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Ana Tuzaneri
Antes de começar um aviso. Este episódio tem conteúdo sensível. Se você ou alguém que você conhece foi ou é vítima de violência doméstica, eu recomendo que você busque ajuda em delegacias especializadas ou pelo telefone 180, a Central de Atendimento à Mulher. Os casos mais recentes são brutais, e por mais que sejam recorrentes, nunca deixam de chocar. No Rio de Janeiro, a mãe de uma menina de 17 anos teve de viver o impensável, socorrer a filha machucada depois de um estupro coletivo.
Mother of Victims
Quando eu me deparei com ela e falei, filha, o que houve? Aí foi quando ela suspendeu o vestido, mais ou menos, até aparecer. Eu fiquei desesperada e só catei os documentos e falei, vamos para a delegacia.
Ana Tuzaneri
Um crime que não deixa a marca só no corpo.
Mother of Victims
Ela se sentia muito culpada e... De que ia querer desistir da vida por vergonha. porque achava que por onde ela passasse todo mundo iria apontá-la como estuprada e como culpada. E por mais que eu dissesse pra ela que ela não é culpada, assim, essa culpa não era dela.
Ana Tuzaneri
Em São Paulo, a dor de outra mãe. Selma Alves Ribeiro da Silva teve que enterrar a filha Priscila, de apenas 22 anos, que foi espancada até a morte.
Mother of Victims
Quantas vezes mais Uma mãe vai ter que passar numa reportagem agora como eu tô. Quantas vezes? Como é que eu vou explicar pro meu netinho? Vou falar sua mãe tá viajando? Sua mãe foi viajar a trabalho? Ele vai ficar na esperança dela voltar? E eu vou ficar enganando ele até quando?
Ana Tuzaneri
O autor do crime foi o companheiro David Bezerra Pereira.
Mother of Victims
Ela tava dentro de um relacionamento abusivo, tóxico. Fingi tudo pra ela sair desse relacionamento. Já dentro de cinco anos que ela ficou com ele, se essa fosse a primeira vez, mas não, teve outras vezes.
Ana Tuzaneri
Priscila era amiga de outra vítima de feminicídio, Taynara, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por Douglas Alves da Silva ao longo de um quilômetro em uma rodovia de São Paulo. Ouça agora o relato de Lúcia da Silva, mãe de Taynara. Ele pode me matar mesmo, ele não tem coração, não tem justificativa, não tem. Tainara é uma menina divertida, gosta de deixar todo mundo feliz, né? É minha filha, é o bebezinho, trabalhadora, tem seus filhos, tá lembrando, né? Tô lembrando dela, ensinando ela a andar. Uma onda de violência que não parece ter fim e que não poupa nem os filhos.
News Reporter
A polícia civil não tem dúvidas de que o gerro do prefeito de Tumbeara agiu sozinho e matou os dois filhos enquanto eles dormiam. Segundo a polícia, Tales fez uma ligação para a esposa e os dois discutiram. O último contato, uma videochamada, aconteceu às 8h39 da noite. Sarah relatou que a conversa foi agressiva e Thales fez ameaças. A investigação confirmou que Thales Machado matou sozinho os dois filhos, Benício e Miguel, de 8 e 12 anos.
Ana Tuzaneri
Isso é a ponta mais trágica de um iceberg, um sistema marcado pelo machismo estrutural. Para interromper esse ciclo, não basta indignação. É preciso que homens reconheçam o problema e que meninos sejam educados de outra forma. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Como criar um mundo que respeite as mulheres? Neste episódio, eu converso com Luciano Ramos, diretor do Instituto Mapiar, organização que atua em prol da equidade de gênero e racial. E com Ruth Manos, advogada, doutora em Direito Internacional e autora do livro Guia Prático Antimachismo. Sexta-feira, 6 de março. Luciano, você lidera um projeto em presídios, atuando diretamente com homens que cometeram crimes contra mulheres. Assim que esses homens chegam ao sistema prisional, o que eles dizem sobre o crime que eles cometeram? Qual é a visão que eles têm sobre as mulheres que foram vítimas desses homens?
