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Natuza Nery
Na tabela periódica, o ouro ocupa o número atômico 79. O nome vem do latim e quer dizer aquilo que brilha. Em seu estado puro, o ouro não enferruja, não se desfaz e não envelhece. Também é tido como um marcador social. O metal precioso era usado por reis como sinal de status, um privilégio de poucos, e virou sinônimo de eternidade e de poder. Hoje, é um pouco diferente. Ele segue como símbolo de riqueza, verdade, mas é também um sinal de que o mundo está em alerta.
Narrator/Reporter
As incertezas provocadas pela política externa do presidente Donald Trump voltaram a pressionar o preço do ouro. Pela primeira vez, a cotação ultrapassou 5.100 dólares.
Natuza Nery
Para você entender o tamanho do salto no valor do ouro, vamos voltar 12 meses. Em janeiro do ano passado, o ouro era negociado a US$ 2.700,11, que é a medida padrão para esse metal. Foi naquele mês que Trump voltou à Casa Branca. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Disputa comercial com a China, tarifaço, crises geopolíticas e militares. E a mais recente delas, a ameaça de Trump de tomar a Gruelândia, fez o ouro renovar suas máximas. Enquanto isso, a moeda americana...
Narrator/Reporter
No mesmo período, o dólar perdeu força.
Natuza Nery
Um cenário de altos e baixos que pode ter efeitos aqui na nossa economia.
Narrator/Reporter
Essa busca por alternativas ao dólar, aos títulos e ativos americanos não só valoriza o ouro e a prata, como também gera uma onda de investimentos atrás de mercados emergentes, o que, segundo economistas, coloca o Brasil numa posição estratégica.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Corrida do Ouro, o sintoma de uma economia global em ebulição. Meu convidado é Sérgio Valle, pesquisador de economia e política internacional do Instituto de Estudos Avançados da USP. Ele é economista-chefe da consultoria MB Associados. Quarta-feira, 28 de janeiro. Sérgio, ouro atingiu o maior valor da história, ultrapassou US$ 5.100 nessa semana e eu queria que você nos explicasse o que esse movimento revela.
Sérgio Valle
Nós já vimos isso acontecer em alguns momentos no passado, Natuza, que a gente viu o preço do ouro, o preço da prata crescer com intensidade em momentos de stress no mercado. A gente viu isso na pandemia, a gente viu isso na crise de 2008, a gente viu especialmente na crise americana dos anos 70. Agora, a intensidade é maior, a gente está vendo um crescimento forte do preço do ouro desde o ano passado, da prata também, E é um pouco aquela ideia de que você tem uma incerteza tão grande no mundo nesse momento, e especialmente essa incerteza está acontecendo no país que, em geral, nesses momentos, a gente foge para esse país. E nesse momento, por conta da incerteza que está sendo criada, pela própria economia americana, a gente vê os ativos saindo dos Estados Unidos e tentando buscar ativos que tenham o mínimo de segurança. E o ouro historicamente sempre teve um pouco esse papel. A demanda por ele cresce com intensidade, é um metal com limites físicos, por óbvio, e aí você vê o preço subir nessa intensidade como a gente está vendo agora. Então a grande causa desse movimento muito forte do preço do ouro que a gente está vendo agora, vem desse cenário americano muito adverso que a gente está vivendo agora.
Natuza Nery
Portanto, de perda de confiança no dólar e nos Estados Unidos como âncora do sistema financeiro global, dá para dizer isso?
Sérgio Valle
Então, várias frentes de perda de confiança que a gente está vivendo. Na parte econômica, a gente tem um cenário de política fiscal muito mal encaminhada nos Estados Unidos nesse momento. É uma política fiscal que não só é mal desenhada, que está gerando processos grandes de déficit e dívida, pública nos Estados Unidos, mas também a gente vê uma dificuldade muito grande na parte política. Como você vai ter um congresso juntando democratas e republicanos para fazer um acordo para que esse ajuste fiscal no final acabe acontecendo? A gente tem dificuldade de ver esse cenário aparecer, como a gente já viu em outros momentos da história americana, e isso coloca um pouco de dúvida sobre o que vai ser o cenário fiscal. A política humanitária, então, nem se fala. A gente está vendo o Trump atacar o Fed insistentemente desde ano passado, tinha atacado a Teresa Cooke, a diretora do Fed, agora atacou o presidente do Fed, o Jeremy Powell, diretamente com processo, O.
