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Ana Tuzaner
127 milhões de veículos e quase 87 milhões de motoristas. Este era o tamanho da frota brasileira em agosto de 2025, o maior número da história, segundo o Ministério dos Transportes. Só entre janeiro e agosto deste ano aumentou em 3 milhões. Metade dessa frota é formada por carros. As motos representam 27%. E junto com o aumento da frota, aumentam também os acidentes.
Narrator/Reporter
O Brasil é o terceiro país que mais mata no trânsito, perdendo apenas para a Índia e a China. Um levantamento da Confederação Nacional dos Transportes mostra que entre novembro de 2023 e outubro deste ano, foram registrados mais de 72 mil acidentes nas rodovias federais. Seis mil pessoas morreram e 84 mil ficaram feridas. E o valor usado para custear as internações vem subindo nas últimas duas décadas. Em todo o Brasil, foram gastos 450 milhões de reais para este tipo de atendimento pelo SUS em 2024.
Ana Tuzaner
O dado é do IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Nessa equação entra outro dado. Cerca de 20 milhões de brasileiros dirigem mesmo sem ter carteira nacional de habilitação, a CNH. Destes, 16 milhões e meio são pessoas que dirigem motos. A Secretaria Nacional de Trânsito estima que metade dos donos de motos não são habilitados. justamente o grupo que mais morre em acidentes. É sobre isso que conversamos com o.
Davi Duarte Lima
Pesquisador do IPEA, Erivelton Guedes.
Data Analyst
Todos os demais grupos apresentam alguma estabilidade ou, eventualmente, alguma pequena redução. Motocicleta, entretanto, tem apresentado um crescimento constante e os tempos atuais, onde o uso da moto para entrega tem aumentado, talvez traga ainda maiores problemas nesse sentido.
Ana Tuzaner
É neste contexto que uma ideia agora está em discussão.
Renan Filho
O governo vai abrir uma consulta pública para receber sugestões. É o primeiro passo para o novo modelo na habilitação de motoristas. O Conselho Nacional de Trânsito quer acabar com a exigência das 45 horas de aulas teóricas e das 20 horas de aulas práticas. O candidato poderá escolher entre uma autoescola ou um instrutor autônomo credenciado pelo DETRAN. As provas teóricas e práticas serão mantidas.
Ana Tuzaner
O objetivo é reduzir custos, como explica o secretário nacional de trânsito, Adrualdo Catão.
Davi Duarte Lima
O custo para ter habilitação é formado por três fatores.
Narrator/Reporter
Ele é o custo do médico e.
Davi Duarte Lima
Do psicólogo, dos exames médicos. Ele é o custo das taxas do DETRAN. E ele é o custo da obrigatoriedade da autoescola.
Narrator/Reporter
Esse custo da obrigatoriedade da autoescola responde.
Davi Duarte Lima
Por cerca de 70%.
Ana Tuzaner
O fim dessa obrigatoriedade mexeria com um mercado formado por 15 mil empresas, segundo a Federação Nacional da Categoria, a Fenealto.
Davi Duarte Lima
O Sindicato das Autoescolas diz que está buscando contato com a Secretaria Nacional de Trânsito para ouvir as demandas do setor e sugestões para evitar perda de empregos. O vice-presidente da entidade teme que essas mudanças possam prejudicar a segurança no trânsito.
Paulo César Marques da Silva
E hoje, o único meio, o único.
Davi Duarte Lima
Acesso à educação para o trânsito brasileiro é através das autoescolas.
Ana Tuzaner
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Carteira de motorista sem obrigatoriedade de autoescola. Os argumentos contra e os argumentos a favor da ideia de acabar com a obrigatoriedade de aulas práticas para tirar a carteira de motorista. Eu converso com Paulo César Marques da Silva, doutor em estudos de transportes pela Universidade de Londres e professor da Universidade de Brasília. Paulo já trabalhou como engenheiro de tráfego na Prefeitura de Salvador e na Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro. Também falo com David Duarte Lima, doutor em segurança de trânsito pela Universidade Livre de Bruxelas e autor de A Arte de Ensinar a Dirigir. Sexta-feira, 3 de outubro. Paulo, por que na sua avaliação é importante mudar o processo de obtenção da CNH?