Luciano Ramos
Então, em geral, na Rússia, eles chegam não reconhecendo que cometeram algum tipo de violência. Em geral, eles chegam culpabilizando a vítima ou minimizando a violência que eles praticaram ou mesmo justificando essas violências. eles nunca se colocam como alguém responsável pela violência que cometeram. Então isso é muito importante ficar evidente. Ainda que todo o sistema de justiça, até o momento em que eles entram no sistema carcerário, os aponte como responsáveis pelo crime que eles cometeram, eles não se responsabilizam até aquele momento.
Ana Tuzaneri
E aí a gente tá falando de que tipo de crimes aqui? A gente tá falando de homens que mataram mulheres. Dá uma ideia da vida real desses homens que cometeram crimes.
Luciano Ramos
A gente tá falando desde quebra de medida protetiva, de acordo com a lei Maria da Penha, passando por violência física, agressão, até chegar ao feminicídio. Então a gente está falando de homens que praticaram os mais diversos tipos de violência doméstica. Então eles são, de fato, autores de violência doméstica, são homens agressores, mas que na prática eles não chegam se responsabilizando pelo crime que cometeram. E aí a gente vai ver as mais diferentes frentes desses autores de violência. O maior índice hoje dos homens que eu e a minha equipe, que nós aprendemos dentro dos grupos reflexivos, são homens que quebraram medidas protetivas e homens que praticaram violência física.
Ana Tuzaneri
Mas quando você fala que eles não reconhecem, eles não reconhecem porque eles não enxergam aquilo, machismo naquilo ou eles não reconhecem porque eles não querem, mesmo tendo sido condenados, admitir o crime?
Luciano Ramos
Os dois âmbitos, eu diria. Primeiro porque o machismo confere a esses homens a ideia de que eles têm a posse sobre o corpo das mulheres e aí está a ideia do controle, o poder está posto aí. se eu tenho poder sobre esse corpo, eu posso fazer o que eu quero com esse corpo, porque isso não seria considerado crime socialmente. Historicamente, a gente tem isso, né? Até pouco tempo, a defesa da honra era considerado algo aceitável no Brasil. E, por outro lado, porque esses homens, eles não admitem serem presos por um crime que eles tenham cometido contra as mulheres. Então, alguns homens vão até dizer o seguinte, não, mas eu sou um bom pai, eu sou o provedor daquela família.
Ruth Manos
O Supremo Tribunal Federal derrubou uma tese que servia de base para a impunidade de agressores e assassinos de mulheres. Numa decisão unânime e histórica, os ministros proibiram o uso da chamada legítima defesa da honra.
News Reporter
Por essa tese, um réu agressor poderia, numa reação a um adultério, por exemplo, alegar que sua honra havia sido ferida. No limite, essa tese poderia ser usada até para inocentar um assassino. Mas não há no Código Penal nenhuma menção a essa suposta legítima defesa da honra. O Código Penal estabelece apenas que a legítima defesa pode ser empregada para repelir injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Segundo a lei, a defesa em questão é a da vida, não a da chamada honra, uma espécie de puxadinho criado para livrar da condenação réus acusados de feminicídios.
Ana Tuzaneri
Você menciona o homem historicamente se sentir proprietário do corpo da mulher. Isso está por trás de todos os crimes de feminicídio recentes que tomaram conta do noticiário, está por trás da tentativa de assassinato de uma jovem que é esfaqueada porque ela não aceita ficar com um homem, namorar com um homem, está por trás de tudo. Você entende que todos esses homens que você ouve no seu trabalho diário se sentem mesmo proprietários do corpo da mulher? Eu queria entender um pouco mais a ideia por trás disso. O que eles pensam? O que você ouve?