Narrator/Reporter
Departamento de Justiça americano notificou Powell de que ele estava sendo processado, acusado de má administração de uma reforma dos prédios do Federal Reserve e de mentir ao Congresso ao prestar contas. A ação criminal foi vista como uma tentativa clara de interferência sem precedentes contra um dos bancos centrais mais tradicionais do mundo. Com 112 anos de história, o Fed tem uma reputação sólida de independência que inspirou outros países. Trump tem pressionado Powell a cortar os juros desde o início do governo, em forma de ofensas pessoais. Chegou a chamá-lo de burro e de teimoso. A pressão da Casa Branca sobre o Banco Central americano, nunca antes vista na história dos Estados Unidos, fez soar um alarme em todo o planeta.
Natuza Nery
Já houve outros momentos recentes em que a gente viu esse movimento de valorização do ouro. Cito dois recentes, a pandemia e a guerra na Ucrânia. A gente pode comparar esses dois momentos com este agora ou você vê diferenças maiores do que aparentemente se enxerga?
Sérgio Valle
Eu acho que o que a gente está vivendo agora, Natuza, não se compara com nada que a gente viveu no passado. Acho que o mais próximo que a gente pode considerar é um momento de instabilidade que os Estados Unidos teve na década de 70. A década de 70 foi uma década em que a gente viu o fim do sistema de Bretton Woods, a flexibilidade das moedas mundo afora.
Narrator/Reporter
A dominância do dólar nas transações comerciais data do apagado das luzes da Segunda Guerra Mundial, quando a derrota da Alemanha nazista era iminente. Um grupo de 45 países aliados se reuniu em Bretton Woods, cidade americana que deu nome ao acordo. Nele, ficou estabelecido que, para facilitar as operações entre as nações, cada país deveria lastrear suas moedas em ouro, o chamado padrão ouro. Com os Estados Unidos emergindo como potência mundial do conflito planetário, o dólar se transformou em referência.
Sérgio Valle
A gente teve a crise política intensa nos Estados Unidos com a queda do Nixon, governos fracos na sequência, a gente teve um banco central americano muito fraco também naquela época, a política monetária estava muito ruim, política fiscal também. Então o cenário americano no final dos anos 70 era bem complicado e teve dois choques do petróleo para acompanhar isso tudo no meio do caminho. E o que aconteceu? Fuga dos investidores para ativos de maior valor, naquele caso a gente viu isso também acontecer. O ouro subiu em intensidade no seu preço, a prata também, e agora de certa forma a gente está revivendo isso. Só que acho que a grande diferença, Natuza, é que naquela época a gente viveu esse tumulto todo na economia americana, mas teve uma saída. Os Estados Unidos se reinventaram nos anos 80, Paul Volcker, o grande presidente do Fed nos Estados Unidos, virou presidente no final dos anos 70, colocou ordem na casa, os Estados Unidos saíram daquele processo alto de inflação que eles estavam vivendo, organizaram a economia e a gente entrou num cenário muito mais razoável. Olhando agora pra frente, A gente não vê cenário de estabilidade, pelo contrário, tem mais três anos do Trump, ele vai colocar gente que pensa como ele no FED, política fiscal não tem solução de curto e médio prazo, então é um cenário que essa instabilidade vai continuar. Então se no final dos anos 70 a solução veio e a gente começou a acalmar o mercado, agora a gente tá num momento que o mercado vai demorar um pouco mais pra acalmar.
Natuza Nery
Pois é, era isso que eu ia te perguntar, porque a gente vê essa conduta do Trump de partir para cima de diretores do Fed ou do próprio comandante do Fed com um processo em cartilhas normais da cobertura jornalística e isso é motivo para um grande abalocísmico no sistema financeiro nacional. Um presidente da república fazer isso num regime democrático é algo considerado gravíssimo. Por que o mercado está procurando segurança no ouro e não está em crise nesse momento? Por que a gente não vê uma agitação mais forte no sistema financeiro com essa incerteza provocada por Trump?
Sérgio Valle
De certa forma, a gente está vendo um pouco dessa incerteza acontecer. Quando a gente vê esse movimento que está acontecendo no ouro nesse momento...
Natuza Nery
Mas não é desespero, né, Sérgio? É um sinal de alerta, mas não me parece desespero.
