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Natuza Nery
Tim Black, um plano exclusivo pra você descobrir a sua melhor versão.
Daisy Ventura
O médico ligou pra mim e falou assim, nós vamos entubar a sua mãe, você gostaria de falar com ela a última vez? É uma sensação terrível. A minha mãe foi entubada às 10 horas e o meu pai foi entubado às 15 horas. No momento em que ela disse que ele precisa de UTI, eu já sabia das notícias que a ocupação no Estado estava em torno de 98%. Então aí eu comecei a pedir a Deus para ter um leito no SUS. Mas não foi a realidade que a gente encontrou. Eu disse, porra, Vanessa, não diz que o meu filho morreu. Ela disse, infelizmente, tia. Aí tu já viu o meu desespero, né? O povo Munduruku sofreu muito com essas perdas, porque devido à pandemia, a gente não pôde velar os nossos mortos. Perder um ancião é muito difícil para nós. Até hoje, a minha aldeia sofre com a perda do meu pai. Você tem que ir no microtério, você sabe, puxar o corpo do seu pai num carrinho, num velório. Foi 15 minutos, caixão lacrado, a gente não podia chegar perto, sabe? Saber que ele estava ali dentro. Isso aconteceu com a minha tia, aconteceu com meu sogro, aconteceu com meu vizinho, aconteceu com meus amigos. É uma sensação horrível. Ainda não estou em paz para poder sentir a tristeza. Meu sentimento é de revolta. Por quê? Meu pai poderia ter sido vacinado lá em janeiro, lá em fevereiro. O que eu mais tenho sofrido como.
Natuza Nery
Médica nessa posição de trabalhadora da UTI é com as notícias de perdas, de pioras para uma família que não consegue.
Daisy Ventura
Ver, que não consegue estar em contato.
Natuza Nery
Com o seu ente querido.
Daisy Ventura
Eu acho que nenhum combatente numa guerra seria preparado para ver tanta criança, idoso, mulher e pais de família morrendo por um inimigo que é invisível.
Natuza Nery
Vozes de uma tragédia que marcou a história do Brasil.
Daisy Ventura
O Ministério da Saúde anunciou que o Brasil registrou mais de 700 mil mortos pela Covid desde o dia 12 de março de 2020.
Natuza Nery
No começo de 2020, o início da pandemia de Covid trouxe o desafio de enfrentar um vírus desconhecido no mundo todo. Um momento para ouvir a ciência.
Daisy Ventura
A recomendação de cuidado das pessoas e distanciamento social continua sendo a mesma. Nós não sabemos quem vai manifestar ou não os sintomas quando as pessoas vão transmitir o vírus, por isso todo mundo tem que continuar usando máscara, mantendo o distanciamento social e recolhido, se possível.
Natuza Nery
Mas aqui no Brasil... Fique em casa.
Daisy Ventura
Que a economia te vê depois. Isso é para os fracos. O vírus, eu sempre disse, era uma realidade e tínhamos que enfrentá-lo. Nada de se acovardar perante aquilo que nós não podemos fugir dele. Infelizmente, quase todos vocês vão pegar um dia. Tem medo do quê? Enfrenta! Lamento, lamento as mortes, tá certo? Morrem gente todo dia de uma série de causas, né? E a vida, e a vida. Depois da facada não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, tá ok?
Natuza Nery
Por trás da tragédia sanitária, um problema escancarado. Uma sequência de erros, omissões e escolhas políticas questionáveis. E questionadas por especialistas.
Daisy Ventura
A cloroquina pode e deve ser usada desde o início, apesar de saberem que não tem uma uma confirmação científica da sua eficácia. A pressão pela adoção do uso da cloroquina já provocou a saída de dois ministros da saúde. O protocolo assinado pelo ministro interino, Eduardo Pazuello, define diferentes doses do medicamento de acordo com o estado dos pacientes e não tem assinaturas de responsáveis técnicos. A decisão do governo foi criticada por médicos e especialistas que não concordam com o uso da cloroquina sem a comprovação científica. O Brasil ficou marcado por ser um país que faz pouquíssimos testes para covid em relação ao tamanho da população.
Natuza Nery
E no momento em que a variante Ômicron do coronavírus avança, o Brasil vive um apagão de dados oficiais.