Luciano Ramos
Na prática, sim, esses homens são educados, historicamente, para praticar a violência, uma vez em que esse corpo feminino não corresponda mais à norma que ele tem em relação à mulher. Homens são educados para terem controle sobre os corpos femininos, e se em algum momento Essa mulher questiona essa norma e ela não corresponde a essa expectativa que ele tem sobre aquele corpo dela. Ele age com violência com essa mulher para retomar a autoridade sobre aquele corpo. E toda vez que um homem age com violência, Isso não está ligado a um descontrole emocional, isso não está ligado a uma explosão desse indivíduo, mas isso corresponde à norma da masculinidade. Isso é coerente com aquilo que se espera dos homens a partir do modelo machista ao qual eles foram educados. Essa ideia do controle, essa ideia do poder que faz com que os homens se organizem para manutenção do que eles consideram como o ideal feminino que é a submissão. Então a gente tem aí uma organização do machismo que se dá tendo como a base o poder e como o ápice dessa pirâmide a violência. A violência existe para manutenção do poder e do controle desse indivíduo.
Ana Tuzaneri
Eu queria entrar agora no teu trabalho, porque você faz um trabalho de desconstrução que é muito potente. Nesse momento, muita gente se pergunta como é que você faz e como é que é essa dinâmica de desconstrução.
Luciano Ramos
que é o instituto que eu dirijo no Rio de Janeiro, numa cadeia pública chamada Patrícia Cioli, onde 40% dos homens que estão presos nessa cadeia são homens que praticaram a violência doméstica. Esses homens ficam ali, em média, presos entre três meses e um ano. Então a gente costuma trabalhar com esses homens ao longo de um mês, com dois encontros semanais, a gente trabalha com oito encontros, com um grupozinho de 25 homens, e aí a gente criou uma cartilha para poder trabalhar passo a passo, metodologicamente com esses homens. Vou dar um exemplo rápido, mas que eu acho que é super importante para a gente entender, porque a sua primeira pergunta é muito basilar para a gente, é muito importante, que é a gente pensar o seguinte, esses homens chegam negando a violência, eles chegam negando que cometeram a violência, Então, a gente não é mais uma voz dizendo pra eles que eles praticaram a violência no primeiro encontro. A gente chega trazendo três histórias. Na primeira história, é uma história de um homem que sai de um lugar do Rio pra ir até outro lugar do estado do Rio de Janeiro. E quando ele sai de casa e pega o carro, a esposa diz para ele colocar o cinto de segurança e não dirigir com tanta pressa, não dirigir em alta velocidade, porque ele já perdeu muitos pontos na carteira de motorista e ele está com risco de perder a carteira. Ele não escuta a esposa, ele dirige em alta velocidade, ele não coloca o cinto de segurança, ele é parado por um guarda, ele é multado e ele perde a carteira. E ele culpabiliza a esposa porque perdeu a carteira. Ele diz que se ela estivesse com ele, ele não teria perdido a carteira. Na segunda história, a gente tem um outro homem que trabalha na construção civil. Esse homem, num final de semana, num domingo, ele toma bebida alcoólica, além da conta, e chega em casa às três da manhã. Ele deveria sair às cinco para chegar no trabalho às sete. A esposa tentou ligar para ele, chamá-lo para ir para casa. Ele não foi para casa. Ele não quis ir para casa mais cedo e aí ele chega no trabalho no dia seguinte alcoolizado, atrasado, cai no vestiário porque está alcoolizado e ele perde o emprego porque já havia sido chamado a atenção outras vezes E ele culpabiliza a esposa, ele diz que se a esposa tivesse feito um café mais forte e tivesse tirado do espaço de diversão mais cedo, ele teria chegado no trabalho e não teria sido demitido O terceiro exemplo é de um rapaz que perde a prova do Enem. A mãe dele saiu na véspera da prova do Enem e ele perde a prova do Enem. E ele diz que a culpa de ter perdido a prova do Enem é porque a mãe não havia dormido em casa naquela noite. E os homens estão ali em subgrupos. Então a gente traz para os subgrupos para que eles leiam essas histórias, dialoguem um pouco sobre essas histórias e em seguida nos apontem para os outros grupos Qual foi a percepção deles daquelas histórias? Eles dialogam, falam muito sobre as histórias, etc. Em seguida, a gente pergunta qual é o ponto comum entre as três histórias. E aí esses homens rapidamente respondem. Esses rapazes ou esses homens das histórias não admitem o que fizeram. E em seguida a gente pergunta, ok, e nós, homens, quando nós erramos, a gente admite os nossos erros? E nós, homens, quando cometemos algum tipo de violência, a gente admite que fez? E aí eles começam a refletir sobre. E a última pergunta é, e vocês? Quando vocês cometem algum tipo de violência, vocês admitem que cometeram, vocês conseguem entender o que é violência? E aí a gente para ali, eles voltam para as suas celas e a gente só volta dois dias depois.