Paulo César Marques da Silva
Eu diria até que não necessariamente é uma boa ideia fazer a mudança, mas o que é constatável é que não há nenhuma evidência de que a manutenção do sistema como ele é esteja trazendo algum benefício. Muito pelo contrário, o que tem sido observado é uma fuga do processo de habilitação, e uma quantidade razoável de condutores, principalmente de motociclistas, que não passaram pelo processo de habilitação, e isso traz mais risco do que uma democratização, como vem sendo chamada a medida, uma medida de democratização para a obtenção da habilitação, que faz mais pessoas passarem por um processo e ter um mínimo de triagem por parte do poder público.
Ana Tuzaner
Esse processo, como ele é feito hoje, difere muito de como é feito em outros países, por exemplo? Tem alguns exemplos lá de fora que poderiam ser adotados aqui no Brasil?
Paulo César Marques da Silva
Os países que são referência, por exemplo, em termos de segurança no trânsito, eu falo dos países escandinavos, do próprio Reino Unido, não tem um processo rígido como o nosso com a obrigatoriedade de cursar a autoescola. Países que têm obrigatoriedade de usar a autoescola, como Portugal, como a China, a Rússia, não são referência em termos de segurança no trânsito. A Suécia é uma referência, por exemplo, com o programa Visão Zero. O que é rígido nesses casos não é o processo de formação dentro de autoescolas, mas é o processo de habilitação propriamente dito, os testes a que os candidatos são submetidos para obter a habilitação. E, por outro lado, uma fiscalização rígida de modo a não deixar que circule nos ambiente de circulação, que circulem os condutores não habilitados. Então talvez o segredo seja aí, a gente tenha que apertar mais no processo de habilitação em si, no fim da linha, essa é a responsabilidade do Estado, e não obrigar a um processo de formação que até que se prove o contrário, não tem nenhuma garantia de que venha alcançando efetividade desejada e que onera. O ônus para o usuário, para o candidato, acaba resultando num tiro que sai pela colatra, que é a fuga do processo de habilitação.
Narrator/Reporter
A ideia do Conselho Nacional de Trânsito é diminuir a burocracia e também os preços para conseguir a Carteira Nacional de Habilitação. O objetivo é baixar os valores em até 80% com as mudanças. Hoje, em média, as pessoas demoram até nove meses para conseguir a CNH. Em alguns estados brasileiros, os preços passam de 4 mil reais. As mudanças começam a valer nas categorias A e B, carro e moto.
Ana Tuzaner
Esse é um ponto bastante interessante. Então dá para dizer que no Brasil muita gente foge da autoescola porque é caro?
Paulo César Marques da Silva
Dá para dizer que muita gente foge da autoescola, foge do processo de desabilitação. E é um fato também que é caro cursar a autoescola, sai em torno de três, quatro, às vezes cinco mil reais o curso completo na autoescola. Essa obrigatoriedade provavelmente vem afastando as pessoas do processo de habilitação. Muitas pessoas, inclusive, ganham a vida, precisam da habilitação para ganhar a vida e não conseguem arcar com a despesa da habilitação como ela é hoje.
Ana Tuzaner
Você falou de um processo no fim da linha que seja um processo mais rigoroso e que países com boas práticas tendem a ter resultados mais positivos. Consegue dar um exemplo do que eles têm lá e a gente não tem? Eu me lembro, por exemplo, que quando eu fiz autoescola para tirar minha habilitação, o meu pavor era a tal da baliza, né? Que tipo de exercício, que tipo de teste é feito fora que poderia ser feito e que aqui não é para mostrar que um motorista está apto a conduzir um veículo ou uma motocicleta?
