O Assunto — "China x EUA: caminhos opostos na energia limpa"
Data: 1º de dezembro, 2025
Host: Vitor Boiagian (G1)
Convidado: Lucas Correa (Economista, Universidade do Estado de Santa Catarina, doutor pela Unicamp)
Visão Geral do Episódio
Neste episódio especial de "O Assunto", o podcast explora as estratégias divergentes de China e Estados Unidos na transição para energias limpas. Vitor Boiagian recebe Lucas Correa, especialista em políticas públicas e tecnologias energéticas, para analisar o passado, o presente e as perspectivas geopolíticas dessa disputa, com foco em como cada potência está se posicionando diante do desafio climático — e o impacto dessa rivalidade para o desenvolvimento econômico global e mercados emergentes, como o Brasil.
Principais Pontos de Discussão
1. Panorama Global das Emissões e Políticas Energéticas
Timestamps: 03:35–07:06
- China (30%) e Estados Unidos (10%) respondem por 40% das emissões globais de CO₂.
“Pra gente ter qualquer ideia de transição energética, a gente passa muito pelo que esses dois países tomam e vão tomar de decisões, certo?” — Lucas Correa (03:45)
- Nos EUA, há grande preocupação com segurança energética. Mudanças políticas levam a inconstância nas políticas climáticas, como a entrada e saída do país do Acordo de Paris, principalmente sob Trump.
- A China tem uma abordagem oposta, com políticas de longo prazo para dominar e inovar em energias renováveis.
2. Evolução Histórica dos EUA com Petróleo
Timestamps: 04:16–06:25
- O episódio revisita o início da era petroleira nos EUA, com impacto geopolítico e o surgimento do "petrodólar".
- O país usou poder militar-econômico para garantir o domínio mundial sobre o petróleo, influenciando a estabilidade e a política energética até hoje.
3. Estados Unidos: Inconstância nas Energias Renováveis
Timestamps: 05:51–07:06
- O incentivo a renováveis cresceu e retrocedeu diversas vezes devido à alternância de governos.
- Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, sinalizando prioridade total ao petróleo e gás.
“Durante toda a campanha, o Trump disse que a prioridade dele era furar e furar cada vez mais poços de petróleo.” — Historian/Documentary Narrator (06:30)
4. China: Estratégia de Longo Prazo e Consenso Nacional
Timestamps: 07:06–09:49
- Desde o início dos anos 2000, a China considera a transição energética como oportunidade histórica de liderança e inovação, com políticas públicas robustas e metas claras.
- Designações oficiais priorizaram setores estratégicos (eólica, solar, baterias) desde 2012.
“A China, desde o começo do século XXI, vem criando esse consenso... de que uma transição energética está para acontecer e que isso se coloca como uma oportunidade histórica.” — Lucas Correa (07:13)
- Avanço impressionante: capacidade solar equivalente ao dobro de toda a produção brasileira; ritmo de implementação líder mundial (01:02).
5. Acelerada Industrialização Verde da China
Timestamps: 08:55–10:40
- Políticas permitem absorção de tecnologia, fortalecimento da indústria interna e liderança em inovação.
- Mercado de carros elétricos e tecnologias relacionadas tornou-se central na estratégia chinesa.
- Desenvolvimento local de produção de turbinas, painéis fotovoltaicos, baterias, veículos elétricos e domínio de minerais críticos.
6. Diferença Estrutural: Política Cíclica vs. Estratégia de Estado
Timestamps: 09:49–10:40
- No EUA, a política energética é conjuntural, flutuando a cada governo.
- Na China, a aposta é de Estado, visando salto de desenvolvimento tecnológico e econômico.
“No caso chinês a gente percebe uma ideia muito mais estratégica e de longo prazo, visando o desenvolvimento econômico.” — Lucas Correa (09:14)
7. Por que a China Avançou Mais?
Timestamps: 10:40–12:12
- China mobilizou instrumentos estatais e planejou política industrial para sustentar tecnologias que estavam surgindo e tinham pouco domínio dos concorrentes tradicionais.
- Estratégia foi identificar o início de uma tendência global e rapidamente desenvolver vantagens.
8. O Caso dos Carros Elétricos: Brasil e o Mundo
Timestamps: 12:15–16:30
- China não possui petróleo suficiente e optou por eletrificar economia e mobilidade: metrôs, trens de alta velocidade, frota de ônibus e veículos elétricos.
