O Assunto – "Como combater o crime organizado?"
Data: 31 de outubro de 2025
Host: Ana Tuzanera
Convidados: Bruno Paes Manso (pesquisador, especialista em segurança pública), Pier Paolo Bottini (advogado, professor de Direito Penal, USP)
Visão Geral
Neste episódio especial do podcast O Assunto, Ana Tuzanera conduz uma análise profunda sobre os desafios e caminhos possíveis para combater o crime organizado no Brasil. Com a participação de especialistas renomados como Bruno Paes Manso e Pier Paolo Bottini, a conversa aborda a atuação das facções criminosas, a expansão e sofisticação de suas redes, o papel fundamental das polícias e do Estado, estratégias de investigação financeira, reformas legislativas e exemplos internacionais.
Principais Pontos de Discussão
1. Panorama do Crime Organizado no Brasil
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Expansão das Facções
- O Brasil possui 88 facções ativas, com o PCC e o Comando Vermelho dominando nacionalmente e 14 outras com atuação regional [00:28].
- “O perfil da expansão do Comando Vermelho tem sido mais ligeiro recentemente. A gente tem percebido uma ascensão do PCC, principalmente no norte e no nordeste, justamente em decorrência dessas franquias que eles fazem.”
— Pierre Alcadipane [00:28]
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Diversificação de atividades criminosas
- Facções organizam negócios ilícitos (tráfico, contrabando) e legais (“postos de gasolina, lojas de cosméticos, usinas de cana-de-açúcar e etanol, lojas de brinquedos”), usando empresas como fachada para lavagem de dinheiro [01:12].
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Controle de Territórios
- Pesquisa Datafolha: 28,5 milhões de brasileiros convivem em áreas sob domínio do crime [01:31].
2. Desafios Estruturais e Soluções Imediatas
Profissionalização e institucionalidade das polícias
- Problemas de gestão e corrupção
- Promoções atreladas ao apadrinhamento político mais do que ao mérito operacional.
- Infiltração do crime nas forças de segurança — corrupção dificulta ações efetivas [02:52].
- “O maior antídoto contra você ser um criminoso é educação e desenvolvimento econômico.”
— Bruno Paes Manso [05:38]
Retirada de infratores do ciclo do crime
- Defende medidas inspiradas em modelos de condicional dos EUA/Europa, que acompanhem e ofereçam alternativas de vida aos iniciantes no crime, ao invés de deixá-los impunes ou prescrevendo punições apenas quando já integrados à criminalidade organizada [04:57].
Integração dos esforços estaduais e federais
- Debate sobre a PEC da Segurança Pública: Estados (governadores de direita) resistem à coordenação centralizada, enquanto o governo federal aposta em escritórios integrados de combate ao crime organizado [09:56].
- “A gente só vai sair disso se a gente estiver remando em conjunto.”
— Bruno Paes Manso [10:08]
3. Reformas Legislativas e Proteção a Agentes Públicos
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Leis recentes
- Novos tipos penais para proteger servidores e agentes envolvidos no enfrentamento ao crime organizado: obstrução de justiça e conspiração passam a ser punidas severamente, inclusive para atos que não se consumaram [12:38].
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Necessidade de coordenação nacional
- Sugestão de modelo inspirado na “autoridade antimáfia” da Itália, centralizando e articulando órgãos estaduais e federais para maior confiança e eficácia [11:20, 14:44].
4. Entraves Operacionais e de Confiança
- Falta de articulação/informação
- Experiências internacionais e desconfiança entre órgãos, especialmente devido a riscos de vazamentos de informações sensíveis [16:07–16:35].
- “Não existe crime organizado sem a anuência de agentes do Estado.”
— Bruno Paes Manso [16:35] - Corrupção policial está na raiz da perpetuação do crime; bons policiais se frustram diante da impunidade e da dificuldade de cooperação interestadual/federal [16:35–17:33].
5. Polarização ideológica e pragmatismo
- Críticas ao debate politizado entre “direita” (foco em repressão violenta) e “esquerda” (aposta quase exclusiva em políticas sociais), ambos com limitações práticas.
- Lamenta-se a falta de equilíbrio, planejamento estratégico e continuidade das políticas públicas:
- “Falta uma qualificação melhor do debate no Brasil, falta, e acima de tudo... falta a responsabilidade desses políticos. Nós estamos lidando com vida.”
— Bruno Paes Manso [19:56–21:09]
- “Falta uma qualificação melhor do debate no Brasil, falta, e acima de tudo... falta a responsabilidade desses políticos. Nós estamos lidando com vida.”
6. Experiências e Exemplos Internacionais
- Modelos de inspiração
- Itália: “A máfia está presente, mas muito mais sob controle do que há 15, 20 anos.”