Paulo César Marques da Silva
Eu vou dar um exemplo pessoal também. Eu tive a experiência de morar em Londres, no Reino Unido, onde eu fiz meu doutorado e passei pelo processo de habilitação lá. O teste prático que a gente faz é um teste na rua enfrentando condições normais de trânsito e todos os aspectos são observados. Eu próprio fui reprovado na primeira vez. E eu não falo isso com orgulho, mas apenas como uma constatação do rigor, aliás, o mesmo rigor que reprovou o Ayrton Senna na primeira tentativa de habilitação no Reino Unido. Mas é o comportamento mesmo que é observado. No meu caso, a minha reprovação foi porque eu demorei a abrir passagem para uma pessoa que vinha conduzindo no sentido contrário, numa rua que tinha estacionamento dos dois lados, embora fosse de sentido duplo, não tinha espaço para dois carros trafegarem ao mesmo tempo. São situações corriqueiras no trânsito e que numa pista exclusiva para testes como a gente tem em grande parte dos DETRANS, dos órgãos que fornecem a habilitação, não se experimenta, situações que não se experimentam. O caso talvez mais grave, o nosso caso mais grave, é o caso dos motociclistas. A habilitação, o teste de rua do motociclista é muito simples e tem muito mais a ver com a habilidade do candidato a exercer o controle sobre o veículo a baixa velocidade do que enfrentar situações reais no trânsito.
Davi Duarte Lima
As cidades brasileiras têm registrado mais acidentes de trânsito com motos.
Health Expert
Quem acompanha os acidentes de trânsito diz que as vítimas geralmente são adultos jovens.
Davi Duarte Lima
No último ano a gente teve quase 170 mil internações e vendo a curva histórica a gente nota um aumento significativo desses números de internações. Estamos nessa faixa que vai de 20.
Narrator/Reporter
A 29 anos, então acaba causando um grande impacto social. Os sinistros de trânsito representam um dos maiores problemas de saúde pública do Brasil.
Health Expert
Se o custo humano das tragédias é incalculável, a conta financeira não. A partir de 2014, os gastos do SUS com essas internações tiveram uma tendência de queda até 2018. Em 2019, houve um aumento grande. O número não reduziu muito nem com a pandemia. 2023 e 2024 registraram aumentos recordes. No ano passado, o gasto chegou a 257 milhões de reais. Desde 2014, o Brasil gastou 2,4 bilhões de reais nas internações.
Paulo César Marques da Silva
Então, isso acho que precisava ser aprimorado. Claro, aprimorar significa apertar um pouco o funil para obter a habilitação. Mas também precisa fazer um exercício efetivo de fiscalização para que não haja esse sentimento de impunidade e que as pessoas continuem fugindo do sistema de habilitação.
Ana Tuzaner
Bom, pelo que você tá dizendo, dá pra aprender a teoria e a prática sem necessariamente passar por uma autoescola. E aí, nesse caso, como garantir uma boa formação pra esse futuro motorista habilitado?
Paulo César Marques da Silva
É, veja que a medida que está sendo proposta, ela desobriga frequentar autoescola nos termos em que, é hoje, mas fazer o curso, particularmente o teórico, que não tem a redução de carga horária prevista nessa proposta agora, nessa medida, e fazer as aulas práticas na medida da necessidade do candidato até que ele se sinta apto a precisa meter ao teste, isso está previsto na medida.
Renan Filho
O ministro dos transportes, Renan Filho.
I
Hoje, a pessoa é obrigada a fazer um curso de autoescola. São 45 horas-aula. Ela faz essas 45 horas-aula pra quê? Pra ser aprovada numa prova teórica. Se a pessoa quiser contratar essas aulas, ela vai poder contratar e fazer. As autoescolas vão permanecer autorizadas a isso, não vai ser obrigatório. Se for aprovado, ela vai para outra etapa da aula prática. A aula prática não pode fazer com quem não é instrutor autônomo. As autoescolas vão continuar podendo dar aula prática, que hoje é no mínimo de 20 horas, mas a pessoa vai poder contratar um instrutor autônomo. Vai poder ser o pai dela? Não, só se ele for instrutor autônomo. E para ser instrutor autônomo, ele vai ter que fazer uma prova específica para instrutor autônomo. Mas o instrutor autônomo será uma profissão nova, que vai estabelecer a concorrência para derrubar o preço da formação do condutor. Depois de feito as aulas, aí o instrutor vai assinar um documento dizendo que ele fez as aulas práticas. E, a partir daí, ele se candidata a ir ao DETRAN para fazer a prova prática e ser aferido por um fiscal que ele sabe dirigir.
