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Nathuzan Nery
Oi, tô passando aqui antes de o episódio começar pra avisar que eu vou sair de férias por alguns dias e o assunto, claro, vai ficar em excelentes mãos.
Vítor Boiadjan
Uma prova com números superlativos.
Nathuzan Nery
O Ministério da Educação divulgou o balanço das inscrições para o Enem deste ano e o número de candidatos aumentou. Aumenta de 11%. Ao todo, são 4,8 milhões de alunos inscritos.
Vítor Boiadjan
E que há 16 anos serve como porta de entrada para centenas de universidades públicas e privadas.
Luísa Tenente
Você pode utilizar a sua nota para participar do SISU, que é o Sistema de Seleção Unificada. Essa seleção é feita com base na média das notas obtidas no exame. Também dá para participar do PROUNI, o Programa Universidade para Todos. Lembrando que o PROUNI oferece bolsas de estudo integrais 100% gratuitas ou bolsas parciais também para graduação nas instituições privadas. Também tem acesso ao Fundo de Financiamento Estudantil, FIES.
Vítor Boiadjan
Processo seletivo visto como seguro e consolidado, mas dúvidas surgiram depois de uma revelação da jornalista Luísa Tenente do G1.
Ediclei Teixeira
As denúncias são de que o estudante de medicina Ediclei Teixeira, que dá cursos preparatórios para o Enem pela internet, adiantou em uma live para os seus alunos, na mesma semana do segundo domingo de provas, questões extremamente parecidas com aquelas que entraram no exame oficial.
Nathuzan Nery
E aí a pergunta que fica é, como que ele sabia disso? Bom, o Ed Clay afirmou que memorizou questões do prêmio CAPS, Talento Universitário. Segundo ele, essas questões serviriam como uma espécie de pré-teste para o Enem.
Vítor Boiadjan
No primeiro momento, Luísa identificou, nos conteúdos produzidos por Ed Clay, seis questões quase idênticas às do exame deste ano. No mesmo dia, três desses itens foram anulados pelo INEP, o órgão do Ministério da Educação responsável pelo Enem. Depois, o G1 identificou mais duas questões da prova que já haviam sido antecipadas por Ed Clay. E então, a postura do INEP foi diferente.
INEP Representative
O INEP já disse que não vai anular as novas questões.
Vítor Boiadjan
No último final de semana, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que o exame não está vulnerável.
Camilo Santana
Há uma preocupação muito grande para garantir a lisura do processo. Então, quero tranquilizar a todos que fizeram o exame, aos que o ENEM continua. Os dois gabaritos já foram divulgados e o resultado final sairá. em janeiro de 2026. O Enem é um patrimônio do Brasil.
Vítor Boiadjan
Ainda assim, especialistas como Maria Helena Castro, ex-presidente do Inep, avaliam que mudanças precisam ser feitas para aumentar a segurança.
Maria Helena Castro
Todo mundo sabe que o pré-teste, ainda mais hoje, com rede social, internet e tudo, a possibilidade de vazamento é muito grande. E acredito que o INEP deverá trabalhar nessa direção, de eliminar o pré-teste e utilizar recursos tecnológicos que já estão testados em vários países, nos Estados Unidos, no PISA, da OCDE, em outros sistemas internacionais, para poder calibrar a prova sem ter que fazer o pré-teste.
Nathuzan Nery
Da redação do G1, eu sou Nathuzan Nery e o assunto hoje com Vítor Boedian é... Enem.
Vítor Boiadjan
As fragilidades do exame. Minha convidada é Luísa Tenente, repórter de educação do G1. Ela foi a primeira jornalista a revelar o esquema de questões antecipadas do Enem. Quinta-feira, 27 de novembro. Luísa, para começar, parabéns pelo furo de reportagem e eu acho que a grande questão aqui é como é que esse assunto chegou até você?
