Podcast Summary: O Assunto – “Corrida do ouro: a economia global em ebulição”
Host: Natuza Nery (G1)
Guest: Sérgio Valle, economista-chefe da MB Associados e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP
Date: 28 de janeiro de 2026
Episódio em Resumo
O episódio aborda a disparada histórica do preço do ouro – que ultrapassou US$ 5.100 – como reflexo de um cenário de incerteza global. A jornalista Natuza Nery entrevista o economista Sérgio Valle para detalhar as origens dessa valorização, suas conexões com a atual conjuntura política e econômica dos EUA sob Donald Trump, o impacto nas moedas e mercados emergentes como o Brasil, e o possível futuro da ordem monetária mundial.
Pontos-Chave & Análise Detalhada
1. O Ouro como Sinalizador de Crise Global
- Introdução simbólica ao ouro.
Natuza explica o papel histórico do ouro como símbolo de riqueza e estabilidade, que atualmente, mais do que status, aponta para um mundo em alerta.- “O ouro (...) é também um sinal de que o mundo está em alerta.” — Natuza Nery (00:03)
- A disparada do ouro e o contexto internacional.
A recente valorização do ouro ocorre após um ano de intensificação de incertezas ligadas à política de Donald Trump, incluindo tarifas, conflitos diplomáticos e a ameaça de invadir a Groenlândia.- Cotação saltou de US$ 2.700 para US$ 5.100 em 12 meses
- Simultânea desvalorização do dólar (01:17)
2. Por Que o Preço do Ouro Está Subindo?
- Fuga de ativos dos EUA.
Sérgio Valle argumenta que em situações de stress extremo, investidores costumam buscar ativos seguros – e historicamente, o ouro é o principal deles. Desta vez, a fuga é dos próprios ativos americanos.- “O ouro historicamente sempre teve esse papel. A demanda por ele cresce com intensidade, é um metal com limites físicos, (...) e aí você vê o preço subir nessa intensidade como a gente tá vendo agora.” — Sérgio Valle (02:17)
- Perda de confiança no dólar e nos EUA.
As incertezas vêm do déficit fiscal crônico, dificuldades políticas e interferências diretas de Trump no FED – inclusive com processos judiciais ao presidente do Banco Central.- “A política fiscal que não só é mal desenhada, (...) mas também a gente vê uma dificuldade muito grande na parte política.” — Sérgio Valle (03:42)
3. Comparação com Outras Crises Globais
- Sem precedentes recentes.
Apesar de paralelos com a pandemia e a Guerra da Ucrânia, Valle vê o momento atual como inédito e mais próximo à instabilidade americana dos anos 1970 (Crise do petrodólar, fim de Bretton Woods).- Explicação do sistema Bretton Woods e o papel do dólar como reserva mundial (06:17)
- Desta vez, não há perspectiva de solução rápida: “Tem mais três anos do Trump, ele vai colocar gente que pensa como ele no FED, política fiscal não tem solução de curto e médio prazo.” — Sérgio Valle (07:36)
4. Ouro e Segurança: Alerta ou Desespero do Mercado?
- O movimento do ouro aponta para preocupação, mas ainda não crise aguda.
- “Não é desespero ainda, concordo, é um sinal de alerta.” — Sérgio Valle (09:13)
- O mercado se guia por dados do presente (crescimento econômico, big techs) e ainda ignora os riscos de longo prazo.
- Metáfora: “Roma não caiu em um dia” — resposta ao processo gradual de erosão da confiança nas instituições americanas.
5. O que Pode Desencadear uma Crise Maior?
- Dois gatilhos principais no horizonte:
- A possibilidade de ações militares mais agressivas (como na Groenlândia).
- Uma crise institucional ou contestação do resultado das eleições de meio termo nos EUA.
- Terceiro fator: possível "estouro de bolha" nas bolsas americanas.
- “Acho que a eleição americana de meio período vai colocar também um risco muito grande.” — Sérgio Valle (12:07)
6. China, Índia e o Futuro da Ordem Monetária
- Há esforço de China e Índia para reduzir dependência do dólar, aumentando reservas de ouro.
- “Ainda não tem alternativa ao dólar, mas há um esforço muito grande da China de se distanciar do dólar.” — Sérgio Valle (13:46)
- China reduz reservas em dólar, cria seu próprio sistema de pagamentos (alternativa ao SWIFT).