Ana Tuzaneri
E a que resultados vocês chegam quando eles voltam a encontrar vocês?
Luciano Ramos
Então, aí a ficha caiu na coisa. Eles chegam e dizem, eu nunca tinha parado para pensar dessa forma sobre aquilo que eu fiz. Eu conversei com os meus colegas de sela sobre aquilo que eu fiz. Aí o segundo encontro é onde a gente trabalha sobre tipificações de violência. Aí a gente vai falar sobre violência sexual, sobre violência física, sobre violência psicológica. E aí a gente começa trabalhando as tipificações a partir da Lei Maria da Penha. E aí esses homens vão entendendo e compreendendo aquilo que eles fizeram. Se antes era por uma fé, não compreensão ou não, isso a gente não coloca em julgamento. Mas a gente vai começando a fazer com que eles entendam as violências que eles cometeram. No terceiro encontro, a gente já começa a trabalhar sobre saúde física e saúde mental desses homens, até para fazê-los entender essa construção do machismo, que impactos ela tem na vida deles, porque mostrando para eles, inclusive, que os homens são indivíduos que mais matam, mas que também mais se matam, porque o índice de suicídio nos homens é altíssimo no Brasil. e mostrando o quanto o machismo é prejudicial para as outras pessoas e também para eles. E aí, no encontro seguinte, a gente trabalha sobre paternidades, e isso é super importante. Por que trabalhar sobre paternidades? Para mostrar para esses homens que como eles agem com as mulheres, com as quais eles se relacionam no cotidiano, impacta na vida dos filhos e das filhas deles. Então a gente vai fazendo todas essas conexões. O encontro é o seguinte, a gente trabalha sobre machismo, o tema é machismo, e aí no machismo a gente traz todos os impactos do machismo socialmente, como o machismo faz com que as mulheres sejam as vítimas dessas violências de forma muito grande, mas também como isso impacta na própria vida deles e nas performances sociais que eles têm. E no encontro posterior, a gente começa a trabalhar com esses homens estratégias, que é, e agora, como eu lido com isso que eu sinto? Como eu posso falar sobre os ciúmes? Como eu posso falar sobre o controle? Como eu posso falar sobre o poder? Como eu posso trabalhar todos esses elementos para que eu não volte a praticar a violência doméstica? Porque qual é o nosso intuito principal? É de que esses homens não reincidam na violência doméstica. A gente tem um alto índice de punição Mas a gente tem um alto índice de reincidência, o que significa que o sistema prisional no Brasil não consegue resolver esse processo de reeducação dos homens. Então a gente trabalha com esses homens a estratégia da não-reincidência da violência. E aí a gente trabalha a rede de apoio. Quem é a rede que você tem? Quem você pode procurar quando você está mal relacionado a ciúme, violência, enfim. E aí a gente vai trabalhando com esses homens, que rede que ele pode ter Para a ministra do STF, Carmen
News Reporter
Lúcia, a Justiça precisa de uma atuação urgente no combate à violência contra a mulher. A ministra acredita ainda que é importante investir na educação de crianças e jovens para mudar essa cultura da violência.