Nathuzan Nery
Já cubro esse assunto de educação há mais de dez anos aqui no DiEM. Então, naturalmente, ao longo desse período eu entrevistei muitos alunos, muitos professores e eles ficaram com o meu contato. E aí eu fui procurada na terça-feira da semana passada, bem cedo mesmo, antes de cinco da manhã, por um aluno que eu tinha entrevistado há dois anos, numa pauta que não tinha nenhuma relação com isso. E ele me disse que estava rolando ali um certo rumor de que algumas questões do Enem tinham aparecido em uma live e que elas eram muito, muito parecidas com as que realmente caíram na prova. E essa live teria ido ao ar cinco dias antes da aplicação do Enem. E aí meu primeiro passo, claro, foi ir atrás dessa live para conferir se isso realmente era verdade.
Ediclei Teixeira
Para entender toda essa polêmica, o Fantástico veio até Sobral, interior do Ceará, conversar com a Ediclei Teixeira. Ele mora nesta casa, na periferia da cidade, com a mãe e a irmã. Edicleio está no quarto ano de medicina e, desde 2022, oferece cursos de preparação online para o exame do Enem. As perguntas que você passou para os seus alunos na live, na Semana do Enem, entraram de forma muito parecida no exame oficial. Você sabia que essas questões iam entrar?
Não sabia.
Foi uma coincidência?
Eu acho que essas similaridades pontuais foram coincidentes.
Nathuzan Nery
O Ediclei Teixeira é um estudante de medicina do Ceará que, exatamente por ter tido um desempenho muito bom nas aprovações dele, ele passou a oferecer um serviço de mentoria. Então, ele fornecia materiais didáticos, tirava dúvidas de alunos que também querem ter um bom resultado no Enem e acessar a faculdade. Só que o que aconteceu é, o Ed Clay foi prestar uma prova da CAPES, que é um órgão de educação do governo federal, e essa prova, chamada talento universitário, ele achou-se muito semelhante às questões que realmente caíam no Enem. E, a partir disso, ele começou, então, a pagar para que outras pessoas fizessem essa prova do talento universitário, memorizassem as questões ali e contassem para ele depois. Ele dava 10 reais por questão memorizada. Com isso, ele montou um banco de questões, basicamente, de pré-testes, ou seja, questões que poderiam cair em alguma edição do Enem depois daquele teste ali. E foi assim que ele começou a ganhar dinheiro mesmo com isso.
Vítor Boiadjan
Bom, mas aí, nesse caso, como que ele, de fato, conseguiu antecipar questões que caíram no Enem, né? Como que ele descobriu? E, pra gente que não é da área, se você puder explicar, o que que se trata esse preteste do Enem?
Nathuzan Nery
Então, acho que o principal de entender é, o Enem é corrigido por algo que chama Teoria de Resposta ao Item, TRI. O que que faz a TRI? Primeiro, ela é um método, basicamente, anti-chute, se a gente falar em termos populares, assim. Porque o que acontece? Se o aluno acertar aquelas questões muito difíceis, mas errar as questões muito fáceis, o sistema vai dar uma pontuação menor para ele do que se ele tivesse tido um desempenho mais coerente, tivesse acertado as fáceis e errado as difíceis. Então, a gente pode ter dois alunos com o mesmo número de acertos, com notas totalmente diferentes. Então, para que você possa montar uma prova dessa e para que a nota de um ENEM de 2024, por exemplo, seja comparável do ENEM 2025, mesmo com questões diferentes, você precisa pré-testar as questões. Então, o INEP organiza, tem um banco, chama Banco Nacional de Itens, BNI. Esse banco é como se fosse um grande estoque de todas as perguntas que podem estar no Enem. Toda vez que vai rolar um Enem, uma edição da prova, eles vão tirar desse banco questões que já foram pré-testadas, foram revisadas e colocá-las realmente nesses testes. E aí, o Ed Clay teria tido, de alguma forma, a informação, talvez pela própria percepção dele ao fazer a prova, que esses pré-testes seriam feitos nessa prova da CAPES. uma prova voltada para alunos de primeiro ano da graduação. Porque é muito importante que, nesses pré-testes, os alunos que vão resolver essas questões sejam de um público meio parecido com o do Enem. Então, eles pegam ali aqueles alunos que acabaram de entrar na faculdade, que ainda são com os conhecimentos do ensino médio mais frescos, e testam para ver o que vai ser difícil, o que vai ser fácil, calibrar as dificuldades das questões para depois elas entrarem no banco e talvez entrarem em alguma edição do Enem. Então, quando ele tem acesso aos pré-testes, ele tem acesso a questões que potencialmente apareceriam no Enem nas edições seguintes.
