e, mais do que nunca, esses shows pelo mundo são hiper-aguardados, porque ele saiu do Super Bowl ainda maior do que ele entrou naquele intervalo.
Natuza Nery
E não há nada mais político do que a cultura, do que essa batalha cultural. E não a prevalência de uma cultura sobre a outra, mas simplesmente o envio da mensagem de que uma cultura é importante, que a cultura latina é importante. Não em detrimento de outras, mas simplesmente importante. Eu queria falar contigo, Dapi, sobre um outro movimento que é conexo a esse, que é toda a retórica do presidente Trump em relação à população latina. Um estudo feito pelo Cato Institute. que é um think tank sediado em Washington, analisou as contas públicas dos Estados Unidos ao longo de quase três décadas, isso de 1994 a 2023, e concluiu o seguinte, que os imigrantes geraram um superávit fiscal de 14,5 trilhões de dólares, o que vai na contramão do discurso do presidente dos Estados Unidos.
Arthur Dapieve
Esse estudo é decisivo, me parece, para quem lê, muito convincente no sentido de dizer, olha, os imigrantes não estão aqui tirando dinheiro, tirando vagas da população que já estava aqui estabelecida. Pelo contrário, eles estão permitindo que esses empregos, que essas vagas surjam. Isso é muito claro na história dos Estados Unidos inteira, um país feito basicamente por imigrantes. E isso colocado na ponta do lápis por um estudo econômico, por esse think tank muito ligado à liberdade civil, mostra claramente que isso é uma falácia. É xenofobia, racismo, mas não tem nenhuma base pragmática. No final de semana, no mesmo New York Times, publicou um artigo do primeiro-ministro espanhol, do Pedro Sanchez, que ele defendia a imigração para o Ocidente. Ele dizia, olha, a gente precisa de mais imigrantes e não de menos imigrantes. Claro que ele puxava a sardinha para a brasa dele, que está legalizando 500 mil imigrantes ilegais na Espanha. Mas ele diz, olha, tem uma razão pragmática pra isso, porque eles oxigenam nossa economia, eles ajudam a economia a funcionar, sem eles a nossa seguridade social vai falir, a gente não vai ter como sustentar esse estado de bem-estar social, ele não usa essa expressão, mas é o que eu penso aqui. Se eles não tiverem oxigenando a economia, rejuvenescendo nossa população, que como da Europa Ocidental como um todo, tem envelhecido muito rapidamente, a taxa de natalidade é muito baixa. Ele dá esse argumento pragmático. E ele diz, e tem um argumento moral também. Durante décadas, nós, espanhóis, saímos do país em busca de vida melhor, em outros países das Américas, sobretudo, mas do mundo, é moralmente imperativo que a gente aceite imigrantes de outros países que, nesse momento, estão procurando a Espanha por conta de um melhor momento econômico aqui. Então, artigo muito contundente também no sentido de dizer, olha, isso é uma mentira. É necessário acolher esses imigrantes, não só porque nós somos bonzinhos, mas porque eles fazem bem pra gente.
Natuza Nery
E você acha que essa ainda relativamente alta aprovação, não dá para chamar de alta, mas enfim, caiu de 49% para 38%? Eu repiso esse número de uma pesquisa que foi divulgada pela CBS. se deve ao fato de a população latina nos Estados Unidos ser super heterogênea, né? Porque todo mundo diz, toda eleição, não tratem latinos como se fossem uma coisa só porque eles não o são. Ao comparando é como se fala erroneamente da comunidade evangélica no Brasil, que também é super heterogênea, né?