Ana Tuzaneri
Preciso que nós da sociedade atuemos junto, por exemplo, com o Ministério da Educação, para que nós tenhamos uma educação que vai mudar de forma muito mais vertical, uma cultura brasileira de violências, especialmente de violências contra as mulheres, que acaba explodindo neste quadro que nós estamos vivendo agora,
Mother of Victims
que é de barbárie.
Luciano Ramos
Um ponto importante é o seguinte, é que quando a gente entrou nessa cadeira pública na Patrícia Scioli, o índice de reincidência no momento em que a gente chega na cadeira era de 16,9%. No final do ano de 2025, esse índice estava em 1,5%. E isso a gente fazendo monitoramento junto com o sistema prisional com a Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro e com um pesquisador que trabalha conosco, a gente monitorando mês a mês, sabe? A partir das saídas de esses homens.
Ana Tuzaneri
É muito curioso porque o que você, me corrija se eu estiver errada, o que você faz na prática é fazê-los olhar para o machismo a partir de um olhar externo, como se eles não fossem machistas e como se eles estivessem avaliando um caso que não é o caso deles.
Luciano Ramos
Porque se eu falo do caso deles, eles ficam na defensiva. Então, eu preciso fazê-los olhar de fora, e quando eles se olham de fora, eles olham para si mesmos.
Ana Tuzaneri
Ou seja, me parece que há saída, mas não há saída sem educação, sem um esforço muito grande de muita gente para mudar essa realidade, porque o seu trabalho é a prova de que é possível melhorar?
Luciano Ramos
Exatamente isso, e um ponto que a gente tem trabalhado muito na Tusa é não só trabalhar com os homens autores de violência doméstica, a gente tem trabalhado também com os meninos adolescentes em escolas, trabalhado muito com meninos na primeira infância também, porque é quando a gente entende que a gente só vai Virar esse jogo, a gente só vai mudar a história se a gente trabalhar um processo de reeducação com meninos, rapazes e homens. Aí a gente consegue proteger as meninas e mulheres.
Ana Tuzaneri
Luciano, parabéns pelo trabalho. Muito obrigada por topar falar com a gente.
Luciano Ramos
Obrigado, Ana Filizão.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Ruth Manos. Ruth, no seu livro Guia Prático Antimachismo, você propõe uma incursão que me parece muito importante, que é aprender a identificar o machismo, aprender a reconhecer o machismo para poder mudar comportamentos machistas. Então, vou te pedir primeiro para que você nos diga o que você conta no livro.
Ruth Manos
Esse livro, o Guia Prático Antimachismo, foi um livro muito pensado para quebrar barreiras, para não pregar para os convertidos. Ele é um livro que se propõe a explicar o básico, desde o que é machismo, o que é feminismo, o que é luta por igualdade, o que é privilégio. para a gente tentar desconstruir aquilo que a gente tem de machismo em nós. E quando eu digo a gente, eu estou falando efetivamente de todos nós, inclusive de mim, que sou mulher, que sou vítima do machismo, mas que a gente é contaminado por um inconsciente coletivo, por uma cultura patriarcal. Então, a intenção do livro é que cada um de nós seja capaz de reconhecer onde o machismo reside em cada um de nós e como é que a gente faz para começar a mexer com isso.
Ana Tuzaneri
Entendi. Eu queria, então, te fazer um convite para você levar a gente para dentro do seu livro e nos explicar situações cotidianas que são machistas e que as pessoas ainda reproduzem nos dias de hoje. Então, você quer começar por que aspecto? Eu acho que vale a pena a gente dar exemplos dos seus ensinamentos nos livros. do mais simples, do machismo mais corriqueiro e mais encontrado até o mais complexo. Começando pelo mais simples, o que é machismo, uma atitude machista que muita gente reproduz e muitas vezes não percebe.