Ediclei Teixeira
Eu desconfiei que pudesse ser algum tipo de pré-teste.
E desde quando você vem fazendo isso, de pedir para as pessoas e pagar por perguntas que elas memorizam e passam para você?
Eu pedi este ano.
Só este ano?
Só este ano.
E você vê alguma má fé nisso?
Não vejo má fé, porque não existia nenhum termo de compromisso, não existia nenhum termo de sigilo, não existia nem no edital. Se eles nos avisassem, olha, é um pré-teste, você vai ter que assinar um termo de sigilo, você não pode divulgar pra ninguém. a gente com certeza ficaria mais seguro o processo.
Vítor Boiadjan
Bom, no mesmo dia em que esse caso veio à tona, então o INEP, que é o órgão que faz a administração e a aplicação do Enem, anulou as três questões antecipadas pelo Ed Clay. Só que depois você descobriu que tinha ainda mais itens, chegando no total de oito questões praticamente idênticas ao exame desse ano. Qual que foi o argumento inicial do INEP para anular aquelas três questões e por que que até agora o Enem não anulou essas novas questões? Qual que tá sendo o argumento até aqui?
Nathuzan Nery
Então, isso é uma questão muito nebulosa, porque o que aconteceu? Na minha primeira matéria que eu publiquei, que a gente publicou com exclusividade aqui no Dia 1, na terça-feira, a gente já expunha seis questões. Cinco estavam numa live feita há cinco dias da prova, E uma estava numa apostila, que era a questão dos tijolos, que era basicamente idêntica à que estava no Enem. Então, a gente já apresentou de cara seis questões muito parecidas.
Ediclei Teixeira
Esta é a live promovida por Ed Clay e sua equipe de monitoria no dia 11 de novembro.
Ele fala que a intensidade sonora é calculada pela seguinte expressão, n igual a 10 vezes log de i sobre zero.
Nathuzan Nery
E diante dessas seis, o INEP resolveu anular três. Por que essas três? Por que só três? Ninguém sabia. Essa foi uma medida tomada logo no início, no mesmo dia o INEP já avisou que três seriam canceladas, a gente ainda não sabia quais eram essas três, quais das seis realmente teriam sido anuladas, a gente só soube disso no dia seguinte, quando o gabarito oficial foi divulgado. E aí depois a gente ainda revelou nessa semana outras questões, outras duas questões que estavam em grupos de WhatsApp, uma delas de forma muito escancarada, ele até chega a dizer, eu edicleia os alunos dele, na verdade acho que a gente nem pode dizer alunos, acho que mais aos clientes mesmo, ele não é um professor, ele é um mentor, que ele se diz, ele é um estudante de medicina que ajuda outros a estudarem. E ele teria dito que, nessa mensagem aqui, a gente obteve os prints e tudo, que, olha, se cair essa questão aqui, já marca a alternativa tal e nem precisa ler, porque aí o aluno ganha tempo.
INEP Representative
Uma era sobre o lançamento de dados cúbicos. Uma coisa eu garanto, se cair no Enem, pode marcar 125 por 216 sem medo de ser feliz, nem leia não. Na prova do dia 16 de novembro, o Enem trouxe uma questão de matemática sobre um lançamento de dados cúbicos e a resposta era a alternativa E, possibilidade de 125 por 216. A outra era sobre concentração de soluções em água. No grupo de mensagens, Ed Clay disse E de.
