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Natuza Nery
Tim Black, um plano exclusivo pra você descobrir a sua melhor versão. Que os homens de amanhã que aqui vierem tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra. A frase que você ouviu está escrita no teto da Câmara dos Deputados em Brasília. Descoberta em 2011 após uma reforma, essa frase foi deixada entre as lajes da Casa do Povo. A mensagem foi escrita por um dos migrantes que construíram a capital do país e revela uma visão de futuro. Um sonho de igualdade. Trata-se de uma construção de significados que refletem seu formato. Uma cúpula voltada para cima. Sugerindo conexão com os 158 milhões de eleitores brasileiros que a cada quatro anos elegem seus representantes para o Legislativo e para o Executivo. No caso da Câmara, os 513 deputados federais. Essa é a frase de esperança de um país, esperança num país, um país justo para todos os filhos do Brasil. É a mensagem que vai valer para hoje, para amanhã, para sempre. Mas o que deveria ser a casa do povo, por vezes se transforma em um labirinto de interesses próprios e bastante distantes das demandas da população. No caso mais recente, os deputados aprovaram, a toque de caixa, a chamada PEC da blindagem. um escudo, um escudo que leva à impunidade. Especialistas e entidades da sociedade civil consideram o texto um retrocesso para a democracia brasileira, porque torna mais frágeis mecanismos que hoje permitem a responsabilização de políticos nas esferas cível e penal.
Fernando Abrúcio
E como é que você vai justificar essa altura do campeonato, uma PEC para blindar o parlamentar? Você cria uma casta especial.
Natuza Nery
E horas depois... A Câmara dos Deputados aprovou a urgência para votar um projeto de amnistia para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. E, de novo, foi uma vitória com placar expressivo. Logo ao lado da Câmara está o Senado, com a sua cúpula fechada em sinal de ponderação. A casa que representa os estados modera decisões e debates. E de cada um dos lados do edifício do Legislativo, os outros dois poderes da nossa República. O Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo, e o Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição. Ouça o que diz o jurista Cláudio Janotte.
Fernando Abrúcio
A praça dos três poderes, ela reflete Brasília, esse pensamento democrático de Brasília. Ela reflete o que é a distribuição do poder e a organização e qual que é o objetivo disso tudo. Você não dividir uma sociedade através de segmento social.
Natuza Nery
Ao pé da letra, o coração do poder no Brasil é a metáfora viva do que deveria ser o equilíbrio entre executivo, legislativo e judiciário. algo um tanto distante na nossa realidade atual.
Fernando Abrúcio
A gente vê que há um conflito em andamento, um confronto em andamento entre Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Um líder me falou o seguinte, se passar esse projeto de lei da anistia, vira briga de rua. A crise institucional vai ser sem precedentes, essa história de emenda vai vir com força, então vira um negócio assim que a gente não sabe como termina.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Nath Zaneri e o assunto hoje é Câmara, a casa do povo, de costas pro povo. Neste episódio, eu converso com Fernando Abrúcio, professor da FGV São Paulo e comentarista da Globo News. Sexta-feira, 19 de setembro. Meu caro Fernando Abrúcio, em poucos dias o Congresso fez um verdadeiro strike. Congresso não, vamos chamar de Câmara dos Deputados porque a confusão está instalada lá, vai chegar, está chegando no Senado, mas agora o ato é na Câmara. PEC da blindagem, urgência da anistia, aliás, Sem um texto pronto, a gente não sabe o que é a proposta da Anistia, cuja urgência já foi aprovada. Bom, eu sei que você considera que a gente está vivendo um dos piores dias do Congresso Nacional. De novo, localizando na Câmara dos Deputados até aqui, eu quero saber por que e desde quando vem essa sua comparação. Por que que agora também é um dos piores momentos?
Fernando Abrúcio
Natuzzi, eu acho que é um dos piores momentos da Câmara Federal desde a redemocratização, porque a distância entre os deputados, e é bom separar a Câmara do Senado, a distância entre os deputados da cidade está aumentando. Essa distância, essa autoproteção dos deputados começou mais fortemente a partir de Eduardo Cunha e chega agora a Eduardo Bolsonaro, de Eduardo Eduardo. Que Deus tenha misericórdia dessa nação. E essa distância chegou ao seu nível máximo por conta de três coisas dessa semana, Atuza. Primeiro, a PEC da impunidade. As redes sociais estão chamando de PEC da bandidagem, que cria um sistema de proteção aos deputados que os transforma numa casta, enquanto o restante são, na verdade, todos nós, somos cidadãos de segunda classe. Proteção completa contra a justiça. Segundo a PEC da Anistia, como você bem disse, foi aprovada uma urgência de algo que a gente nem sabe o que é, mas cujo objetivo é reduzir a defesa do Estado Democrático e do Direito, porque tem muita gente que não quer que seus líderes ou aliados sejam presos por muito tempo.