— Bruno Paes Manso [21:51] - Colômbia: reurbanização e políticas integradas em Medellín e Bogotá resultaram em avanços [21:51].
- Japão: revela que erradicar o crime é impossível, mas controle é factível.
- Itália: “A máfia está presente, mas muito mais sob controle do que há 15, 20 anos.”
7. Combate pelo Rastreamento Financeiro
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Destruir as bases econômicas do crime
- “A forma mais eficiente de você desestruturar essas organizações é identificando os recursos que elas produzem e usam para se retroalimentar.”
— Pier Paolo Bottini [23:33]
- “A forma mais eficiente de você desestruturar essas organizações é identificando os recursos que elas produzem e usam para se retroalimentar.”
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Plano prático
- Conectar órgãos como Receita Federal, Coaf, e polícias para rastreio e bloqueio de capitais ilícitos, como exemplificado na Operação Carbono Oculto, que “feriu de maneira muito profunda o crime organizado e não se deu um tiro, não se matou uma pessoa.”
— Pierre Alcadipane [25:01–26:31]
- Conectar órgãos como Receita Federal, Coaf, e polícias para rastreio e bloqueio de capitais ilícitos, como exemplificado na Operação Carbono Oculto, que “feriu de maneira muito profunda o crime organizado e não se deu um tiro, não se matou uma pessoa.”
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Critica ações violentas, como ocupações policiais, por não abordarem mecanismos financeiros, e defende regulação de setores sensíveis como criptoativos e fintechs, grandes rotas de lavagem de dinheiro [27:24].
8. O papel dos sonegadores contumazes no financiamento do crime
- Sonegação como fonte do crime organizado
- Pequeno grupo (cerca de 1.200 pessoas/jurídicas) responde por R$200 bilhões em débitos e segue participando de negócios com o Estado:
- “Esse tipo de atitude tem uma relação muito estreita com o crime organizado... parte desse prejuízo financia essas organizações.”
— Pierre Alcadipane [30:48] - Projeta de lei tramita para tratamento mais rígido de grandes sonegadores.
9. Falhas estruturais nos órgãos de inteligência financeira
- COAF subdimensionado: Apenas 9 funcionários para analisar movimentações suspeitas no país; há esforços para parcerias e fortalecimento, mas faltam recursos [33:48].
- Regulação pendente: Banco Central consulta novas regras para criptoativos, pois o setor ainda é vulnerável à lavagem de dinheiro [35:12].
Notáveis Frases e Momentos
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Sobre integração política:
“A gente só vai sair disso se estiver remando em conjunto. Não adianta cada um remar pra um lado, porque o barco vai continuar parado.”
— Bruno Paes Manso [10:08] -
Sobre lavagem de dinheiro:
“A velha máxima de seguir o dinheiro continua em vigor.”
— Pier Paolo Bottini [23:33] -
Sobre corrupção sistêmica:
“Não existe crime organizado sem a anuência de agentes do Estado. Isso no mundo todo.”
— Bruno Paes Manso [16:35] -
Sobre pragmatismo político:
“O profissionalismo, eu acho que ele é o meio termo disso. Vai usar a força quando necessário for, vai usar a inteligência quando necessário for.”
— Bruno Paes Manso [19:59]
Timestamps de Segmentos Importantes
- [00:28] Expansão das facções no Brasil
- [02:52–05:46] Profissionalização das polícias e combate à corrupção
- [06:15] Proteção de autoridades envolvidas no combate ao crime
- [09:56–11:20] Debate sobre PEC da Segurança Pública e coordenação federal
- [14:44] Modelo italiano da autoridade antimáfia
- [16:35] Corrupção e falta de confiança entre órgãos
- [19:56] Polarização político-ideológica e responsabilidade na segurança
- [23:33–26:31] Importância do combate à lavagem de dinheiro
- [30:48] Relação entre sonegação fiscal e crime organizado
- [33:48] Estrutura do COAF e necessidade de regulamentação de criptoativos
Considerações Finais
O episódio enfatiza que o combate ao crime organizado exige:
- Profissionalização e independência das polícias
- Controle da corrupção institucional
- Quebra das bases econômicas do crime (lavagem de dinheiro, sonegação)
- Integração efetiva entre órgãos federais, estaduais e municipais
- Cooperação interestadual e interagências baseada em confiança
- Uma abordagem além do discurso ideológico, centrada em pragmatismo, responsabilidade e proteção da sociedade
O tom é realista, mas também aponta para oportunidades concretas de mudança, inspirando esperança de que, com liderança e profissionalismo, o Brasil pode avançar em direção a um futuro mais seguro.