Nathuzan Nery
Fato, uma questão exatamente com aquela alternativa estava presente na prova E é muito difícil a gente pensar em coincidência, porque não era um tema super aberto, era uma fração super específica, com 216 no denominador, eram números quebrados, então não dá pra gente dizer que foi uma coincidência, que foi ao acaso, eram os mesmos nomes dos personagens da situação problema de matemática, de lançamento de dados.
Ministério da Educação Representative
Sobre fotossíntese, por exemplo. A versão postada por Edicleita Eixeira foi, o sulfeto de hidrogênio desempenha que papel análogo ao de qual substância na fotossíntese? Água, oxigênio, carbono, glicose ou nitrogênio? A questão do Enem foi praticamente a mesma. Na fotossíntese oxigênica, qual composto desempenha função análoga à do H2S? ATP, NADPH, oxigênio, clorofila ou água?
Nathuzan Nery
Então, o Inep obteve ali, por meio dessa nossa outra matéria, conhecimento de mais duas questões. Aí, a gente já soma oito. E ele continuou, o órgão continuou dizendo que só três seriam anuladas. Aí, eu conversei, junto com o Bruno Tavares, do Jornal Nacional, com o presidente do Inep, Manuel Palacios, e qual foi a justificativa dele. Primeiro, ele me disse que nenhum candidato do Enem em 2025 foi prejudicado por esse esquema do Ed Clay. porque as questões são feitas em números muito altos, que um estudante que está se preparando para o Enem resolve centenas, às vezes milhares de questões ao longo do ano, e que é muito difícil você imaginar que ele vai lembrar exatamente aquela ali que caiu. Seria uma porcentagem de probabilidade muito parecida com a de ele acertar por sorte, 20% ali de 1 em 5, são 5 alternativas. Só que aí o que eu disse a ele é, se realmente não havia nenhum risco de alguém ser beneficiado, por que três questões foram anuladas? E o que ele disse é que naquele dia o caso tinha acabado de vir à tona. Então essas três questões foram uma medida basicamente emergencial que o Inep tomou antes de saber exatamente o que tinha acontecido. E aí, depois, ao analisar com mais calma, com mais cuidado, mais tempo, todo o processo, quais eram esses pretestes, qual que era realmente a comparação com que realmente caiu no Enem e tal, eles teriam notado que, na verdade, era uma questão de coincidência, talvez, que nenhum item era extremamente idêntico. Eles deram... tinham algumas similaridades...
Vítor Boiadjan
Isso, nos outros, além daquelas três. Aí já era um coincidência.
Nathuzan Nery
Aí é que tá a dificuldade. Eles não eliminam essas três nesse raciocínio. Esse raciocínio de ninguém foi prejudicado inclui as três que foram anuladas. E aí eu perguntei para ele, então, o senhor se arrepende de ter cancelado essas três questões? Se houvesse mais tempo, vocês teriam decidido não anular nenhuma questão, já que ninguém foi prejudicado, já que cada um faz muitas questões por ano? E ele não me disse isso com todas as palavras, nem que se arrepende, nem que não teria anulado. Ele disse que a decisão foi acertada no momento ali em que ela aconteceu. Porque naquelas contingências ali, naquele contexto, o que dava pra fazer era anular essas três questões. E que mais nenhuma vai ser anulada.
Vítor Boiadjan
Ah, isso já tá decidido.
Nathuzan Nery
Isso já tá decidido. E as outras cinco, que são extremamente parecidas, com os mesmos números, os mesmos assuntos, vão continuar valendo porque ele assegurou que nenhum candidato do Enem vai ser prejudicado, mesmo com essa semelhança pontual.
Vítor Boiadjan
Dessas oito, então, todas as oito são daquelas que têm números tão específicos que dificilmente seriam coincidência.
Nathuzan Nery
Isso, desses oito, seis são de matemática e duas são de biologia. As duas de biologia não envolvem números, mas envolvem alternativas basicamente iguais. A mesma situação e alternativas basicamente iguais que caíram no Enem.
