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Inaê Lopes dos Santos
A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara que o tráfico de africanos escravizados foi o crime mais grave na história da humanidade.
Vitor Boiadjan
Ao longo de quatro séculos, o Oceano Atlântico serviu de passarela para uma história de exploração e violência. Nesse período, mais de 12 milhões de pessoas foram sequestradas na África, separadas de suas famílias, seus lares e suas histórias. e então transportadas para um novo continente onde trabalhariam de sol a sol sob condições desumanas. Muitas gerações sofreram com o sistema mais perverso que a humanidade já construiu. E mesmo depois que a escravidão foi abolida, muitas outras gerações lidaram, e ainda lidam, com as feridas abertas de um crime que nunca viu a luz da justiça. Segundo especialistas em direito, a resolução representa o maior avanço da ONU no reconhecimento da escravidão como um crime contra a humanidade e nos pedidos por reparações. A proposta foi apresentada à Assembleia das Nações Unidas por Gana e foi aprovada por uma ampla maioria. 123 países votaram a favor. Reino Unido e todos os que integram a União Europeia se abstiveram. Votaram contra apenas três. Argentina, Estados Unidos e Israel. A resolução cobra o que muitos países vêm evitando há séculos. Pedidos formais de desculpas e a criação de um fundo de reparações financeiras aos povos e descendentes dos escravizados. O documento também exige reparações. Tanto os Estados Unidos quanto os países da União Europeia argumentaram que a resolução pode implicar uma hierarquia entre crimes contra a humanidade, tratando alguns como mais graves do que outros, e também discordaram de reparações retroativas. O impasse é jurídico. Admitir o crime significa, na prática, abrir caminho para indenizações. Um estudo publicado em 2023, conhecido como Relatório Barrow, estimou que o custo total do comércio de pessoas escravizadas seria superior a US$ 130 trilhões. De acordo com esse relatório, os Estados Unidos teriam que pagar 27 trilhões de dólares, o Reino Unido, 24, Portugal, 21, e o Brasil, 4 trilhões e 400 bilhões de dólares, cerca de 23 trilhões de reais, ou praticamente dois PIBs inteiros do país. Durante quase todo o período da escravidão, o Brasil foi colônia portuguesa. E foi também o maior destino de chegada dos navios que vinham da África.
Inaê Lopes dos Santos
Segundo a estimativa mais recente, cerca de 5 milhões de pessoas vieram em navios negreiros com destino ao Brasil.
Vitor Boiadjan
que a escravidão foi a base da economia produtiva, do sistema financeiro e da fundação do Estado brasileiro. Fomos o último país das Américas a libertar os escravizados. Isso somente em 1888. Uma liberdade sem direito à indenização, sem terra, sem saúde, sem educação formal No dia 14 de maio, os negros foram deixados à própria sorte A princesa assinou a Lei Aurea, mas não a carteira de trabalho Agora o mundo admite o tamanho do horror O que não sabemos ainda é se a decisão da ONU é apenas uma posição simbólica ou um passo real para a justiça.
Inaê Lopes dos Santos
Um estudo feito em oito estados mostra que os negros foram a grande maioria dos mortos em intervenções policiais no ano passado.
Vitor Boiadjan
62% das mulheres vítimas de feminicídio no país são negros.
Inaê Lopes dos Santos
Os negros recebem 39% a menos do que os não negros. Não é possível que a nossa juventude vai continuar sendo morta por nada.
Luiz Felipe Silva
É difícil ser julgado pela cor da
Inaê Lopes dos Santos
sua pele, pela roupa que você veste, pelo estilo que você é. Parem de nos matar. Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje com Vítor Boedian é...
Vitor Boiadjan
O crime mais grave contra a humanidade e onde entra o Brasil nesse acerto de contas. Neste episódio, eu converso com Inaê Lopes dos Santos, professora de História da América da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora sobre a história da escravidão. Segunda-feira, 30 de março. Professora, o Brasil recebeu cerca de 40% de todas as pessoas traficadas pelo Atlântico, um número 12 vezes maior que os Estados Unidos, por exemplo. Para a gente começar na sua conversa, como era a organização, o esquema do comércio de pessoas escravizadas nas Américas?