Arthur Dapieve
Sim, ela é muito diferente. Depende da origem, quer dizer, do país da pessoa. Depende naturalmente da classe social dessa pessoa. Essa visão monolítica, que é errada, é usada nos Estados Unidos como latinos. São muito variados, inclusive na própria maneira de falar espanhol. A gente usa também isso em relação aos árabes, que são muito variados. os evangélicos no Brasil, você mencionou, não é monolítico. E claro, tem gente muito conservadora por questões ideológicas, Cuba, etc. O caso do Marco Rubio, filho de cubanos, que serão os últimos ali, talvez permaneçam com o Trump para sempre. E tem um outro fenômeno que afeta não só a comunidade latina nos Estados Unidos, mas é um fenômeno que se verifica em todos os países onde há uma imigração importante. Os imigrantes, sobretudo os de primeira geração, tendem a ser refratários a mais imigrantes. Eles se tornam assim como se fossem mais realistas que o rei. Hoje, também cumprindo uma prisão, o Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França, ele era filho de húngaros e ele tentou implementar políticas anti-imigratórias bem mais rígidas para a França. Então isso é bem comum, esse fenômeno de vamos garantir aqui o que é nosso e não vamos repartir o que é nosso com quem estiver chegando agora. Isso vai sempre responder, me parece, por um contingente dentro dessas comunidades de apoio a quem defende políticas anti-imigração. Mas no meio, na média da população, esse apoio tende a cair, por conta de ações do ICE, por conta de pronunciamento de gente como o Bad Bunny, por conta, enfim, da percepção de que tem uma cisão entre aquilo que o Trump tinha prometido na campanha, que era atacar a imigração ilegal, e na verdade ele tem feito mais do que isso. Ele tem perseguido também migrantes ilegais e os dois mortos nessas ações do ICE em Minnesota, cidadãos americanos plenos.
Natuza Nery
Meu querido amigo Arthur da Pieve, que prazer enorme receber você aqui no Assunto. Muito obrigada, muito obrigada por tantas doses de conhecimento aqui pra gente. Bom trabalho pra você.
Arthur Dapieve
Obrigado a você. Bom trabalho pra ti, Natuza.
Natuza Nery
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Este episódio usou áudio do canal americano Newsmax. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catellan e Luiz Gabriel Franco. Colaborou neste episódio Paula Paiva Paulo. Eu sou Nathuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 10 de fevereiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidado principal: Arthur Dapieve, comentarista da GloboNews e professor de jornalismo cultural na PUC-Rio.
Neste episódio, Natuza Nery e Arthur Dapieve exploram o impacto cultural, político e social da apresentação histórica de Bad Bunny no show do intervalo do Super Bowl e o embate que se formou entre o astro porto-riquenho e o ex-presidente americano Donald Trump. A conversa aborda a força crescente da influência latina nos Estados Unidos, a relevância de Bad Bunny como símbolo de resistência, a reação controversa de Trump, o contexto da imigração e as tensões culturais em um momento crucial da política americana.
Superação e Protagonismo Global
Conquistas Recentes e Recordes
Show de Intervalo com Sinalizações Políticas
Aspecto Político e Cultural
Audiência do Super Bowl e Potencial de Mobilização
Desgaste Político para Trump
Arthur Dapieve (05:54):
“Ele suou a camisa para chegar onde ele está.”
Natuza Nery (01:52):
“A cada caminhada de Bad Bunny, novos elementos apareciam [...]. Uma cena que ressoa na memória de todo latino.”
Arthur Dapieve (11:02):
“Ele canta o mundo, daí a possibilidade de ser atendido, cultuado, admirado por chineses, palestinos, moradores de Gaza…”
Donald Trump (22:20):
“Ninguém entende uma palavra do que o astro fala.”
Arthur Dapieve (26:12):
“É xenofobia, racismo, mas não tem nenhuma base pragmática.”
O episódio retrata, de modo aprofundado e acessível, como música, identidade e política se cruzam hoje nos EUA — mostrando Bad Bunny como exemplo maior dessa força e Donald Trump como símbolo do rechaço, do xenofobismo e da rejeição à diversidade. A discussão incluiu nuances sobre cultura, economia e política de imigração, ressaltando a importância das culturas latinas no cenário americano e global.