Natuza Nery
Já foi oficializada a relatoria do projeto da Anistia. O relator do projeto será o deputado Paulinho da Força, do Solidariedade de São.
Fernando Abrúcio
Paulo, Acho que a única coisa que cada dia fica mais clara, cada minuto fica mais clara, é que a Anistia, o projeto da Anistia, não existe mais. Nós não estamos mais nem falando de projeto de Anistia, nós estamos falando de um projeto que possa facilitar o Brasil.
Natuza Nery
O relator disse que não sabe se nesse momento esse projeto vai, de alguma forma, ajudar Jair Bolsonaro, mas que será um projeto de redução de penas. Eles já veem a possibilidade, admitem a possibilidade de articular uma prisão domiciliar para o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ainda que isso não esteja no texto que será discutido aqui na Câmara, aqui no Congresso, mas eles admitem sim essa articulação.
Fernando Abrúcio
E para completar essa história de desatino, de completa alienação dos deputados em relação à sociedade, a transformação do deputado Eduardo Bolsonaro em líder da minoria no Congresso, sendo ele um deputado que já não está há meses no país e pior, que conspira às claras, publicamente, contra o país, gerando desemprego e desgraça para os brasileiros. É uma tentativa para proteger o parlamentar do risco de perder o mandato por faltas e exceções. Sem contar o período de licença, o deputado Eduardo Bolsonaro tem calculadas, pela direção da Câmara, 20 faltas não justificadas em 33 sessões. Isso ultrapassa o máximo de faltas permitidas. Em 2015, uma resolução da Mesa Diretora da Câmara abriu uma brecha para permitir que integrantes da Mesa Diretora e os líderes de partidos políticos e de bancadas tenham as ausências automaticamente justificadas. Então essa é a pior semana desde a redemocratização, porque a Câmara chegou a um ponto cuja distância para a sociedade seria inimaginável há algum tempo. E um grau de autoproteção frente à lei, frente ao Estado Democrático de Direito, que transforma os deputados não só numa casta, mas transforma a Câmara Federal num poder que não pode ser controlado pela sociedade. É o pior momento da Câmara desde a redemocratização, Natuza.
Natuza Nery
Eu queria falar com você sobre as consequências. A gente sabe que a classe política opera da seguinte forma, né? Situações muito controversas em votações extremamente polêmicas, eles tentam avançar em bloco. E aí, a depender da reação da opinião pública, eles recuam. Dessa vez, Abrúcio, mesmo com a reação da opinião pública, eles avançaram. Se eles conseguirem ganhar esta parada, PEC da blindagem, anistia para um julgamento que nem terminou ainda na prática, O que isso significa?
Fernando Abrúcio
Isso significa que o medo da justiça, o medo da lei, o medo de ser condenado ou preso, hoje é maior do que o medo de perder votos. É bom dizer que esse processo não é só comandado por uma parte do centrão, não é todo o centrão, mas uma parte, a parte maior do centrão na Câmara, mas por presidente de dois partidos que viraram uma federação, o EDA e o Ciro Nogueira. É este grupo que está comandando o maior processo de alienação da Câmara em relação à democracia. Porque hoje eles têm medo mais da justiça do que perder votos. Porque se a gente olhar para as redes sociais, as pesquisas de opinião já têm sido feitas, quantitativas, qualitativas, têm mostrado um sentimento de nojo da sociedade em relação ao que eles estão fazendo.
Natuza Nery
A Nexos, Pesquisa e Inteligência de Dados, fez um levantamento sobre como as redes sociais reagiram à aprovação da PEC e da blindagem. No X, o assunto teve 33 milhões de impressões, que é o número de vezes que o conteúdo foi visualizado. A expressão PEC da bandidagem assumiu o primeiro lugar nos Trending Topics da rede, com mais de 1 milhão de menções, seguido por PEC da blindagem. Nas plataformas da Meta, Instagram e Facebook, o nome do presidente da Câmara, Hugo Mota, foi o mais citado. E na sequência, PEC da Bandidagem, Votação Secreta e STF.