Ruth Manos
Eu acho que a gente pode começar, de uma forma óbvia, por questões relativas à imagem. Então, a gente muitas vezes, na tentativa de elogiar uma mulher, e isso pode partir de homens ou de mulheres, a gente faz elogios do tipo, nossa, mas você está envelhecendo muito bem, nossa, parabéns, você emagreceu. Parte de pressupostos muito básicos do que é um ideal de mulher. sem se perguntar se esse é o ideal dessa mulher, se essa mulher emagreceu porque ela quis ou porque ela está doente ou porque ela está deprimida, como é que é esse processo de envelhecimento para ela. Então, assim, a gente, na questão da imagem, é super básico. São coisas que muitas vezes partem das próprias mulheres esse tipo de comentário machista.
Ana Tuzaneri
Um outro ponto aqui, quando um homem chama uma mulher de histérica, quando ele diz que ela está louca, explica pra gente porque isso é machismo e a gravidade disso.
Ruth Manos
conceito, um termo que só existe em inglês, chamado gaslighting. Ele vem de um filme com a Ingrid Bergman, chamado Gaslight, é a luz de velas no Brasil, a meia-luz, que é um filme no qual o marido convence a mulher de que ela está louca porque ela tem um patrimônio muito grande de que ele quer ser o responsável por gerir. Então, o que acontece? A gente muitas vezes taxa de louca, desequilibrada, maluca, histérica uma mulher que, na verdade, ela está manifestando descontentamento delas, ela está brava, ela está furiosa, ela está com raiva de alguma situação, e a gente transforma isso em uma espécie de distúrbio, que é nomeado por alguém que provavelmente não tem CRM nem CRP, e que tá dizendo que essa mulher, ela tá desequilibrada e não brava. Então, a gente tem dois problemas aí. Então, em primeiro lugar, a gente tá deslegitimando uma coisa que é um manifesto dessa mulher. Então, mulher que chega em casa e encontra tudo uma zona, ninguém preparou jantar, é sapato no meio do caminho, é louça suja no meio da sala. Essa mulher, quando fica brava e alguém fala, você tá louca, você tá desequilibrada, você é maluca, vai se tratar. a gente está esvaziando o lugar dela de razão por estar brava e está dando um falso diagnóstico de loucura. E o pior é que a gente cai, Natuza, o pior é que a gente fala, vou tomar um suco de maracujá, vou me acalmar e daqui a pouco eu volto. Só que acontece, você volta e a bagunça está exatamente igual, porque você estava brava, você não estava nervosa, são duas coisas muito diferentes.
Ana Tuzaneri
Um homem está numa empresa, ele olha em volta e só percebe nos cargos de chefia pessoas como ele, portanto, homens, Por que isso é machismo estrutural?
Ruth Manos
Primeiro, pelo fato deles nem perceberem isso. A gente sempre fala que é o diferente, né? Então, assim, numa mesa com 20 pessoas brancas e uma pessoa preta, com 20 pessoas cis e uma pessoa trans, com 20 pessoas, enfim, 20 homens e uma mulher, quem vai sentir que é o diferente ali é o visitante, né? A pessoa que tá em menor número numérico. Os outros sentem que tá tudo bem. E é assim que os homens vêm se sentindo no ambiente de trabalho ao longo de quase toda a história, sobretudo se a gente está falando de trabalhos privilegiados. O fato deles nem perceberem que existe essa diferença é o primeiro ponto. O segundo ponto é eles acharem que a presença dessa pessoa diferente é um favor e não um ganho de pensamento para uma equipe. E o terceiro grande problema é o desconforto que isso gera neles. Por quê? Se tem uma mulher, eu não posso fazer as piadas que eu sempre fiz. Se tem uma pessoa preta, eu tenho que me preocupar se alguma fala que eu tô fazendo é racista. Se tem uma pessoa LGBT, eu tenho que me preocupar se essas brincadeiras que eu faço são ou não adequadas. Isso quando a gente tá falando de pessoas minimamente civilizadas que se preocupam com os seus comportamentos. Quando a gente diagnostica esses três problemas juntos, que eu acho que é o que eu faço o mês inteiro de março na Faria Lima, em Alphaville, do Parque da Cidade, em todos esses ambientes empresariais que eu frequento para palestrar, a gente está falando de começar a mexer na base menor da estrutura, porque depois a gente tem um prédio inteiro para corrigir em cima.