Paulo César Marques da Silva
A gente não está falando de uma proposta de extinguir qualquer processo de formação, apenas de tornar ele mais acessível às pessoas e, portanto, que consiga abarcar o maior número de candidatos, a gente tenha no final das contas, no final do processo, a gente tenha um universo melhor formado de condutores no trânsito.
Ana Tuzaner
E como garantir a redução do risco de acidentes nessas hipóteses?
Paulo César Marques da Silva
As nossas marcas relacionadas à segurança no trânsito não são nada que nos causa orgulho. A gente precisa atuar em diversas frentes. não apenas na formação dos condutores, não apenas na qualidade dos nossos veículos, qualidade das nossas vias, o ambiente de circulação também precisa de uma atenção aqui no Brasil. Então, são vários fatores que precisam ser atacados, endereçados de maneira articulada. No caso específico do comportamento do condutor, os números que a gente tem, as observações que a gente tem sobre a responsabilidade, quando acontecem os sinistros e a responsabilidade é atribuída ao condutor, o que é uma parcela bastante significativa, Não há nenhuma evidência de que as falhas de comportamento estejam relacionadas a um processo deficiente de formação em termos de habilidade na condução do veículo ou coisas do tipo. Tem muito mais a ver com uma atitude às vezes agressiva, uma atitude às vezes pouco cidadã, de pouco respeito ao ambiente coletivo de circulação, ao compartilhamento dos recursos de tempo e de espaço com os outros usuários da via, o respeito ao outro, tem muito mais a ver com essa atitude pouco cooperativa e muito competitiva que atravessa a nossa formação, a formação da nossa sociedade de modo geral. Então a gente está falando de uma formação da sociedade e educação de modo geral que não é apenas a formação dos condutores, é de todos os usuários e é em todos os aspectos, não apenas no comportamento no trânsito. É como se o comportamento do trânsito fosse uma consequência desses valores que nós Precisávamos cultivar mais esse de cooperação, de respeito à conatividade, de respeito à cidadania.
Ana Tuzaner
Eu acho que você fala de um assunto, de um aspecto, melhor dizendo, fundamental, né? Porque a sua conduta no trânsito, se você não pensar no outro, reproduz a sua conduta na vida, né, em relação a outras situações que envolvem o coletivo. Você falou da importância de se democratizar o acesso a CNH. Hoje já existe um programa que concede habilitação gratuita para pessoas de baixa renda. Esse programa não é suficiente?
Paulo César Marques da Silva
É um programa importante, sem dúvida nenhuma, mas existe uma necessidade de comprovação de baixa renda, existe um limite para o atendimento aos requisitos para a obtenção da CNH social, que talvez não seja suficiente para atender toda a população que de fato necessita. As decisões individuais, a pessoa que precisa, sente necessidade de pilotar uma motocicleta para sobreviver. Talvez ela tenha uma renda que não atenda aos requisitos necessários para obter a CNH social, mas o orçamento que ela tem não cabe fazer um investimento na ordem de 4 mil reais para obtenção da CNH enquanto A renda dela está comprometida com outros aspectos e não é uma renda grande, apesar de não atingir esse nível considerado, o nível de vulnerabilidade sócio-econômica, para garantir essa LH social.
Ana Tuzaner
Paulo, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Volte outras vezes aqui ao assunto.