Daisy Ventura
.Saúde.Gov.Br. Vou compartilhar aqui pra você. Não é possível acessar esse site. Se a gente não monitora epidemiologicamente o problema, a gente só vai entender a gravidade quando os hospitais forem lotados, e aí já é tarde.
Natuza Nery
A pandemia chega ao estágio mais crítico. Todas as regiões do país já têm hospitais em colapso ou muito perto disso.
Daisy Ventura
E surgem denúncias graves nos hospitais aqui no estado do Rio. Nunca houve tantos pacientes entubados com Covid.
Natuza Nery
Ao mesmo tempo nas UTIs. E agora faltam sedativos para o tratamento.
Daisy Ventura
Profissionais dizem que isso começa a provocar mortes. Alguns pacientes estão amarrados aos leitos. O estoque de oxigênio nos hospitais acabou e pacientes agonizaram sem poder respirar. Profissionais de saúde e as famílias dos doentes entraram em desespero. O colapso que se anunciava veio de forma devastadora. não tem mais oxigênio. Tudo vazio aqui, ó. Tem um monte de paciente aqui, não tem mais oxigênio. Quem tem em casa, por favor, traga aqui pra Poliquínica da Redenção. Aqui em Manaus, no Amazonas, nós estamos sem, os pacientes estão morrendo. Por favor, por favor! Por favor, pessoal!
Natuza Nery
Mesmo com o desenvolvimento de vacinas que permitiriam salvar vidas e o retorno à normalidade, o negacionismo imperava.
Daisy Ventura
Pressa da vacina? Não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas. Chegou uma carta da Pfizer oferecendo vacina aos brasileiros, essa carta não teve resposta. Repito, essa carta foi endereçada ao presidente da república, ao vice-presidente da república, ao ministro da saúde, ao ministro da economia. ao embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Dois meses sem resposta a essa carta.
Natuza Nery
O presidente Bolsonaro falou numa rede social que o Brasil não vai comprar vacinas contra a Covid-19 vindas da China, a Coronavac.
Daisy Ventura
A vacina contra o Covid, como cabe ao Ministério da Saúde definir essa questão, e já foi definida, ela não será obrigatória.
Natuza Nery
O controle falho da pandemia teve um custo alto, como explicou o infectologista Pedro Rallau ainda em 2021.
Daisy Ventura
95 mil mortes poderiam ter sido evitadas se o Brasil tivesse comprado vacinas quando foi oferecido pelas empresas, especialmente pela Pfizer e depois pelo Butantan, a CoronaVac. E ainda mais triste saber que se a mortalidade por Covid no Brasil fosse igual à média mundial, O Brasil teria evitado 480 mil dessas mortes.
Natuza Nery
Naquele segundo ano de pandemia, uma CPI no Senado relatou os erros, as ações e as omissões do governo Bolsonaro em um documento de quase 1.300 páginas. A redação final propôs o indiciamento do então presidente Jair Bolsonaro e mais 77 pessoas e duas empresas por crimes contra a saúde pública. Doze desses com foro privilegiado.
Daisy Ventura
A CPI da Covid apresentou o relatório final dos seis meses de trabalho. Pede o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro por nove crimes. Crime de epidemia com resultado de morte, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, charlatanismo, prevaricação, crime contra a humanidade e crime de responsabilidade. Também pediu o indiciamento dos três filhos dele, o senador Flávio Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro. De quatro ministros, Marcelo Queiroga, Onyx Lorenzoni, Wagner Rosário e Braga Neto. E dois ex-ministros, Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello. Além de cinco deputados federais, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, Osmar Terra, Carla Zambelli, Bia Kicis e Carlos Jordi.
Natuza Nery
O documento foi parar na gaveta do então Procurador-Geral da República Augusto Aras. A PGR era o órgão acusador com competência para atuar junto ao Supremo.
Daisy Ventura
A Procuradoria-Geral da República defendeu que o Supremo Tribunal Federal arquive cinco dos nove pedidos de indiciamentos da CPI da Covid contra o presidente Jair Bolsonaro. A Vice-Procuradora-Geral da República, que é a Lindora Araújo, ela também pediu aí que o Supremo arquive apurações que envolvem outros integrantes do governo Bolsonaro. A Lindora Araújo afirma que as convicções da CPI da Covid foram políticas, e aí elas não podem ser transportadas para a área jurídica de forma automática.