Ana Tuzaneri
Um outro ponto que eu queria te perguntar. Num grupo de WhatsApp só de homens, um deles manda foto de uma mulher nua despida. Explica pra gente o machismo que mora nessa atitude, mas também o fato de nenhum outro homem repreender esse ato.
Ruth Manos
Eu acho que aí a gente até sai de uma esfera de falar só de machismo e a gente passa para uma esfera criminal. Aí eu acho que eu saio da skin escritora para skin advogada, que você tem uma divulgação, uma exposição de uma imagem não autorizada, a gente está falando de um problema jurídico. Mas se a gente for voltar um pouquinho para essa esfera moral, Acho que a gente nem precisa ir tão longe de ser uma exposição de uma foto íntima. O simples fato de um homem fazer algum tipo de observação desrespeitosa sobre uma mulher num grupo onde ele se sente 100% seguro, tem toda a pesquisa da Valesca Zanello sobre os grupos de WhatsApp como lugares muito seguros para os homens exercerem machismo e outros tipos de comportamento eticamente, juridicamente questionáveis. A gente tem uma situação análoga ao dos cúmplices na esfera criminal.
News Reporter
O artigo 216B do Código Penal, ele penaliza toda e qualquer pessoa que pega uma imagem e manipula, altera, divulga com um nu de uma prática sexual ou qualquer outro tipo de nu verdadeiro ou não. E também tem o crime do artigo 218C, que é o de pegar a imagem com a nudez e divulgar da publicidade, compartilhar em WhatsApp.
Ruth Manos
Além do processo criminal, existe ainda a possibilidade de punição na esfera cível, como, por exemplo, o pagamento de indenização por danos morais. Então, se um homem silencia ou só manda um rá-rá-rá para uma coisa que é evidentemente desrespeitosa, a gente está falando de conivência com o machismo, então você está validando essa conduta.
Ana Tuzaneri
Ruth, eu queria que você explicasse também o que é o machismo recreativo e como ele reforça práticas muito violentas ao longo do tempo, ao longo da história.
Ruth Manos
Eu sempre falo que a gente tem grandes perigos, tanto o machismo, quanto o racismo, quanto a homofobia, gordofobia, quando eles vêm travestidos de humor. Quando a gente acha que é só uma brincadeira, mas o mundo está ficando chato, esse tipo de discurso. Porque as pessoas que fazem esses comentários, muitas vezes elas se iludem, elas realmente se convencem de que elas não estão sendo alguém que discrimina, que elas não estão prejudicando ninguém. Eu sempre digo que a pessoa que precisa diminuir alguém para ser engraçada, ela tem que descobrir que ela realmente não é engraçada. E tudo bem, nem todo mundo é engraçado. Tem pessoas que são engraçadas e tem pessoas que não são. Mas se você precisa, necessariamente, humilhar ou reduzir ou oprimir alguém para tentar fazer humor, a gente está chegando a um diagnóstico de problema sobre quem fala, não sobre a vítima da piada.
Ana Tuzaneri
A gente tem observado, testemunhado casos muito dramáticos nos últimos tempos. Parece que a coisa tá piorando. O caso mais recente foi o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana por três adultos, três homens adultos e um menor de idade. Pois bem. Eu fiz um comentário na Globo News explicando que não era o caso dessa menina, não era o caso dessa adolescente, porque ela disse não. Ela disse não para qualquer ato sexual com os três adultos. Mas mesmo que uma mulher, num primeiro momento, tenha consentido ter um ato sexual com um homem, e no meio ela querer parar, por qualquer que fosse a razão, se o homem não para, é estupro. E aí um comentário me chamou a atenção nas redes sociais. Um homem diz, mudar de ideia? Eu queria que você explicasse a gravidade de que o não de uma mulher não é respeitado, nem o direito a mudar de ideia no meio de um ato sexual.