Inaê Lopes dos Santos
Bom, essa é uma pergunta importante para a gente entender o tamanho do tráfico. O tráfico é um comércio que se inicia ainda no século XV, antes mesmo da chegada dos europeus nas Américas, mas que vai ganhar uma nova dimensão a partir da colonização do continente americano. A partir do momento em que está sendo iniciada essa colonização, o tráfico passa a ser uma espécie de motor da própria colonização, na medida em que ele fornece as principais mãos de obra, principalmente para países como o Brasil, Estados Unidos, Cuba, que vão apostar no uso da mão de obra escravizada de africanos. E como era feito esse tráfico? Ele se inicia, obviamente, dentro do continente africano, a partir do rapto, do roubo e de pequenas guerras contra as sociedades africanas, muitas delas pequenas sociedades. Quando as pessoas eram sequestradas, essa talvez seja a melhor palavra, elas eram levadas por pombeiros, que eram mercadores, para cidades costeiras, ainda no continente africano, e ali elas poderiam ficar de semanas, às vezes, até dois, três meses, à espera dos navios negreiros. Muitos navios negreiros usados nestas viagens eram brasileiros. Nós tínhamos um tráfego direto entre Angola e Rio de Janeiro de escravos e outras mercadorias. Nós temos um tráfego que funcionava diretamente entre a Bahia e a costa da mina. o Golfo do Benin depois do século XVIII e XIX. E, a partir daí, faziam a travessia atlântica, que era entendida como uma morte em vida. Talvez um dos momentos mais trágicos de toda essa grande tragédia, que foi o tráfico transatlântico de africanos escravizados, era a travessia por conta não só da ruptura total com a vida antiga que essas pessoas tinham, que elas entendiam como sendo suas próprias vidas, mas também devido às péssimas condições dessas travessias, nas quais aproximadamente 30% das pessoas que embarcavam morriam durante as viagens.
Luiz Felipe Silva
Agora, morria-se de tudo no navio negreiro. Morria-se de doenças, muitas doenças gastrointestinais, morria-se de banzo, que era um ataque de depressão que acometia os homens, as mulheres, especialmente quando o navio ainda estava próximo da África, quando a África ainda estava visível. tentavam soltar, se suicidarem. Então, por isso os navios negreiros tinham redes de proteção ao redor do convés para prevenir suicídios.
Inaê Lopes dos Santos
Depois que essa travessia chegava ao fim, nos diferentes territórios e portos do continente americano, essas pessoas eram novamente vendidas para comerciantes locais e, muitas vezes, vendidas por uma segunda vez para regiões mais interioranas desses territórios, como o Brasil, Estados Unidos e quase todos os países, hoje, atuais países americanos que receberam africanos escravizados.
Vitor Boiadjan
E uma vez aqui no Brasil, como que se dava essa distribuição pelo território? Quais eram os critérios que essa cadeia de violência submetia à população traficada da África?
Inaê Lopes dos Santos
Bom, quando chegavam, no caso no Brasil, a gente tem um padrão que é mais ou menos parecido para aquisição de africanos escravizados nas Américas. As mudanças são muito pontuais. Mas no caso do Brasil, o que nós temos é a chegada nos principais portos. A gente sabe que o principal porto de desembarque de africanos escravizados no mundo foi o Valongo, o que mais recebeu africanos escravizados. Aproximadamente um milhão desembarcaram do cais do Valongo. São mais de 300 anos de um dos períodos mais tristes da humanidade guardados sob essas pedras na zona portuária do Rio. O cais do Valongo, onde chegavam pessoas escravizadas da África, virou símbolo de uma época que não pode ser esquecida e deve ser respeitada. O território conhecido como Pequena África. O Rio de Janeiro foi a maior cidade escravista do mundo, acompanhando o que o Valongo representou para a dinâmica do tráfico transatlântico. E quando eles chegavam nesses portos, primeiro os navios negreiros, justamente por conta de toda a violência e péssimas condições sanitárias das viagens, dificilmente esses navios negreiros aportavam nesses portos. Então eles ficavam em alto mar. e embarcações menores iam até esses navios e faziam uma separação entre os africanos escravizados que estavam com alguma condição de já serem encaminhados para venda e aqueles que ainda precisariam passar por médicos. E muitas vezes eles iam para, enfim, para barracões ou para, não eram exatamente hospitais, mas para lazaretos. para serem tratados as suas moléstias, porque aquelas pessoas valiam bastante dinheiro, então o intuito era garantir a saúde, não pela saúde dessas pessoas, mas pelo capital que essa saúde representava. Depois dessa triagem, aqueles que estavam com condições de serem vendidos eram encaminhados para os barracões, recebiam uma alimentação um pouco mais reforçada, lembrando que um dos principais problemas da travessia atlântica Era parca alimentação, geralmente eles bebiam água salobra, se alimentavam de carne salgada, não tinham acesso a frutas, verduras, legumes. Isso