Natuza Nery
A Procuradoria Geral da República e o.
Daisy Ventura
Chefe do órgão, na figura do Aras, não atuou para fazer a investigação dessas omissões sérias que ceifaram milhares de vidas.
Natuza Nery
Pelo menos uma parte dos documentos da CPI escapou da gaveta da Procuradoria e foi parar no Supremo Tribunal Federal. E na semana passada, o ministro relator do caso, Flávio Dino, acatou um pedido da Polícia Federal de acesso às provas, dando continuidade às investigações. O ministro disse o seguinte, destaco que a investigação parlamentar apontou indícios de crimes contra a administração pública, notadamente contratos, fraudes, superfaturamentos, desvio de dinheiro público, contratos que foram assinados com empresas de fachada para prestação de serviços genéricos, fictícios mencionados no relatório da CPI. E aí o Flávio Dino dá 60 dias para essa investigação que, enfim, teria aí como foco Bolsonaro, boa parte aí de seus aliados à época em que ele ainda era presidente. Da redação do G1, eu sou Nato Zaneri e o assunto hoje é Bolsonaro e a pandemia. Quatro anos sem punição. Minha convidada é a jurista Daisy Ventura, professora titular de ética da Faculdade de Saúde Pública da USP. Daisy coordenou pela mesma universidade um estudo que analisou mais de 3 mil normas relacionadas à Covid-19, baixadas pela gestão Bolsonaro. A sua pesquisa foi uma das inspirações para a criação da CPI da Covid. Segunda-feira, 22 de setembro. Desde na semana passada, o ministro Flávio Dino autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar as conclusões da CPI da Covid. E você elaborou um estudo, fez esse estudo em formato de linha do tempo sobre a disseminação da doença e esse estudo, inclusive, foi uma das inspirações para a criação da CPI. Explica para quem nos acompanha aqui no assunto O que vocês colocaram nesse trabalho e qual foi a conclusão dele?
Daisy Ventura
Nós temíamos, no início da pandemia de Covid-19, que as medidas restritivas, as medidas de proteção da população para a contenção da doença pudessem justificar um fechamento do regime. Por exemplo, a supressão de liberdades fundamentais, uma série de outras medidas que poderiam ser tomadas com base no pânico que, naturalmente, uma pandemia causa. Então, nós começamos imediatamente, depois da declaração de emergência, a acompanhar o Diário Oficial da União. E quando nós começamos a acompanhar o Diário Oficial, nós nos demos conta de que, ao contrário de medidas restritivas, o que nós estávamos encontrando era uma tentativa de combater as medidas de contenção da doença que eram adotadas por governadores, prefeitos, por outros órgãos, inclusive federais. Por exemplo, o veto a diversas leis importantes relativas às atividades essenciais, ao uso de máscara, a proteção das comunidades indígenas e muitas outras.
Natuza Nery
A gente acompanhou, portanto, a entrevista coletiva do presidente Jair Bolsonaro e de alguns integrantes aí da equipe do governo. Ele disse que as decisões dos governadores terão que ser unificadas, que cada governador não pode tomar a decisão que ele ache melhor, afirmou que sempre esteve à disposição dos governadores e Bolsonaro disse mais uma vez que a economia não pode parar.
Daisy Ventura
E nos demos conta também de que não era só no plano normativo que isso acontecia, os atos de governo também iam no mesmo sentido, medidas que eram tomadas, muitas delas o os ouvintes e as ouvintes não lembrar, o atraso na compra de vacinas, a organização de aglomerações, o combate às medidas preventivas, a instação, a invasão de hospitais, o ataque a autoridades sanitárias, a governadores, prefeitos, mas também há funcionários, agentes da vigilância de saúde, enfim, nós vimos que havia uma coerência entre atos normativos, atos de governo e o discurso, não apenas do ex-presidente da república, mas de um grande número de agentes federais. Então, o que nós fizemos foi organizar cronologicamente o número de mortos, o número de casos de covid no Brasil e o discurso oficial, porque muitas vezes se dizia, ah, não, o presidente é louco, ele diz qualquer bobagem, não importa o que ele diz, o próprio ex-ministro Pazuello dizia, não, o que o Bolsonaro diz é pra internet. Se você virar o jacaré, é problema de você, pô. Não, nós vimos que não era só o Bolsonaro, havia uma coerência, ministro da Economia, ministro do Turismo, autoridades de diversos escalões que chegaram a prever o final da pandemia diversas vezes, que diziam que quando a gente chegar a 20% de pessoas contaminadas, nós alcançaremos a imunidade de rebanho.