Paulo César Marques da Silva
Eu que agradeço pela oportunidade dessa conversa e aproveito para parabenizar a você, a sua equipe, pela qualidade do assunto.
Ana Tuzaner
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Davi Duarte Lima. Davi, eu conversava há pouco com o Paulo que é contra a obrigatoriedade das autoescolas. Eu sei que você tem um ponto de vista diferente. Por que, na sua avaliação, é uma má ideia mudar o processo de obtenção da CNH?
Davi Duarte Lima
Natuzza, a primeira coisa é que a gente não destrói uma casa velha antes de construir uma nova. Essa mudança, aparentemente, ela está sendo muito rápida, muito abrupta e sem construir a casa nova, sem ter alguma coisa realmente concreta para que a gente possa migrar para esse novo modelo. Ainda há muitas incertezas e as autoescolas têm realmente o seu papel. É ali que o estudante, o candidato a tirar a carteira de motorista, ele tem um contato com a legislação, com direção defensiva, com as primeiras habilidades de conduzir um veículo. E quando você tira, ou pelo menos deixa de ser obrigatório frequentar a autoescola, isso pode estar tirando do estudante, do candidato, a habilitação, a possibilidade dele adquirir esses conhecimentos de forma mais concreta, mais sólida, de uma forma estruturada. Então a autoescola é, sim, importante, e antes da gente mudar, mudar de modelo, é preciso fazer isso com muito cuidado.
Ana Tuzaner
Agora eu queria focar em problemas do sistema atual. Onde as atuais autoescolas pecam?
Davi Duarte Lima
Olha, a primeira coisa que ensinar alguém a dirigir não é uma habilidade, não é uma coisa muito fácil. Dirigir exige muitas habilidades, cerca de 1500 habilidades e uma série de sub-habilidades, porque você tem que avaliar risco, não é só movimentar o carro, acelerar, frear, fazer algum tipo de manobra. Não, é muito mais complexo do que isso. E aí, toda a questão de ensinar um aluno, por exemplo, a dirigir um carro, é uma sala de aula que anda. Ele tem que orientar a atenção do aluno em vez de chamar a atenção do aluno para ele próprio. Então, é uma didática complexa. E aí, os instrutores das autoescolas são mal preparados, as autoescolas muitas vezes ensinam mal, elas não têm uma sequência lógica de aprendizado. Então, o que acontece com as autoescolas é que é um sistema pobre e que se confunde com o tempo pobre e que forma motoristas com habilidades muito ruins.
Ana Tuzaner
Em dez anos, quase meio milhão de pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil. O levantamento foi feito pelo IPEA e revela que o custo para o país nesse período passa de um trilhão e meio de reais.
Data Analyst
A principal base de dados utilizada veio do DataSource. São os sistemas de informação de mortalidade e o sistema de informação de internações hospitalares. Os acidentes de trânsito no Brasil matam principalmente homens jovens. A idade preponderante dos mortos no período estudado era de 21 anos de idade.
Ana Tuzaner
Quando a gente olha pro número de pessoas que dirigem sem habilitação, um problema muito flagrante é o preço pra se fazer uma autoescola, né? Como é que esse problema poderia ser resolvido? Porque a gente tem uma população de baixa renda, muito concentrada na informalidade, que muitas vezes precisa se virar, mas não tem dinheiro para pagar uma autoescola e depois para dar entrada na habilitação, né? Esse é um problema real do Brasil.