Ministério da Educação Representative
O Ministério da Educação afirma que as questões estão em constante produção e que podem ter sido criadas anos antes de usadas no Enem.
Camilo Santana
Esse pretexto é elaborado pelo Inep em anos anteriores, com itens que podem ou não caírem na prova, é a qualidade do item que é aplicado no enem. Exatamente para garantir zonomia a todos que fizeram a prova, para não se sentir prejudicado, houve pela criminalidade, pela proximidade das questões que foram divulgadas antes da prova.
Vítor Boiadjan
Bom, agora, depois dessa revelação, vários especialistas estão vindo ao público questionar, falando da fragilidade do banco de itens de questões do Enem. Quais seriam essas fragilidades e de que forma que poderiam ser corrigidas?
Nathuzan Nery
Acho que o principal é a gente esclarecer que o que aconteceu nesse ano não tem nada a ver com o que houve em 2009, quando a prova realmente vazou, quando roubaram a prova da gráfica. É um problema grave de segurança. Um homem procurou o jornal O Estado de São Paulo e ofereceu cópias do exame em troca de dinheiro. Essas cópias foram, então, enviadas para o Ministério da Educação, que comprovou o vazamento. Dessa vez, não houve uma falha de segurança nesse sentido. O que aconteceu foi um aluno de medicina descobriu uma fragilidade do processo de formulação de questões. E ele teve acesso a isso, ele não assinou nenhum acordo de sigilo, de confidencialidade quando ele fez essa prova da CAPSE, então, em tese, ele não desrespeitou nenhuma regra da prova ao vender esses conteúdos depois, ao contar para os outros o que tinha naquela prova ali. E as questões que foram pré-testadas por esse homem em 2024 e 2025 já estiveram presentes numa prova aplicada em 2025. Então, o que que isso acontece? É errado o teu preteste? Não, ele é necessário se você realmente quiser que a prova seja comparável de um ano para o outro. E se você quiser calibrar o nível de dificuldade, então isso precisa acontecer. A questão é, se a gente tivesse um estoque de perguntas maior, uma questão pretestada hoje poderia cair no INEP daqui a 3, 4, 5 anos. Dificilmente alguém se lembraria dela. Só que como a gente já sabe, embora o INEP nunca tenha assumido isso explicitamente, várias pessoas de dentro dali já afirmaram pra gente, pra outros veículos de imprensa também, que esse estoque é baixo, a gente tem poucas perguntas nesse acervo, porque pré-testar dá trabalho. O que acontece é que você pré-testa e já coloca numa prova num intervalo muito curto. Ou seja, você corre o risco de acontecer algo como aconteceu dessa vez. E que foi escalando, porque hoje em dia a gente consegue colocar na internet, então a live teve milhares de acessos, as apostilas todas tiveram muitos downloads, então a gente não tem controle de quantas pessoas foram privilegiadas com essa informação.
Ediclei Teixeira
Para especialistas em educação... Um dos problemas está no chamado Banco Nacional de Itens, onde o Inep guarda as sete chaves, questões que podem cair em exames, como o Enem. Maria Helena Castro, ex-presidente do Inep, que implementou o Enem no Brasil, concorda.
Maria Helena Castro
Seria muito mais simples se o Enem tivesse um grande banco de itens. Porque se tivesse tido um investimento elevado para construir um banco de itens bem robusto, com 100 mil itens, 110 mil itens calibrados, você não precisaria fazer todo ano, não precisaria fazer esse pré-teste.
Vítor Boiadjan
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Luísa Tenente. Bom, eu só vou acrescentar uma dúvida aqui. Como é que eu faço para participar de um pré-teste como esse?
Nathuzan Nery
Você não sabe que você está participando de um pré-teste. Aí é que tá. Ele é usado como pré-teste na informação confidencial. Então, o aluno que faz essa prova não é só a prova da CAPES que serve como pré-teste. Essas questões pré-testadas são pré-testadas em escolas também, escolas públicas, escolas particulares, mas nunca a pessoa que faz essas questões sabe que ela está participando de um pré-teste. Então, essa prova da CAPES, em tese, ninguém saberia, quando estava ali resolvendo, que realmente aquilo ali poderia cair um dia no Enem.