Natuza Nery
O deputado federal Osmar Terra... Como a.
Daisy Ventura
Velocidade de contágio da Covid está E aí vai dar tempo de ir criando a imunidade de rebanho aos poucos, porque se pegar em todo mundo ao mesmo tempo, explode a capacidade hospitalar. Então, a ideia de imunidade de rebanho foi uma ideia lá, difundida lá, logo no início. Dizendo, olha, não se falou em barreira sanitária, testagem em massa, vacina, nada disso. Então nós vimos uma coerência entre o que se dizia, o que se fazia, através de normas e de atos de governo, e nós vimos que essas posturas do governo federal, elas persistiam. apesar do aumento do número de casos e do aumento do número de mortes. Então ficou evidenciada a existência de uma estratégia de disseminação da Covid-19 no Brasil, inclusive o que nós observamos também é que todas as pessoas que integravam o governo e que se opunham a essa estratégia eram desligadas do governo, eram demitidas. Algumas nem chegavam a ser nomeadas, como foi o caso da doutora Luana Araújo, em maio de 2021, que foi anunciada como secretária de enfrentamento à Covid-19, mas dez dias depois de anunciada, foi desanunciada a professora Ludmila Ajax, que em março de 2021 chegou a ser anunciada, cogitada, e chegou a visitar o ex-presidente em Brasília para ser Ministra da Saúde e depois não se tornou Ministra da Saúde e ambas deixaram claro que não chegaram a assumir os seus cargos justamente porque eram contrárias ao tratamento precoce, a ideia de que a cloroquina era um remédio eficaz para a Covid-19, vejam isso já lá em em meados de 2021, quando a gente já tinha certeza absoluta de que esses medicamentos, como a ivermectina, a cloroquina, não eram eficazes para a Covid-19. A minha nomeação estava programada, segundo o que me foi dito, para uma segunda-feira, não saiu. Aí ficou para uma terça-feira, não saiu. Até que na quarta-feira à noite eu fui chamada. A minha nomeação não sairia. A hidroxicloroquina foi testada, porque ela já está aí. Ela é barata, ela tem um uso bastante largo. Então vamos testar para ver se funciona. Ah, não funcionou? Vamos passar para outra. Ah, não funcionou? Passa para outra. Então, Natuza, em síntese, a gente viu um plano coerente, coordenado, envolvendo todos os órgãos do governo federal. para disseminar a Covid-19 no Brasil e trazer essa realidade dessa forma sistematizada e, diga-se de passagem, jamais contestada até hoje, essas pessoas jamais disseram que a gente está desequivocado, nós trabalhamos com documentos públicos, com discursos públicos, com normas, Então, ficou evidenciado que, diferentemente do que dizem, inclusive, alguns acadêmicos de boa-fé, que no Brasil não houve uma coordenação da resposta à Covid-19 no plano federal. Não, ela houve. Houve uma coordenação e a coordenação foi para espalhar a doença.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Desventura. Você deixa bastante claro que a estratégia do governo era, de fato, a disseminação da doença. Bem compreendido esse aspecto da sua fala, eu queria passar para um outro momento, muitos anos depois, nesta semana em que a gente conversa, que é a decisão do ministro Flávio Dino. Ele determina a abertura de um inquérito para apurar as conclusões da CPI da Covid de 2021, E eu gostaria muito de te perguntar, quais são os prejuízos dessa demora nas investigações, levando em conta que Augusto Aras não fez muito para que as conclusões da CPI fossem processadas no Supremo Tribunal Federal?