Davi Duarte Lima
A principal limitação para se conseguir uma habilitação no Brasil é que a população pobre ou a população de baixa renda não consegue pagar dois, três mil reais para ter uma habilitação. Isso vale para condutores de carros, de automóveis, e vale também especialmente para os condutores de moto, de motocicleta. E muita gente, a gente sabe bem hoje, não só nas grandes cidades, mas também nas cidades médias e até no meio rural, Muita gente usa a moto como instrumento de trabalho, como mototáxi, como entregador, etc. Ou para suas atividades cotidianas. Grande parte desses condutores de motocicleta, por exemplo, não tem habilitação. Hoje a frota de motocicletas, por exemplo, do Maranhão, mas não é o único, a frota de motocicletas do Maranhão é três vezes maior do que o número de habilitados. Ou seja, muita gente está pilotando sem habilitação. Essa barreira não é só da autoescola, porque ainda O custo, a formação do custo não é só a questão da autoescola. Você tem uma avaliação psicológica que custa, exame médico, tem ainda as taxas do DETRAN e tem toda a questão das aulas teóricas e práticas que são dadas pelas autoescolas. Então é realmente um limitante e para resolver isso, os DETRANS estaduais estão fazendo eles fazem uma espécie de CNH social, esse, inclusive, é o nome. Então, eles subsidiam, em grande medida, a habilitação dessas pessoas.
Ana Tuzaner
Bom, aí eu quero passar para o outro lado dessa moeda, que é a quantidade absurda de acidentes. O Brasil perdeu mais de 30 mil vidas no trânsito em 2023, isso de acordo com dados do Ipea, no Atlas da Violência, que foi divulgado em maio agora deste ano. Além da formação dos motoristas, que o senhor já fez um bom arrasoado aqui, dizendo que ela apresenta falhas. Quais fatores justificam ou explicam esses números?
Davi Duarte Lima
Olha, o Brasil realmente é um país com trânsito muito violento. Nós estamos aí na terceira ou quarta posição em número de mortos no mundo todo. A gente pede para a China e para a Índia, que têm populações muito maiores que a nossa, Entre os estados.
Narrator/Reporter
Campeões de mortes estão Minas Gerais, Bahia, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Minas também lidera no ranking dos que tem mais acidentes. Na sequência vem Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A avaliação mostrou outro dado preocupante. 67% das rodovias brasileiras foram classificadas como regulares, ruins ou péssimas. E apenas 33% como boas ou ótimas.
Davi Duarte Lima
Além dessa quantidade de mortos, segundo estimativas, chegam a cerca de 40 mil, nós temos ainda um milhão de feridos, que são pessoas, 300 mil pelo menos, que ficam com lesões irreversíveis, que demandam recursos públicos, que causa todo um transtorno na família. Então é muita gente, é um trânsito muito violento e com poucas soluções.
Narrator/Reporter
A pesquisa mostrou que além da imprudência, como passagens em curvas e alta velocidade, buracos nas pistas e sinalização inadequada favorecem os acidentes.
Davi Duarte Lima
O elemento mais relevante dentro de segurança.
Paulo César Marques da Silva
Aviária é a velocidade. Para manter a velocidade baixa, você precisa fiscalizar.
Davi Duarte Lima
Então, esse fator principal, que é a velocidade, não está sendo fiscalizado como deveria. O Brasil precisa realmente mudar de um lado o modelo que ele está na... em toda essa questão da formação do condutor, isso é um ponto importante, porque grande parte dos acidentes de trânsito são devido a erros humanos, e a grande maioria, ou pelo menos uma boa parte dos erros, eles são erros básicos, de falta de formação, Falta de um melhor preparo do condutor. Então a gente tem aí condutores que bebem, dirigem, que não sabem quais são as circunstâncias, ou adaptar a velocidade para as circunstâncias da via naquele momento. Agora, por outro lado, a gente tem também o espaço público, especialmente em áreas urbanas, o espaço público hostil, especialmente para os mais vulneráveis. Quanto mais vulnerável, mais morrem no trânsito no Brasil. Essa é basicamente a nossa regra. E veículos velhos, sem manutenção, e uma enorme frota de motocicletas, que esses veículos são perigosos, cerca de 20 vezes mais perigosos que um carro, por exemplo, e que é a frota que mais cresce. Hoje, 15 estados brasileiros já têm mais moto do que carro. E aí nós temos essa quantidade enorme de acidentes, porque na moto, quando você cai ou tem uma colisão, pelo menos um pequeno ferimento você tem. Um acidente significa um ferimento pelo menos. Pode ser um ferimento até mais grave ou até o óbito. Hoje, para citar um número, metade dos mortos no trânsito do Brasil são motociclistas. e cerca de 80% de todos os feridos no trânsito são motociclistas.