Sérgio Valle
Não é desespero ainda, concordo, é um sinal de alerta, a gente está vendo isso acontecer com o mercado, com o ouro e vários outros ativos. Sinal de desespero ainda não entrou, o mercado ainda está numa trajetória de que, olha, você tem eleições de meio período nessa metade do ano, a economia americana continua crescendo, O cenário ano passado com a guerra tarifária não mudou radicalmente o crescimento econômico. Eu tenho a impressão, Natuza, que o mercado está um pouco conectado demais com o curto prazo, com o presente que a gente está vivendo agora, dos números que não estão lá muito desastrosos e não estão vendo o cenário um pouco mais de longo prazo, que é uma construção muito ruim que os Estados Unidos estão ao longo das últimas décadas, que não começou de agora, aquela velha frase, chavão, que Roma não caiu em um dia, a gente pode usar isso também para os Estados Unidos. Estados Unidos está num processo que não é o Trump o único culpado disso, O que a gente está vendo agora é o mercado trabalhar com normalidade. A gente, de certa forma também, a gente já viu em outros momentos da história de guerras, de crises muito profundas, o mercado doméstico achar que está tudo bem, está tudo razoável, enquanto o mundo institucional está caindo. É um pouco isso que a gente está vivendo hoje, o mercado está olhando o crescimento, está tudo razoável, tem inteligência artificial, os mercados estão bem por conta das big techs, mas todo o resto está indo mal e isso vai pagar um preço lá na frente.
Natuza Nery
E você enxerga um marco em que esse sinal de desespero pode começar a bater? Tem algo no horizonte que dê para dizer assim, olha, até aqui tudo bem, mas se acontecer isso, aí a temporada ou aí a tromba d'água chega. Dá para antever algo assim?
Sérgio Valle
Eu acho que tem duas coisas que podem colocar o mercado numa posição mais agressiva de estresse contra o Trump. Uma na verdade aconteceu já no passado com a guerra tarifária, quando o Trump fez aquele discurso apoteótico maluco na Casa Branca em abril, com aquela placa colocando as tarifas lá em cima. Já foi ali um prenúncio, o mercado já se voltou bastante contra o Trump, depois ele voltou atrás como ele sempre faz, as coisas normalizaram um pouco. Acho que tem duas coisas agora que são graves, a gente precisa ver se vão acontecer. ele retroagiu um pouco, que é a questão da Groenlândia. Você ter um país como os Estados Unidos atacar, um país da OTAN, e sinalizar como ele estava sinalizando que invadiria, que tomaria mesmo militarmente, era um sinal de fato que a gente fosse olhar na história daqui 30, 40 anos, a gente fosse olhar para o passado, foi quando acabou de fato tudo que foi criado ali no pós-guerra. quando os Estados Unidos invadiram a Groenland. Então isso ainda é possível, o Trump é completamente errático, ele percebeu que a história é muito mais complicada, difícil do que a Venezuela, ele não tá se envolvendo com países que vão ficar apáticos nesse sentido, então acho que ele tá um pouco mais cauteloso. Mas a gente sabe que ele é errático e eventualmente pode fazer alguma besteira nesse sentido. Então aqui eu acho que o mercado ficaria bastante estressado se ele tentasse algo mais agressivo. E a outra, Natuzka, aí é mais provável da gente ver um stress de fato acontecer no final do ano, no período eleitoral, eleição de meio período nos Estados Unidos, que olhando de hoje, mesmo com todas as traquitanas que o Trump tá fazendo, as gerrymanderings contra o Partido Democrata, há chance muito grande de pelo menos no Congresso, na Câmara de Deputados, o Partido Democrata levar, ganhar. Como é que o Trump vai lidar com isso? Vai entrar na justiça, vai impedir, vai abrir um processo, vai invadir o Estado, a cidade? Enfim, eu acho que a eleição americana de meio período vai colocar também um risco muito grande. Um terceiro que é mais volátil, mais incerto, é saber se essa bolsa, a bolsa americana crescendo nessa intensidade, se tem de fato uma bolha que pode estourar, uma desaceleração mais grave na economia americana, isso ainda está no terreno da Dá incerteza, mas é uma possibilidade também que colocaria um cenário de crise maior nos Estados Unidos.
Natuza Nery
Queria falar contigo sobre China, mas não só China, Índia também, porque os dois países estão aumentando as suas reservas de ouro e isso, claro, está ajudando a aumentar o preço. Existe um movimento global de redução da dependência do dólar? Você enxerga algo mais estrutural? E aí, se enxergar, a gente está falando de uma nova ordem monetária e geopolítica dividida em zonas de influência. O que você está vendo?