Daisy Ventura
O prejuízo é imenso, a abertura desse inquérito acontece com quatro anos de atraso, a gente pode dizer antes tarde do que nunca, mas o fato é que nesse período nós só vimos uma degradação da situação da saúde pública no Brasil, no que se refere à desinformação, no que se refere ataque a autoridades sanitárias, a desconfiança em relação às autoridades sanitárias, ataques inclusive violência física contra profissionais de saúde, contra agentes do Sistema Único de Saúde. Então, o que acontece é que quando os crimes contra a saúde pública ficam impunes, nós encorajamos a prática desses crimes E, muito mais do que isso, existe uma estratégia de apropriação de temas de saúde pela emoção que eles são capazes de causar. para proselitismo religioso, para interesses eleitoreiros, para que a confiança da população na ciência seja erodida, e isso tem uma intencionalidade clara, que é, de um lado, a exploração política, isso nós estamos vendo com muita clareza nos Estados Unidos, no segundo mandato do presidente Donald Trump, como a saúde está sendo central à destruição dos centros de controle de doença, O ataque à vacinação?
Natuza Nery
Ele foi nomeado por Donald Trump, que é o cargo, e é conhecido, Kennedy Jr., por ter se engajado em campanhas anti-vacinação durante a pandemia da Covid-19 e também por espalhar uma série de teorias da conspiração especificamente sobre a área da saúde, vacinação, vacinação de crianças. Agora ele vai liderar justamente o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.
Daisy Ventura
O secretário, Robert Kennedy Jr., anunciou uma reestruturação profunda. O famoso Centro de Controle de Doenças, o CDC, de fama mundial pela excelência, vai perder 2.400 funcionários. O FDA, que autoriza e fiscaliza remédios e alimentos, terá menos 3.500 empregados. Antes de entrar para o governo, Kennedy era um inimigo do FDA e prometeu virá-lo do avesso. Está cumprindo a promessa. Tudo isso envolve uma emoção muito grande à saúde e infelizmente é nitroglicerina pura. De um lado nós temos então essa apropriação política e agendas políticas que não se interessam pela ciência porque a ciência não diz aquilo que elas querem. Então, o que a ciência diz sobre drogas, o que a ciência diz sobre direitos sexuais e reprodutivos, isso não interessa para essas agendas políticas, porque a ciência desmente os propósitos dessas pessoas que estão interessadas em proselitismo religioso ou simplesmente em angariar votos. Então, nós temos um dano enorme derivado da não investigação. Nós tivemos, recentemente, uma ação arquitetada, coordenada entre prefeitos do estado de Santa Catarina, vocês vão lembrar disso, no ano passado, que tentaram desvincular a apresentação do certificado de vacinação infantil para matrícula nas escolas. Uma série de municípios aqui em Santa Catarina havia dispensado o comprovante da vacina contra a Covid-19, embora o Plano Nacional de Imunização coloque vacina da Covid como uma das vacinas obrigatórias para as crianças. Então, isso tem que ser apresentado no ato da matrícula. Agora, com essa decisão do Supremo, estão derrubados definitivamente os decretos dos seguintes municípios, Joinville, Balneário Camboriú e Sara, Modelo, Presidente Getúlio, Rancho Queimado, Rio do Sul, Santa.
Natuza Nery
Terezinha do Progresso, Saudades, Jaguaruna, Tayó, Formosa.
Daisy Ventura
Do Sul, Criciúma, Brusque, Blumenau, Ituporanga, Sombrio.
Natuza Nery
São Pedro de Alcântara também.
Daisy Ventura
Violando uma tradição espetacular do Sistema Único de Saúde brasileiro, que age junto com o sistema educacional para fomentar a vacinação infantil. Então, a impunidade faz com que a saúde continue sendo refém de políticos inescrupulosos, e isso coloca a vida da população em risco, coloca a saúde da população em risco, Além de nós podermos imaginar um cenário em que outra história sobre a pandemia seja contada, que outra verdade seja produzida. A verdade, a memória é um campo de batalha. Então, se nós não apurarmos o que aconteceu, se nós não investigarmos, processarmos, se nós não dermos ocasião para que a verdade apareça do que de fato aconteceu no Brasil durante a pandemia de Covid-19, e até hoje nós não fizemos um balanço do que aconteceu no Brasil durante a pandemia de Covid-19. A CPI cumpriu um papel importante até outubro de 2021. Mas até hoje nós não apuramos, tem muita gente envolvida nisso, vai muito além do presidente Bolsonaro. Quantas pessoas fizeram previsões em nome do governo federal sobre quando a pandemia terminaria? Quantas pessoas estão envolvidas na organização de aglomerações em momentos de pico da pandemia de covid-19? Quantas pessoas estão envolvidas no ataque as autoridades sanitárias na invasão de hospitais, no desencorajamento do uso de máscaras na indústria que se criou em torno do tratamento precoce.