Ruth Manos
Eu acho que a gente tem um exemplo muito fácil para a maioria dos homens, especialmente os homens hétero, entenderem, né? É se a gente entra num quarto com um homem e ele está ok para esse ato, e de repente a mulher resolve que quer, né, ela tem um vibrador no quarto e que ela quer fazer alguma brincadeira anal com esse homem, Ele tem direito a mudar de ideia? Ele tem direito a dizer que não? E que isso ele não quer? E que isso pra ele não é legal? Acho que nenhum homem hétero tem dúvidas de que eles teriam direito a dizer que não, embora eles tivessem alinhado no começo, chegou num ponto que eles não querem continuar, que eles não querem que isso seja consumado. Então, assim, se isso não for claro o suficiente pra eles, eu não sei o que que é. E aí eu acho que a gente precisa falar de forma muito séria, sobretudo com pais de meninos e meninas, sobre como a gente tem que estar perto dos nossos filhos em relação à indústria da pornografia. Não vamos falar que, ai, não, mas meus filhos vão ver e todos vão ver, meninos e meninas, o acesso é facilitado, isso se não vier através deles vai vir através de amigos, vai vir através de colegas. E o que a gente tem na indústria pornográfica é o sexo violento, é o não sendo relativizado o tempo todo. Então, eu sempre digo isso, né? A gente precisa criar com os nossos filhos, nossos sobrinhos, nossos netos, nossos enteados, relações muito diferentes das que existiram há 30, 50 anos atrás. A gente precisa ter liberdade pra falar com eles do tipo, cara, se você vê algum vídeo que você acha esquisito, tenha liberdade de perguntar pra gente se isso é normal. tenha a liberdade de virar para alguém, às vezes não vai ser a mãe, vai ser o pai, não vai ser o pai, vai ser um irmão mais velho, vai ser um primo, mas que haja alguém na vida de um jovem, de um adolescente, de uma jovem, de um adolescente, que seja um espaço seguro para essa pessoa virar e falar, eu vi um vídeo aqui no site, eu vi um pornô, e isso ser uma coisa naturalizada, porque que atire a primeira pedra quem nunca fez isso, e que eles perguntem, isso aqui é normal? Isso aqui é uma coisa que eu devo reproduzir em algum contexto. É muito esquisito, Natuza, a gente ter que falar sobre isso, mas a gente tem que ter clareza e sinceridade sobre a sociedade na qual a gente vive. Se a gente fechar os olhos, a gente está endossando que todos os nossos jovens e adolescentes não tenham espaços seguros para falar sobre isso e sejam contaminados por vídeos de violência que eles podem, em algum momento, achar que isso faz parte da relação sexual saudável e não faz.
Ana Tuzaneri
Ruth, muito bom te ouvir. Muito obrigada. A gente só pincelou alguns dos pontos que você trata no seu livro, mas eu espero que ele comece a abrir os ouvidos das pessoas sobre as práticas do dia a dia do machismo, tão eloquentes. Bom trabalho pra você.
Ruth Manos
Obrigada, pra vocês também.
Ana Tuzaneri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catelan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Ana Tuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast Summary: O Assunto – “Como criar um mundo que respeita as mulheres” (March 6, 2026)
In this special episode of “O Assunto”, host Ana Tuzaneri (G1) dives deeply into the pervasive reality of gender-based violence in Brazil. Through harrowing firsthand accounts, expert interviews, and practical strategies, the episode interrogates the roots of machismo, the obstacles to change, and how concrete solutions—especially education and re-education—can help create a world that respects women. The episode features Luciano Ramos (Instituto Mapiar) sharing his experience working with male offenders, and Ruth Manos, lawyer and author of "Guia Prático Antimachismo", offering everyday examples of machismo and pathways towards more equal behavior.
The episode underscores that combating violence against women demands systemic change and individual transformation—starting with male education, admitting the pervasiveness of machismo, and building supportive communities. Both testimony and evidence bear out: it is possible to break cycles of violence, but only if society resolutely commits to challenging structural inequalities and rethinking what it means to be a man in relation to women.
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