Vítor Boiadjan
Em tese.
Nathuzan Nery
Em tese.
Vítor Boiadjan
A menos que ele possa, eventualmente, ter sido informado.
Nathuzan Nery
Exato. E aí é que entra uma contradição do de Klee, porque nas primeiras stories dele, que ele postou lá na semana passada, ele disse que havia obtido essa informação de que a prova da cápsula era um pretexto pro Enem por meio de um livro da Renata Caffardo, nosso colega jornalista, chamado O Roubo do Enem. E que nesse livro a Renata contaria que essa prova da cápsula é um pretexto do Enem. E aí eu procurei a Renata e ela disse com todas as letras, em nenhum momento ela afirma isso. Nenhum momento. Ela mesma nem conhecia a prova, assim como eu também não conhecia, não é uma prova super popular. Mesmo pra gente que cobre essa área de educação já há mais tempo. Então, depois ele parou de mencionar isso, ele disse que foi uma coincidência e o que eu acho importante a gente dizer também É que quando o Manuel Palacios diz que um aluno resolve centenas, milhares de questões ao longo do ano, e por isso ele não vai se lembrar especificamente dessas, a gente precisa lembrar que o Ed Clay já vendia o material dele dizendo explicitamente que eram pré-testes do Enem. Então, obviamente, um aluno que vai estudar essas questões não vai dar o mesmo peso para aquela questão que estava no simulado do cursinho. Ele vai se dedicar mais a memorizar as questões que são vendidas como pré-testes. E aí o Fantástico perguntou para o Ed Clinton, você sabia que eram pré-testes? Porque isso está nos banners de anúncio dele, do curso dele, tá explícito isso. Ele disse que foi um marketing infeliz.
Ediclei Teixeira
É uma forma de publicidade que hoje eu considero infeliz, porque era simplesmente para chamar atenção para o meu curso.
Vítor Boiadjan
Bom, vamos direto a essa questão, porque a Polícia Federal começou a investigar tão logo saiu a sua reportagem. E até agora o que a gente já sabe dessa investigação da polícia?
Nathuzan Nery
O que a gente sabe é que foram apreendidos lá, no computador do Ed Clay, foram até a casa dele com o mandado de busca e apreensão, e agora eles vão estudar se houve realmente algum bastidor. Eu imagino que a prioridade deles seja tentar saber se houve alguma informação privilegiada, alguém de dentro que teria contado para o Ed Clay que a prova da cápsula era um preteste. Mas é muito possível que isso não tenha acontecido, que ele só tenha notado uma similaridade mesmo das questões do Enem, tenha sido muito esperto percebido isso, e ele começou realmente a vender essas questões, a pagar para pessoas memorizarem. Eu não sei qual vai ser a interpretação dessa parte que envolve dinheiro no ponto de vista legal.
Vítor Boiadjan
Bom, a própria investigação vai poder comparar o quanto de questões o Ed Clay tem no seu próprio banco de dados, né? Ele tem um banco de questões como o Spokko.
Nathuzan Nery
Ele diz que tem 900 questões.
Vítor Boiadjan
E pode ser que boa parte delas sejam, de fato, questões que vão cair no Enem.
Nathuzan Nery
Sim, sim.
Vítor Boiadjan
Ainda tá em aberto isso.
Nathuzan Nery
É, a gente, por exemplo, a gente vai ter o Enem de Belém, que foi adiado por causa da COP, os alunos vão fazer agora nesse fim de semana e no domingo seguinte. A gente tem a reaplicação do Enem pro pessoal também PPL, né, privados de liberdade, pessoal na prisão. Então, provavelmente, todos os olhos vão ficar atentos a isso. Será que nessas outras provas mais alguma questão da Dicle vai aparecer? Porque o grande drama é, vamos supor que a prova fosse anulada. Como muitos dos estudantes querem.
Vítor Boiadjan
Toda a prova.
