Transcript
Ranielle (0:04)
Eu pensava em estudar, né? Terminar os estudos cedo. Mas não aconteceu como eu pensava, né? Tive filhos cedo, aí me atrasaram nos estudos.
Ana Tuzaneri (0:20)
Essa é a voz de uma adolescente de 16 anos. Na época da entrevista, em 2018, ela levava a vida de casada desde os 12 e já tinha dois filhos. O relato era de uma rotina dura para alguém tão jovem.
Ranielle (0:35)
Eu acordo, aí eu faço café, vou varrer a casa, lavar a louça. Quando tem roupa, muita roupa, eu lavo, eu lavo. Eu vou fazer o almoço. Do almoço pra Valentina eu vou cuidar de novo, nas tarefas de novo, porque... Já passou a manhã, aí vai pra tarde, vai cuidar das coisas de novo. Lava a louça, vai em casa. Fazer a janta, né? Aí eu faço cedo pra poder ir pra escola. Às vezes, quando dá tempo de eu ir, eu vou. Aí quando não, eu fico em casa mesmo. Tô cansada já.
Ana Tuzaneri (1:15)
A garota foi ouvida num documentário da organização Plan International Brasil, que discute o impacto do casamento infantil, uma prática ilegal. Aqui no país, o Código Civil estabelece que 16 anos é a idade mínima para o casamento. Adolescentes entre 16 e 17 até podem casar, mas apenas com autorização dos pais. Só que muitas dessas uniões sequer chegam aos cartórios. Isso significa que a nossa fotografia do problema é muito imprecisa. Segundo o Censo, 34 mil crianças e adolescentes até 14 anos viviam em união conjugal em 2022. Mas o IBGE alerta. A informação, dada por moradores, não foi verificada e pode conter erros. Quase 80%, 77% são de meninas. Então há uma naturalização da violência, há uma naturalização dessas meninas saírem da escola, dessas meninas deixarem a infância muito precocemente. Diz a antropóloga Débora Diniz. Outros dados corroboram o censo. De todas as meninas até 14 anos que tiveram filhos neste ano até outubro, 43 se declaram casadas e mais de 700 disseram que viviam em união estável. Os números são do Ministério da Saúde. Um problema invisível e que afeta principalmente as meninas muito pobres. Como explica a Viviana Santiago, especialista em direitos humanos.
Ranielle (2:45)
São meninas que estão em contexto de vulnerabilidade. Então a gente acaba sendo levado a acreditar que com o casamento foi o.
Ana Tuzaneri (2:52)
Que de melhor podia ter acontecido com ela. Então é por isso que é uma.
Ranielle (2:55)
Coisa, que embora seja uma violência, é.
Ana Tuzaneri (2:57)
Uma violência que ninguém vê.
Ranielle (2:59)