Natuza Nery
O Ministério Público, junto ao Tribunal de Contas da União, pediu a abertura de uma investigação sobre o possível superfaturamento na compra sem licitação de matéria-prima para remédios à base de cloroquina pelo comando do Exército.
Daisy Ventura
A produção determinada pelo comando do exército dos medicamentos relacionados à cloroquina foi de mais de 80 vezes e o preço dos insumos ficou mais de 6 vezes além do preço normal desses insumos. Então tem muita coisa para investigar, para apurar, existem muitas pessoas implicadas e essa verdade precisa emergir, ainda que tarde, é preciso que ela emerge para proteger a nossa saúde pública e nos preparar para as próximas pandemias.
Natuza Nery
Desde o inquérito é contra Jair Bolsonaro, mas tem outras pessoas na lista, Flávio, Eduardo, Carlos, Bolsonaro, tem também Osmar Terra, tem também Onyx Lorenzoni, ex-ministro de Bolsonaro, outras figuras que não tinham cargos públicos, mas não tem Pazuello. Pazuello, curiosamente, não está nessa lista. O ministro Flávio Dino ressaltou diversos crimes apontados no relatório da CPI, mas eu queria ouvi-la sobre um em particular, crime de epidemia. Explica pra gente que crime é esse e por que é importante olhar pra ele.
Daisy Ventura
Natuza, na verdade, essa petição criminal faz parte de um conjunto, uma dezena de petições criminais que a Procuradoria-Geral da República, à época, abriu em razão do relatório da CPI da Covid-19, ou seja, para dizer que estava fazendo alguma coisa. A Procuradoria-Geral da República, da época, pediu o arquivamento. dessas petições criminais, inclusive dessa que é a 10.064, a Procuradoria-Geral da República da época pediu o arquivamento e um dos argumentos do arquivamento dessa petição especificamente era justamente o crime de epidemia com resultado morte. Essa determinação do Código Penal Brasileiro diz que é crime dar causa a uma epidemia mediante a propagação de agentes patógenos. E a interpretação que foi feita pela Procuradoria Geral da República da época era que era preciso comprovar a introdução de um patógeno em território nacional, como se causar uma epidemia fosse trazer um vírus, uma bactéria, enfim, qualquer agente patógeno para dentro do território nacional, confundindo propositadamente duas coisas. Uma é dar causa a uma doença, a outra é dar causa a uma epidemia. E, inclusive, o Código Penal é claro quando ele diz dar causa mediante, ou seja, por intermédio de propagação de patógenos. Então, o que acontece aqui é que os conhecimentos rudimentários de saúde pública são ignorados, porque a gente tem que diferenciar o que é a doença, o que é um surto, que é um aumento de casos de uma doença, e o que é uma epidemia, que é a propagação geográfica desse surto. São capas diferentes de um processo de propagação de uma doença. A gente não causa uma epidemia introduzindo um patógeno. Os patógenos existem, eles fazem parte da nossa vida, eles fazem parte da natureza, eles podem inclusive estar aqui. O que a lei diz é que o crime de epidemia, nesse caso com resultado morte, e nesse caso com resultado de mais de 700 mil mortes no Brasil, que a gente não pode esquecer, que a gente tem o dever de não esquecer, isso significa não dar causa a um caso confirmado da doença e nem a um surto. propagar a doença. Então, me parece que aqui basta respeitar a técnica jurídica e também os conhecimentos de saúde pública, não se pode interpretar a tipificação desses crimes sem conhecer epidemiologia, sem conhecer a saúde pública, basta técnica para a gente saber que existem indícios importantíssimos da prática desses crimes que já deveriam estar sendo investigados. Se aqui prevalecer a técnica, haverá processamento, haverá apuração e espero haverá julgamento e punição. É um bloqueio político que impediu que até hoje esses crimes fossem investigados. Se a técnica prevalecer, haverá investigação, processamento e punição.
Natuza Nery
E esse reencontro com a nossa história, uma história muito dolorosa, é importante. Se não, se os responsáveis não forem punidos, a chance de ocorrer de novo fica maior.