Sérgio Valle
Acho que a sorte do dólar, Natusa, é que não tem muita alternativa. Por mais que a gente fale do ouro, o ouro é como o Keynes chamava, a relíquia bárbara. Você pensar nessa moeda e no sistema que existia de política monetária lá no passado, que você tinha o padrão ouro, esse tipo de coisa a gente sabe que é difícil e não volta. Então o euro, para a própria moeda chinesa, você não tem alternativas do porte da intensidade que ainda o dólar representa para o mundo. Quando a gente olha proporção de comércio na parte financeira, o dólar ainda é altamente dominante, provavelmente vai continuar dominante durante algum tempo. Agora, há um esforço muito grande, obviamente, nesse momento da China de se distanciar do dólar. A gente já está vendo isso acontecer nos últimos 10 anos, as reservas internacionais na China de dólar caíram pra praticamente metade do que era 10 anos atrás, a gente viu isso crescer com mais intensidade na Inglaterra, mas a China está se desfazendo das suas reservas em dólar e está adquirindo ouro, assim como a Índia. É mais para dar um lastro na própria moeda, colocar um certo lastro para a moeda chinesa de alguma forma, sem entrar num tipo diferente de regime monetário, padrão ouro, não é bem por aí, mas é uma ideia que a gente vê acontecer da China cada vez mais de fato se desvencilhar do dólar. A gente já tá vendo essa construção acontecer e isso vai continuar acontecendo. O sistema de pagamentos, por exemplo, que hoje no mundo a gente usa o SWIFT com intensidade, a China tá criando o seu, já criou o seu, tá vindo com força, muito mais barato, muito mais rápido que o sistema internacional de pagamentos que sempre funcionou com a base americana. Assim, a China tá construindo meios e mecanismos pra fazer isso acontecer. E o que ela tem por trás para ajudar nesse sentido? Uma base de comércio e de finanças muito intensa com países emergentes da África, na América do Sul, Sudeste Asiático.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Sérgio Valle. Bom, e se agora o ouro já está na marca de 5.100 dólares, Eu te pergunto o que esperar para 2026, porque tem especialista dizendo que pode chegar neste ano a 6 mil dólares.
Sérgio Valle
Não dá para dizer exatamente onde esse preço do ouro vai chegar na Tusa, mas certamente dá para dizer que ele vai continuar crescendo ao longo desse ano. Eu não consigo ver no cenário internacional, especialmente baseado no caso da economia americana, motivos de tranquilidade para achar que de repente o mercado americano volte ao normal e o ouro comece a cair. Pelo contrário, o sinal é de incerteza, a gente tende de fato a ver esse preço do ouro, preço da prata, franco suíço, criptomoedas, tudo que é alternativa possível nesse momento, tendência de preço continuar subindo.
Narrator/Reporter
Nos últimos 12 meses, o preço dos contratos futuros do ouro variou mais de 70%. A prata também está valorizada e a tendência é que o preço desses metais se mantenha em alta.
Natuza Nery
Sérgio, você já citou o Paul Volcker duas vezes naquele cenário do final da década de 70. Explica pra gente como é que estava a situação naquele momento, porque o sobrenome dele, inclusive, cunhou uma expressão chamada Choque Volcker. Dá uma contextualizada para quem não está na mesma página que você, por favor.
Sérgio Valle
O Volcker foi um presidente do FED, do Banco Central Americano, no final dos anos 70, que pegou uma situação muito ruim do ponto de vista inflacionário, bem pior do que os Estados Unidos estão vivendo agora. A inflação já estava em dois dígitos, vivia se aproximando de dois dígitos durante vários anos, Estados Unidos estava no choque do petróleo, no segundo choque do petróleo no final daquela década, também tinha tido problemas políticos graves, o Nixon renunciou, teve todo o processo político depois, o Gerald Ford fraco, o Jimmy Carter também fraco, enfim, o cenário americano econômico e político no final dos anos 70 estava muito ruim. O Volcker entrou e deu um choque de juros. Aumentou a taxa de juros com intensidade para colocar o cenário de inflação para baixo. E a gente viu isso acontecer naquele momento. E a gente viu a economia americana se normalizar ao longo dos anos 80. Foi duro. Esse aumento forte de juros para controlar a inflação levou a uma recessão nos Estados Unidos. Duas recessões no começo dos anos 80, mas conseguiu trazer a inflação para baixo. A gente não está falando aqui de inflação elevada, não é isso, inflação está um pouco acima de 3. Então é uma coisa talvez mais grave, você está falando de uma institucionalidade do Banco Central Americano que está sendo mudada para beneficiar o presidente de ocasião. Então você coloca um cenário de longo prazo muito mais tenebroso, muito mais difícil. que você tá mudando as pessoas de dentro pra fazer o que o presidente da república quer que faça. A gente já viu isso na América Latina acontecer tantas vezes, né Natuza? Nunca funcionou, nunca deu certo, sempre deu muito errado, e eu acho que outra vez que a gente conversou aqui antes, eu brincava com você que os Estados Unidos estavam virando parte da América Latina, não está mais, já é América Latina, só falta a gente conquistar o Canadá. Vamos lá em frente que vamos conseguir ainda.