Nathuzan Nery
Toda a prova. Se a prova fosse anulada, a nova prova teria que ser formulada com base no mesmo estoque de perguntas ao qual provavelmente o de Clay já teve acesso. Então, eles têm um problemão em mãos. A solução ali é muito difícil de encontrar.
Vítor Boiadjan
Bom, Luísa, você cobre esse assunto há muitos anos e, como você mesmo falou, está em contato com alunos, professores, há muitos anos. Como é que está a confiança deles diante desse ocorrido, desse episódio?
Nathuzan Nery
Abaladíssima, abaladíssima. Eles estão muito tristes, se sentindo extremamente injustiçados. Porque você imagina, eu conversei com um aluno, por exemplo, que demorou 10 minutos para resolver a questão do lançamento de dados. Questão essa aqui no grupo de alunos do Ed Clay. Ele colocou, se caia essa marca alternativa a tal sem nem ler. Esse aluno sentiu que ele perdeu 10 minutos em relação a alguns concorrentes dele. E para vagas muito disputadas, como de medicina nessas universidades, uma questão faz toda a diferença. Então, a pessoa realmente se sente atrás dos demais concorrentes dela. Então, isso é muito difícil. E outras, são estudantes que se dedicaram ao longo de um, dois, três anos a estudar, e aí eles veem que algumas pessoas tiveram acesso ao material ao qual eles não tiveram. Então, eu fui procurada até por pais, mães, no meu Instagram pessoal mesmo, falando, por favor, me ajuda, porque assim, eu vi meu filho estudar, se matasse estudar por anos, e agora um professor, que na verdade não é professor, né, um estudante de medicina, expôs um monte de questão, quem viu se deu bem e vai sair na frente do meu filho. Então, um sentimento de injustiça que acaba descredibilizando o exame nesse sentido mais sentimental, essa confiança mesmo, mais até do que o processo técnico. Todo mundo sabe que nenhuma questão foi roubada, ela foi obtida em tese legalmente. Então, isso mostra uma vulnerabilidade do processo de formulação do exame que traz muita insegurança para os estudantes.
Vítor Boiadjan
E o Inep, hoje a gente tá no fim de novembro, o que que se fala entre as autoridades sobre esse episódio? Vai ser um momento de virada de página, a gente vai ter uma nova formulação do Enem a partir do ano que vem, enfim, porque o Ministro da Educação, no fim da segunda prova do Enem, saiu ao público dizendo, vamos levar o Enem para países do Mercosul, vamos encerrar o Saeb e fortalecer o Enem. Depois disso, o que que se fala entre as autoridades?
Nathuzan Nery
Olha, o Manuel Palacios, na entrevista dessa semana, disse que nada vai mudar nos pretextos.
Manuel Palacios
Nós, provavelmente, nos últimos três anos, pretextamos umas 4 mil a 5 mil questões. Qualquer inovação no Enem tem que ser introduzida com muita cautela, porque ele impacta a vida de muita gente. O que o Inep vem buscando fazer e vai continuar fazendo, é atualizando as suas práticas, as técnicas mais atuais.
Nathuzan Nery
Então, o que a gente entende a princípio é que isso não vai ser um divisor de águas como, na minha opinião, deveria ser. Porque se a gente tem uma vulnerabilidade exposta, mesmo que não seja possível, diante dos recursos disponíveis, resolver a situação desse ano, que pelo menos é do ano que vem, fosse reparada. Se a gente conseguisse ampliar o banco de questões, ou então mudar a questão do pré-teste, fazer mais espaçado, Acontece que não há ainda nenhum direcionamento para isso. E existem outras discussões sobre mudanças do Enem que deveriam já ter acontecido, que também não aconteceram. Por exemplo, o Enem ainda não acompanha o novo ensino médio. Os alunos estão fazendo o novo ensino médio naquele esquema de ter ali umas questões mais gerais, de conteúdos mais gerais e especialização, foco maior em determinada área de conhecimento. Só que o Enem não acompanha isso ainda. O Enem continua cobrando os mesmos conteúdos que já eram cobrados antes do novo ensino médio. Então, esse novo Enem já é esperado há algum tempo. E agora, esse antigo Enem, que já está sendo repetido e já um tanto defasado, que é uma prova seríssima, muito respeitada, mas que hoje não está mais realmente em sincronia ali com o nosso ensino médio, agora ainda tem mais essa fragilidade. Então, eu acho que seria realmente o momento, eu e vários especialistas com quem eu falei, Achamos que realmente seria o momento de você rever alguns processos do Enem para que a prova continue sendo respeitada como ela sempre foi.