Daisy Ventura
Sem dúvida, tanto a chance de que esses erros sejam repetidos em uma próxima pandemia, que virá, infelizmente, por muitas condições que são alheias à nossa vontade, como as mudanças climáticas, como a forma de produção da pecuária intensiva, como tantas outras características que a gente não tem tempo para desenvolver aqui e que são determinantes da facilitação dos saltos epidemiológicos, das mutações virais, infelizmente o que nós temos visto é que o intervalo entre as crises sanitárias vem se reduzindo. E não há nenhum indício, infelizmente, de que isso vá se modificar nos próximos anos. Então, é um consenso de que o intervalo entre esses episódios deve ser cada vez mais curto e que outras pandemias virão. Nós não sabemos qual será o patógeno, nós não sabemos qual será o lugar exato em que vai começar e o momento em que vai começar, mas nós sabemos que as probabilidades de uma nova pandemia são enormes em razão dos aspectos ambientais, dos aspectos climáticos que nós vivemos hoje. Então, não apurar o que aconteceu, cria todas as condições para que se repita, e eu ousaria te dizer, Natuz, eu não tenho a menor dúvida, de que nós teríamos problemas muito semelhantes hoje, o governo federal hoje não é negacionista, mas nós temos diversos governos estaduais e governos municipais que rapidamente reproduziriam os comportamentos que o governo norte-americano, por exemplo, tem em relação à saúde se nós tivéssemos uma outra pandemia. No entanto, eu acredito que esse inquérito relativo à Covid-19 é importante não só em caso de novas pandemias, ele é muito importante para a ciência e para a saúde pública de uma forma geral. O que está em jogo é como se toma decisão em saúde. A gente toma decisões de saúde, a gente faz políticas públicas de saúde com base em evidências científicas ou com base no interesse de uma religião, com base no interesse de um deputado, de um partido, de alguém que que é angariar votos, o que deve fundamentar uma decisão em saúde pública. E o que nós tivemos no Brasil foi justamente deixar de lado as evidências científicas e inventar uma imunidade rebanha por contágio que jamais existiu. Nós rapidamente sabíamos que as pessoas se reinfectavam por Covid-19 e o governo federal continua insistindo que se nós alcançássemos a imunidade de rebanho por contágio, nós teríamos contido a doença, o que é uma mentira, e mesmo que não fosse uma mentira, seria inaceitável do ponto de vista ético, porque seria admitir a morte de centenas de milhares de pessoas que poderia ser evitada. Outro aspecto, Natuza, que eu acho que é importantíssimo destacar, as mortes são terríveis, aconteceram em condições terríveis, o luto das pessoas que perderam os seus entes queridos por Covid, ele foi absolutamente restrito por medidas de controle que eram necessárias naquela época, então muitas pessoas não puderam se despedir dos seus familiares como deveriam.
Natuza Nery
Teve essa foto dele pegar na minha mão, despedir, mas eu não lembro Ela nunca mais viu o marido. Eu pensava, como que aconteceu? Eu não vou ver meu marido. Eu não sabia que não ia ter velório, nada. Meus filhos fizeram todo o processo. Enfim, acabou. Acabou. Quando o Bento chegou ao mundo, a mãe dele partia.
Daisy Ventura
Quando eu tô brincando com ele, eu imagino que ela estaria indo, tirando foto da gente. Era muita coisa que ainda faltava viver. Não fazer os rituais que a gente não pôde fazer, o enterro, o velório, as missas, as pessoas virem confortar a gente. O fato de a gente não poder fazer nada daquilo e ainda a renovação da tragédia, a cada dia, num processo crescente, provocando um efeito de estado de choque permanente e de trauma ao mesmo tempo, faz com que seja muito difícil a gente conseguir fazer o luto mesmo. Mas nós precisamos falar da COVID longa ou da síndrome pós-COVID, nós precisamos falar de milhões de pessoas, as expectativas mais conservadoras são de que nós temos em torno de 10% de pessoas com sequelas da COVID-19, sejam elas simplesmente dificuldades cognitivas temporárias, até sequelas pesadas, neurológicas, que limitam mobilidade, que limitam a vida das pessoas que tiveram essa doença, que chegam a vir a óbito, inclusive, anos depois, sem que essa morte seja declarada como uma morte por Covid.