gerava uma série de problemas de saúde para esses homens e mulheres e crianças que eram embarcados. Então tinha uma preocupação em restaurar a saúde dessas pessoas. E quando elas estavam em condições mínimas, a restauração se dava principalmente por uma alimentação um pouco mais robusta. E depois vinha um outro momento de profundo terror, que era a separação desses homens e mulheres que haviam feito a travessia juntas. No continente africano, no porto... Embarque para as Américas, já existiu uma primeira separação que era trágica, inclusive em muitos desses portos havia uma espécie de ritual em que era simbolizado uma morte social, uma morte em vida para esses homens e mulheres que iriam atravessar o Atlântico. Chegando aqui nas Américas, mais especificamente no Brasil, esses homens e mulheres novamente eram separados dos seus companheiros de viagem. Inclusive existia um termo que foi cunhado, que foi bem trabalhado pelo professor Robert Lennes, um grande historiador chamado Malungo, para designar esses companheiros de viagem. que muitas vezes vinham de regiões diferentes ou de grupos, sociedades diferentes do continente africano e que estabeleciam relações de solidariedade durante a travessia, mas que quando chegavam aqui eram vendidos para pessoas diferentes e tinham destinos diferentes. E muitas vezes, famílias que tinham sido embarcadas de forma O Esgama nasceu em 1830, em Salvador. Filho de um português com uma negra livre, aos 10 anos de idade, foi vendido como escravo pelo próprio pai. Aos 17 anos, Luiz Gama conseguiu a liberdade. desses homens e mulheres. No caso do Brasil, nós temos uma concentração do tráfico nas principais regiões vinculadas à produção monocultora. Isso vai depender também do período que a gente está falando na história do Brasil, mas, grosso modo, a gente tem uma produção forte. No Nordeste Brasileiro, principalmente no que hoje é Pernambuco, Alagoas e a Bahia, e também no Rio de Janeiro como um importante porto para a região sudeste e que alimentava Minas Gerais, São Paulo e outras regiões mais ao sul.
Vitor Boiadjan
Mas eles também serviam para mão de obra para as mais variadas atividades laborais, né? muito comum ver em livros escolares mesmo, ou quem tem a oportunidade de ver exposições do Jean-Baptiste Hebré, que ao chegar aqui no Brasil ficou escandalizado com a naturalização dessas atividades, ao passo que a população não escravizada desfrutava de uma vida que talvez sequer na Europa teria. Essa naturalização também é um crime?
Inaê Lopes dos Santos
Sem sombrar de dúvida, Vitor, talvez seja a faceta mais perversa desse crime, que é imaginar que esses africanos escravizados não tinham outra opção. Mas tem um ponto fundamental da sua pergunta, que é o fato de que o Brasil foi um país que se estruturou a partir do trabalho desses homens e mulheres africanos que foram escravizados e dos seus descendentes. Então, de fato, por mais que o objetivo fundamental da vinda desses homens e mulheres para cá fosse trabalhar principalmente nas lavouras voltadas para a monocultura ou na extração de minérios, como no caso da região de Minas Gerais, o que a gente observa é que todas as áreas da economia do Brasil, seja no período colonial, seja no período do império, seja durante a vigência da escravidão no Brasil, fez uso da mão de obra escravizada. Então as cidades, por exemplo, eram cidades que dependiam dos escravizados para funcionar. Então a vida útil de um africano escravizado que chega no Brasil era de 10 anos, uma vida curta. Só que nesses 10 anos, esse escravizado geralmente conseguia, o fruto do seu trabalho, da exploração do seu trabalho, gerar um capital que comprasse a sua liberdade, eventualmente, claro que isso Isso dificilmente acontecia, mas ele conseguia gerar o capital para pagar o que ele havia custado e comprar pelo menos mais dois escravizados. Então a escravidão é entendida pela classe proprietária, pela classe senorial, como um investimento também. E esse investimento atraiu, em grande medida, os interesses econômicos de uma elite traficante que se forma no Brasil já no século XVII e que vai se transformar, na virada do século XVIII para o século XIX, na principal fortuna do país. Então, o Brasil importou muitos africanos escravizados. Não só porque durante os séculos XVI ao século XIX, nada do Ocidente deu mais dinheiro do que comprar e vender africanos, mas também porque na lógica da circulação de capital do Brasil, ainda no período colonial e depois também já no período de soberania, Essa compra e venda, ela gera as fortunas, as principais fortunas do país. Inclusive, é por conta dessa riqueza acumulada desses traficantes que a família real portuguesa, quando sai de Portugal, fugindo das tropas napoleônicas em 1808, vem para o Rio de Janeiro, porque havia uma concentração de riqueza no Rio de Janeiro por conta da forte presença desses traficantes aqui. Então esses traficantes vão ser homens que vão ter uma influência fundamental na economia e também na política do Brasil.