Fernando Abrúcio
Muita gente do Centrão vai perder voto e quem se aliar a ele, inclusive candidatos presidenciais, vai perder voto. Porque tem gente com medo do processo relacionado à garantia do Estado Democrático de Direito, na verdade com medo de perder o seu grande, digamos, líder eleitoral, que é o presidente Jair Bolsonaro. Há uma defesa enorme de Jair Bolsonaro. Tem gente com medo de crimes contra o erário público. E aí, como a gente viu nessa semana, né, Natu, se espalhou por quase todos os partidos um voto no fundo que é o seguinte, Não queremos que vocês investiguem os possíveis crimes que há com nossas emendas parlamentares e tem gente vinculada a crime mais graúdo. Esse é o problema. Neste momento, não é apenas um crime vinculado a uma relação de um mau uso da administração pública, nem um crime muito mais grave, na minha opinião, que é o crime contra a democracia, que já foi um degrau a mais, mas está subindo mais um degrau, que é gente vinculada a crime muito graúdo. Após reportagem que foi feita pelo ICL Notícias e também pelo portal Uol, que trazem o depoimento do piloto de avião Mauro Matosinho à Polícia Federal. Esse piloto fala de supostas ligações do rueda com o crime organizado. A TV Globo confirmou. a existência desse depoimento. Conforme a apuração do repórter Reinaldo Turolo, o depoimento foi prestado no aeroporto de São Roque, no interior de São Paulo, no âmbito da investigação da PF sobre lavagem de dinheiro pro PCC. O piloto disse que ouviu dentro da empresa que Antônio Rueda era dono oculto de algumas aeronaves usadas para transportar chefes de organização criminosa. A gente apurou que Rueda não é formalmente investigado no âmbito desse inquérito. Portanto, tem um desatino. Acho que a fala do senador Davi Alcolumbre, na verdade, no fundo mostrou um momento em que a Câmara e parte dos partidos, inclusive do presidente do seu partido, esse pessoal perdeu o juízo porque está com muito, muito medo, Natuza.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Fernando Abrúcio. Abruzzio, o que seria necessário para inverter essa lógica, para que o parlamentar não perdesse o interesse do eleitor, que é a razão de existência dele de vista?
Fernando Abrúcio
Na forma mais imediata, o que está ocorrendo é um contrapeso do Senado, que é muito difícil ter 49 votos para a PEC da blindagem ou da bandidagem, acho que isso já ficou muito claro, isso aí foi um suicídio político de gente que está desesperada, com muito medo de processos. No Senado Federal, a avaliação é que Esse texto não passa, é da PEC da blindagem. E por uma questão muito simples, ano que vem é ano eleitoral, o Senado é voto majoritário. Como é que esses senadores vão explicar para os seus eleitores? Vai ter uma renovação de dois textos. No caso também da Anistia, acho que vão tentar encontrar uma solução no Senado, negociando com a Câmara, de redução de penas, mas ainda punindo quem fez isso. Mas isso pode ainda escorregar, ninguém tem a garantia completa dessa defesa do Senado. E aí cairia no colo do Supremo. E o Supremo, na atuação, está muito sobrecarregado para defender as gestões brasileiras. Porque quanto mais ele defende, mais parece que ele tem mais poder. As duas coisas são verdadeiras. Mas acho, Natuza, que diante de uma reação mais de curto prazo, de uma reação mais profunda da sociedade, no meio do caminho vão ter notícias mostrando que algumas dessas pessoas são suspeitas de cometer algum tipo de crime. E isso vai explodir no colo do presidente da Câmara.
Natuza Nery
Hugo Mota, antes da gente chegar nesse personagem, Abruzio, Eu insisto aqui, eu acho que no jornalismo eu vejo isso como missão da imprensa que é mostrar para a população que a eleição mais importante do Brasil não é a eleição para o executivo, a eleição mais importante do Brasil é a eleição para o legislativo. Porque a gente vive uma sequência de governos de minorias na prática, governos que dependem muito de grupos políticos como o centrão, e toda vez que a gente fala a palavra centrão, vem uma imagem na nossa cabeça, mas a gente não consegue individualizar as condutas desse grupo político chamado centrão. A eleição do Legislativo, que é a eleição mais negligenciada pelos brasileiros, é contraditoriamente a mais importante de todas, né?