Natuza Nery
Bem lembrado, Sérgio. Agora, eu estava aqui me preparando para a gente gravar e chegou um sistema de alerta de chuva no meu celular. Eu estava pensando que o ouro, a alta no ouro, funciona mais ou menos assim, né? Ver o ouro sendo muito procurado. Você pode não entender, se você for um alienígena, você pode não saber o que está acontecendo no mundo, mas se você receber esse alerta sonoro, significa que tem alguma coisa esquisita ou errada acontecendo globalmente. Você acha que esse momento agora que a gente está tratando É o sinal de um ponto de virada mais profundo, mais prolongado da economia global? Ou você acha que sai o Trump e isso se resolve?
Sérgio Valle
Eu acho, Natuza, que é um momento mais delicado. O ouro é como se fosse uma febre e a gente precisa identificar agora o que é a causa dessa febre. É uma bactéria, é um vírus, é uma bactéria agressiva. Os remédios que existem resolvem. Porque nos anos 70 a febre do ouro que a gente teve tinha remédios, o Volcker foi um remédio, trouxe remédios da economia que funcionaram, aí a febre passou, a febre do ouro passou nos anos 80. A febre do ouro agora eu tenho a impressão que não tem remédio, não tem antibiótico de última geração para solucionar essa crise nesse momento, porque o agente causador infeccioso, agressivo continua presente. e vai continuar por três anos. E eu acho que é mais do que ele, né, Natuza? A questão política que a gente tá vivenciando nos últimos anos, você muda de patamar pra pior, quer dizer, o Trump faz tudo o que ele faz, o partido republicano é quem vota nos republicanos, vai olhar pra frente, vai querer alguém na mesma intensidade do Trump, você muda de patamar o discurso, a gente vê no Didi Vence, o vice-presidente, que tinha uma posição totalmente diferente dez anos atrás e virou o que virou, né? Então assim, a gente tá num cenário em que a política americana tá muito descoordenada, essa desorganização, essa incapacidade de partido democrata e republicano de conversar e solucionar as questões econômicas é muito grave, e a gente tá vendo um processo que tá sendo construído ao longo dos últimos 30 anos, né Natuza, de desmonte de instituições econômicas importantes nos Estados Unidos. A gente vê os Estados Unidos piorar na qualidade de educação, nos indicadores do PISA, por exemplo. A gente vê os números de patentes nos Estados Unidos caírem com intensidade. Então, às vezes, a gente olha muito a questão da tecnologia, as big techs estão indo muito bem, mas veja, todo o resto está com dificuldade. E aí entra na questão do mercado. O mercado está vendo hoje, está crescendo, a inflação está baixa, está tudo certo. Mas a construção que está sendo feita dos Estados Unidos coloca um desafio muito grande à frente. E quando a gente vê como está funcionando hoje a política americana, como está funcionando o Trump, a gente vai ver ainda uma sequência de anos, até eventualmente saber se lá, sabe-se lá se isso vai melhorar ou não.
Natuza Nery
Nesse mundo mais doidão, com essa alta podendo ser dobrada em termos de aposta, dólar sob desconfiança, Eu quero entender um pouquinho como é que a gente entra nessa história, nessa equação, a gente... Brasil, como é que esses sintomas, como é que essa febre nos afeta, Sérgio?