Vitor Boiadjan
A Quinta da Boa Vista, inclusive a casa, a residência Palácio Real, era de um traficante, né?
Inaê Lopes dos Santos
Exatamente. Acho que é um dos exemplos mais notórios e que ganhou ainda bem um conhecimento mais público e amplo. para a gente entender essas múltiplas facetas. Então, o Brasil dependeu da escravidão para funcionar em diferentes dimensões. Então, a gente tem uma riqueza acumulada desse crime ao longo do século XVI ao século XIX que se perpetua até os dias de hoje, não só pela pobreza e muitas vezes o pouco acesso que a população negra continua tendo em relação a direitos básicos por conta da manutenção de uma estrutura racista no Brasil, Mas também por conta dessa manutenção racista, o que nós temos é a naturalização, para usar um termo muito bom que você apontou, de que essa riqueza, ela deve estar nas mãos de pessoas específicas e não de quem as produziu.
Vitor Boiadjan
A chegada da corte portuguesa à Bahia aumentou em 100% o tráfico de escravos para o Brasil.
Inaê Lopes dos Santos
Um ano antes da chegada da corte, 15 mil escravos desembarcavam por ano no Brasil. Durante o governo de Dom João, este número dobrou e depois continuou aumentando.
Luiz Felipe Silva
Em termos de ganhos financeiros, os traficantes de escravos ganhavam pelo menos cinco vezes mais do que um senhor de engenho. Enfim, a atividade mercantil de venda de escravos era o grande investimento de curto prazo. Entre uma viagem e outra, você podia ganhar até 100 vezes o valor do investido.
Vitor Boiadjan
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Inaê Lopes dos Santos. Bom, então, professora, além do sequestro, da captura e do tráfico, eram pessoas que eram submetidas às mais variadas formas de crimes.
Inaê Lopes dos Santos
O primeiro grande crime é o sequestro. São pessoas que são sequestradas das suas sociedades, de onde elas viviam. Esse sequestro vem junto com a retirada delas desse território e elas eram levadas para as cidades e, muitas vezes, esse trânsito representava a morte de muitas pessoas. Então, muitas pessoas já morriam na primeira etapa do tráfico, que era esse sequestro. de seres humanos. E à medida que o tráfico vai se tornando uma empresa lucrativa, o sequestro de crianças vai se tornando também algo muito desejado pelos traficantes. Os navios negreiros, eles eram conhecidos também como tumbeiros, como tumbas, como túmulos que flutuavam por conta da imensa quantidade de homens e mulheres que morriam Nessa travessia, aproximadamente 30% do número de pessoas que embarcavam nesses navios morria. E existem até estudos que mostram como que o trajeto que os tubarões faziam no Atlântico mudou. Os tubarões passam a seguir os navios negreiros porque os corpos desses homens e mulheres não tinham nenhum tipo de sepultamento, não havia nenhum tipo de respeito aos corpos desses homens e mulheres que morriam. Eles eram lançados ao mar.
Luiz Felipe Silva
Morreram na África 12 milhões e meio de seres humanos, chegaram 10 milhões e 700 mil e morreram na travessia 1 milhão e 800 mil pessoas. Se você dividir isso pelo número de dias, dá 14 cadáveres, em média, lançados ao mar todos os dias ao longo de 350 anos. Um número tão alto que, segundo depoimentos da época, isso mudou o comportamento dos cardumes de tubarão no Oceano Atlântico e passaram a seguir, a ficar à volta dos navios negreiros.