Fernando Abrúcio
Eu acho que tem duas razões que levam a gente a dar mais importância à eleição do Legislativo, tanto ao Senado quanto da Câmara. O Senado eu vou falar mais adiante, mas na Câmara há dois motivos.
Natuza Nery
Mais ou menos importância?
Fernando Abrúcio
Eu acho que tem importâncias diferentes. A Câmara hoje é fundamental por duas razões. Primeiro, porque os governos que têm sido eleitos, e vale para todos, têm sido muito minoritários numa Câmara muito poderosa. Portanto, a gente precisa de gente ali que seja mais responsável perante o interesse público. Uma combinação de governos minoritários com uma Câmara muito poderosa e que não respeite o interesse público é um espaço enorme para criar uma casta, uma casta que não vai responder à sociedade. Segundo, porque esses representantes estão criando regras contra a democracia e contra a república brasileira, os eleitores deviam pegar essa lista dos deputados que votaram a favor da PEC, da blindagem ou da bandidade e espalhar por todos os colégios eleitorais do país, porque isso é muito grave, muito grave. No Senado, Natuzzi, eu acho que o tema fundamental é uma força política que quer ganhar a maioria no Senado pra enfraquecer, ou diria mais, pra emudecer o STF. Não é pra fazer o impeachment de um ministro, é pra emudecer o STF. Por que isso? Porque o STF, de um lado, foi o que garantiu a democracia brasileira, com acertos e erros, mas que garantiu a democracia brasileira. Não foram manifestações sociais. não foram manifestações de rua. E por outro, porque o STF, e aí olhando pra Câmara, tem sido o anteparo a todo esse arsenal de medidas antirrepublicanas e antidemocráticas que a Câmara tem aprovado desde Eduardo Cunha até agora Eduardo Bolsonaro, essa coisa mais maluca que é transformá-lo de líder da minoria não estando no Brasil e conspirando contra o Brasil e sendo inclusive objeto de um inquérito no Supremo Tribunal Federal. Vamos lembrar disso. A Polícia Federal indiciou o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro do PL por coação no curso do processo que investiga a tentativa de golpe de estado. Segundo a PF, Eduardo Bolsonaro enviou mensagens ao pai evidenciando que a real intenção dos investigados não seria uma amnistia para os condenados pelos atos golpistas realizados no dia 8 de janeiro de 2022, mas sim interesses pessoais. Então assim, a eleição da Câmara é central pra gente ter um equilíbrio republicano e saudável entre o executivo e o legislativo, o que não temos hoje, qualquer que fosse o presidente, não teríamos. Ela é fundamental pra que a Câmara comece a responder à sociedade, por isso vamos espalhar a lista de quem votou pela PEC da blindagem ou da bandidagem. E o Senado é fundamental pra gente não emudecer o STF, a gente tem que melhorar o STF, porque se a gente emudecer o STF, Junto com isso vai toda a República Democracia Brasileira, Natuza.
Natuza Nery
Bom, nessa semana também houve um outro fato político. O PL oficializou Eduardo Bolsonaro como líder da minoria na Câmara. Um deputado que está sendo investigado agora pelo Supremo Tribunal Federal, está auto exilado nos Estados Unidos. Como é que você lê essa nomeação e qual é a relação do centrão com o bolsonarismo hoje? Que casamento é esse e que tipo de consequências esse casamento traz?
Fernando Abrúcio
Hoje é um casamento entre uma boa parcela do centrão e bolsonarismo para cada qual defender seu lado. O bolsonarismo garante sua defesa antidemocrática do jogo político, tentando salvar Bolsonaro e conspirar contra o Brasil lá dos Estados Unidos e o centrão garante nessa aliança com o bolsonarismo um conjunto de medidas antirrepublicanas que protegem os deputados e os presidentes do partido, e a gente sabe que são dois presidentes que estão aí, na verdade, sendo protegidos, de qualquer investigação da justiça. Esta aliança é uma aliança de ocasião. Um quer, na verdade, garantir a possibilidade de chegar ao poder e não respeitar a democracia. O outro quer continuar sendo a grande balança do poder, mas em troca ganhando direitos antirrepublicanos, uma capacidade de usar o recurso público e não ser investigado pela justiça que em nenhuma democracia há. Portanto, esse casamento de ocasião é um casamento perverso para a sociedade brasileira. Eu acho que em algum momento ele vai quebrar, Natuza, porque o bolsonarismo radical vai perceber que, no fundo, o centrão finge proteger o bolsonarismo, aceita o Eduardo Bolsonaro como líder da minoria, mas eles estão querendo rifar o pai, o Jair Bolsonaro. Na hora em que isso acontecer, aqueles 20% dos eleitores mais radicais que existem no sistema político, mais bolsonaristas radicais, vão ter algum grupo para é, digamos, dar guarida a eles e ter um candidato, e isso atrapalha gigantescamente o plano do Centrão. Mas o fato é que, por hora, essa aliança é contra a democracia, do lado do bolsonarismo, e contra a república, do lado dessa parcela do Centrão, que está querendo que os deputados e os presidentes dos partidos transformem numa casta não controlável pela sociedade.