Vítor Boiadjan
Luísa, mais uma vez, obrigado pela sua participação. Eu que agradeço. Parabéns mais uma vez.
Nathuzan Nery
Obrigada, obrigada, obrigada.
Vítor Boiadjan
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no Globoplay, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Eu sou o Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 27 de novembro de 2025
Convidada: Luísa Tenente (repórter de educação G1)
Host: Vítor Boiadjan
O episódio explora fraudes e fragilidades recentes expostas no ENEM, o exame nacional decisivo para acesso ao ensino superior no Brasil, a partir da revelação de que questões do pré-teste apareceram em lives privadas antes da aplicação da prova em 2025. A conversa gira em torno das falhas sistêmicas na produção e pré-teste de questões, os riscos de vazamento, a resposta das autoridades e as consequências na confiança dos estudantes e da sociedade no exame.
“O Enem é um patrimônio do Brasil.” (02:23)
"Quero tranquilizar a todos que fizeram o exame [...]" (02:23)
“Todo mundo sabe que o pré-teste, ainda mais hoje [...] a possibilidade de vazamento é muito grande.” (02:54) “Seria muito mais simples se o Enem tivesse um grande banco de itens [...] 100 mil itens calibrados...” (18:17)
“Não existia nenhum termo de compromisso, não existia nenhum termo de sigilo, não existia nem no edital.” (08:27)
"Eles estão muito tristes, se sentindo extremamente injustiçados..." (23:06)
Maria Helena Castro:
“Todo mundo sabe que o pré-teste, ainda mais hoje, com rede social, internet e tudo, a possibilidade de vazamento é muito grande.” (02:54)
“Seria muito mais simples se o Enem tivesse um grande banco de itens...” (18:17)
Ediclei Teixeira:
“Não vejo má fé, porque não existia nenhum termo de compromisso, não existia nenhum termo de sigilo, não existia nem no edital.” (08:27)
“É uma forma de publicidade que hoje eu considero infeliz, porque era simplesmente para chamar atenção para o meu curso.” (20:47)
Luísa Tenente:
“O sentimento de injustiça acaba descredibilizando o exame nesse sentido mais sentimental, essa confiança mesmo, mais até do que o processo técnico.” (23:06)
Vítor Boiadjan:
“Como é que está a confiança deles diante desse ocorrido, desse episódio?” (22:50)
Manuel Palacios (presidente do INEP):
“Qualquer inovação no Enem tem que ser introduzida com muita cautela, porque ele impacta a vida de muita gente.” (25:08)
O episódio expõe a fragilidade do ENEM diante de métodos tecnológicos e do curto ciclo de uso de questões pré-testadas, revelando uma crise de confiança pública após a descoberta de antecipação de perguntas da prova. Mesmo sem comprovação, até o momento, de vazamento criminoso, o caso escancarou um modelo que especialistas já alertavam ser vulnerável. O debate permanece aberto entre a demanda por reformas estruturais e a hesitação institucional em promover mudanças profundas, enquanto a credibilidade de um dos principais exames do país fica posta em xeque.
Útil para quem perdeu: O episódio é essencial para entender os problemas do ENEM 2025, o modo como questões são testadas e recicladas, os mecanismos de controle (ou ausência deles), a resposta (ou falta de) do governo e como tudo isso afeta milhões de estudantes — em sua pontuação, mérito e confiança no sistema educacional brasileiro.