Natuza Nery
Nós tivemos um número de mortes.
Daisy Ventura
Enormes, número de complicações enormes.
Natuza Nery
Hoje vivemos um fenômeno clínico que todos.
Daisy Ventura
Nós que tratamos pacientes convivemos com ele.
Natuza Nery
Que é a COVID longa, e a COVID longa não poupa a idade, não poupa a gravidade, tem criança com casos de COVID longa. Então, assim, os pediatras estão preocupados, nós.
Daisy Ventura
Estamos preocupados, E um grupo de cientistas.
Natuza Nery
Norte-Americanos fez um alerta, falando ali, listando 200 sintomas catalogados de Covid longa. Sabe aquela que persiste? Esses sintomas podem aparecer a partir de um mês depois que uma pessoa foi infectada, desenvolveu a doença. Nos Estados Unidos, os especialistas calculam que 18 milhões de pessoas têm Covid longa. Aí os sintomas mais comuns para você prestar atenção aí no seu corpo são cansaço e confusão mental. E o relatório dos cientistas diz que essas pessoas precisam de um tratamento individualizado e de apoio nos locais de trabalho.
Daisy Ventura
Então, nós tivemos a disseminação irresponsável da Covid-19, que atingiu milhões de pessoas no Brasil, que não precisavam ter contraído essa doença, se o governo federal tivesse cumprido o seu dever. Porque a legislação do SUS, a legislação sanitária brasileira, determina que o Governo Federal, o Estado, tem o dever de conter a propagação de doenças. Isso está na legislação do SUS. Isso foi desrespeitado. Então, nós temos que pensar também em milhões de pessoas que tiveram a doença e não precisavam ter, além das mortes. E isso pode acontecer com outras questões de saúde pública, se nós não deixarmos bem claro, no Brasil, Estado e sociedade, e nesse momento a Polícia Federal e o STF, que saúde não é brinquedo, que saúde não é de esquerda, saúde não é de direita, saúde é um direito constitucionalmente assegurado e que com isso ninguém pode mexer. Acho que essa é a questão. Chega de explorar politicamente de forma irresponsável à saúde pública. Nós precisamos de um consenso entre todos os partidos políticos, todas as forças políticas, de que saúde não é brincadeira e não é material eleitoral barato. No entanto, se a impunidade prevalecer, infelizmente nós estamos entregando a saúde pública brasileira numa bandeja para a extrema direita e para toda outra forma de charlatanismo e proselitismo que puder existir nesse país.
Natuza Nery
Daisy, muito importante te ouvir. Muito obrigada por ter topado participar. Sua voz aqui é bastante valiosa pra nós. Bom trabalho pra você.
Daisy Ventura
Eu que agradeço. Natuza, muito importante vocês pautarem esse tema. Muito importante mesmo.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Beverly Albuquerque. Eu sou Ana Tuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto. O Guilherme, da Chromai, usa a inteligência artificial do Google no controle de herbicidas para levar alimentos mais saudáveis aos brasileiros.
Daisy Ventura
Essa é a nova era da inovação. Google.
Data: 22 de setembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidada: Daisy Ventura, jurista e professora titular de Ética da Faculdade de Saúde Pública da USP
Neste episódio de "O Assunto", Natuza Nery entrevista Daisy Ventura para discutir a reabertura das investigações pelo STF sobre possíveis crimes cometidos na condução da pandemia de Covid-19 pelo governo federal. A conversa contextualiza os erros, omissões deliberadas, escolhas políticas e resistências à ciência durante um dos períodos mais trágicos da história recente brasileira, além de analisar a importância de responsabilização e o impacto do atraso nas apurações. O episódio alia relatos emocionais de vítimas, análises técnicas e implicações políticas e sociais, com foco na luta por justiça e memória.
O episódio adota tom grave, crítico e reflexivo, enfocando relatos pessoais dolorosos e fazendo uma análise jurídica e sociopolítica rigorosa. Os convidados falam de modo claro, didático e engajado, denunciando erros e defendendo justiça para as vítimas, valorizando a ciência e o SUS.
Este episódio de "O Assunto" oferece um panorama detalhado da conduta do governo Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, suas consequências humanas, políticas e jurídicas, e sublinha a luta por memória, justiça e responsabilização em prol do futuro da saúde pública brasileira.