Natuza Nery
O PEC segue agora para o Senado, onde são necessários 49 votos para aprová-la.
Fernando Abrúcio
Em cada um dos dois turnos de votação.
Natuza Nery
E o presidente da CCJ já criticou a proposta.
Fernando Abrúcio
Sem dúvida nenhuma, vou encaminhar fortemente no plenário contra essa matéria. Não só eu, mas vários senadores com quem eu conversei hoje, que são contrários absolutamente a essa matéria. A impunidade, ela acontece quando o político tem mais imunidade. E já tem imunidade demais, tanto os deputados federais como os senadores. A história do Eduardo Bolsonaro é um escracho, porque na verdade ela significa que é possível ser um parlamentar eleito no Brasil, não trabalhar no Brasil e jogar contra o Brasil. O crime de traição à pátria é um crime terrível, com uma pena muito maior do que homicídio na maior par dos países. E o que Eduardo Bolsonaro está fazendo é traição à pátria. Aliás, com uma linguagem mais sutil do que a minha, foi o que disse o presidente do Senado essa semana. Um deputado federal do Brasil, eleito pelo povo de São Paulo, lá nos Estados Unidos, xingando um país contra o meu país. Nunca falei sobre isso. Mas agora tá na hora de começar a falar também. Não dá, com todo respeito, pra eu aceitar todas essas agressões caladas. Ora, o presidente da Câmara aceitar que um deputado de fora do Brasil seja o líder da minoria traindo a pátria, mostra que o presidente da Câmara hoje não está tendo capacidade de resguardar as instituições democráticas do país.
Natuza Nery
Eu quero te pedir para analisar esse personagem Hugo Mota, porque toda vez que sai a foto da votação da PEC da blindagem, da votação da urgência da anistia, é sempre a foto de Hugo Mota. O Centrão não tem cara, o Centrão é um ajuntamento de parlamentares com pendor ao fisiologismo, mas a cara do Centrão hoje está estampada pela foto do Hugo Mota. Será que ele não percebeu isso?
Fernando Abrúcio
O fato é que o Hugo Mota não tem sido capaz de resistir ao casamento entre bolsonarismo contra a democracia e uma parcela, não é todo centrão, mas uma parcela grande do centrão que está propondo medidas para criar uma casta de deputados e políticos. Essa aliança entre Centão e Bolsonarismo se esconde por trás de Hugo Moca, e ele não tem sido capaz de perceber que se ele não conseguir sair dessa cilada, ele vai ser conhecido na história como o presidente que foi engolido por uma aliança entre antidemocratas e antirepublicanos. E ele não tem conseguido. A ideia dele, no fundo, é que, passada essa boiada, digamos, de PEC da blindagem, PEC da anistia, etc., ele vai poder ter uma agenda para chamar de sua. Temos urgentes a frente e o país precisa andar. Temos na casa visões distintas. e interesses divergentes sobre os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. O problema é que o desgaste vai ser muito grande e isso vai marcar a gestão dele, e mais ainda. Eu não sei se para essa agenda antidemocrática de republicana, porque a PEC da blindagem ou da bandidagem não vai ser aprovada no Senado. Porque a PEC da Anistia, o que for aprovado, vai ser completamente rechaçado pelo bolsonarismo radical, que vai continuar fazendo motim na Câmara, vai continuar fazendo manifestações pra libertar Bolsonaro, que não tá nem aí pra democracia, aliás, nem pro Brasil, como prova do deputado Eduardo Bolsonaro. Portanto, há uma ilusão do deputado Gomota que se ele se livrar dessa agenda, ele pode ter uma agenda mais positiva. Acho muito difícil ele conseguir fazer essas duas coisas. Em algum momento, ele tem que fazer o que o presidente do Senado tem feito, dizer, chega. E ele não está conseguindo dizer, chega.