Inaê Lopes dos Santos
E no continente americano, de maneira geral, e no Brasil de maneira específica, esses homens e mulheres vão sofrer as mais variadas violências. Então as mulheres eram... frequentemente violentada sexualmente. Os homens trabalhavam, e as mulheres também, à base de uma pedagogia do terror. Há, inclusive, uma série de estudos que foram feitos ao longo do período de vigência da escravidão da importância de se castigar fisicamente esses escravizados. Então, o castigo é algo inegociável na escravidão. Todo e qualquer sujeito escravizado sofre algum tipo de castigo físico. E, para além disso, existiam também as perversidades de muitos proprietários e proprietárias que queimavam os corpos dos seus escravizados, amputavam os corpos dos seus escravizados, deixavam escravizados sem comer, separavam propositadamente mães e filhos. Então, é uma escala de violência. Quando a gente para para pensar que a humanidade experimentou isso há tão pouco tempo e que naturalizou essa violência, isso também é muito terrível. Entender que a gente pensa a experiência humana a partir dessa possibilidade de anulação da humanidade. Para a gente ter ideia, no século XIX, no Brasil, são criadas leis que determinam o número máximo de chibatadas que um proprietário poderia dar no seu escravizado para que esse escravizado não morresse. Porque a violência era tamanha que, às vezes, num rompante de ódio, um proprietário poderia dar 300 chibatadas a uma pessoa que, obviamente, não aguentaria, nenhum ser humano aguenta isso. Então, para tentar garantir algum tipo de sobrevida desses escravizados que fossem castigados, o Estado, em alguns momentos, sobretudo depois da independência do Brasil, o Estado nacional brasileiro tenta não preservar a vida do escravo, mas garantir que aquele escravizado não morresse. de ser 300 shibatadas, o máximo por dia eram 100 shibatadas para que aquela pessoa se recuperasse e dali a dois dias recebesse mais 100, se recuperasse e dali a dois dias recebesse mais 6, computando as 300 shibatadas. Então nós temos, inclusive, uma percepção de violência por conta da polícia também, que é muito importante ser dita. A polícia do Brasil surge para ir atrás de escravizados foragidos. A maneira como a polícia é organizada e construída é abertamente racista, não há menor dúvida quanto a isso. Acontece que, sobretudo no Brasil, isso é muito mais evidente no caso brasileiro, o que nós temos é a construção de uma sucessão de crimes contrários às leis do Brasil. Vou explicar um pouco melhor. O Brasil abole, depois de muita negociação, o tráfico no ano de 1831. Então, o cais do Valongo, que era esse principal porto, é desativado, os principais portos de desembarque são desativados, há uma comemoração das alas mais progressistas da sociedade brasileira. Mas o que acontece é que no ano de 1835 há um grande acordo político entre diferentes facções dos partidos políticos existentes e com a anuência do Estado Nacional Brasileiro para a reabertura do tráfico na ilegalidade segundo as leis do Brasil. Ou seja, ao invés de revogar a lei de 1831, o Brasil faz um grande acordo, as classes dirigentes do Brasil fazem um grande acordo, e vão garantir que africanos escravizados continuem chegando no Brasil de maneira ilegal. Então, entre os anos de 1835 e 1850, quando a gente tem a segunda lei de abolição do tráfico no Brasil, aproximadamente 800 mil africanos escravizados chegam aqui.
Vitor Boiadjan
Professora, bom, então as Nações Unidas entenderam que o tráfico de escravizados africanos foi o maior crime contra a humanidade. E o que a senhora me descreveu aqui não é um crime apenas, né? São sequestros, assassinatos, trabalhos forçados, trabalho infantil e as mais variadas formas de violência física, além da não indenização quando tudo isso acabou, isso que durou mais de 300 anos na nossa história. Por que é importante, na sua opinião, elencar esse crime como o maior da história da humanidade?