Ana Tuzaner
O que a Espanha fez para reduzir o número de acidentes? Você escreveu um artigo recente na Folha de São Paulo contando como esse modelo funcionou por lá e o que poderia servir aqui para o Brasil. Conta para a gente.
Davi Duarte Lima
Olha, a Espanha tinha um trânsito muito, muito violento, não tanto quanto o brasileiro, mas eles tinham muitos problemas no trânsito deles. Então, a primeira coisa que eles detectaram foi, nossos motoristas, nossos condutores não são bons condutores. Há muitos erros, muitas falhas humanas envolvidas nesses acidentes. Então, a primeira coisa que eles fizeram foi, a primeira pergunta foi, Que condutor nós queremos? Um condutor seguro, que tenha habilidades, que saiba reconhecer riscos? Então, eles traçaram um perfil de um bom condutor. E aí, a segunda pergunta, quem sabe, quem pode, quem forma esses condutores? Quem pode formar? Os instrutores. E eles foram avaliar os instrutores, que formam os condutores, para ver como é que era a formação. Olha, os instrutores não eram bons, E eles precisariam ser reformados, digamos assim, ter uma boa formação, para formar bons condutores. E aí, quem sabe formar um bom instrutor? Ninguém sabia. Eles foram para a universidade, lá na Universidade de Valência, inclusive, no Intras, um instituto de trânsito que tem lá. Bom, e aí eles prepararam o material para formar um bom instrutor, para formar um bom condutor. É um trabalho longo, pesado e cheio de detalhes, mas que vale a pena. No final, os condutores melhoraram muito. E hoje eles têm um bom sistema. O resultado disso é que em menos de 10 anos, em 7 anos e meio, na verdade, eles derrubaram, eles caíram 80% na mortalidade e cerca de 70% no número de acidentes com feridos no trânsito espanhol. Então, fizeram um enorme investimento, mas que valeu a pena.
Ana Tuzaner
Davi, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Seja sempre bem-vindo aqui ao Assunto.
Davi Duarte Lima
Muito obrigada.
Ana Tuzaner
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Neste episódio, "O Assunto" aborda a proposta do Governo Federal de eliminar a obrigatoriedade das aulas em autoescolas para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A discussão investiga o impacto dessa possível mudança nos custos, na qualidade da formação dos condutores, na segurança no trânsito e nas questões sociais. Participam do debate Paulo César Marques da Silva, doutor em Transportes, e Davi Duarte Lima, especialista em segurança de trânsito, trazendo visões complementares sobre o tema.
Crescimento da Frota e Impacto Social
Problema das Motocicletas
Descrição da Mudança
Impacto para Autoescolas
Fuga do Processo de Habilitação
Experiências Internacionais
Redução de Custos e Democratização
Exemplo Prático – Diferença de Testes
Formação e Responsabilidade Social
Limitações do Programa CNH Social
Citações de destaque:
Preocupação com Mudanças Abruptas
Fragilidades das Autoescolas, mas Necessidade de Estrutura
Barreiras para População de Baixa Renda
Gravidade dos Acidentes no Brasil
Citações de destaque:
O episódio reúne argumentos profundos e bem contextualizados sobre a proposta de abolir a obrigatoriedade da autoescola para tirar a carteira de motorista no Brasil. Enquanto Paulo César Marques da Silva defende que o foco deveria ser em um processo de avaliação mais rigoroso e acessível, Davi Duarte Lima alerta para o risco de mudanças sem estrutura e aponta deficiências tanto nas escolas quanto no acesso dos mais pobres ao sistema. A conversa destaca que, além da formação, o problema da segurança no trânsito brasileiro perpassa fatores sociais, culturais, estruturais e de fiscalização, sugerindo que a discussão sobre a habilitação vai muito além da obrigatoriedade da autoescola.