O Assunto — Celulares no Ensino Superior: Proibir ou Não?
Data: 18 de fevereiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidado: Antônio Góes (jornalista de educação)
Tema: O uso (ou proibição) de celulares em universidades brasileiras: avanços, desafios e decisões
Visão Geral do Episódio
O episódio analisa a polêmica crescente sobre o uso de celulares, tablets e computadores em salas de aula no ensino superior brasileiro. Diante de decisões recentes de instituições tradicionais de São Paulo que restringem esses aparelhos, Natuza Nery conversa com o jornalista de educação Antônio Góes sobre impactos, justificativas, evidências científicas internacionais e o dilema entre autonomia adulta e desempenho acadêmico.
Principais Pontos de Discussão
1. O Contexto nas Universidades Brasileiras
- Cenário comum: Professores se deparam cada vez mais com alunos dispersos, com olhos nas telas em vez de participar das aulas. (00:02)
- Novas regras: Universidades como FGV, Insper e ESPM adotaram restrições ao uso de aparelhos eletrônicos, voltando ao papel e caneta como ferramentas preferenciais. (03:34)
- Repercussão entre alunos: Chocante para alguns, justificável para outros, o novo cenário dividi opiniões:
- Resistência: “Como assim faculdade tá proibindo o uso de celular agora, em 2026?... Como que eles vão fazer isso com adultos formados?” — Estudante (00:56)
- Apoio: “Eu precisei desenvolver estratégias pessoais para ficar menos no celular durante a aula... Eu consigo entender o quão chato é isso.” — Estudante (01:31)
- Desafio pedagógico: Ensinar se tornou mais difícil também no ensino superior, já que adultos continuam sujeitos às mesmas distrações que alunos do ensino médio. (05:36, 05:43)
2. Fundamentos e Justificativas da Proibição
- Argumento das universidades: O foco é pedagógico — diminuição da dispersão, melhor ambiente acadêmico e concentração, resultando em mais aprendizado. (05:08)
- A diferença do ensino superior: Cada universidade tem autonomia, o que torna a adoção da medida diversa e gradativa, ao contrário da educação básica onde um decreto pode uniformizar a regra. (03:34, 19:14)
3. Evidências Internacionais: O que dizem os estudos?
Apresentados três estudos de referência em diferentes países:
a) Índia (07:06–08:57)
- População estudada: 17 mil alunos em 10 universidades, separados aleatoriamente em dois grupos — com e sem celular em sala.
- Resultados:
- Melhora significativa no desempenho das turmas sem celular.
- Efeito especialmente forte entre calouros e alunos de baixo rendimento.
“Os estudantes das salas de aula onde o celular foi proibido tiveram um desempenho acadêmico melhor... Os alunos mais jovens, no primeiro ano, e aqueles alunos de pior desempenho acadêmico foram os mais beneficiados.”
— Antônio Góes (07:26)
b) China (09:26–11:58)
- Foco: Uso excessivo de aplicativos de jogos durante as aulas.
- Resultados:
- Menor uso do celular resulta em melhor desempenho acadêmico.
- Efeito contágio: Um jovem jogando aumenta a chance de colegas o imitarem.
- Efeitos duradouros: Impacto positivo nos rendimentos e empregabilidade após a graduação.
“O estudo comprovou o efeito contágio... Isso também teve impacto em rendimentos iniciais no mercado de trabalho e na empregabilidade.”
— Antônio Góes (10:49)
c) Estados Unidos (11:58–13:40)
- Solução alternativa: Sistema de recompensas (moedas para gastar no campus) por tempo sem usar o celular através de app georreferenciado.
- Resultados:
- Estudantes relataram maior concentração, menos ansiedade e mais frequência às aulas.
- Efeito positivo, porém menor do que nas estratégias restritivas.
“O principal impacto foi reportado pelos próprios alunos. Eles disseram que se sentiram mais concentrados, menos ansiosos...”
— Antônio Góes (12:27)
4. Autonomia Adulta versus Limite Tecnológico
- Dilema: Como conciliar autonomia dos universitários com restrições que remetem à infância?
- Desenvolvimento cerebral: Não existe um marco onde adolescentes se tornam totalmente adultos. (05:43)
- Possibilidade de cultura responsável: Fomentar o uso adequado da tecnologia pode ser mais realista e produtivo do que a simples proibição.
"Você tem que criar uma cultura de uso responsável do celular, ao mesmo tempo em que desenvolve a competência do estudante para fazer bom uso dessas tecnologias."
— Antônio Góes (14:39)
5. Dados Sobre o Uso de Telas no Brasil
- O brasileiro passa, em média, 5h30min por dia no celular, ficando atrás apenas da África do Sul no ranking mundial.
- Entre jovens (10 a 19 anos), 70% passam mais de duas horas/dia diante de aparelhos eletrônicos. (17:14)
6. Limitações da Proibição e Caminhos Possíveis
- No ensino superior:
- A proibição total é impraticável e provavelmente ineficaz.
- O desafio é equilibrar restrições pontuais com o desenvolvimento da competência de uso digital.
- O sucesso depende do bom senso coletivo de professores e alunos, adaptando o uso da tecnologia ao contexto pedagógico. (18:20, 19:01)
“Banir os celulares da sala de aula traz ganhos, mas os problemas de aprendizagem são muito amplos; há muitos obstáculos, principalmente no Brasil.”
— Antônio Góes (20:22)
Notáveis Citações & Momentos
-
Sobre “volta ao passado”:
“Como que eles vão fazer isso com adultos formados... agora eles estão estimulando o uso de papel e caneta, caderno. Entendeu?"
— Estudante (00:56) -
Sobre respeito ao docente:
"Ninguém quer ser desvalorizado no seu trabalho, né? Se ele tá lá pra ser ouvido, eu acho que o professor merece ser ouvido."
— Estudante (01:31) -
Sobre formação do aluno universitário:
"Não existe um botão que faz o aluno de 17 de repente virar um adulto aos 18... são jovens em transição."
— Antônio Góes (05:43) -
Sobre cultura digital:
"Criar uma cultura de uso responsável do celular... É muito importante que as universidades não deixem de trabalhar o uso responsável, pedagógico, das tecnologias digitais."
— Antônio Góes (14:39)
Conclusão & Insights Finais
- Proibir celulares nas universidades é possível e pode trazer ganhos de aprendizagem, especialmente para alunos mais jovens ou menos preparados, como mostram estudos internacionais.
- Restrições rígidas são difíceis de implementar em instituições adultas e autônomas; o caminho parece ser o desenvolvimento de uma cultura de uso consciente e pedagógico dos dispositivos.
- Apesar dos benefícios, a questão é apenas uma peça dentro de desafios maiores da educação no Brasil, que envolvem múltiplos obstáculos além da tecnologia.
Timestamps de Segmentos Chave
- 00:02 — Abertura: O cotidiano das salas de aula dominadas por telas
- 03:34 — Quais universidades estão proibindo? Justificativas e contexto
- 07:06 — Estudos de caso: Índia
- 09:26 — Estudos de caso: China
- 11:58 — Estudos de caso: EUA
- 14:39 — Limites da proibição, autonomia e cultura responsável
- 17:14 — Dados sobre o uso de telas no Brasil
- 19:14 — Expectativas para o futuro das universidades brasileiras
- 20:22 — Limitações da medida e desafios na educação brasileira