Inaê Lopes dos Santos
Bom, eu acho importante por duas razões. A primeira, de alguma maneira, já está na sua pergunta. É fundamental que essa sucessão de violências contra a população africana, que foi escravizada, e os seus descendentes, que ela seja desnaturalizada. Porque, infelizmente, o tráfico de africanos escravizados é o motor econômico de um mundo que se ordena a partir também de algumas ideologias, e uma delas é o racismo. Então o racismo é uma ideologia que, de maneira mais silenciosa, sustentava moralmente que aquele tráfico seria possível, porque aquelas pessoas que estavam sendo traficadas, elas eram pessoas de pior qualidade. Então, a gente, no começo, a justificativa tem um tom mais voltado para uma explicação religiosa e a recuperação de alguns trechos do Antigo Testamento. E, a partir do final do século XVIII e começo do século XIX, a justificativa passa a ser o racismo científico, ou o que virá a se tornar o racismo científico no século XIX. que é uma tentativa científica de explicar uma pretensa e não real desigualdade entre os sujeitos, os seres humanos, e essa ideia de que existem raças humanas e que existem raças inferiores e raças superiores é o que sustentou moralmente o tráfico. Então, quando a gente reconhece que o tráfico de africanos escravizados foi o maior crime contra a humanidade, nós também estamos falando que o racismo é um problema que precisa ser debatido e desmontado de maneira muito preemente e urgente. Do ponto de vista econômico, o tráfico transatlântico de africanos escravizados foi o motor que permitiu que o capitalismo se constituísse. Então, sem o trafo de africanos escravizados, não haveria a Europa que a gente conhece hoje. Essa Europa que a gente entende como sendo o primeiro mundo, como sendo o país desenvolvido, países desenvolvidos, é, em grande medida, fruto do acúmulo de violências e de exploração sistemática do trabalho de homens e mulheres que foram sequestrados das suas terras natais e levados para um outro continente para trabalhar na condição de escravizados. Então, não me assusta, infelizmente, o fato de que os países europeus se abstiveram dessa votação. os países que mais lucraram com a escravidão e, sobretudo, os países que mais lucraram com o tráfico transatlântico de africanos escravizados, porque quando a gente fala de transatlântico, a gente está falando de conexões, de um tráfico que conecta o continente africano, o continente americano e o continente europeu de maneira desigual, porém combinada. Então, esse reconhecimento nos força a olhar de maneira crítica o que que os últimos 300 anos da história do Ocidente representaram e quem ganhou e por que ganhou com essa história e quem perdeu e por que perdeu com essas mesmas escolhas que foram feitas. O racismo é essa ideologia que sustentou toda essa ordenação econômica que naturalizou o fato de que crianças eram vendidas separadas das suas mães, que mulheres pudessem ser violentadas sexualmente, perdessem a guarda dos seus filhos, perdessem seus filhos, fossem separadas das suas famílias, que homens fossem também violentados sexualmente, fisicamente, assim como as mulheres, também não pudessem, em tese, ter lastro, não pudessem ter uma coisa que é uma das características que define, em grande medida, o que é escravidão, é a ausência de honra, de hombridade, então isso também é retirado. desses homens e mulheres, mas a gente não pode esquecer que esses homens e mulheres são homens e mulheres negros. Então, a gente naturaliza que na história sempre foi assim.
Vitor Boiadjan
E aí, professora, abre-se então a possibilidade de processos de reparação, né? Se alguém enriqueceu e as riquezas estão visíveis aos nossos olhos, no mundo de hoje, é possível pensar em reparação? Qual é a dimensão dessa reparação? Eu queria trazer para as possibilidades reais e concretas.
Inaê Lopes dos Santos
Nós temos que criar uma agenda, que na verdade essa agenda já existe, mas implementar uma agenda de reparação histórica. Então, o movimento negro, os movimentos negros do Brasil, eles há muitos anos exigem a reparação. Algumas dessas aparações viraram políticas públicas importantes e que têm mudado o cenário do Brasil nos últimos 20, 30 anos, como, por exemplo, a lei de cotas nas universidades públicas, a Lei 10.639, que está sendo questionada. agora, mas que tem uma importância fundamental por exigir que as histórias negras e também as histórias indígenas sejam contadas num país que foi construído por africanos, seus descendentes e indígenas, sobretudo do ponto de vista material. Então, essas são duas políticas de reparação que foram pauta dos movimentos negros e que, de fato, viraram políticas públicas importantes e que precisam ser continuadas na medida em que a gente tem ainda um cenário de desigualdade muito grande. Mas também acredito que nós temos que lidar com um problema, e talvez quando a gente chegar aí as coisas fiquem muito mais difíceis, porque a gente vai chegar no cerno da questão, que é com políticas de reparação indenizatórias realmente. Nós precisamos pensar em políticas públicas de reparação que façam transferência de renda. Há que se mudar a qualidade de vida material da população negra que, historicamente, por conta de um crime hediondo, agora reconhecido como o maior crime contra a humanidade, sofre das mazelas, das escolhas políticas das quais elas não participaram e também não usufruem do capital gerado pelo seu próprio trabalho ou pelo trabalho dos seus pais, dos seus avós, dos seus tataravós, dos seus bisavós. A população negra precisa deve ter acesso a mais dinheiro, ao capital que lhe foi negado historicamente.