- O dólar se mantém hegemônico, mas a tendência de fragmentação aumenta.
7. Projeções para o Ouro e o Cenário Global
- Previsão de continuidade na alta dos preços do ouro e outros metais de reserva.
- “O sinal é de incerteza, a gente tende de fato a ver esse preço do ouro, preço da prata, franco suíço, criptomoedas (...) tendência de preço continuar subindo.” — Sérgio Valle (16:11)
- Nos últimos 12 meses, o ouro valorizou mais de 70% (16:47)
8. Retrospectiva Histórica: O Choque Volcker
- Valle detalha como o então presidente do FED, Paul Volcker, salvou a economia dos EUA nos anos 80 elevando drasticamente os juros para conter a inflação (O “Choque Volcker”).
- “A gente não está falando aqui de inflação elevada, não é isso (...). Você está falando de uma institucionalidade do Banco Central Americano que está sendo mudada...” — Sérgio Valle (17:23)
9. O Ouro como Termômetro de Febre Global
- Metáfora: a alta do ouro é um “sistema de alerta de chuva” da economia global.
- Valle acredita que a crise é estrutural e não resolvida apenas com uma mudança política nos EUA.
- “A febre do ouro agora eu tenho a impressão que não tem remédio, não tem antibiótico de última geração para solucionar essa crise nesse momento...” — Sérgio Valle (20:04)
10. Impacto no Brasil e Mercados Emergentes
- Brasil está em posição relativamente privilegiada no contexto global:
- Geopoliticamente na “periferia da bagunça”, com menor risco e recursos naturais cobiçados (mineração, petróleo, agrícolas).
- Real valorizando frente ao dólar pela primeira vez desde 2024 (R$ 5,20).
- “A nossa moeda aprecia (...) a gente tá nesse momento relativamente favorável por essas questões (...) o real de novo cair para baixo de R$ 5,30, está encostando em R$ 5,2.” — Sérgio Valle (22:38)
- Brasil fez reformas econômicas importantes e precisa avançar com o ajuste fiscal até 2027.
Notáveis Frases & Momentos
- “O ouro (...) é também um sinal de que o mundo está em alerta.” — Natuza Nery (00:03)
- “O mercado está olhando o crescimento, está tudo razoável, tem inteligência artificial, os mercados estão bem por conta das big techs, mas todo o resto está indo mal e isso vai pagar um preço lá na frente.” — Sérgio Valle (09:13)
- “Roma não caiu em um dia, a gente pode usar isso também para os Estados Unidos. (...) O que a gente está vendo agora é o mercado trabalhar com normalidade.” — Sérgio Valle (09:41)
- “A febre do ouro agora eu tenho a impressão que não tem remédio, (...) porque o agente causador infeccioso, agressivo continua presente.” — Sérgio Valle (20:04)
- “A diferença é que não é a gente que melhorou, subiu a cabecinha, é o mundo que piorou tanto que está no nosso nível agora.” — Sérgio Valle (25:32), sobre o novo papel do Brasil no cenário global
Timestamps dos Segmentos Cruciais
- 00:03 – Introdução: Simbolismo do ouro, cotação, contexto internacional
- 02:17 – Sérgio Valle explica a alta do ouro
- 03:42 – Desconfiança global sobre dólar/EUA
- 05:55 – Comparação com crises passadas (pandemia, Ucrânia, anos 1970)
- 09:13 – Mercado em alerta, mas não em desespero
- 10:56 – Riscos eminentes: eleições nos EUA, ações agressivas
- 13:46 – China, Índia e desconexão crescente do dólar
- 16:11 – Projeção dos preços do ouro
- 17:23 – Explicação sobre Paul Volcker e o “Choque Volcker”
- 20:04 – O ouro como “alerta de chuva” global
- 22:38 – Impacto para o Brasil, oportunidades e desafios
Conclusão
O episódio pinça, de maneira clara e acessível, como a alta do ouro reflete um pano de fundo de incertezas profundas: um cenário de enfraquecimento de instituições nos EUA, tentativas de revisão da ordem monetária global, e o avanço de países como China e Índia fora da órbita do dólar. Para o Brasil, surge uma rara conjuntura de oportunidade que pode ser aproveitada caso consiga avançar em suas reformas. O futuro, segundo os entrevistados, depende menos de soluções de curto prazo e mais de mudanças institucionais de longo alcance – num mundo, mais do que nunca, em ebulição.