Sérgio Valle
Você vê, né? O Brasil faz parte desse sistema global, do sistema mundial, mas está ali na periferia, digamos assim. É um país e um continente que não tem grandes questões políticas, geopolíticas por trás, ninguém quer invadir a gente, não tem bomba atômica para cair aqui na América do Sul, a gente tem questões de fronteira, obviamente, mas nada muito dramático como a gente vê no resto do mundo, não tem questão de migração, As questões domésticas que a gente tem aqui no Brasil, cada vez mais o mundo se assemelha quando a gente vê na parte econômica o que está acontecendo aqui. A gente tem um grau mais complicado, a dívida aqui é alta, é cara, é uma situação muito complicada que a gente vive, a gente vai viver isso em 2027, do próximo governo, na questão fiscal. Mas do ponto de vista geopolítico internacional, a gente está fora dessa bagunça toda no geral. O Lula, de alguma forma, conseguiu encaminhar uma negociação, uma sinalização de se dar melhor com o Trump, que foi positivo ano passado e está caminhando para continuar sendo assim esse ano. E a gente tem ativos que são importantes para o mundo inteiro. mineração, petróleo, agropecuária, terras raras. A gente tá falando de uma grande quantidade de recursos que o mundo quer comprar da gente, então coloca um cenário que a gente acaba ficando, de certa forma, fora um pouco dessa grande tensão. Lógico, a gente é muito impactado. É claro, não tenho dúvida, se tiver uma recessão nos Estados Unidos, a gente vai. Mas nesse momento que os Estados Unidos é a ponta fraca, o dólar tá depreciando, e a gente tá nesse momento relativamente favorável por essas questões, o que acontece com a nossa moeda precia? A gente está vendo o real de novo cair para baixo de R$ 5,30, está encostando em R$ 5,2.
Narrator/Reporter
O dólar fechou hoje a R$ 5,20, o menor valor desde 28 de maio de 2024. A Bolsa de Valores de São Paulo renovou a máxima a 181.900 pontos. Em um ano, a Bolsa já subiu 45%. O dinheiro segue na direção dos metais, das matérias-primas e dos mercados emergentes como o Brasil.
Sérgio Valle
Pode cair ainda mais do que isso por conta dessa piora americana. Então, assim, eu diria que a gente tem um cenário, do ponto de vista econômico, relativamente tranquilo. A gente fez várias reformas nos últimos anos, a gente não pode esquecer disso. A gente tem uma reforma tributária que a gente está passando por ela agora. A gente fez outras reformas importantes da Previdência. Então é um país que em 10 anos conseguiu fazer muitas reformas no meio de um tumulto muito grande que a gente viveu. Precisa de uma grande reforma adicional que é a fiscal em 2027, que eu acho que a gente vai conseguir fazer. Como eu tenho brincado, a gente não tem a diferença de partido democrata e republicano no nosso congresso, né, Natus? É um grande centrão, você consegue ali organizar as peças e votar o que for necessário, né? Ninguém tá olhando ali, ou pelo menos a maior parte, querendo matar o seu colega congressista, como é o caso americano às vezes, né? aquela coisa do mar, não é a gente que melhorou, subiu a cabecinha, é o mundo que piorou tanto que está no nosso nível agora, mas a gente precisa continuar andando e melhorando ao longo dos próximos anos e um passo importante para isso acontecer, dar mais solidez para a nossa economia, mais estabilidade, é fazer esse ajuste fiscal, seja com Lula, seja quem entrar no que vem, isso tem que acontecer para dar segurança a gente continuar crescendo mais para frente.
Natuza Nery
Sérgio, que maravilha te ouvir. Fica tudo muito, muito claro. Te agradeço muito e acho que já já a gente vai voltar a se falar sobre o mesmo tema. Suspeito.
Sérgio Valle
Obrigado, Natuza. Sempre um prazer falar com você.
Natuza Nery
Antes de terminar, um recado. Se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é assunter mesmo, dá cinco estrelas e compartilhe esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Este episódio usou áudios da TV Cultura. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catelan. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Host: Natuza Nery (G1)
Guest: Sérgio Valle, economista-chefe da MB Associados e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP
Date: 28 de janeiro de 2026
O episódio aborda a disparada histórica do preço do ouro – que ultrapassou US$ 5.100 – como reflexo de um cenário de incerteza global. A jornalista Natuza Nery entrevista o economista Sérgio Valle para detalhar as origens dessa valorização, suas conexões com a atual conjuntura política e econômica dos EUA sob Donald Trump, o impacto nas moedas e mercados emergentes como o Brasil, e o possível futuro da ordem monetária mundial.
O episódio pinça, de maneira clara e acessível, como a alta do ouro reflete um pano de fundo de incertezas profundas: um cenário de enfraquecimento de instituições nos EUA, tentativas de revisão da ordem monetária global, e o avanço de países como China e Índia fora da órbita do dólar. Para o Brasil, surge uma rara conjuntura de oportunidade que pode ser aproveitada caso consiga avançar em suas reformas. O futuro, segundo os entrevistados, depende menos de soluções de curto prazo e mais de mudanças institucionais de longo alcance – num mundo, mais do que nunca, em ebulição.