Natuza Nery
Você sabe que eu falava esses dias com o líder do bolsonarismo, um parlamentar bolsonarista, e ele prometeu avançar sobre o Senado da mesma forma que eles avançaram e se sentaram na cadeira de Hugo Mota algumas semanas atrás. Então, eles estão dispostos a muita coisa para fazer com que a anistia passe. Vamos ver como é que Davi Alcolumbre vai reagir. Acho difícil ele reagir como o Hugo Mota reagiu, que foi pedir ajuda para Arthur Lira para voltar a se sentar na cadeira, que é dele por direito.
Fernando Abrúcio
O Davi Alcolumbre, se isso ocorrer, ele tem o número necessário de senadores para reagir com força e mais. Ele não vai pedir ajuda para a Turlira, vai pedir ajuda para o Supremo Tribunal Federal. Essa é a aliança. E aí esses senadores vão ter dificuldades, porque o processo, o que o bolsonarismo não percebeu, Natuza, quando eles se casaram, com esse casamento de ocasião, com toda essa agenda anti-republicana do Centrão, isso vai marcar na eleição. Não vão poder cantar mais que se gritar pegar Centrão não fica um irmão, porque agora eles estão no jogo. Então assim, o desgaste, o discurso do Nicolas Ferreira essa semana, nem ele próprio acreditou. Então com medo de quê? Quem cometer crime vai pagar, uai. É simples assim, a gente vota e a gente mostra que essa casa é conta criminoso. Agora, sim, queremos ser blindados mesmo. O discurso dele foi um discurso pra ser usado na campanha pra mostrar. Você aprovou, ao contrário do que os eleitores querem, uma medida pra proteger vocês completamente da justiça. Isso é o contrário do discurso, goste-se ou não dele, do discurso do Nicolas Ferreira nos últimos anos. Ele fez um discurso tentando mostrar que ele defende o povo contra, digamos, as castas e elites. Ele está construindo uma casta. Portanto, essa aliança entre o bolsonarismo e o centrão também vai ter efeitos negativos no bolsonarismo. E quem tá assistindo tudo isso de camarote é o presidente Lula, porque, por um lado, ele está perdendo em termos de governabilidade, isso não parece óbvio, ele não tem condições de cuidar de todas essas brigas que envolvem Câmara, Senado e a STF. Mas, por outro, eleitoralmente, se eles continuarem nessa toada, a rejeição ao Centrão, a rejeição a candidatos apoiados pelo Centrão, a rejeição ao bolsularismo só vai aumentar. E o Lula eleitoralmente vai estar fora dessa história.
Natuza Nery
Fernanda Brúcio, muito obrigada por ter topado conversar com a gente nesse tempo tão conturbado e esquisito. Muito obrigada.
Fernando Abrúcio
Obrigado, Natuza.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Bérvelin Albuquerque. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto. A nova era da carreira do João Vitor já começou. Ele obteve o certificado profissional do Google em TI e não para de crescer. Essa é a nova era da inovação. Google.
Data: 19 de setembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidado: Fernando Abrúcio (professor da FGV-SP, comentarista da GloboNews)
Este episódio examina o recente movimento da Câmara dos Deputados em votar projetos que beneficiam diretamente parlamentares, com destaque para a chamada "PEC da blindagem" e a tramitação de uma proposta de anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Natuza Nery propõe um debate profundo com o cientista político Fernando Abrúcio sobre como essas decisões distanciam a Câmara da sociedade, ameaçam o Estado Democrático de Direito e evidenciam uma lógica de autoproteção dentro do Legislativo. O episódio também discute o papel do Centrão, o fortalecimento das castas políticas e as consequências dessa agenda antirrepublicana.
A conversa mantém um tom direto, grave e crítico, característico das preocupações democráticas do momento político. O diálogo é marcado por análises sóbrias, denúncias contundentes e alertas sobre o perigo da formação de castas políticas blindadas contra a Justiça no Brasil.
Este episódio é essencial para entender a crise de representatividade do Legislativo brasileiro e os caminhos de autoproteção instituídos pela Câmara dos Deputados. Ele destrincha como determinadas alianças políticas ameaçam a democracia e o Estado de Direito, e lança luz sobre a responsabilidade do eleitorado nas próximas eleições legislativas. É um convite à reflexão sobre o poder da sociedade civil em exigir responsabilidade dos seus representantes e um alerta sobre os riscos de se negligenciar o voto no parlamento.