Vitor Boiadjan
Perfeito. Professora, muito obrigado mais uma vez pela sua participação.
Inaê Lopes dos Santos
Eu que agradeço o convite, sempre aqui à disposição quando vocês precisarem. Acompanho sempre o assunto, acho que um dos melhores podcasts que temos. Obrigada pelo trabalho de vocês.
Vitor Boiadjan
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sarah Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco e Juliene Moretti. Colaboraram neste episódio Nayara Felizardo e Rafaela Zem. Eu sou Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast: O Assunto, G1
Data: 30 de março de 2026
Host: Vitor Boiadjan
Convidada principal: Inaê Lopes dos Santos (Professora de História da América, UFF)
Participação: Luiz Felipe Silva
Duração: ~31 minutos
Neste episódio especial, o podcast "O Assunto" aborda o reconhecimento internacional da escravidão e do tráfico transatlântico de africanos como o maior crime da história da humanidade, a partir da recente resolução da ONU. A discussão detalha a dimensão histórica, econômica e social desse crime, o papel central do Brasil, o legado da violência e as urgentes demandas por reparação. A convidada Inaê Lopes dos Santos contribui com análises profundas sobre o funcionamento e as consequências do sistema escravista, além de reflexões sobre justiça histórica e reparação.
[00:02–02:35]
“A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara que o tráfico de africanos escravizados foi o crime mais grave na história da humanidade.”
— Inaê Lopes dos Santos, [00:02]
[04:10–13:01]
“Travessia atlântica era entendida como uma morte em vida. [...] Aproximadamente 30% das pessoas que embarcavam morriam durante as viagens.”
— Inaê Lopes dos Santos, [06:13]
“Morria-se de banzo, que era um ataque de depressão [...] então por isso os navios negreiros tinham redes de proteção ao redor do convés para prevenir suicídios.”
— Luiz Felipe Silva, [07:09]
[08:03–13:34]
“A cidade dependia dos escravizados para funcionar. A vida útil de um africano escravizado no Brasil era de 10 anos, uma vida curta.”
— Inaê Lopes dos Santos, [13:46]
[13:34–18:23]
“Entre uma viagem e outra, você podia ganhar até 100 vezes o valor do investido.”
— Luiz Felipe Silva, [17:44]
[18:23–24:15]
“O castigo é algo inegociável na escravidão. Todo e qualquer sujeito escravizado sofre algum tipo de castigo físico.”
— Inaê Lopes dos Santos, [20:15]
[24:15–28:48]
“Sem o tráfico de africanos escravizados, não haveria a Europa que a gente conhece hoje.”
— Inaê Lopes dos Santos, [26:35]
[28:48–31:06]
“A população negra precisa, deve ter acesso a mais dinheiro, ao capital que lhe foi negado historicamente.”
— Inaê Lopes dos Santos, [30:30]
O episódio reforça que a escravidão não é um passado distante, mas sim uma ferida aberta que persiste na desigualdade, na violência policial e nos indicadores sociais do Brasil. O reconhecimento internacional do tráfico transatlântico como crime supremo impõe à sociedade brasileira e à comunidade global a urgência dos debates e ações de reparação, indo além do simbólico em direção a mudanças estruturais.
“Reconhecer o tráfico como o maior crime força a olhar de maneira crítica os últimos 300 anos [...] e quem ganhou e quem perdeu com essa história.”
— Inaê Lopes dos Santos, [27:52]
Este episódio é um guia fundamental para compreender a relação entre passado e presente do racismo estrutural no Brasil – e um chamado à responsabilidade histórica e à reparação justa.