- Produtos chineses estão presentes em veículos de outros países por dominarem baterias e insumos.
“O que a China está tentando fazer é justamente romper com essas ideias de que é a fábrica do mundo de produtos de baixa qualidade.” — Lucas Correa (12:57)
- No Brasil, 82% dos elétricos e híbridos vendidos são chineses (16:14).
- Barreiras tarifárias influenciam participação de mercado: entrada facilitada no Brasil (18% de tarifa), alta restrição em EUA (100%) e Europa (17–38%).
9. Implicações Geopolíticas da Liderança Chinesa
Timestamps: 16:57–19:52
- Domínio em renováveis reduz dependência de energia importada, especialmente petróleo/gás, protegendo crescimento econômico e reduzindo vulnerabilidades.
- China cresceu de mera exportadora para também consumidora de tecnologia limpa (“de 40% dos painéis solares em 2009 a líder global”).
- Estratégia serve como componente de segurança energética e soft power, além de ferramenta de cooperação ou influência internacional.
10. A Disputa Está Encerrada?
Timestamps: 20:04–22:49
- Apesar do avanço chinês, não há vencedor definitivo; inovação pode alterar a posição global.
“Eu acho que é cedo demais dizer que a China venceu a corrida. A própria tecnologia e a inovação é um processo bastante dinâmico.” — Lucas Correa (20:15)
- O notável é a velocidade e consistência do avanço chinês: “em 20 anos... de irrelevante para maior investidor nessas tecnologias renováveis e veículos elétricos” (20:54).
- Investimento chinês em 2024 foi de mais de US$ 600 bilhões em tecnologias limpas.
- China não dá sinais de desaceleração.
- Metas oficiais incluem, até 2035, corte de 7–10% nas emissões (quase 1,5 bilhão de toneladas), multiplicação por seis da capacidade eólica e solar, e liderança em carros elétricos (21:58).
Citações Notáveis e Momentos-Chave
-
Sobre a instabilidade das políticas energéticas nos EUA:
“A questão ambiental e das energias renováveis, ela é menos estável no caso dos Estados Unidos.” — Lucas Correa (07:06) -
Sobre a velocidade de avanço chinês:
“A velocidade de adição de energia limpa no sistema chinês é mais alta do que todo o resto do mundo combinado.” — Reporter (01:18) -
Sobre o impacto das tarifas:
“No caso dos Estados Unidos, a tarifa sobre carros elétricos chineses é de 100%... No Brasil, para carro elétrico é 18%.” — Lucas Correa (16:40) -
Sobre a dimensão do compromisso chinês:
“A China também é a maior investidora em energia limpa do mundo. Em 2024, colocou mais de 600 bilhões de dólares em energia solar, eólica...” — Narrator (21:15)
Tópicos para Quem Busca se Atualizar
- Dinâmica de poder e liderança tecnológica na transição energética global
- Implicações econômicas da infraestrutura verde chinesa versus a dependência petrolífera americana
- Como a política pública consistente pode transformar um país de “fábrica do mundo” a líder em inovação
- Oportunidades e desafios para mercados emergentes diante da ofensiva chinesa em veículos elétricos
- Importância das tarifas e barreiras não tarifárias para a geopolítica dos veículos elétricos
Considerações Finais
O episódio evidencia o abismo estratégico entre as políticas dos EUA (instáveis e cíclicas) e da China (consistentes, planejadas e expansivas), mostrando como isso influencia não apenas a transição energética, mas o equilíbrio econômico e geopolítico mundial. Ao mesmo tempo, reafirma que a corrida tecnológica e verde permanece aberta — e dinâmicas locais, inovações futuras e regulações globais ainda podem redefinir o jogo, apesar do expressivo avanço chinês.
Tabela de Timestamps Resumidos
| Segmento | Timestamp | |---------------------------------------------|------------| | Introdução & contexto | 00:20–03:35| | Emissões globais e panorama EUA x China | 03:35–07:06| | História energética dos EUA | 04:16–06:25| | Estratégia & consenso chinês | 07:06–10:40| | Aceleração chinesa em tecnologias verdes | 08:12–12:12| | Mercado de carros elétricos no Brasil | 14:09–16:30| | Geopolítica e segurança energética | 16:57–19:52| | A corrida tecnológica segue em aberto | 20:04–22:49|
Ouça esse episódio para entender não só a rivalidade energética entre as maiores potências do planeta, mas também o papel — e a chance — dos mercados emergentes nesse novo tabuleiro global.
